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A Maldição da Múmia: A tumba de Tutancâmon e a Mídia Moderna - Parte 1

Artigos > Egito Antigo  |  2,2 mil visualizações  |  1843 palavras

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Capa do artigo: A Maldição da Múmia: A tumba de Tutancâmon e a Mídia Moderna - Parte 1

O arqueólogo Howard Carter inspeciona o sarcófago de Tutancâmon após a descoberta em 1922.
Foto colorida artificialmente.

A descoberta do túmulo de Tutancâmon por Howard Carter em 1922 foi notícia mundial, mas, a isso se seguiu rapidamente a história da maldição da múmia (também conhecida como A Maldição do Faraó), que se tornou ainda mais popular e continua sendo nos dias atuais. Túmulos, faraós e múmias atraíam atenção significativa antes mesmo da descoberta de Carter, mas isso não chegava nem perto do nível de interesse que o público mostrou depois desse fato.

O fascínio do mundo pela cultura egípcia antiga começou com as primeiras escavações e relatos de viagens publicados nos séculos 17 e 18, mas ganhou impulso considerável no século 19 após Jean-François Champollion (1790-1832), baseando-se na obra de Thomas Young, decifrar antigos hieróglifos egípcios utilizando a Pedra de Roseta e  publicar suas descobertas em 1824.

Pintura de Jean-François Champollion feita pelo artista Léon Cogniet. Atualmente no Museu do Louvre. A direita, a Pedra de Rosetta. Atualmente no Museu Britânico.

Champollion abriu as portas do antigo mundo do Egito para o mundo moderno porque, depois de seu trabalho, os estudiosos puderam ler os textos sobre os monumentos e inscrições, escrever sobre suas descobertas e alcançar assim um público cada vez maior, interessado nessa civilização.

Mais e mais expedições foram lançadas para descobrir artefatos antigos para os museus e coleções particulares. Múmias e artefatos exóticos foram enviados para fora do Egito por todas as partes do mundo. Alguns destes encontraram sua casa em museus, enquanto outros foram usados ​​como objetos decorativos e assunto para conversas pelos ricos. Esse interesse em todas as coisas egípcias se espalhou para a cultura popular e não demorou muito para que a jovem indústria cinematográfica capitalizasse em cima dele.

Os filmes sobre múmias

O primeiro filme que tratou do assunto foi O Túmulo de Cleópatra em 1899, produzido e dirigido por George Melies. O filme está agora perdido, mas, supostamente, contava a história da múmia de Cleópatra que, após sua descoberta acidental, ganhava vida e aterroriza os vivos. Em 1911, a Companhia Thanhouser lançou A Múmia, que conta a história da múmia de uma princesa egípcia que é revivida através de cargas de corrente elétrica; o cientista que a traz de volta à vida eventualmente acalma, controla e se casa com ela.

Esses primeiros filmes lidavam com o Egito de forma geral e o conceito de múmias como uma espécie de zumbi, um cadáver animado, mas que mantinha o caráter e a memória da pessoa. Não havia maldição envolvida nesses primeiros filmes, mas, depois de 1922 (e a descoberta da tumba de Tutancâmon), dificilmente tem havido um trabalho popular de filme ou ficção lidando com múmias egípcias que não dependem desse dispositivo de enredo de alguma forma.

O primeiro filme sobre o assunto a ser um grande sucesso foi A Múmia (veja o trailer abaixo), lançado em 1932 pela Universal Pictures. No filme de 1932, Boris Karloff interpreta Imhotep, um antigo sacerdote que foi enterrado vivo, bem como o ressuscitado Imhotep que atende pelo nome de Ardath Bey. Bey tenta assassinar Helen Grosvenor (interpretada por Zita Johann), que é a reencarnação do interesse amoroso de Imhotep, Ankesenamun. No final, os planos de Bey para assassinar e depois ressuscitar Helen como Ankesenamun são frustrados, mas, antes que isso aconteça, o público é informado sobre a maldição ligada às múmias egípcias e as sérias consequências de perturbar os mortos.

O grande sucesso de bilheteria deste filme garantiu sequências que foram produzidas durante toda a década de 40 (A Mão da Múmia, A Tumba da Múmia e A Sombra da Múmia), continuando na década de 1960 (A Maldição da Múmia em 1964 e O Sarcófago Maldito em 1967), e no Sangue no Sarcófago da Múmia de 1971.

Diversos filmes sobre múmias lançados na década de 1940.

O gênero de horror com múmias foi revivido com o remake de A Múmia em 1999, que foi uma reformulação do filme de 1932 e tão popular quanto. Este filme inspirou a sequência O Retorno da Múmia, de 2001, e os filmes do Escorpião Rei (2002-2012), que foram igualmente bem recebidos na sua maior parte. O filme Deuses do Egito (2016) mudou o foco de múmias para deuses egípcios, mas o último filme de múmia a ser lançado em 2017 leva o público de volta a uma história em que a múmia é o personagem central.

A Tumba e a Mídia

Se uma maldição específica é central para o enredo de todos esses filmes, o conceito das artes das trevas dos egípcios e sua capacidade de transcender a morte também é. Não há dúvida de que os egípcios estavam interessados no mundo após a morte e fizeram amplas provisões para sua contínua jornada por lá, mas eles não tinham interesse em amaldiçoar ou aterrorizar as futuras gerações.

Os textos de execração que se encontram inscritos nos túmulos são simples advertências contra ladrões de túmulos e ameaças sobrenaturais do que acontecerá àqueles que perturbarem os mortos; a abundante evidência de túmulos saqueados nos últimos milhares de anos mostra quão pouco eficazes eram essas ameaças. Nenhuma delas foi capaz de proteger a tumba de seu dono tão eficazmente quanto a onda de medo gerada e proliferada pela imprensa na década de 1920, e nenhuma jamais será tão famosa.

Howard Carter limpando o sarcófago de Tutancâmon em 1922. Fotografia de Harry Burton.

Carter tornou-se uma celebridade da noite para o dia quando descobriu a tumba de Tutancâmon, e ele mesmo admitiu que não gostou muito disso. Ele escreveu:

A arqueologia sob os holofotes é uma experiência nova e desconcertante para a maioria de nós. No passado, realizamos nossos negócios de forma feliz, intensamente interessados em nós mesmos, mas não esperavámos que os outros fossem mais do que educados sobre isso, e agora, de repente, descobrimos que o mundo se interessa por nós. Um interesse tão intenso e tão ávido por detalhes que os correspondentes especiais com grandes salários têm de ser enviados para nos entrevistar, relatar todos os nossos movimentos e se esconder nas esquinas para nos surpreender e tirar um segredo de nós. (CARTER, p.63)

Carter localizou o túmulo no início de novembro de 1922, mas precisou esperar até que seu patrocinador financeiro, Lorde Carnavon, chegasse da Inglaterra para abri-lo. O túmulo foi aberto por Carter, na presença de Carnavon e sua filha Lady Evelyn em 26 de novembro de 1922 e, dentro de um mês, o sítio estava atraindo visitantes de todo o mundo, e já estava em itinerários para excursões caríssimas no Egito.

Lorde Carvanon e o arqueólogo Howard Carter.

A imprensa chegou na região dentro de uma semana e, como a tumba continuava sendo de alta prioridade, não ia embora. Para complicar ainda mais o trabalho da escavação, insistiu-se que muitos desses visitantes deveriam ter acesso ao túmulo, visitas guiadas, que causavam interrupções na programação diária e começavam a interferir seriamente na identificação e catalogação acadêmica dos conteúdos.

Lorde Carnavon foi presenteado com outra surpresa inesperada. Embora Carter acreditasse que o túmulo de Tutancâmon estivesse intacto e pudesse conter grandes riquezas, não havia como prever o incrível acervo de tesouros que possuía. Quando Carter primeiro olhou através do buraco que ele fez na porta, usando como única luz uma vela, Carnavon perguntou se ele podia ver qualquer coisa e ele respondeu: "Sim, coisas maravilhosas" e mais tarde se lembrou que em todos os lugares havia o brilho de ouro (CARTER,p.35). A magnitude da descoberta e do valor dos artefatos impedia que as autoridades o dividissem entre o Egito e Carnavon; o conteúdo do túmulo pertencia ao governo egípcio.

As riquezas da tumba de Tutancâmon. Museu do Cairo, Egito.

Carnavon, pelo menos publicamente, não teve nenhum problema com isso, mas precisava não apenas de um retorno de seu investimento, mas dos fundos necessários para continuar a pagar Carter e sua equipe para limpar e catalogar o conteúdo da tumba. Ele decidiu resolver seus problemas financeiros e as dificuldades causadas pela imprensa com único movimento: ele vendeu os direitos exclusivos para cobertura do túmulo ao London Times por 5.000 libras esterlinas e 75% dos lucros das vendas mundiais de seus artigos para outros estabelecimentos.

Capa do The New York Times de novembro de 1922 com o título 'A Tumba Interna de Tut-ankh-Amen é aberta revelando esplendores jamais sonhados, ainda intocada depois de 3400 anos'

Essa decisão enfureceu a imprensa, mas foi um grande alívio para Carter e sua equipe. Carter escreveu: "nós, no Egito, ficamos encantados quando ouvimos a decisão de Lorde Carnavon de colocar toda a questão da publicidade nas mãos do The Times" (p.64). Agora haveria apenas um pequeno contingente de imprensa na tumba, em vez de um exército deles, e a equipe poderia continuar com a escavação sem as interrupções anteriores.

As notícias podem ter sido bem recebidas por Carter e pelos outros, mas não tão calorosamente pela imprensa. Muitos permaneceram no Egito esperando conseguir alguma informação ou tentando encontrar algum outro ângulo no evento que poderiam explorar para uma história; eles não precisaram esperar muito tempo. Lorde Carnavon morreu no Cairo em 5 de abril de 1923 - menos de seis meses após a abertura do túmulo - e assim nasceu a maldição da múmia.

Tradução de texto escrito por Joshua J. Mark
Maio de 2017

Continue lendo essa série:
A Maldição da Múmia: A tumba de Tutancâmon e a Mídia Moderna - Parte 2

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Fontes bibiliográficas:

Horror History: Mummies in the Movies by John Metro
The Argus Newspaper, 7 April 1923
The Curse of the Curse of the Pharaohs by David P. Silverman
Carter, H. The Tomb of Tutankamun. Dutton & Company, 1972.
Hawass, Z. The Golden King: The World of Tutankhamun. National Geographic, 2006.
Hoving, T. Tutankhamun: The Untold Story. Simon & Schuster, 1978.
Metropolitan Museum of Art. The Treasures of Tutankhamun. Metropolitan Museum of Art, 1976.
Robson, D. Monsters and Mythical Creatures: The Mummy. Referencepoint Press, 2012.
Silverman, D. P. Ancient Egypt. Oxford University Press, 1997.
Strudwick, H. The Encyclopedia of Ancient Egypt. Metro Books, 2006.

Artigo publicado em 20/12/2018.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 34 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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