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Parmênion e Filotas: a história de dois comandantes do exército macedônio

Artigos > Grécia Antiga  |  2,3 mil visualizações  |  1460 palavras

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Parmênion (John Kavanagh) e Filotas (Joseph Morgan) no filme "Alexandre" de 2005.

Texto extraído e traduzido de The Wars of Alexander the Great 336-323 BC, de Waldemar Heckel. Adicionei subtítulos e fotos ao artigo para tornar sua leitura mais agradável. Na falta de fotos dos personagens envolvidos, utilizei várias imagens do filme 'Alexandre' de 2005.

Quando Alexandre ascendeu ao trono macedônio, dois poderosos generais de Filipe II exerciam considerável influência na corte e no exército. Apenas um, Antípatro, estava na Macedônia na época. O outro, Parmênion, fora enviado por Filipe para comandar uma força avançada na Ásia Menor. Ele era um líder experiente e amado.

No ano do nascimento de Alexandre, 356 a.C., Parmênion havia derrotado o governante ilírio Grabus, enquanto o próprio Filipe estava sitiando Potidaea. Vinte anos depois, ele era o oficial sênior do exército e seus filhos, Filotas e Nicanor, comandavam a Cavalaria dos Companheiros e os hipaspistas, respectivamente. Estas estavam entre as melhores tropas do exército macedônio.

Parmênio e Filotas juntos no campo de batalha. Cena do filme Alexandre de 2005.

As contribuições de Parmênion foram, no entanto, uma fonte de constrangimento para o jovem rei, que acreditava que o sucesso dos outros prejudicava de alguma forma a sua própria glória. Alexandre ficou particularmente aborrecido quando soube que, no Egito, o filho de Parmênion, Filotas, estava se gabando de que todos os sucessos do rei se deviam às ações de seu pai.

O caso da amante de Filotas: Antígona

A informação chegara a Alexandre de uma maneira incomum. Entre os despojos tomados em Damasco havia uma mulher chamada Antígona.

Essa mulher era de origem macedônia, da cidade de Pidna, mas havia sido capturada pelo almirante persa Autophradates enquanto viajava por mar para celebrar os mistérios de Samotrácia. (Foi nesse festival, muitos anos antes, que Filipe conheceu a jovem Olímpia, a futura mãe de Alexandre.)

Antígona tornou-se assim a amante ou concubina de um persa notável e estava em Damasco antes da batalha de Isso.

Quando Parmênion conquistou a cidade e os espólios foram divididos, Antígona tornou-se amante de Filotas. O que ele disse a ela, se gabando das realizações de sua própria família ou depreciando as do rei, ela repetiu para os outros, até que a conversa foi relatada a Cratero, um fiel amigo e oficial de Alexandre.

Cratero não gostava de Filotas - e nisso ele não estava sozinho, pois Filotas tinha muitos inimigos que eram ao mesmo tempo amigos íntimos do rei. Cratero, portanto, reuniu provas incriminatórias com Antígona e chamou a atenção de Alexandre. Mas, naquela época, com o resultado da guerra contra Dario ainda indeciso, o rei preferiu ignorar a indiscrição.

O declínio da posição de Parmênion

As coisas mudaram, no entanto, quando Alexandre se viu senhor das capitais persas. Parmênion de repente tornou-se dispensável, e ele foi deixado na cidade de Ecbátana enquanto Alexandre seguia em perseguição a Dario e Bessus.

No início, era para ser uma medida temporária, mas o assassinato de Dario alterou a aparência da campanha. A cavalaria da Tessália, que servira na ala de Parmênion, foi agora liberada e enviada de volta à Europa.

O Império de Alexandre em 323 a.C, e a rota dos seu exército ao longo da campanha de conquista.

Cratero, que havia sido preparado como substituto de Parmênion - tanto em Isso quanto em Gaugamela, ele era o segundo em comando do velho general - provara ser mais do que capaz; além disso, ele era mais jovem, mais enérgico e, o mais importante, inabalável e leal ao rei.

Cratero, no filme Alexandre de 2005. Interpretado por Rory McCann.

Essas circunstâncias, e o fato de que a eliminação de Parmênion exigiam uma justificativa, deram origem a histórias de que os conselhos de Parmênion era tímidos, e que seu desempenho na batalha de Gaugamela havia sido ruim.

Separado de seu influente pai, Filotas tornou-se mais vulnerável às intrigas de seus inimigos. E essa vulnerabilidade aumentou quando, durante a marcha por Aria, o irmão de Filotas, Nicanor, morreu por uma doença.

Negligência: o crime de Filotas

De fato, não apenas a própria família estava enfraquecida, mas também muitos que serviram com Parmênion não estavam mais no exército. Assim, quando Filotas foi envolvido em uma conspiração em Phrada (moderna Farah) no Afeganistão, no final dos anos 330, havia poucos para defendê-lo ou protegê-lo.

O crime em si era de negligência e não de traição explícita. Um jovem macedônio - ele é descrito como um dos hetairoi (cavalaria) e, portanto, alguém importante - com o nome de Dimnus havia divulgado os detalhes de uma conspiração da qual ele era um partidário (embora claramente não fosse seu instigador), para seu amante, Nicômaco.

Este último, temendo pela sua vida se a conspiração falhasse e ele estivesse envolvido, contou tudo o que sabia ao seu irmão, Cebalinus, que prontamente foi reportar o caso a Alexandre.

Filotas foi interpretado pelo ator Joseph Morgan.

Incapaz de ter acesso ao rei, Cebalinus informou Filotas e insistiu com ele para que tratasse do assunto. Mas no dia seguinte, quando se aproximou de Filotas novamente, Cebalinus descobriu que o último não falara com o rei a respeito da conspiração porque, segundo ele, não lhe parecera uma questão de grande importância.

Cebalinus, portanto, descobriu outros meios de revelar a trama, mencionando também o comportamento suspeito de Filotas.

Alexandre convocou uma reunião de seus assessores - excluindo Filotas, que em uma situação normal teria sido convocado - e pediu suas opiniões sinceras. Estas eram dadas livremente e de forma unânime: Filotas não teria escondido a informação a menos que ele fosse parte da trama ou pelo menos a favorecesse.

A prisão e o destino de Filotas

Tal negligência não podia ser desculpada quando envolvia a vida e a segurança do rei. E assim Atarrhias com um destacamento de hipaspistas - na verdade, esta era a polícia militar macedônia - foram enviado para prender Philotas.

Confrontado com os fatos, Filotas confessou que de fato havia tomado conhecimento da conspiração, mas que não a levara a sério.

Se isso era verdade - nunca saberemos o que passou pela cabeça de Filotas - ele pode ter pensado sobre um episódio anterior, quando seu pai enviara uma carta urgente a Alexandre, alegando que Filipe de Acarnânia, o médico pessoal do rei, havia sido subornado para envenená-lo na Cilícia. Naquela ocasião, a conspiração se provou falsa e a reputação de Parmênion foi manchada.

Alexandre em primeiro plano, ao fundo Parmênion e seu filho Filotas. Cena do filme de 2005.

Por outro lado, no mundo sombrio da corte macedônia, onde os reis eram frequentemente assassinados por meramente desprezar a honra de um homem, tudo era possível e tudo era potencialmente perigoso.

A confiabilidade de Filotas foi questionada: ele não fora culpado de conversas desleais no passado? Quando jovem, fora criado na corte de Filipe como companheiro de Amintas, filho de Pérdicas, a quem Alexandre executara por suspeita de querer reconquistar o trono. Além disso, sua irmã havia sido casada brevemente com o amargo inimigo de Alexandre, Átalo.

Quando questionado sob tortura, Filotas admitiu também que outro conhecido de Átalo, um certo comandante de esquadrão chamado Hegelochus sugerira a Parmênion e seus filhos que matassem o rei; mas o plano fora rejeitado como muito perigoso nas circunstâncias do ano 331.

De qualquer forma, parece que o tema da remoção de Alexandre do poder certamente havia surgido. Os comandantes mais jovens pressionaram o rei a não perdoar Filotas pela segunda vez, pois ele continuaria sendo um perigo para ele. Sua preocupação declarada pela segurança de Alexandre mascarava, levemente, o ódio deles por Filotas e seu desejo de avanço militar; isso poderia ser melhor conseguido eliminando ele e os membros de sua facção.

Para Alexandre, embora ele concordasse com essa opinião, essa foi uma decisão difícil. Como Parmênion reagiria à execução de seu filho? Ele havia permanecido em Ecbátana,  entre as linhas de comunicação do império e à frente de um exército substancial.

Filipe II e Parmênion, um de seus principais generais. Cena do filme de 2005.

Se Filotas fosse executado por traição, então a acusação deveria ser estendida para incluir seu pai. O exército, que julgou Filotas e o considerou culpado, aceitou também a culpa de seu pai. Os macedônios eram realistas e reconheciam que a conveniência deveria triunfar sobre as sutilezas legais.

Filotas foi executada publicamente; seu pai em Ecbátana recebeu uma carta descrevendo as acusações e foi executado enquanto as lia.

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Fontes bibiliográficas:

HECKEL, Waldemar. The Wars of Alexander the Great 336-323 BC. Osprey Publishing: Oxford, 2002.

Artigo publicado em 05/06/2019.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 34 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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