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O século 18 e a ruptura dos laços coloniais

Artigos > Idade Moderna  |  1,3 mil visualizações  |  1598 palavras

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Capa do artigo: O século 18 e a ruptura dos laços coloniais

Cerco de Yorktown, pintura de Auguste Couder (1836).
Exposta atualmente no Palácio de Versalhes. Via Wikimedia Commons.

O sistema colonial começou a ruir no século 18 quando uma série de mudanças ocorreram na Europa e na América: a revolução industrial inglesa fazia o comércio clamar por novos mercados, o Iluminismo francês difundia ideologias de liberdade e igualdade; na Inglaterra, crescia o apoio da classe burguesa aos ideais de liberalismo econômico propostos por filósofos como John Locke. Em 1789, a Revolução Francesa mostrava ao mundo que um governo liberal e republicano, tal qual os Iluministas defendiam, não era impossível.

Mas não foi só na Europa que ocorreram mudanças, a maneira como o sistema colonial era organizado foi sempre um obstáculo para os interesses dos colonos americanos.

O Antigo Regime na América Espanhola

Na América Espanhola a intervenção da Coroa sempre foi grande. Ela desde cedo organizou um grande sistema administrativo na colônia e na metrópole, que tinha por objetivo retirar o máximo de produtos agrícolas e minerais e levá-los para a metrópole. Os produtos manufaturados necessários aos colonizadores eram vendidos pela Espanha, que os comprava da Inglaterra, mas numa quantidade muito inferior a necessária, e o sistema de portos únicos encarecia ainda mais os produtos.

Galeão Andalucía. Uma réplica de um galeão espanhol do século 17. Construído em 2010, tem 51 metros de comprimento. Foto do site cadenaSER.

Os únicos portos na América autorizados a receberem produtos eram o da Nova Espanha, Cuba, Panamá e Cartagena, depois de chegar a esses portos os produtos muitas vezes tinham que cruzar rios e montanhas no lombo de burros até chegar aos destinos mais distantes.  Os colonos, é claro, davam o seu jeitinho fazendo contrabando diretamente com navios ingleses e franceses, principalmente na foz do Rio da Prata.

O Tratato de Utrecht (1713) e as Reformas Bourbônicas

Em 1701 a morte de Carlos II, o último monarca Habsburgo da Espanha, coloca a Europa em crise. A Inglaterra e seus aliados se unem contra uma possível união das coroas Espanhola e Francesa. Começa a Guerra de Sucessão Espanhola. A dinastia francesa dos Bourbon saiu vencedora, mas todos estavam muito desgastados após a guerra. O Tratato de Utrecht (1713), assinado entre Inglaterra e França, concedeu o direito dos franceses usarem a coroa espanhola, mas concedeu muitas vantagens a Inglaterra. O direito de Asiento e Permiso são alguns deles.

A primeira edição do Tratado de Utrecht de 1713. Em espanhol (na esquerda) e uma cópia bilingue de 1714 em inglês e latim (na direita). Via Wikimedia Commons.

Os Bourbon, tão logo assumiram o trono espanhol, perceberam que não haviam feito um bom negócio. A Espanha estava quebrada e uma série de reformas era imprescindível para reerguê-la.

As Reformas Bourbônicas ampliavam o monopólio comercial, intensificavam o controle administrativo na colônia e implementavam a monocultura em terras que não possuíam metais preciosos. Na Metrópole elas tentaram incentivar a criação de manufaturas. A idéia geral das reformas era diminuir a dependência da Espanha para com a Inglaterra e aumentar a dependência das colônias para com a Metrópole.

A ampliação do intervencionismo e o aumento de impostos fizeram crescer a insatisfação dos criollos (a elite colonial) e das classes mais baixas. Os criollos souberam dirigir essa fúria das camadas mais baixas da sociedade para uma luta armada contra a metrópole e pela independência. Os escravos e pobres acreditavam que a independência poderia impulsionar o surgimento de grandes reformas sociais na sociedade, o que acabou não acontecendo.

Os primeiros movimentos de independência iniciados no começo do século 19 não tiveram bons resultados, mas com a expansão do império Napoleônico na Europa e o enfraquecimento do Antigo Regime as colônias finalmente conseguiram sua independência na década seguinte.

A colonização da América do Norte: o caso da Inglaterra

Na América Inglesa o processo aconteceu mais cedo e teve um desenrolar diferente. A intervenção inglesa nas colônias da América do Norte sempre foi pequena, e isso se explica facilmente:

A colonização inglesa começou tarde. No final da Idade Média a Inglaterra se envolveu em vários conflitos que a impediram de pensar em uma colônia estrangeira. A Guerra dos Cem Anos primeiro e depois a Guerra das Duas Rosas, mostraram a base instável em que a coroa inglesa se sustentava. No século 16, sob os Tudor, a Inglaterra aderiu ao absolutismo e uma série de eventos criou um ambiente favorável a expansão marítima. Henrique VIII fortaleceu a marinha inglesa e sua filha Isabel I derrotou a Invencível Armada e se tornou a senhora dos mares.

Pintura retratando a rainha Isabel I (1533-1603), em exposição na The National Portrait Gallery, em Londres. Data: cerca de 1600. Artista desconhecido.

Internamente, no entanto a Inglaterra vivia um período conturbado, a reforma religiosa promovida por Henrique VIII e o Ato de Uniformidade instituído por Isabel serviram como força propulsora de uma série de conflitos entre a elite católica e os protestantes. Nesse momento a colonização de novas terras foi uma boa saída para retirar parte dessas forças do país e criar um ambiente interno mais estável.

Os principais colonizadores da América inglesa foram os calvinistas e membros de outras doutrinas protestantes que não eram bem vistos na Inglaterra Anglicana. As colônias também serviram de refúgios para classes mais baixas que estavam sendo expulsas de suas terras pelo processo de cercamento.

A política inglesa para a América do Norte

As 13 colônias fundadas na América do Norte receberam um tratamento diferente, dependendo de sua posição geográfica. Nas colônias do Sul, onde o clima era mais ameno a metrópole estimulou uma economia agrícola de monocultura, com o objetivo de abastecer a metrópole com produtos que não eram cultivados na Europa. As relações aconteciam através do sistema de comércio triangular. Já nas colônias do norte, a intervenção foi menor, pois o clima lá era similar ao europeu e não favorecia o cultivo de produtos agrícolas, isso permitiu que elas aderissem a uma situação análoga a de livre comércio.

No entanto, tudo isso mudou a partir do século 17. Uma série de guerras entre a Inglaterra e a França, entre as quais podemos destacar a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), faz a Inglaterra repensar sua relação com as colônias. Todas essas guerras, travadas em solo europeu e em solo americano, tiveram entre seus motivos a disputas por terras na América do Norte.

Uma pintura retratando a Guerra dos Sete Anos. 'A morte do General Wolfe' (1770), obra de Benjamin West. Atualmente em exposição na Galeria Nacional do Canadá. Via Wikimedia Commons.

Quando as guerras terminaram a coroa inglesa estava muito endividada. Devemos lembrar que já há alguns anos a Inglaterra estava numa situação difícil.

Durante todo o século 17 a política interna inglesa foi sacudida pela Guerra Civil, pelo protetorado de Cornwell e pela Revolução Gloriosa. A Inglaterra simplesmente não via mais condições de arcar com mais uma divida, então a solução que ela encontrou foi fazer com que os colonos pagassem as dividas resultantes da Guerra dos Sete Anos.

A Inglaterra decidiu aumentar os impostos e obrigou os colonos a pagar os efetivos do exército inglês que ficariam na colônia. Além disso, também havia o interesse de colocar o comércio da região sob o controle da Companhia das Índias Orientais. Várias leis foram instituídas tais como: Lei do Açúcar, Lei do Solo, Lei do Chá, entre outras, que só fizeram aumentar a indignação dos colonos. A guerra se tornou inevitável.

Em 1776 após uma série de batalhas os americanos promulgaram a Declaração de Independência. A guerra continuou até a rendição dos exércitos ingleses em 1781, na Batalha de Yorktown.

Soldados norte-americanos no cerco de Yorktown, ilustração de Jean-Baptiste-Antoine DeVerger em 1781. Via Wikimedia Commons.

A independência que foi comandada pela elite latifundiária e manufatureira teve o apoio das classes mais baixas, que tinham esperanças de que uma grande reforma social aconteceria assim que um novo governo assumisse (o que também não aconteceu).

A independência das Treze Colônias Americanas foi muito importante, pois, o novo país que surgiu, os EUA, foram os primeiros a contar com uma constituição que seguia os ideais iluministas de um governo republicano e liberal. Ela também serviu para incentivar a luta pela independência nas colônias espanholas da América.

Artigo originalmente escrito em 2010.

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Fontes bibiliográficas:

AQUINO, Rubim Santos Leão de. História das Sociedades Americanas. Rio de Janeiro: Record, 2000.
CadenaSER. Un gran galeón llega en nuestro puerto. Acesso em 20 outubro 2017.
National Portrait Gallery. Queen Elizabeth I. Acesso em 07 maio 2016.
Wikimedia Commons. Bataille de Yorktown by Auguste Couder. Acesso em 07 maio 2016.
Wikimedia Commons. Soldiers at the siege of Yorktown (1781). Acesso em 07 maio 2016.
Wikimedia Commons. The Death of General Wolfe. Acesso em 07 maio 2016.
Wikimedia Commons. The Treaty of Utrecht. Acesso em 07 maio 2016.

Artigo publicado em 07/05/2016.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 34 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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