A Peste Antonina: a grande epidemia do período romano

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A Peste em Ashdod é uma pintura de Nicolas Poussin produzida em 1630 e que retrata uma peste que teria atingido os filisteus segundo a Torá. Na falta de imagens retratando a peste Antonina usei essa imagem de forma ilustrativa. Essa pintura se encontra no Museu do Louvre, em Paris.

Tradução feita a partir de artigo publicado no site Ancient.eu. O texto original pode ser conferido aqui. Ele foi escrito por John Horgan e publicado em maio de 2019. O texto foi traduzido a partir do inglês, e algumas pequenas alterações foram feitas em seu conteúdo. Também adicionei algumas fotos visando tornar o texto mais ilustrativo.

A Peste Antonina, também chamada de Peste de Galeno, ocorreu em 165 d.C, no auge do poder romano no mundo mediterrâneo, durante o reinado do último dos Cinco Bons Imperadores, Marco Aurélio Antonino (161-180 d.C). A primeira fase do surto durou até 180, afetando a totalidade do Império Romano, enquanto um segundo surto ocorreu entre 251-266.

Alguns historiadores sugerem que a peste representa um ponto de partida útil para marcar o início do declínio do Império Romano no Ocidente.

Sintomas

O médico grego Galeno (129-216 d.C), autor de Methodus Medendi, não apenas testemunhou o surto, mas também descreveu seus sintomas e seu curso. Entre os sintomas mais comuns estavam a febre, a diarréia, o vômito, a sede, a garganta inchada e a tosse. Mais especificamente, Galeno observou que a diarréia parecia enegrecida, o que sugeria sangramento gastrointestinal.

Cláudio Galeno de Pérgamo, o famoso médico grego do período romano. Desenho produzido em 1865 pelo francês Pierre Roche Vigneron. Via Wikimedia Commons.

A tosse produzia um odor desagradável na respiração e erupções cutâneas vermelhas e pretas por todo o corpo, segundo descrição de Galeno:

De algumas dessas errupções que haviam sido ulceradas, a parte da superfície chamada crosta caiu e depois a parte restante nas proximidades ficou saudável e depois de um ou dois dias ficou marcada. Nos lugares em que não era ulcerado, a errupção era áspera e escamosa e caía como uma casca e, portanto, tudo se tornava saudável. (Littman e Littman, p. 246)

Os infectados sofriam da doença por aproximadamente duas semanas. Nem todos os que pegavam a doença morriam e os que sobreviviam desenvolveram imunidade contra novos surtos. Com base na descrição de Galeno, pesquisadores modernos concluíram que a doença que afetava o império era provavelmente a varíola.

Causa e disseminação da doença

A epidemia provavelmente surgiu na China pouco antes de 166, se espalhando para o oeste ao longo da Rota da Seda, e por navios mercantes a caminho de Roma.

A famosa Rota da Seda, uma rota comercial que ligava o oriente ao ocidente desde a antiguidade. Via Wikimedia Commons.

Em algum momento entre o final de 165 e o início de 166, os militares romanos entraram em contato com a doença durante o cerco de Selêucia (uma grande cidade no rio Tigre). As tropas que retornam das guerras no leste espalharam a doença para o norte, para a Gália, e entre as tropas estacionadas ao longo do rio Reno.

Sobre as origens exatas da praga, duas lendas diferentes surgiram. Na primeira história, o general romano, e mais tarde co-imperador, Lúcio Vero teria aberto uma tumba selada em Selêucia, durante o saque subsequente da cidade, liberando a doença. O conto sugere que a epidemia foi uma punição, pois os romanos violaram um juramento feito aos deuses de não saquear a cidade.

Na segundo história, um soldado romano teria aberto um caixão de ouro no templo de Apolo, na Babilônia, permitindo que a praga escapasse.

Duas fontes diferentes do século 4, Res Gestae do historiador Amiano Marcelino (300-400) e as biografias de Lúcio Vero e Marco Aurélio, atribuem o surto à participação em um sacrilégio, violando o santuário de um deus e quebrando um juramento. Outros romanos culparam os cristãos que teriam irritado os deuses.

Busto de Lúcio Vero (a esquerda) e Marco Aurélio (a direita). MET e Museu do Louvre. Via Wikimedia Commons.

Taxa de mortalidade e efeitos econômicos

Há muito debate entre os estudiosos sobre as conseqüências da epidemia no Império Romano. Este debate está focado na metodologia usada para calcular o número real de pessoas que morreram. O historiador romano Dion Cássio (155-235) fala em 2000 mortes por dia em Roma no auge do surto. No segundo surto, a estimativa da taxa de mortalidade foi muito maior, superior a 5000 por dia.

É provável que o número extremo de mortes tenha sido causado pela exposição a uma novo agente patogênico, desconhecido para as pessoas que viviam no Mediterrâneo. A mortalidade aumenta quando doenças infecciosas são introduzidas em uma "população virgem", ou seja, uma população que não possui imunidade adquirida ou herdada para uma doença específica.

Ao todo, acredita-se que 25% a 33% de toda a população pereceu, algo estimado em 60 a 70 milhões de pessoas no império. O que é indiscutível é que Lúcio Vero, co-imperador com Marco Aurélio, morreu da doença em 169 e Marco Aurélio morreu 11 anos depois da mesma doença. Ironicamente, foram os soldados de Vero que contribuíram para espalhar a doença do Oriente Próximo para o resto do império.

No início da peste, o exército de Roma era formado por 28 legiões, totalizando aproximadamente 150 mil homens. As legiões eram bem treinadas, bem armadas e bem preparadas, mas isso não as impedia serem contaminadas, adoecer e morrer. Independentemente de seus postos, os legionários contraíram a doença de outros soldados que estavam de folga retornando do serviço ativo.

O exército romano representado na Coluna de Marco Aurélio, erguida por esse imperador entre 176-180. Via Wikimedia Commons.

Os doentes e moribundos causaram escassez de mão-de-obra, especialmente ao longo das fronteiras germânicas, enfraquecendo a capacidade dos romanos de defender o império. A falta de soldados disponíveis fez com que Marco Aurélio recrutasse qualquer homem capaz de lutar: escravos libertados, germanos, criminosos e gladiadores. Esgotar o suprimento de gladiadores resultou em menos jogos em casa, o que incomodou o povo romano que exigia mais, e não menos, entretenimento durante um período de intenso estresse.

Esse exército de retalhos falhou em seu dever: em 167, tribos germânicas cruzaram o rio Reno pela primeira vez em mais de 200 anos. O sucesso dos ataques externos, especialmente dos germânicos, facilitou o declínio das forças armadas romanas, que, juntamente com as perturbações econômicas, contribuíram para o declínio e queda do Império.

Em termos mais gerais, o terrível número de mortos reduziu o número de contribuintes, recrutas para o exército, candidatos a cargos públicos, empresários e agricultores. Em um momento de aumento das despesas com a manutenção do império e das forças militares necessárias para garantir a segurança do império, as receitas do governo diminuíram.

A diminuição da receita tributária foi atribuída à menor produção no campo, pois um número menor de agricultores significava que muita terra era deixada sem cultivo. A escassez de colheitas causou aumentos acentuados nos preços, além de diminuir a oferta de alimentos.

O efeito da peste na economia não se limitou ao setor agrícola. Menos artesãos significavam menos produtos sendo feitos, o que estagnava as economias locais. A escassez de mão-de-obra também levou a salários mais altos para aqueles que sobreviveram à epidemia. O aumento dos preços e a falta de empresários, comerciantes, comerciantes e financiadores causou profundas interrupções no comércio doméstico e internacional.

Todas essas recessões significaram menos impostos para o Estado, que já estava bastante pressionado para cumprir suas obrigações financeiras.

Efeitos na religião

O cristianismo dava sentido a vida e a morte em tempos de crise. Aqueles que sobreviveram ganharam conforto ao saber que entes queridos, que morreram como cristãos, poderiam receber a recompensa do céu. A promessa cristã de salvação na vida após a morte atraiu seguidores adicionais, expandindo assim o crescimento do monoteísmo dentro de uma cultura politeísta.

A conquista de novos adeptos começou a criar as condições que fariam o cristianismo emergir como a religião oficial do império.

O profundo impacto da doença afetou profundamente a identidade dos romanos e o que significava ser romano. Atingia todas as classes sociais. A morte de dezenas de milhares de soldados romanos também diminuiu o alto status do soldado romano. As perdas militares para as tribos germânicas minaram a força que a noção de ser um cidadão romano tinha no império.

Isso significava que os romanos estavam mais  vulneráveis. Em geral, um profundo sentimento de ansiedade e impotência permeava a mentalidade e as perspectivas romanas. A Peste Antonina não apenas diminuiu as atividades e o tamanho da população do império, mas também a própria idéia do que significava ser romano e o sentimento de invencibilidade que acompanhava essa identidade.

Influência na queda do Império

Qualquer discussão sobre o colapso do Império Romano no Ocidente começa com leitura de Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon. Gibbon não descartou o papel dos efeitos dos surtos de doenças. Em relação a Peste de Justiniano (541-542), Gibbon argumenta no início de seu trabalho em vários volumes que “Pestilência e fome contribuíram para preencher a medida das calamidades de Roma” (Vol. 1., p. 91).

Retrato de Edward Gibbon (1737-1794) atribuído a James Northcote, a partir de ilustração de Sir Joshua Reynolds.

Mas Gibbon deu pouca atenção a Peste Antonina, argumentando que as invasões bárbaras, a perda da virtude cívica romana e a ascensão do cristianismo desempenharam papéis mais importantes no declínio do império.

Mais recentemente, pesquisadores e historiadores, como A. E. R. Boak (1888-1962), sugeriram que a Peste Antonina, juntamente com uma série de outros surtos, representa um ponto de partida útil para entender o início do declínio do Império Romano no Ocidente.

Em Manpower Shortage and the Fall of the Roman Empire (Escassez de mão-de-obra e a queda do Império Romano), Boak argumenta que o surto de peste em 166 contribuiu para um declínio no crescimento da população, levando os militares a atrair mais camponeses e oficiais locais para suas fileiras, resultando em uma menor produção de alimentos, escassez e fatal de apoio aos assuntos do dia-a-dia na administração das vilas e cidades, enfraquecendo assim as habilidades de Roma para afastar as invasões bárbaras.

Eriny Hanna, em The Route to Crisis: Cities, Trade and Epidemics of the Roman Empire (A rota para a crise: cidades, comércio e epidemias do Império Romano), argumenta que “a cultura romana, o urbanismo e a interdependência entre cidades e províncias” facilitou a propagação de doenças infecciosas, criando os fundamentos para o colapso da império (Hanna, 1).

Cidades superlotadas, dietas precárias que levavam à desnutrição e falta de medidas sanitárias fizeram das cidades romanas epicentros da transmissão de doenças. Os contágios se espalhavam facilmente ao longo das rotas comerciais terrestres e marítimas que ligavam as cidades às províncias periféricas.

O centro de Roma na época de Julio César e Augusto conforme representação da série televisiva Roma.

Mais recentemente, Kyle Harper sugeriu que "os paradoxos do desenvolvimento social e a imprevisibilidade inerente da natureza trabalharam em conjunto para provocar o desaparecimento de Roma" (Harper, 2). Em outras palavras, as mudanças climáticas forneceram o contexto ambiental para a introdução de novas doenças mais catastróficas, incluindo a Peste Antonina, que chegou ao final de um período climático mais favorável e introduziu ao mundo a varíola.


Harper argumenta que a Peste Antonina foi a primeira de três pandemias devastadoras, que incluiem a Peste de Cipriano (que atingiu o império durante a crise do século 3, entre 249-262) e a Peste Justiniana (541-542), que abalou os fundamentos do Império Romano em grande parte devido à sua alta taxa de mortalidade.

Os pontos fortes que são destacados nas descrições lisonjeiras ao império de Roma - o exército romano, a extensão do império, as extensas redes comerciais, o tamanho e o número de cidades romanas - acabaram por fornecer a base para transmissões de doenças devastadoras que contribuíram para a queda do império.

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Fontes bibiliográficas:

How climate change and disease helped the fall of Rome
The Route to Crisis: Cities, Trade, and Epidemics of the Roman Empire
Boak, A. E. R. Manpower Shortage and the Fall Of the Roman Empire in the West. Univ of Michigan Pr, 2019.
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Artigo publicado em 28/12/2019.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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