Uso de elefantes nas guerras gregas e romanas

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Essa ilustração de Peter Dennis mostra os elefantes asiáticos (de orelhas menores) de Antíoco III, contra os elefantes africanos de Ptolomeu IV na batalha de Ráfia em 217 a.C.

Tradução feita a partir de artigo publicado no site Ancient.eu. O texto original pode ser conferido aqui. Ele foi escrito por Mark Cartwright e publicado em março de 2016. O texto foi traduzido a partir do inglês, e algumas pequenas alterações foram feitas em seu conteúdo. Também adicionei algumas fotos visando tornar o texto mais ilustrativo.

Todas as datas nesse artigo são a.C., a não ser que seja informado o contrário.

Na busca por armas cada vez mais impressionantes e letais para chocar o inimigo e trazer vitória total, os exércitos da Grécia antiga, Cartago e, às vezes, Roma se voltaram para os elefantes. Enormes, exóticos e assustadores para um inimigo despreparado, eles pareciam a arma perfeita em uma época em que as técnicas na guerra eram muito limitadas.

Mas por mais impressionantes que parecessem no campo de batalha, o custo de aquisição, treinamento e transporte dessas criaturas, juntamente com sua imprevisibilidade selvagem no calor da batalha, fez com que eles fossem usados ​​apenas por pouco tempo e não de maneira particularmente eficaz na guerra do Mediterrâneo.

Duas espécies de elefante

Na antiguidade, dois elefantes eram conhecidos - o elefante asiático (Elephas maximus) e o elefante da floresta africana (Loxodonta cyclotis). O último está agora quase extinto e só é encontrado na Gâmbia; era menor do que o elefante da savana africana (Loxodonta africana), que não conhecido na época, o que explica por que os escritores antigos afirmaram que o elefante indiano era maior que o africano.

O elefante da floresta africana (Loxodonta cyclotis).Essa foto do elefante asiático (Elephas maximus) montado por um homem é útil para uma noção de escala.


O elefante asiático tornou-se conhecido na Europa após as conquistas de Alexandre, o Grande, no século 4 a.C. e seu contato com o Império Mauryan da Índia. Alexandre ficou tão impressionado com os elefantes de guerra de Porus, que segundo relatos tinha 200 na Batalha de Hidaspes (326), que ele formou seu próprio corpo cerimonial de elefantes.

Recriações dos elefantes de Porus enfrentando as tropas de Alexandre. Museu Militar do Paquistão, Lahore.


Muitos dos sucessores de Alexandre deram um passo adiante e os empregaram em suas próprias batalhas. De fato, o Império Selêucida fez questão de ter controle exclusivo do comércio de elefantes asiáticos.

Aquisição e Utilização

Os elefantes, estando disponíveis apenas na África ou na Ásia, eram mercadorias caras de difícil aquisição pelas potências do Mediterrâneo. Além disso, havia o custo de mantê-los e treinar o elefante selvagem e seu cavaleiro para que se encaixassem em algum tipo de ordem de batalha no campo de combate.

Também havia o problema de transportá-los para onde eram necessários, embora o famoso cartaginês Aníbal tenha conseguido levar pelo menos alguns de seus 37 elefantes pelos Alpes e para a Itália em 218.

Uma representação moderna retratando a passagem do exército cartaginês de Aníbal pelos Alpes em 218 a.C.. Autor desconhecido. Observe como as ilustrações modernas costumam exagerar o tamanho dos elefantes, os soldados cartagineses mal chegam a altura dos joelhos dos elefantes.

Apesar do custo e das dificuldades, e como na antiguidade a evolução do armamento era extremamente lenta, a atração por tais animais permaneceu. Isso significava que os comandantes militares se esforçavam para complementar seus exércitos com elefantes.

Exemplos famosos, Seleuco I Nicátor trocou partes de seu império oriental para ganhar 500 elefantes do imperador indiano Chandragupta em 305. Os exércitos dos descendentes de Antígono e de Ptolomeu também criavam elefantes asiáticos, embora geralmente em número muito menor.

Nos anos 270, por exemplo, Ptolomeu II treinou elefantes africanos para seu exército e até nomeou um alto oficial para ser responsável por eles, os elefphantarchos. Segundo Plutarco, 475 elefantes participaram da Batalha de Ipso (301). durante as Guerra dos Diádocos. Em 275, em uma batalha conhecida como 'Vitória dos Elefantes', Antígono II Gónatas, embora em menor número, usou 16 elefantes para aterrorizar um exército de gauleses em retirada.

Pirro de Epiro foi o primeiro comandante a empregar elefantes na Europa quando usou 20 asiáticos em suas campanhas na Itália e na Sicília entre 280 e 275. Lá Pirro obteve vitórias notáveis ​​contra os romanos nas batalhas de Heracleia (280) e Ásculo (279).

Durante a Guerra Pírrica (280-275) o exército de Pirro de Epiro usou elefantes contra os romanos. Ilustração moderna autor desconhecido.

Os cartagineses foram os próximos a se utilizar constantemente dessa arma. Capazes de adquirir prontamente elefantes africanos da região da floresta de Atlas, eles foram capazes de formar um corpo de elefantes em 260. Eles foram usados ​​na Primeira e Segunda Guerras Púnicas contra Roma em meados e final do século 3 a.C., principalmente na Batalha no rio Tejo na Espanha (220) e na Batalha de Trébia (218) no norte da Itália.

Essa ilustração moderna mostra a Batalha de Trébia entre romanos e cartagineses, uma das derrotas romanas nas Guerras Púnicas. Autor desconhecido..

Os elefantes até aparecem nas moedas cartaginesas do período. Depois que seu corpo inicial morreu no inverno de 218/217, Aníbal adquiriu novos substitutos e usou elefantes novamente no cerco à Cápua em 211.

Moeda cartaginesa datada de 237-227. Um lado mostra o deus Melcarte, com a aparência facial do general Hamílcar Barca, o outro lado mostra um elefante montado por um homem. Via Wikimedia Commons.

Os romanos parecem ter ficado bastante impressionados com o uso de elefantes, mas os empregaram apenas raramente e em pequenos números. Eles geralmente eram fornecidos pela Numídia, no norte da África.

Há relatos de que na batalha de Benevento (275), os romanos tenham, astuciosamente, soltado porcos para distrair os elefantes de Pirro. Segundo Plínio o Velho, o som dos porcos assustava os elefantes.

Um relato ainda mais famoso, da Batalha de Zama (202), fala que o general romano Cipião Africano, criou a seguinte tática para enfrentá-los: ele ordenou que diante da aproximação dos elefantes, os manípulos abrissem lacunas em suas fileiras, para que os elefantes pudessem passar. Depois disso, eles usavam tambores e trombetas para assustar os animais e fazer com que eles se voltassem contra seu próprio exército.

Elefante cartaginês sendo atacado por soldados romanos na batalha de Zama. Ilustração moderna, autor desconhecido.

Os elefantes também não ajudaram os exércitos senatoriais de Cipião Metelo e Catão que enfrentaram Júlio César no norte da África na Batalha de Tapso (46).

Estranhamente, os elefantes não eram utilizados pelos romanos para o transporte de mercadorias pesadas.

Há um caso curioso em que dois grupos de elefantes se encontraram em batalha, e cada lado era composto de tipos diferentes. Isso ocorreu na Batalha de Ráfia (na península do Sinai), em 217, entre Ptolomeu IV e Antíoco III.

Essa ilustração de Peter Dennis mostra os elefantes asiáticos (de orelhas menores) de Antíoco III, contra os elefantes africanos de Ptolomeu IV na batalha de Ráfia em 217 a.C.

O primeiro tinha 73 elefantes africanos contra os 102 elefantes asiáticos do segundo. Os dois corpos de elefantes colidiram diretamente e os elefantes africanos de menor tamanho cederam, embora Ptolomeu tenha vencido a batalha no geral.

Depois de alguns séculos, quando os elefantes estavam fora de moda, os sassânidas da Pérsia reviveram o uso de elefantes de guerra, colocando em campo as espécies indianas a partir do século 3 d.C., embora em grande parte para logística (transporte) e durante cercos.

Armaduras e estratégias no campo de batalha

Os elefantes eram vestidos para a batalha em armaduras que protegiam suas cabeças e às vezes sua parte frontal. Uma espessa capa de couro também podia ser pendurada nas costas do elefante para proteger suas laterais. Lâminas de espada ou pontas de ferro eram adicionadas às presas e sinos eram pendurados no seu corpo para criar o máximo de ruído possível.

O uso precoce de elefantes em batalha pelos sucessores de Alexander envolvia apenas um cavaleiro (Cornaca) e talvez um lanceiro. O cavaleiro era crucial, pois treinava o animal há anos e ele obedecia apenas a seus comandos. Ele controlava a direção que o elefante tomava aplicando pressão atrás das orelhas do animal com os dedos dos pés. Ele também tinha um ankush ou um gancho para esse fim.

Ankush indiano de ferro e madeira, século 17 d.C. Museu Nacional de Nova Délhi.

A partir dos anos 270, uma torre leve (howdah ou thorakia) de madeira e couro foi amarrada ao elefante asiático (que eram maiores) usando correntes, ela era protegida com escudos pendurados nas laterais. Era tipicamente ocupada por até quatro lançadores de dardos.

Elefantes de guerra com torres de madeiras ocupadas por lanceiros. Ilustração moderna, autor desconhecido.

No entanto, o próprio elefante era a arma principal, empregada como uma espécie de bola móvel de demolição. Com uma altura média de 2,5 metros, pesando cerca de 5 toneladas e correndo a até 16 km/h, eles poderiam ser máquinas de demolição tremendamente eficazes. Como disse o historiador antigo Amiano Marcelino (330-400 d.C.), "a mente humana não pode conceber nada mais terrível do que seu barulho e seus corpos enormes" (Anglim, 132).

O efeito mais importante dos elefantes no campo era provavelmente psicológico. Esses animais enormes teriam aterrorizado homens e cavalos, tanto através do visual quanto do barulho, com suas trombas. Até o cheiro de elefantes podia levar os cavalos despreparados a uma debandada.

Começando a batalha em uma linha simples na frente de suas próprias tropas, eles poderiam fazer com que as linhas de cavalaria indisciplinadas e mal treinadas se dispersassem em pânico. Eles também eram usados ​​para combater outros elefantes nas fileiras inimigas.

Lançando o inimigo no ar, rasgando-o e esmagando-o, os elefantes também eram usados ​​para causar estragos em fortificações mais simples, onde poderiam derrubar paredes com a testa ou puxá-las com suas trompas.

A aproximação de um enorme elefante tinha um impacto emocional muito grande sobre tropas mal treinadas. Ilustração moderna, autor desconhecido.

Mas, é claro, os elefantes não tinham vida fácil em batalha. Primeiro, soldados e cavalos de cavalaria eram treinados para se acostumarem à visão, ao cheiro e aos sons dos elefantes. E, obviamente, eles forneciam alvos grandes e convidativos para a artilharia (flechas e dardos).

Poços e espigões estavam preparados para prendê-los e, se pudessem se aproximar o suficiente, os homens tinham ordem de atacar os animais e suas trompas. Esta última eventualidade poderia, em parte, ser evitada pelo posicionamento de uma pequena equipe de infantaria para proteger as pernas do elefante.

Mesmo sendo criaturas imensas, os elefantes se assustam facilmente e tem baixa resistência a dor. Tropas de infantaria bem treinadas não tinham muitas dificuldades em lidar com essa ameaça, por isso o elefante foi gradativamente perdendo espaço no campo de batalha. Essa é uma miniatura de Andrea Miniatures, de um elefante sendo abatido por um soldado romano em Zama.

Se os elefantes fossem feridos, tudo podia acontencer, pois, imprevisíveis, os elefantes feridos poderiam literalmente enlouquecer e causar danos tremendos a ambos os lados. Se isso acontecesse, o cavaleiro (que estava sentado atrás da cabeça do elefante) tinha ordens para usar um prego de metal e um martelo para perfurar o cérebro do animal e matá-lo imediatamente.

Conclusão

Uma vez que a visão devastadora dos elefantes de guerra se tornou mais comum no antigo campo de batalha, sua eficácia diminuiu à medida que o inimigo se tornou mais preparado e melhor equipado para lidar com eles.

Na realidade, talvez apenas um punhado de batalhas antigas tivesse sido decidido por causa da intervenção de elefantes. A eficácia dos elefantes diminuiu principalmente a partir do desenvolvimento da máquina de guerra romana. As tropas tornaram-se mais móveis, o cerco tornou-se tão comum quanto as batalhas abertas, e a artilharia pesada (armas de cerco) vieram à tona.

Em épocas posteriores, o uso de elefantes ficou restrito a atividades em tempo de paz, como espetáculos nas arenas romanas e no circo para entretenimento público ou como uma adição impressionante às procissões públicas. De fato, tal era a demanda para isso que se mantinham manadas permanentes em Latium e Constantinopla e o desejo insaciável por elefantes selvagens praticamente arrasou o elefante da floresta do norte da África.

Essa ilustração moderna mostra um elefante lutando contra um búfalo em uma arena romana, para delírio do público. Autor desconhecido.

Durante o final do Império Romano, os elefantes também foram dados e recebidos como presentes para melhorar as relações diplomáticas com os estados vizinhos. Muitos séculos depois, já na Idade Média, há registros de que o rei carolíngeo Carlos Magno (742-814 d.C.) tenha recebido um elefante de presente de um califa árabe.

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Fontes bibiliográficas:

Anglim, S. Fighting Techniques of the Ancient World 3000 BCE-500CE. Amber Books, 2013.
Bagnall, R. et al. The Encyclopedia of Ancient History. Wiley-Blackwell, 2012
Campbell, B. et al. The Oxford Handbook of Warfare in the Classical World. Oxford University Press, 2013.
Chaniotis, A. War in the Hellenistic World. Wiley-Blackwell, 2016.
Hornblower, S. The Oxford Classical Dictionary. Oxford University Press, 2012.
Plutarch. The Age of Alexander. Penguin Classics, 2012.

Artigo publicado em 29/12/2019.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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