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As pragas na antiguidade - A praga em Atenas e os historiadores antigos

Artigos > Grécia Antiga  |  2,5 mil visualizações  |  2961 palavras

Capa do artigo: As pragas na antiguidade - A praga em Atenas e os historiadores antigos

Praga em um cidade antiga, pintura de Michiel Sweerts (1618–1664). Los Angeles County Museum of Art. Via Wikimedia Commons.

Tradução de artigo publicado no site da Universidade Loyola de Nova Orleans, pelo The Student Historical Journal 1996-1997, de autoria de Christine A. Smith. O texto original pode ser conferido aqui. As referências bibliográficas e notas podem ser encontrados no final da versão original do texto.  Adicionei vários imagens ao texto para torná-lo mais ilustrativo. Também adicionei subtítulos para facilitar a leitura.

Ao longo da história, os humanos foram confrontados com catástrofes desastrosas que tiveram que ser suportadas pela sobrevivência. Um dos desastres mais incompreensíveis para a humanidade tem sido a praga. Este termo em grego pode se referir a qualquer tipo de doença; em latim, os termos são plaga e pestis.

Na antiguidade, duas das pragas mais devastadoras foram a praga ateniense de 430 a.C. e a praga justiniana de 542 d.C. Este artigo discutirá essas pragas, a maneira como elas se espalharam e suas conseqüências para os sobreviventes.

Além disso, serão discutidas as maneiras pelas quais escritores antigos escreveram sobre esses desastres, com referência especial ao papel dos deuses. Muito do que se acredita convencionalmente sobre essas pragas vem de comparações com a Peste Negra, uma visita da peste bubônica durante o século 14 d.C. Embora as fontes para as pragas atenienses e justinianas sejam insuficientes, há alguma dúvida quanto à validade dessa analogia como fonte histórica.

A praga ateniense (430-426 a.C.)

A praga ateniense ocorreu entre 430 e 426 a.C. durante a Guerra do Peloponeso, que foi travada entre Atenas e Esparta de 431 a 404. Por causa das condições de superlotação que a guerra impôs a cidade, a praga se espalhou rapidamente, matando dezenas de milhares. Entre suas vítimas estava Péricles, o ex-líder de Atenas.

Busto de Péricles. Cópia romana de original grego. Museu Britânico. N° 1805,0703.91

A única fonte sobrevivente da peste ateniense é o relato em primeira mão de Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso. Tucídides, que viveu de cerca de 460 a 400, era um general e crítico político ateniense.

Em sua História da Guerra do Peloponeso, Tucídides empregou uma estrutura cuidadosamente desenvolvida para investigar o significado e as causas dos eventos históricos. Sua escrita, que evoluiu do pensamento sofista, refletia uma constante análise consciente da gramática e da retórica.

Busto de Tucídides no Royal Ontario Museum. Via Wikimedia Commons.

A história, segundo Tucídides, era um processo da natureza humana; e, como tal, era altamente influenciado pelos movimentos de massa. Ele, portanto, enfatizou a realidade física e não permitiu a intervenção ativa dos deuses. Isso é mais evidente em seu relato da praga ateniense, uma vez que as pragas eram tradicionalmente atribuídas à ira dos deuses, como evidenciado em Heródoto, no livro do Êxodo e na Ilíada de Homero. Através deste trabalho, Tucídides iniciou uma tradição historiográfica que se tornaria o modelo para muitos futuros historiadores.

Tendo ele mesmo sofrido a praga, Tucídides apresentou uma descrição muito sistemática dos sintomas. Seu objetivo era apenas:

"descrever como era e definir os sintomas, cujo conhecimento permitirá que seja reconhecido, se alguma vez ocorrer novamente". (TUCÍDIDES, II, 48.)

A praga ateniense se originou na Etiópia, e de lá se espalhou para todo o Egito e Grécia. Tucídides, no entanto, observou que a cidade de Atenas sofreu o maior número de vítimas da doença. Os sintomas iniciais da praga incluíam dores de cabeça, conjuntivite, erupção cutânea que cobria o corpo e febre. As vítimas então tossiam sangue e sofriam de cólicas estomacais extremamente dolorosas, seguidas de vômitos e ataques de "vômito ineficaz".

Muitas pessoas também experimentaram insônia e inquietação. Tucídides também relatou que as vítimas tinham uma sede tão insaciável que as levava a se atirar nos poços. Os indivíduos infectados geralmente morriam no sétimo ou oitavo dia. Se alguém conseguisse sobreviver por tanto tempo, no entanto, ele era atingido por diarréia incontrolável, que freqüentemente causava a morte.

Aqueles que sobreviviam a esse estágio podiam sofrer de paralisia parcial, amnésia ou cegueira pelo resto de suas vidas. Felizmente, a infecção da praga fornecia imunidade; isto é, poucos pegaram a doença duas vezes e, quando isso ocorria, o segundo ataque nunca era fatal.

A descrição de Tucídides também incluiu as consequências sociais da praga ateniense, que ele concebeu no contexto da guerra. Médicos e outros cuidadores freqüentemente pegavam a doença e morriam com aqueles que estavam tentando curar. Os espartanos que cercavam a cidade, no entanto, não foram afetados pela doença que se espalhou por Atenas.

O desespero causado pela praga na cidade levou o povo a ser indiferente às leis dos homens e deuses, e muitos se lançaram à auto-indulgência. Tucídides, em particular, mencionou que ninguém observava os rituais funerários habituais. Com a queda do dever cívico e da religião, a superstição reinou, especialmente na lembrança dos antigos oráculos.

Durante o 1° século a.C., Lucrécio usaria esta seção do relato de Tucídides sobre a praga ateniense para apoiar as doutrinas de Epicuro. Para ele, a praga ilustrava não apenas a vulnerabilidade humana, mas também a futilidade da religião e a crença nos deuses.

Embora muitas epidemias desastrosas provavelmente tenham ocorrido entre as pragas atenienses e justinianas, poucas fontes que detalham essas pragas sobreviveram. Infelizmente, os relatos que existem são escassos; e por isso, as origens microbianas das pragas descritas não podem ser diagnosticadas. Essas fontes frequentemente copiam o estilo literário de Tucídides; no entanto, elas geralmente não aderem à sua crença em relação ao não envolvimento dos deuses.

Pragas na Roma Antiga (século 2 d.C.)

Uma dessas doenças, conhecida como a Praga Antonina, ocorreu durante o reinado de Marco Aurélio (161-180 d.C.). Ela foi trazida pelos soldados que retornavam de uma guerra em Selêucia (atual Síria) e, antes de perder força, afetou a Ásia Menor, o Egito, a Grécia e a Itália. A praga pode ter destruído até um terço da população em algumas áreas e dizimou o exército romano. Em 180, Marco Aurélio pegou algum tipo de infecção e morreu em seu acampamento militar. Há especulações de que essa infecção foi uma praga.

Outra praga ocorreu durante os reinados de Décio (249-251 d.C.) e Treboniano Galo (251-253 d.C.). Essa pestilência eclodiu no Egito em 251, e de lá infectou todo o império. Sua taxa de mortalidade esgotou severamente as fileiras do exército e causou escassez maciça de mão-de-obra. A praga ainda estava furiosa em 270, quando causou a morte do imperador Cláudio Gótico (268-270 d.C.).

Praga Justiniana (Século 6 d.C.)

Após o século 3, não houve nenhuma praga bem documentada até a Praga Justiniana em meados do século 6. Essa praga se originou em 541-542 na Etiópia, movendo-se através do Egito ou das estepes da Ásia Central, onde seguiu pelas rotas das caravanas de comércio. De um desses dois locais, a pestilência se espalhou rapidamente por todo o mundo romano e além.

Representação do imperador Justiniano em mosaico na Basilica de San Vitale, em Ravena.

Como a peste negra que ocorreu em 1348, a praga justiniana geralmente seguia rotas comerciais que proporcionavam uma "troca de infecções assim como de mercadorias" e, portanto, era especialmente brutal para as cidades costeiras. O movimento de tropas durante as campanhas de Justiniano forneceu outra fonte para a expansão da peste. Esses dois fatores, comércio e movimento militar, espalharam a doença da Ásia Menor para a África e a Itália, e também para a Europa Ocidental.

Escritores antigos e o registro das pragas

Embora muitos escritores tenham documentado esse período, há três fontes principais para a praga Justiniana: João de Éfeso, Evágrio Escolástico e, principalmente, Procópio.

João de Éfeso escreveu sua História Eclesiástica durante esse período, enquanto viajava pelo império. Infelizmente, este trabalho sobrevive apenas em fragmentos. Evágrio, advogado e prefeito honorário que vivia na cidade de Antioquia, escreveu sua própria História Eclesiástica cobrindo os anos 431-594 no final do século 6. Esse é o mais pessoal dos relatos, já que ele contraíu a doença ainda jovem, em 542 . Embora ele tenha se recuperado, as recorrências posteriores da praga o privariam de sua primeira esposa, vários filhos, um neto e muitos servos da família.

Outra fonte para a praga Justiniana é a História de Agathias. Advogado e poeta, ele continuou a história de Procópio. Seu relato da praga Justiniana trata da sua segunda aparição em Constantinopla, em 558. Um relato adicional é a Crônica de John Malalas; no entanto, este trabalho pode ter copiado a obra de Procópio.

Procópio de Cesaréia e sua obra História das Guerras

Embora todas essas fontes forneçam aos estudiosos informações importantes sobre a praga, a História das Guerras, publicada em 550 por Procópio (500-565), fornece o relato mais sistemático dos sintomas e conseqüências imediatas da doença. Criado em Cesaréia, Procópio tornou-se secretário jurídico do general Belisário e viajou com ele pelas campanhas de reconquista de Justiniano na Itália, nas Bálcãs e na África. Em 542, ele testemunhou a praga em Constantinopla.

Alguns estudiosos acreditam que essa figura de barba, ao lado do imperador Justiniano no mosaico de Ravena, possa ser o general Belisário. Não há como comprovar essa afirmação, mesmo assim a imagem continua a ser usada para representar esse general.

O principal modelo literário de Procópio era Tucídides, um escritor a quem ele, assim como todos os outros escritores do mundo clássico, emulou conscientemente. Durante o reinado de Marco Aurélio, Luciano de Samosata compôs uma obra intitulada Como escrever História. Aqui, Luciano afirmou que a história era distinta da retórica, e tinha o objetivo de escrever a verdade.

Ele também incluiu dois critérios para um historiador: primeiro, o historiador deve ter o dom natural de ser capaz de entender os assuntos públicos. O segundo critério era que o historiador deveria ser capaz de escrever. Este, no entanto, não era um dom natural. Era o resultado da prática, do trabalho árduo e do desejo de imitar os escritores antigos.

Há muitas razões para afirmar que Procópio imitou conscientemente o trabalho de Tucídides. No prefácio de sua História das Guerras, Procópio afirmou que "considerava a inteligência adequada para a retórica, a narrativa do mito para a poesia, mas para a história, a verdade". Essa introdução espelha a de Tucídides, um fato que Procópio gostaria que seus leitores se lembrassem para que dessem credibilidade à sua história.

Procópio também escreveu suas obras no grego ático clássico, que tinha saído de uso há muito tempo no Império Romano. Mostrando relutância em usar palavras não-áticas, Procópio teve o cuidado de evitar empréstimos do latim. Por exemplo, quando ele menciona um termo latino, como referendarii, ele sempre antecede a palavra com uma frase "como os romanos chamam".

Ele também seguiu o exemplo de Heródoto, referindo-se, embora de maneira inconsistente, aos Hunos como Masságetas e aos Persas como Medos. Estes são exemplos de como Procópio emulou os historiadores clássicos, que seus contemporâneos não apenas admirariam, como também esperariam esse tipo de distanciamento clássico, quando lessem sua obra.

O parlamento austríaco conta com várias estátuas modernas representando figuras da antiguidade. Essa é uma representação do historiador Heródoto. É uma visão idealizada, já que não há representações feitas no período em que ele viveu.

Há alguns estudiosos, no entanto, que denegrem o trabalho de Procópio como artificial porque ele imitou o estilo dos historiadores clássicos. Um em particular afirmou que "ele [Procópio] não resistiu à oportunidade que a praga (...) lhe deu para acompanhar a narrativa clássica de seu protótipo da grande praga em Atenas".

Declarações como essas questionam a veracidade da descrição de Procópio, sugerindo que Procópio emprestou a descrição da praga diretamente das páginas da História da Guerra do Peloponeso. No mínimo, eles sugerem que é estranho que Procópio tenha gravado o evento. Após a praga justiniana, não haveria outra pandemia até a Peste Negra de 1348.

Segundo Procópio em sua História das Guerras, o número de mortos em Constantinopla, após quatro meses, chegou a 10.000 por dia na primavera de 542. Embora esse número seja provavelmente exagerado, a praga afetou profundamente a população, tanto em termos de vítimas quanto de sobreviventes, e, como tal, foi um tópico histórico digno para Procópio. Depois de devastar a capital, a praga continuou a se espalhar por todo o império, permanecendo endêmica de 542 até meados do século 8.

Procópio copiou o relato de Tucídides?

Uma razão para questionar aqueles que acham que Procópio simplesmente copiou o relato de Tucídides da praga ateniense, é que os dois autores não descrevem os mesmos sintomas da praga. Descrita em detalhes por Procópio, João de Éfeso e Evágrio, a epidemia Justiniana é o nosso primeiro caso claramente documentado da peste bubônica.

Cada um desses autores faz clara referência à formação de bubões, o sinal revelador da peste bubônica, na pele das vítimas. Tucídides, no entanto, não menciona esse sintoma. A causa da praga ateniense de 430 a.C. não foi diagnosticado, mas muitas doenças, incluindo a peste bubônica, foram descartadas como possibilidades. A teoria mais recente, postulada por Olson e um número crescente de outros epidemiologistas e classicistas, sobre a causa da peste ateniense é a febre hemorrágica do vírus Ebola.

As descrições dos contágios também diferiam de outra maneira significativa. Tucídides observou que aqueles que cuidavam dos doentes contraíam a doença; em Constantinopla, isso não ocorria regularmente. A peste ateniense era claramente uma doença infecciosa altamente contagiosa.

Procópio, em contraste, estava descrevendo a peste bubônica, que não é diretamente contagiosa, a menos que o paciente abrigue pulgas ou que um elemento pneumônico da doença esteja presente. Embora o relato de Procópio tenha seguido Tucídides como modelo literário, Procópio não copiou a passagem diretamente da História da Guerra do Peloponeso, pois é evidente que os dois autores descreveram sintomas diferentes.

A origem e transmissão da peste Justiniana

Pela descrição fornecida por Procópio, sabe-se que, na primavera de 542, a peste bubônica atingiu Constantinopla. Os estudiosos modernos não tem certeza quanto às suas origens exatas, que podem ter sido o reservatório de pragas dos modernos países da África Central do Quênia, Uganda e Zaire. Outros ainda acreditam que a praga se originou nas estepes da Ásia Central e se espalhou pelas rotas comerciais com o Extremo Oriente, assim como a Peste Negra de 1348.

Uma recrição moderna da cidade de Constantinopla.

As fontes contemporâneas da praga também discordam sobre onde a doença começou. Procópio alegou que a praga se originou no Egito perto de Pelúsio; no entanto, Evágrio afirmou que a praga começou em Axum (moderna Etiópia e leste do Sudão). A tese de Evágrio pode ter se originado de um preconceito tradicional da época, de que as doenças vinham de áreas quentes. De qualquer forma, ela certamente surgiu no Egito em 541; e após sua permanência em Constantinopla, espalhou-se por todo o império por rotas comerciais e militares, sempre se deslocando das cidades costeiras para as províncias do interior.

A praga então surgiu na Itália em 543, e chegou à Síria e à Palestina no mesmo ano. De lá, o contágio migrou para a Pérsia, onde infectou o exército persa e o próprio rei Cosroes, levando-os a recuar a leste do Tigre para as terras altas do Luristão, uma região sem pragas. Gregório de Tours relatou como São Galo salvou o povo de Clermont-Ferrand na Gália da doença em 543, e há algumas especulações de que a praga possa ter se espalhado para a Irlanda em 544.

Além disso, como a Peste Negra, a peste Justiniana foi recorrente, com as bactérias permanecendo endêmicas na população por 250 a 300 anos. Agathias, descrevendo um segundo surto na capital em 558, relatou que desde a primeira epidemia, a praga nunca havia desaparecido completamente, mas simplesmente se mudou de um lugar para outro.

Esta foi a primeira pandemia conhecida de peste bubônica a afetar a Europa. Embora seja menos famosa que a peste negra do século 14, a praga Justiniana foi certamente tão mortal. A peste bubônica é espalhada pela picada de pulgas que encontram sua casa em roedores. O rato preto carregava a Peste Negra, e não há razão para acreditar que não era um portador ativo no século 6. Provavelmente não era o único transportador; os cães que são descritos como morrendo em Constantinopla quase certamente carregavam pulgas também.

Uma vez que o comércio trouxe a praga para a cidade, os ratos encontraram áreas urbanas, que estavam superlotadas com uma população estacionária, propícias ao seu estilo de vida. Essa avaliação concorda com as evidências de que, embora a doença tenha dominado os impérios romano e persa, os berberes nômades da África e os povos árabes não foram muito afetados pela praga.

A segunda e última parte do texto será publicada amanhã.

Continue lendo essa série:
As pragas na antiguidade - A praga Justiniana e suas consequências

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Fontes bibiliográficas:

As referências bibliográficas e notas podem ser encontrados no final da versão original do texto. Veja aqui.

Artigo publicado em 01/03/2020.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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