Gladiador (2000) - Mais alguns comentários sobre o filme

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Cena do filme Gladiador. Maximus luta contra o famoso, e fictício, gladiador Tigris da Gália

Já escrevi um outro artigo aqui para o site sobre o filme Gladiador (2000), mas naquele artigo foquei mais nas questões políticas. Nesse texto quero comentar algumas outras coisas que me incomodaram, especialmente a forma como Roma foi representada em termos arquitetônicos.

Essa não é uma relação final de erros. O filme Gladiador é - assim como a maioria dos filmes históricos - repleto de inconsistências históricas, e dezenas de artigos seriam necessários para trabalhar tudo que o filme representa de forma incorreta.

E sim, eu sei que esse é "apenas um filme" e eu não deveria me importar com essas coisas, porque os produtores tomaram certas liberdades artísticas e eles tem o direito de fazer isso, blá blá blá... mas é divertido fazer esse tipo de análise.

Arco do Triunfo dentro do Coliseu?

Eu não sei porque isso me incomodou tanto, mas no filme os produtores decidiram que as duas principais entradas dos gladiadores para a arena teriam o formato de arcos do triunfo. É uma ideia tão absurda, que é difícil acreditar que tenha sido aprovada mesmo para um filme.

Mas absurda porque? Você pode estar se perguntando. Construir um grande portal de mais de 10 metros de altura nos dois lados da arena, iria contra o principal propósito da construção desses anfiteatros. O anfiteatro foi uma estrutura desenvolvida para permitir que todas as milhares de pessoas sentadas nas arquibancadas fossem capazes de enxergar o que se passava na arena (a área de combate). Nas fotos que coloquei abaixo, que mostram os tais arcos do triunfo nas bordas da arena, fica claro que uma boa parte da platéia teria a visão comprometida pela existência dessas grandes construções.

Além disso, há a questão inegável de que o que é representado no filme é, sim, um arco do triunfo. Na verdade, ele parece ser uma cópia quase perfeita do Arco de Constantino (construído cerca de 120 anos depois dos eventos do filme).

Você pode saber mais sobre os Arcos do Triunfo lendo esse artigo que escrevi sobre o tema. Mas resumindo: os arcos eram construções de caráter comemorativo, construídas para honrar um exército e seu comandante militar pela obtenção de alguma vitória sobre povos estrangeiros.

Eu poderia fazer um comentário sobre essas estruturas fálicas que os diretores de cinema e tv não cansam de colocar dentro das arenas romanas. Mas fica pra uma próxima.


Os arcos eram colocados em locais de grande circulação de pessoas, o objetivo era justamente glorificar o responsável por sua construção, e essa pessoa gostaria que o arco fosse visível para todos, todos os dias do ano. Colocar tais arcos dentro do Coliseu restringiria sua visão para apenas alguns dias do ano. Na época do imperador Marco Aurélio, 130 dias por ano eram dedicados aos jogos, mas apenas em alguns desses dias os jogos eram na arena, a maior parte do tempo era dedicada ao circo e ao teatro. Logo, podemos fazer uma estimativa (pura especulação, já que não sabemos) de que a arena recebia eventos apenas uns 45 dias por ano.

Além disso, a própria maquete do Coliseu no Museu da Civilização Romana, em Roma, mostra o anfiteatro como tendo aberturas internas simples, assim como os estádios de futebol da atualidade.

A reconstrução do Coliseu na maquete do Museu da Civilização Romana, Roma.

A arquitetura de Roma representada no filme

Logo após as Guerras na Germânia, quando Cômodo é representado retornando a Roma como novo imperador, há uma cena de cerca de 2 minutos em que o diretor apresenta uma visão geral do centro de Roma, com sua arquitetura monumental, dando um grande destaque para o Coliseu.

No final do seu desfile, Cômodo chega a um grande palácio com uma imensa área aberta, onde os soldados romanos estão perfeitamente enfileirados, ao estilo das grandes exibições de poder organizadas pelos nazistas para divulgar o seu poder. Aqui está minha primeira crítica: um espaço tão grande quanto esse não existia nas proximidades do Coliseu!

Que lugar é esse?

O interessante é que o próprio filme usa a maquete do Museu da Civilização Romana, como modelo para uma representação da Roma dessa época. Só há um porém. Essa maquete foi construída para representar a Roma de 320 d.C., logo ao exibir essa maquete como modelo da Roma da época de Cômodo o filme inevitavalmente cometeu um erro. Na imagem, aparecem claramente a Basílica de Maxêncio e Constantino, e o Arco do Triunfo de Constantino, ambos construído cerca de 120 anos após os eventos do filme. Confira os destaques abaixo:

A Basílica de Maxêncio e Constantino, e o Arco do Triunfo de Constantino magicamente representados no ano 180 d.C.

Virando escravo

Os gladiadores eram escravos, isso todo mundo sabe. E nosso personagem principal era um general romano que caiu em desgraça com o imperador.

Ao encontrar sua família morta em algum lugar da Espanha, Maximus desmaia e acorda sendo levado por uma caravana de comerciantes de escravos. Alguns minutos depois ele aparece em Zucchabar, uma província romana no norte da África (atual Argélia).

No filme, Maximus fala que sua casa fica "nas colinas acima de Trujillo". Bem, Trujillo fica próxima a colônia romana de Mérida na Espanha. Então, vamos supor que o caminho percorrido, desde a captura de Maximus até Zucchabar, tenha sido indo em direção ao sul, cruzando o Estreito de Gilbraltar e depois percorrendo a costa até chegar ao destino final, na atual Argélia. Fiz esse caminho usando o Google Maps, distância total: 1209 km!! Digamos que essa caravana de escravos seja capaz de viajar 40 km por dia (eu duvido). Nesse caso a viagem levaria 30 dias!

A longa viagem de Maximus até a arena de Zucchabar.

Como diabos isso aconteceu? Só essa parte do filme já parece que daria uma excelente história.

Vida após a morte e os cultos orientais

O filme trabalha muito a questão da vida após a morte. Maximus, o personagem principal, tem a sua família morta e passa o resto do filme buscando vingança. Em diversas ocasiões, o filme mostra a vida após a morte, sempre retratando esse pós-vida como um local idílico onde o morto se encontraria com a sua família morta.

A representação que o filme faz do pós-vida.

Essa ideia não fazia parte da religião oficial romana, mas era comum em vários cultos orientais. Isso não quer dizer que os romanos não acreditavam em uma espécie de vida eterna, mas para eles a alma apenas sobrevivia como uma espécie de espectro, e não havia uma segunda vida a ser vivida em um local melhor.

Muitos autores acreditam que essa visão utópica do pós-vida, que apresenta a vida após a morte como um local maravilhoso onde se viveria eternamente em paz e tranquilidade, foi uma das principais ferramentas de conversão de novos fiéis para esses cultos e, eventualmente, foi o que atraiu tantas pessoas para o cristianismo (que era um desses cultos orientais). O filme na verdade mostra isso, já que é o personagem estrangeiro Juba, interpretado pelo ator Djimon Hounsou, quem apresenta a ideia desse pós-vida para o personagem Maximus.

Juba, interpretado por Djimon Hounsou, na cena em que os personagens conversam sobre o pós-vida.

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Artigo publicado em 22/03/2020.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 32 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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