Cleópatra era negra?

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A cantora Rihanna vestida como Nefertiti (c. 1370-1330 a.C), uma rainha egípcia que viveu 1300 anos antes de Cleópatra.

Cleópatra VII, a famosa rainha egípcia que governou o Egito entre 47-30 a.C., é sem dúvida uma das mais famosas líderes da História. Isso se deve, principalmente, ao seu envolvimento direto nos conflitos que levaram a queda da república, e a ascensão do regime imperial na Roma Antiga. Sua relação amorosa com dois líderes romanos da época, Júlio César e Marco Antônio, já foi tema de muitos filmes, livros e peças de teatro.

A discussão com relação a cor da sua pele é muito comum nos dias atuais. Existe uma crença popular de que Cleópatra era negra, afinal ela era rainha de uma nação africana, e, por isso, todas as representações de Cleópatra como uma rainha branca são abertamente ridicularizadas, e rotuladas de racistas.

Confira abaixo algumas das mais famosas representações de Cleópatra no cinema e na TV:

Cleópatra no filme homônimo de 1963.Cleópatra na série Roma (2005) da HBO.Cleópatra ao lado de Marco Antônio no filme À Sombra das Pirâmides (1972).Cleópatra na mini-série homônima de 1999.Cleópatra no filme A Serpente do Nilo (1953).Cleópatra no filme Os Apuros de Cleópatra (1964).Cleópatra no filme César e Cleópatra de 1945.Julio César e Cleópatra no filme Júlio César (2002).Cleópatra no filme Asterix e Obelix: Missão Cleópatra (2002).E não poderia faltar: Cleópatra no seriado Chapolin (1973-1979).


Hoje em dia, esse tema é altamente politizado. Se posicionar a favor de uma Cleópatra branca, pode ser facilmente interpretado como uma declaração racista. Mas nesse artigo mostraremos como essa análise é superficial e completamente errônea.

O domínio europeu do Egito

Algo que muitas pessoas parecem esquecer nesse debate, é o fato de que Cleópatra fazia parte de uma dinastia européia, que governava o Egito há quase 300 anos. O Egito Antigo foi independente durante a maior parte de sua história, mas no milênio 1 a.C., uma série de povos conquistou a região: primeiro os assírios (656 a.C.), depois os persas (525 a.C.) e, finalmente, os macedônios de Alexandre o Grande (332 a.C.).

Os macedônios eram um povo de língua grega, originário do norte da Grécia e de pele branca. Muitos macedônios também eram loiros.

A falange macedônica, a máquina de guerra que conquistou um império no século 4 a.C. Ilustração moderna, autor desconhecido.

Após a morte de Alexandre, intensos conflitos (Guerras dos Diádocos) ocorreram entre os seus generais, cada um buscando manter uma parte de seu gigantesco império e se tornar rei. Ao final desses embates, o general macedônio Ptolomeu havia consolidado seu domínio do Egito e, a partir de então, o Egito passou a ser governado por sua família. Esse período é conhecido como Egito Ptolomaico (303-30 a.C.) e Cleópatra foi a última rainha dessa dinastia.

Os macedônios mantiveram um costume egípcio de se casar entre irmãos, embora tenham ocorrido vários casamentos fora da família. Essa é uma questão sobre a qual ainda há debates.

Alexandria, capital do Egito fundada por Alexandre, também era uma cidade com uma grande população branca. Macedônios, gregos e judeus viviam nessa região, que era um grande centro comercial. Todo o Egito helenístico tinha uma tradição de comércio, não só na região do Levante, mas também na costa do mar vermelho, onde se realizava um intenso comércio marítimo com a Arábia e outros reinos distantes como a Índia.

A região do Levante, é uma área que engloba o Egito, Palestina, Síria, Líbano, Chipre e sul da Ásia Menor (Turquia).Rotas comerciais ligando o Mar Vemelho (na costa leste do Egito) aos reinos orientais, entre 250 a.C a 250 d.C.


Mas já estou me afastando do tema central. O que quero dizer com tudo isso, é que a imagem de um Egito unicamente agrário, desértico e isolado do mundo, deve ser removida para que esse período se torne mais claro. O Egito helenístico era vivo, com um intenso comércio com diversas nações, e sua capital era um grande centro cultural (não esqueça da Biblioteca de Alexandria) e comercial cosmopolita. E o governo dessa grande nação era comandado por uma dinastia européia.

Cleópatra era muito culta e falava fluentemente o grego e, segundo Plutarco, foi a primeira entre os Ptolomeus capaz de falar a língua egípcia, o que reflete o caráter da monarquia Ptolomaica no Egito. Os outros reis da dinastia nem eram capazes de se comunicar com o povo, a não ser que eles falassem grego!

Mesmo assim os reis Ptolomeus tentavam construir uma imagem egípcia, para esconder o caráter estrangeiro da sua dominação. Cleópatra se identificou com o culto de Ísis e apoiou os grandes centros religiosos egípcios, como Tebas, que eram a grande força do país.

Com relação a cor da pele de Cleópatra, o historiador Adrian Goldsworthy faz alguns comentários interessantes, confira:

Não são conhecidas a cor de seu cabelo e sua compleição. Há uma tradição popular em alguns círculos de que ela era negra, mas não existe a menor prova para fundamentar isso. Os Ptolomeus eram macedonienses, embora também existisse algum sangue grego e, em consequência de alguns casamentos com selêucidas, também um pouco de sangue persa nos registros de sua linhagem familiar. Não conhecemos a identidade da avó de Cleópatra. Também existe alguma dúvida em relação à mãe, embora a maioria aceite que era irmã de Auletes por parte do mesmo pai e mãe, o que aumentaria, então, a importância da avó. A conjectura aceita é que a última fosse uma concubina e, possivelmente, não tivesse ancestrais macedônios, talvez, fosse egípcia, ou de outro povo distante. Não é absolutamente impossível, portanto, que Cleópatra tivesse sangue especificamente africano, mas não há provas para sustentar isso. Tampouco é absolutamente impossível que fosse loura, pois alguns macedônios tinham cabelo claro (o que, novamente, é um termo muito subjetivo), mas, igualmente, nenhuma de nossas fontes menciona esse detalhe. Essa incerteza permitirá que povos diferentes continuem a imaginar Cleópatras muito diferentes. (GODSWORTHY, p. 572)

Também existe uma discussão sobre a cor dos próprios egípcios na antiguidade, mas eu não entrarei nesse tópico. Embora seja importante destacar, que representar qualquer faraó que tenha vivido antes da conquista macedônica do Egito (332 a.C.), como branco, é algo inegavelmente incorreto. Quando o assunto é a história do Egito Antigo antes dos macedônios (3200-332 a.C.), a discussão que existe é se os egípcios eram negros ou pardos. Antes da invasão européia ao Egito, não houve faraós brancos.

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Fontes bibiliográficas:

GOLDSWORTHY, Adrian. César - A vida de um soberano. Rio de Janeiro: Record, 2011.

Artigo publicado em 16/04/2020.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 32 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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