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Resumo da Epopéia de Gilgamesh - Parte 1/2

Artigos > Mesopotâmia  |  2,3 mil visualizações  |  2001 palavras

Capa do artigo: Resumo da Epopéia de Gilgamesh - Parte 1/2

Estátua encontrada no palácio Assírio do rei Sargão II em Dur-Sharrukin. É normalmente identificada como sendo o herói Gilgamesh sufocando um leão. Museu do Louvre, Paris.

A Epopéia de Gilgamesh é a obra mais famosa da literatura da antiga Mesopotâmia. Era, na verdade, um conjunto de estórias e não uma única obra, como seria a Odisséia de Homero, muitos séculos mais tarde. Segundo  Sandars:

Os próprios escritores da Antiguidade referiam-se A Epopéia como "o ciclo de Gilgamesh", um poema em doze cantos, cada um com mais ou menos trezentos versos, inscritos em tábuas separadas.

Ela foi escrita provavelmente por volta de 2500 a.C., embora haja indícios de que já existia há muito mais tempo, sendo transmitida através de uma tradição oral.

Devido a sua grande popularidade, foi recopiada diversas vezes nos séculos seguintes. No século 7 foi replicada por escribas por ordem do rei Assurbanipal e passou a fazer parte da Biblioteca de Nínive, grande centro cultural do império assírio.

Trechos da epopéia foram encontrados em tabuinhas de argila por todo o Oriente Médio, mas a versão mais completa ainda é aquela encontrada na biblioteca de Nínive no século 19, pelo explorador inglês Austen Henry Layard.

A Epopéia ainda pode sofrer alterações no futuro, há partes onde há lacunas e ainda existem milhares de tábuas em cuneiforme que não foram traduzidas, e podem vir a trazer novas estórias e complementos.

Esse resumo foi feito a partir da narrativa em prosa criada pela arqueóloga Nancy Sandars, e publicada no Brasil pela editora WMF Martins Fontes. Para ler nossa resenha desse livro clique aqui.

Personagens

A Epopéia original possui dezenas de personagens, mas nesse resumo que fiz ignorei aqueles que, na minha visão, não desempenham um papel essencial. Os que aparecem nesse texto são os seguintes:

Anu - Pai dos deuses e deus do firmamento.
Aruru - Deusa da criação.
Ea - Deus da água doce e da sabedoria, um dos criadores da humanidade.
Enlil - Deus da terra, do vento e do ar.
Enkidu - Homem criado a partir da argila por Aruru. Companheiro de Gilgamesh.
Gilgamesh - Herói da Epopéia. Semi-deus. 1/3 homem, 2/3 deus.
Humbaba - Gigante guardião da floresta.
Ishtar - Deusa do amor e da guerra. Rainha do céu e filha do deus Anu.
Ninsun - Mãe de Gilgamesh. Uma deusa menor que vivia em Uruk.
Shamash - Deus do sol.
Siduri - Deusa do vinho e da cerveja.
Touro do céu - Personificação da seca em forma de Touro.
Urshanabi - o barqueiro de Utnapishtin.
Utnapishtin - Sobrevivente do dilúvio e construtor do barco.

Prólogo

O prólogo traz um resumo da jornada que será narrada e descreve o personagem Gilgamesh, exaltando seus atributos físicos e o seu cárater corajoso. Também enaltece a construção das muralhas e do Templo de Ishtar em Uruk, que teriam sido levadas a cabo por ele.

1. A chegada de Enkidu

As aventuras heróicas começam com uma descrição de Gilgamesh: Nenhuma mulher era capaz de escapar da sua volúpia. E todos os homens sofriam com o seu furor. O povo se lamentava aos deuses, pedindo ajuda, e eles ouviram as suas súplicas. Aruru, a deusa da criação, criou Enkidu. Um homem igual a Gilgamesh, para que esse tivesse um rival à altura.

Enkidu surgiu na selva na forma de um homem não civilizado, se comportando como um animal, e sem conhecer os modos humanos. Ele vivia com as feras e as ajudava a fugir dos caçadores.

Um dia um caçador o enxergou. Angustiado ele voltou para casa, e contou a sua terrível visão a seu pai, em busca de conselhos. "Busque a ajuda de Gilgamesh, solicite uma prostituta do templo para seduzi-lo e isso fará com que os animais o repudiem", foi a resposta do velho. E ele assim o fez.

Enkidu avista a prostituta do templo. Ilustração do livro de Ludmilla Zeman.

Trouxe a prostituta para a selva e aguardou esperando que Enkidu aparecesse novamente.  Quando Enkidu surgiu e viu a prostituta que o esperava, foi seduzido e fez sexo com ela. E ela lhe ensinou as artes das mulheres por 7 dias e 7 noites. Como previsto, os animais o rejeitaram depois disso, pois ele havia perdido suas forças e o sexo havia tirado sua inocência e o tornado civilizado, lhe dando conhecimentos e pensamentos de homem.

Enkidu então retornou para a mulher. Ela o convenceu a ir com ela para Uruk. Ele então poderia enfrentar o poderoso Gilgamesh, cujos feitos ela lhe narrou. Mas ela também lhe avisou que a sua força era extraordinária e ele saberia da sua chegada, pois seria avisado em sonho.

O sonho realmente ocorreu, e Gilgamesh o descreveu para sua mãe, Ninsun: "Um meteoro caiu do céu, Gilgamesh tentou levantá-lo, mas ele era muito pesado. Toda a gente de Uruk veio e lhe beijou os pés. Ele exercia sobre Gilgamesh uma grande atração. E você afirmou que ele era meu irmão."

Ninsun lhe disse que Gilgamesh e essa "estrela do céu" iriam se dar bem. Gilgamesh então menciona um segundo sonho, em que Enkidu aparece representado como um machado que ele deseja muito.

Enquanto isso, Enkidu e a prostituta estão a caminho de Uruk e, durante o trajeto, ele caça e come lobos e leões, protegendo os pastores da região. Um dia, aparece um homem contando que está fugindo de Uruk, onde Gilgamesh "faz coisas estranhas", e Enkidu decide ir desafiá-lo.

Ao chegar a Uruk os dois lutam, mas depois de um tempo percebem que algo os impede de continuar. Então viram grandes amigos.

Enkidu e Gilgamesh lutam. Ilustração moderna, autor desconhecido.

2. A jornada pela floresta

Gilgamesh tem um sonho e o compartilha com Enkidu. Tomado de angústia, Enkidu explica que o significado do sonho era que Gilgamesh seria um grande rei, mas que não deveria abusar de seu poder, e que ele, assim como todos os homens, estava fadado a morrer. Gilgamesh nunca iria gozar da vida eterna.

Gilgamesh propõe, então, que ambos façam a jornada até a floresta para matar o gigante Humbaba, para assim gravar seu nome na história e erguer um templo aos deuses. Enkidu diz que isso é uma má idéia e que deveriam primeiro pedir permissão a Shamash, o deus do Sol, que era o dono da floresta.

Gilgamesh leva dois cordeiros brancos até Shamash e pede proteção na tarefa, prometendo presentes e louvores ao deus em caso de sucesso. Shamash dá seu apoio a empreitada, e até manda fazer armas para os guerreiros: um machado e um arco que pesavam 27 quilos (60 libras).

Gilgamesh anunciou, então, ao povo de Uruk o seu desejo de lutar com o gigante. Eles ficaram receosos com a notícia. Gilgamesh e Enkidu decidiram pedir o conselho da rainha Ninsun, e solicitar que ela rezasse a Shamash pedindo a sua proteção. Ela o fez. Os conselheiros de Uruk também deram conselhos. Disseram que Enkidu deveria ir na frente, pois já possuia experiência em muitas batalhas.

Os amigos iniciam a viagem. Entre a chegada a floresta e o encontro com o gigante Gilgamesh têm uma série de sonhos proféticos, que compartilha com Enkidu.

Mas um dia, quando Gilgamesh derruba um cedro da floresta com seu machado, o gigante ouve e fica muito furioso. Enkidu demonstra medo e quer retornar. Quando o gigante aparece, Gilgamesh pede a ajuda de Shamash que envia os oito ventos. Os dois então se põe a cortar as árvores e isso deixa o gigante mais enraivecido.

O gigante implora para que Gilgamesh poupe sua vida, mas Enkidu o convence do contrário. Eles o matam e apresentam a sua cabeça em oferenda aos deuses. O deus Enlil, irritado, os amaldiçoa, e dá os setes esplendores do gigantes a outros seres da natureza.

Gilgamesh e Enkidu oferecem a cabeça do gigante Humbaba ao deus Shamash. Ilustração do livro de Ludmilla Zeman.

3. Ishtar e Gilgamesh: a morte de Enkidu

A beleza e virilidade de Gilgamesh chamaram a atenção da deusa Ishtar. Ela lhe disse que se ele se tornasse seu marido, ela lhe daria muitas coisas. Gilgamesh retrucou dizendo que todos os amantes da deusa haviam tido um destino ruim, e que ele não queria ser o próximo.

Em cólera, Ishtar se lamentou para seu pai Anu, pedindo que ele lhe desse o Touro do Céu para que ela pudesse punir a arrogância de Gilgamesh. Anu avisou que isso traria 7 anos de seca para Uruk. Ishtar o tranquilou, dizendo que ela havia guardado grãos para as pessoas e capim para o gado. Anu aquiesceu e levou o Touro a Uruk.

Lá ele abriu fendas no chão que engoliram 300 homens. Enkidu e Gilgamesh então se uniram e o mataram juntos, e ofereceram seu coração em oferenda a Shamash.

Gilgamesh lutando contra o Touro do Céu. Capa do livro de Geraldine McCaughrean, ainda inédito no Brasil.

Ishtar ficou furiosa e amaldiçoou Gilgamesh. Enkidu, ao ouvir a maldição, arrancou a coxa direita do touro e atirou no rosto da deusa, ameaçando-a com palavras duras. Ishtar então conclamou seu povo do templo para fazer o velório do Touro do Céu.

Gilgamesh removeu os gigantes chifres do touro que eram revestidos de lápis-lazúli e os ofereceu ao seu deus protetor, Lugulbanda. Depois ele os pendurou na parede do seu palácio. Eles foram celebrados por toda cidade e, então, os heróis descansaram.

Enkidu teve um sonho em que via os deuses em reunião dizendo que um deles tinha que morrer, pois suas ofensas aos deuses haviam sido demasiadas. A isso houve protestos de Shamash.

Enkidu se entristeceu e ficou enfermo, entrando em estado de melancolia, amaldiçoando o caçador que o viu e a prostituta que o tirou da selvageria. Após ser repreendido por Shamash ele se arrependeu e trocou a maldição por uma benção.

Enkidu teve um sonho e o contou para Gilgamesh: Um homem-pássaro de feições sombrias o levava para o palácio de Irkalla, a rainha das trevas. Enkidu faz então uma descrição da atemorizante vida após a morte. Gilgamesh derramou lágrimas ao conhecer o destino final do homem.

A doença de Enkidu piorou e ele disse que seria amaldiçoado por não morrer em batalha, tendo que se contentar com uma morte vergonhosa. Gilgamesh chorou e discursou aos conselheiros de Uruk, louvando as qualidades de Enkidu e todos choraram por ele. Quando Enkidu finalmente morreu, Gilgamesh foi tomado por um ataque de fúria arrancando seus próprios cabelos. Por 7 dias e 7 noites ele chorou por ele, até que os vermes tomaram seu corpo. E então ele o enterrou.

Gilgamesh chora a morte de Enkidu. Ilustração de Noora Heykiller. Via Twitter.

Gilgamesh ordenou que fizessem uma estátua de seu amigo, com ouro e lápis-lazúli, e então fez uma oferenda a Shamash.

Continue lendo essa série:
Resumo da Epopéia de Gilgamesh - Parte 2/2

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No começo da Epopéia Gilgamesh é retratado como um líder cruel. Relevo produzido pelo escultor Neil Dalrymple para o Museu Mythstories, do oeste da Inglaterra.

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Fontes bibiliográficas:

ANÔNIMO. A Epopéia de Gilgamesh. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

Artigo publicado em 08/09/2018.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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