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Guerra de Canudos para Iniciantes

Artigos > Brasil República  |  544 visualizações  |  1546 palavras

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Capa do artigo: Guerra de Canudos para Iniciantes

Foto promocional do filme Canudos de 1997.

Canudos foi um movimento social que ocorreu no nordeste brasileiro nos primeiros anos após a proclamação da república, e é considerado o mais importante movimento popular da República Velha. Muitas vezes se fala de Canudos como se ele fosse apenas um conflito militar, mas é essencial entender a importância do movimento social que levou à fundação de Canudos, para assim compreender como a questão social era vista nos primeiros anos da república brasileira.

Duas décadas após o fim de Canudos, o presidente Washington Luis resumiu em uma única frase qual era a visão das elites sobre os movimentos populares. A célebre frase, que até hoje estampa os livros de História, é contundente: “A questão social é caso de polícia.” Ou seja, a solução para os conflitos sociais era a repressão policial e a prisão. Tendo isso em mente fica mais fácil entender como um movimento popular como Canudos, aparentemente pacífico, teve como conclusão um trágico genocídio.

Foto oficial de Washington Luís, presidente do Brasil entre 1926 e 1930. Via Wikimedia Commons.

O personagem central da história de Canudos foi Antônio Conselheiro, um andarilho nordestino que pregava à palavra cristã em suas andanças pelo nordeste e conquistava a população carente com seu discurso pacifista e anárquico.

Conselheiro nascera no Ceará, filho de um comerciante que pretendia fazer dele um padre. Depois de ter problemas financeiros e complicações domésticas, exerceu várias profissões como professor, vendedor ambulante, até se converteu em beato - um misto de sacerdote e chefe de jagunços. Levava uma vida nômade pelo sertão, congregando o povo para construir  e reconstruir igrejas, erguer muros de cemitérios e seguir o caminho de uma vida ascética. (FAUSTO, p.257)


Várias mudanças no cenário político estimulavam uma visão cada vez mais crítica do governo. Enquanto a monarquia sempre havia mantido uma relação distante da população e conservava certo caráter sagrado, ligado a teoria do direito divino dos reis, a república, que ainda não tinha uma grande legitimidade, passou a exercer um papel mais efetivo na vida das pessoas. E não foi um papel positivo. O início da cobrança de impostos fez muitas pessoas começarem a contestar o papel do Estado. Antônio Conselheiro, que através de suas andanças e pregações, conquistava cada vez mais seguidores, era um crítico ferrenho da nova ordem política.

E foi pela de cobrança de impostos que tudo começou. Em 1893 os seguidores de Antônio Conselheiro se revoltaram contra os novos impostos e queimaram os editais que divulgavam a cobrança, enquanto estavam de passagem pela cidade de Bom Conselho. As autoridades locais reuniram homens para reprimir a manifestação e foram derrotados pelos seguidores do Conselheiro. Depois disso, ficou claro que a única forma de manter o seu povo seguro, era procurar um local para se fixar, afastado dos grandes centros urbanos.

Antônio Conselheiro. Ilustração moderna, autor desconhecido.

O local escolhido - conhecido como Canudos - recebeu o povoado que Antônio Conselheiro nomeou de Belo Monte. Ali os seguidores do Conselheiro começaram a erguer suas moradias permanentes e construir uma nova vida. Queriam viver em uma sociedade própria, onde o Estado brasileiro não mais pudesse exercer repressão e onde tivessem liberdade para decidir o seu futuro.

Belo Monte cresceu rapidamente, cedo transformando-se em uma das cidades mais populosas da Bahia. Sem qualquer planejamento, as casas de taipa de pau-a-pique eram construídas arbitrariamente, sendo comum os fundos de uma casa estarem colocados diante da frente ou do lado de outra casa. Só havia uma rua principal que dividia a cidade em duas e terminava na praça onde existia a Igreja Velha e a Igreja Nova. (AQUINO, p.146)

Belo Monte era um povoado relativamente organizado. Contava com a Guarda Católica. Um grupo de 600 homens responsáveis por fazer a defesa da cidade. Muitos deles eram antigos cangaceiros ou foragidos que haviam se juntado ao movimento para fugir das autoridades e/ou buscar uma vida melhor.  Também contava com seu próprio prefeito, escola e até uma prisão. Era uma legítima cidade no meio do sertão, com o único porém de não pagar impostos e não obedecer as autoridades estaduais e federais.

Antônio Conselheiro era o líder religioso e espiritual, e ditava as regras do povoado: Monte Belo tinha leis proibindo o consumo de bebidas alcoólicas e a prostituição. Embora tivesse uma prisão, durante seus quatro anos de história, ela passou a maior parte do tempo desocupada. A criminalidade em Monte Belo era quase inexistente.

Monte Belo tinha um economia socialista, a produção agrícola e pastoril era dividida igualmente entre todos os habitantes. Ninguém era rico, mas ninguém passava fome. O que era um grande avanço para muitos dos seus moradores.

A guerra de Canudos

A guerra de Canudos começou com um mal entendido, o caso das Madeiras em Juazeiro. Antônio Conselheiro encomendou madeiras na cidade de Juazeiro para construir uma nova igreja, o pagamento foi adiantado. O atraso na entrega das madeiras fez Antônio Conselheiro enviar uma mensagem sugerindo que algumas pessoas de Canudos poderiam ir buscar a madeira caso o transporte fosse o problema. Essa mensagem foi entendida como uma ameaça e a administração de Juazeiro decidiu pedir ajuda para defender a cidade de um possível saque. Os cem homens que vieram, comandados por um tenente do exército, foram até Juazeiro e esperaram pelo ataque, que nunca aconteceu. Inconformado o tenente partiu em perseguição ao povo de Canudos. A 50 km do povoado as tropas foram confrontadas por forças de Canudos - que ficaram sabendo do ataque eminente - e foram derrotadas.

Momentos derradeiros do movimento de Canudos, no interior da Bahia, registrados por Flávio de Barros. Via Wikimedia Commons.

A partir daí outras três expedições tentaram acabar com o povoado, que passou a ser visto como um grande perigo pelas autoridades que ainda não haviam tido comprovação da capacidade de defesa de Canudos. A cada expedição a força militar aumentava, a organização era mais eficiente e mais bem armada. Mesmo assim foram necessários quase 12 meses para destruir o povoado, além das campanhas terem custado a vida de diversos oficias renomados do exército e milhares de soldados.

A grande capacidade de resistência do povoado de Canudos frente ao poderio do exército brasileiro se deve a vários fatores:

Falta de organização das primeiras expedições
A terceira expedição comandada pelo coronel Moreira César é um bom exemplo. O comando da expedição se deixou levar pelo entusiasmo e acreditou que poderia vencer a guerra em uma única ofensiva fulminante. O resultado foi uma derrota retumbante.

Dificuldades de manter o exército abastecido de armas e comida
Canudos ficava no meio do sertão, há 200 km da ferrovia mais próxima e isso dificultou muito as operações de abastecimento do exército. Além disso, o clima da região tornava todas as operações muito difíceis.

Falta de conhecimento do terreno
As forças de Canudos, ao contrário do exército, conheciam muito bem a região e travaram uma guerra de guerrilha muito eficiente, se aproveitando ao máximo dessa vantagem. Os diversos jagunços que se juntaram a causa de Canudos já tinham um grande conhecimento de como lutar naquela região, com aquela vegetação e com aquele clima.

Canudos tinha muitos armamentos
Cada nova expedição que falhava, deixava seus armamentos para trás, tornando Canudos um povoado com uma capacidade de defesa cada vez melhor.

O fim da guerra

O povoado de Canudos teve seu fim no dia 5 de outubro de 1897, com a morte de seus últimos defensores. Esse é um episódio que resume muito bem a dificuldade que as elites do centro do país tinham para entender o ponto de vista dos pobres durante a República Velha. O governo brasileiro não conhecia o povo de Canudos, não conhecia a dificuldade da vida no sertão e não compreendia o porquê dessas pessoas estarem tão ferrenhamente contestando a ordem social vigente.

O corpo de Antônio Conselheiro após a batalha. Única foto existente do líder de Canudos. Fotografia de Flávio de Barros. Via Wikimedia Commons.

O povoado de Canudos tinha por objetivo apenas viver sem a intervenção de um poder, que para eles era estrangeiro, era estranho, e não trazia nenhum benefício para sua vivência. E por isso pagou com a vida, defendendo aquilo que acreditava: no único lugar do Brasil onde eles eram tratados como iguais e não tinham que compactuar com o poder dos coronéis e com o pagamento de impostos, que de qualquer forma não os beneficiava.

O genocídio do povo de Canudos é um exemplo claro do que significava a frase do presidente Washington Luis: “A questão social é caso de polícia.”

Interessados no tema podem assistir o filme "Guerra de Canudos" produzido em 1997 pelo diretor Sergio Rezende, com José Wilker no papel de Antônio Conselheiro. É um filme muito bem realizado, que vai ajudá-lo a entender melhor todos os temas tratados nesse texto. O longa tem 2h40m de duração e pode ser encontrado em DVD e no YouTube.

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Fontes bibiliográficas:

AQUINO, Rubim Leão dos Santos. Sociedade brasileira. Uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2005.
COIN, Cristina. A Guerra de Canudos. São Paulo: Scipione, 1995.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2009. SOLA, José Antônio. Canudos – Uma utopia no sertão. São Paulo: Contexto, 1989.
Wikimedia Commons. Antônio Conselheiro. Acesso em 03 abril 2016.
Wikimedia Commons. Prisão de Jagunços pela cavalaria. Acesso em 03 abril 2016.
Wikimedia Commons. Washington Luís. Acesso em 03 abril 2016.

Artigo publicado em 03/04/2016.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 34 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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