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5 Mitos estúpidos sobre as guerras que todo mundo acredita (Graças aos filmes)

Artigos > Outros temas de História  |  1,3 mil visualizações  |  3069 palavras

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Capa do artigo: 5 Mitos estúpidos sobre as guerras que todo mundo acredita (Graças aos filmes)

Foto promocional de "300", filme sobre a batalha de Termópilas (Grécia, 480 a.c),
e baseado nos quadrinhos de Frank Miller.

Mesmo que você nunca tenha estado em guerra, você provavelmente acha que pode identificar onde os filmes de guerra estão errados. Certamente os espartanos não entraram em batalha vestindo apenas capas e tangas, e obviamente os caras não estão pegando metralhadoras pesadas e derrubando exércitos inteiros, estilo Rambo. Mas se você começar a se aprofundar nos erros que os filmes de guerra cometem, você descobrirá que a resposta é tudo. Até mesmo o material que parece bastante autêntico.

Mitos comuns incluem ...

5. "Batalhas Antigas começavam com uma carga e se transformavam em combates corpo-a-corpo"

Cena do filme 300 (2006).

Onde você viu:
Coração Valente, 300, Rei Arthur, e todos os outros filmes do gênero.

Dois exércitos estão alinhados uns contra os outros em um campo. Os generais dão a ordem de atacar, e ambos os exércitos mantêm uma formação disciplinada por... cerca de um minuto:

Nesse ponto, qualquer semelhança de uma formação se desfaz quando as tropas apenas correm gritando em um corpo a corpo maciço, no estilo Coração Valente. A batalha se transforma imediatamente em uma total confusão, permitindo que os personagens principais nos mostrem a superioridade de seus ataques bacanas contra figurantes aleatórios. Em depois, o protagonista inevitavelmente localiza o principal vilão ou seu tenente, e ele normalmente apenas caminha em direção a eles no meio do campo, matando alguns inimigos no caminho.

Mas na verdade ...

Claro, algumas pessoas corajosas costumavam lutar assim. Ou melhor, tentavam. Você sabe como a história os chama agora? Perdedores ou "desculpa, quem?"

A razão pela qual os exércitos dos antigos macedônios e romanos tendiam a ganhar contra povos menos organizados (digamos, os celtas) não é porque todos e cada um de seus soldados eram mais ferozes em combate único. É porque suas tropas profissionais ficavam naquelas formações tediosas e organizadas e, especificamente, evitavam se lançar desordenados contra o inimigo. Suas tropas bem armadas e disciplinadas se organizavam em fileiras e abriam caminho pelo campo, um passo de cada vez. Aquele primeiro minuto de batalha no clipe 300 foi surpreendentemente preciso ...

... isso antes que todos de repente ligassem o modo Matrix e ganhassem o poder de lutar em câmera lenta:

Essa formação fortemente protegida (uma parede de escudos) é essencialmente um tanque, que permitiria que os exércitos passassem pelo campo de batalha, espetando todos com suas lanças, resistindo ao desejo natural de atacar sozinho e se consagrar. Antes da invenção da arma de fogo, a maioria das culturas de guerreiros de sucesso organizou formações especiais como essa para atacar seus oponentes, que eram menos organizados. Até mesmo os vikings, os garotos-propaganda da raiva bárbara indisciplinada, freqüentemente lutavam em formações básicas de parede de escudos.

Quanto ao mito de "quebrar a formação para se envolver em combates corpo a corpo ", isso simplesmente não acontecia se os guerreiros soubessem o que estavam fazendo. A questão sobre lutar ombro a ombro em formação próxima, e perto o suficiente para o inimigo cheirar seu desodorante, é que você não tem muito espaço para dançar por aí balançando uma espada. Como tal, especialmente durante a era clássica da Grécia e Roma, as batalhas entre hoplitas ou legiões consistiam principalmente em qual lado era melhor em manter sua linha e empurrar o outro lado para trás.

Traduzido a partir de criação de Daniel Adams. Via Wikipedia.

Em outras palavras, era realmente tedioso, tanto para assistir quanto para participar. Você pode ver a ironia aqui; o método de batalha que o público quer ver agora - acrobático, um contra um, para provar quem é o melhor homem - era o método que fazia os exércitos levarem uma surra!

Agora, todos nós sabemos que, séculos depois, exércitos tentaram usar a mesma tática usando mosquetes, alinhando-se no campo de batalha em uniformes extravagantes apenas para serem abatidos por inimigos mais inteligentes atirando da cobertura. Em outras palavras ...


4. "Mosquetes transformaram a guerra linear em um suicídio em massa ridículo"

Onde você viu:
O Patriota, Último dos Moicanos, e qualquer filme sobre as Guerras Napoleônicas ou a guerra do século 18 em geral.

Cena do filme O Patriota (2000). Fileira inglesa se aproximando do campo de batalha.

A era "vamos nos alinhar em um campo aberto e nos suicidar usando mosquetes inimigos" é o bobo da história da guerra: oficiais pomposos em perucas se olham de longe enquanto suas fileiras de soldados em chapéus engraçados e roupas enjoativamente brilhantes se preparam para lentamente marchar em direção uns aos outros. Cada parte educadamente atira um par de voleios que dizimam muitos oponentes. Depois disso, eles atacam uns aos outros com baionetas e se matam aos milhares.

Isso não era inteligente ou estratégico, mas, pelo amor de Deus, era assim que era 'feito nos bons e velhos tempos! Você sabe, quando guerras foram travadas por cavalheiros. Mais chá, Jenkins?'

Mas na verdade ...

É improvável que a guerra linear fosse a escolha de qualquer pessoa como melhor estratégia. Isso só foi feito porque, por um longo período na história militar, a tecnologia das armas de fogo era péssima. Pode parecer que eles estavam usando suas armas da mesma forma que a gangue de 300 usava suas lanças, mas não é porque eram idiotas que não conseguiam pensar em uma alternativa. As armas não eram muito boas para mais nada.

Soldados nos séculos 17, 18 e 19 lutaram em formações em linha, em grande parte porque os mosquetes de cano liso que eles usavam eram realmente imprecisos; na verdade totalmente inúteis além de 45 metros. Adicione a isso o fato de que os mosquetes produzem tanta fumaça que, depois de alguns tiros, todo o campo de batalha era obscurecido por ela, e basicamente sua única chance era fazer com que seus homens ficassem em uma fila enorme e disparassem na mesma direção geral. Esperando que o enxame voador de projéteis pudesse acidentalmente matar um inimigo ou dois.

Batalha de Bunker Hill. Pintura de Percy Moran (1862-1935). Via Wikimedia Commons.

Os mosquetes eram como um dado com 20 lados da guerra de pólvora.

Ocasionalmente, eles até matavam alguém, mas não na velocidade que Hollywood quer que você acreditasse. Em geral, uma batalha da Guerra Civil Americana no século 19 teve um número de mortos de apenas 13 a 15% (mais sobre esse tema no decorrer do artigo).

E quanto à parte não-idiota da guerra linear, a temível carga de baionetas? Elas certamente ocorreram, mas sua eficácia de assassinato foi baixa. As estatísticas do período dos mosquetes mostram que até mesmo algumas das batalhas mais sangrentas causaram apenas 2% de baixas infligidas por baionetas. Pelo menos metade deles vieram de pessoas que se esfaquearam quando se sentaram.

Isso nos ajuda a desmascarar esse próximo mito ...

3. "Quase todo mundo morria no lado perdedor"

Onde você viu:
O Último Samurai, Platoon, Gladiador, Coração Valente

A batalha acabou e a poeira baixou. Homens caídos cobrem o chão em todas as direções. Os poucos personagens principais sobreviventes olham ao redor e se consolam com o fato de que eles são parte dos sortudos que conseguiram sobreviver. O lado oposto foi morto ou, os poucos que ainda vivem, viraram as costas e fugiram.

A moral da história: a guerra é o inferno.

Mas na verdade ...

Com certeza ela é. Mas não porque todo mundo acaba morto. Você realmente teria dificuldade em encontrar um massacre completo no campo de batalha em qualquer lugar fora de uma sessão de Call Of Duty particularmente sanguinária. Mesmo uma rara super batalha como a batalha de Verdun, da 1° Guerra Mundial - geralmente considerada uma das batalhas mais mortíferas da história da humanidade - viu a maioria dos soldados se afastar com vida e os membros intactos. Os números finais foram esses, segundo arquivos federais alemães:

2,4 milhões de soldados no total
Até 976.000 baixas
305.000 mortos

E pior que isso não fica. Você notará que o número de casualidades é de cerca de 40%, e que isso mede quantos soldados são inutilizados - eles podem ter morrido ou sido feridos. Eles podem ter sucumbido à doença. Eles podem ter se rendido ou sido capturados, ou acabado de receber um caso grave de "foda-se, eu estou indo para casa".

Então, por exemplo, enquanto a Guerra Civil tem um número estimado de 1,5 milhões de baixas, estas "apenas" chegam a cerca de 620 mil mortos. Na batalha de Gettysburg, apenas cerca de 6% do exército perdedor da Confederação foi morto no campo. Isso se aplica até mesmo à era das espadas-e-piques de guerra: Enquanto cada lado tivesse escudos e armaduras, não eram muitos os caras que morriam durante uma luta de infantaria, simplesmente porque é muito difícil matar um homem usando uma armadura, tudo que você tem é uma lança ou uma espada curta que você não pode usar porque você está em um maldito campo de batalha e tudo está lotado.

A menos que você esteja de pé ao lado com um arco e flecha.

Se você quiser ver a verdadeira destruição da guerra, vá para o hospital militar mais próximo. O maior assassino em todos os campos de batalha da humanidade é, sem dúvida, a doença.

A razão pela qual há tão poucas baixas reais de combate em comparação, tem a ver com o nosso próximo mito ...

2 "Todo mundo está realmente tentando matar os outros"

Onde você viu:
Praticamente qualquer filme feito sobre guerra

O único tema constante nos filmes de guerra  são, é claro, pessoas em lados opostos tentando se matar. Não importa se é a Grécia antiga, o Japão feudal ou a França da Segunda Guerra Mundial: em toda guerra, todo homem está tentando ao máximo matar o inimigo. Eles não necessariamente gostam disso, mas precisam; porque se não o fizerem, o outro lado alegremente fará isso. Se alguém se recusa a participar da batalha, ele é apontado como um covarde. "Para vencer, precisamos que todo homem dê tudo de si, caramba!"


"Eles podem tirar nossas vidas..."
"ESTOU FORA!"

Mas na verdade ...

Você sabe o que deixa a grande maioria das pessoas realmente desconfortável? Assassinar pessoas aleatórias que elas nunca conheceram. Então elas tentam evitar essa parte da experiência de guerra. Pelo menos, a maioria delas.

Após a Segunda Guerra Mundial, os militares americanos fizeram estudos sobre quantos homens atirariam contra o inimigo por conta própria. Os resultados mostraram que apenas cerca de 15 a 20% dos homens atirariam voluntariamente no inimigo. O resto não iria disparar a menos que um oficial estivesse presente e, especificamente, ordenasse que o fizessem.

Provavelmente foi assim na maior parte da história - a maioria das pessoas simplesmente ficou de fora. Isso mudou recentemente, graças a exércitos profissionais (isto é, pessoas que realmente querem estar lá, em oposição aos antigos recrutas ou convocados), além de técnicas de condicionamento especificamente projetadas para desumanizar o inimigo e facilitar a matança. No momento em que a Guerra do Vietnã chegou, os militares dos EUA conseguiram aumentar  a taxa de disparos de seus soldados em até 90, 95%. Mas mesmo isso não significa que eles estavam realmente tentando acertar o alvo.

Sim, acontece que as tropas dos EUA dispararam 52.000 tiros para cada humano que eles atingiram durante a Guerra do Vietnã. É quase como se houvesse uma conexão entre essa e aquela coisa que acabamos de contar a você sobre a maioria das batalhas ter taxas de fatalidade surpreendentemente pequenas, e como as cargas de baioneta mal conseguiam matar alguém. Será que as pessoas têm tentado deliberadamente errar umas as outras tanto quanto podem se safar? É quase como se as pessoas realmente não gostassem da guerra.

Além disso matar uma pessoa com uma arma é, no mínimo,  difícil. Mesmo depois de mil anos ou mais de avanços na tecnologia. O que nos leva a ...

1 "Rifles inimigos e metralhadoras são o verdadeiro perigo; a artilharia é apenas ruído de fundo"

Onde você viu:
O Resgate Do Soldado Ryan, Band of Brothers, Gettysburg, Nada de novo no Front, Cavalo de Guerra, The Pacific

Um grupo de soldados está atacando uma posição inimiga, enquanto sujeira é atirada para todo lado toda vez que um explosivo cai no chão.. Alguns figurantes podem até ser atirados ao ar, mas na maior parte do tempo você sabe que todas as explosões de artilharia estão lá principalmente para criar um ambiente de medo. Enquanto as tropas se moverem rapidamente ou encontrarem cobertura, sabemos que provavelmente estarão bem.

Mas quando a força do protagonista encontra uma metralhadora ou um cara bem escondido com um rifle sniper, você sabe que a coisa ficou séria.

Mas na verdade ...

Certo, nós entendemos que Hollywood trata a artilharia principalmente como uma incoveniente - eles passaram décadas nos convencendo de que as explosões que transformam homens em esqueletos são um mero inconveniente.

Na realidade, no entanto, a artilharia é o seu pior inimigo no campo de batalha. As metralhadoras podem ser - e muitas vezes são, como evidenciado pelo nosso grande número de artigos sobre heróis de guerra - desativadas por um único indivíduo com complexo de Rambo. Quanto aos franco-atiradores snipers, eles geralmente não são considerados armas de destruição em massa, a menos que você esteja enfrentando a própria Morte Branca (o mais eficiente sniper da história). A artilharia, no entanto, tem sido a principal causadora de mortes em combate durante a maior das guerras,  desde a invenção da pólvora até a Segunda Guerra Mundial. Na Primeira Guerra Mundial, estima-se que entre 70% e 80% das baixas infligidas pelo inimigo foram com artilharia, enquanto metralhadoras e rifles estavam ocupados se escondendo no canto esperando que a gripe espanhola não os encontrasse.

Entre os mortos, 5% eram de pessoas que morriam tropeçando em minas.

Mesmo se você tirar esse fator de explosão da equação, os canhões são armas formidáveis. As balas de canhão de ferro sólidas usadas em conflitos como a Guerra Civil tinham uma tendência a não apenas aterrissar no chão - elas podiam passar por fileiras de soldados, rolando no chão como a própria bola de boliche do Diabo,  tirando membros a direita e a esquerda. E isso antes mesmo de se incomodarem em mudar para outras munições, como a metralha, que basicamente transformavam canhões em espingardas muito poderosas.

Metralhas.

Um exemplo do poder da artilharia: Um cara da história que as pessoas conhecem como Napoleão nunca trouxe qualquer super-armas ou inovação verdadeira para o campo de batalha. Uma grande razão por trás de seu considerável sucesso militar era o simples fato de que Napoleão tinha um enorme tesão pela guerra de artilharia, e ele entendia a destruição que elas poderiam infligir. Então ele se certificou de ter mais canhões do que seus oponentes, o que significa que ele poderia causar mais danos a longo distância, em um ritmo mais rápido.

E isso completa nosso argumento. Hollywood odeia esse tipo de guerra pela mesma razão que generais de verdade adoram: é impessoal. Um filme quer que cada morte no campo de batalha seja um duelo significativo entre dois caras fodões. Um cara atirando em outro, ou esfaqueando outro, ou voando com seu avião tão perto do inimigo que ele pode olhar diretamente em seus olhos antes de puxar o gatilho. Toda morte é o culminar de um drama pessoal entre heróis.

Ao invés de disparar armamento computadorizado contra um inimigo que você nem consegue ver.

Na realidade, a grande maioria das pessoas que morreram em um campo de batalha foi explodida em pedaços por bombas ou projéteis lançados indiscriminadamente por homens que não conseguiam nem vê-los, ou sucumbiu semanas depois da desidratação causada pela diarréia. E quem diabos quer assistir isso?

Tradução de texto escrito por Chris Janney
Agosto de 2015

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Artigo publicado em 06/09/2018.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 34 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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