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O exército dos Assírios

Artigos > Mesopotâmia  |  6,1 mil visualizações  |  1740 palavras

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Capa do artigo: O exército dos Assírios

Um cerco assírio a uma cidade inimiga. Ilustração moderna de Angus McBride.

Esse novo exército se tornou mais diversificado, com muitas tropas estrangeiras incorporadas as unidades profissionais assírias. Todos usavam uniforme e equipamento assírio e se tornaram indistínguiveis nas fileiras. Mesmo com essa grande participação de estrangeiros, era claro o elemento assírio principalmente na cavalaria e nas carruagens de guerra.

Além desse exército permanente também havia a guarda pessoal do rei, composta de cavalaria, carruagens e infantaria. Em época de campanha esses dois núcleos recebiam o reforço de tropas de camponeses fornecidas pelas províncias. Essas tropas usavam o seu próprio uniforme, tendo um equipamento menos profissional. No entanto, em muitas ocasiões, não era necessário recorrer a elas.

A proporção do exército assírio era de uma carruagem para cada dez cavaleiros e cem soldados de infantaria. Analiseramos agora cada uma dessas unidades:

Infantaria

A infantaria formava o grosso do exército. E existiam vários tipos e funções, sendo as principais: arqueiros, lanceiros, soldados com fundas, e portadores de escudos.

Soldados de infantaria do exército assírio. Observe o escudo com a curvatura na parte superior. Ilustração publicada na revista alemã Muchener Bilderbogen no final do século 19. Fonte: Alamy

Arqueiros eram a força ofensiva principal. Atuavam em duplas, sendo um deles o portador do escudo. Os escudos variavam em forma mas o que ficou mais famoso era aquele com a altura de um homem e uma curva no topo, feito de junco trançado.

Fundeiros atuavam em conjunto com arqueiros, jogando projetos para que caíssem de cima para baixo, atrás das linhas de escudos inimiga.

A lança foi introduzida no exército por Tiglath-Pileser III e os soldados de infantaria usavam como proteção apenas escudo e elmo, mas os soldados de elite usavam a chamada armadura lamellar no tronco (como a usada pelo arqueiro na ilustração acima). Escaramuçadores leves eram fornecidos pelas tropas estrangeiras.

Cavalaria

É interessante analisar o desenvolvimento da cavalaria a partir do seu uso no exército assírio. Há evidências de que cavalos eram usados pelos exércitos desde o século 9 a.C. Mas a cavalaria só se tornou uma força realmente importante para o exército a partir do século 7 a.C.

Registros mostram que, nessa época, os cavaleiros já eram capazes de controlar seus cavalos individualmente e utilizar armas como arcos e lanças sobre eles. Os cavalos também já possuíam alguma proteção no tórax, peito e flancos contra ataques de lanças e flechas.

Um cavaleiro assírio. Ilustração moderna, autor desconhecido.

No desenvolvimento da cavalaria assíria, houve um grande papel dos povos iranianos. Através de diversas campanhas além dos montes Zagros, os assírios entraram em contato com elamitas, medas e persas, que foram os primeiros povos a adaptar o uso de cavalos para a guerra.

O encontro com tais forças, obrigou os assírios a se adequar a essa nova forma de fazer guerra. No tempo de Tiglath-Pileser III (r. 745-727), incursões no Irã já eram levadas a cabo unicamente por tropas de cavalaria, com o objetivo de capturar, saquear e destruir assentamentos iranianos para levar espólios. As incursões assírias chegavam a reunir até 1000 cavaleiros e alcançaram o monte Damavand, mostrando a eficência do uso da cavalaria.

O Monte Damavand, no atual Irã.Mapa do Oriente Médio em 727 a.C. com o Monte Damavand em destaque. Fonte: Geacron

Para manter o estoque de cavalos do exército, os assírios possuíam quatro fontes:

  • Incursões organizadas exclusivamente para roubar cavalos de outras cidades ou povos nômades.
  • Cavalos exigidos como parte do tributo de estados vassalos.
  • E o mais importante: o controle da criação de cavalos dentro do reino, por altos oficiais assírios que se reportavam diretamente ao rei. Havia um controle do local e das condições dos animais dentro do reino.
  • Das províncias mais distantes os cavalos eram levados em grande número para o arsenal militar onde eles e seus cavaleiros eram treinados.

Carros de guerra

Os carros de guerra foram durante muito tempo a principal força ofensiva do exército. Serviam como plataforma móvel para arqueiros e atuavam como um veículo de choque para quebrar linhas inimigas.

A carruagem de guerra assíria. Ilustração moderna de Angus McBride.

As carruagens assírias eram as maiores da antiguidade, podendo levar de 3 a 4 homens. Seu uso era limitado a terrenos regulares, mas em planícies ela era imparável, sendo muito rápida e pesada. No século 7 a.C. ela carregava 4 homens e era puxada por 4 cavalos, e sua chegada deveria ter causado horror nos olhos inimigos.

Armas de cerco

Todas as grandes cidades da antiguidade tinham muralhas. Logo, embora os assírios preferissem lutar em campo aberto, as armas de cerco eram essenciais. As cidades eram isoladas, buscando levar sua população a fome e ao caos social, e levar a sua rendição.

Os assírios possuíam armas e táticas voltadas para o cerco, mas o caráter delas era mais psicológico. As cidades normalmente não eram conquistadas através de invasões e ataques diretos. As práticas de cerco visavam abalar a moral dos habitantes e forçá-los a rendição. Era comum que cercos durassem meses ou até anos.

Soldados assírios atacando as muralhas de uma cidade egípcia usando uma escada. Relevo do Palácio Norte de Nínive. Museu Britânico. N° 124928

No começo do século 7 os assírios fizeram um cerco a cidade da Babilônia que durou cinco meses. Algum tempo depois, em 652, uma nova revolta levou a um novo cerco à cidade. Esse se arrastou por quatro anos, até que o povo faminto da cidade se rendesse. Há registro de que, antes da rendição, parte da cidade já havia se entregue a práticas de canibalismo para sobreviver.

Os assírios eram metódicos, desenvolviam táticas de cerco de acordo com as características específicas das fortificações inimigas. Faziam tentativas de enfraquecer as muralhas com uso de máquinas com lâminas, e também através da atuação de mineiros, que usavam ferramentas para fragilizar a muralha.

Assalto diretos à cidades sitiadas costumavam causar muitas baixas no exército assírio e, por isso, eram evitadas.

As principais campanhas

Quando os assírios eram convocados para a guerra, a reunião das tropas acontecia nos arsenais de Kalhun, Nínive e Dur-Sharrukin. Ordens eram enviadas aos governadores para convocar os levies, e preparar um estoque de milho, óleo e equipamentos de guerra. Se necessário, os estados vassalos convocavam suas tropas.

Essa organização permitia a reunião de um grande número de soldados. Shalmaneser III fala de um exército de 120 mil indo em direção à Síria. Um exagero, é claro, é mais provável que os números girassem em torno de 50 mil ou menos. Segundo Healy, alguns registros falam que essa coluna de soldados era capaz de andar 48 km por dia.

Os principais inimigos dos assírios no período do Novo Império foram os sírios, egípcios, urartianos e elamitas. Esses últimos foram eventualmente destruídos, em campanhas realizadas no reinado de Ashurbanipal III (r. 668-627). Segundo os anais dos assírios, eles arrasaram a região do Elam durante um mês e 25 dias. O vácuo de poder deixado pelos elamitas permitiu a ascensão dos medos e persas nas décadas seguintes.

Mas o grande problema dos assírios foram os Babilônicos.

A relação com essa cidade sempre foi muito complexa. Os assírios tomaram o controle dela na época do rei Tiglath-Pileser III e isso permaneceu assim até a queda do império. Durante os mais de cem anos de dominação, a Babilônia foi uma região sacudida por revoltas, e foi uma das que mais sentiu o peso da mão do exército assírio. Mas, embora a cidade tenha sido destruída e saqueada pelos assírios em algumas ocasiões, vários reis assírios fizeram esforços para reconstruir a Babilônia. Segundo nos conta Healy:

"Essa mudança de coração reflete a ambivalência que muitos assírios sentiam em relação à Babilônia, que estava no centro da forma como o norte lidava com o vizinho do sul. Considerada a segunda cidade do império, também foi vista com reverência como cidade santa e um grande centro cultural. Tais sentimentos geraram fortes paixões, e havia claramente partidos pró e anti-Babilônicos na corte Assíria. Embora inicialmente simpático, o rei assírio adotou uma política cada vez mais hostil à medida que as questões se intensificaram." (HEALY, 1999, p.46, tradução nossa)

O grande líder das rebeliões na Babilônia era Merodoch-Baladan, que contou com o apoio do Elam para tentar desestabilizar o poder assírio. Diversos conflitos entre Babilônia e Assíria ocorreram no século 8 e 7 a.C., levando eventualmente a queda do Império Assírio em 612 a.C., quando os Babilônicos formaram um coalizão com a nova potência do leste, os Medas.

Abaixo você confere uma galeria com ilustrações modernas da aparência do exército assírio. Também coloquei alguns relevos de palácios assírios que retratam cenas de batalhas e aspectos do militarismo assírio.

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Soldados assírios atacam uma fortaleza inimiga
O exército assírio em campanha
Arqueiros assírios sendo protegidos por escudos
Arqueiro assírio
Um arqueiro assírio
Arqueiro assírio
Arqueiro assírio e alguns dos diversos tipos de arcos usados na época
Arqueiro assírio
O rei Senaqueribe acompanha um cerco no século 8 a.C.
Um soldado assírio contra um núbio.
Soldado de infantaria assírio
Guarda assírio protegendo a entrada de um portal
Carruagem de guerra assíria
O rei Tiglath-Pileser III sendo saudado por suas tropas
Cavalaria e Infantaria assíria. Século 7 a.C.
Um cerco assírio
Membros da guarda real assíria no século 7 a.C.
Soldados da infantaria Assíria, século 8 a.C.
Relevo do Palácio de Nimrud (Kalhu) - Sala B, Painel 18.
Relevo assírio do Palácio Sudoeste de Nínive - Sala 1 Painel 16
Relevo do Palácio Sudoeste de Nínive. Sala 36 (OO). Painel 11.
Relevo do Palácio Noroeste de Nimrud. Sala WG, canto noroeste.
Relevo do Palácio Noroeste de Nimrud. Sala B, Painel 10 (embaixo)
Relevo do Palácio Norte de Nínive. Sala L, Painel 9-13
Relevo do Palácio Central de Nimrud
Elmo de ferro assírio
Relevo do palácio Central de Nimrud

Soldados assírios atacam uma fortaleza inimiga

Ilustração moderna, autor desconhecido.

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Fontes bibiliográficas:

HEALY, Mark. Ancient Assyrians. Oxford: Osprey Publishing, 1999.
WISE, Terence. Ancient Armies of the Middle East. Oxford: Osprey Publishing, 1999.

Artigo publicado em 03/10/2018.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 34 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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