Notas

{890} Esta palavra tesouro significa aqui as oferendas feitas ao templo pelos habitantes de Acanto. Vide os pormenores acerca destas oferendas no capítulo XXXIII. A cidade de Acanto, que foi denominada depois Cassandra , ficava peito do monte Atos.
{891} Outros autores o chama m Aristócrito,
{892} Aristóteles, nos «Problemas», secção XXX, tomo II, pág. 815.
{893 } No primeiro ano da 93.ª olimpíada, 408 anos A. C.
{894} Os antigos geógrafos colocavam Focéia, uns na Btólia e outros na Jônia asiática. Mas trata-se , sem dúvida, de uma cidade jônia. Seus moradores devem ser chamados foceenses para se distinguirem dos fócios, naturais de Fóeida, província da Grécia. Foram os foceenses que se dirigiram à Gália, on de fundaram, em 539 A. C, Marselha, segundo Pétau.
{895} Quersoneso da Trácia, no estreito dos Dardanelos
{896} Provavelmente, alusão de Plutarco às antigas leis dóricas.
{897} Sardes, capital da Lídia, hoje Sart.
{898} Perto de Lesbos.
{899} Cidade da Ásia Menor, quase junto à costa, à entrada da Propôntida. Era famosa pelos seus vinhos.
{900} Foi depois denominada Novo Castelo da Europa, estando situada no estreito dos Dardanelos.
{901} Cidade do Quersoneso, nas costas do Helesponto.
{902} Esta guerra do Pelopone so durou 27 anos. Terminou no quarto ano da octogésimaterceira olimpíada, 405 anos A. C.
{903} Trata-se de fenômenos de eletricidade, observados em todos os séculos, mas que somente muito tempo depois se tornaram melhor conhecidos
{904} Plínio, II, 58, zomba com razão, desta pretensa predição feita, ao que se afirmou, por Anaxágoras, no segundo ano da 78 olimpíada.
{905} Plutarco não conta o motivo deste julgamento. Xenofonte (Hist. L. II.) no-lo narra. Os atenienses foram acusados de haver lançado ao mar todos os cativos de duas galeras e terem resolvido em plena assembleia cortar as mãos de todos os inimigos que aprisionassem. eles foram todos condenados a morte, com exceção de Adimante, que se opusera a esse decreto.
 Vide as sábias reflexões de Montesquieu sobre a força das penas. (Esprit des Lois, IV, 12).
{906} Ou seja, cortar as mãos de todas os prisioneiros, segundo conta Xenofonte.
{907} Não é do poeta, mas do historiad or, discípulo de Isócrates, que estas palavras são tiradas. Vide Muret (Var. Lect VII, 17). (Brotier). Muret se baseia naquilo que Teodoro Meto chita cita de passagem como sendo de Teopompo, o historiador; mas o testemunho deste escritor não t em peso, bastante para que deva corrigir Plutarco.
{908} Plutar co inverte aqui a ordem dos fatos, pois este episódio de Samos só se verificou, segundo Xenofonte, após a demolição das muralhas de Atenas, de que se tratará em breve.
{909} No grego: aos pilotes e aos celeustas. Estes últimos fiscalizavam a preparação e a distri buição dos alimentos nos navios. Suidas atribui-lhes autoridade sobre os soldados e os remadores, que eram por eles animados, seja durante as viagens, seja durante os combates.
{910} No grego: munychion .
{911} electra, vide 167
{912} Pausànias chama-o de Eteônico, e conta esta história de maneira um pouco diferente.
{913} No grego; o-Banquete.
{914} Xenofonte escreve que ele seguiu, não para a Trácia, mas para Samos.
{915} Vide a Vida de Licurgo, capítulo LXII
{916} Também chamado Alexandridas
{917} Historiador da ilha de Samos, da qual foi ti rano, segundo Ateneu. Viveu na época de Ptolomeu Piladelfo.
{918} Dacier conjectura, valendo-se do testemunho de Pausânias, que se deve ler aqui Tilfuso (B). O nome de Cissusa esta perfeitamente de acordo com o que Plutarco narra a respeito dessa fonte. Assim, não acho que se deva fazer qualquer alteração.

Apoie o site pelo Apoia.se e ajude a promover a História na internet brasileira.
Contribua a partir de R$ 1,00 por mês.

Vidas Paralelas: Lisandro, de Plutarco

Fontes primárias > Grécia Antiga  |  10 visualizações  |  16664 palavras

Lisandro foi um comandante militar espartano que liderou as forças de Esparta na fase final da Guerra do Peloponeso, um conflito contra Atenas que ocorreu entre 431-404 a.C.. A biografia de Lisandro faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Lisandro foi comparado ao ditador Sila.

Imagem de capa: Estátua de um hoplita conhecida como Leônidas, cerca de 480-470 a.c. Acrópolis de Sparta, Santuário de Athena Chalkiokos.

1. Estátua de Lisandro no templo de Delfos

1. Existe no tesouro{890} dos habitantes de Acanto, que se acha no templo de Apoio, na cidade de Delfos, a seguinte inscrição: "Brásidas e os Acântios — Despojos dos atenienses". Estes dizeres levaram vários escritores a acreditar que a estátua de pedra existente junto à porta da capela era a imagem de Brásidas; no entanto, trata-se da estátua de Lisandro, do tamanho natural, na qual ele é apresentado com uma abundante cabeleira e uma barba muito espessa e comprida, à maneira dos antigos. Não é verdade, como afirmam alguns, que os argivos, após terem sido derrotados numa grande batalha, mandaram rapar as cabeças, numa pública demonstração de luto, e que os lacedemônios, ao contrário, para testemunhar a sua alegria diante da vitória alcançada, deixaram crescer os cabelos. Também não é verdade que, quando os baquíadas fugiram de Corinto para a Lacedemônia, os espartanos, vendo-os com as cabeças rapadas, acharam-nos tão feios e disformes que decidiram deixar crescer a barba e os cabelos. O certo é que este costume lhes veio de Licurgo, na opinião de quem uma longa cabeleira realça a beleza dos que são naturalmente belos e torna ainda mais feios os que já nasceram feios.

2. Família, educação e caráter de Lisandro

2. Segundo se diz, Aristóclites{891}, pai de Lisandro, não era da casa dos reis de Esparta, embora fosse da raça dos heráclidas; mas seu filho Lisandro foi criado num ambiente de pobreza e mostrou-se mais fiel observador das leis e dos costumes do país do que qualquer outro espartano. Sua coragem viril, à prova de todas as voluptuosidades, não conheceu outro prazer senão aquele que decorre da estima pública, a qual é o prêmio das belas ações; pois em Esparta não se considera coisa má ou desonesta o fato de os jovens se deixarem dominar por este prazer; os espartanos querem que seus filhos se mostrem, desde a mais tenra idade, sensíveis à glória, e que encontrem prazer no elogio, e, ao contrário, motivo de pesar na censura. eles votam desprezo àqueles que permanecem indiferentes a esse duplo estímulo, considerando-os como homens de coração vil e covarde, incapazes de praticar o bem. Deste modo, a ambição e a paixão pela glória de que era possuído Lisandro devem ser atribuídas à disciplina e à educação lacônias, não se podendo por isso responsabilizar muito a natureza; desta ele recebeu a sua inclinação para agradar aos grandes e poderosos, de uma maneira que não era comum entre os espartanos. Além disso, era dotado de paciência bastante para suportar, sem esforço, a arrogância daqueles que possuíam maior poderio e autoridade, quando disso podia tirar algum proveito; o que, aliás, é considerado per alguns como parte importante da arte de bem dirigir os negócios do Estado.

3. As riquezas que faz entrar em Esparta corrompem os costumes da cidade

3. Aristóteles{892}, na passagem em que diz serem os grandes espíritos sujeitos frequentemente à melancolia, citando os exemplos de Sócrates e Hércules, conta que Lisandro também, não em sua mocidade, mas ao aproximar-se da velhice, foi vítima do mal da melancolia. Havia no seu caráter uma qualidade que, entre todas as outras, lhe era própria e peculiar: a de que, embora se tivesse conduzido sempre honestamente em sua pobreza, sem se deixar jamais vencer ou corromper pelo dinheiro, ele encheu sua pátria de riquezas e do desejo de possuí-las, fazendo-a perder a reputação de que gozava de não as ter em grande estima; todavia apesar de nela ter introduzido grande quantidade de ouro e de prata, depois de haver vencido os atenienses, não reservou para si uma única dracma. E tal era o seu desinteresse que, tendo um dia Dionísio, tirano de Siracusa, enviado às suas filhas vestidos da Sicília, ricos e belos, ele não os quis aceitar, dizendo recear que tais vestidos fizessem parecer-lhe mais feias as filhas. Entretanto, pouco tempo depois, quando os espartanos o enviaram como embaixador junto ao mesmo tirano, este apresentou-lhe dois vestidos, pedindo-lhe que escolhesse um para levar a uma de suas filhas; e ele respondeu que a interessada poderia escolher melhor, e levou os dois.

4. É nomeado comandante da esquadra dos lacedemônios

4. Entrementes, a guerra do Peloponeso prolongava-se demasiado, e a derrota do exército que os atenienses tinham enviado à Sicília fazia super que tivessem perdido completamente todo o domínio do mar; e que, em consequência, estariam em breve sem quaisquer recursos, Mas Alcibíades, chamado do exílio, e recolocado à frente dos negócios públicos, fez com que toda a situação se modificasse, tornando os atenienses tão fortes no mar quanto os lacedemônios. Estes, receando pela sua sorte, puseram na direção desta guerra um ardor novo, e verificaram logo que necessitavam, mais do que em qualquer outro momento, de um maior poderio e de um comandante mais capaz. Entregaram, então, a Lisandro, o comando da esquadra{893}. Chegando a Éfeso, ele encontrou na cidade um ambiente amistoso, no que lhe dizia respeito, e verificou que a população se mostrava devotada aos interesses de Esparta. Achava-se, no entanto, numa situação lamentável, devido à sua pobreza, e em vias de adotar inteiramente os costumes bárbaros dos persas, cem quem mantinha relações constantes; com efeito, a cidade estava como que cercada pela Lídia e os capitães do rei da Pérsia nela permaneciam, em longas  temporadas. Lisandro ali estabeleceu o seu acampamento, reunindo o maior número de navios de carga que pôde encontrar; mandou erguer um estaleiro para a construção de galeras, fomentou o comércio nos portos da região, os quais começaram a ser procurados pelos negociantes, e fez com que as casas particulares e as oficinas se enchessem de bens; e desde então Éfeso começou a conceber a esperança de chegar à opulência e à grandeza na qual nós a vemos hoje.

5. Faz aumentar, após interceder junto de Ciro, o soldo de seus marinheiros

5. Informado de que Ciro, um dos filhos do grande rei da Pérsia, havia chegado à cidade de Sardes, Lisandro para ali se dirigiu, ao seu encontro, a fim de falar-lhe sobre questões relacionadas com a Grécia e queixar-se de Tissafernes, que, tendo recebido ordem para socorrer os lacedemônios e auxiliá-los a expulsar os atenienses do mar, conduziu-se com frouxidão, e isto devido à amizade que tinha por Alcibíades; e, como fornecesse muito pouco dinheiro à esquadra, causou-lhe a ruína. Ciro, de seu lado, ouvia com prazer queixas contra Tissafernes, gostando mesmo que se falasse contra ele, e isto porque se tratava de um homem mau a quem considerava como inimigo. Assim, Lisandro agradou-lhe muito, e não somente pelas denúncias referentes a Tissafernes, como também pelo prazer que lhe proporcionava a sua conversação. Lisandro, que sabia agradar e cortejar os poderosos, cativou o jovem príncipe, e assim encorajou-o no seu desígnio de prosseguir na guerra. Nas vésperas de sua partida, Ciro ofereceu-lhe uma ceia, depois da qual lhe pediu que não recusasse os testemunhos de sua liberalidade e que lhe pedisse com franqueza tudo o que desejasse, assegurando-lhe que nada lhe seria negado. Lisandro, diante de tais palavras, deu-lhe a seguinte resposta: "Pois que vos mostrais tão generoso para comigo, peço-vos e aconselho-vos a que aumenteis de um óbolo o soldo dos marinheiros, a fim de que, no lugar de três óbolos por dia, eles recebam quatro".

6. Ciro, encantado com este desprendimento de Lisandro, mandou-lhe entregar dez mil dáricos, os quais foram por ele utilizados para pagar aos marinheiros um óbolo a mais por dia. Esta liberalidade fez com que as galeras dos inimigos ficassem vazias em pouco tempo, pois a maior parte dos marinheiros dava preferência às esquadras onde eram melhor pagos; e aqueles que permaneciam nos seus antigos navios, desincumbiam-se mal de suas obrigações e mostravam-se sempre dispostos a se rebelarem, mantendo assim em constante apreensão os seus comandantes. Entretanto, embora tendo privado o inimigo de grande número de homens, e enfraquecido desse modo as suas forças, não ousou empenhar-se numa batalha naval. Receava, com efeito, Alcibíades, conhecido como homem de ação, e que possuía uma esquadra mais numerosa; era, além disso, um capitão que não conhecera até então* sequer uma derreta, nem em terra e nem em mar.

7. Lisandro ganha uma batalha naval

7. Entretanto, tendo Alcibíades partido de Samos para Focéia{894}, cidade que fica no continente, defronte da ilha, e tendo passado o comando da esquadra, durante a sua ausência, ao seu piloto Antíoco, este, querendo dar prova de audácia, e ao mesmo tempo insultar e zombar de Lisandro, penetrou no porto de Éfeso com apenas duas galeras; e, no meio de grande ruído e gargalhadas, passou insolentemente diante dos estaleiros onde se achavam os navios dos lacedemônios. Lisandro, indignado ante tal audácia, mandou lançar ao mar, em primeiro lugar, algumas galeras, a fim de perseguir o inimigo; mas vendo que outros capitães atenienses vinham em socorro de Antíoco, ele empenhou no combate outros navios. Aos poucos, ambos os lados foram se reforçando, até um ponto em que as duas esquadras passaram a dispor de todas as suas forças. Lisandro saiu vitorioso da batalha, e, tendo capturado quinze galeras do adversário, transformou-as num troféu.

8. Forma nas cidades gregas associações visando nelas estabelecer oligarquias

8. O povo de Atenas, irritando-se ao ter conhecimento dessa derrota, afastou Alcibíades do comando da esquadra; e, como os combatentes que se encontravam no acampamento de Samos também se pusessem a desconsiderá-lo, decidiu abandonar a ilha, seguindo para Quersoneso{895}, na Trácia. Esta batalha por si mesm o não apresentava grande importância; mas, em virtude da reputação de que gozava Alcibíades, teve a maior repercussão. Entrementes, Lisandro, depois de mandar vir das cidades da Ásia, para Éfeso, os homens que considerava como os mais corajosos e mais empreendedores, foi incutindo neles os primeiros germes das grandes transformações e inovações que introduziu depois nos governos das cidades; concitou e encorajou estes homens a formarem associações entre eles, a atraírem seus amigos e a se esforçarem para ficar com todos os negócios dessas cidades em suas mãos; prometeu-lhes que, quando ele tivesse destruído o poderio de Atenas, anularia por toda parte o domínio do povo, e cada um deles passaria a gozar em seu país de autoridade soberana. Deu-lhes, através de medidas práticas, garantias seguras de suas promessas; colocou à frente da administração aqueles que se tinham tornado seus amigos e seus hóspedes; conferiu-lhes honradas e dignidades, tornando-se mesmo, para satisfazer-lhes as ambições cúmplice de suas injustiças e de suas faltas. Deste modo, esses homens, inteiramente devotados à sua pessoa, não pensavam em outra coisa senão em agradar-lhe na esperança de que tudo, mesmo as maiores coisas, poderiam dele obter quando tivesse o governo em suas mãos.

9. Sua conduta para com Calicrátidas, nomeado para substituí-lo no comando

9. Assim afeiçoados a Lisandro, eles não viram com bons olhos Calicrátidas, à sua chegada, quando este veio substituí-lo no comando- da esquadra; e quando verificaram, através da experiência, que era um dos homens mais justos, mais direitos e melhores do mundo, ficaram ainda mais descontentes com a sua maneira de governar, simples, correta e dórica{896}, destituída de qualquer artifício. Admiravam, sem dúvida, sua virtude, mas com esta admiração que inspira a beleza de uma estátua antiga de algum herói. Quanto a Lisandro, admiravam a afeição que ele demonstrava por seus amigos e estimavam as vantagens que tiravam de seus favores. Assim quando o viram embarcar, foram tomados de grande pesar, e não puderam conter as lágrimas. E Lisandro, de seu lado, tratou de aumentar a sua má vontade contra Calicrátidas; pois, entre outras coisas, enviou para Sardes{897} o resto do dinheiro que Ciro lhe havia dado para pagar os marinheiros. E disse a Calicrátidas que fosse ele próprio pedir o dinheiro ao rei, e, enquanto isso não fosse feito, que encontrasse um meio de pagar seus homens. Finalmente, no momento em que ia fazer-se ao mar, declarou publicamente que entregava ao seu sucessor uma esquadra que era senhora do mar. Calicrátidas, para rebater o seu vão orgulho, que não passava de uma pretensão, disse: "Se assim é, por que não tomas à esquerda, passando por Samos, para chegar a Mileto e ali me entregares tua esquadra? Pois que somos senhores do mar, não devemos recear o inimigo que está em Samos". Lisandro respondeu-lhe dizendo que o comando não mais lhe pertencia e sim ao seu sucessor; e, sem esperar pela resposta de Calicrátidas, seguiu para o Peloponeso, deixando esse almirante na maior perplexidade. Com efeito, ele não havia trazido dinheiro da Lacedemônia, e não podia forçar as cidades a pagar contribuições, pois sabia que já se achavam muito oneradas.

10. Viagens inúteis de Calicrátidas, que não consegue avistar-se com Ciro. Sua morte

10. Não lhe restava outro recurso, assim, senão ir, como tinha feito Lisandro, procurar os lugar tenentes do rei da Pérsia, a fim de pedir-lhes dinheiro. Mas ninguém menos indicado do que ele para tal missão, pois possuía um espírito elevado e um grande amor à liberdade. Na sua opinião, era menos vergonhoso e menos condenável para os gregos serem derrotados e dominados por outros gregos do que irem cortejar e lisonjear bárbaros, os quais nada tinham de bom e de honesto, mas somente o mérito de possuírem muito ouro e prata. Cedendo, enfim, à necessidade, seguiu para a Lídia, dirigindo-se, logo após a sua chegada, ao palácio de Ciro. A um guarda, que viu junto à porta, pediu fosse dizer ao príncipe que Calicrátidas, almirante dos lacedemônios, desejava falar-lhe. E o guarda respondeu-lhe: "Estrangeiro, Ciro não tem tempo agora para receber-vos, pois se acha à mesa!" Calicrátidas disse-lhe, então, simplesmente: "Está bem, esperarei aqui até que tenha terminado". Diante destas palavras, os bárbaros, tomando-o por um rústico, zombaram dele. Calicrátidas então retirou-se. Procurou Ciro uma segunda vez, e, como ainda não conseguisse falar-lhe, irritou-se e regressou, do mesmo modo como tinha vindo, à cidade de Éfeso, maldizendo e abominando aqueles que, antes dele, se tinham aviltado a ponto de se deixarem insultar por bárbaros, levando-os , assim, a se orgulharem de suas riquezas. Perante os que o acompanhavam, fez o juramento de que, ao chegar a Esparta, o seu primeiro cuidado seria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para pôr termo às divergências existentes entre os gregos, a fim de que, tornando-se temíveis para os bárbaros, não tivessem mais de ir mendigar o seu auxílio, para se destruírem uns aos outros. Mas Calicrátidas, que, pela nobreza dos sentimentos, pela coragem e retidão, tão dignas de Esparta, poderia ser comparado com justiça aos maiores homens da Grécia, foi logo depois vencido e morto num combate naval, perto das ilhas Arginusas{898}.

11. Lisandro é colocado do novo no comando da esquadra

11. Os aliados dos lacedemônios, enfraquecidos por esta derreta, enviaram uma embaixada a Esparta, com a missão de pedir ao Conselho que recolocasse Lisandro no comando da esquadra, prometendo combater com maior ardor sob sua direção do que sob a de qualquer outro almirante. Ciro também enviou embaixadores, fazendo idêntico pedido. A lei não permitia, no entanto, que o mesmo homem servisse duas vezes como almirante. Mas os lacedemônios, desejando satisfazer o desejo de seus aliados, conferiram a dignidade de almirante a um certo Araco, e fizeram seguir com ele Lisandro, o qual, com o simples título de tenente da Marinha, gozava de toda a autoridade. Aqueles que cuidavam do governo das cidades, pelas quais eram responsáveis, desejavam a sua vinda fazia muito tempo, e por isso viram-no chegar com alegria, na’ esperança de que aumentaria o seu poder, destruindo os governos populares. Mas aqueles que preferiam comandantes de costumes simples e atitudes generosas não viam em Lisandro, comparado com Calicrátidas, senão um homem astuto e ardiloso, que, na maior parte das ações de guerra, recorria ao ludibrio e à surpresa, somente fazendo caso da justiça quando esta favorecia os seus interesses; mas em todos os outros casos ele apenas considerava como belo e honesto aquilo que se lhe afigurava útil. Não acreditava que a verdade fosse em si mesma preferível à mentira, ou que fosse mais poderosa, medindo o valor de uma e de outra de acordo com as vantagens que delas tirava. Quando lhe diziam que os descendentes de Hércules não deviam empregar na guerra burlas ou ardis, ele replicava com um tom zombeteiro: "Todas as vezes que a pele do leão não se mostra adequada é preciso coser nela a da raposa".

12. Infame conduta de Lisandro em Mileto

12. Este aspecto do caráter de Lisandro foi evidenciado pela sua conduta em Mileto. Seus hóspedes e amigos, a quem havia prometido apoio para destruir a autoridade do povo e expulsar da cidade os seus adversários, mudaram de opinião, e, como se reconciliassem com o partido contrário, Lisandro fingiu, em público, estar muito contente, mas, em particular, cobria seus amigos de injúrias, chamava-os de covardes e concitava-os a se erguerem contra o povo. Quando viu que a sedição estava para irromper, acudiu subitamente como se desejasse apaziguar os ânimos; e, logo após entrar na cidade, dirigiu as maiores invectivas aos primeiros que encontrou daqueles que desejavam introduzir inovações no governo, tratandoos com a maior rudeza e ordenando-lhes que o acompanhassem, como se quisesse puni-los severamente; e aos do partido oposto, disse, ao contrário, que nada receassem, assegurandolhes que nada de mal lhes aconteceria enquanto estivesse entre eles. O objetivo desta simulação’ era reter na cidade os membros mais prestigiosos do partido popular, a fim de fazer com que todos morressem depois. Foi, com efeito, o que lhes aconteceu: todos aqueles que ficaram na cidade, confiantes em sua palavra, foram degolados.

13. Facilidade com que Lisandro fazia falsos juramentos

13. Andróclidas narrou, por escrito, frases que Lisandro costumava proferir e as quais demonstram a facilidade com que perjurava. "É preciso, dizia ele, enganar as crianças com o jogo dos ganizes, e os homens com juramentos". Queria desse modo imitar Polícrates, o tirano de Samos, mas não tinha razão, pois era um legítimo general e o outro um usurpador violento e despótico. Além disso, não era próprio de um verdadeiro lacônio comportar-se com os deuses do mesmo modo como com os inimigos, ou ainda pior e de maneira mais injuriosa; pois aquele que engana outrem por meio de perjúrio declara que receia seu inimigo e despreza Deus.

14. Dinheiro a ele fornecido por Ciro

14. Tendo resolvido enviar a Lisandro a Sardes, Ciro deu-lhe bastante dinheiro e prometeu-lhe ainda mais; e para demonstrar-lhe com liberalidade ainda maior o desejo que tinha de o remunerar, disse-lhe que, se um dia o seu pai nada lhe quisesse fornecer, tiraria de seus próprios rendimentos aquilo que lhe fosse necessário; e acrescentou que se tudo lhe viesse faltar, mandaria fundir o trono no qual distribuía a justiça, e que era de ouro e de prata maciços. Finalmente, quando chegou o momento de partir para a Média, a fim de encontrarse com seu pai, ele lhe delegou poderes para recolher os impostos e tributos das cidades e confiou-lhe o governo de suas províncias; e, abraçando-o rogou-lhe que não atacasse por mar os atenienses antes de seu regresso, assegurando-lhe que voltaria com um grande número de navios da Fenícia e da Cilícia.

15. Diversas expedições de Lisandro. Toma Lâmpsaco

15. Lisandro, depois da partida do príncipe, vendo que não podia combater seus inimigos com a esquadra que possuía, e nem permanecer ocioso com navios tão numerosos, fez-se ao mar, ocupando algumas ilhas e pilhando duas delas, Egina e Saía-mina; desembarcou em seguida na Ática, onde foi cumprimentar o rei Ágis, dos lacedemônios. Este deixara o forte de Decélia a fim de que suas tropas pudessem ver as forças navais, as quais o tornavam senhor do mar numa medida maior do que teria ousado desejar. Lisandro, todavia, tendo sido informado de que a esquadra dos atenienses estava em sua perseguição, tomou outra direção, a fim de fugir para a Ásia através das ilhas. Encontrou toda a região do Helesponto completamente sem defesa, e cercou Lãmpsaco{899} por mar, enquanto que Tórax, ali chegado ao mesmo tempo que ele, assaltou a cidade pelo lado da terra, com suas forças. Lãmpsaco foi assim ocupada pela força e abandonada à pilhagem.

16. A esquadra dos atenienses segue para a embocadura do rio Egospótamos

16. Entrementes, a esquadra dos atenienses, constituída de cento e oitenta navios, ancorara diante de eleonte{900}, no Quersoneso; mas, diante das notícias de que Lâmpsaco tinha sido ocupada, ela se dirigiu imediatamente para Sestos{901}, e, após ali reabastecer-se, subiu até Egos-Pótamos, indo postar-se diante das naus inimigas, as quais ainda se achavam ancoradas junto à cidade de Lâmpsaco. A esquadra dos atenienses tinha vários comandantes, entre os quais Fílocles, aquele que persuadira o povo de Atenas a mandar cortar o polegar direito a todos os prisioneiros de guerra, a fim de que não pudessem mais utilizar-se da lança, mas apenas puxar o remo. As duas esquadras repousaram naquele dia, na esperança de combater no dia seguinte. Mas Lisandro, que havia concebido outro plane, ordenou aos pilotos e marinheiros que se mantivessem em suas galeras como se tivessem de lutar desde as primeiras horas do dia; disse-lhes ainda que evitassem fazer qualquer ruído e que aguardassem suas ordens no mais profundo silêncio. Mandou igualmente dizer às forças de terra que se conservassem em ordem de batalha, junto à costa.

17. Conduta de Lisandro

17. Ao nascer do sol, no dia seguinte, os atenienses fizeram avançar as suas galeras numa só linha, em ordem de batalha, provocando o inimigo. Os navios dos espartanos tinham as proas voltadas para o inimigo, e estavam, desde a véspera, com todos os tripulantes a bordo; mas Lisandro não fez qualquer movimento; ao contrário, enviou pequenos barcos em direção das galeras que se encontravam mais à frente, com a ordem a elas dirigidas de se manterem em posição de batalha, mas sem fazer qualquer ruído e nem avançar ao encontro do inimigo. À tarde, os atenienses retiram-se; mas, mesmo assim, ele somente permitiu que seus soldados desembarcassem depois que duas ou três galeras, por ele enviadas para observar a esquadra de Atenas, trouxeram-lhe a notícia de que os marinheiros inimigos haviam descido à terra. Nos três dias que se seguiram, ele fez a mesma coisa. Esta conduta, inspirou aos atenienses uma grande confiança em si mesmos, e, ao mesmo tempo, um grande desprezo pelo inimigo, pois estavam certos de que era o medo a causa de sua inação.

18. Conselhos de Alcibíades aos capitães atenienses, que não os aceitam

18. Entrementes, Alcibíades, que então se encontrava no Quersoneso, nas praças fortes por ele ocupadas, dirigiu-se a cavalo ao acampamento dos atenienses, a fim de censurar os capitães do exército pelos grandes erros que haviam cometido; em primeiro lugar, porque tinham ancorado e mantido os navios diante de uma costa desprotegida, onde não havia abrigo para a esquadra no caso de alguma tormenta; a em segundo lugar, porque não deviam ter abandonado Sestos, de onde recebiam as suas provisões. Aconselhou-os a voltarem sem perda de tempo para esse porto, tendo-se em vista que a distância não era grande. Deste modo, ficariam mais longe do inimigo que, comandado agora por um único chefe, observava uma estrita disciplina, executando, a um simples sinal, todas as ordens que lhe eram dadas. Mas os capitães atenienses recusaram-se a concordar com estas observações, e um deles, Tideu, chegou mesmo a responder a Alcibíades de maneira insultuosa, dizendo-lhe que não era ele o comandante, e que havia outras pessoas encarregadas deste encargo, Alcibíades, suspeitando de alguma traição, retirou-se sem replicar.

19. Astúcia de Lisando

19. No quinto dia, os atenienses, uma vez mais, apresentaram-se diante do inimigo; e, à tarde, depois de se terem retirado como de costume, com uma aparência de pouco caso e de desordem, Lisandro enviou na direção do adversário alguns galeotes, para observá-los. Seus comandantes seguiram com ordem de regressar rapidamente, logo que vissem os atenienses desembarcarem. Ao atingirem a metade do estreito, deviam parar para içar, na proa, na ponta de uma lança, um escudo de cobre, sinal ante o qual toda a esquadra avançaria. Ele próprio, em sua galera, pôs-se a percorrer toda a linha de navios, animando os pilotos e os capitães; e exortou-os a manterem seus barcos, bem como os soldados e marinheiros, prontos para atenderem ao primeiro sinal, a fim de avançar sobre o inimigo, com toda a sua força.

20. Mal o escudo de cobre se elevara no ar, e da nau-capitânia ergueu-se o som de uma trombeta, dando o sinal de partida, imediatamente a esquadra começou a movimentar-se em boa ordem; e as forças de terra apressaram-se igualmente em alcançar o promontório que dominava o mar, para assistir ao desenrolar do combate. O estreito que separava as duas costas, naquele lugar, não tem mais de quinze estádios de largura, distância que foi transposta em pouco tempo, graças aos esforços dos remadores. O primeiro dos generais atenienses a avistar, de terra, a esquadra avançando a toda vela, foi Conão; e, incontinente, ordenou aos soldados que se dirigissem para os barcos. Acabrunhado ante a ameaça que pesava sobre os navios, ele pôs-se a chamar uns, e advertir outros, forçando todos os que encontravam a subir para as embarcações. Mas seus esforços e seu zelo foram vãos: os soldados em sua maioria estavam dispersos, pois, como nada esperavam de novo, logo após o desembarque, tinham se dirigido para pontos diversos, a fim de comprar víveres ou passear no campo. Entre os que haviam ficado, uns dormiam em suas tendas, outros preparavam a refeição. E todos, devido à inexperiência de seus chefes, estavam bem longe de imaginar aquilo que os ameaçava.

21. Alcança a vitória

21. O inimigo já se aproximava, avançando com grande ímpeto, no meio de altos gritos e grande ruído de remos, quando Conão, fugindo com oito galeras, retirou-se para a ilha de Chipre, junto de Evágoras. Entretanto, os peloponésios, investindo contra as outras galeras, apoderaram-se das que se achavam vazias, e abalroaram as que começavam a se encher de soldados. Os combatentes que acorriam para defender os navios, em grupos, e sem armas, foram mortos, e os que se puseram em fuga foram massacrados pelos adversários que, descendo do promontório, lançaram-se em sua perseguição. Lisandro fez três mil prisioneiros, entre os quais os capitães atenienses. Apoderou-se ainda de toda a esquadra inimiga, com exceção do navio— sagrado denominado Páralo e das oito galeras que se puseram a salvo, por ordem de Conão, no começo da refrega. Lisandro, depois de amarrar as galeras apresadas nas popas das suas e de pilhar o acampamento dos atenienses, voltou para Lâmpsaco, no meio de cantos de triunfo e ao som de flautas. Ele acabava de participar, sem grande esforço, de um grande feito de guerra, tendo resumido, por assim dizer, no espaço de uma hora, todo o período de duração de uma guerra{902}, cheia dos mais diversos e estranhos acontecimentos, e que teve, sucessivamente, as formas mais variadas e apresentou as mais incríveis vicissitudes, com um número infinito de batalhas em terra e mar, e que custou a vida de maior número de generais do que todas as outras guerras de que a Grécia havia sido até então teatro, guerra essa que finalmente chegou ao seu termo graças à astúcia e à habilidade de um só homem.

22. Prodígios que precederam este acontecimento

22. Este feito foi mesmo considerado como obra dos deuses; e assegurou-se que, quando a esquadra lacedemônia saiu do porto de Lâmpsaco para investir contra o inimigo, as duas chamadas estrelas de Castor e Pólux{903} foram vistas brilhar sobre a galera de Lisandro, uma de cada lado. Outros pretendem que a queda de uma pedra prognosticou aquela derrota; pois, segundo muitos afirmam, caiu do céu, naquela época, sobre a costa de Egos-Pótamos uma grande pedra, que ainda hoje ali se vê, e da qual os moradores do Quersoneso fizeram um objeto de veneração. Diz-se ainda que o filósofo Anaxágoras tinha predito{904} que um dos corpos presos à abóbada celeste seria um dia arrancado por forte tremor e abalo, e que cairia sobre a terra. Os astros, segundo este filósofo, não ocupam hoje os espaços nos quais haviam sido colocados a princípio; como são de uma substância pesada, e da natureza da pedra, não brilham senão através da reflexão e da refração do éter; são retidos nas regiões superiores do universo pela revolução rápida do mesmo, que para ali os impeliu desde a formação do mundo, quando a violência do turbilhão que provocou a separação dos corpos frios e pesados das outras substâncias existentes, impediu-os de se destacarem dessas regiões elevadas, onde os retém ainda. Mas uma hipótese mais aceitável é a de que as chamadas estrelas cadentes não são, — e essa é a opinião- de alguns filósofos, — nem fusões, nem separações do fogo etéreo; elas se extinguem nos ares no mesmo momento em que se inflamam; não são, menos ainda, um abrasamento ou combustão do ar, que, condensado numa massa muito grande, escapasse para as regiões superiores, inflamando-se: são verdadeiros corpos celestes que, destacados do céu pelos abalos a que são submetidos, pelo enfraquecimento da revolução rápida do universo, ou por qualquer outro movimento extraordinário, caem sobre a terra, não em lugares habitados, mas com maior frequência no grande mar Oceano, motivo por que não são vistos.

23. Todavia, a opinião de Anaxágoras é confirmada por Damaco, que, no seu "Tratado de Religião", conta que, antes da queda da pedra, viu-se, sem interrupção, no céu, durante setenta e cinco dias, um globo de fogo, semelhante a uma nuvem inflamada, que não se mantinha parado no mesmo lugar; mas que, flutuando de um lado para outro através de movimentos contrários e irregulares, era impelido com tanta violência, que dele se desprendiam partes inflamadas, as quais, caindo em vários lugares, lançavam clarões semelhantes aos das estrelas cadentes. Quando este grande corpo de fogo caiu nas costas do Helesponto, e depois que os moradores da região, recuperando-se de se Trata-se de fenômenos de eletricidade, observados em todos os séculos, mas que somente muito tempo depois se tornaram melhor conhecidos. Com o espanto, acorreram para examiná-lo, não encontraram nele nenhum indício, nenhum traço de fogo; não viram senão uma pedra imóvel, que, embora muito grande, parecia apenas uma pequena porção do globo de fogo visto antes. Ora, todos veem aqui que Damaco necessita de leitores indulgentes; mas se seu relato for verdadeiro, constitui uma refutação vitoriosa da opinião daqueles que pretendem ser a referida pedra uma massa de rochedo, a qual, arrancada pela violência de um vento de tempestade do cimo de uma montanha, elevada pelos ares enquanto perdurara a força do turbilhão, caíra logo que tal força diminuíra. Poder-se-a também dizer que este globo luminoso, que apareceu no céu durante vários dias, estava verdadeiramente inflamado, e, em seguida, extinguindo-se e dissipando-se na atmosfera, nela provocou uma mudança extraordinária, causando ventos impetuosos e abalos violentos, que destacaram essa pedra e a lançaram sobre a terra. Mas trata-se de um assunto próprio para ser discutido, mais amplamente, em outra espécie de tratado.

24. Prisioneiros de Atenas condenados a morte

24. Entrementes, tendo sido condenados pelo conselho de guerra{905} os três mil atenienses aprisionados, Lisandro mandou chamar Fílocles, um dos generais, e perguntou-lhe de que pena ele se considerava merecedor por haver aconselhado aos seus concidadãos, em Atenas, a adoção de um decreto cruel contra os prisioneiro{906}. Fílocles, que não se deixava abater nem mesmo diante das maiores calamidades, respondeu-lhe: "Não acuseis aqueles que não contam com juízes; e, pois que os deuses vos fizeram vencedor, fazei de nós aquilo que teríamos feito de vós, se vos tivéssemos vencido". Logo após pronunciar estas palavras foi banhar-se e vestiu em seguida rico manto, como se tivesse de ir a alguma festa, e dirigiu-se ao local da matança, mostrando o caminho aos seus concidadãos, segundo a narrativa de Teofrasto.

25. Conduta de Lisandro em relação às cidades gregas

25. Após a execução, Lisandro percorreu com sua esquadra as cidades marítimas, e obrigou todos os atenienses que nelas encontrou a se retirarem para Atenas, dizendo-lhes que não perdoaria a nenhum daqueles a quem surpreendesse fora da cidade, os quais seriam degolados. O seu objetivo, ao encerrá-los todos em Atenas, era esfomear a população mais depressa; assim, não contando com provisões para suportar um longo sítio, os atenienses se renderiam. Em todas as cidades por onde passava, destruía a democracia ou qualquer outra forma de governo do povo, e nelas deixava um capitão’ ou governador lacedemônio, com um conselho de dez oficiais, escolhidos entre aqueles que anteriormente haviam mantido ligação ou amizade com ele. Submetia a este tratamento tanto as cidades que sempre haviam sido aliadas dos lacedemônios quanto as que eram suas inimigas. E navegando ao longo das costas, lentamente, sem nunca se apressar, foi estabelecendo como que um principado, um domínio sobre toda a Grécia; pois não era nem a nobreza nem a fortuna que o orientavam na escolha dos magistrados; ele reservava todos os cargos e honrarias aos que pertenciam àquelas associações por ele estabelecidas, dando-lhes inteira liberdade para punir ou recompensar. Assistia com frequência ao suplício dos proscritos, expulsava os inimigos daqueles que lhe eram devotados, e proporcionava aos gregos um antegosto pouco agradável do que seria um governo lacedemônio.

26. Este o motivo por que o poeta cômico Teopompo{907} parece gracejar quando, comparando os lacedemônios aos taverneiros, diz que, após terem feito os gregos saborear o doce licor da liberdade nele misturaram vinagre. Ao contrário, desde o começo, a sensação que proporcionaram aos gregos com o seu modo de governar foi a de amargor e azedume; pois Lisandro não deixou em nenhuma cidade o povo no governo, confiando sempre a autoridade nas mãos de um pequeno número, escolhidos entre os mais violentos e audaciosos, e sediciosos, que houvessem em cada cidade. Depois de terminar, em pouco tempo, estas modificações, enviou mensageiros à Lacedemônia para anunciar que para ali se dirigiria com duzentos navios. Nas costas da Ática, onde desembarcou, encontrou-se com os reis de Esparta, Ágis e Pausânias, na esperança de se tornar logo senhor de Atenas. Mas a resistência dos atenienses obrigou-o a dirigir-se, uma vez mais, para a Ásia, onde acabou de modificar a forma de governo de todas as cidades, estabelecendo conselhos de dez arcontes e condenando a morte ou ao exílio grande número de cidadãos. Expulsou os sâmios{908} de sua pátria, entregando Samos àqueles que haviam sido banidos. Apoderou-se de Sestos, que ainda se achava em poder dos atenienses, e, depois de obrigar todos os moradores a sair, deu a cidade e seu território aos pilotos e galeotes{909}, que haviam estado na guerra sob seu comando. Este foi o primeiro dos atos de Lisandro que os lacedemônios desaprovaram: eles restituíram aos sestíacos sua cidade e suas terras.

27. Estes atos de Lisandro desagradaram muito aos gregos, mas houve outros que lhes causaram grande prazer, entre os quais a restituição aos eginenses de suas casas e de suas terras, das quais haviam sido expulsos fazia muito tempo. A mesma coisa fez em relação aos habitantes de Sicião e Meios, os quais recuperaram suas propriedades após a expulsão dos atenienses daquelas cidades.

28. Tomada de Atenas

28. Entrementes, Lisandro, informado de que os atenienses estavam lutando com uma seria escassez de víveres, rumou para o porto de Pireu, e forçou Atenas a render-se, impondo-lhe suas condições. A dar crédito aos lacedemônios, ele escreveu aos éforos de Esparta apenas estas palavras: "Atenas foi ocupada". E os éforos lhe responderam: "Basta que ela seja ocupada". Mas trata-se de uma invenção para tornar a narrativa mais bela. Na realidade, o ato de capitulação enviado pelos éforos estava redigido nestes termos: "Eis o que ordenam os magistrados da Lacedemônia: demolireis as fortificações de Pireu e as longas muralhas que unem o porto a cidade; evacuareis todas as cidades que conquistastes, e permanecereis dentro dos limites do vosso território. Mediante estas condições, tereis a paz; pagareis igualmente aquilo que for julgado conveniente; e chamareis os banidos. Quanto ao número de navios, devereis conformar-vos com o que for resolvido". Os atenienses, seguindo o conselho de Terâmenes, filho de Agnão, aceitaram os artigos deste fatal decreto; e como um jovem orador ateniense, chamado Cleômenes, lhe perguntasse publicamente se ele ousaria dizer e fazer o contrário do que havia feito Temístocles, entregando aos lacedemônios as muralhas que o mesmo Temístocles havia construído, não obstante a oposição do adversário, ele respondeu incontinente: "Jovem, nada faço que seja contrário ao que foi feito por Temístocles. Pois foi tendo em vista a salvação dos atenienses que ele construiu outrora estas muralhas; assim, é igualmente tendo em vista a salvação dos cidadãos que agora vamos demoli-las. Se forem as muralhas que tornam as cidades felizes, Esparta, que não as possui, deve ser a mais infeliz de todas as cidades",

29. Lisandro recebeu todos os navios dos atenienses, com exceção de doze, e tomou posse da cidade no dia dezesseis de março{910}, dia no qual os atenienses tinham alcançado sobre os bárbaros a vitória de Salamina, contra o rei da Pérsia. Logo após a sua entrada na cidade ele propôs que se mudasse a forma de governo; como os atenienses a isso se opusessem vivamente, Lisandro mandou dizer-lhes que não tinham obedecido aos artigos do tratado assinado, pois que haviam decorrido os dez dias do prazo dado, e as muralhas da cidade ainda estavam de pé; diante disso resolvera reunir o conselho a fim de ditar-lhes outras condições, pois que as do primeiro tratado tinham sido violadas. Afirma-se que foi proposta no conselho dos aliados a escravização de todos os atenienses, e que um tebano, chamado Erianto, aconselhou que se arrasasse a cidade e que se transformasse todo o país em pastagens para os rebanhos. Esta reunião foi seguida de um festim, com a presença de todos os generais tendo um musicista fócio cantado estes versos do primeiro coro da tragédia electra, do poeta Eurípides, que assim começa{911}:

Filha de Agamenon, princesa infeliz,
Ao vosso palácio, outrora celebrado,
Chego, para em ruínas encontrá-lo,

Estas palavras comoveram os convivas, e todos exclamaram que seria horrível destruir uma cidade tão famosa, e que havia produzido tão grandes homens e tão nobres espíritos.

30. Demolição das muralhas da cidade. Estabelecimento do Conselho dos Trinta

30. Tendo os atenienses se submetido inteiramente, Lisandro mandou reunir na cidade um grande número de tocadoras de flauta, as quais se juntaram às que já se encontravam em seu acampamento, e, ao som da música, mandou arrasar as muralhas e incendiar os navios, na presença dos aliados e confederados da Lacedemônia, os quais, coroados de flores e considerando esse dia como a aurora da verdadeira liberdade, entregaram-se às maiores demonstrações de alegria. Logo depois ele modificou a forma de governo de Atenas, estabelecendo um conselho de trinta arcontes na cidade e de dez no Pireu, conselhos estes que gozavam de toda a autoridade; colocou uma guarnição na cidadela, sob o comando de um nobre espartano chamado Calíbio{912}. Este comandante ergueu um dia o seu bastão sobre Autólico, homem robusto e disposto à luta, sobre o qual Xenofonte compôs o seu Convívio{913}, Este ergueu então Calíbio pelas duas coxas, rapidamente, e, atirou-o no chão, de costas. Lisandro não somente não o puniu como censurou Calíbio, dizendo-lhe que ele devia lembrar-se de que tinham de comandar homens livres e não escravos. Todavia, alguns dias depois, os Trinta, para agradar a Calíbio, mandaram matar Autólico.

31. Gilipo rouba parte do dinheiro que Lisandro lhe entregara para levar a Esparta

31. Depois de haver assim agido em Atenas, Lisandro partiu para a Trácia{914}; e o que lhe restou do ouro e da prata de que se apoderara na cidade, dos presentes que recebera, das coroas que lhe haviam mandado, as quais deviam ser numerosas pois que eram enviadas ao homem mais poderoso e, de certo Pausànias chama-o de Eteônico, e conta esta história de maneira um pouco diferente do, ao senhor da Grécia, ele remeteu para Esparta, por intermédio de Gilipo, que havia comandado os siracusanos na Sicilia, Gilipo, ao que se conta, descosturou todos os sacos, pela parte debaixo, tirou de cada um uma boa soma, e em seguida os recosturou; ele não sabia que havia em cada saco uma lista com a relação de todas as peças de ouro e de prata que continha. Após chegar a Esparta, ocultou sob o teto de sua casa o dinheiro, que tinha roubado, e entregou os sacos aos éforos, mostrando-lhes que os selos colocados na parte superior dos mesmos por Lisandro estavam intactos. Os éforos, após abrir os sacos e contar o dinheiro, verificaram que as somas não coincidiam com as listas. Não sabiam o que pensar, até que um escravo de Gilipo lhes revelou, com palavras dissimuladas, o roubo; disse-lhes, com efeito, que havia sob o telhado da casa de seu senhor um grande número de corujas, e isto porque a maior parte das moedas de ouro e prata cunhadas na Grécia tinha nelas, gravada, uma coruja, ave venerada pelos atenienses.

32. Discute-se em Esparta sobre se se deve receber dinheiro enviado por Lisandro

32. Gilipo foi banido da Lacedemônia, após ter deslustrado, com uma ação tão vil e indigna, todos os seus belos e grandes feitos de armas anteriores. Entretanto, os mais sensatos cidadãos de Esparta, impressionados com esse exemplo, e temendo o poder do dinheiro, tão forte que corrompera um de seus cidadãos mais conceituados, censuraram abertamente Lisandro, e declararam aos éforos que deviam fazer sair de Lacedemônia todo o dinheiro que para ali tinha sido enviado, como se tratasse de uma peste, perigo que se tornava maior pelo fato de revestir-se de formas sedutoras. A questão foi submetida à deliberação do conselho; e, segundo o historiador Teopompo, foi um cidadão chamado Cirafidas quem propôs o decreto. Segundo Éforo, a iniciativa foi de Flogidas, que foi o primeiro a opinar no conselho, dizendo que não se devia receber na cidade de Esparta nenhuma moeda de ouro ou de prata, e que apenas a do país devia "ser usada. Tratava-se de uma moeda de ferro, que se fazia primeiramente avermelhar no fogo, e que era em seguida temperada no vinagre, a fim de que, tornando-se áspera e quebradiça, não pudesse ser forjada nem utilizada para outros fins. Era, aliás, tão pesada que não podia ser transportada facilmente;’ e, por isso, quando o seu volume era muito grande, o valor diminuía. E, antigamente, ao que me parece, as moedas de uso corrente eram somente dessa espécie, ou seja, pequenos bastões de ferro e em alguns lugares de cobre; daí o fato de existirem até hoje pequenas peças que têm o nome de óbolo, seis das quais fazem uma dracma, assim chamada porque era tudo o que a mão podia conter. Os amigos de Lisandro opuseram-se ao decreto, e tanto insistiram que, de acordo com uma decisão do conselho, o dinheiro ficou em Esparta, com a condição de ser apenas utilizado nos negócios públicos. Todos os particulares que fossem encontrados com tal dinheiro em seu poder seriam punidos com a morte, co mo se Licurgo, quando elaborou suas leis, tivesse receado o ouro e a prata e não a avareza que deles resulta. Para prevenir esta paixão não adiantava muito proibir aos particulares a posse destas moedas de ouro e prata, pois que, autorizando-se a cidade a usá-las, contribuía-se para torná-las mais cobiçadas. Seria possível, com efeito, que os particulares as desprezassem como inúteis, quando eram publicamente estimadas? E cada espartano poderia, em seus próprios negócios, deixar de atribuir valer àquilo que aos seus olhos era tão procurado para os negócios públicos? Assim, devemos admitir que são os bons ou maus costumes na conduta dos negócios públicos que influenciam os costumes dos particulares; e que os erros e os vícios destes não contribuem tanto, assim, para a depravação das cidades e a má conduta da coisa pública. É natural que um todo viciado leve facilmente suas partes à corrupção; enquanto que, ao contrário, as afecções de uma única parte podem receber auxílio e remédio das outras partes sãs e inteiras. Os éforos, e verdade, para evitar que o dinheiro amoedado’ fosse ter às mãos dos cidadãos, colocaram como sentinelas, junto às residências deles, o temor e a lei; mas não puderam fechar o espírito dos espartanos aos desejos e paixões provocadas pelo dinheiro; ao contrário, fizeram nascer em todos eles o desejo de enriquecer, coisa que consideravam digna e respeitável. Aliás, já censuramos, em outro lugar, os lacedemônios pela sua conduta{915}.

33. Lisandro manda fazer a sua estátua

33. Lisandro, com o produto da presa de guerra, mandou fazer a sua estátua em bronze, bem como as de todos os comandantes das galeras; estas estátuas foram colocadas no templo de Delfos, juntamente com duas estrelas de ouro, que representavam Castor e Pólux, e que desapareceram pouco tempo antes da batalha de Leuctres, não se sabendo qual o seu destino. No tesouro de Brásidas e dos acântios havia também uma galera feita de ouro e de marfim, com dois côvados de comprimento, que Ciro havia enviado a Lisandro depois de sua vitória sobre os atenienses. Anaxandridas{916}, historiador natural da cidade de Delfos, conta que Lisandro tinha depositado, no templo, um talento de prata, cinquenta e duas minas e onze peças de ouro, denominadas estáteres. Mas essa afirmação não está de acordo com o que dizem os outros historiadores sobre a sua pobreza.

34. Honras que lhe são prestadas

34. Lisandro tinha então maior autoridade e poderio do que qualquer outro grego antes dele; deixou-se, contudo, dominar por uma vaidade e orgulho que ultrapassavam os seus méritos. Como escreve o historiador Duris{917}, foi o primeiro dos gregos a quem as cidades ergueram altares e ofereceram sacrifícios como a um deus; foi ainda o primeiro a ter a honra de ser objeto de hinos em seu louvor, um dos quais, de que há ainda hoje memória, começava assim:

Da Grécia, país dos deuses amado,
Celebremos, o incomparável herói,
Que à vitória os gregos conduziu,
Cantemos, exaltemos seus feitos!

Os sâmios ordenaram, através de um decreto público, que as festas de Juno passassem a ser denominadas festas de Lisandro, ou Lisândria. Ele próprio se fazia acompanhar do poeta Quérilo, a fim de que ele, com o encanto de sua poesia, tornasse mais bela a narrativa de suas ações. Tendo outro poeta, Antíloco, composto alguns versos em seu louvor, ele ficou tão enlevado, que lhe deu o seu chapéu cheio de dinheiro. Dois outros, Antímaco, de Colofão, e Nicerato, de Heracléia, fizeram, cada um, um poema, em sua honra, disputando diante dele o prêmio. Lisandro conferiu a coroa da vitória a Nicerato, e Antímaco ficou tão despeitado que destruiu seu poema. Platão, então muito jovem, admirava o talento poético de Antímaco; e vendo como o afetara o malogro, disse-lhe, para consolá-lo, que a ignorância é para o espírito aquilo que a cegueira é para os olhos. Finalmente, o excelente tocador de lira Aristonous, que saíra vencedor seis vezes nos jogos pítios, querendo obter as boas graças de Lisandro, prometeu-lhe que, caso saísse vencedor uma vez mais, far-se-ia proclamar seu escravo.

35. Insolência e crueldade de Lisandro

35. A ambição de Lisandro a princípio era temível e odiosa apenas para os principais cidadãos e as personagens de sua categoria; mas quando a essa paixão ele acrescentou a arrogância e a crueldade, fruto das lisonjas daqueles que o cercavam, a maneira como passou a recompensar os amigos ou a punir os inimigos não teve mais medida ou limites. O governo despótico nas cidades, um poder absoluto de vida e de morte, foram para seus amigos e hóspedes o prêmio da ligação que haviam contraído com ele. E não conheceu mais senão uma maneira de saciar sua sede de vingança, a morte daqueles a que visava, e não havia nenhum meio de a ela escapar. Em Mileto, receando que os chefes do partido popular fugissem, e querendo obrigar aqueles que se tinham escondido a sair de seus esconderijos, jurou que não lhes faria qualquer mal; mas apenas apareceram, confiando em sua palavra, ele os entregou aos nobres, seus adversários, os quais os mandaram matar, não obstante não serem menos de oitocentos. Nas outras cidades, a mesma coisa aconteceu, e não se poderia contar o número de pessoas do povo que mandou assassinar; pois não contente de sacrificá-los ao seu ressentimento pessoal, satisfazia também o ódio, as aversões e a cobiça dos amigos que tinha em cada localidade. Etéocles, o lacedemônio, teve assim razão em dizer que a Grécia não teria podido suportar dois Lisandros. Segundo Teofrasto, a mesma coisa já tinha sido dita a respeito de Alcibíades por Arquestrato. Mas o que chocava mais em Alcibíades era uma grande insolência, muito luxo e vaidade, que desagradavam aos homens; mas em Lisandro a excessiva dureza de seu caráter e a severidade de seus costumes tornavam o seu poderio cruel e insuportável.

36. É chamado a Esparta. Descrição da citai

Os lacedemônios, todavia, não deram grande importância às queixas que se faziam contra ele; mas quando Farnabazo enviou embaixadores a Esparta para acusar Lisandro pelas injustiças e injúrias de que era vítima, pois que as províncias de seu governo eram pilhadas e devastadas, os éforos, indignados, prenderam Tórax, um de seus amigos e companheiro no comando; e, verificando que ele tinha ouro e prata em sua residência particular, não obstante o decreto proibindo tal coisa, condenaram-no a morte, e enviaram a Lisandro aquilo que chamavam a citai, o que equivalia a dizer-lhe que devia voltar logo após tê-la recebido. Devo dizer o que é uma citai: quando um general parte para uma expedição, terrestre ou marítima, os éforos tomam dois bastões redondos, de um comprimento e tamanho tão perfeitamente iguais que, quando justapostos, não deixam entre eles nenhum vão. Ficam com um destes bastões e dão o outro ao general. Estes bastões são por eles chamados citais. Quando têm algum segredo importante a comunicar ao general, tomam uma folha de pergaminho, longa e estreita como uma correia, e a enrolam em torno da citai que conservaram em seu poder, sem nela deixar o menor intervalo, de modo que a superfície do bastão fica inteiramente coberta. Escrevem então o que desejam nesta folha assim enrolada, e, isto feito, desenrolam-na e a enviam sem o bastão, ao general. Este, ao recebê-la, nada consegue ler, porque as palavras, todas elas separadas e esparsas, não formam qualquer sentido. Toma então a citai em seu poder, e enrola em torno dela a folha de pergaminho, cujas voltas, coincidindo, recolocam as palavras na ordem que haviam sido escritas, apresentando assim todo o texto. Este pequeno rolo de pergaminho chama-se também citai, do mesmo modo como o bastão de madeira, como aquilo que é medido toma é nome da coisa que lhe serve de medida.

37. Como Farnabazo o engana

37. Lisandro, que se achava então no Helesponto, ficou surpreso e perturbado ao receber a mensagem; receava sobretudo as acusações de Farnabazo, e, na esperança de apaziguá-lo, apressou-se em ir ao seu encontro. Quando com ele se avistou, pediu-lhe que. escrevesse aos éforos outra carta, dizendo o contrário do que fora dito na primeira, isto é, que não havia sido vítima de nenhuma injustiça e que nenhuma queixa tinha a fazer. Mas não sabia que, ele próprio cretense, tinha que se haver com outro cretense, como diz o provérbio. Farnabazo tudo prometeu, escrevendo na presença de Lisandro a carta, tal como este desejava; mas, secretamente, preparara outra, que dizia o inverso; e como as duas cartas eram perfeitamente semelhantes, ele substituiu a que escrevera por último pela que preparara antes, e, após fechá-la, confiou-lha. Lisandro, ao chegar a Esparta, dirigiu-se, de acordo com o costume, ao edifício onde tinha sua sede o Senado, e entregou a carta de Farnabazo, certo de que esta o livrava das principais e mais perigosas acusações que se lhe poderiam fazer. Farnabazo era muito estimado pelos senhores lacedemônios, porque de todos os generais do rei da Pérsia, fora ele que, durante a guerra os socorrera com maior solicitude.

38. Pede uma licença para dirigir-se ao templo de Júpiter Amon

38. Os éforos, depois de lerem a carta, mostraram-lha, e ele verificou então a verdade do provérbio que diz:

Ulisses, entre os gregos, não era o único astuto.

Ele retirou-se confuso e perturbado. Todavia, alguns dias depois, voltou à sede do conselho à procura dos éforos, e disse-lhes que não podia deixar de ir ao templo de Júpiter Amon, a fim de ali fazer os sacrifícios que tinha prometido ao deus antes das batalhas de que saíra vitorioso. Com efeito, afirma-se que, quando assediou a cidade de Afites, na Trácia, o deus Amon apareceu-lhe em sonho; e ele, interpretando esta aparição como uma ordem de Júpiter, levantou o cerco da cidade, e disse aos afítios que fizessem sacrifícios àquele deus. Por sua vez, ele desejaria dirigir-se à Líbia, a fim de cumprir as promessas que havia feito. Mas acredita-se, geralmente, que o deus não era senão um pretexto, e que o verdadeiro motivo dessa viagem era o temor que tinha dos éforos, a necessidade que sentia em ausentar-se. Além disso, não podia suportar o jugo a que era submetido quando se encontrava em Esparta e nem tolerava ficar sob as ordens de outrem; e daí o seu desejo de viajar, de errar de um lado para outro. Podia ser comparado a um corcel que, acostumado a pular em liberdade em amplas pastagens, não mais conseguia habituar-se à sua estrebaria, nem aos seus antigos trabalhos. Éforo, entretanto, apresenta para esta viagem uma outra causa, que narrarei daqui a pouco.

39. Apaziguamento da cidade de Atenas

39. Conseguindo, finalmente, uma licença, e não sem pena, ele fez-se ao mar. No entanto, durante a sua ausência, os reis da Lacedemônia, após se darem conta de que Lisandro se tornara como um senhor absoluto de toda a Grécia, pois que todas as cidades a ele prestavam obediência através da autoridade dos amigos que tinha em cada uma delas, decidiram entregar o governo dessas cidades ao povo, afastando os que nelas desfrutavam de um poder soberano. As repercussões que esta decisão provocou proporcionaram aos banidos de Atenas uma oportunidade para atacar os Trinta tiranos, após se apoderarem do castelo de Fila, e derrotá-los. Lisandro, sabendo do que acontecia, voltou apressadamente a Esparta, onde persuadiu os lacedemônios a sustentarem o governo dos nobres e punirem a rebelião do povo. Decidiram, então, enviar, primeiramente, cem talentos aos Trinta tiranos, para continuarem a guerra, e nomearam Lisandro para o posto de comandante. Mas os reis, que o invejavam, receando que ocupasse Atenas pela segunda vez, resolveram que um deles se encarregaria dessa missão. Pausânias partiu, então, aparentemente para sustentar os tiranos contra o povo, mas, na realidade, para terminar a guerra e impedir que Lisandro, apoiado pelos seus seguidores, se tornasse mais uma vez senhor de Atenas. Pausânias não encontrou dificuldades em. sua missão. Após reconciliar os atenienses, pôs termo à sedição e às divergências, e reprimiu a ambição de Lisandro. Mas pouco tempo depois, os atenienses se sublevaram de novo contra os lacedemônios; e Pausânias foi acusado de haver deixado as rédeas soltas, como se dizia, à licenciosidade e à audácia do povo, que antes era contido pela autoridade do governo da minoria. De Lisandro, ao contrário, diziam que, no exercício da autoridade, não satisfazia apetites nem recorria a ostentação, e que tinha em vista apenas os interesses da pátria.

40. Diversos ditos de Lisandro

40. É verdade que ele revelava orgulho em suas palavras e mostrava-se terrível diante dos que lhe opunham resistência. Certa ocasião, como os argivos estivessem disputando com os espartanos por motivo de suas fronteiras, ele lhes disse, apontando a espada: "Aquele que é mais forte com esta, raciocina melhor do que qualquer outra pessoa sobre, questão de limites". De outra feita, um habitante de Mégara, durante uma reunião do conselho, pôs-se a falar-lhe com muita liberdade e audácia. "Meu amigo, disse-lhe ele, tuas palavras necessitariam de uma cidade", Com estas palavras quis dizer que ele era filho de uma cidade muito fraca. E aos beócios, que hesitavam em declarar-se amigos ou inimigos da Lacedemônia, mandou perguntar como queriam que ele passasse pelo seu país: se com as lanças erguidas ou abaixadas. Quando os coríntios abandonaram a sua aliança com Esparta, fez suas tropas chegarem até às muralhas deles; e como os soldados hesitassem em dar início ao assalto, discutindo os prós e contras, ele lhes disse, no momento em que viu uma lebre sair dos fossos da cidade: "Não vos envergonhais de temer inimigos medrosos e preguiçosos a ponto de as lebres dormirem junto às suas muralhas?"

41. Auxilia Agesilau a tornar-se rei da Lacedemônia

41. Entrementes, o rei Ágis morreu, deixando Agesilau, seu irmão, e Leotíquides, que era considerado seu filho. Lisandro, que estimava muito Agesilau, desde a sua juventude, aconselhou-o a reivindicar o trono, como único representante legítimo da raça dos heráclidas. Com efeito, suspeitavam-se de que Leotíquides era filho de Alcibíades, o qual, quando de sua estada em Esparta, após ter sido banido de Atenas, mantivera relações com Timéia, mulher de Ágis. O próprio rei, tendo em vista o tempo que estivera ausente, concluíra que não fora o causador da gravidez de sua esposa, e não demonstrara muito interesse por Leotíquides, e não ocultara, até o fim da vida, que não o reconhecia como filho. No entanto, ao contrair a enfermidade de que morreu, ele se fez transportar para Heréía; e como estivesse à morte, instado de um lado pelo jovem, e, do outro, pelas súplicas dos amigos, declarou, na presença de várias testemunhas, que reconhecia Leotíquides como filho, morrendo após ter pedido aos presentes que comunicassem a sua declaração aos lacedemônios. Assim, depuseram todos em favor de Leotíquides, Mas Agesiíau, que tinha a seu favor altas qualidades, e, o que era ainda mais importante, o apoio de Lisandro, já levava vantagem sobre ele, quando Diópites, homem tido como muito versado no conhecimento das antigas profecias, veio prejudicar grandemente a sua pretensão, ao anunciar um oráculo por ele aplicado ao irmão do rei, que era manco: Toma cautela, nação espartana,

Para que, agora, que estás no apogeu,
Uma realeza manca não venha
As tuas vitórias comprometer.
Tu, que és valente e audaciosa,
Deves evitar a má fortuna,
E os males de uma guerra demorada,
Que a vida de todos extermina.

42. Incita-os a guerrear os persas

42. A maior parte dos espartanos, diante desse oráculo, inclinou-se para o lado de Leotíquides. Mas Lisandro demonstrou-lhes que Diópites não apreendera o verdadeiro sentido do oráculo, afirmando que o deus não se opunha a que um coxo ocupasse o trono da Lacedemônia; e que dera somente a entender que a realeza ficaria como manca, se bastardos, se pessoas indignas da raça de Hércules viessem a reinar sobre os heráclidas. Esta interpretação, apoiada pela autoridade, e pelo crédito de que gozava Lisandro, fez com que todos mudassem de opinião, e Agesilau foi declarado rei da Lacedemônia. Lisandro procurou logo convencê-lo de que deveria levar a guerra à Ásia, fazendo-o conceber a esperança de que destruiria o império dos persas e de que ofuscaria a glória de todos os guerreiros que haviam existido antes dele. Ao mesmo tempo, escreveu aos seus amigos da Ásia, dizendo-lhes que pedissem, em Esparta, a nomeação de Agesilau para comandar a guerra contra os bárbaros. E eles o fizeram, sem perda de tempo, enviando embaixadores a Esparta. A honra que Lisandro proporcionava desse modo a Agesilau igualava quase a decorrente da realeza. Mas os homens por natureza ambiciosos, embora perfeitamente aptos para o comando, encontram no ciúme que lhes inspira, contra seus semelhantes, o amor da glória, um grande obstáculo às belas ações que poderiam praticar; eles não veem senão rivais naqueles que os auxiliariam a percorrer com honra a carreira da virtude.

43. Rivalidade entre Agesilau e Lisandro

43. Agesilau, tendo sido escolhido para dirigir tal. empresa, levou Lisandro consigo; e dos trinta espartanos que formavam seu conselho, era ele a quem pretendia consultar com mais frequência em todas as questões, pois o considerava como o primeiro de seus amigos. Quando chegaram à Ásia, os moradores do país, que não tinham ainda familiaridade com Agesilau, viam-no raramente e falavam pouco com ele. Mas conhecendo Lisandro havia muito tempo, todos o procuravam e o acompanhavam, por toda parte, uns como amigos, outros por o temerem e não confiarem nele. Não é raro ver-se, nos teatros, quando se representam tragédias, que o ator que faz o papel de mensageiro ou de escravo é aplaudido e considerado como a principal personagem, enquanto aquele que ostenta o diadema e segura o cetro é apenas ouvido. O mesmo acontecia em relação a Agesilau e Lisandro: a este, que não era senão um simples conselheiro, era atribuída toda a dignidade do comando, não se deixando ao rei senão um título sem nenhum poder. Era preciso, sem dúvida, reprimir esta ambição excessiva e deixar a Lisandro o segundo papel, com o qual devia contentar-se; mas rejeitar e mesmo maltratar, por ciúme e sede de glória, um benfeitor e amigo, é o que Agesilau jamais deveria ter feito. Em primeiro lugar, ele não lhe proporcionou nenhuma ocasião para assinalar-se e nem o encarregou de nenhum comando; em segundo lugar, todos aqueles por quem Lisandro demonstrava interesse eram por ele mandados para suas casas sem nada obter do que desejavam, depois de serem tratados como se fossem pessoas da mais ínfima condição. Assim agindo, foi destruindo pouco a pouco toda a autoridade de seu rival.

44. Quando Lisandro viu que seus pedidos eram sempre recusados e que seu interesse pelos amigos se tornava para eles prejudicial, cessou completamente de interceder em seu favor junto a Agesilau. e pediu-lhes que não mais o procurassem, que não mais permanecessem ligados à sua pessoa, dizendo-lhes que se dirigissem diretamente ao rei e que procurassem a proteção daqueles que pudessem ser-lhes mais úteis. Aceitando seu conselho, deixaram todos de procurá-lo para tratar de negócios, mas não de homenageá-lo; assim é que insistiam em acompanhá-lo em seus passeios e aos lugares onde se faziam exercícios. Esta conduta fez com que Agesilau se irritasse ainda mais, tal a inveja que tinha pela sua glória; e sua animosidade chegou a tal ponto que, depois de confiar a simples soldados comandos de grande importância e o governo de cidades, ele nomeou Lisandro para o cargo de comissário dos víveres e distribuidor de carnes. E um dia, para zombar dos jônios, disse: "Que eles prestem homenagem ao meu distribuidor de víveres". Lisandro, finalmente, julgou que devia falar com ele, e sua conversa foi breve, à moda dos lacônios. "Agesilau, disse-lhe, sabes muito bem rebaixar’ teus amigos". "Sim, respondeu-lhe o rei, quando eles desejam tornar-se maiores do que eu; mas, ao contrário, àqueles que se esforçam para aumentar o meu poderio, eu sei, como é de justiça, dar-lhes a sua parte". Talvez, replicou Lisandro, disseram-te mais do que na realidade fiz. Entretanto, não fosse por motivo dos estrangeiros que têm seus olhos voltados para nós, peço-te que me dês, no teu exército, um posto onde eu possa ser-te menos odioso e mais útil".

45. Intrigas de Lisandro para chegar ao trono

45. Depois desta conversação, Agesilau enviou Lisandro para o Helesponto, a fim de ali exercer o comando; ele ali conservou o seu ressentimento, mas executou com exatidão todos os seus deveres. Espitridates, lugar-tenente do rei da Pérsia, naquela província, era um oficial cheio de coragem, que tinha sob suas ordens um corpo de tropas considerável. Lisandro, informado de que ele era inimigo de Farnabazo, levou-o a rebelar-se contra seu rei, e levou-o com seu exército a Agesilau. Foi tudo o que Lisandro fez nesta guerra; pouco tempo depois regressou a Esparta, sem grandes honradas, sempre irritado e indignado contra Agesilau, odiando mais do que nunca o governo, e resolvido, enfim, a executar sem demora o plano que havia concebido fazia já muito tempo e que visava a uma reforma do Estado. A maior parte dos heráclidas, que depois de se mesclarem com os dórios entraram no Peloponeso, estabeleceu-se em Esparta, onde seus descendentes prosperaram. Mas eles não gozavam de todos os direitos de sucessão à coroa, pois apenas duas casas ali reinavam: a dos Euritiônides e a dos Ágides. As outras casas, ainda que saídas do mesmo tronco, não tinham, no governo, nenhuma vantagem sobre os simples particulares; pois as honras que se adquirem pela virtude eram igualmente oferecidas a todos aqueles que se mostrassem dignos de as alcançar.
 
46. Lisandro, que também era da raça dos heráclidas, logo que adquiriu pelos seus feitos uma reputação! brilhante, bem como um número considerável de amigos e um inegável poderio, não pôde ver sem amargor o fato de uma cidade, cuja glória tanto contribuíra para aumentar, fosse governada por reis que não valiam mais do que ele. Pensou, então, em tirar a coroa das duas casas reinantes para torná-la acessível a todos os descendentes da raça de Hércules. Outros dizem, no entanto, que ele não queria estender o direito à coroa somente aos heráclidas, mas a todos os espartanos, a fim de que ela pudesse passar, não apenas aos descendentes de Hércules, mas a qualquer pessoa que a este se assemelhasse pela virtude, a qual o elevara, tão somente pelo seu mérito, à categoria dos deuses. Esperava que, quando a coroa ficasse subordinada à virtude, entre todos os espartanos seria ele o escolhido. Quis, primeiramente, fazer com que os espartanos aceitassem seu projeto, e com esse fim decorou um discurso escrito por Cleão de Halicarnasso.

47. Mas, depois, considerando que uma reforma tão ousada exigia meios extraordinários, ele imitou os poetas trágicos, os quais, a fim de comover os cidadãos, recorrem a máquinas para fazer descer algum deus dos céus. Inventou, para convencer seus concidadãos, oráculos e profecias, persuadido de que é eloquência de Cleão de nada lhe serviria, se, em primeiro lugar, não impressionasse os espíritos por meio de superstições e do temor aos deuses; em seguida, poderia convencer toda gente cem o discurso que deveria pronunciar.

48. Éforo conta que Lisandro tentou primeiramente corromper com dinheiro a sacerdotisa que anunciava os oráculos no templo de Apoio na cidade de Delfos, e depois a do templo de Dodona, a quem mandou sondar por intermédio de um c erto Féreclo. Rejeitadas suas propostas por uma e outra, dirigiu-se pessoalmente ao templo de Júpiter Amon, e ofereceu grande quantidade de dinheiro aos sacerdotes, os quais, indignados ante sua audácia, enviaram embaixadores a Esparta, para acusá-lo de tentativa de corrupção. Lisandro foi absolvido pelo Conselho, e seus acusadores, que eram líbios, ao partir, disseram aos espartanos: "Julgaremos com mais justiça do que vós, quando vierdes, um dia, estabelecer-vos na Líbia". É que havia um antigo oráculo segundo o qual, os lacedemônios iriam habitar aquele país.

49. Mas é preferível fazer agora uma exposição completa sobre toda esta intriga e narrar a habilidade com que Lisandro se houve numa ficção, na qual, longe de empregar os meios comuns e os recursos vulgares, procedeu como numa demonstração geométrica, em que se começa estabelecendo várias proposições importantes para chegar, através de raciocínios difíceis e muitas vezes obscuros, ao último termo da conclusão, Eis a trama tal como a descreve Éforo, tão hábil historiador quanto filósofo. Havia no Ponto uma mulher que pretendia estar grávida de Apoio. Muita gente se recusou, e com razão, a dar crédito a tal afirmativa; mas outras pessoas, e em grande número, acreditaram no que ela dizia. Quando deu à luz a criança, personalidades das mais importantes disputaram a honra de criá-la e educá-la, Esta criança, não sei por que razão, recebeu o nome de Sileno. Lisandro, aproveitou-se desse acontecimento para montar o primeiro ato de sua peça, e urdiu ele próprio todo o resto da intriga. Contou para o prólogo desta farsa com o concurso de várias personagens, as quais se referiam ao nascimento da criança com um ar tão natural que ninguém podia suspeitar da intenção com que espalhavam a notícia, Essas pessoas espalharam igualmente certas informações procedentes, segundo se dizia, de Delfos, de acordo com as quais os sacerdotes do templo conservavam com cuidado livros secretos, nos quais havia oráculos muito antigos. A ninguém, e nem a eles próprios, era permitido ler ou tocar nesses livros; no entanto, um filho de Apoio, o qual deveria aparecer após uma longa sequência de séculos, daria a esses sacerdotes, depositários dos livros sagrados, sinais certos de seu nascimento. Reconhecido como filho de Apoio, poderia levar os livros e ler as antigas revelações e profecias neles contidas.
 
50. As coisas assim preparadas, Sileno deveria ir a Delfos, onde, como filho de Apoio, pediria os livros aos sacerdotes, os quais, instruídos por Lisandro, simulariam ter tudo examinado cuidadosamente, e ter se informado de maneira escrupulosa acerca do nascimento de Sileno. Finalmente, certos de que se tratava realmente do filho de Apoio, eles lhe mostrariam os livros, leriam publicamente as predições que continham, sobretudo aquela que era o objetivo desta farsa, e relativa à realeza na Lacedemônia: era muito mais vantajoso para os espartanos escolherem eles próprios os seus reis, dentre os cidadãos mais virtuosos. Sileno, adolescente, já havia chegado à Grécia para desempenhar o seu papel, quando Lisandro assistiu ao malogro de sua peça devido à timidez de um dos atores, que, cedendo ao seu grande medo, abandonou-o no momento da execução. Toda esta intriga permaneceu em segredo durante toda a vida de Lisandro, e somente foi revelada após sua morte, Ele morreu antes do regresso de Agesilau da Ásia, e quando se empenhava na guerra da Beócia, ou melhor, depois de nela haver lançado a Grécia. Com efeito, as coisas são contadas de duas maneiras: uns acusam Lisandro, outros os tebancs. Há ainda quem acuse as duas partes. Aqueles que  responsabilizam os tebanos censuram-lhes o fato de haverem derrubado, em Áulida, os altares nos quais Agesilau oferecia sacrifícios públicos: acrescentam que Andróclides e Anfiteu, corrompidos pelo dinheiro do rei da Pérsia, tomaram as armas contra os fóctos e devastaram o seu país, com o fito de envolver os lacedemônios em guerras no interior da Grécia.

51. Incita os lacedemônios a moverem guerra aos tebanos

51. Os que responsabilizam Lisandro dizem que ele estava muito irritado contra os tebanos, os quais, os únicos entre todos os aliados, haviam pedido a décima parte da presa de guerra tomada aos atenienses: além disso, estavam descontentes pelo fato de Lisandro ter mandado dinheiro a Esparta. Mas Lisandro se irritara contra eles principalmente porque foram os primeiros a fornecer aos atenienses os meios para recuperarem a sua liberdade e quebrarem o jugo dos Trinta Tiranos, que Lisandro havia colocada como governadores em Atenas, e que os próprios lacedemônios tinham tornado ainda mais poderosos e temíveis ao decretarem que os banidos que haviam fugido de Atenas poderiam ser presos onde fossem encontrados, e levados para a sua cidade; e todos os que a isso criassem obstáculos seriam considerados inimigos de Esparta. Os tebanos responderam a esse decreto com outro, mais de acordo com a conduta de Hércules e de Baco, seus antepassados. Dizia o decreto que todas as cidades e todas as casas da Beócia seriam abertas aos atenienses que a elas se dirigissem a fim de solicitar asilo; que todo tebano que não auxiliasse um banido de Atenas contra aquele que pretendesse detê-lo pela força, pagaria um talento de multa. Dizia ainda o decreto que, se qualquer pessoa passasse pela Beócia para levar armas a Atenas, destinadas à luta contra os tiranos, todos os tebanos deveriam fingir nada ver ou ouvir. Não contentes em elaborar decretos cheios de tanta humanidade e tão dignos da Grécia, ele os reforçavam através de sua ação; pois foi de Tebas que partiram Trasíbulo e os outros banidos, para irem apoderar-se de Fila; e foram os tebanos que lhes forneceram armas e dinheiro, bem como todos os meios para darem início à sua ação sem que fossem descobertos.

52. Toma a cidade de Orcomene

52. Estes os motivos que levaram Lisandro a voltar-se contra os tebanos, Como era de caráter muito violento, e, além disso, como a sua melancolia aumentasse cada dia em consequência da velhice, tornando-o mais irritadiço, ele tudo fez para que os é foros partilhassem de seu ressentimento, e persuadiu-os a mandarem uma guarnição à Fócida; ele próprio foi encarregado dessa expedição, e partiu à frente das tropas. Poucos dias depois, foi também para ali enviado, de Esparta, o rei Pausânias, com o resto do exército. Mas este príncipe era obrigado a dar uma grande volta pelo Monte Citerão, para entrar na Beócia, enquanto que Lisandro, com o seu numeroso corpo de tropas, deveria ir ao seu encontro através da Fócida. Em "sua marcha, ocupou Orçomene, que se rendeu voluntariamente; apoderou-se igualmente de Lebadia, cidade que pilhou. Dali escreveu ao rei Pausânias, dizendo-lhe que, ao partir de Platéia, tomasse o caminho que conduzia a Haliarto, assegurando-lhe que ele próprio estaria no dia seguinte, ao alvorecer, junto às muralhas da cidade.

53. O correio portador desta carta foi aprisionado por batedores inimigos, que o levaram a Tebas. Os tebanos, sabendo do que se passava, confiaram aos atenienses que tinham ido socorrê-los a guarda da cidade; e, iniciando a sua marcha à meia-noite, caminharam rapidamente chegando de manhã a Haliarto, um pouco antes de Lisandro, Uma parte de suas tropas entrou na cidade, Lisandro decidira inicialmente acampar numa elevação existente nas proximidades, e ali esperar a chegada de Pausânias; mas vendo que ele não chegava e que as horas passavam, não conseguiu mais permanecer inativo. E, depois de ordenar aos espartanos que tomassem suas armas e de animar os aliados, pôs-se em marcha, com suas tropas em ordem de batalha, ao longo do caminho que ia ter à cidade. Entrementes, os tebanos que tinham ficado fora da cidade, deixando-a à esquerda, caíram sobre a retaguarda do exército de Lisandro, perto da fonte denominada Cissusa {918}, na qual, segundo as fábulas dos poetas, as nutrizes de Baco o levaram logo após o seu nascimento. A água desta fonte, embora muito clara e agradável de se beber, tem uma cor de vinho. Não longe desse lugar, crescem as canas de Creta, com as quais se fazem dardos. Os moradores de Haliarto julgam por isso ter Radamanto habitado outrora essa região: chegam mesmo a mostrar a sua sepultura, a que deram o nome de Halea. Vê-se também, perto, o túmulo de Alcmena, que, depois da morte de Anfitrião, casou-se com Radamanto, sendo ali inumada.

54. É morto diante das muralhas de Haliarto

54. Os tebanos que se achavam na cidade juntamente com os haliárcios permaneceram imóveis, prontos para a batalha, até o momento em que viram Lisandro, com suas primeiras tropas; aproximar-se das muralhas. Abriram então, subitamente, as portas, e atiraram-se sobre ele, matando-o juntamente com o seu adivinho e alguns outros inimigos, não muitos, pois o grosso das forças se retirou logo no início da batalha. Entretanto, os tebanos não lhes deram trégua, perseguindo-as com tanto ardor e de tão perto que as obrigaram a fugir através das montanhas, após terem matado três mil adversários. Do lado dos tebanos houve trezentos mortos, pois perseguiram os fugitivos com ardor demasiado em lugares escarpados e difíceis. Eram, em sua quase totalidade, aqueles que em Tebas eram suspeitos de serem ocultamente favoráveis ao partido dos lacedemônios, e que, para afastar tal suspeito e recuperar a confiança de seus concidadãos, não se pouparam na perseguição ao inimigo perdendo assim a vida.

55. Sua sepultura. Oráculos que anunciaram sua morte

55. Pausânias achava-se no caminho que vai de Platéia a Téspias quando soube da derrota. Cem suas forças em ordem de batalha, ele se pôs a caminho de fialiarto, aonde chegou ao mesmo tempo que Trasíbulo, que para ali se dirigira com seus atenienses, após deixar Tebas. E como Pausânias manifestasse o desejo de pedir uma trégua ao inimigo a fira de retirar os mortos e inumá-los, os mais idosos dos espartanos que se encontravam no seu exército ficaram indignados ante tal sugestão, e foram, murmurando, procurar o rei para dizer-lhe que seria uma desonra para Esparta pretender retirar o corpo de Lisandro mediante uma autorização do inimigo; acrescentaram que era preciso combater, com as armas nas mãos, em torno de seus despojos, para enterrá-los após a vitória; e, caso fossem vencidos, ser-lhes-ia mais honroso permanecer estendidos no campo de batalha, perto do seu general, do que obter uma trégua para retirar seu corpo. Entretanto-, apesar de todas as alegações dos anciãos, Pausânias, vendo que era tarefa muito difícil derrotar os tebanos em batalha, após uma vitória tão recente, e considerando que, tendo Lisandro tombado perto de Haliarto, não poderia ser seu corpo retirado sem grandes dificuldades, mesmo que o inimigo fosse derrotado, resolveu enviar um mensageiro aos tebanos, os quais lhe concederam uma trégua de alguns dias. Retirou-se, então, com suas forças, levando o corpo de Lisandro, que foi inumado pelos espartanos, depois de haverem transposto as montanhas da Beócia, na região dos panopeus, amigos e aliados de Esparta. Ali se vê ainda hoje a sua sepultura, junto ao caminho que vai a cidade de Delfos à de Queronéia. Conta-se que, no acampamento de Pausânias, um fócio, descrevendo a batalha para um compatriota que nela não participara, disse que o inimigo atacara logo depois de Lisandro ter atravessado o Oplite. Como este homem parecesse surpreendido, um espartano, amigo de Lisandro, perguntou-lhe o que era esse Oplite a que se referiam, coisa de que nunca ouvira falar. "É, respondeu o fócio, o lugar onde o inimigo derrotou os nossos batalhões mais avançados; o Oplite é o riacho que banha as muralhas de Haliarto". Ao ouvir estas palavras, o espartano pôs-se a chorar sentidamente, e disse: "Oh! não é possível aos homens fugirem ao seu destino!" E isto porque Lisandro tivera outrora um oráculo concebido nestes termos:

Aconselho-te, Lisandro, evitar
Do rio Oplite as águas traiçoeiras,
E também o dragão, da terra filho,
Que, pelas costas, pretende ataear-te.

56. Entretanto, há quem afirme que este riacho de Oplite não é o que passa ao longo das muralhas de Haliarto, mas a torrente que corre perto de Coronéia, e vai desaguar no rio Fliaro, perto da cidade. Segundo se diz, chamava-se antigamente Hoplia," mas agora é denominado ísomanto. Lisandro foi morto por um soldado de Haliarto chamado Neocoro, que trazia pintado no seu escudo a figura de um dragão; era a esse dragão, ao que se conjectura, que se referia o oráculo. Conta-se também que os tebanos, pouco tempo depois da guerra do Peloponeso, receberam, no Templo de Apoio Ismênio, uma resposta do oráculo, que lhes predisse ao mesmo tempo a batalha de Délio e o combate de Haliarto, que se travou trinta anos depois. É o seguinte o teor deste oráculo:

Tu, que aqui vens perseguir lobos cruéis,
Evita, com cuidado, as fronteiras extremas,
E a cor na Orcálida, onde a raposa
Permanece sempre, para surpreender sua presa.

Com as palavras fronteiras extremas o oráculo se refere ao território existente em volta de Délio, e é nele que a Beócia se limita com a Ática; e a colina Orcálida é a que hoje se chama Alopeca, e se acha situada no lado em que a cidade de Haliarto dá para O monte Helicão. A morte de Lisandro afligiu de tal modo os espartanos que intentaram contra Pausa-laias um processo por crime capital; mas ele não quis aguardar o julgamento e fugiu para a cidade de Tégea, onde se colocou, como suplicante, sob a proteção de Minerva, ali passando o rest o de seus dias. A pobreza de Lisandro, reconhecida após sua morte, deu um maior lustre à sua virtude. Depois de haver passado pelas suas mãos somas tão importantes; depois de ter desfrutado de um tão grande poderio- e de tantas cidades lhe terem prestado homenagem e a ele se submetido; depois de haver, enfim, exercido sobre a Grécia: uma espécie de soberania, ele não aumentara um óbolo sequer a fortuna de sua casa. Esse é o testemunho de Teopompo, que merece maior crédito quando elogia do que quando censura, pois encontra maior prazer em maldizer do que em louvar.

57. Descoberta de uma conspiração que havia ordido para tornar-se rei

57. Algum tempo depois da morte de Lisandro, segundo conta Éforo, uma disputa entre os espartanos e seus aliados levou-os a consultarem os papéis que ele havia deixado, em sua casa; Agesilau para ali se dirigiu, e encontrou, entre outros documentos, o discurso que Cleão havia escrito para persuadir os espartanos a modificarem a forma de seu governo e mostrar-lhes as vantagens de se tirar dos Euritiônldes e dos Ágides, as duas casas reinante… o direito exclusivo ao trono, e a estendê-lo a todos; assim, os reis deveriam ser escolhidos entre os cidadãos mais virtuosos de Esparta. Agesilau quis mostrar imediatamente este discurso ao povo, para que os espartanos o ficassem conhecendo melhor; mas Lacrátídas, homem sábio e prudente, que era então presidente dos éforos, conteve-o, dizendo-lhe que, em vez de tirar Lisandro do túmulo, o melhor era enterrar com ele também o seu discurso, o qual, escrito com muita arte e finura, era capaz de convencer. Entretanto, grandes honras lhe foram prestadas após sua morte. Dois cidadãos, de quem suas duas filhas se tinham tornado noivas, e que não haviam querido desposá-las após a morte do pai, quando se tornou conhecida a sua pobreza, foram condenados a pagar uma forte multa; pois que, tendo procurado ligar-se à família de Lisandro enquanto ele vivia, certos de que era rico’, não mais o quiseram quando a sua pobreza, comprovação de suas virtudes, foi revelada. Havia em Esparta penalidades tanto contra aqueles que não queriam casar-se, ou que se casavam muito tarde, como contra os que se casavam mal. E esta última pena recaía principalmente sobre os cidadãos que, em vez de se casarem no interior de suas famílias ou com pessoas virtuosas, procuravam unir-se às casas ricas. Eis o que tínhamos a dizer da vida de Lisandro.

Ver notas

Mais fontes de Guerra do Peloponeso

Vidas Paralelas: Alcibíades, de Plutarco