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Comparação entre Demétrio I e Marco Antônio, de Plutarco

Fontes primárias > Grécia Antiga  |  101 visualizações  |  1819 palavras  |  3,4 páginas

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Depois de relatar as vidas do grego Demétrio I (337-283 a.C.) e do romano Marco Antônio (83–30 a.C.), Plutarco traça aqui uma comparação dessas duas personalidades do mundo antigo. Esse texto faz parte da série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos.

I. Sendo que um e outro, isto é, Demétrio e Antônio tenham em comum isto, que ambos foram sujeitos às mesmas mudanças e grandes variedades de fortuna, consideremos agora qual foi e de onde veio o poder de um e de outro, e como eles chegaram a tão grande autoridade. Primeiramente, é certo que o poder de Demétrio era hereditário, e adquirido anteriormente, por seu pai, Antígono, que se tornou o mais poderoso de todos os sucessores de Alexandre, e tinha conquistado a melhor e a maior parte da Ásia, antes de Demétrio ter atingido a idade adulta. Antônio, ao contrário, tendo nascido de um pai honrado, mas que não era homem de guerra, e que não lhe havia deixado os meios para conquistar tão grande glória, ousou intrometer-se no império de César, que por direito hereditário não lhe competia absolutamente em nada: e se tornou por si mesmo sucessor do poder, que o outro por seu trabalho e esforço havia adquirido e tornou-se tão grande, sem auxílio de outrem, unicamente com sua iniciativa, que estando o império do mundo dividido em duas partes, ele teve uma, a qual era a da maior importância. Estando ausente, por meio de seus generais venceu em várias batalhas aos partos, e organizou as nações bárbaras que habitam em redor do Cáucaso, até o mar de Hircano. E isto, mesmo que se lhe impute como reprovação e censura, dá testemunho de sua grandeza. O pai de Demétrio fê-lo desposar com grande alegria a Filia, filha de Antípater, embora ela fosse muito velha para ele, porque ela era de uma linhagem mais nobre que a sua; o que se reprova a Antônio foi o casamento com Cleópatra, senhora que sobrepujava em nobreza de sangue e poder a todos os reis de seu tempo, exceto Arsaces: e tornou-se por si mesmo tão poderoso que os outros o julgavam digno de muito grandes coisas que ele mesmo não queria.

II. Quanto à intenção e vontade que moviam a um e outro para conquistar impérios, era reta e irrepreensível em Demétrio, que queria dominar e reinar sobre os povos que tinham sempre sido governados e dirigidos por reis, desde todos os tempos: mas a de Antônio era má e tirânica, pelo que ele queria sujeitá-los ao povo romano, há pouco livre da monarquia de César. Mesmo o maior e o mais famoso feito de armas que jamais Antônio realizou, isto é, a guerra na qual ele derrotou Cássio e Bruto, não foi feita por outro fim senão para tirar a estes cidadãos e ao seu país, sua liberdade e franquia: Demétrio, porém, ainda antes que a fortuna o tivesse reduzido aos extremos, não deixou de libertar a Grécia e de expulsar as guarnições que ocupavam as cidades submetidas, não como Antônio, que se vangloriava e se gabava de ter matado os que tinham restituído a Roma a sua liberdade.

III. Uma das coisas que mais se louva em Antônio é sua liberalidade e magnificência, no que Demétrio o superou de muito, pois ele deu mais aos seus inimigos do que jamais Antônio aos seus amigos, embora ele fosse estimado, porque ordenou que o corpo de Bruto fosse honrosa e suntuosamente sepultado. Demétrio, porém, mandou sepultar todos os inimigos que tinham morrido na batalha e restituiu a Ptolomeu todos os que tinha aprisionado, com presentes e dons que ainda lhes fez.

IV. Eram ambos insolentes em sua prosperidade e dissolutos e voluptuosos em seus prazeres: mas, não se poderia dizer jamais que Demétrio tenha deixado escapar as ocasiões de fazer grandes coisas, para se entregar aos seus prazeres, mas a eles se entregava somente depois de tê-las terminado e quando estava em descanso: divertia-se na companhia de Lâmia, na verdade, como se faria em ouvir contar histórias, se não se sabe o que fazer, e quando se tem grande vontade de dormir, mas quando se tratava de fazer os preparativos para a guerra, não havia hera na sua lança, nem seu elmo rescendia de perfumes, nem ele saía dos aposentos das damas, enfeitado e elegante, para ir ao campo de batalha, mas abandonava as danças, e fazia cessar todos os divertimentos, tornando-se, como dizia o poeta Eurides:

Soldado de Marte cruel e desumano.

Em suma, jamais lhe aconteceu por sua preguiça ou descaso, nem por se ter demorado demais em seus prazeres, algo de desastroso: como vemos em quadros, em que Onfalo tira secretamente a maça de Hércules, e o despoja de sua pele de leão, assim muitas vezes Cleópatra desarmou a Antônio e o atraiu a si, fazendo escapar de suas mãos negócios de grande importância, viagens e expedições necessárias, para ir divertir-se e passar o tempo nas margens do Canoboe de Tafosiris. Finalmente, assim como Paris fugiu da batalha e foi se esconder entre os braços de Helena, o mesmo fez ele, no seio de Cleópatra, ou melhor, Paris escondeu-se no aposento de Helena, mas Antônio, para seguir a Cleópatra, fugiu e deixou perder-se a vitória.

V. Além disso Demétrio tinha várias mulheres ao mesmo tempo, o que não era proibido nem censurável entre os reis da Macedônia, mas era até mesmo uma coisa comum desde Felipe e Alexandre, como também o tinham Lisímaco e Ptolomeu, e honrava a todas, as quais desposava. Mas Antônio, em primeiro lugar, casou-se com duas mulheres ao mesmo tempo, o que nenhum romano havia ainda se atrevido a fazer. Em segundo lugar, ele abandonou e repudiou a romana, e a que tinha legitimamente desposado por amor de uma estrangeira, e à qual tinha tomado somente por amor passageiro, e não segundo as leis: por conseguinte, àquele nenhum mal aconteceu por erro ou injustiça que tivesse cometido contra suas esposas, e a este, ao invés, por esse motivo vieram-lhe os maiores males e as mais desastrosas consequências.

VI. É verdade que entre os efeitos de Antônio, não há a malignidade que existe entre os de Demétrio: pois os escritos deixaram declarado que não se permitia que os cães entrassem em todo o palácio de Atenas, porque este animal dentre todos os demais, é o que se mistura, mais publicamente, com as fêmeas; e ele mesmo no templo de Minerva dormia com meretrizes e também corrompeu e violou várias burguesas da cidade: e além disso, o vício que se julgaria ser o menos misturado às dissoluções e delícias, isto é, a crueldade, está unido à concupiscência de Demétrio, o qual deixou, ou melhor, obrigou a morrer piedosamente o mais belo e o mais casto dos jovens dentre os atenienses, para evitar de ser agarrado à força; em suma devemos dizer que Antônio pela sua incontinência fazia mal somente a si próprio, e Demétrio aos outros.

VII. Quanto aos seus parentes, Demétrio, jamais prejudicou a quem quer que seja, e Antônio abandonou o irmão de sua mãe à morte, para poder matar a Cícero, o que por si mesmo é tão condenável, tão mau e tão cruel, que com grande dificuldade mereceria ser-lhe perdoado, ainda que ele tivesse sido obrigado a fazer Cícero morrer para salvar a vida de seu tio.

VIII. Quanto ao terem violado seu juramento e faltado à sua palavra, um, prendendo Artabazo e o outro, matando a Alexandre, Antônio, fora de dúvida, tinha um motivo de verdade: pois o outro o havia traído e abandonado na Média; mas Demétrio, ao que muitos dizem, inventou os motivos que atribuiu falsamente a Alexandre, para encobrir o assassínio que tinha cometido; julgou que ele caluniou aquele ao qual ele tinha feito mal, e não se vingou daquele que lhe queria fazê-lo.

IX. Por outra parte, Demétrio mesmo realizava seus feitos e empresas guerreiras, que descrevemos na sua vida: e Antônio, ao contrário, quando ele lá não estava em pessoa, conquistava brilhantes vitórias por meio de seus lugar-tenentes: e foram ambos derrotados e desbaratados estando presentes, em pessoa, à batalha, não porém, do mesmo modo: pois um foi destituído por seus homens, porque os macedônios o haviam abandonado, e o outro, ao contrário, abandonou os seus; pois fugiu deixando aos que por seu bem e sua honra arriscavam-se ao perigo da morte: assim a falta que um cometeu está nisto, que ele tornou inimigos aqueles mesmos que combatiam por ele, e o outro, em que ele abandonou tão covardemente àqueles que lhe dedicavam tão grande amor e lhe tinham prestado fidelidade.

X. Quanto à morte, não se saberia louvar uma ou outra; há, porém, muito mais a se lastimar e censurar na de Demétrio, que se deixou aprisionar e depois de ter sido condenado e desterrado, teve ainda ânimo de querer viver por três anos, com grande moleza, para servir ao seu ventre e à sua boca, à maneira dos animais irracionais: quanto a Antônio, ele matou-se, para dizer a verdade, muito tímida e miseravelmente, com grande tristeza e penamas ao menos, foi assim que seu corpo caiu em poder do seu inimigo.

Mais fontes de Macedônia

Vidas Paralelas: Pirro, de Plutarco

Vidas Paralelas: Alexandre o Grande, de Plutarco

Vidas Paralelas: Demétrio I, de Plutarco

Vidas Paralelas: Eumenes de Cárdia, de Plutarco

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