Notas

(12) O Artemísio é um braço de mar (L.) que fica entre a Eubéia e a Grécia continental.(N.T.)

(13) Diana é denominada em grego Artemisa. Foi esse templo que, ao que parece, deu o seu nome àquele local e ao referido braço de mar. (L.)

(14) Os sinais para dar a conhecer a chegada de inimigos ou de amigos eram feitos com tochas, erguidas acima das muralhas. Quando eram mantidas tranqüilas, anunciavam amigos; quando agitadas, anunciavam inimigos. (L.)

(15) Os Botieus eram atenienses de origem e descendentes, segundo Aristóteles, daquelas crianças que os Atenienses tinham enviado, como tributo, a Minos, em Creta. Estas crianças cresceram nesta ilha ganhando a vida com o trabalho de suas mãos. Os Cretenses, querendo cumprir um voto, enviaram a Delfos o melhor de seus cidadãos, aos quais se juntaram os descendentes destes Atenienses. Como não podiam viver neste lugar, foram para a Itália, e se estabeleceram nas cercanias do Iapígio; passaram em seguida para a Trácia, onde tomaram o nome de Botieus. Daí que em um sacrifício solene suas jovens cantavam o refrão: Vamos a Atenas. (L.)

(16) A assembléia dos anfictiões era realizada duas vezes por ano, na Primavera e no Outono. A da Primavera tinha lugar em Delfos, e a do Outono nas vizinhanças de Antela, no templo de Ceres Anfictiônida. Essa assembléia religiosa era a mais respeitável de toda a Grécia, e era inaugurada com sacrifícios a Ceres, oferecidos pelos pilágoras. Daí vem, provavelmente, o nome que se dá a este templo. (L.)

(17) As Cárnias, celebradas em Esparta em honra de Apolo, duravam nove dias. Essa festa foi instituída na 26a. Olimpíada, segundo afirma Zósimo na sua Crônica, citada por Ateneu. “Todos os Dórios tinham uma veneração particular por Apolo Cárnio. Sua origem vem de Carnus, que era de Arcanânia, que que tinha recebido de Apolo o dom da adivinhação. Tendo sido morto por Hipotes, filho de Filas, Apolo foi desabafar sua cólera aos Dórios em seu campo. Hipotes foi banido por esta morte: e desde este tempo os Dórios resolveram apaziguar os manes do adivinho de Acarnânia.” (L.)

(18) Enquanto os lacedemônios faziam sua refeição — diz o autor dos Pequenos Paralelos, atribuídos a Plutarco — os bárbaros vieram atacá-los em massa. Leônidas, vendo-os aproximar-se, disse aos seus: “Jantai como se tivésseis de cear no palácio de Plutão”. E lançou-se contra os bárbaros. Embora todo retalhado por golpes de lança, conseguiu chegar até Xerxes, ao qual arrebatou o diadema. Quando, finalmente, morreu, o soberano mandou arrancar-lhe o coração, que estava coberto de pêlos, como assegura Aristides no primeiro livro de sua História da Pérsia. (L.)

Apoie o site pelo Apoia.se e ajude a promover a História na internet brasileira.
Contribua a partir de R$ 1,00 por mês.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Heródoto narra a batalha das Termópilas (480 a.C.)

Fontes primárias > Grécia Antiga  |  110 visualizações  |  9848 palavras  |  18,2 páginas

Heródoto foi um historiador grego nascido em Halicarnasso, que viveu no século 5 a.C. Foi o autor de uma grande obra histórica conhecida como Histórias, nas quais narra, entre outros eventos, as Guerras Médicas (499-449 a.C.). Termópilas foi uma das principais batalhas desse conflito. Essa derrota grega custou caro para os invasores persas e os 300 espartanos que lideraram as forças gregas entraram para a história por sua coragem, disciplina e habilidade.

Imagem de capa: Cena do filme 300 (2006) que retrata a batalha de forma fantasiosa.

História, de Heródoto. Trecho do Livro VII - Polímnia- CLXXV [175] à CCXXXIX [239]

CLXXV — Os Gregos, de volta ao istmo, reuniram-se para deliberar, segundo o conselho de Alexandre, sobre de que maneira deviam fazer a guerra e qual o melhor local de ação. O alvitre aceito foi o de guardarem a passagem das Termópilas, pois esta parecia ser mais estreita do que aquela que dá acesso à Macedônia, na Tessália, ficando também mais próxima do que a outra. Tomaram a resolução de ocupar essa passagem, a fim de fechar aos bárbaros a entrada da Grécia. Quanto à força naval, decidiram enviá-la para o Artemísio12, nas costas da Histiótida. Esses dois pontos - as Termópilas e o Artemísio - ficam perto um do outro, de maneira que as forças de terra e de mar poderiam manter-se em contato.

CLXXVI — O Artemísio se retrai ao deixar o mar da Trácia, tornando-se um pequeno estreito, entre a ilha de Cíato e as costas de Magnésia. Depois do estreito da Eubéia, corre ladeado por um terreno onde existe um templo dedicado a Diana13 e ao penetrar na Grécia pela Traquínia, apresenta uma reduzida dimensão. A passagem mais estreita que há no país é a que fica à frente e atrás das Termópilas, pois atrás, perto de Alpenes, não pode passar senão uma carroça, e à frente, perto do riacho de Fênix e da cidade de Antela, não há passagem senão para uma pequena viatura. A oeste das Termópilas encontra-se uma montanha escarpada e inacessível, que se estende até o monte Eta. O caminho a leste é limitado pelo mar, por pântanos e barrancos. Nessa passagem existem fontes de água quente, de que se servem os habitantes para banhos e que denominam chatres, junto às quais ergue-se um altar consagrado a Hércules. Essa passagem era fechada por uma muralha, na qual haviam aberto portas. Os habitantes da Fócida tinham-na construído por temor aos Tessálios, que tinham vindo da Tesprócia para estabelecer-se na Eólida, ainda hoje em poder dos mesmos. Tomaram essa precaução porque os Tessálios manifestavam intenções de subjugá-los, e dessa passagem fizeram, então, uma espécie de conduto para as águas quentes das fontes, tomando medidas para fechar por esse ponto a entrada para o seu país, medidas essas visando principalmente os Tessálios. A muralha, muito antiga, tinha tombado em parte; mas os Gregos ergueram-na de novo, com o propósito de repelir os bárbaros por esse lado. No burgo existente perto da passagem pretendiam eles abastecer-se de víveres.

CLXXVII — Depois de haverem considerado e examinado todos os pontos de acesso à região, os Gregos julgaram este último mais propício à defesa, porque os bárbaros não podiam fazer uso da cavalaria naquele terreno, e a infantaria estaria impossibilitada de penetrar em grupos maciços, perdendo muito da sua eficiência. Escolheram, pois, aquele ponto para sustentar o ataque das forças inimigas. Logo que souberam da chegada do soberano persa à Piéria, partiram do istmo, dirigindo-se, uns para as Termópilas, por terra, e outros para Artemísio, por mar.

CLXXVIII — Enquanto preparavam-se apressadamente para defender-se nos dois referidos pontos, os habitantes de Delfos, inquietos pela sorte da Grécia e pela sua própria, consultaram o seu deus. A pitonisa ordenou-lhes que dirigissem preces aos Ventos, que seriam poderosos defensores da Grécia. Recebendo essa resposta, os Délfios comunicaram-na a todos os gregos mais ciosos da sua liberdade e ergueram um altar aos Ventos, em Tia, onde existe um local consagrado à filha de Cefisse, que deu o seu nome ao cantão.

CLXXIX — Enquanto a força naval de Xerxes partia da cidade de Terma, dez navios, os melhores veleiros da frota, seguiram direto à ilha de Cíato, onde os Gregos possuíam três navios de observação, um de Trezena, outro de Egina e outro de Atenas. Percebendo de longe as embarcações dos bárbaros, os navios gregos puseram-se imediatamente em fuga.

CLXXX — As embarcações persas perseguiram-nos, capturando primeiramente o navio de Trezena, comandado por Praxino. Estrangularam na proa da embarcação o mais belo homem da equipagem, considerando um presságio feliz ser um homem assim o primeiro grego por eles apanhado. Esse homem chamava-se Leão, sendo, talvez, essa a razão pela qual o trataram com tanta violência.

CLXXXI — O trirreme de Egina, comandado por Asonida, causou alguns embaraços aos bárbaros devido ao valor de Pites, filho de Isquenos, um dos seus defensores. Embora o navio fosse capturado, Pites não cessou de combater, até ser atingido por um golpe de machado, caindo semi-morto. Vendo que ele ainda respirava, os persas que combatiam no navio, admirando-lhe a coragem, resolveram preservar-lhe a vida, pensando-o com mirra e envolvendo os ferimentos com tiras de bisso. De volta ao acampamento, mostraram-no, com admiração, a todo o exército, e dispensaram-lhe toda sorte de atenções, enquanto tratavam como vis escravos os demais tripulantes do navio capturado.

CLXXXII — O terceiro navio, que tinha por comandante Formo de Atenas, logrou escapar, indo encalhar na embocadura do Peneu; mas os bárbaros dele se apoderaram finalmente, sem que contudo tivessem podido capturar os que o tripulavam, pois eles o abandonaram logo que encalhou, evadindo-se para Atenas, através da Tessália. Os Gregos estacionados no Artemísio foram informados do acontecimento por meio dos sinais14 feitos com fogo na ilha de Cíato. Tomados de pânico, abandonaram o Artemísio, retirando-se para Cálcis, a fim de guardar a passagem do Euripo. Deixaram, porém, patrulhas nos pontos elevados da Eubéia, para observar os movimentos do inimigo.

CLXXXIII — Dos dez navios persas, três chegaram ao escolho denominado Mirmécio, entre a ilha de Cíato e a Magnésia, onde seus tripulantes ergueram uma coluna de pedra que haviam trazido. Entretanto, a frota, partindo de Terma, avançou para aquele ponto, onze dias depois da partida de Xerxes desse mesmo local. Pâmon, de Ciros, foi quem lhes indicou esse rochedo, que se encontrava na sua passagem. Os navios dos bárbaros gastaram um dia inteiro para contornar a costa da Magnésia, chegando a Sépias e à orla marítima entre a cidade de Castanéia e Sépias.

CLXXXIV — Até esse ponto e até as Termópilas, a frota de Xerxes não havia encontrado empecilhos sérios no seu caminho. Compunha-se ela, então, de mil duzentos e sete navios vindos da Ásia, com uma equipagem de duzentos e quarenta e um mil e quatrocentos homens de diferentes nações, contando-se duzentos por navio. Além dessas tropas, fornecidas pelos que haviam dado os navios, havia ainda, em cada um deles, trinta combatentes persas, medos e sácios, num total de trinta e seis mil duzentos e dez homens. A todas essas tropas devemos acrescentar os tripulantes dos navios de cinqüenta remos, dando-se oitenta homens para cada um, perfazendo um total de duzentos e quarenta mil homens. A força naval vinda da Ásia compunha-se, ao todo, de quinhentos e dezessete mil seiscentos e dez homens, e o exército de terra de um milhão e setecentos mil homens de infantaria e oitenta mil de cavalaria, aos quais devemos acrescentar os árabes, que conduziam os camelos, e os líbios, com seus carros, num total de vinte mil homens. Eram essas as tropas procedentes da Ásia, sem contar os fâmulos que as seguiam, os navios carregados de víveres e os que os tripulavam.

CLXXXV — Juntemos ainda a esse número as tropas levantadas na Europa, das quais não posso falar senão por conjectura. Os gregos da Trácia e das ilhas vizinhas forneceram cento e vinte navios, com um total de vinte e quatro mil homens. Quanto às tropas de terra fornecidas pelos Trácios, Peônios, Eordos, Botieus15, Calcídios, Brígios, Piérios, Macedônios, Perrebos, Enianos, Dólopes, Magnésios, Aqueus e todos os povos que habitam o litoral da Trácia, montavam elas, ao que penso, a trezentos mil homens. A essas devemos acrescentar as tropas asiáticas, perfazendo um total de dois milhões seiscentos e quarenta e um mil seiscentos e dez homens.

CLXXXVI — Embora o número dos guerreiros fosse assaz considerável, penso que o dos criados que os seguiam, dos tripulantes dos navios de abastecimento e dos outros serviços da frota era maior ainda, ou pelo menos igual. Xerxes, filho de Dario, conduziu, assim, até Sépias e as Termópilas, cinco milhões duzentos e oitenta e três mil duzentos e vinte homens.

CLXXXVII — Era esse o total de tropas que o soberano persa lançava contra a Grécia. Quanto às mulheres encarregadas de fazer pão, às concubinas, aos eunucos e outros mais, ninguém saberá dizer o seu número com exatidão, muito menos o dos condutores dos carros de bagagem e das bestas de carga, e o dos cães que acompanhavam o exército, tantos eram eles. Não é de admirar, por conseguinte, o fato de muitos rios não terem sido suficientes para estancar a sede de tantos homens e de tantos animais, e da grande quantidade de trigo e outros alimentos que tinha de ser distribuída cada dia para alimentá-los convenientemente. Entre tão grande número de homens, ninguém pela sua beleza, grandeza de porte e sobranceria era mais merecedor do que Xerxes para deter nas mãos tamanho poder.

CLXXXVIII — A força naval fez-se novamente à vela, dirigindo-se para a costa da Magnésia, entre a cidade de Castanéia e o litoral de Sépias, onde os primeiros navios ancoraram junto à terra e os outros se quedaram a pequena distância. O local não era, realmente, suficientemente vasto para abrigar uma frota tão numerosa, e os navios tiveram de ficar com a proa voltada para o mar, formando oito fileiras compactas, e nessa posição permaneceram durante a noite. Na madrugada do dia seguinte, depois de um tempo sereno e de grande calma, o mar agitou-se, desencadeando-se furiosa tempestade sob o sopro de um forte vento que os habitantes da região denominam helespontino. Os que perceberam o aumento gradativo do vento e que se encontravam na enseada, preveniram-se contra a tempestade, trazendo seus navios para terra. Os outros, porém, surpreendidos em pleno mar, foram impelidos, uns contra as encostas do monte Pélion, denominadas ipnes, e outros contra a costa, enquanto que alguns se espatifaram no promontório Sépias, e vários outros foram arrastados para a cidade de Melibéia e para Castanéia, sob a violência do temporal.

CLXXXIX — Conta-se que tendo um oráculo, respondendo a uma consulta dos Atenienses, aconselhado aos mesmos que chamassem em seu auxílio seu genro, eles dirigiram preces a Bóreas. Bóreas, segundo a tradição grega, desposou uma ateniense de nome Oritiia, filha de Erecteu. Foi essa aliança, segundo afirmam, que os levou a concluir ser Bóreas o genro a que se referia o oráculo. Assim, encontrando-se com seus navios em Cálcis da Eubéia, para observar os movimentos do inimigo, e percebendo a tempestade que se avizinhava, fizeram sacrifícios a Bóreas e a Oritiia, conjurando-os a socorrê-los e a desbaratar os navios dos bárbaros, como já haviam feito antes nas proximidades do monte Atos. Se foi atendendo a essas preces que Bóreas lançou-se com violência sobre a frota dos bárbaros, é o que não posso afirmar; mas os Atenienses afirmam que Bóreas, tendo-os socorrido antes, auxiliou-os também nessa ocasião. Por isso, quando retornaram à pátria ergueram-lhe uma capela às margens do Ilisso.

CXC — Pelo menos quatrocentos navios foram destruídos pela tempestade, perecendo também um grande número de guerreiros bárbaros e perdendo-se imensas riquezas. A destruição causada na frota trouxe reais vantagens para Aminocles, filho de Cretines, da Magnésia, que possuía propriedades nas cercanias do promontório Sépias. Algum tempo depois, recolheu ele grande quantidade de vasos de ouro e de prata que o mar impelira para a costa. Encontrou também valiosos tesouros persas e apossou-se de uma grande quantidade de ouro, tudo resultante do naufrágio das embarcações dos persas. Aminocles tornou-se muito rico em conseqüência disso; mas não era feliz, pois, tornando-se o matador de seu próprio filho, passou o resto dos seus dias devorado por cruel mágoa.

CXCI — A perda dos navios que transportavam víveres e outros mantimentos de guerra foi também vultosa. Os comandantes da frota, receando que os Tessálios se aproveitassem do desastre para atacá-los, fortificaram-se atrás de uma alta paliçada construída com os destroços das embarcações, aguardando o fim da tempestade, que durou três dias. Finalmente, no quarto dia, os magos lograram aplacá-la imolando vítimas aos Ventos, realizando cerimônias em sua honra e oferecendo sacrifícios a Tétis e às Nereidas. É possível também que o temporal se tenha acalmado por si mesmo. Ofereceram sacrifícios a Tétis por terem sido informados pelos Iônios de que ela fora levada desse cantão por Peleu e que toda a costa de Sépias lhe era consagrada. De uma maneira ou de outra, o vento cessou no quarto dia.

CXCII — Os patrulheiros, vindos dos pontos mais altos da Eubéia no segundo dia, puseram os Gregos a par de tudo quanto havia acontecido com relação ao naufrágio, e estes, tomando conhecimento do fato, fizeram libações a Netuno Salvador, e, depois de haver-lhe rendido graças, voltaram, sem demora, para Artemísio, na esperança de ali encontrar ainda alguns navios inimigos. Desde então, passaram os Gregos a dar a Netuno o sobrenome de Salvador, que ainda hoje se conserva na Grécia.

CXCIII — Amainando o vento e acalmando-se as vagas, os bárbaros reconduziram seus navios para o alto mar e costearam o continente. Depois de dobrarem o promontório de Magnésia, dirigiram-se diretamente ao golfo que leva a Págasa. Foi num ponto desse golfo que, segundo se conta, Jasão e os outros argonautas, que iam a Ea, na Cólquida, em busca do velo de ouro, abandonaram Hércules, que havia descido à terra à procura de água.

CXCIV — Quinze navios da frota de Xerxes, que navegavam um pouco atrás dos outros, perceberam os Gregos postados em Artemísio, e, julgando tratar-se de unidades persas, foram ao seu encontro. Esse destacamento era comandado por Sandoces, filho de Taumásias, governador de Cime, na Eólia. Sandoces havia sido um dos juízes reais, e Dario mandara pô-lo na cruz, sob a acusação de suborno num julgamento. Já se achava ele na cruz, quando o soberano, considerando que os serviços que ele havia prestado à casa real eram maiores que as faltas que cometera e reconhecendo que havia agido com precipitação, mandou libertá-lo. Assim, Sandoces salvou-se da morte a que havia sido condenado por Dario; mas, indo cair no meio da frota inimiga, não conseguira subtrair-se à pena uma segunda vez. Os Gregos, com efeito, logo que viram aqueles navios aproximar-se, compreenderam o engano e caíram sobre eles, capturando-os com facilidade.

CXCV — Aridólis, tirano de Alabanda, na Cária, foi aprisionado num desses navios, e Pentilo, filho de Demono, de Pafo, num outro. Dos doze navios de Pafo, que ele comandava, onze perderam-se em conseqüência da tempestade que se desencadeou sobre o promontório Sépias, sendo ele aprisionado, juntamente com a única embarcação que lhe restava, quando nela se dirigia para Artemísio. Os Gregos enviaram, acorrentados, os tripulantes para o istmo de Corinto, depois de interrogá-los sobre tudo que desejavam saber acerca do exército de Xerxes.

CXCVI — A força naval dos bárbaros chegou a Afetas, com exceção dos quinze navios comandados, como já disse, por Sandoces. Xerxes, com o exército de terra, tendo atravessado a Tessália e a Acaia, penetrou nas terras dos Málios. Ao passar pela Tessália, lançou sua cavalaria contra a dos Tessálios, tida como a melhor de toda a Grécia, impondo-lhe duro revés. De todos os rios da Tessália, o Onocono foi o único que não bastou para matar a sede dos componentes do grande exército.

CXCVII — Quando Xerxes chegou a Alos, na Acaia, seus guias, sempre empenhados em pô-lo a par de tudo, fizeram-no ciente do que se contava nesse país com relação ao local consagrado a Júpiter Lafístio, contando-lhe que Atamas, filho Éolo, tendo tramado com Ino a perda de Frixo, o castigo dessa sua ação recaiu sobre os seus descendentes, por ordem de um oráculo. Os Aqueus interditaram ao primogênito dessa família a entrada no Pritaneu, que eles denominam Leito, e fiscalizaram rigorosamente o cumprimento dessa ordem. Se, apesar de tudo, o primogênito ali entrar, não pode sair senão para ser imolado. Muitos dos que, violando o cumprimento da lei, deviam ser imolados — acrescentaram os guias —, fugiram, receosos, para outro país; mas, se mais tarde retornassem à pátria, seriam presos e levados para o Pritaneu. Conduzida ruidosamente para aquele local, a vítima, toda envolvida em tiras de pano, era ali sacrificada. Os descendentes de Citissore, filho de Frixo, sofreram essa pena porque Citissore, ao regressar de Ea, cidade da Cólquida, libertou Atamas das mãos dos Aqueus, que estavam em vias de sacrificá-lo para purificar o país, segundo a ordem que haviam recebido de um oráculo. Com isso, Citissore atraiu sobre seus descendentes a cólera do deus. Ciente desses fatos pela narrativa dos guias, Xerxes, atingindo o bosque consagrado ao deus, absteve-se de ali penetrar, proibindo, igualmente, as tropas de fazê-lo, testemunhando assim o mesmo respeito pela casa dos descendentes de Atamas.

CXCVIII — Passando pela Tessália e Acaia, Xerxes dirigiu-se para o país dos Málios, nas proximidades de um golfo, onde se observam todos os dias o fluxo e o refluxo da maré. Nas vizinhanças desse golfo encontra-se uma planície muito larga em certo ponto e bastante estreita em outro. Montanhas elevadas e inacessíveis, denominadas Rochas Traquínias, erguem-se em torno do país. Antícira é a primeira cidade que encontramos no golfo, vindo da Acaia. O rio Esperqueu, que corre do país dos Enianos, banha essa cidade, desembocando no mar, perto da mesma. A vinte estádios desse rio encontra-se um outro, chamado Diras, o qual, segundo dizem, brotou da terra para com suas águas socorrer Hércules, que se queimava. A outros vinte estádios do Diras fica o Melas, distante cinco estádios da cidade de Tráquis.

CXCIX — É nesse trecho que o país apresenta sua maior largura. Uma planície de vinte e dois mil pletros estende-se das montanhas perto das quais está situada a cidade de Tráquis, até o mar. Nas montanhas que circundam a Traquínia existe, ao sul de Tráquis, uma abertura, por onde passa o Asopo.

CC — Ao sul do Asopo corre o Fênix, pequeno rio que nasce nas montanhas e se lança no próprio Asopo. O país, na região do Fênix, é muito estreito. O caminho que ali abriram só permite a passagem de um carro. A distância entre o Fênix e as Termópilas é de quinze estádios. Nesse intervalo fica o burgo de Antela, banhado pelo Asopo, que perto dali se precipita no mar. Em torno o terreno se alarga. Vê-se ali um templo de Ceres Anfictiônida16, assentos para os anfictiões e um templo do próprio Anfictião.

CCI — Xerxes acampou em Mális, na Traquínia, e os Gregos perto do desfiladeiro, conhecido como desfiladeiro das Termópilas pela maioria dos habitantes da Grécia e das terras vizinhas. O exército dos bárbaros ocupava todo o terreno que se estende para o norte até Tráquis, e o dos gregos, a parte do continente voltada para o sul.

CCII — As tropas gregas que aguardavam o rei da Pérsia nesse ponto consistiam em trezentos espartanos muito bem armados; mil tegeatas e mantineus; cento e vinte homens de Orcomenes, na Arcádia, e outros mil homens do resto da Arcádia; quatrocentos coríntios; dois flionteus e oitenta micênios. Essas tropas vinham do Peloponeso. Havia ainda vinte beócios, setecentos téspios e quatrocentos tebanos.

CCIII — Além dessas tropas, haviam os Gregos convidado a tomar parte na luta todos os guerreiros dos Lócrios-Opontinos e mil focídios. Solicitando o seu auxílio, os Gregos asseguraram-lhes, pelos seus emissários, que já se haviam posto em campo; que estavam aguardando para todo momento a chegada do resto dos aliados; que o mar seria guardado pelos Atenienses, Eginetas e outros povos que compunham a força naval; que não deviam ter motivos para receio, pois não era um deus que vinha atacá-los, mas um simples mortal, sujeito, como qualquer mortal, a um revés, e que, portanto, seus intentos poderiam ser frustrados. Esse arrazoado dos Gregos encorajou aqueles dois povos a enviar tropas a Tráquis, para socorrer seus aliados.

CCIV — Cada corpo de tropas era comandado por um general do respectivo país; mas Leônidas, da Lacedemônia, era o que gozava de maior prestígio, cabendo-lhe, por conseguinte, o comando geral de todas as forças. Entre os seus ancestrais figuravam Anaxandrides, Leão, Euricratides, Anaxandro, Eurícrates, Polidoro, Alcâmenes, Teleclo, Arquelau, Agesilau, Dorisso, Leobotes, Equestrato, Ágis, Eurístenes, Aristodemo, Aristômaco, Cleodeu, Hilo e Hércules.

CCV — Leônidas conquistou a coroa sem esperar. Sendo Cleómenes e Dorieu, seus irmãos, mais velhos do que ele, nunca pensou tornar-se rei algum dia; mas, tendo Cleómenes morrido sem deixar filhos, enquanto que Dorieu já havia falecido na Sicília, Leônidas, que havia desposado uma filha de Cleómenes, subiu ao trono, por ser o primogênito de Cleômbroto, filho mais jovem de Anaxandrides. Partindo para as Termópilas, escolheu ele para acompanhá-lo trezentos espartanos na flor da idade e todos com filhos. Levou também consigo tropas tebanas, cujo número já tive ocasião de mencionar. Essas tropas eram comandadas por Leontíades, filho de Eurímaco. Os tebanos foram os únicos gregos que Leônidas se empenhou em conduzir à luta, porque eram acusados de inclinar-se para a causa dos Medos. Ele os convidou para tomar parte na guerra, a fim de ver se eles enviariam tropas ou se renunciariam abertamente à aliança com os Gregos. Eles enviaram tropas, embora estivessem mal-intencionados.

CCVI — Os Espartanos enviaram na frente Leônidas, com seus trezentos homens, a fim de encorajar com essa conduta o resto dos aliados e com receio de que eles abraçassem a causa dos Persas, vendo a lentidão dos primeiros em socorrer a Grécia. A festa das Cárnias17 impedia-os, então, de se porem em marcha com todas as suas forças, mas pretendiam partir logo após, deixando em Esparta apenas um pequeno número de soldados para guardar a cidade. Os outros aliados alimentavam o mesmo propósito, encontrando-se na mesma situação, pois chegara a época dos Jogos Olímpicos; e como não esperavam combater tão cedo nas Termópilas, tinham-se limitado a enviar um pequeno número de tropas de vanguarda.

CCVII — Entretanto, as tropas gregas que já se encontravam nas Termópilas, tomadas de pânico ante a aproximação dos Persas, puseram-se a discutir se deviam ou não abandonar aquela posição. Os Peloponésios eram de parecer que deviam regressar ao Peloponeso para guardar o istmo; mas Leônidas, vendo que os focídios e os lócrios se mostravam indignados com isso, opinou que ali deviam permanecer, ficando resolvido enviarem-se correios a todas as cidades aliadas para solicitar auxílio contra as forças persas, pois os que ali se encontravam eram em número insuficiente para resistir a um choque com os invasores.

CCVIII — Enquanto assim deliberavam, Xerxes enviou um dos seus cavaleiros para fazer um reconhecimento da situação das tropas gregas e sobre o número das mesmas. Ele tinha ouvido dizer, quando se encontrava na Tessália, que um pequeno corpo de tropas se havia concentrado naquela passagem, e que os lacedemônios, comandados por Leônidas, da raça de Hércules, formavam o grupo vanguardeiro. O cavaleiro, aproximando-se do local onde se achavam as forças gregas, examinou-as cuidadosamente; mas não pôde ver as tropas que se encontravam atrás da muralha ali erguida. Percebeu somente as que haviam acampado diante da muralha. Os lacedemônios guardavam esse posto. Nesse momento, uns ocupavam-se com exercícios gímnicos, enquanto que outros penteavam os cabelos, espetáculo que muito o surpreendeu. Depois de ter calculado o número deles e examinado atentamente o local, o cavaleiro persa regressou ao seu acampamento, sem ser perseguido, pois ninguém dera pela sua presença.

CCIX — De regresso ao seu posto, o cavaleiro fez a Xerxes um relato minucioso de tudo o que havia visto e observado. Diante do exposto, o soberano não pôde admitir que os Gregos se dispusessem a enfrentar, daquela forma, o perigo e a morte, parecendo-lhe sobremodo ridícula tal maneira de agir. Mandou chamar Demarato, filho de Aríston, que se achava no acampamento, e quando este chegou interrogou-o sobre a conduta dos lacedemônios em tão perigosa situação. “Senhor — respondeu Demarato —, quando encetámos a marcha contra a Grécia eu vos falei sobre esse povo, dizendo-vos da atitude que ele assumiria ante o perigo de um ataque, e nenhuma atenção destes às minhas palavras. Embora incorra no risco de desagradar-vos, quero que saibais a verdade e peço-vos que me escuteis. Aqueles homens que ali se encontram estão dispostos a vedar-vos a passagem, e para isso se preparam, pois os Lacedemônios têm o costume de tratar dos cabelos quando em vésperas de arriscar a vida numa empreitada. Se conseguirdes subjugar esses homens e os que se encontram em Esparta, podeis estar certo, senhor, que nenhuma outra nação ousará mais erguer-se contra vós, já que os Espartanos, contra os quais agora marchais, são o povo mais valoroso da Grécia, e o seu reino e a sua cidade os mais florescentes e belos de todo o país”. Xerxes, não podendo dar fé a essas palavras, perguntou, ainda uma vez, de que maneira os gregos, sendo em número tão reduzido, poderiam fazer frente ao seu poderoso exército. “Senhor — volveu Demarato —, podeis considerar-me um impostor se não acontecer tal como vos digo”.

CCX — O soberano, todavia, não se deu por convencido, e deixou passar quatro dias, esperando que os gregos se pusessem em fuga. Finalmente, no quinto dia, vendo que eles se mantinham firmes no seu posto e decididos a resistir-lhe, sentiu-se tomado de cólera e enviou contra eles um destacamento de medos e de císsios, com ordem de capturá-los e trazê-los à sua presença. Os medos lançaram-se impetuosamente sobre os gregos, mas foram repelidos com grandes baixas. Novas tropas vieram à carga, e os defensores gregos, embora fortemente castigados, não recuaram. Então todos compreenderam claramente, inclusive o próprio Xerxes, que os Persas possuíam muitos homens mas poucos soldados. O combate prolongou-se durante todo o dia.

CCXI — Vendo-se rudemente repelidos em todos os assaltos, os medos retiraram-se, sendo substituídos por tropas persas, cujos componentes eram, pelo rei, denominados Imortais e comandados por Hidarnes. Essas tropas atiraram-se sobre o inimigo, seguras da vitória; mas não lograram maiores vantagens que os medos. Sendo suas lanças mais curtas que as dos gregos e desenrolando-se a luta num sítio estreito, não puderam fazer valer o seu maior número. Os lacedemônios combateram de maneira admirável, fazendo ver que eram hábeis e os inimigos muito ignorantes na arte militar. Todas as vezes que lhes voltavam as costas, eles, julgando que se tratava de um fuga, punham-se a persegui-los. Então os gregos, fazendo meia-volta, enfrentavam-nos de novo e desbaratavam-nos. Por fim, os persas, vendo que, não obstante seus reiterados ataques, não conseguiam assenhorear-se da pasagem, resolveram retirar-se.

CCXII — Conta-se que o soberano persa, que observava o combate, receando pela sorte do seu exército, ergueu-se do trono por três vezes. Tal o resultado desse primeiro choque. Os bárbaros não conseguiram melhores resultados na segunda sortida que tentaram. Gabavam-se, porém, de os gregos não poderem mais erguer as mãos, em vista dos ferimentos recebidos na refrega. Os gregos, todavia, colocando-se em ordem de batalha por nações e por batalhões, continuaram combatendo cada qual por sua vez, com exceção dos focídios, que se mantinham no alto da montanha guardando o atalho. Os persas, vendo que não obtinham melhor êxito que no dia anterior, retiraram-se para as suas posições.

CCXIII — Mostrava-se Xerxes muito preocupado com essa situação, quando Efialtes, málio de nascimento e filho de Euridemo, veio procurá-lo na esperança de obter uma boa recompensa. Esse traidor indicou ao soberano o atalho que conduz, pela montanha, às Termópilas, tornando-se, assim, o causador da perda dos gregos que guardavam essa passagem. Praticada essa vil ação, refugiou-se na Tessália, para se pôr a coberto da vingança dos Lacedemônios; mas, embora fugisse, sua cabeça foi posta a prêmio pelos pilágoras, numa assembléia dos anfictiões em Pilas, e certo dia, vindo ele a Antícira, foi morto por um traquínio chamado Atenades. Este matou-o, porém, por um outro motivo, de que falarei depois; mas não deixou, por isso, de receber dos Lacedemônios a recompensa prometida.

CCXIV — Dizem também ter sido Onetes de Carista, filho de Fanágoras, e Coridalo de Antícira que revelaram a Xerxes a existência da outra passagem e conduziram os persas em redor da montanha. Não dou fé a essa versão, apoiando-me, por um lado, no fato de os pilágoras gregos não terem posto a prêmio a cabeça de Onetes, nem a de Coridalo, mas a de Efialtes, o que por certo só fizeram depois de estarem seguramente informados sobre o verdadeiro culpado; e por outro lado, na circunstância de Efialtes ter fugido logo depois. Na verdade, é bem possível que Onetes conhecesse o atalho; mas quem conduziu os persas através da montanha foi, evidentemente, Efialtes, e é a ele que eu acuso de tal crime.

CCXV — A revelação feita por Efialtes e o plano por ele apresentado animaram muito a Xerxes, enchendo-o de satisfação. Sem perda de tempo, enviou ele Hidarnes com suas tropas para o ponto indicado, confiante no resultado da missão. O general partiu do acampamento na hora em que se acendem os fachos. Os Málios, habitantes da região, haviam descoberto o atalho e por ali tinham conduzido os Tessálios contra os Focídios, quando estes, tendo fechado com uma muralha a passagem das Termópilas, se haviam posto a coberto das incursões daqueles. Por muito tempo esse atalho não tivera nenhuma utilidade para os Málios.

CCXVI — O atalho começa no Asopo, que corre pela abertura da montanha que tem o nome de Ánopéia, e termina na cidade de Alpena, a primeira do país dos Lócrios, do lado dos Málios, perto da rocha denominada Melampiges e da localidade dos Cercopes. É nesse ponto que a passagem se apresenta mais estreita.

CCXVII — As tropas persas, tendo atravessado o Asopo, perto do desfiladeiro, caminharam durante toda a noite, tendo à direita os montes dos Eteus, e à esquerda os dos Traquínios. Já se encontravam no alto da montanha, quando o dia começou a clarear. Como já disse, achavam-se concentrados nesse ponto mil focídios muito bem armados, para defender seu país da invasão dos bárbaros e para guardar o atalho. A passagem inferior era defendida pelas tropas de que já falei, e os Focídios se haviam oferecido a Leônidas para guardar o atalho.

CCXVIII — Os persas galgaram a montanha sem serem percebidos, protegidos pelos carvalhos que ali cresciam em abundância. O tempo estava calmo, e os focídios finalmente os descobriram pelo ruído que faziam ao pisar as folhas das árvores espalhadas pelo chão. Erguendo-se incontinênti, muniram-se de suas armas, e nesse instante surgiram os bárbaros. Estes, que não esperavam encontrar inimigos, ficaram surpresos à vista de um corpo de tropas bem armadas. Hidarnes, receando tratar-se de lacedemônios, perguntou a Efialtes de que país eram aquelas tropas. Recebendo a resposta, dispôs os persas em ordem de batalha. Os focídios, estonteados por uma nuvem de flechas, fugiram para o alto da montanha, e julgando que aquelas tropas tinham vindo expressamente para atacá-los, prepararam-se para recebê-las como homens que não receiam a morte. Todavia, Hidarnes, e os persas, guiados por Efialtes, desceram apressadamente a montanha, deixando-os em paz.

CCXIX — O adivinho Megístias, tendo consultado as entranhas das vítimas, comunicou aos gregos que guardavam o desfiladeiro das Termópilas, que eles deviam perecer no dia seguinte, ao romper da aurora. Logo depois, trânsfugas os advertiram sobre os movimentos dos persas em torno da montanha. Era ainda noite quando receberam essa notícia. Quando o dia clareou, os focídios deixaram o alto da montanha. Num conselho reunido para estudar a situação as opiniões divergiram, sendo uns de parecer que se devia permanecer no posto, enquanto que outros optavam por uma retirada. Separaram-se depois dessa deliberação; uns partiram e dispersaram-se pelas suas respectivas cidades, outros permaneceram com Leônidas.

CCXX — Dizem que foi o próprio Leônidas quem decidiu mandá-los embora, a fim de não expô-los a uma morte certa, considerando, entretanto, que, por uma questão de honra, nem ele nem os espartanos que ali se achavam podiam retirar-se, encarregados, como tinham sido, de guardar a passagem. Sinto-me mais inclinado a crer que Leônidas, notando o desencorajamento dos aliados e vendo-os pouco dispostos a correrem o mesmo perigo que os espartanos, ordenou-lhes que se retirassem. Quanto a ele próprio, achou, sem dúvida, que seria vergonhoso fazer o mesmo, e que, permanecendo no seu posto, adquiriria para si uma glória imortal, e para Esparta uma felicidade perene; pois a pitonisa, respondendo a uma consulta dos espartanos no começo da guerra, tinha declarado que seria preciso que a Lacedemônia fosse destruída pelos bárbaros ou que o seu rei perecesse. A resposta estava assim concebida em versos hexâmetros. “Cidadãos da vasta Esparta, ou vossa célebre cidade será destruída pelos descendentes de Perseu, ou toda a Lacedemônia chorará a morte de um rei descendente de Hércules. Nem a força dos touros nem a dos leões poderá sustentar o choque impetuoso do Persa, que tem o poderio de Júpiter. Não. Ninguém será capaz de resistir-lhe”. Prefiro supor que as reflexões de Leônidas sobre esse oráculo e a glória dessa façanha que ele queria reservar somente para os espartanos levaram-no a dispensar os aliados, a acreditar terem sido estes de parecer contrário ao seu e que se tenham retirado por covardia.

CCXXI — Esta crença encontra forte base no fato de ter Leônidas não somente feito partir os aliados, como também enviado na companhia deles o adivinho Megístias de Acarnânia, a fim de que o mesmo não perecesse com ele. Esse adivinho descendia, ao que se diz, de Melampo, e fora ele quem, analisando as entranhas das vítimas, predissera o que veio a acontecer. Megístias, porém, não o abandonou, contentando-se em enviar de volta o filho único, que o havia acompanhado na expedição.

CCXXII — Os aliados se retiraram por obediência a Leônidas. Os tebanos e os téspios permaneceram com os lacedemônios; os primeiros contra a vontade, porquanto Leônidas os retivera para servirem de reféns. Os téspios permaneceram voluntariamente, declarando-se dispostos a não abandonar jamais Leônidas e os espartanos, e pereceram com eles. Eram comandados por Demófilo, filho de Diadromas.

CCXXIII — Xerxes fez libações ao nascer do sol, e, depois de haver esperado algum tempo, pôs-se em marcha na hora em que o mercado costuma estar cheio de gente, como lhe havia recomendado Efialtes. Descendo a montanha, os bárbaros e o soberano aproximaram-se do ponto visado. Leônidas e os gregos, marchando como para uma morte certa, avançaram muito mais do que haviam feito antes, até o ponto mais largo do desfiladeiro, já sem a proteção da muralha. Nos encontros anteriores não haviam deixado os pontos mais estreitos, combatendo sempre ali; mas neste dia, a luta travou-se num trecho mais amplo, ali perecendo grande número de bárbaros. Os oficiais destes últimos, colocando-se atrás das fileiras com o chicote na mão, impeliam-nos para a frente à força de chicotadas. Muitos caíram no mar, onde encontraram a morte, enquanto que inúmeros outros pereceram sob os pés de seus próprios companheiros. Os gregos lançavam-se contra o inimigo com inteiro desprezo pela vida, mas vendendo-a a alto preço. A maioria deles já tinha as suas lanças partidas, servindo-se apenas das espadas contra os persas.

CCXXIV — Leônidas foi morto nesse encontro, depois de haver praticado os mais prodigiosos feitos. Com ele pereceram outros espartanos de grande valor, cujos nomes não desconheço. Os persas perderam também muitos homens de primeira categoria, entre os quais Abrocomes e Hiperantes, ambos filhos de Dario, que os tivera de Fratagunes, filha de Artanes, que era irmão de Dario, filho de Histaspes e neto de Arsames. Como Artanes não possuía outros filhos, todos os seus bens passaram com Fratagunes para Dario.

CCXXV — Esses dois irmãos de Xerxes pereceram ali de armas na mão. Foi violento o combate travado sobre o corpo inanimado de Leônidas18. Os persas e os lacedemônios repeliam uns aos outros alternadamente, mas, finalmente, os gregos, depois de haverem posto quatro vezes em fuga o inimigo, conseguiram retirar do campo o corpo do valoroso comandante. A vantagem alcançada pelos gregos durou até a chegada das tropas conduzidas por Efialtes, quando a situação mudou favoravelmente aos persas. Os gregos recuaram para o ponto mais estreito do desfiladeiro. Em seguida, transpondo a muralha, mantiveram-se todos, exceto os tebanos, sobre a colina que se ergue à entrada do desfiladeiro e onde hoje se vê um leão de pedra erigido em homenagem a Leônidas. Os que ainda possuíam espadas, com elas se defendiam; os outros lutavam com as mãos limpas e com os dentes. Mas os bárbaros, atacando-os sem trégua, uns de frente, depois de haverem posto abaixo a muralha, e os outros por todos os lados, depois de os terem envolvido, aniquilaram-nos a todos.

CCXXVI — Se bem que todos os lacedemônios e téspios se tivessem conduzido com grande bravura, dizem que Dieneces, de Esparta, a todos suplantou pelo seu valor e desprendimento na luta, citando-se dele uma frase memorável. Antes da batalha, tendo ouvido um traquínio dizer que o sol seria obscurecido pelas flechas dos bárbaros, tão grande era o número deles, respondeu-lhe sem perturbar-se: “Nosso hóspede da Traquínia nos anuncia toda sorte de vantagens. Se os medos cobrirem o sol, combateremos à sombra, sem ficarmos expostos ao seu ardor”. De Dieneces contam-se outras coisas semelhantes, que são como outros tantos monumentos por ele legados à posteridade.

CCXXVII — Alfeu e Maron, filhos de Orsifante, ambos lacedemônios, foram os que mais se distinguiram depois de Dieneces; e entre os téspios, Ditirambo, filho de Harmatides, foi o que mais se cobriu de glórias.

CCXXVIII — Foram todos enterrados num mesmo lugar, onde haviam tombado para sempre, e sobre o seu túmulo, bem como sobre o monumento dos que pereceram antes de haver Leônidas mandado embora os aliados, vê-se esta inscrição: “Quatro mil peloponésios combateram aqui contra três milhões de homens”. Esta inscrição refere-se a todos, mas a seguinte refere-se particularmente aos espartanos: “Caminhante, vai dizer aos Lacedemônios que aqui repousamos por havermos obedecido às suas leis”. Há ainda esta dedicada ao adivinho Megístias: “É aqui o túmulo do ilustre Megístias, morto pelos medos, depois de terem eles atravessado o Espérquio. Não concordou em abandonar os chefes de Esparta, embora soubesse que os Parcas cairiam sobre ele”.

Os anfictiões mandaram gravar essas inscrições sobre colunas, a fim de honrar a memória desses bravos; mas a inscrição dedicada ao adivinho Megístias foi mandada gravar por Simônides, filho de Leoprepes, pela grande amizade que lhe dedicava.

CCXXIX — Assegura-se que Êurito e Aristodemo, do grupo dos trezentos, tiveram ambos oportunidade de escolher entre retirar-se para Esparta, guardando o leito em Alpenas, em vista da moléstia que lhes atacou os olhos, pois haviam sido, por isso, dispensados por Leônidas, ou voltar ao acampamento e ali perecer, se não quisessem regressar à pátria. Êurito, ante a liberdade de escolha, tomou uma resolução, sem dúvida digna de todos os encômios. Informado da manobra dos persas através da montanha, pediu suas armas e ordenou ao seu ilota que o conduzisse ao campo de batalha. O ilota, porém, fugia pouco depois, e Êurito, lançando-se à luta, perdeu a vida, enquanto que Aristodemo permanecia covardemente em Alpenas. Se tanto Aristodemo como Êurito se houvessem retirado para Esparta, como lhes foi dado escolher, creio que os Espartanos nada teriam a censurá-los, porquanto a moléstia nos olhos seria uma razão plausível para abandonar o campo da luta. O que encheu de cólera os Espartanos foi o procedimento de Aristodemo, aproveitando a oportunidade para conservar a vida, enquanto que Êurito, podendo tê-la conservado pelas mesmas razões, preferiu sacrificar-se pela segurança dos seus compatriotas.

CCXXX — Enquanto alguns adotam essa versão do que se pode chamar de fuga de Aristodemo para Esparta, aproveitando-se do pretexto acima mencionado, outros afirmam que o exército, tendo-o enviado como delegado a determinado lugar, ele, embora podendo retornar a tempo de tomar parte na batalha, deixou-se ficar propositadamente longe dali, a fim de furtar-se ao combate e dessa maneira conservar a vida.

CCXXXI — De regresso à Lacedemônia, Aristodemo foi alvo de acerbas censuras e coberto de opróbrio, sendo por todos considerado como criatura infame, indigna de qualquer consideração. Lançaram sobre ele a pecha de cobarde, negando-se todos a dirigir-lhe a palavra e a prestar-lhe qualquer favor. Mais tarde, porém, Aristodemo conseguiu reabilitar-se na batalha de Plateia.

CCXXXII — Conta-se também que Pantites, do grupo dos trezentos, sobreviveu à derrota, por encontrar-se, na ocasião da batalha, na Tessália, onde fora enviado como embaixador; mas, tendo regressado a Esparta e vendo-se desonrado, enforcou-se.

CCXXXIII — Os tebanos, comandados por Leontíades, combateram contra o exército persa enquanto estiveram com os gregos e a isso se viram forçados; mas, logo que perceberam que a vitória se inclinava para os persas e que os gregos dirigidos por Leônidas haviam sido rechaçados na colina, abandonaram seus companheiros e aproximaram-se dos bárbaros, estendendo-lhes a mão. Afirmaram-lhes terem sido os primeiros a abraçar a causa dos persas e que tinham vindo às Termópilas forçados pelas circunstâncias, não lhes cabendo a mínima culpa pelos primeiros insucessos das armas persas. Essa declaração, que recebeu o apoio dos tessálios, salvou-lhes a vida. Contudo, nem todos tiveram a mesma sorte, pois muitos foram mortos pelos bárbaros ao se aproximarem e sem terem tido tempo de explicar-se, enquanto que muitos outros receberam, por ordem de Xerxes, o estigma real, a começar por Leontíades, seu general. O filho de Leontíades, Eurímaco, que mais tarde se apoderou de Plateia com os quatrocentos tebanos que comandava, foi morto pelos habitantes dessa cidade.

CCXXXIV — Tal o resultado da batalha das Termópilas. Cessada a luta, Xerxes mandou chamar Demarato, a quem falou nestes termos: “Demarato, és um homem de bem, e a verdade das tuas palavras me deixou plenamente convencido disso, pois o que me disseste foi confirmado pelos fatos. Mas, dize-me agora se é ainda grande o número de lacedemônios que terei de enfrentar e se são todos tão bravos e decididos quanto esses que acabamos de bater em tão dura refrega.” “Senhor — respondeu Demarato —, os lacedemônios são assaz numerosos e possuem muitas cidades. Mas é preciso que definais exatamente o que pretendeis. Esparta, capital do país, conta com uma população de oito mil homens, todos da mesma têmpera dos que combateram aqui. Os outros lacedemônios, embora bravos, não se igualam a estes”. “Indica-me, pois — volveu Xerxes —, a maneira pela qual poderemos subjugá-los com um mínimo de perdas. Tu, que foste o rei deles, deves saber o que pretendem”.

CCXXXV — “Oh rei! — retrucou Demarato — Já que pedis com confiança minha opinião, é justo que eu vos diga o que me parece mais acertado. Enviai trezentos navios da vossa frota às costas da Lacônia. Existe, perto dali, uma ilha chamada Citera. Quílon, o homem mais sábio que já tivemos, dizia ser vantajoso para os Espartanos que essa ilha submergisse, pois esperava sempre que ela desse um dia lugar a um plano semelhante ao que agora vos exponho; não porque previsse a vossa expedição, mas porque receava a ação de qualquer outra frota inimiga. Vossos navios devem partir para essa ilha, a fim de espalhar o terror sobre as costas da Lacônia. Os Lacedemônios, vendo a guerra às suas portas, ficarão impossibilitados de prestar socorro ao resto dos gregos quando vós os atacardes com o exército de terra. Submetido o resto da Grécia, a Lacônia não poderá resistir-vos. Se não agirdes da maneira que vos digo, podereis encontrar grandes obstáculos pela frente. À entrada do Peloponeso há um istmo bastante estreito, onde todos os Peloponésios, ligados contra vós, oferecer-vos-ão combates muito mais renhidos do que os que tivestes de sustentar até aqui. Se fizerdes o que vos digo, tornar-vos-eis senhor do istmo e de todas as cidades adjacentes”.

CCXXXVI — Aquêmenes, irmão de Xerxes e um dos comandantes da frota, presente no momento, receando que o soberano se deixasse persuadir pelas afirmações de Demarato, tomou a palavra: “Senhor, vejo que recebeis favoravelmente os conselhos de um homem invejoso da vossa boa fortuna e que traiu os vossos interesses; pois tal é, geralmente, o caráter dos Gregos: têm inveja da felicidade dos outros e detestam os poderosos. Se na situação em que nos encontramos, depois de havermos perdido quatrocentos navios num naufrágio, enviarmos outros trezentos para varrer as costas do Peloponeso, nossos inimigos tornar-se-ão tão fortes quanto nós. Se, ao contrário, nossa frota se mantiver unida, seremos invencíveis, e os Gregos não estarão em condições de resistir-nos. As nossas duas forças devem marchar juntas, a do mar podendo prestar socorro à de terra e vice-versa. Se as separarmos, elas não poderão auxiliar-se mutuamente. Contentai-vos em organizar bem as vossas forças e não vos inquieteis com o que venham a fazer os inimigos. Quanto à maneira como dirigirão a resistência, às medidas que poderão tomar e aos recursos de que dispõem para vos enfrentar, isso diz respeito somente a eles. Se os Lacedemônios derem combate aos nossos, não conseguirão reparar, com isso, a derrota que acabam de sofrer”.

CCXXXVII — “Aquêmenes — observou Xerxes —, teu conselho me parece acertado e sinto-me inclinado a segui-lo; mas estou convencido de que Demarato me propõe o que considera mais vantajoso para mim. Embora o teu parecer se sobreponha ao dele, não posso acreditar que ele esteja mal-intencionado. Suas palavras anteriores, confirmadas pelos acontecimentos, são uma prova da sua fidelidade para conosco. Que um homem, invejoso da felicidade de um seu concidadão e que nutra contra o mesmo um ódio secreto, procure dar-lhe conselhos que não lhe pareçam, de maneira alguma, acertados, é coisa facilmente compreensível. Mas um hóspede deve sempre encarar com simpatia a prosperidade do amigo que o acolhe, e se este o consulta, ele não lhe dará senão bons conselhos. Demarato é meu hóspede, e quero que de ora em diante se abstenham de falar mal dele”.

CCXXXVIII — Dando por encerrada a palestra, Xerxes pôs-se a examinar os corpos dos soldados mortos na peleja. Tendo sabido que Leônidas era rei e general dos Lacedemônios, ordenou que lhe cortassem a cabeça e a pregassem num poste. Tal procedimento vale-me como uma prova convincente, entre muitas outras que eu poderia apresentar, de que Leônidas era, em vida, o homem contra o qual Xerxes nutria maior animosidade. Se assim não fosse, não teria, de certo, tratado o seu cadáver com tanta desumanidade; pois, de todos os homens que conheço, nenhum honra mais os que se distinguem pela bravura do que os Persas.

CCXXXIX — Os Lacedemônios foram os primeiros a ter conhecimento da marcha de Xerxes contra a Grécia. Ante a notícia, mandaram consultar o oráculo de Delfos, que lhes deu a resposta a que já me referi. O aviso lhes chegou de maneira bastante singular, e quem o deu foi Demarato, filho de Aríston, refugiado entre os Medos. Se Demarato assim agiu para proteger ou para insultar os Lacedemônios, é o que não posso afirmar, porquanto acredito que ele não estava bem intencionado com relação a eles. Como quer que seja, tendo Xerxes resolvido lançar-se contra os Gregos, Demarato, então em Susa, procurou informar os Lacedemônios das intenções do soberano. Mas como lhe faltavam meios para isso e receava ser descoberto, serviu-se do seguinte artifício: tomou de uns tabletes duplos, raspou a cera que os recobria e neles escreveu o aviso com referência aos planos do soberano. Feito isso, cobriu as letras com cera, a fim de que, ocultando as informações neles contidas, o portador não viesse a achar-se em dificuldades, caso fosse detido pelos que guardavam as passagens. Quando os tabletes chegaram à Lacedemônia, ninguém atinou, a princípio, com o seu significado; mas Gogo, filha de Cleómenes e mulher de Leônidas, acabou descobrindo que se a cera fosse removida, algo seria encontrado gravado na madeira. Seguindo a sua sugestão, removeram a cera e descobriram os caracteres. A mensagem foi lida e depois transmitida aos outros povos gregos.

Ver notas

Mais fontes de Guerras Greco-pérsicas

Vidas Paralelas: Aristides, o justo, de Plutarco

Heródoto narra a batalha de Salamina (480 a.C.)

Heródoto fala sobre a ponte de Xerxes no Helesponto

Heródoto narra a batalha de Maratona (490 a.C.)

Fechar

Comentários dos visitantes

Ícone alerta azul

Contribua para um debate inteligente e educado na internet.
Não seja um troll.