Notas

1 Porto de Chipre.

2 Sem dúvida, perto das cidades da Ásia (cf. Veleio Patérculo, II, 42).

3 Os piratas foram crucificados. Cf. Veleio, II, 42 e Plutarco Júlio César (edição da Atena Editora).

4 Foi eleito em primeiro lugar e com numerosos sufrágios.

5 É exato para Júlia, mais idosa, mas não para Cornélia, que morreu jovem. César, ao pronunciar o elogio fúnebre da sua mulher Cornélia, foi o primeiro em Roma a fazer o panegírico duma moça.

6 O atentado sacrílego de Clódio verificou-se durante as festas da Boa Deusa.

7 O pretor Véter, do qual, por sua vez, nomeou mais tarde o filho para seu questor.

8 Na Gália.

9 Muitos templos de Hércules possuíam uma estátua de Alexandre da Macedônia, cujas origens remontavam àquele semideus.

10 Cf. Salústio, Catilina, XVII e XVIII.

11 Salústio, idem.

12 Pisão morreu assassinado na Espanha por cavaleiros auxiliares do seu exército.

13 Isáurico e Catulo. Cf. Salústico, Catilina, XLIX e Veleio, II, 43.

14 respeito do papel de César nesta conjuração, cf. Plutarco, César, VI-VIII e Salústio, Catilina, XLIX-LII.

15 Que fora presa dum incêndio.

16 O candidato de César era Pompeu.

17 Júnio Silano e Licínio Murena.

18 Cf. Plutarco, Catão, XXVI-XXIX.

19 Entre outras, a de Crasso, de 830 talentos. Cf. Plutarco, César.

20 Foi o primeiro triunvirato, 60 a. C.

21 Ela se estendia ao pé do monte Calígula, na Campânia meridional.

22 Eram célebres pela sua fertilidade. Cícero chamou-lhes “os celeiros das legiões”.

23 Em viagem, Catão foi posto em liberdade por um tribuno e, sem dúvida, a pedido do próprio César, que temia o descontentamento popular (cf. Plutarco, César).

24 Clódio o solicitava para chegar a ser tribuno do povo e, assim, vingar-se de Cícero.

25 Segundo Cícero, Vétio foi morto a pancadas, na prisão, por Vatínio.

26 Nas Usípetas e nas Tenchteras, cf. César, De Bello Gallico, livro IV.

27 Armada por Ambiorix.

28 . Sua filha Júlia, casada com Pompeu, morreu ao dar à luz uma criança que não sobreviveu à sua mãe senão alguns dias.

29 Assassinado por Milão, durante uma rixa; cf. Veleio, II, 47.

30 César estabelecera em Como, na Transpadana, colônias, e a cidade tomara o nome de Nova Como.

31 Quinze talentos, conta-se.

32 L. Cornélio Lêntulo e Cláudio Marcelo.

33 Fenicianas, versos 357-574.

34 Praça de guerra do país dos sanitas.

35 Pompeu declarara “que havia tumulto”.

36 Não havia navios.

37 Ptolomeu XII.

38 Cnéio e Sexto.

39 Vencido por Sabura, lugar-tenente de Juba.

40 Cedendo à fome.

41 Vencido por Libão, lugar-tenente de Pompeu.

42 Vencido por Farnace.

43 A sangrenta batalha de Munda.

44 Os troféus eram de madeira de cedro ou de limoeiro para o triunfo das Gálias. De casca de tartaruga para o de Alexandria. De acanto para o do Ponto. De aço polido para o da Espanha. De marfim para o da África.

45 Após haver expulso Pompeu da Itália.

46 Terreno situado além do Tibre.

47 César elevou o número dos senadores para novecentos.

48 De oito para dez.

49 Aumentando de quatro para seis.

50 De 30 para 40.

51 Cartago e sobretudo Corinto.

52 Célio e Dolabela o haviam feito esperar na ausência de César.

53 Lago do país dos marsos.

54 O istmo de Corinto.

55 Em Córdova e no momento de se ferir a batalha de Tapso.

56 Rua do mercado e das prostitutas.

57 Cesário.

58 Orador, com mais encanto do que vigor, se nos ativermos ao testemunho de Cícero.

59 Ilerda.

60 Munda.

61 Por Ambiorix.

62 Cidadão romano; nome dos cidadãos que residiam em Roma, em oposição aos que estavam no exército.

63 Honra já concedida a Cícero, ao reprimir a revolta de Catilina.

64 Honra já tributada a Bruto, primeiro cônsul.

65 Como Júpiter, Marte e Quirino.

66 Ao lado dos Lupercais Quintilianas e Fabianas, consagradas ao culto do deus Pã. Houve, para o futuro, as Lupercais Julianas, consagradas ao culto de César.

67 À proposta de Antônio, o mês de Quintilis devia chamar-se Julius (julho).

68 O morto chamava-se Máximo e o “homem qualquer” foi Canínio Rebilo, cônsul por algumas horas, “cônsul vigilante”, como disse espirituosamente Cícero, “que jamais dormiu durante seu consulado”.

69 Este Pôncio Áquila, hostil a César, foi um dos seus assassinos e pereceu em Módena.

70 Em 15 de fevereiro, cf. nota 66.

71 Assim chamada porque a ornava a estátua de Pompeu, autor da construção do teatro e dos pórticos daquele bairro de Roma.

72 Cf. Virgílio, Eneida, X, 143.

73 Artemídoro de Cnido, professor de literatura grega em Roma.

74 Címber Túlio pedira-lhe a graça para o seu irmão exilado.

75 No Lácio, não longe de Túsculo.

76 Reconhecidos a César, que vencera Pompeu, o assaltante de Jerusalém.

77 Juramento público pelo qual todos os cidadãos se com prometiam a defender a vida de César.

78 Cf. Xenofonte, Ciropédia, VIII, 7.

79 Condenados à morte em virtude da “lei Pédia”. A Lex Pedia é o nome, em latim, de uma lei, passada por Pedius, companheiro de César no consulado, condenando ao exílio todos os assassinos de Júlio César.

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Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Caio Júlio César, de Suetônio

Fontes primárias > Roma Antiga  |  978 visualizações  |  20103 palavras  |  37,1 páginas  |  0 comentário(s)

Estátua de bronze de Júlio César na Piazza Tre Martiri, Rimini. Cópia de um original produzido em 1933 durante o governo de Benito Mussolini.

Júlio César (100-44 a.C.) foi um patrício, líder militar e político romano que desempenhou um papel crítico na transformação da República Romana no Império Romano. Em seu testamento adotou como filho Otávio, que passou a se chamar César e depois disso se tornou Augusto. Essa biografia de Júlio César faz parte de um livro intitulado "A Vida dos Doze Césares" escrito pelo historiador Suetônio, que viveu no século 2 d.C.

Primeiros anos de vida

Contava 16 anos de idade ao falecer-lhe o pai. Designado sacerdote de Júpiter, sob os consulados subsequentes, abandonou Cossúcia, sua mulher, descendente de uma família de cavaleiros, porém muito rica, por ele desposada ao envergar a toga pretexta. Casou-se em seguida com Cornélia, filha de Cina, quatro vezes cônsul, nascendo-lhe, dentro em pouco, uma filha a que deu o nome de Júlia. O ditador Sila não conseguiu, de maneira alguma, obrigá-lo ao divórcio. Destituindo-o da dignidade sacerdotal e despojando-o do dote da mulher e das heranças da família, Sila incluiu-o também na lista dos seus adversários. Compelido a não poder aparecer em público, viu-se, apesar de atacado de impaludismo, obrigado a procurar, quase todas as noites, novo esconderijo e livrar-se, a peso de ouro, das mãos dos seus perseguidores. No fim, graças à mediação das virgens vestais, de Mamerco Emílio e de Aurélio Cota, seus vizinhos e aliados, alcançou o perdão. Opina-se, geralmente, que Sila, depois de ter recusado durante muito tempo a atender aos pedidos dos seus melhores amigos e das personalidades mais eminentes, deu-se, afinal, por vencido diante da pertinácia dos esforços em favor desse indulto, mas assim se expressou, profetizando ou, simplesmente, conjeturando: “Conseguistes prevalecer. Regozijai-vos. Sabei, porém, que este, por cuja salvação vos bateis tão ardentemente, será, um dia, a ruína do partido dos nobres que vós próprios tendes defendido ao meu lado. Há em César mais de um Mário.”

Júlio César estreou, militarmente, na Ásia, sob as ordens do pretor Marco Termo, de cuja tenda partilhava. Enviado por este a Bitínia, a fim de conseguir uma esquadra, deteve-se na corte do rei Nicomedes. Correu, então, a notícia de que se havia prostituído a este monarca, notícia essa que, poucos dias depois, era confirmada pelo fato do seu retorno àquele reino, sob o pretexto de pagar uma soma da qual seria credor um liberto, seu protegido. Ganhou fama ao final da campanha, e Termo, com a tomada de Mitilene, brindou-lhe a coroa cívica.

Serviu, também, sob as ordens de Servílio Isáurico, na Cilícia, mas por pouco tempo. Com a notícia da morte de Sila e na esperança de que poderia tirar partido das perturbações da ordem fomentadas por Marco Lépido, apressou-se a ir a Roma. Evitou, porém, aliar-se a Lépido, não obstante as magníficas condições para tal pacto, não só porque desconfiava do gênio desse homem, mas sobretudo porque achava o momento o menos propício, como nunca talvez imaginara.

Além disso, pacificadas as dissensões internas, acusou Cornélio Dolabela, figura consular enobrecida por um triunfo, do crime de peculato. O acusado foi absolvido. Resolveu, então, retirar-se para Rodes, a fim de fugir ao ódio e de consagrar seus lazeres e repouso às lições de Apolônio Molon, mestre de eloquência dos mais célebres da época. Na viagem, realizada durante o inverno, viu-se sequestrado por piratas, nas proximidades da ilha de Farmacusa1, porém tratado com a maior consideração durante os 40 dias de cativeiro. Tinha ao seu lado apenas o médico e dois criados de quarto, pois despachara imediatamente os outros companheiros e os demais escravos, a fim de que obtivessem o dinheiro necessário ao seu resgate2. Assim que pôde reunir 50 talentos e o fizeram desembarcar, armou imediatamente uma frota, perseguiu os piratas, submeteu-os ao seu poder e infligiu-lhes os mesmos suplícios com que eles o haviam ameaçado por brincadeira3. Taladas as regiões limítrofes por Mitrídates, não quis passar por ocioso, mormente ao saber em perigo os aliados de Roma: passou de Rodes, onde desembarcara, para a Ásia. Agrupou aí forças auxiliares, expulsou da província um prefeito do rei e conservou, assim, dentro do dever, povos infirmes e titubeantes.

César torna-se Tribuno Militar

A primeira honra de que se tornou devedor aos sufrágios do povo4, após seu retorno a Roma, foi a do tribunato militar. Serviu-se desse cargo para auxiliar, quanto lhe fosse possível, os que propunham o restabelecimento do poder tribunício, cujos limites haviam sido reduzidos por Sila. Fez, também, executar a lei Plócia, a fim de que Lúcio Cina, seu cunhado, pudesse reentrar em Roma, da mesma forma que todos quantos, durante as discórdias civis, haviam transfugido para junto de Sertório. A propósito deste caso, chegou, mesmo, a pronunciar um discurso.

Investido no cargo de questor, proferiu diante da tribuna róstria, de acordo com a tradição5, o elogio fúnebre da sua tia Júlia e da mulher, Cornélia. Ao traçar o panegírico daquela, eis como falou, referindo-se à sua dupla origem e à do seu pai: “Minha tia Júlia descende de reis por parte da família de sua mãe e, por parte da do seu pai, acha-se ligada aos deuses imortais. A casa real dos Márcios, de onde minha mãe herdou o nome, provém de Anco Márcio. Os Júlios, antepassados da nossa família, descendem de Vênus. Assim, misturam-se à nossa raça a santidade dos reis, que tão poderosa influência exercem sobre os homens, e a majestade dos deuses, que mantêm debaixo da sua autoridade os próprios reis.” Em substituição a Cornélia, casou-se com Pompeia, filha de Quinto Pompeu, neta de Lúcio Sila, da qual se divorciou mais tarde, por suspeitas de adultério com o jovem patrício Públio Clódio. A notícia de que este conseguira penetrar na casa de César, em trajos femininos, durante a celebração de cerimônias públicas, adquiriu tal consistência que o Senado deliberou abrir inquérito a respeito do sacrilégio6.

Exercia a questura ao obter a Espanha Ulterior. Enquanto ali, por ordem do pretor7, se realizavam as assembleias destinadas a administrar a justiça, ele foi a Gades8. Nesta cidade encontrou, no templo de Hércules, uma estátua de Alexandre, o Grande9. Diante dela lamentou-se e confessou-se como que tomado por uma certa pusilanimidade, por nada ter ainda feito de memorável, numa idade em que Alexandre já havia subjugado o mundo. Imediatamente pediu uma licença, a fim de procurar em Roma, dentro do mais breve prazo, oportunidade em que pudesse realizar as mais altas façanhas. Confuso ainda por causa de um sonho que tivera na véspera (sonhara que estuprava a própria mãe), viu as suas esperanças atingirem o auge, graças à interpretação que lhe deram os áugures, segundo a qual ele seria o árbitro do mundo, pois a mãe que ele violara outra não era senão a Terra, a nossa mãe comum.

Partindo-se, pois, antes da data fixada, encontrou as colônias latinas10 em estado de agitação em prol dos direitos políticos comuns aos cidadãos de Roma. Ele as teria compelido a um movimento sério se os cônsules, por prevenção, não tivessem retido ali, por algum tempo, as legiões que marchavam para a Cilícia. Todavia, em Roma, arquitetou logo projetos mais vastos.

César torna-se Edil

Efetivamente, poucos dias antes de se investir no cargo de edil, foi suspeitado como conspirador com Marco Grasso, personagem consular, da mesma forma que com Públio Sila e Lúcio Antônio, condenados ambos por cabala, após haverem sido designados cônsules. Tinham por escopo: atacar o Senado11 logo no começo do ano; degolar os que bem entendessem; confiar a ditadura a Crasso, que nomearia César comandante-chefe da cavalaria e, depois de organizada a República conforme a vontade de todos, entregar o consulado a Sila e Antônio. Tanúsio Gêmino na sua história, Marco Bibulo nos seus éditos e Caio Cúrio, pai, nos seus discursos, dão notícias desta conspiração. Cícero, numa de suas cartas a Áxio, parece, também alude a ela, ao afirmar que César, no seu consulado, consolidara a realeza, cuja ideia lhe brotara ao exercer o cargo de edil. Tanúsio acrescenta que Crasso, fosse por arrependimento ou por outro motivo, não aparecera no dia fixado para o massacre e que, em consequência disso, César não dera o sinal convencionado. Este sinal, segundo Cúrio, consistia em deixar cair a toga das suas espáduas. Cúrio ainda, apoiado por Marco Actório Naso, recorda que ele conspirara também com o jovem Anésio Pisão12, o qual, suspeitado de participar desta trama civil, recebeu, sem a haver solicitado, e contra todas as regras ordinárias, a província de Espanha. Deviam eles, ao mesmo tempo um fora e outro dentro de Roma —, tentar uma revolução com o auxílio dos ambrônios e dos transpadanos. A morte de Pisão, porém, pôs fim a esse projeto.

Durante o tempo da sua edilidade, embeleceu não apenas o Comitium, o Fórum e as basílicas, mas ainda o Capitólio, dotando-o de pórticos provisórios destinados à exposição de uma parte, pelo menos, das suas inúmeras riquezas. Criou, também, tanto com a colaboração do seu colega como por si só, o esporte venatório e outros divertimentos. Isso teve como resultado receber, sozinho, as honras das despesas feitas em comum, pois seu colega Marco Bibulo não disfarçava haver chegado à mesma situação de Polux: “Da mesma forma que o templo dedicado aos irmãos gêmeos, no Fórum, ostentava somente o nome de Castor, assim também a sua própria munificência e a de César eram apresentadas como sendo apenas de César.” César, por outro lado, organizou paralelamente a estas liberalidades um combate de gladiadores. As parelhas, porém, foram menos numerosas do que as consignadas no seu projeto. A quadrilha considerável que ele recrutara por toda parte apavorou de tal maneira os inimigos que estes tomaram logo a precaução de limitar, por meio de uma lei, o número de gladiadores em permissão para habitar em Roma.

Conquistado o favor do povo, conseguiu por intermédio dos tribunos, e graças a um plebiscito, lhe fosse dada a província do Egito. O momento lhe parecia favorável para obter um comando extraordinário, em virtude da expulsão do rei pelos habitantes de Alexandria, a cujo soberano o Senado concedera o título de aliado e amigo. Esta violência recebeu desaprovação geral. A facção dos grandes levou ao fracasso as pretensões de César, o qual, por seu turno, a fim de conseguir o enfraquecimento da autoridade dos seus adversários, por todos os meios possíveis, reergueu os troféus de Caio Mário conquistados sobre Jugurta, sobre os cimbros e os teutões, derrubados outrora por Sila. No processo instaurado contra os sicários, ele fez incluir no rol destes até mesmo aqueles que haviam recebido dinheiro do erário para trazer a cabeça dos cidadãos proscritos, se bem tivessem estes sido postos fora da alçada judicial pelas leis cornélias.

Acusou também de crime de alta traição a Caio Rabírio, que havia sido o auxiliar mais graduado do Senado, alguns anos antes, durante a repressão das tramoias sediciosas do tribuno Lúcio Saturnino. Escolhido, por sorte, juiz, de fato, condenou com tanta paixão que Rabírio, apelando para o povo, não encontrou, ao pé deste, melhor defesa do que a animosidade do magistrado que o julgara.

César torna-se Pontífice Máximo

Renunciando à esperança de alcançar uma província, pleiteou o pontificado máximo, não sem haver espalhado antes dinheiro em profusão. Ao considerar sobre a soma enorme a que lhe montavam as dívidas, na manhã em que se dirigia aos comícios, conta-se, dissera à sua mãe que o beijava: “Só voltarei como pontífice máximo.” Foi tal o triunfo conseguido sobre seus dois poderosíssimos antagonistas13, bem superiores a ele, quer pela idade, quer pelas prerrogativas, que chegou a reunir em torno do seu nome maior número de votos do que os obtidos pelos seus competidores em conjunto.

Conspiração de Catilina

Exercia a pretoria ao ser descoberta a conspiração de Catilina14. Enquanto o Senado decretava, por unanimidade, a pena capital contra os sediciosos, ele foi o único a propor a detenção destes, separadamente, nas cidades municipais e a confiscação dos seus bens. Inspirou tal receio os que emitiram a respeito juízos mais severos, fazendo-lhes sentir, repetidas vezes, como tal atitude os tornaria, um dia, alvo do ódio das massas, que Décio Silano, cônsul designado, vendo que não podia, sem opróbrio, mudar de opinião, não se envergonhou, entretanto, de dar ao seu voto um sentido mais brando, como se lhe tivessem emprestado maior severidade. E talvez houvera vencido (pois conseguira já, para o seu ponto de vista, a adesão da maioria dos senadores, entre os quais se encontrava Cícero, irmão do cônsul) se o discurso de Marco Catão não tivesse orientado a assembleia vacilante. Mesmo assim, não deixou de fazer oposição ao decreto e foi tanta a resistência que lhe ofereceu que o destacamento de cavaleiros romanos, encarregado da guarda armada do Senado, se viu na contingência de ameaçá-lo de morte. Chegaram, mesmo, a voltar contra ele a ponta dos seus gládios, tanto assim que os senadores que se achavam mais próximo dele se afastaram. Apenas um pequeno número o protegeu, tomando-o nos braços e cobrindo-o com as togas. Daí por diante, sob o império do pavor, abandonou inteiramente o seu projeto: não somente se retirou, mas se absteve também de aparecer na Cúria, durante o resto do ano.

No primeiro dia de exercício na pretoria, fez Quinto Catulo comparecer perante o povo, a propósito da reconstrução do Capitólio15, e propôs se confiasse a obra a cargo de outro também16. Incapaz, entretanto, de lutar contra a coalizão dos otimates, os quais, ao mesmo tempo que se negavam a devolver as prerrogativas aos novos cônsules17, acorriam em massa para lhes opor resistência obstinada, desistiu do intento.

Quanto ao resto, não demonstrou senão mais encarniçamento ao ajudar e defender Cecílio Metelo, tribuno do povo que propusera leis turbulentíssimas18 com o fim de eliminar a faculdade de intercessão outorgada aos seus colegas. Fez-se necessário um decreto do Senado, determinando a suspensão de ambos das funções que exerciam. Todavia, César teve o atrevimento de não abandonar o seu cargo e continuar a administrar a justiça. Como visse, porém, que se lhe preparava a destituição pela força das armas, demitiu seus litores, despiu a toga pretexta e retirou-se secretamente, em virtude das circunstâncias, para a tranquilidade do lar. Dois dias mais tarde, havendo a multidão, num gesto espontâneo, afluído à sua residência, tumultuosamente, para lhe hipotecar apoio relativamente à manutenção da sua autoridade, ele procurou acalmá-la. Diante desta inesperada atitude moderativa, o Senado, que se reunira às pressas logo que se espalhara a notícia daquela agitação, enviou-lhe os membros mais eminentes, a fim de lhe agradecer o gesto, e, ao mesmo tempo que o chamavam à Cúria, tecia-lhe os maiores elogios e o reinvestia na pleniposse de todas as suas anteriores prerrogativas funcionais, depois de anulado o decreto que as cassara.

Correu ainda outro perigo: foi denunciado, perante o questor Nóvio Níger, como cúmplice de Catilina, por Lúcio Vétio Judex e, no Senado, por Quinto Cúrio, a quem foram conferidas recompensas por haver sido o primeiro a delatar a conspiração. Cúrio dizia-se informado pelo próprio Catilina. Vétio ia mais longe: sustentava que César entregara a Catilina um pacto assinado. Como César achasse intoleráveis tais ataques, pediu a Cícero testemunhasse como ele, Júlio, de livre vontade o havia posto ao corrente de certos detalhes da trama. Deste modo conseguiu privar Cúrio das recompensas. Foi apreendida uma fiança destinada a Vétio. Assim, seus bens foram sequestrados e ele próprio maltratado e quase difamado perante a tribuna róstria, em plena assembleia. Por fim, César mandou encarcerá-lo. Igual destino teve o questor Nóvio, por haver consentido se denunciasse ao tribuno uma autoridade superior à sua.

Obtém a Espanha Ulterior

Ao deixar a pretoria, obteve por sorte a Espanha Ulterior. Impedido de viajar pelos credores, livrou-se deles, dando-lhes fianças19. E, contra a prática geralmente observada e contra a própria lei, partiu antes mesmo de haverem sido organizadas as províncias. Não se sabe, absolutamente, se tal determinação foi tomada de medo do processo que o ameaçava na qualidade de simples cidadão privado, ou se para prestar auxílio, o mais depressa possível, aos aliados, que lho reclamavam. Pacificada a sua província, deixou-a com a mesma precipitação, sem esperar sequer o substituto, a fim de poder disputar, ao mesmo tempo, o triunfo e o consulado. Como, porém, os comícios estivessem já convocados, não se podia levar em consideração a sua candidatura, a não ser que entrasse em Roma como mero particular. E como fosse muito viva a oposição ao privilégio que solicitava, viu-se obrigado a renunciar ao triunfo para não ser excluído da lista dos aspirantes ao consulado.

Eleito Cônsul. O Primeiro Triunvirato

Dos seus dois competidores nesse pleito, Lúcio Luceio e Marco Bibulo, preferiu Lúcio, que possuía menor reputação, porém maior fortuna, sob a condição de fornecer o dinheiro prometido a cada centúria, no nome de ambos. Informados deste negócio, temeram os nobres que, guindado à magistratura suprema, com um colega que lhe anuiria a todos os desejos, César não soubesse impor limites à sua audácia, e aconselharam Bibulo a fazer idênticas promessas. Houve contribuição da maior parte deles e o próprio Catão reconheceu que tal munificência estava de acordo com os interesses do Estado. César foi, pois, eleito cônsul com Bibulo. Pela mesma razão, os otimates consignaram aos futuros cônsules funções de importância mínima, tais como a administração das florestas e das estradas. Profundamente chocado com esta injúria, César tratou logo de cercar Cneio Pompeu que se desaviera com os senadores, após sua vitória sobre Mitrídates, em virtude da morosidade com que o Senado lhe ratificava os atos de todas as atenções. Reconciliou Pompeu com Marco Crasso, malquistados desde quando exerceram juntos o consulado, em profunda desinteligência, e aliaram-se todos, uns com outros, ficando estipulado que nada se faria na República que pudesse desagradar a cada um dos três20.

Consulado de Júlio e César

Ao investir-se nas funções do seu cargo, estabeleceu, antes de mais nada, que se desse publicidade tanto aos atos do Senado como aos do povo. Restabeleceu, também, a antiga usança de, nos meses em que não houvesse fasces, o cônsul se fazer preceder de um oficial de justiça e acompanhar de litores. Ao promulgar uma lei agrária, expulsou do Fórum, a mão armada, o colega que se opôs ao seu desiderato. Este, no dia seguinte, foi queixar-se dele ao Senado, mas não encontrou ninguém que, em meio à geral consternação, se atrevesse a lembrar ou decretar uma dessas medidas tantas vezes votadas durante perturbações menos graves. Desesperado, Bibulo se viu compelido a encerrar-se em sua residência até que César abandonasse o poder, sem outra maneira de manifestar a sua oposição a não ser por meio de éditos. A partir deste momento, César, ele só, teve em suas mãos todo o governo do Estado; administrou conforme quis. De modo que vários cidadãos, ao referendarem uma certidão sobre determinado fato, escreveram por pilhéria que tal não se realizara sob o consulado de César e Bibulo, mas sob o de “Júlio” e o de “César”, designado, assim, pelo nome e sobrenome. Logo se popularizaram, também, os seguintes versos:

Quase nada se fez sob o consulado de Bibulo,
tudo se fazendo, entretanto, sob o de César. Não me recordo de
nenhum fato verificado sob o consulado de Bibulo.

A esplanada de Stela21, consagrada pelos nossos antepassados, e os campos da Campânia22 estavam arrendados ao Estado. Ele os distribuiu, sem sorteio, a perto de 20 mil cidadãos, com três filhos cada um, pelo menos. Os rendeiros solicitaram-lhe um abatimento: ele reduziu de um terço os arrendamentos e os exortou, de público, a não elevarem muito alto o preço de arrematação das novas herdades. Quanto ao mais, agiu da mesma forma: concedendo a cada um o que lhe pedia. Ninguém o contrariava, porque ele sabia atemorizar todo aquele que tentasse fazê-lo. Marco Catão, por havê-lo apostrofado, foi arrancado da Cúria por um litor e conduzido à prisão23. Lúcio Lúculo, que lhe oferecia resistência, com grande persistência, ficou tão apavorado com as suas calúnias que se atirou de joelhos aos seus pés, espontaneamente. Como Cícero se houvesse lamentado, num discurso de defesa, da infelicidade dos tempos, nesse mesmo dia, à hora nona, César transferiu Clódio, inimigo daquele orador, mas que, havia muito, já lhe solicitava tal obséquio, da ordem do patriciado para a da plebe24. Por fim atirou Vétio, contra o partido inteiro dos seus adversários, subornando-o para que declarasse existir entre eles alguns que lhe haviam confiado o assassínio de Pompeu. E mais: delatasse, perante a tribuna róstria, os pretendidos autores do conluio. Ao perceber, porém, que um ou dois nomes tinham sido revelados sem êxito e que já se corporificavam as suspeitas de fraude, e com receio, ainda, do insucesso de tão temerária maquinação, acredita-se, teria mandado envenenar o denunciante25.

Casamento com Calpúrnia. Júlia casa com Pompeu

Por esse mesmo tempo, desposou Calpúrnia, filha de Lúcio Pisão, que devia sucedê-lo no consulado. Casou sua filha Júlia com Cneio Pompeu, depois de ter ela repudiado o seu primeiro marido, Servílio Cipião, que, mais do que qualquer outro, o havia auxiliado a combater Bibulo. Após esta aliança, passou a pedir pareceres, primeiro do que a qualquer outro, a Pompeu e não mais, como era do seu hábito, a Crasso, embora fosse de costume conservar, durante todo o ano, a ordem das sentenças instituídas pelo cônsul nas calendas de janeiro.

César decide governar a Gália

Apoiado, assim, nos sufrágios do sogro e do genro, preferiu, entre as províncias que lhe era dado escolher, a Gália, que, pelas vantagens e pela posição que oferecia, se lhe apresentava como um vasto campo para triunfos. Primeiramente, obteve a Gália Cisalpina, à qual foi adjudicada a Ilíria, por determinação da lei vatínia. Depois, acrescentou-lhe o Senado a Gália Cômata, pois receavam os senadores que, negando-lha eles, o povo, da sua parte, a concedesse. No auge da alegria, não se pôde conter e, passados alguns dias, jactou-se, em pleno Senado, de haver conseguido atingir a meta da sua ambição, a despeito dos esforços e da choradeira dos seus inimigos. Declarou ainda que, daí por diante, marcharia à frente do mundo inteiro. Como alguém tivesse a insolência de lhe dizer que isso não se tornaria fácil para uma mulher, respondeu, gracejando, “que Semíramis, contudo, reinara na Assíria e que as amazonas haviam conquistado outrora grande parte da Ásia”.

Ao termo do seu consulado, os pretores Caio Mêmio e Lúcio Domício solicitaram um relatório dos atos referentes ao ano transcorrido. Ele levou essa petição ao conhecimento do Senado. Como a Cúria dela não se ocupasse, ao cabo de três dias consumidos em discussões estéreis, partiu-se para a sua província. Não demorou muito, seu questor foi arrastado provisoriamente à barra da justiça, em virtude da prática de bom número de delitos. O próprio César se viu também citado por Lúcio Antístio, tribuno do povo. Porém, recorrendo ao Colégio, conseguiu derrogar a acusação, visto como sua ausência fora reclamada pelos interesses da República. Para sua melhor segurança no futuro, tratou com especial cuidado de se afeiçoar, cada vez mais, aos magistrados do ano e de não auxiliar, ou não consentir que se investissem no cargo senão candidatos que estivessem dispostos a defendê-lo durante a sua ausência. Não trepidou mesmo em exigir de alguns deles, para este ajuste, não apenas a palavra, mas, principalmente, a própria assinatura.

César na Gália

Diante, porém, da ameaça, publicamente feita por Lúcio Domício, candidato ao consulado, de, uma vez cônsul, realizar tudo quanto não pudera efetuar como questor e de, ao mesmo tempo, lhe arrebatar o exército que chefiava, conduziu Crasso e Pompeu a Luca, cidade da sua província, e aí os obrigou, com o escopo de afastar Domício, a solicitarem um segundo consulado e a prorrogarem o seu comando militar por mais cinco anos. Assim, cheio de confiança, reuniu às legiões que recebera da República outras que organizara à própria custa. Uma delas, composta de transalpinos, ganhou até um nome gaulês: chamava-se “Alauda” (calhandra). Disciplinou e equipou a sua tropa à maneira romana. Mais tarde, concedeu-lhe integralmente o direito de cidadania. Não perdeu nenhuma oportunidade de fazer a guerra, fosse ela injusta ou perigosa. Atacava, sem mais nem menos, tanto os povos federados como os povos inimigos e selvagens. De modo que o Senado resolveu, em várias ocasiões, enviar delegados com o encargo de examinar a situação das Gálias. Alguns senadores chegaram a expender a opinião de que se devia entregá-los aos inimigos26. Como, porém, o êxito lhe coroasse os empreendimentos, conseguiu, mais seguidamente e em maior número do que qualquer outro, dias de sacrifícios aos deuses.

Eis aqui, pouco mais ou menos, tudo quanto praticou durante os nove anos do seu comando. Reduziu à condição de província toda a Gália compreendida entre os desfiladeiros dos Pireneus, os Alpes, os montes Cevenas e o curso dos rios Reno e Ródano, formando, assim, um circuito de três milhões e 200 mil passos, aproximadamente, sem contar as cidades aliadas, ou as que haviam bem merecido de Roma. Impôs-lhe um tributo anual de 40 milhões de sestércios. Foi o primeiro romano que, depois de haver construído uma ponte sobre o Reno, atacou os germanos que habitavam a margem oposta daquele rio, infligindo-lhes tremendas derrotas. Acometeu também os bretões, desconhecidos até então: desbaratou-os e exigiu-lhes dinheiro e reféns. Entre tantos sucessos, não conheceu senão três fracassos: na Bretanha, onde sua frota quase foi aniquilada por uma violenta tempestade; na Gália, onde, diante de Gergóvia, foi destroçada uma das suas legiões; e nos confins da Germânia, onde Titúrio e Aurunculeio, seus auxiliares imediatos, foram trucidados numa emboscada27.

No mesmo espaço de tempo, morreram-lhe: primeiramente, a mãe; depois, a filha28; e, em seguida, o neto. Neste entrementes, o assassínio de Públio Clódio29 consternava o Estado e o Senado punha em manifesto o parecer de que não devia existir senão um cônsul: e para este cargo devia ser nomeado Cneio Pompeu. Os tribunos do povo queriam dar-lhe César por colega. Depois de um entendimento, porém, ficou combinado que se propusesse de logo, ao povo, a permissão para ele pleitear, embora ausente, um segundo consulado, pois sua chefia militar estava já expirante. Não tinha como propósito abandonar tão cedo a sua província, mormente num momento em que a guerra não havia absolutamente terminado. Conseguiu seu desejo. Cheio de esperança, então, e tendo em mira projetos muito mais arrojados, não perdeu o ensejo de praticar liberalidades, ou de prestar serviços a todo mundo, tanto em público como em particular. Com os despojos do inimigo começou a construção de um mercado, cujo terreno custara mais de 100 milhões de sestércios. Prometeu ao povo divertimentos e um festim em memória de sua filha, coisa que, antes dele, ninguém jamais fizera. No intuito de levar a expectativa do banquete ao mais alto grau se bem o houvesse contratado com fornecedores, empregou, nos preparativos, pessoal da sua própria casa. Ordenou que se arrebatassem à força e se pusessem de lado os gladiadores conhecidos que, durante as pugnas, encontrassem espectadores hostis. Mandava ministrar instrução aos recrutas, não em escolas, nem por professores de esgrima: nas suas próprias casas, por cavaleiros romanos e até mesmo por senadores hábeis no manejo das armas. A estes, pedia-lhes (como o comprovam as suas cartas) que disciplinassem cada um deles de per si, individualmente, e lhes proporcionassem, de viva voz, todos os princípios da arte mavórtica. Duplicou, a título perpétuo, o soldo das legiões. Nos anos de prosperidade, distribuía-lhes o trigo sem medida nem limite e, às vezes, dava a cada soldado um escravo tirado da presa de guerra.

Para estreitar, mais ainda, os liames de parentesco e de afeto que o ligavam a Pompeu, ofereceu-lhe, de presente, Otávia, sobrinha da sua irmã casada com Caio Marcelo, e, em troca, pediu-lhe em casamento a filha que estava destinada a Fausto Sila. Todos os que dele se acercavam, inclusive muitos membros do Senado, eram seus devedores: sem ou a juros módicos. Cumulava de dádivas os cidadãos das outras ordens que lhe vinham visitar: a convite ou de moto próprio, da mesma forma que os seus libertos e pequenos escravos, conforme estivessem nas graças do senhor ou do patrono. Os acusados, os endividados, os jovens pródigos encontravam nele o seu único e infalível amparo. Seria preciso que as acusações fossem muito graves, ou as suas privações e os seus distúrbios muito grandes, para que ele não pudesse remediá-los. Aqueles, dizia sempre, abertamente, “estavam a necessitar de uma guerra civil”.

Não usava de menor solicitude para se unir aos reis e às províncias do universo inteiro. A uns, oferecia como regalo milhares de cativos. A outros, enviava tropas auxiliares para onde e quando quisessem, sem pedir licença nem ao Senado, nem ao povo. Além disso, ornava de monumentos notáveis as cidades mais poderosas da Itália, das Gálias, da Espanha, da Ásia e da Grécia. Por fim, todo mundo começava a espantar-se e a perguntar até que ponto chegariam tais manobras, quando o cônsul Marco Cláudio anunciou, num édito, que ia se ocupar da salvação da República, pois propusera ao Senado dar, antes do tempo, um sucessor a César, alegando que a guerra cedera lugar à paz e que, portanto, se devia licenciar o exército vitorioso. Opôs-se, também, a que se tomasse em consideração o candidato ausente dos comícios, tendo-se em conta o fato de que Pompeu, apresentando uma lei sobre o direito dos magistrados, se esquecera de excetuar o próprio César do capítulo em que se excluíam os nomes dos candidatos ao cargo e que não corrigira o seu engano senão depois de a lei se achar gravada no bronze e recolhida aos arquivos. Marco, não satisfeito em arrancar a César as suas províncias e o seu privilégio, propôs ainda porque tal ato fora conseguido por meios capciosos e, além disso, ultrapassando as normas estabelecidas a abolição do direito de cidadania, concedido aos colonos que, em virtude da proposta de Vatínio, César conduzira a Nova Como30.

Impressionadíssimo com estes ataques e considerando, a julgar-se pelo que se lhe ouvia repetir tantas vezes, que era mais difícil fazer um chefe de Estado como ele descer do primeiro lugar ao segundo do que do segundo ao último, César resistiu com toda a força de que era capaz, recorrendo, às vezes, à intercessão dos tribunos e à de Sérvio Sulpício, o outro cônsul. No ano seguinte, Caio Marcelo, que havia sucedido no consulado ao seu primo-irmão Marco, tentou realizar os mesmos estratagemas. César, entretanto, à custa de muito dinheiro31, conseguiu o apoio de Paulo Emílio, seu colega, e de Caio Curião, o mais violento dos tribunos. Ao perceber, porém, a inflexibilidade da resistência organizada contra os seus intentos, e que os próprios cônsules designados32 tomavam posição contra ele, adjurou o Senado, numa carta, a que lhe não arrebatasse uma prerrogativa concedida pelo povo, nem tampouco ordenasse que os demais generais se demitissem dos seus respectivos comandos. Gabava-se, ao que consta, de conseguir reagrupar mais facilmente, e quando bem entendesse, os seus veteranos do que Pompeu novos soldados. Ademais, propôs aos seus adversários licenciar oito legiões e abandonar a Gália Transalpina, sob a condição de que se lhe concedesse a posse de duas legiões e a da província Cisalpina, ou, então, uma legião apenas com a Ilíria, até que fosse designado cônsul.

O Senado, porém, não interveio e os seus adversários se recusaram a tomar parte em qualquer transação em que estivessem em jogo os interesses da República. Resolveu, então, correr para a Gália Citerior e, após a realização das assembleias, deixou-se ficar em Ravena, prestes a vingar pela guerra civil caso o Senado tomasse partido violento contra eles os tribunos do povo que o prestigiaram. Foi isso que forneceu a César o pretexto para a guerra civil. Contudo, atribuem-se-lhe outras causas. Por isso, Cneio Pompeu costumava asseverar que foi porque não pudera nem corresponder, com os seus próprios recursos, à esperança que o povo nele depositava que pretendeu tudo perturbar e tudo subverter. Asseguram outros que ele receava ser obrigado a prestar contas de tudo quanto havia praticado no tempo do seu primeiro consulado, de contrário aos auspícios, às leis e às intercessões. Com efeito, Catão, em várias oportunidades, declarou e até jurou que haveria de conduzi-lo à barra da justiça, assim que ele tivesse desmobilizado o seu exército. Corria, também, publicamente, a notícia de que, se César retornasse como simples particular, Catão, a exemplo do que acontecera com Milão, advogaria sua causa perante juízes sob a guarda de homens armados. Esta assertiva perde, no entanto, todo o fundamento diante do relato de Asínio Polião: na batalha de Farsália, ao ver seus adversários completamente desbaratados, César se exprimiu da seguinte forma, palavra por palavra: “Eles assim o quiseram. Depois de tão altas façanhas, eu, Caio César, teria sido condenado se não houvesse pedido auxílio ao meu exército!” Pensam outros que, levado pelo hábito do comando militar, soube medir bem as suas forças e as do inimigo e aproveitar-se da oportunidade para lançar mão de um poder que ele cobiçava desde a mocidade. Tal parecia ser, também, a convicção de Cícero, conforme consta do terceiro livro do seu tratado Dos Deveres: que César a cada passo citava estes versos de Eurípides que ele próprio traduzira assim:

“Se se há de violentar a justiça, é para reinar que se deve
violentá-la. Nos demais casos, pratica-se a virtude.”

César cruza o Rubicão

Ao ser levada ao conhecimento de César a notícia de que o direito de intercessão dos tribunos havia sido derrogado e que estes se haviam retirado da cidade, sem demora, mas, secretamente, fez marchar na vanguarda algumas coortes e, para despistar, assistiu a um espetáculo público, examinou o plano de construção de uma escola para gladiadores e, segundo seu hábito, entregou-se aos prazeres de um suntuosíssimo festim. A seguir, depois do pôr-do-sol, mandou atrelar a um carro animais tomados ao moinho mais próximo e arremessou-se, acompanhado apenas de uma pequena escolta, pela estrada mais erma. Extinta a chama dos archotes, perdeu-se e, por longo espaço de tempo, vagou sem rumo. Alta manhã, apareceu-lhe um guia: caminhou a pé por veredas estreitíssimas e, nas ribas do Rubicão, que traça a fronteira com a sua província, reuniu-se às suas coortes. Aí se quedou por alguns instantes e, ao computar a magnitude dos seus planos, voltou-se para os que o acompanhavam, falando-lhes: “Hoje, ainda podemos recusar. Mas, se passarmos aquela pequena ponte, cabe à sorte das armas decidir o resto”.

Vacilava ainda quando se lhe deparou a seguinte visão: um homem de corpo e beleza singulares apareceu ali por perto, subitamente, a tocar avena. Além dos pastores, numerosos soldados dos postos mais vizinhos acorreram para ouvi-lo, entre os quais alguns corneteiros. Ao vê-los, o jovem músico arrancou o clarim de um deles e, de um pulo, atirou-se ao rio. Fazendo-o soar com um vigor extraordinário, dirigiu-se para a margem oposta. César disse, então: “Vamos para onde nos chamam os prodígios dos deuses e a iniquidade dos nossos inimigos. A sorte está lançada”33.

E assim seu exército transpôs o rio. Recebeu os tribunos do povo, que, expulsos de Roma, vieram até onde ele se encontrava, e, à frente das tropas em formatura, chorando e dilacerando as vestes no peito, apelou para a fidelidade dos seus soldados. Acredita-se, até, que ele houvesse prometido a cada um o patrimônio requerido para cada cavaleiro. Este boato, porém, formou-se de uma falsa interpretação: efetivamente, nos discursos e nas exortações que fazia, mostrava, repetidíssimas vezes, o dedo da mão esquerda, afirmando que, para satisfazer os que ajudariam a defender-lhe a autoridade, chegaria da melhor boa vontade a dar, até, o seu próprio anel. Os assistentes colocados nos últimos lugares da assembleia, em posição mais própria para distinguir o orador do que para ouvi-lo, pensaram tivesse ele dito o que o seu gesto parecia autorizar. Daí o rumor de que ele prometera o direito de anel, juntamente com 400 sestércios.

Eis aqui a ordem e a súmula dos acontecimentos que, a seguir, se sucederam. Ocupou o Picenum, a Úmbria, a Etrúria. Forçou à rendição Lúcio Domício, que, mantendo-se com um destacamento na praça de Corfínio34, fora em meio ao tumulto35 nomeado seu sucessor. Demitindo-o, e alongando-se pelo Mar Superior, marchou sobre Brindísio, onde se haviam homiziado os cônsules o mais prontamente possível. Em vão se procurou impedir-lhe por todos os meios a passagem: tomou o caminho de Roma36. Aqui, depois de ter convocado os senadores para que deliberassem a respeito dos negócios da República, apossou-se das melhores forças de Pompeu que se encontravam na Espanha sob as ordens dos lugar-tenentes Marco Petreio, Lúcio Afrânio e Marco Varrão. Antes de partir, dissera aos amigos “que marchava contra um exército sem general e que estaria de volta, dentro em pouco, para marchar contra um general sem exército”. Entretanto, apesar da demora determinada pelo cerco de Marselha, que à sua passagem lhe fechara as portas, e da extraordinária falta de víveres, submeteu tudo, em pouco tempo.

Dali regressou a Roma, passou pela Macedônia e assediou Pompeu durante quase quatro meses, construindo formidáveis fortificações. Ao fim, derrotou-o na batalha de Farsália, perseguindo-o, na fuga, até Alexandria, onde teve conhecimento da sua morte. Ao perceber que o rei Ptolomeu37 também lhe armava ciladas, iniciou contra este monarca uma guerra dificílima, dada a posição em que se encontrava e a estação reinante.

Assaltara, dentro das suas próprias muralhas, um inimigo mais bem abastecido e mais solerte, ao passo que ele mesmo, além de carecer de tudo, se encontrava ainda privado de todo e qualquer apoio. Vencedor, deu o reino do Egito a Cleópatra e ao seu irmão mais moço, porque temia transformá-lo numa província que, nas mãos de um governador demasiadamente violento, se tornasse um motivo revolucionário. Ao deixar Alexandria, passou pela Síria e daí para o Ponto, onde o chamavam com urgência as notícias referentes a Farnaces. Este filho do grande Mitrídates, que se orgulhava já de múltiplas vitórias, quis se aproveitar da ocasião para combater. Ao quinto dia da sua chegada e em quatro horas de peleja, César, numa só batalha, o aniquilou. Admirava-se, também, muitas vezes, da fortuna de Pompeu, que devia a maior parte da sua glória à fraqueza de tal espécie de inimigos. Mais tarde, venceu na África Cipião e Juba, que procuravam reanimar os remanescentes do seu partido, e, na Espanha, os filhos de Pompeu38.

Durante todo o tempo das guerras civis não conheceu derrotas senão da parte dos seus lugar-tenentes. Caio Cúrio pereceu na África39. Caio Antônio tombou na Ilíria em poder dos seus adversários40. Públio Dolabela perdeu a frota41 na mesma Ilíria e Cneio Domício Calvino, o exército42, no Ponto. Pessoalmente, combateu sempre com a maior felicidade, sem que a Fortuna jamais se lhe tivesse apresentado indecisamente, exceto duas vezes: uma, em Dirráquio, onde, na retirada, ao ver que Pompeu não o perseguia, exclamou que este general não sabia vencer. Outra, no último prélio que travou na Espanha43, onde seu desespero foi tanto que chegou a pensar em suicidar-se.

César vitorioso e Triunfos realizados em Roma

Terminadas as guerras, saiu vencedor cinco vezes, das quais, quatro no mesmo mês, porém com alguns dias de intervalo, e a quinta depois da derrota do filho de Pompeu. O primeiro e o mais belo dos seus triunfos foi, sem dúvida, o das Gálias. Logo, vem o de Alexandria. Após, o da Espanha. Todos realizados com pompa e aparato diferentes44. No dia em que se efetuava o triunfo das Gálias, ao passar ao longo do Velabro, viu-se obrigado a descer do carro por se lhe haver partido o eixo. Subiu ao Capitólio à luz dos archotes que 40 elefantes, alinhados à direita e à esquerda, carregavam em candelabros. No seu triunfo do Ponto, mandou inscrever nos troféus estas três palavras: “Vim, vi, venci”, as quais, ao invés de caracterizarem, como as outras, apenas as façanhas bélicas, significavam, antes de tudo, a celeridade com que levara a cabo a expedição.

O governo de César

Deu a cada um dos seus veteranos, a título de partilha dos despojos, não só os dois grandes sestércios propostos desde o começo da sedição civil, mas, ainda, 24 mil sestércios. Concedeu-lhes, também, terras, porém, contíguas, a fim de que nenhum proprietário fosse desapossado. Distribuiu ao povo, além de dez alqueires de trigo e outras tantas libras de azeite, 300 sestércios por cabeça, em cumprimento de promessa antiga45, aos quais ajuntou mais 100, pela demora. Barateou o aluguel das casas: em Roma, até completar dois mil sestércios e na Itália até 100 somente. Estes favores todos foram acrescidos de um banquete público e de uma distribuição de carne e, após sua vitória na Espanha, de duas ceias: pois, achando a primeira mesquinha e indigna do seu esplendor, cinco dias mais tarde ofereceu outra muito mais suntuosa.

Proporcionou espetáculos de gêneros variadíssimos, um combate de gladiadores, representações em todos os bairros da cidade, jogos de circo, lutas de atletas, um combate naval simulado... Na equipe dos gladiadores do Fórum pugnaram Fúrio Leptino, de origem pretoriana, e Quinto Calpeno, outrora senador e advogado. Meninos pertencentes às melhores famílias da Ásia e da Bitínia dançaram a pírrica. Décimo Labério, cavaleiro romano, representou uma farsa, em cena aberta, da qual era ele o próprio autor. Recebeu, por isso, 500 sestércios e um anel de ouro. Ao deixar o palco, atravessou o local da orquestra, a fim de poder sentar-se num dos 14 palanques. Para os jogos do circo, foi aumentado o recinto, de ambos os lados, abrindo-se-lhe em torno uma fossa circular, cheia d’água. Rapazes da mais alta aristocracia lançaram-se aí, nas suas bigas e quadrigas. Outros entregaram-se a exercícios de equitação. Dois grupos de meninos, uns de mais, outros de menos idade, realizaram jogos troianos. As caças, em que se consumiram cinco dias, findaram por uma batalha travada entre dois exércitos, contando cada qual 500 soldados, 20 elefantes e 300 cavaleiros. No intuito de se conseguir maior espaço para os combates, alargaram-se de tal modo os limites do campo que em seu lugar ficaram duas áreas colocadas uma em frente da outra. Os atletas lutaram três dias num estádio construído para isso no perímetro do Campo de Marte. Para o combate naval, cavou-se um lago na Codeta Menor46, onde entrechocaram birremes, trirremes e quadrirremes da frota síria e egípcia, tripuladas por numerosos combatentes. Era tal a afluência a todos esses espetáculos, de gente provinda de todas as regiões, que a maior parte dos estrangeiros se alojava em tendas armadas nas ruas, na encruzilhada dos caminhos. Por diversas vezes, várias pessoas, entre as quais dois senadores, foram esmagadas e sufocadas no meio da multidão.

Voltando-se depois para a reorganização da República, César corrigiu o calendário. Era tal o estado de desordem em que o deixara o abuso das intercalações cometidas pelos pontífices, desde longa data, que nem as festas das colheitas coincidiam com o verão, nem as das vindimas com o outono. Regulou o ano de acordo com o curso do Sol, de maneira a durar 365 dias, suprimindo o mês intercalar, e ajuntou um dia a todos os períodos de quatro anos. E, porque para o futuro a ordem do tempo concordasse com as calendas de janeiro, colocou entre novembro e dezembro dois outros meses. De modo que o ano em que se realizou essa convenção foi de 15 meses, inclusive o mês intercalar, que, conforme a tradição, coincidia naquele ano.

Completou o Senado. Escolheu novos patrícios47. Aumentou o número de pretores48, de edis49, de questores50 e também o dos magistrados inferiores. Reempossou todos os que haviam sido esbulhados pelos censores, ou condenados por cabala. Fez o povo participar dos comícios. À exceção dos concorrentes ao consulado, a massa devia nomear a metade dos candidatos e ele a outra metade. Costumava recomendar os seus enviando a todas as tribos tábulas em que inscrevia poucas palavras: “César ditador, a tal tribo. Recomendo-vos fulano e beltrano para que, pelo vosso sufrágio, consigam a sua dignidade.” Admitiu nos cargos públicos os filhos dos proscritos. Compôs os tribunais de duas espécies de juízes: os da ordem equestre e os da ordem senatorial. Aboliu os tribunos do erário, que formavam a terceira jurisdição. Levantou o recenseamento, não mais conforme os processos antigos, nem nos lugares costumados, mas por bairros e segundo os proprietários prediais. Assim, conseguiu reduzir o número dos que recebiam trigo da República, de 320 mil para apenas 150 mil. E para que o recenseamento não viesse a provocar, de futuro, novas perturbações da ordem, estabeleceu que, todos os anos, o pretor sorteasse, entre os não recenseados, os que deveriam substituir os mortos.

Oitenta mil cidadãos foram distribuídos pelas colônias ultramarinas51. E para que a população da cidade não viesse a se exaurir, proibiu, por lei, aos cidadãos de mais de 20 anos e de menos de 40 que não se considerassem impedidos, pelo juramento militar, de se ausentarem da Itália por mais de três anos seguidos. Vedou, igualmente, a partida, para o estrangeiro, dos filhos dos senadores, a não ser para escoltar ou acompanhar magistrados, e aos que se ocupavam da criação de gado possuírem, entre os seus pastores, menos de um terço de homens livres. Concedeu direito de cidadania aos que exerciam, em Roma, a medicina e ensinavam as artes liberais, para que assim, além de se atrair os demais, se lhes tornasse mais agradável a residência na cidade. No referente às dívidas, burlou a expectativa dos que haviam sido esperançados52 com a certeza de nova lei. Decretou, afinal, que os devedores satisfizessem seus credores de conformidade com a estimativa dos seus bens, ao preço por que os haviam comprado antes da guerra civil, deduzindo do total da dívida o que já tivessem pago em espécie, ou a título de juros. Essa disposição abolia cerca de um quarto das dívidas. Dissolveu todas as ordens, exceto as já existentes desde remota antiguidade. Aumentou as penalidades para os delitos. E como os ricos se sentissem estimulados a cometê-los, de vez que a punição com o exílio não lhes atingia o patrimônio, aplicou aos parricídios, tal como o relembra Cícero, a confiscação de todos os bens e, aos outros crimes, a da metade apenas.

Distribuiu a justiça com muita atenção e severidade. Eliminou da ordem dos senadores os peculatários declarados. Anulou o casamento de um antigo pretor por ter desposado uma mulher que, havia dias, abandonara o marido, embora não existisse contra ele a menor suspeita de adultério. Gravou com impostos as mercadorias estrangeiras. Interdisse o uso das liteiras, bem como o dos tecidos de seda e o das pérolas, salvantes apenas certas pessoas de determinada idade e em dias determinados. Deu, sobretudo, execução à lei suntuária. Mandou colocar ao redor do mercado guardas destinados à apreensão dos gêneros cuja venda estivesse proibida, e a levá-los para casa. Chegou, até, repetidas vezes, a enviar, sob as ordens dos litores, soldados para arrebatarem, de cima da mesa do triclínio, as mercadorias escapes das mãos dos guardas.

De outro modo, formulava, de dia para dia, projetos mais numerosos e mais atrevidos relativamente ao estabelecimento e ao conforto material da cidade, da mesma forma que à segurança e à grandeza do Império. Esses projetos consistiam, antes de tudo: na ereção de um templo como jamais conhecera o mundo outro maior consagrado a Marte com a terraplenagem e o nivelamento do lago onde se efetuara o combate naval e na construção de um teatro de dimensões colossais, nas encostas da rocha Tarpeia; na redução do direito civil a determinadas regras e no reunir, no menor número de livros, o que houvera de melhor e de mais indispensável na imensa e desordenada quantidade de leis; em entregar ao público bibliotecas gregas e latinas, tão grandes quanto possível, encarregando-se Marco Varrão da tarefa de reunir e classificar os volumes; em sanear os pântanos pontinos; em dar um conduto para o lago Fucino53; em construir uma estrada que fosse do Mar Superior, ao longo dos Apeninos, até ao Tibre; em abrir um canal no Istmo54; em deter os dácios, que se haviam disseminado pelo Ponto e pela Trácia; em levar, logo, a guerra aos partos, com escala pela Armênia Menor, mas, sem os atacar, em ordem de batalha, senão depois de se lhes haver experimentado as forças. Foi em meio a todos estes preparativos e projetos que a morte o surpreendeu. Antes, porém, de referi-la, não será, em absoluto, fora de propósito dar aqui uma sumária do conjunto da sua compleição física, da sua maneira de vestir, dos seus hábitos e costumes, não menos do que de seus pendores civis e militares.

A aparência de César

Era, ao que se afirma, de alta estatura, tez branca, membros bem torneados, rosto não muito cheio, olhos negros e vivos, saúde vigorosa. Entretanto, já no fim da vida, sentira-se presa de súbitos desmaios e terríveis pesadelos. Fora, ainda, no exercício das suas funções, acometido de duas crises de epilepsia55. Dispensava um cuidado escrupuloso ao corpo: não só mandava cortar os cabelos e raspar a barba, mas, também, depilá-lo, pelo que se viu censurado por certas pessoas. Como não se conformasse com a iniquidade da sua calvície, que por mais de uma vez o expusera ao escárnio dos seus detratores, adquirira o hábito de puxar para a testa os poucos cabelos que lhe ficaram. De todas as honorificências que lhe foram conferidas pelo Senado e pelo povo, nenhuma outra aceitou e exerceu com maior boa vontade senão a que lhe outorgava o direito de ostentar sempre uma coroa de louros. Assevera-se, também, que a sua maneira de vestir era notável. Usava a túnica laticlávia, cujas fímbrias lhe caíam até às mãos, sem se esquecer jamais de fechar a toga por cima. E esta cinta era bastante frouxa. Daí a frase de Sila, em que aconselhava os nobres “a se precaverem contra um rapaz que apresilha mal a cinta”.

Moradia, gosto por luxos e por mulheres

Habitou, primeiramente, a Suburra56, numa casa modesta. Em seguida, após seu pontificado máximo, a Via Sagrada, num edifício do Estado. Numerosos historiógrafos contam que ele amava apaixonadamente a elegância e o luxo e que, começada e acabada a construção caríssima de uma casa de campo, no território da Ásia, fê-la demolir, de alto a baixo, só porque não lhe correspondia ao gosto, embora não passasse ainda de uma simples personagem coberta de dívidas. E mais: que, durante as expedições, carregava consigo pisos marchetados e pavimentos de mosaico.

Narra-se que ele não foi à Bretanha senão na esperança de achar pérolas ali, e, na ânsia de comparar-lhes o tamanho, de momento a momento, pesava-as na concha das mãos. Procurava, contínua e apaixonadamente, pedras preciosas, vasos cinzelados, estátuas, quadros dos mestres antigos. Pagava preço alto por escravos elegantes e destros e disso tinha tal vergonha que proibiu se incluísse o despendido com eles na lista dos seus gastos ordinários.

Nas províncias, cuidava incessantemente dos convivas, proporcionando-lhes dois triclínios: num se assentavam os portadores do saio ou do pálio; noutro, os cidadãos togados, com as figuras provinciais mais ilustres. A disciplina a que submetia o seu pessoal doméstico, nas mais insignificantes coisas como nas mais importantes, era tão rigorosa e implacável que mandou pôr a ferros o padeiro porque servira aos convivas pão diferente do seu. Se bem lhe não tivessem formulado a queixa, puniu com a pena capital um liberto a quem era afeiçoadíssimo, porque este adulterava com a mulher de um cavaleiro romano.

Nada, a falar a verdade, fora das suas relações com Nicomedes, autoriza a crença na desmoralização dos seus costumes. Porém, o opróbrio oriundo desse fato foi grave e duradouro e o expôs aos ultrajes de todo mundo. Ponho de lado os versos conhecidíssimos de Calvo Licínio:

“Tudo o que a Bitínia e o amante de César jamais possuíram...”

Calo, igualmente, os discursos de Dolabela e de Cúrio pai, nos quais Dolabela lhe chama “rival da rainha, a prancha inferior da liteira real” e Cúrio “escudo de Nicomedes” e “a prostituta da Bitínia”. Deixo ainda passar em silêncio os éditos de Bibulo, em que este tratava publicamente o seu colega de “rainha da Bitínia, que, depois de haver amado um rei, amava agora a realeza”. Foi nesse mesmo tempo que, segundo Marco Bruto, um certo Otávio, cujo desconcerto mental lhe permitia falar livremente, no meio de uma concorridíssima assembleia, chamou a Pompeu “rei” e ao saudar César tratou-o de “rainha”. Caio Mêmio reprochou-o por ter, junto com outros mimos, oferecido a Nicomedes a copa e o vinho num grande festim a que compareceram vários argentários romanos, cujos nomes menciona. Cícero, não contente de ter escrito em algumas cartas que César havia sido conduzido por satélites ao dormitório real, que se deitara numa cama de ouro, vestido de púrpura, e que o descendente de Vênus prostituíra, na Bitínia, a flor da sua juventude, assim o apostrofou um dia em que César pleiteava a causa de Nisa, filha de Nicomedes, e revivescia os benefícios que recebera da parte do rei: “Deixa tudo isso, te suplico! Sabemos bem o que ele te deu e o que tu próprio lhe deste.” Finalmente, por ocasião do seu triunfo nas Gálias, os seus soldados, entre outras canções com que se divertiam ao acompanhar o carro do vencedor, chegaram a cantar, até, estes versos corriqueiríssimos:

César subjugou os gálias. Nicomedes subjugou César. César agora
triunfa, porque subjugou as Gálias.
Entretanto, Nicomedes, que subjugou César, não triunfa.

Não discrepa o conceito de que possuísse inclinação para a libertinagem e de que muito gastasse com as suas voluptuosidades e houvesse seduzido inúmeras damas ilustres, entre as quais se incluem: Postúmia, casada com Sérvio Sulpício; Lólia, com Aulo Gabino; Tértula, com Marco Crasso; e até mesmo Múcia, esposa de Cneio Pompeu. Pelo menos, os dois Cúrios, pai e filho, assim como muitos outros, exprobraram Pompeu por ter levado a ânsia de poder a ponto de se casar com a filha do homem por causa de quem repudiara uma mulher que lhe dera três filhos; do homem a quem, entre gemidos, costumava chamar seu Egisto. Mais do que todas as outras, César amava Servília, mãe de Marco Bruto. Foi para ela que comprou, durante o seu último consulado, uma pérola no valor de seis milhões de sestércios. No tempo da guerra civil, além de outros presentes, mandou-lhe adjudicar, por preço ínfimo, vastos domínios territoriais que se vendiam, então, em hasta pública. Como toda a gente se admirasse da barateza de tal negócio, Cícero fez o seguinte trocadilho: “Sabei que mais barato ficará ainda, ao deduzir-se a terça.” Supunha-se, com efeito, que Servília negociava, também, com César sua filha Tércia, muito jovem ainda.

Parece, nem mesmo nas províncias respeitou o leito conjugal, a dar-se crédito a este dístico entoado, igualmente, pelos seus soldados, no decurso do triunfo das Gálias:

“Romanos, guardai vossas mulheres:
nós conduzimos o calvo adúltero.
O ouro que dissipaste em concubinatos nas Gálias
foi aqui que o tomaste de empréstimo!”

Dos seus amores, constavam também rainhas, entre outras Eunoé, da Mauritânia, mulher de Boguda, a quem, tal como ao seu marido, enchera se dermos crédito às narrativas de Nason de uma quantidade enorme de presentes. Mais do que todas, porém, amou Cleópatra, ao lado da qual, muitas vezes nos festins, ficava até ao amanhecer e em cuja companhia navegou, no Egito, até à Etiópia, num navio provido de apartamentos. Afinal, trouxe-a a Roma e não a deixou retornar, senão depois de cumulá-la das mais altas distinções e presentes. Tolerou, até que pusessem no filho que tivera dela o próprio nome57. Referem alguns gregos que este filho se parecia com César, não só no aspecto, como também no modo de andar. Marco Antônio assegurou ao Senado que César, com a ciência de Caio Mácio, de Caio Ópio e de outros amigos, o havia reconhecido. Caio Ópio, crendo que o fato necessitava ser restabelecido e justificado, publicou um livro com este título: César não é o pai do filho, como diz Cleópatra. Hélvio Cina, tribuno do povo, confessou a muitíssimas pessoas que tivera em mãos uma lei redigida apressadamente por ordem de César, a fim de que fosse apresentada na sua ausência. Essa lei tinha em mira permitir-lhe desposar, à vontade, as mulheres que bem entendesse, para, assim, haver herdeiros. E porque ninguém duvidava de que ele se abrasasse no fogo infame da impudicícia e do adultério, Cúrio pai chamou-lhe, num dos seus discursos, “o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos”.

Quanto ao vinho, nem seus próprios inimigos lhe negavam o uso parcimonioso. Marco Catão deixou dito algures “que César era o único, entre os demais, que tramava, em jejum, a ruína da República”. Caio Ópio nos ensina que ele era tão descuidado no comer que, certa feita, um hóspede seu lhe servira azeite rançoso, em lugar de azeite fresco. Todos os convivas o rechaçaram. Ele, não: procurou repeti-lo para que lhe não arguissem o hóspede de negligência ou de impolidez.

Jamais, quer como magistrado, quer como general, demonstrou desinteresse no exercício das suas funções. Como o atestam várias memórias, na Espanha, recebeu do procônsul e dos aliados o dinheiro que lhes implorara para o pagamento das suas dívidas. Na Lusitânia, na qualidade de inimigo, pilhou diversas cidades, embora não lhe tivessem elas recusado as condições exigidas, mas até lhe tivessem franqueado as portas à sua chegada. Na Gália, despojou os santuários e os templos dos deuses repletos de oferendas. Destruiu cidades, as mais das vezes mais para saqueá-las do que para punir as falhas dos seus habitantes. Por isso, sobrava-lhe o ouro, cuja venda efetuou na Itália e nas províncias à razão de três mil sestércios a libra. No seu primeiro consulado, furtou ao Capitólio três mil libras de ouro, substituindo-as, no peso, por cobre dourado. Vendeu títulos de aliados e de reis. Só de Ptolomeu arrancou perto de seis mil talentos, tanto no seu nome individual como no de Pompeu. A seguir, é por meio de rapinagens e de sacrilégios que consegue enfrentar as despesas da guerra civil e os gastos com os seus triunfos e os seus espetáculos.

Orador e escritor

Na eloquência e na arte militar igualou e ultrapassou a glória dos mestres mais eminentes. Depois da acusação intentada contra Dolabela, colocou-se, sem contestação, na linha dos primeiros advogados. Cícero, pelo menos, ao enunciar o nome dos oradores, na sua obra dedicada a Bruto, comenta “que a sua elocução demonstra a cada momento elegância e brilho, elevação e até mesmo um como caráter de nobreza”. E, ao falar ainda de César, escreveu a Cornélio Neto: “Pois bem! Que orador preferirás tu a César, entre as pessoas do ofício? Quem ostenta mais finura e mais opulência nos pensamentos? Maior beleza e limpidez no estilo?” Muito jovem ainda, parece, adotou o gênero de eloquência de Estrabão58. Transportou, na verdade, literalmente, para a sua Divinação, vários trechos do discurso de Estrabão intitulado “Para os sardos”. Diz-se que possuía uma clara dicção de orador, movimentos e gestos animados, sem lhes faltar absolutamente a graça. Deixou discursos dos quais alguns lhe são atribuídos irrefletidamente, como, por exemplo, o denominado “Para Quinto”, que Augusto, não sem fundamento, dá como apanhado por copistas que lhe reproduziram mal os termos, antes de haver sido publicado pelo autor. Encontro, de fato, exemplares em que este discurso não tem por título “Para Metelo”, mas “Escrito a Metelo”. Nele, no entanto, César fala em seu nome, justificando, simultaneamente, perante os detratores de ambos, Metelo e ele próprio. Augusto tampouco acredita sejam dele as elocuções proferidas aos seus soldados na Espanha. Todavia, destas, duas lhe são atribuídas: uma, que se julga pronunciada ao ferir-se o primeiro combate59; outra no momento do segundo60. Conforme opina Asínio Polião, César não teve tempo de pronunciar esta última, à frente das suas tropas, em virtude do brusco ataque desfechado pelo inimigo.

Deixou, também, os Comentários, resenha das suas campanhas militares, tanto as empreendidas nas Gálias como as contra Pompeu. Quanto à Guerra de Alexandria, da África e da Espanha, não se lhe conhece o autor. Suspeitam uns seja Ópio; outros, Hírcio, que teria mesmo rematado o último livro, incompleto, sobre a guerra das Gálias. Em relação aos Comentários de César, Cícero, ainda no Bruto, tem frases deste feitio: “Escreveu Comentários inteiramente dignos de apreço. São nus, diretos, encantadores e como que despidos de qualquer forma oratória. Tendo em mente preparar materiais para os que desejassem escrever a História, talvez favorecesse os tolos que pretendam ampliar e enfeitar esse esboço. Ele, porém, dissuadiu as pessoas judiciosas de escreverem depois dele.” A propósito dos mesmíssimos Comentários, Hírcio se manifesta nestes termos: “Eles são, no consenso unânime, tão apreciados que César parece ter roubado, não ter proporcionado aos escritores a oportunidade para tratarem do assunto. Sem embargo, temos mais razão ainda do que os outros para admirar esta obra. Pois, se por um lado notam-lhe os demais a pureza e a correção do estilo, por outro, sabemos nós com que facilidade e rapidez ele a redigiu.” Asínio Polião acha-os compostos com pouco esmero e menor respeito pela verdade, fosse porque César se enfronhasse superficialmente daquilo que os outros disseram, ou porque, ao falar de si mesmo, alterasse os fatos propositadamente ou por falta de memória. Deixou ainda dois livros Sobre a analogia e também dois Anti-Catão, além de um poema: “A Viagem”. A primeira dessas obras data da passagem dos Alpes, ao partir da Gália Citerior, onde convocaria as assembleias com a finalidade de reagrupar o seu exército. A segunda, mais ou menos da época em que foi desencadeada a batalha de Munda. A última, da excursão que realizou em 24 dias de Roma à Espanha Ulterior. Há dele, ainda, cartas endereçadas ao Senado. Afigura-se tenha adotado, antes de qualquer outro, o uso de escrever em folha, à guisa de memorial. Anteriormente a ele, os cônsules e os generais costumavam escrevê-las de ponta a ponta do papel. Existem, além dessas outras, dirigidas a Cícero e a amigos, em que trata de fainas domésticas. Se, porventura, tinha algum segredo a lhes transmitir, escrevia-lhes em algarismos, isto é, dispondo as letras em tal ordem que se não podia formar com elas nenhuma palavra. Para decifrá-las e compreender-lhes o sentido, tornava-se necessário colocar a quarta letra do alfabeto, ou seja, o d no lugar do a e assim, seguidamente, as demais. Citam-se, além disso, outras obras da sua primeira juventude, tais como Louvores a Hércules. Uma tragédia: Édipo. Alude-se, igualmente, a uma Coleção de máximas. Augusto, numa carta tão lacônica quanto simples, destinada a Pompeu Máecer, encarregado por ele de ordenar as bibliotecas, proibiu a publicidade de todos esses opúsculos.

O soldado e general

Avantajava-se no manejo das armas e dos cavalos. Suportava a fadiga além do que é dado acreditar. Nas marchas, tomava a dianteira, às vezes, a cavalo, mais frequentemente a pé, quer sob o sol, quer sob a chuva. Percorreu as maiores distâncias com uma rapidez incrível, à velocidade de 100 milhas por dia. Se os rios acaso o retinham, ele os varava a nado, ou apoiado em flutuadores, conseguindo, assim, adiantar-se aos seus próprios mensageiros.

Nas expedições em que se empenhava, a prudência andava sempre a disputá-lo à audácia. Jamais conduziu seu exército por veredas insidiosas. Antes de deslocá-lo, investigava primeiro a situação topográfica dos lugares que pretendia transpor. Não rumou para a Bretanha senão depois de examinados por ele mesmo os portos, a navegação e o acesso à ilha. Ao saber que o seu acampamento estava sitiado na Germânia61, atravessou os postos inimigos vestido à gaulesa, a fim de reunir-se à sua gente. Transportou-se de Brindísio a Dirráquio no inverno por entre navios inimigos que insidiavam seu itinerário. Em vista da demora das tropas que haviam recebido ordem para segui-lo após ter-lhes enviado mensagens sobre mensagens, meteu-se, sozinho, ocultamente, à noite, com a cabeça velada, numa pequena embarcação. Não disse quem era e não permitiu que o piloto cedesse à tempestade sobrevinda, senão no momento do naufrágio.

Nunca abandonou ou prorrogou empresa alguma por escrúpulos religiosos. Posto que a vítima se houvesse escapado das mãos do imolador, nem por isso deixou de partir contra Cipião e Juba. Como caísse ao desembarcar, teve o presságio por favorável e exclamou: “Possuo-te, ó África!” Para enganar a expectativa dos vaticínios que atribuíam, fatalmente, naquela província, o êxito e uma sorte invencível ao nome dos Cipiões, manteve, no seu acampamento, um membro desprezadíssimo da família dos Cornélios que, em razão da sua vida ignominiosa, recebera o cognome de “Salucião”.

Decidiu-se à luta não somente depois de meditar-lhe o plano, mas, também, procurando tirar partido da oportunidade: às vezes imediatamente após uma marcha; outras, durante as mais pavorosas tempestades, no instante em que ninguém podia contar com um movimento. Só nos últimos tempos é que se tornou menos apressado no combater, persuadido, como estava, de que quanto mais troféus conseguisse menos devia tentar a Fortuna; e de que não devia ganhar mais do que pudesse perder numa derrota. Jamais destroçou um inimigo que não lhe ocupasse o acampamento por completo; assim não dava tréguas aos adversários aterrorizados. Se uma batalha se mostrava indecisa, dispersava os cavalos, a começar pelo seu, a fim de colocar seus soldados na necessidade de resistir, furtando-lhes, assim, os meios de fuga.

Montava um cavalo, notável, de patas que eram quase pés humanos, pois tinha o casco fendido em forma de dedos. Este animal nascera-lhe em casa e os arúspices ao vê-lo chegaram à conclusão de que seu dono estava fadado para o império do mundo. Assim, criaram-no com excessivo cuidado. César foi a primeira pessoa que o montou. Antes dele ninguém conseguira domá-lo. Para conservar-lhe a memória, colocou-lhe a estátua defronte do templo da Vênus Genitriz.

Repetidas vezes reagrupou e sujeitou suas forças dispersas, erguendo-se diante dos fugidiços, detendo-os um a um, segurando-os pela gorja, a fim de obrigá-los a fazer face ao inimigo. De ordinário, ficavam tão espantados que um porta-estandarte que ele subjugara assim ameaçou-o com a ponta da sua arma e outro deixou-lhe nas mãos a signa que conduzia.

Eis aqui as provas, não menores, porém maiores, da sua firmeza de ânimo. Depois da batalha de Farsália tomou a vanguarda das suas tropas enviadas à Ásia e passava o estreito do Helesponto num pequeno navio de transporte quando surpreendeu Lúcio Cássio, do partido contrário, com dez navios pela proa. Longe de fugir, investiu contra ele, exortou-o a render-se e o recebeu, suplicante, a seu bordo.

Em Alexandria, ao atacar determinado ponto, uma brusca surtida dos antagonistas o obrigou a atirar-se num barco, onde parte da multidão com ele se atirou também. Lançou-se, então, ao mar e nadou cerca de 200 passos até o navio mais próximo, levando na mão esquerda, fora d’água, para que se não molhassem, os seus escritos e segurando a capa com os dentes para não deixá-la como presa ao inimigo.

Não avaliava o soldado pela conduta, mas pela força, e tratava-o tanto com severidade como com indulgência. Não usava, absolutamente, de coerção sempre e em toda parte: somente, porém, quando o adversário estava próximo. Exigia, então, a disciplina mais rigorosa. Não anunciava nem a hora da marcha, nem a da batalha. Fazia questão de que tudo e todos estivessem atentos e prontos a segui-lo, logo e logo, não importa para onde. Tinha mesmo o costume de agir assim, sem motivo, sobretudo nos dias de festa e de chuva. De longe em longe, recomendava-lhes que o não perdessem de vista e, subitamente, fosse dia, fosse noite, desaparecia aos seus olhos e forçava a marcha para deixar atrás os que custavam a acompanhá-lo.

Se seus soldados se sobressaltavam à voz dos boatos correntes a respeito das forças inimigas, ele não os tranquilizava nem com desmentidos, nem com estimativas. Ao contrário: exagerava a mentira. Assim, diante da espera tremenda da aproximação de Juba, congregou as tropas e lhes falou: “Sabei que dentro de breves dias o rei estará diante de vós com dez legiões, 30 mil cavaleiros, 100 mil homens armados à ligeira e 300 elefantes. Cessai, pois, alguns dentre vós, de formular perguntas e de acreditar em nada mais. Deveis confiar em mim, que sei como me hei de ater. Do contrário embarcar-vos-ei no mais velho dos meus navios para que, entregues a todos os ventos, aporteis em qualquer terra!”

Não tomava era consideração todas as faltas e não as punia na proporção da sua importância. Perseguia e punia, porém, mais cruelmente, os desertores e os sediciosos. Quanto ao mais, fechava os olhos. Vez por outra, após um grande combate e uma vitória, eximia os soldados de todo e qualquer trabalho, deixando-os em folgança, por aqui e por ali. Costumava dizer que seus milicianos, mesmo perfumados, podiam combater com eficiência. Nas alocuções que proferia, não lhes chamava “soldados”. Denominava-os mais docemente: “companheiros de armas”. Dispensava-lhes tal cuidado quanto ao fardamento que lhes presenteava brilhantes armas de ouro e prata, não só para o efeito do momento, mas, também, para apega-los mais aos combates pelo receio de perdê-los. Queria-os a tal ponto que, à notícia da derrota de Titúrio, deixou crescer a barba e os cabelos e não os cortou senão depois de havê-lo vingado. Eis aí como César conseguiu tornar seus soldados tão bravos e tão dedicados.

Ao enveredar pela guerra civil, prometeram-lhe os centuriões de cada legião equipar, cada qual, um cavaleiro à sua própria custa. E todos os soldados lhe ofereceram gratuitamente o concurso, sem trigo, nem soldo. Os mais ricos se encarregaram de manter os mais pobres. Não se registrou durante uma guerra tão longa nenhuma deserção. A maior parte dos que caíram prisioneiros preferiram renunciar à vida a terem de lutar contra ele. Sitiados ou sitiantes, suportavam tão galhardamente a fome, e as outras adversidades da guerra, que Pompeu, ao ver nas trincheiras de Dirráquio a espécie de pão de ervas com o qual se nutriam, asseverou “que tinha que se haver com bestas selvagens” e fez desaparecer esse pão bem depressa, sem mostrá-lo a ninguém, de medo que a paciência e a tenacidade do inimigo provocasse o arrefecimento da coragem nos seus. Prova do valor com que se batiam é o fato de, ao experimentarem um revés em Dirráquio, terem reclamado um castigo para si próprios. César, ao invés de puni-los, tratou logo de consolá-los. Nos demais encontros, venceram facilmente as numerosas forças antagonistas, embora lhes fossem inferiores em número. Por fim, uma só coorte da sexta legião, anteposta à guarda de uma fortificação, susteve, durante largo espaço de tempo, o choque de quatro legiões de Pompeu e só foi quase totalmente transposta em virtude da multiplicidade de dardos inimigos, dos quais 130 mil foram encontrados no interior dos baluartes. Essa demonstração de coragem não admirará, em absoluto, se atentarmos nas façanhas individuais: na do centurião Caio Ceva, ou na do soldado Caio Acílio, para não citar mais outros. Ceva, com um olho vazado, a coxa e as costas trespassadas, o escudo furado por 120 golpes, não abandonou por nada a porta da fortificação que se lhe confiara. Acílio, num combate naval perto de Marselha, pegou um navio, da parte contrária, com a mão. Cortaram-na. Ele, porém, imitando o rasgo memorável de Cinegira, entre os gregos, atirou-se ao navio, levando de vencida com o seu escudo quantos encontrou pelo caminho.

Durante os dez anos da guerra das Gálias, nenhuma revolta foi fomentada. Alguns soldados, no transcurso das lutas civis, se rebelaram. Nos amotinados, porém, renasceu, rápido, o sentimento dos deveres, e isso menos em virtude da indulgência do que da autoridade do seu chefe. Pois, longe de ceder, jamais, às sublevações, sempre as enfrentou. Em Placência, chegou mesmo a extinguir, ignominiosamente, toda a nona legião, se bem Pompeu estivesse ainda em armas. Não consentiu na sua reorganização senão à custa de numerosos e solícitos rogos e depois de haver castigado todos os culpados.

Em Roma, os soldados da décima legião reclamaram-lhe, sob fortes ameaças e não sem porem em extremo perigo a cidade, a baixa e as recompensas prometidas. Não obstante estivesse acesa a guerra na África, César não hesitou, apesar dos conselhos dos amigos, em falar-lhes e considerá-los dissolvidos. Com uma só palavra, porém, chamando-lhes “quirites”62 ao invés de “soldados”, ele os fez voltar de novo e os comoveu tão facilmente que lhe responderam logo “que eram soldados” e o haviam seguido espontaneamente à África, aonde ele se recusava reconduzi-los. Entretanto, isso não o impediu de punir os mais revoltados, privando-os do terço dos despojos e das terras que lhes concedera.

Zelo aos seus protegidos, rancores e clemência

Seu zelo e devotamento relativamente aos seus protegidos manifestaram-se desde a sua mocidade. Defendeu, contra o rei Hiempsal, o jovem aristocrata Masinta com tanto ardor que, no auge da discussão, pegou Juba, filho daquele soberano, pelas barbas. E, ao ter sido Masinta declarado tributário, arrancou-o, no mesmo instante, das mãos dos que o conduziam e o homiziou durante muito tempo em sua residência. Pouco depois, ao partir para a Espanha, ao termo da sua pretoria, carregou-o na sua própria liteira, escoltada por amigos generosos e circundada dos fasces dos seus litores.

Tratou sempre os amigos com infinita consideração e indulgência. Havendo Caio Ópio, que o acompanhava, certa vez, por um caminho áspero, enfermado subitamente, César cedeu-lhe o único abrigo que encontrara na estrada e foi dormir no chão, ao relento. Ao assumir a chefia do governo, elevou aos mais altos cargos pessoas de ínfima condição. Como o censurassem por isso, declarou, de público, “que, se bandidos e assassinos lhe tinham prestado serviços na defesa da sua autoridade, não seria de mais que lhes testemunhasse o mesmo reconhecimento”.

Jamais lhe foram tão fortes os rancores que não pudesse a eles renunciar sinceramente, se para isso se lhe deparasse ensejo. Como Caio Mêmio o perseguisse com discursos extremamente violentos, César respondeu-lhe por escrito com não menor vivacidade. Mas, nem por isso deixou de lhe dar seu voto, quando da sua candidatura ao consulado. Caio Calvo, depois de lhe haver tecido epigramas difamatórios, procurou reconciliar-se com ele por intermédio de amigos. César foi o primeiro a escrever-lhe de próprio punho. Valério Catulo, que sabia terem-lhe os versos, a respeito de Mamurra, impresso uma marca eternamente infamante, só com o pedir-lhe desculpas foi, no mesmo dia, admitido à sua mesa e continuou daí por diante a frequentar-lhe a casa do pai, como tinha por hábito.

Era naturalmente brando, mesmo na vingança. Ao pôr a mão nos piratas que o haviam capturado e a quem jurara crucificar, mandou, antes de os levar à cruz, estrangulá-los. Nunca lhe sobrou coragem para fazer mal algum a Cornélio Fagita, que lhe armara outrora ciladas noturnas, quando, doente e escondido, procurava livrar-se de Sila, conseguindo escapar à custa de dinheiro. A Filemão, seu secretário, que prometera aos seus inimigos envenená-lo, contentou-se em puni-lo, simplesmente, com a morte. Chamado a servir como testemunha contra Públio Clódio, amante da sua mulher Pompeia, e, por igual motivo, acusado de sacrilégio, respondeu que de nada sabia, se bem sua mãe Aurélia e sua irmã Júlia tivessem dito toda a verdade aos mesmos juízes. E como se lhe perguntasse por que, então, repudiara a mulher, respondeu: “Porque os meus devem estar isentos não só do crime, mas, também, da suspeita.”

Sua moderação e clemência mostraram-se admiráveis tanto no governo como após sua vitória na guerra civil. Como Pompeu proclamasse considerar inimigos quantos houvessem cometido faltas contra a República, declarou-lhe que saberia incluir no número dos seus amigos os neutros de ambos os partidos. Consentiu que passassem para o lado de Pompeu todos aqueles a quem concedera postos sob recomendação deste último. Ao negociarem-se em Herda as condições duma rendição (o que permitiu o estabelecimento de relações contínuas entre os dois partidos), Afrânio e Petreio, voltando atrás, repentinamente, nas suas decisões, fizeram perecer os cesarianos atacando de surpresa os acampamentos. César não quis imitá-los na perfídia. Na batalha de Farsália vociferava que se “poupassem os cidadãos”, pois não impediu a nenhum dos seus de salvar a quem bem entendesse, entre os do partido contrário. Deles, nenhum se conhece que haja morrido fora do campo da luta, à exceção de Afrânio, Fausto e o jovem Lúcio César. Ninguém acredita, até agora, tivessem sido assassinados por decisão da parte de César. No entanto, os dois primeiros se haviam revoltado após o indulto, e Lúcio César, depois de ter cometido a barbárie de exterminar, a ferro e fogo, os libertos e os escravos de César, degolara ainda os animais reunidos para os divertimentos do povo. Por fim, já nos últimos anos, concedeu a todos aqueles a quem não havia ainda perdoado licença para reentrarem na Itália e exercerem comandos e magistraturas. Chegou ao ponto, até, de reerguer as estátuas de Sila e de Pompeu que o povo derrubara. Com o correr dos tempos, quer a braços com graves conjurações ou com a maledicência, gostava mais de prevenir do que proceder com crueldade. Assim, ao descobrir tramas e assembleias noturnas, contentou-se apenas em anunciar num édito que estava ao corrente dos fatos. Quanto aos que o ultrajavam em discursos, limitou-se a adverti-los, publicamente, de que não prosseguissem. Suportou pacientemente que um livro infamante de Aulo Cecina e versos maledicentíssimos de Pitolau lhe lacerassem a reputação.

Abuso de poder e arrogância

Entretanto, atos outros e outras palavras suas forçam-nos a crer que tivesse abusado do poder e merecido a morte. Pois, não somente aceitou honras excessivas, mas, ainda, o consulado contínuo, a ditadura perpétua e a prefeitura de polícia, sem contar o prenome de “imperator” e o sobrenome de “pai da pátria”63, uma estátua entre as dos reis64 e um trono na orquestra. Deixou que se lhe concedessem privilégios superiores às grandezas humanas: uma estátua de ouro na Cúria e outra diante do tribunal; um carro e uma liteira para as pompas circenses; templos, altares e estátuas ao lado dos deuses; um coxim e um flamínio no templo65 e Lupercais66. Emprestou seu nome a um dos meses do ano67 e tomou e concedeu-se a si mesmo, de acordo com a sua vontade, todas as honorificências, sem exceção de uma só. No seu terceiro e no quarto consulado não assumiu senão o título de cônsul e contentou-se com o poder ditatorial que lhe havia sido conferido. A fim de substituí-lo, nomeou para os últimos três meses do segundo período dois cônsules, de modo que, neste lapso de tempo, não realizou comícios a não ser para a nomeação dos tribunos e dos edis do povo. Estabeleceu prefeitos no lugar dos pretores para administrarem, sob as suas ordens, os negócios da cidade. Morto um dos cônsules, nas vésperas das calendas de janeiro, deu, por algumas horas apenas, a dignidade vacante a um homem que a solicitara68. Com essa mesma sem-cerimônia e desprezo dos costumes da sua pátria, dispôs das magistraturas durante anos e anos. Concedeu paramentos consulares a dez antigos pretores. Gratificou com o direito de cidadania, recebendo-os na Cúria, gauleses e semibárbaros Encarregou, do mesmo modo, seus próprios escravos na direção da moeda e dos tributos públicos. A Rufião, filho de um liberto seu e seu favorito, confiou a gerência e o comando de três legiões que deixara em Alexandria.

Como nota Tito Âmpio, não demonstrava menos arrogância nas conversações que fazia publicamente. Afirmava: “A República não era mais do que um nome vão, sem corpo nem figura; para ter abdicado a ditadura, era preciso que Sila não soubesse ler; futuramente, os que desejassem falar-lhe deveriam ter mais circunspecção e observar as palavras como se fossem leis.” Levou a insolência ao ponto de responder a um arúspice que lhe anunciava, durante um sacrifício, serem funestas as entranhas da vítima, por se lhe não haver encontrado o coração, “que elas seriam mais felizes quando ele assim o entendesse, pois ninguém deveria ver nesse acontecimento um prodígio, mas apenas um animal que não possuía coração”.

O fato, porém, que excitou contra ele um ódio particular e implacável foi o de ter recebido sentado, defronte do templo da Vênus Genitriz, os “padres conscritos” que, incorporados, lhe tinham ido apresentar numerosos decretos honorificentíssimos. Opinam uns que Cornélio Balbo o retivera no momento em que se preparava para levantar-se. Outros, que, longe de ter ensaiado o menor movimento, ainda olhara, com um olhar pouco amistoso, Trebácio, que lhe lembrava de que devia erguer-se. Esta maneira de agir pareceu tanto mais intolerável quanto ele próprio, ao passar em triunfo, diante das cátedras dos tribunos, enchera-se de indignação porque, único entre todos os colegas, Pôncio Áquila69 não se pusera em pé, a ponto de gritar-lhe: “Pois bem, tribuno Áquila, pede-me que te devolva a República!” E daí por diante nada mais prometeu a ninguém, a não ser com esta restrição: “Se, entretanto, Pôncio Áquila o permitir”.

A tão insigne ofensa feita à majestade do Senado ajuntou um traço de arrogância muito mais importante. Ao seu retorno das festas latinas, enquanto o povo o rodeava com aclamações excessivas e inauditas, um homem da multidão colocou-lhe na estátua uma coroa de louros atada com uma fita branca. Os tribunos do povo Elpídio Marcelo e Cesécio Flávio foram arrebatar a fita da coroa e conduzir o homem à prisão. Acaso sentiu-se César ferido, porque fora acolhida desfavoravelmente a ideia de realeza, ou porque, como ele sempre asseverava, lhe haviam roubado a glória de uma recusa? Pelo menos, admoestou rudemente os tribunos e os privou do poder. Desde então, não se pôde mais lavar da pecha de haver pretendido o título de rei, se bem tivesse respondido ao povo que o saudava sob essa denominação “que ele era César e não rei”. Por ocasião das Lupercálias70, rejeitou e fez levar a Júpiter Boníssimo e Altíssimo, no Capitólio, o diadema que, diante da tribuna róstria, o cônsul Antônio tentara, repetidas vezes, colocar-lhe na cabeça. Ademais, espalhara-se por todos os cantos o boato de que ele emigraria para Alexandria ou Ílion e para aí transportaria as forças do império, depois de haver esgotado a Itália por meio de motins e entregue a administração da cidade nas mãos dos amigos. Murmurava-se, também, que na próxima sessão do Senado o quindecênviro Lúcio Cota proporia a concessão a César do título de “rei”, pois estava escrito nos livros do destino que somente um “rei” conseguiria vencer os partos.

A conspiração

Para se não verem forçados a votar este projeto, apressaram os conspiradores a execução dos seus planos. Até lá não haviam realizado senão reuniões parciais entre, quase sempre, nunca mais de dois ou três. Efetuaram, então, uma assembleia geral. O próprio povo, longe de aplaudir a ordem vigente, repelia a prepotência, em segredo e abertamente, a chamar por libertadores. Ao serem admitidos estrangeiros no Senado, afixou-se o seguinte cartaz: “Saudações a todos. Pede-se não mostrar ao novo senador o caminho da Cúria”. E cantava-se por toda a parte:

“César conduz o gaulês ao triunfo e também à Cúria.
Os gauleses despiram as bragas e tomaram a faixa laticlávia.”

Quinto Máximo, que ele nomeara cônsul, em seu lugar, por três meses, certa vez fora ao teatro e, como de costume, foi anunciado por um litor. A massa ergueu-se, logo, a gritar “que ele não era mais cônsul”. Após a revocação dos tribunos Cesécio e Marcelo encontraram-se nos comícios que se lhe seguiram numerosos sufrágios designando os cônsules. No pedestal da estátua de Lúcio Bruto apareceu esta frase: “Oh! se tu vivesses!” E, no pedestal da do próprio César, estes versos:

“Bruto, por haver expulso reis, foi o primeiro a ser feito cônsul.
César, por haver expulso cônsules, foi o último a ser feito rei.”

A conspiração forjada contra ele englobou mais de 60 cidadãos, à testa dos quais se encontravam Caio Cássio, Marco e Décimo Bruto. A princípio, vacilaram os conspiradores sobre se escolheriam o Campo de Marte no momento em que, durante os comícios, César estivesse a conclamar os tribunos para que alguns daqueles pudessem jogá-lo do alto da ponte e outros, em baixo, trucidá-lo —, ou se o atacariam na Via Sagrada, ou, ainda, à entrada do teatro. Ao ter sido convocado o Senado, na Cúria de Pompeu71, para os idos de março, encontraram eles, então, o momento e o local preferíveis.

Sem embargo, prodígios ruidosos anunciaram a César a morte que lhe preparavam. Poucos meses antes, na colônia de Cápua, vários colonos para ali conduzidos, em virtude da lei Júlia, procediam à destruição de antigas sepulturas para, em seus lugares, construírem casas. Nessa operação punham tanto mais ardor quanto mais encontravam nas suas escavações numerosos pequenos vasos de feitura antiga, quando, no monumento em que Cápis, fundador de Cápua72, passava por ter sido sepultado, descobriram eles uma inscrição em caracteres e língua grega, assim concebida: “Quando os ossos de Cápis forem desenterrados, um descendente de Júlio perecerá pela mão de seus semelhantes, mas logo será vingado por grandes calamidades na Itália.” Este fato não poderia ser olhado nem como fabuloso, nem como invenção, pois tinha a afiançá-lo Cornélio Balbo, amigo íntimo de César. Nos últimos dias da sua vida, teve notícia de que as quadrilhas de cavalos que ele consagrara ao passar o Rubicão, e postas a pastarem em liberdade e sem guardadores, abstiveram-se de toda alimentação e derramaram abundantíssimas lágrimas. Enquanto César imolava uma vítima, advertiu-o o arúspice Spurina de que se cuidasse de um perigo que lhe não adviria senão depois dos idos de março. Nas vésperas destes mesmos idos, pássaros de diferentes espécies, saídos de um bosque vizinho, perseguiram e fizeram debandar dali uma pomba que pousara, com um ramo de loureiro, na Cúria de Pompeu. Na noite que precedeu o dia do assassínio, pareceu-lhe, durante o sono, que ora voava por sobre as nuvens, ora apertava a mão de Júpiter. Calpúrnia, sua mulher, sonhou, também, que a cumeeira da casa se abatia e que seu marido estava trespassado de golpes no peito. E, de repente, abriram-se, por si sós, as portas do seu quarto de dormir. Estes presságios todos, ligados ao mau estado da sua saúde, fizeram-no hesitar por muito tempo sobre se devia ficar em casa e adiar a sua tarefa no Senado. Como, porém, Décimo Bruto o exortasse a não faltar à palavra empenhada aos senadores, que se achavam reunidos e o esperavam, desde muito já, dispôs-se afinal a sair, às cinco horas. Certa pessoa73, à sua passagem, entregou-lhe um bilhete em que lhe denunciava a conjura. Ele o misturou, entretanto, com outros papéis que tinha na mão esquerda, tencionando, naturalmente, lê-los sem demora. A seguir, após haver imolado várias vítimas, sem obter presságios favoráveis, entrou na Cúria, desdenhoso da religião, a zombar de Spurina e a tratá-lo de mentiroso, pois para ele os idos de março haviam chegado sem nenhum acidente. A isso, responderam-lhe “que tinham chegado, mas não tinham passado ainda”.

O assassinato

Assim que se assentou, rodearam-no, logo, os conjurados, no aparente intuito de lhe mostrarem solicitude, quando Címber Túlio, a quem fora distribuído o primeiro papel, dele se aproximou como para lhe pedir qualquer coisa74. À recusa de César, que, com um gesto, deu a entender que lhe falasse noutra oportunidade, ele o segurou pela toga, impetuosamente. César gritou: “Mas isto é uma violência!” Então, um dos Cássios fere-o pelas costas, um pouco abaixo do pescoço. César, por sua vez, tomando-lhe do braço, atravessou-o com um buril. Quis, ainda, arremeter: outro ferimento, porém, o deteve. Mas, ao ver levantados sobre ele punhais de todas as direções, enrolou a cabeça na toga. Ao mesmo tempo, com a mão esquerda abaixou-lhe as dobras até às pernas, a fim de que pudesse tombar mais decentemente, visto que a parte inferior estava toda desnuda. Aí, então, transpassaram-no com 23 punhaladas. Ao primeiro golpe, soltou apenas um gemido sem pronunciar palavra, embora relatem alguns que ele exclamara, arremessando-se contra Marco Bruto: “Tu, também, meu filho!” Ao vê-lo sem vida, todos fugiram. Seu corpo ficou por algum tempo estendido no solo. Finalmente, três escravos puseram-no numa liteira, da qual pendia-lhe um dos braços, e o levaram para casa. No entender do seu médico Antístio, de tantos ferimentos só um era mortal: o segundo golpe desferido no peito. Tencionavam os conspiradores arrastar o cadáver para o Tibre; confiscar-lhe os bens e cassar-lhe todas as decisões. Porém, como temessem o cônsul Marco Antônio e o chefe da cavalaria, Lépido, desistiram da empresa.

Testamento e funeral

A pedido do seu sogro, Lúcio Pisão, foi aberto e lido na casa de Antônio o testamento que César fizera nos últimos idos de setembro, na sua propriedade de Lavicum75, o qual estava confiado à grande Vestal. Quinto Túbero recorda que, desde o seu primeiro consulado até à irrupção da guerra civil, ele tinha por costume apresentar Cnélio Pompeu como seu herdeiro e que chegara até mesmo a ler essa cláusula numa assembleia de soldados. Seu mais recente testemunho, porém, instituía três herdeiros. Eram os três netos das suas irmãs: Caio Otávio, com as três quartas partes, e Lúcio Pinário e Quinto Pédio, com a restante. Ao final do testamento, adotou, também, Caio Otávio, a quem legou o nome. Para o filho que porventura lhe viesse a nascer, nomeou tutores, no meio dos quais grande número dos que o haviam assassinado. O próprio Décimo Bruto figurava entre os herdeiros de segunda linha. Deixou ao povo seus jardins à margem do Tibre e 300 sestércios por cabeça.

No dia para o qual estavam anunciados os seus funerais, levantou-se uma pira no Campo de Marte, ao lado do túmulo de Júlia. Em frente à tribuna róstria ergueu-se uma capela dourada, modelada pelo templo da Vênus Genitriz. Aí foi colocado um leito de marfim, coberto de ouro e púrpura, e, à cabeceira, um troféu com o mesmo manto com que fora assassinado. Como o dia parecesse insuficiente para os que levassem oferendas, decidiu-se que, embora contrariando a ordem tradicional, cada qual as depositaria no Campo de Marte, tomando a rua da cidade que bem entendesse. Durante a solenidade, cantaram-se, com o intuito de excitar a piedade e a indignação contra o crime, alguns versos do Julgamento das Armas:

“Os que eu salvei, por que me fizeram perecer?”

e outros da Electra, sobre o mesmo tema. Ao invés do elogio fúnebre, o cônsul Antônio mandou ler por um arauto o senatus consulto que conferia a César honras divinas e humanas, assim como o juramento pelo qual todos se coligavam para a salvação de um só. Não pronunciaram no ato senão poucas palavras. Magistrados em função ou em disponibilidade carregaram seus leitos para diante da tribuna róstria, no Fórum. Uns mostravam o desejo de incinerá-lo no santuário de Júpiter Capitolino e outros, na Cúria de Pompeu, quando, repentinamente, dois homens de gládio à cinta, empunhando cada qual dois dardos, aí acenderam fogo com duas tochas inflamadas. No mesmo instante, a multidão que os cercava construiu no local tribunas e bancos com tábuas e tudo o mais que lhe ficava ao alcance. Depois, tocadores de flauta e histriões tiraram as vestes triunfais de que se achavam revestidos para a cerimônia, rasgaram-nas e as atiraram nas chamas. Legionários veteranos nelas lançaram, também, as armas com as quais se adornaram para os funerais. Da mesma forma, agiu a maior parte das matronas com os enfeites que traziam e os seus filhos com seus colares de bolinhas de ouro e as suas togas pretextas. Em meio a este grande luto público, uma multidão de delegações estrangeiras veio demonstrar seu pesar, cada uma por sua vez e à sua maneira. Sobretudo os judeus76, que velaram a pira durante várias noites seguidas.

O povo, logo a seguir aos funerais, acorreu, de tochas na mão, às casas de Bruto e de Cássio, e delas só com muita dificuldade conseguiram rechaçá-lo. Mas, apenas encontrou Hélvio Cina, confundido, em virtude de um engano de nome, com Cornélio, procurado por causa de um violento discurso, pronunciado na véspera, contra César, foi assassinado e sua cabeça foi espetada na ponta de um chuço. Mais tarde, ergueu-se no Fórum, em mármore da Numídia, uma coluna maciça de quase 20 pés, com esta inscrição: “Ao Pai da Pátria”. Por muito tempo ainda continuou-se a sacrificar ao pé dessa coluna, a fazerem-se votos e a acabarem-se certas querelas com juramentos feitos em nome de César.

César alimentou, em vários dos seus, a suspeita de não ter querido viver por mais tempo e de ter ficado indiferente ao enfraquecimento da sua saúde: portanto, de ter negligenciado as advertências dos deuses e as opiniões dos seus amigos. Pensam muitos estava ele tão sossegado com o último senatus consulto e o juramento77 que não hesitou mesmo em dispensar a guarda espanhola que o escoltava por toda parte, de gládio na mão. Outros, ao contrário, acreditam que o seu parecer era o de que valia mais sucumbir de uma vez às ciladas que o ameaçavam do que se manter à custa dos guardas. Ainda há quem refira que ele se habituara a dizer “que a República tinha mais interesse na sua salvação do que ele próprio; quanto a ele, conquistara já bastante poder e glória, ao passo que a República, se lhe acontecesse qualquer desgraça, longe de estar tranquila, cairia numa situação bem pior e cedo se veria presa de guerras civis”.

Quase todo mundo está de acordo em que a sua morte foi, mais ou menos, a que anelava. Efetivamente, um dia, ao ler em Xenofonte78 que Ciro, por ocasião da última doença, dera algumas ordens a propósito dos seus funerais, cheio de desprezo por um gênero de morte lenta, César desejou também que a sua fosse súbita. Na própria véspera do dia em que o assassinaram, como se ventilasse, à mesa, na casa de Marco Lépido, a questão de saber qual seria o fim de vida mais agradável, ele demonstrara preferência por um desenlace repentino e inopinado.

Morreu aos 56 anos de idade, considerado como do número dos deuses, tanto pelas declarações dos que lhe conferiram esta honra como pela convicção do povo. Com efeito, nos jogos consagrados à sua memória, pelo seu sucessor Augusto, um cometa que surgira à undécima hora brilhou durante sete dias a fio. Acreditou-se, então, que era a alma de César recebida no Céu. Por isso, costumava-se representá-lo com uma estrela no alto da cabeça. Decidiu-se a seu respeito: amurar a Cúria onde fora assassinado; dar aos idos de março o nome de “parricida” e jamais convocar-se o Senado para aquele dia.

Nenhum dos seus assassinos sobreviveu por mais de três anos e não morreram de morte natural. Condenados todos79, pereceram, cada qual, de maneira diferente: uns, num naufrágio; outros, em combate; e outros, ainda, suicidando-se com o mesmo punhal com que atacaram César.

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