Notas

102 - Disco usado nos jogos de arremesso.
103 - A primeira Olimpíada remonta o ano 776 antes de Jesus Cristo.
104 - Tales, poeta lírico é bem diferente de Tales, um dos sete Sábios da Grécia, nascido duzentos anos depois de Licurgo.
105 - É preciso ler Creófilo, segundo Estrabão, liv. XIVr página 946.
106 - Acrescente-se, conforme ao grego, de Esparta.
107 - Esse trecho se acha citado em duas outras passagens de Plutarco: no livro Da Diferença entre o Amigo e o Enganador e naquele Da Inveja e do ódio. Lê-se aí como seria bom, quando não saberia, etc; e é assim que é preciso ler, omitindo a negação.
108 - Toda essa passagem está alterada e truncada. Vide as. Observações, cap. IX.
109 - Entre o Eurotas e o Gnácion, pequeno rio que se lança no Eurotas, perto de Esparta.
110 - Heródoto. Xenofonte e outros historiadores dizem que os éforos foram criados por Licurgo. Eles eram então somente conselheiros dos reis. Mas, cento e trinta anos depois, quando os reis abusaram de seu poder, a autoridade dos éforos aumentou e eles se tornaram senhores dos reis.
111 - Para conhecer o caráter de Licurgo e o espírito de suas leis, é preciso recordar as reflexões de Montesquieu. Vide as Observações, cap. XII.
112 - No grego, setenta medimnos. A avaliação de Amyot é demasiado fraca. A meia-mina de Paris vale apenas três alqueires; e o alqueire de trigo pesa vinte e uma e vinte e duas libras. O medimno continha mais de quatro alqueires, medida de Paris.
113 - No grego, dez minas, que valiam setencentos e setenta e oito libras francesas. Em moeda de ferro, deviam perfazer um peso de mais de mil e seiscentas libras.
114 - No grego, um medimno de farinha. Vide a verdadeira avaliação no capítulo XII.
115 - No grego, oito chous de vinho, o que vale um pouco mais de vinte e oito pintas de vinho, medida de Paris. É quase uma pinta por dia.
116 - Espécie de sopa. À que se fazia com enguias dava-se o nome de caldo branco.
117 - Rio que passava por Esparta.
118 - No grego, a andarem nuas pela cidade, Vide as Observações, cap. XXV.
119 - No grego: como de ordinário, nos Phiditia.
120 - A montanha de Taígeto é agora a montanha dos Mainotas mais rijas e mais fortes.
121 - No grego: mas com vinho.
122 - Mais liv res, mais ágeis.
123 - Acrescentar, segundo o grego, pelo que diz Platão.
124 - É uma espécie de cardo, na língua dos Messenianos. Vide Hesíquio. Amyot. É o cardo algodoado, carduus tomentosus.
125 - No grego: e era obrigado a jejuar.
126 - Vide as Observações, cap. XXXIX.
127 - O grego: de que tenhamos sempre com que honrá-los.
128 - Ginásticas.
129 - No grego: o sofista Hecateu.
130 - Tocar bem a lira e servir-se bem das armas vão a par.
131 - Essa passagem está corrompida. Vide as Observações, cap. XLVI.
132 - Isso não está no texto.
133 - No grego: não impediu que.
134 - Que na invasão.
135 - Ano 489 antes de Jesus Cristo. Aí pereceram mais de vinte mil hom ens, conforme relato de Diodoro da Sicília, XI, 63.
136 - No grego: pois deu mais força à aristocracia.
137 - No grego: com uma eítala.
138 - E, se cometessem algumas faltas, fossem os Lacedemônios bem chicoteados.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Vidas Paralelas: Licurgo, de Plutarco

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Licurgo (séc. 9-8 a.C.) foi um lendário legislador da pólis de Esparta, na Grécia Antiga. Segundo a lenda, ele teria sido o responsável pela elaboração do regime político-social que imperava em Esparta. A biografia de Licurgo faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Licurgo foi comparado ao rei romano Numa Pompílio, que foi um outro grande reformador e legislador.

Imagem de capa: Licurgo de Esparta, pintura do artista neoclássico francês Merry-Joseph Blondel (1781–1853).

Nada absolutamente se poderia dizer de Licurgo, que estabeleceu as leis dos Lacedemônios, em que não haja sempre alguma diversidade entre os historiadores, pois que, tanto de sua raça e do seu afastamento do país, como de sua morte e mesmo das leis e da forma de governo que instituiu, quase todos escreveram diferentemente. Mas, menos ainda do que em qualquer outra coisa se acordam eles sobre o tempo no qual viveu: porque uns, entre os quais o filósofo Aristóteles, querem que ele tenha sido do tempo de ífito e que este o tenha ajudado a ordenar a suspensão de armas que se guarda durante a festa dos jogos olímpicos: em testemunho do que alegam a placa de cobre102 lançada nos ditos jogos, sobre a qual está ainda hoje gravado o nome de Licurgo. Ao contrário, os que contam os tempos pela sucessão dos reis da Lacedemônia, como fazem Eratóstenes e Apolodoro, o colocam muitos anos antes da primeira olimpíada103; e Timeu suspeita que haja dois desse nome em diversos tempos, mas que, tendo sido um mais renomeado do que o outro, atribuíram-lhe os feitos de ambos, e que o mais antigo não tenha existido muito tempo depois de Homero; e ainda há os que querem dizer que ele o viu. Xenofonte mesmo nos dá bem que pensar seja ele muito antigo, quando diz que foi do tempo dos Heráclidas, isto é, dos próximos descendentes de Hércules; pois não é verossímil que tenha querido referir-se indiferentemente aos descendentes de Hércules, porque os últimos reis de Esparta foram tanto de sua raça quanto os primeiros; assim, deve ter-se referido àqueles que foram, sem interregno, do tempo mesmo de Hércules. Todavia, ainda que haja tanta diversidade entre os historiadores, não deixaremos por isso de recolher e pôr por escrito o que sobre ele se acha nas antigas histórias, elegendo as coisas em que houver menos contradição ou que tiverem mais graves e mais aprovados testemunhos.

I. Diversidade de opiniões sobre o tempo em que Licurgo viveu.

I. Pois logo de início o poeta Simônides diz que seu pai foi chamado Prítanis, não Êunomo; e a maior parte escreve de outro modo a genealogia tanto do próprio Licurgo como de Êunomo, dizendo que Pátrocles, filho de Aristodemo, gerou Sous, de Sous nasceu Euritião, do qual Prítanis foi filho, de Prítanis nasceu Êunomo, de Êunomo Polidectes, que ele teve de sua primeira mulher, e de sua segunda, cujo nome era Dianasse, nasceu Licurgo; "todavia," Eutíquides, que é outro historiador, o põe sexto em uma linha direta após Poíidectes e undécimo após Hércules. Mas, entre todos os seus antepassados, o mais famoso foi Sous, do tempo em que os da cidade de Esparta subjugaram os Hilotas, que fizeram escravos, e aumentaram e alargaram várias terras que conquistaram aos Árcades. E dizem que, estando ele próprio um dia muito estreitamente assediado pelos Clitórios, em lugar áspero onde não havia água, mandou oferecer-lhes a entrega de todas as terras que conquistassem, desde que ele e toda a sua companhia bebessem numa fonte assaz próxima dali. Os Clitórios concordaram e o acordo foi assim jurado entre eles. Fez pois reunir seus homens e declaroulhes que, se houvesse algum deles que quisesse abster-se de beber, ele lhe cederia e daria a realeza: não houve em toda a tropa quem pudesse deixar de fazê-lo de tal maneira estavam premidos pela sede; antes beberam todos cientemente, exceto ele, que foi o último a descer e não fez outra coisa senão apenas refrescar-se e molhar-se um pouco por fora, em presença dos próprios inimigos, sem beber sequer uma gota: de modo que não quis depois entregar as terras, como prometera, alegando que nem todos tinham bebido.

II. Sua origem

II. Mas, ainda que por seus feitos tenha sido muito estimado, o fato é que sua casa não foi chamada por seu nome, antes pelo de seu filho Euritião, pois era denominada a casa dos Euritiônides: o que se explica por haver sido seu filho Euritião o, primeiro que desejando agradar e contentar o povo, relaxou um pouco o duro e absoluto poder dos reis. Essa indulgência deu mais tarde origem a uma desordem e grande dissolução, que durou longamente na cidade de Esparta, porquanto o povo, sentindo a rédea frouxa, tornou-se audacioso; e, por isso, alguns dos reis sucessores foram odiados de morte, por haverem querido manter à força a antiga autoridade sobre o povo; os outros, para ganharem as boas graças da plebe, ou porque não se sentissem bastante fortes, foram constrangidos a dissimular. O que de tal modo aumentou a audácia e a insolência do povo que o próprio pai de Licurgo, que era rei, foi morto em consequência: pois, querendo um dia apartar alguns que se engalfinhavam, recebeu um golpe de faca de cozinha, do que morreu, deixando o reino ao filho primogênito, Polidectes, o qual morreu logo depois sem herdeiros; de maneira que todos estimavam que Licurgo devia ser rei, como também o foi, até que se conheceu que a mulher de seu irmão tinha ficado grávida: logo que ele o percebeu, declarou que o reino pertencia ao filho que nascesse, se fosse homem; e depois administrou o reino como tutor do rei somente.

Os Lacedemônios chamam Pródicos aos tutores de seus réis que ficam órfãos em tenra idade. Mas a viúva de seu irmão mandou dizer-lhe que, se ele prometesse desposá-la quando fosse rei, ela trataria de abortar para perder o fruto que tinha no ventre. Licurgo ficou horrorizado com a perversidade e má índole dessa mulher, mas não rejeitou em palavras a oferta que lhe fazia, fingindo mesmo que ficara satisfeito e a aceitava; mas lhe mandou dizer que não era necessário, por meio de beberagens ou medicinas, desimpedir-se antes do tempo, porque, assim procedendo, poderia prejudicar e pôr em perigo a si mesma, mas era preciso somente ter paciência até dar à luz: pois então ele encontraria meio de se desfazer da criança que nascesse.

III. Sobe ao trono da Lacedemônia e em seguida torna-se tutor do rei Carilau, seu sobrinho.

III. Assim entreteve com tal linguagem aquela mulher, até ao tempo do parto, e, logo que percebeu que ela estava prestes a dar à luz, enviou guardas para assistirem ao transe, aos quais recomendou que, se nascesse uma filha, a deixassem entre as mãos das mulheres, e, se fosse filho, o levassem incontinente a qualquer lugar onde ele se encontrasse e fosse qual fosse o negócio que tivesse. Assim aconteceu que ela deu à luz um filho, mais ou menos à hora do jantar, quando ele estava à mesa com os, oficiais da cidade, e entraram seus servidores na sala e lhe apresentaram o menino, que ele tomou nos braços, dizendo aos assistentes: «Eis um rei que nos acaba de nascer, senhores Espartanos. » Dizendo essas palavras, deitou-o no lugar do rei e deu-lhe o nome de Carilau, que equivale a dizer alegria do povo, porque viu todos os assistentes muito alegres, louvando e abençoando sua magnânima probidade e justiça. Dessa forma, embora não tendo sido rei senão durante somente oito meses ao todo, era tão reverenciado c estimado como homem de bem pelos cidadãos que havia mais os que lhe obedeciam voluntariamente por sua virtude do que porque ele fosse tutor do. rei, e não porque tivesse autoridade real nas mãos; todavia, alguns havia que o invejavam e tratavam de impedir-lhe o crescimento quando era jovem, mesmo os parentes, amigos e aliados da mãe do rei, a qual estimavam ter sido desprezada e desonrada por ele; de maneira que um irmão dela, chamado; Leônidas, entrando um dia audaciosamente a proferir grosseiras palavras contra ele, não hesitou em lhe dizer: «Bem sei que por um destes dias serás com certeza rei», querendo torná-lo suspeito e preveni-lo por essa caluniosa presunção, a fim de que, se acaso o pequeno rei viesse a falecer em idade pupilar, acreditassem que ele o tinha feito morrer secretamente. A própria mãe ia também espalhando semelhantes rumores, os quais por fim o desgostaram tanto, com o medo que o dominava pela incerteza do futuro, que resolveu abandonar o país, para evitar com sua ausência a suspeita que pudessem ter sobre ele; e assim foi errando pelo mundo, até que o sobrinho gerou um filho que o sucederia no reino.

IV. Viagens

IV. Tendo pois partido com tal intenção, dirigiu-se primeiramente a Cândia, onde observou e considerou diligentemente a forma de viver e governar a coisa pública que era ali seguida, visitando e conferenciando com os homens de bem e mais conceituados do lugar. Assim encontrou algumas leis que lhe pareceram boas e delas fez um extrato, com a deliberação de levá-las para seu país e delas servir-se no futuro; também achou outra de que não fez conta. Ora havia entre outros um personagem considerado prudente e muito entendido em matéria de estado e de governo, e se chamava Tales104: ao qual Licurgo fez tantas súplicas, também pela amizade contraída com ele, que o persuadiu a seguir para Esparta. Esse Tales tinha fama de ser poeta lírico e dessa arte usava o título; mas, de fato, ele fazia tudo o que poderiam fazer os melhores e mais suficientes governadores e reformadores do mundo, pois todos os seus trabalhos eram belas canções nas quais pregava e admoestava o povo a viver sob a obediência das íeis, em união e concórdia uns com os outros, sendo as palavras acompanhadas de cantos, gestos e acentos plenos de doçura e gravidade, que secretamente edulcoravam os corações endurecidos dos ouvintes e os induziam a amar as coisas honestas, desviando-os das sedições, inimizades e divisões então reinantes; de tal maneira que se pode dizer ter sido ele quem preparou para Licurgo a via pela qual este mais tarde conduziu e encaminhou os Lacedemônios à razão.

V. Ao partir de Cândia, seguiu para a Ásia, querendo, como dizem, pela comparação da maneira de viver e da polícia dos Candíotas (então austera e estreita) com as superfluidades e delícias Jônicas, considerar a diferença que havia entre os respectivos costumes e governos: nem mais nem menos que um médico que, para melhor conhecer os corpos sãos e nítidos, os comparasse aos gastos e tarados. É verossímil que ali tenha ele visto pela primeira vez a poesia de Homero entre as mãos dos herdeiros e sucessores de Cleófilo105; e, achando nela o fruto da instrução política, não menor que o prazer da ficção poética, copiou-a diligentemente e reuniu-a num corpo para levá-la à Grécia. Verdade é que havia já alguma notícia da poesia de Homero entre os Gregos, mas era muito pouco: alguns particulares, aqui e acolá, possuíam dela peças descosidas, sem ordem nem sequência alguma e foi Licurgo quem mais a fez vir à luz nas mãos dos homens.

VI. Dizem os Egípcios que ele esteve também em seu país e que, tendo achado entre outras ordenanças aquela, singular, de que os homens de guerra são ali em tudo e por tudo separados do resto do povo, transportou-a para Esparta, onde, pondo à parte os mercadores, artesãos e gente de ofício, estabeleceu uma coisa pública verdadeiramente nobre, nítida e gentil. Os historiadores do Egito, e ainda alguns Gregos, assim o dizem. Mas, quanto ao mais, que ele tenha estado na África e na Espanha, e até nas índias, para ali ter comunicação com os sábios do país que se chamam ginosofistas, eu não sei de ninguém que o tenha escrito, senão Aristóteles, filho de Hiparco106.

VII. Regresso

VII. Mas os Lacedemônios o lamentaram muito quando partiu e, por várias vezes, mandaram pedir que voltasse, estimando que seus reis não tinham senão a honra e o nome de reis tão somente, sem outra qualidade que o fizesse aparecer acima do popular comum; e que ele, ao contrário, nascerá para comandar, tendo por natureza a graça e a eficácia de atrair os homens a voluntariamente lhe obedecerem; e os próprios reis não se desgostavam com sua volta, porque esperavam que sua presença refreasse e contivesse um pouco o povo, que não seria tão insolente para com eles. Eis porque, reportando-se a essa opinião e afeição de cada um para com ele, logo que chegou, pôs-se a remodelar todo o governo da coisa pública e mudar inteiramente toda a polícia, estimando que fazer somente algumas leis é ordenanças particulares não serviria de nada, do mesmo modo que a um corpo inteiramente gasto e cheio de toda sorte de moléstias, nada aproveitaria prescrever-se alguma ligeira medicina que não lhe desse ordem de purgar, resolver e consumir primeiramente lodos os maus humores, para depois lhe dar nova forma e regra de vida.

VIII. Vai a Delfos

VIII. Tendo pois tomado essa resolução em seu entendimento, seguiu antes de toda obra para a cidade de Delfos, onde, após haver sacrificado a Apolo, perguntou-lhe dos seus negócios e obteve aquele tão renomeado oráculo pelo qual a profetisa Pítia lhe chama Amado dos deuses, e deus antes que homem; e, em suma, quanto ao pedido da graça de poder estabelecer boas leis no país, ela lhe respondeu que Apolo lha outorgaria e que ele ordenaria a melhor e mais perfeita forma de coisa pública que existiu em todo o mundo. Essa resposta encorajou-o ainda mais, de maneira que começou a descobrir-se a alguns dos principais da cidade e a pedir-lhes e exortá-los secretamente a ajudá-lo, dirigindo-se primeiramente aos que sabia serem seus amigos aos poucos e conquistando sempre alguns outros, que se juntavam à sua empresa. Depois, quando a oportunidade chegou, mandou buscar na praça, certa manhã, trinta dos primeiros homens da cidade, armados, para amedrontarem e conterem aqueles que tivessem vontade de opor-se ao que se havia proposto fazer. O historiador Hermipo cita vinte dos mais aparentes; mas aquele dentre todos os outros que mais o assistiu em todas as coisas, e mais o ajudou a estabelecer suas leis, foi o chamado Aritmíadas. Ora, ao começar o. movimento, o rei Carilau, pensando que fosse uma conjuração contra sua pessoa, ficou tão apavorado que se refugiou no templo de Juno sobrenomeado Calcieco, isto é, templo de bronze; todavia, depois, quando se lhe deu a conhecer a verdade, ele se assegurou, saiu do templo e favoreceu a empresa, sendo homem de boa e doce natureza, como testemunha o que Arquelau, que era na mesma época outro rei da Lacedemônia, respondeu a alguns que em sua presença o louvavam, dizendo que era boa pessoa: «E como107 não seria bom, disse ele, quando não saberia ser mau nem para os próprios maus?»

IX. Leis que dá à Lacedemônia. Criação do Senado

IX. Houve, nessa modificação do estado promovida por Licurgo, muitas novidades, mas a primeira e maior foi a instituição do Senado, o qual, misturado com o poder dos reis e igualado a eles quanto à autoridade nas coisas de consequência, foi, como diz Platão, um contrapeso salutar no corpo universal da coisa pública: a qual antes estava sempre em abalo, pendendo ora para a tirania, quando os reis tinham demasiado poder, ora para a confusão popular, quando o povo comum vinha usurpar aí autoridade demais. E Licurgo pôs entre ambos esse conselho dos senadores, que foi como forte barreira mantendo as duas extremidades em igual balança e dando pé firme e seguro ao estado da coisa pública, porque os vinte e oito senadores que formavam o corpo do Senado se enfileiravam às vezes ao lado dos reis, tanto quanto necessário para resistir à temeridade popular e, também, ao contrário, fortificavam às vezes a parte do povo contra a dos reis, para impedir que estes usurpassem um poder tirânico. E diz Aristóteles que ele estabeleceu esse número de vinte e oito senadores porque, dos trinta que inicialmente haviam empreendido remodelar o governo com ele, houve dois que por medo abandonaram a empresa; todavia Esfero escreve que, desde o começo, nunca houve mais de vinte e oito que participassem da conspiração. E porventura teria ele também considerado que era um número completo, visto como se compõe de sete multiplicado por quatro, sendo além disso o primeiro número perfeito, depois do seis, que iguala todas as suas partes reunidas e recolhidas em conjunto. Mas, quanto a mim, minha opinião é que escolheu aquele número, de preferência a outro, a fim de que o corpo inteiro do conselho fosse de trinta pessoas ao todo, ajuntando aí os dois reis. E teve Licurgo, assim, grande cautela no bem estabelecer e autorizar tal conselho, que lhe fora anunciado por um oráculo do templo de Apolo, na cidade de Delfos, Esse oráculo se chama ainda hoje Retra, como quem dissesse o decreto, e dele é a seguinte sentença: «Depois108 que tiveres edificado um templo a Júpiter Silaniano e a Minerva Silaniana, e dividido o povo em linhagens, estabelecerás um Senado de trinta conselheiros, inclusive os dois reis; e reunirás o povo, segundo as ocorrências dos tempos, na praça que está entre a ponte e o rio de Gnácion, onde os senadores proporão as matérias e deixarão as assembleias, sem que ao povo seja permitido arengar.» Naquele tempo, as assembleias do povo se realizavam entre dois rios109, pois não havia sala para reunir o grande conselho, nem praça que fosse de outro modo embelezada nem ornada, porque Licurgo estimava que isso de nada serviria para bem deliberar e escolher bom conselho, e sim para prejudicar, porque comumente faz que os homens, que em tais lugares se reúnem para deliberar acerca de negócios, sonhem com coisas vãs, desviando seus entendimentos no considerar estátuas ou quadros e pinturas que ordinariamente se colocam para embelezar tais lugares públicos; ou, se é um teatro, olhar para a cena, isto é, o lugar onde se representam as peças; ou, se é uma grande sala, a contemplar os lambris ou a abóbada que for engenhosamente trabalhada e suntuosamente enriquecida por alguma bela manufatura.

X. Quando todo o povo estava reunido em conselho, não era permitido, a quem o quisesse, propor e apresentar matérias para deliberar, nem emitir opinião; tinha antes o povo autoridade somente para aprovar e confirmar, se bem lhe parecesse, o que fora proposto pelos senadores ou pelos reis; mas depois, como o povo fosse frequentemente forçando ou desviando as proposições do Senado, tirando-lhes ou acrescentando alguma coisa, os reis, Poiidoro e Teopompo, ajuntaram ao teor do supracitado oráculo que, quando o povo quisesse de algum modo alterar às op iniões propostas ao conselho pelo Senado, seria permitido aos reis e aos senadores abandonar o conselho e anular o referido decreto, como tendo alterado, dissimulado e modificado para pior as sentenças e proposições apresentadas pelo Senado.Esses dois reis persuadiram semelhantemente o povo de que esse acessório, do mesmo modo que o principal, vinha do oráculo de Apolo, assim como disso faz menção o poeta Tirteu, na passagem em que diz:

Pelo Deifico oráculo sagrado
Tinha-lhes Pítia ainda acrescentado:
Os reis, aos quais pertence por dever
O bem de Esparta amável promover,
Serão os chefes e moderadores
Do conselho, assim como os senadores;
Sempre de acorde, a massa popular
Deverá limitar-se a confirmar.

XI. Autoridade dos éforos

XI. Tendo pois Licurgo assim temperado a forma da coisa pública, pareceu contudo, aos que vieram depois dele, que esse pequeno número de trinta pessoas que formavam o Senado era ainda poderoso demais e possuía demasiada autoridade; de modo que, para mantê-los um pouco sob as rédeas, deram-lhes, como diz Platão, um freio que foi o poder e a autoridade dos éforos, que equivale a dizer controladores, os quais foram criados cerca de cento e trinta anos após a morte de Licurgo110; e foi o primeiro eleito o chamado Elato, do tempo em que reinava o rei Teopompo, cuja mulher o censurou um dia, furiosa, por haver ele deixado aos sucessores o reino menor, que não recebera dos predecessores, ao que ele respondeu: «Mas será tanto maior quanto mais duradouro e mais seguro.» Pois também em verdade, perdendo o poder demasiado absoluto que lhes causava a inveja e o ódio dos cidadãos, escaparam ao perigo de sofrerem o que os vizinhos Argivos e Messenianos fizeram a seus reis, por não haverem querido relaxar nem ceder nada de sua autoridade soberana. Iss o faz, como nenhuma outra coisa, conhecer evidentemente o grande senso e a longa previdência de Licurgo, a quem quiser de perto considerar as sedições e maus governos dos Agivos e Messenianos, seus próximos vizinhos e parentas, tanto dos povos como dos reis, os quais tendo tido a princípio todas as coisas semelhantes aos de Esparta, e ainda, na repartição das terras, tendo obtido melhores do que eles, todavia não prosperam longamente; ao contrário, pela arrogância dos reis e desobediência dos povos, entraram em guerras civis uns contra os outros e mostraram que efetivamente era uma graça especial haverem os deuses dado aos de, Esparta um reformador que temperasse e ordenasse tão sabiamente o estado e o governo da coisa pública, como aqui deduziremos depois.

XII. Partilha das terras

XII. A segunda novidade de Licurgo, e a de mais ousada e mais difícil empresa, foi mandar de novo repartir as terras111: pois, havendo no país da Lacedemônia grande dificuldade e desigualdade entre os habitantes, porque uns, e a maior parte, eram tão pobres que não tinham uma só polegada de terra, e outros, em bem pequeno número, tão opulentos que possuíam tudo, ele advertiu que, para banir e expulsar da cidade a insolência, a inveja, a avareza, as delícias e, mais a riqueza e a pobreza, que são ainda as maiores e mais antigas pestes das cidades e das coisas públicas, não havia meio mais expediente do que persuadir os cidadãos a reporem em comum todas as terras, possessões e heranças do país e de novo as repartirem igualmente entre si, para daí por diante viverem todos juntos como irmãos de maneira que um não tivesse em bens nada mais do que o outro, e a não procurarem preceder uns aos outros em nenhuma outra coisa senão na virtude: estimando não dever existir outra desigualdade nem diferença, entre os habitantes de uma mesma cidade, senão aquela que procede da censura às coisas desonestas e do louvor às coisas virtuosas e honestas. Seguindo aquela imaginação, executou de fato a repartição das terras, pois dividiu todo o resto do país da Lacônia inteiramente, em trinta mil partes iguais, as quais distribuiu aos habitantes dos arredores de Esparta; e das terras mais próximas da própria cidade de Esparta, que era capital de todo o país da Lacônia, fez outras nove mil partes, que repartiu entre os naturais burgueses de Esparta, que são os que propriamente se chamam os Espartanos. Todavia, querem alguns dizer que ele não fez senão seis mil partes e que depois o rei Polidoro acrescentou-lhes outras três mil; e há os que dizem ainda que dessas nove mil partes Licurgo não fez senão a metade somente e Polidoro a outra. Cada uma dessas partes era tal que podia dar a seu dono, anualmente setenta meias-minas de cevada112 para o homem e doze para a mulher, além de uvas e outras frutas líquidas em semelhante proporção: estimando suficiente essas qualidades para manter o corpo do homem são, disposto e robusto, e que não há necessidade de nada mais. Assim, dizem que, voltando um dia dos campos e passando através das terras onde o trigo fora não muito antes ceifado, vendo os montes de grão todos iguais e tão grandes uns como os outros, pôs-se a rir e disse aos que o acompanhavam que todo o país da Lacônia lhe parecia uma herança de vários irmãos que tivessem novamente feito suas partilhas.

XIII. Abolição da moeda de ouro e de prata. Estabelecimento da moeda de ferro.

XIII. Tentou ele também, semelhantemente, mandar pôr em comum e partilhar os móveis, a fi m de eliminar inteiramente toda desigualdade; mas, vendo que os cidadãos supunham muito impacientemente que se lhes tirariam a descoberto, ele nisso procedeu por via coberta, aguçando-lhes sutilmente a avareza e a cobiça: pois primeiramente depreciou toda espécie de moeda de ouro e de prata, ordenando que se usasse somente moeda de ferro, da qual ainda uma grande e pesada massa era de bem pouco preço, de tal maneira que, para se alojar dela o valor de cem escudos113, seria preciso impedir todo um grande celeiro na casa e seria necessária uma parelha de bois para transportá-la. Ora, estando por esse meio o ouro e a prata banidos do país da Lacônia, era forçoso que vários crimes e malefícios desaparecessem também. Pois quem pretenderia roubar, tomar, sonegar, furtar ou reter uma coisa que não soubesse esconder e que não houvesse grande ocasião de desejar nem proveito em possuir, visto como não podia servir-se dela para empregá-la em outro uso? Porque, quando o ferro que se queria amoedar estava todo vermelho de fogo, deitava-se vinagre em cima, extinguindo-lhe a força e rigidez, de maneira que perdesse toda capacidade para servir na execução de outro trabalho, porque se tornava tão rude e tão brilhante que não mais podia ser batido nem forjado.

XIV. Depois disso, baniu também todos os misteres supérfluos e inúteis, e, ainda que por édito não os tivesse perseguido, teriam assim desaparecido todos, ou a maior parte, com o uso da moeda, quando não mais encontrasse m quem ficasse com seus trabalhos, porque a moeda de ferro não tinha curso nas outras cidades da Grécia, antes zombavam dela por toda parte, e dessa forma não podiam os Lacedemônios comprar mercadorias estrangeiras, nem lhes visitava o porto nenhum navio para ali traficar, nem entrava no país nenhum afetado retórico para ensinar a pleitear com habilidade, nem nenhum adivinho para ali dizer a boa sorte, nem sarda para ali ficar no cais, nem ourives, nem joalheiro que ali fizesse ou vendesse broches de ouro ou de prata para enfeitar as damas, visto como são coisas que se fazem somente para ganhar e acumular dinheiro, que não havia; e assim as delícias, destituídas das coisas que as nutrem e que as entretém, começavam a fanar ao poucos 6 finalmente a cair por si mesmas, não podendo os mais ricos ter nada a mais que os mais pobres e não lendo a riqueza meio nenhum de se mostrar em público e pôr-se em evidência, antes ficando reclusa em casa, coisa, sem poder de nada servir a seu dono. E, contudo, os utensílios indispensáveis e com os quais se tem todos os dias o que fazer, como estrados, mesas, cadeiras e outros móveis que tais, se faziam muito bem, sendo muito louvada a forma e feitio do copo Lacônico, que se chamava Cothon, também para uso de guerreiros, como costumava dizer Crítias, porque era feito de sorte que a cor poupava aos olhos conhecer a água que às vezes se é constrangido a beber num acampamento, tão turva e tão suja que, só de ver-se, provoca náusea; e, se acaso havia alguma sujeira e algum limo no fundo, ele parava nos limites do ventre e pelo gargalo, não vinha à boca de quem bebia senão a parte mais limpa. Do que foi também causa o reformador, porque os artesãos, não estando mais ocupados no mister de obras supérfluas, empregaram sua capacidade em bem produzir o necessário.

XV. Ordenança das refeições públicas. Descontentamento dos ricos sobre essa ordenança.

XV. Mas, querendo ainda mais perseguir a superfluidade e as delícias, a fim d e exterminar inteiramente a cobiça de possuir e de enriquecer, fez uma terceira ordenança, nova e muito bela, que foi a dos convívios, pela qual quis e ordenou que eles comessem juntos das mesmas viandas e, notadamente, das que estavam especificadas na ordenança, que expressamente os proibia de comerem à parte e em particular sobre ricas mesas e leitos suntuosos, abusando do labor dos excelentes operários e requintados cozinheiros, para engordarem em segredo e nas trevas, como se engordam os animais glutões: o que arruma e corrompe não somente as condições da alma, mas também as compleições do corpo, quando se lhe deixa assim a rédea em abandono a toda sensualidade e glutonaria, acontecendo depois que ele tem necessidade de muito dormir, para cozer e digerir o que demais tomou de vianda, e quer ser ajudado com banhos quentes, longo repouso e tratamento ordinariamente necessário a um doente.

XVI. Alcandro fura a Licurgo um olho e se torna seu amigo

XVI. Foi pois grande coisa ter ele podido fazer isso, mas ainda maior o haver tornado a riqueza não sujeita a ser roubada e menos ainda a ser cobiçada, como diz Teofrasto, o que conseguiu por meio daquele estatuto de mandá-los comer juntos com tão grande sobriedade no viver ordinário. Pois não mais havia meio de usar, gozar e mostrar a riqueza somente aos que a tivessem, visto como o pobre e o rico eram constrangidos a ficarem no mesmo lugar, para aí comerem as mesmas viandas: de tal maneira que o que se diz comumente, que Pluto, isto é, o deus das riquezas, é cego, era verdadeiro somente na cidade de Esparta, entre todas as que jamais existiram no mundo; pois ali jazia por terra, como uma pintura sem alma e sem movimento: visto como não era permitido comer antes de vir às salas públicas, à parte, em casa, e depois vir por continência, todo saturado, ao lugar do convívio: pois cada qual tinha os olhos voltados expressamente para os que não bebiam nem comiam com bom apetite, os quais eram censurados e repreendidos como glutões ou como desdenhosos da delicadeza de comer em comum com os outros; de sorte que foi essa, ao que se diz, a ordenança que mais desgostou os ricos, entre todas aquelas que então estabeleceu Licurgo; e por causa dela gritaram e se enfureceram mais contra ele, até que, vendo que se precipitavam todos juntos sobre a sua pessoa, foi constrangido a fugir da praça. Assim ganhou a dianteira e se lançou em segurança dentro de uma igreja, antes que os outros pudessem atingi-lo, exceto um jovem chamado Alcandro, que aliás não era de má natureza, senão que um pouco pronto de mão e de cólera; e, perseguindo Licurgo de mais perto que os outros, quando o viu voltar-se, deu-lhe uma bastonada no rosto, furando-lhe um olho. Mas nem por isso Licurgo se deixou abater, antes se apresentou de cabeça erguida aos que o perseguiam, mostrando-lhes a face toda em sangue e a vista vazada: o que de tal modo os envergonhou que não houve quem ousasse abrir a boca para falar contra ele: ao contrário, entregaram-lhe nas mãos Alcandro, que o ferira, para o castigar como bem lhe parecesse, e o convidaram todos para suas casas, mostrando que deploravam o mal causado. Licurgo agradeceu e mandou-os de volta, fazendo consigo entrar Alcandro em sua casa, onde não o puniu nem o acusou com uma só palavra: ordenou-lhe somente que o servisse, mandando que se retirassem os domésticos que o serviam ordinariamente, O rapaz, que não era desajeitado, o fez de bom grado, sem nada replicar; e, após ficar algum tempo junto com ele, sempre ao redor de sua pessoa, começou a conhecer e apreciar a bondade do seu natural, bem como a afeição e o intuito que o levava a proceder como fazia, a austeridade de sua vida ordinária e sua constância em suportar todos os trabalhos, sem jamais fatigar-se; e começou então a amá-lo e honrá-lo afetuosamente, e depois saiu pregando aos parentes e amigos que Licurgo não era tão rude nem revês como parecia à primeira vista mas antes o mais doce e o mais amável possível para com os outros. Eis como Alcandro foi castigado por Licurgo, e a punição que recebeu: é que de mal condicionado rapaz, ultrajoso e temerário que era antes, tornou-se prudente e moderado.

XVII. Leis e vantagens das refeições públicas

XVII. Mas, em memória daquele inconveniente, Licurgo edificou um templo a Minerva, que ele sobrenomeou Optilétida, de modo que os Dórios que habitam essas regiões da Moréia dão aos olhos o nome de Optiles. Há outros, entre os quais Dioscórilhedes, que dizem haver Licurgo recebido uma bastonada, mas que não teve o olho furado e que, ao contrário, fundou esse templo a Minerva para lhe render graças pela cura de sua vista; e o fato é que, desde essa época, os Espartanos cessaram de usar bastões nas assembleias do conselho.

XVIII. E, para voltar aos convívios públicos, os Candiotas chamavam-lhes Andria e os Lacedemôlhenios Phiditia, ou porque eram lugares nos quais se aprendia a viver sóbria e estreitamente, tendo a poupança em língua grega o nome de Phido ou porque ali se travava amizade entre uns e outros, como se tivessem querido dizer Philitia, pondo um d em lugar de 1. Poderia também ser que tivessem acrescentado de supérfluo a primeira letra, como se quisessem dizer Editia, porque eram lugares aonde iam comer e tomar suas refeições; e ali se reuniam às quinzenas em cada sala, pouco mais ou menos; e levava cada um deles, no começo do mês, meia-mina de farinha114, oito jarras de vinho115, cinco libras de queijo e duas libras e meia de figos, e além disso boa porção de moeda para a compra da pitança. Mas, além disso, quando algum deles sacrificava em casa, enviava as primícias do sacrifício à sala do convívio; semelhantemente, se havia conseguido alguma veação na caça, enviava-lhe dela um pedaço; pois eram os dois casos nos quais era permitido comer à parte na própria casa, quando: se imolava algum animal aos deuses ou quando se voltava tarde demais da caça; de outro modo, eram constrangidos a reunir-se todos nas salas dos convívios, quando queriam comer, se quisessem comer. O que durante muito tempo conservavam com rigor, de maneira que um dia, tendo o rei Agis voltado da guerra em que derrotara os Atenienses, e querendo comer em separado com a mulher, mandou pedir sua porção mas os Polelhemarcos, que são certos oficiais que assistem os reis na guerra como seus colaterais, lha recusaram; e, no dia seguinte, tendo Agis, por despeito, deixado de fazer o sacrifício habitual à saída de uma guerra, foi por eles condenado à multa.

XIX. As próprias crianças iam a esses convívios, nem mais nem menos do que a escolas de honra, onde ouviam boas e graves palestras referentes ao governo da coisa pública, por mestres que não eram mercenários, e ali aprendiam a jogar prazenteiramente, sem, todavia picarem acremente, nem gozarem de maneira desonesta, nem se aborrecerem é uma qualidade, entre os Lacedemônios, tolerar com paciência uma pilhéria; todavia se algum houvesse não gostasse disso, bastava pedir ao outro que se abstivesse, e este incontinente cessava. Mas era costume que a todos os que entravam na sala do convívio o mais velho dissesse mostrando-lhes a porta:

«Nenhuma palavra sairá por esta porta. »

XX. Também era preciso que aquele que de deixasse ser recebido na companhia do convívio fosse primeiramente aprovado e aceito por todos os outros da seguinte maneira: ao lavar as mãos, cada um deles tomava uma pequena bola feita com farelo ou miolo de pão e a lançava sem dizer palavra dentro de uma bacia que trazia à cabeça o criado do convívio, que os servia à mesa; aquele que se contentasse de que o outro fosse recebido lançava a bolinha, muito simplesmente; se não, apertava-a fortemente entre os dedos, até achatá-la. Essa bola de farelo assim achatada equivalia à fava atravessada, que era nos julgamentos o sinal de sentença condenatória; e, se ali se achasse uma só dessa espécie, o pretendente não era recebido pois não queriam que entrasse na companhia ninguém que não fosse agradável a tolhedos os outros. Aquele que era assim rejeitado, diziam eles que havia caducado, porque o vaso dentro do qual lançavam as bolinhas de farela se chamava Cados.

XXI. A vianda mais esquisita, servida nesses convívios, era a que chamavam de bródio negro116, de modo que, quando havia este, os velhos não comiam carne, deixando-a toda para os moços, e comiam à parte o bródio. Houve outrora um rei do Ponto que, para provar esse bródio negro, comprou expressamente um cozinheiro lacedemônio mas, depois que este o experimentou, ele incontinente ficou enojado, tendo-lhe dito então o cozinheiro: «Majestade, para gostar desse bródio seria preciso primeiro tomar banho no rio Eurotas117.» Depois de sobriamente beberem e comerem juntos, voltavam todos sem luz para suas casas, pois não lhes era permitido ir a parte alguma com candeia, a fim de se acostumarem a marchar ousadamente à noite e nas trevas. Tais eram a ordem e a maneira de seus convívios.

XXII. Mas convém notar que jamais Licurgo consentiu se escrevesse nenhuma de suas leis;, ao contrário, por uma de suas ordenanças, a que dão eles o nome de Retres, ficou estabelecido que não haveria nenhuma escrita porquanto, no que é de principal força e eficácia para tornar-se uma cidade feliz e virtuosa, estimava que isso devia ser impresso, pela nutrição, nos corações e nos costumes dos homens, a fim de aí ficar para sempre imutável , sendo a boa vontade um laço mais forte do que qualquer outro constrangimento que se pudesse impor aos home ns, de modo que o hábito tomado por boa instituição, desde a primeira infância, faz cada qual servir-se dele como de uma lei para si mesmo. E, em suma, no que concerne aos contratos dos homens entre si, que são coisas ligeiras e que ora mudam, de uma forma, ora de outra, conforme a necessidade, pensou que era melhor não extingui-los sob constrangimentos redigidos por escrito, nem estabelecer costumes que não pudessem modificar-se, mas deixá-los antes à discrição e ao arbítrio dos homens bem educados e instituídos, para aí tirar ou ajuntar o que requeressem a ocorrência e a disposição do tempo; pois estimou, em suma, que o fim principal de um bom estabelecedor e reformador da coisa pública devia consistir em bem educar e instituir os homens. Uma de suas ordenanças prescrevia, pois, expressamente, que não haveria nenhuma lei escrita.

XXIII. Regulamento para as construções

XXIII. Havia outra contra a superfluidade, a qual ordenava que as coberturas das casa fossem feitas à cunha e as guarnições das portas com serra somente, sem outro utensílio de marcenaria. No que teve a mesma imaginação que depois revelou também Epaminondas, quando disse, falando de sua mesa: «Semelhante trivial nunca é traído. » Também estimava Licurgo que tal casa não deveria ter superfluidade nem delícias, porque não havia homem tão impertinente nem de tão mau julgamento que para uma casa tão pobre e sóbria fosse levar estrados com pés de prata, nem dosséis e forros de cama tingidos de púrpura, nem baixela de ouro ou de prata, e todo o séquito de superfluidade e delícias que isso acarreta, porque é preciso que os leitos sejam proporcionados à casa, as cobertas convenientes aos leitos, e todo o resto dos móveis e da maneira de viver de acordo e em correspondência com o vestuário. Desse costume procedeu o que o rei Leotiquides, primeiro desse nome, disse uma vez: jantando um dia na cidade de Corinto e vendo o revestimento da sala onde comia, suntuosamente lambrisado e trabalhado, perguntou ao hóspede se as árvores cresciam assim quadradas no país.

XXIV. Ordenança militar

XXIV. A terceira ordenança proibiu fazer frequentemente a guerra contra os mesmos inimigos, por medo de que estes, tantas vezes constrangidos a tomar das armas para se defenderem, se tornassem afinal homens valorosos e bons combatentes. Tal censura se fez ao rei Agesilau, que existiu muito tempo depois: por ter frequentemente entrado em armas no país da Beócia, acabou tornando os Tebanos tão bons guerreiros como os Lacedemônios. Naquela ocasião, Antálcidas, vendo-o um dia ferido, disse-lhe: «Recebes dos Tebanos ó preço de seu aprendizado, tal como o mereceste; pois lhes ensinaste, malgrado seu, o mister da guerra, que eles antes não queriam aprender nem exercer. » São as ordenanças que o próprio Licurgo chamou de Retres, o que equivale a dizer graves sentenças ou oráculos que o deus Apolo lhe teria dado.

XXV. Casamentos das mulheres, educação das filhas

XXV. Mas, quanto à educação das crianças, que ele estimava ser a mais bela e maior coisa que poderia estabelecer ou introduzir um reformador de leis, começando de longe, considerou primeiro os casamentos e a geração das crianças. Pois, quanto ao que diz Aristóteles, que ele ensaiou reformar as mulheres e disso desistiu incontinente, ao ver que não podia consegui-lo, por causa da enorme licença que elas haviam usurpado na ausência dos maridos, porque estes eram constrangidos a partir constantemente para as guerras, durante as quais os homens se viam obrigados a deixá-las senhoras de suas casas, honrando-as e acariciando-as além da medida, chamando-lhes damas e senhoras — isso me par ece falso: a verdade é que tratou de regulamentar-lhes e ordenar-lhes a maneira de viver, assim como a dos homens, de acordo com a razão. Primeiramente, pois, quis que as moças enrijecessem o corpo, exercitando-se em correr, lutar, jogar a barra e lançar o dardo, a fim de que o fruto que concebessem, vindo a tomar forte raiz num corpo disposto e robusto, germinasse melhor; e também para que, reforçadas por tais exercícios, suportassem com mais vigor e facilidade as dores do parto. E, para tirar-lhes toda delicadeza e ternura efeminada, acostumou as mocinhas, assim como os rapazes, a118 frequentarem as procissões, dançarem nuas em algumas festas e sacrifícios solenes e cantarem na presença e à chegada dos rapazinhos, aos quais, muitas vezes, ao passarem, dirigiam algum brocardo apropriado, tocando ao vivo aqueles que em alguma coisa tivessem esquecido seu dever; e, não raro, também recitavam em suas canções os louvores dos que destes eram dignos. Assim fazendo imprimiam nos corações dos jovens uma grande gelosia e contenção de honra, pois aquele que por elas tivesse sido louvado como valente e do qual houvessem cantado os atos de proeza, ia sendo educado com a coragem de fazer ainda melhor no futuro e os golpes e picadas que dirigiam aos outros não eram mais pungentes do que as mais severas admoestações e correções que se lhes tivesse sabido dar, mesmo porque isso era feito em presença dos reis, senadores e todo o resto dos cidadãos que ali se achavam para assistirem aos divertimentos.

XXVI. Mas, quanto ao fato de se mostrarem inteiramente nuas em público, não havia nisso vilania alguma, pois a exibição era acompanhada de toda a honestidade, sem lubricidade nem dissolução; antes pelo contrário, trazia consigo o costume da simplicidade e, entre elas, a vontade de possuir o corpo mais robusto e melhor disposto; e, além disso, isso lhes elevava de certo modo o coração, tornando-as mais magnânimas e dando-lhes a conhecer que não lhes assentavam menos bem do que aos homens o exercício, a proeza e a competição para a conquista do prêmio. Daí resultava que as mulheres! Lacedemônias tinham também a coragem de afirmar e pensar por si mesmas, como respondeu um dia Gorgônia, mulher do rei Leônidas, a qual, conforme se acha escrito, tendo-lhe uma dama estrangeira, em conversa com ela, que «não há mulheres no mundo como as Lacedemônias, que mandam nos seus homens», replicou incontinente: «Também não há outras como nós, que temos homens. » Ademais, era isso um estímulo que atraía os rapazes ao casamento: eu entendo esses jogos, danças e divertimentos, a que se entregavam as moças inteiramente nuas na presença dos homens jovens, não como constrangimento de razões geométricas, como diz Platão, mas como atrativos para o amor.

XXVII. E, todavia, além desses atrativos, ainda estabeleceu ele a nota de infâmia contra os que não quisessem casar-se; pois não lhes era permitido frequentar os lugares onde se realizavam a nu esses jogos e passatempos públicos; e mais, os oficiais da cidade os constrangiam, em pleno inverno, a circundarem a praça inteiramente nus; e, caminhando, de viam cantar certa canção feita contra eles, a qual dizia, em suma, que estavam sendo justamente castigados por não terem obedecido às leis; de modo que, quando ficavam velhos, não lhes prestavam a honra nem a reverência de que eram alvo os outros anciãos. Portanto, não houve ninguém que repreendesse ou achasse mal o que disse a Dercílídas, conquanto fosse ele bom e valente capitão, um jovem que, ao entrar numa companhia, não se dignara de levantar-se para saudá-lo e dar-lhe o lugar para sentar-se: «Não geraste um filho para comigo proceder da mesma forma no futuro. »

XXVIII. Mas os que desejavam casar-se precisavam raptar aquelas que pretendiam como esposas, não moçoilas ainda não casadouras, mas mulheres vigorosas e já maduras para terem filhos; e, quando havia uma raptada em tais condições, vinha a intermediária do casamento e lhe raspava inteiramente os cabelos até ao couro, depois a vestia com um traje de homem e do mesmo modo o calçado, e deitava-a sobre um colchão, inteiramente só e sem candeia. Feito isso, o recém-casado, não estando ébrio nem mais delicadamente vestido do que de costume, mas tendo jantado119 sobriamente como de ordinário, voltava secretamente para casa, onde desatava a cintura da esposa e, tomando-a nos braços, deitava-a numa cama e ali ficava durante algum tempo com ela; mais tarde, voltava muito docemente para o lugar onde se acostumara a dormir com os outros rapazes; e daí por diante, continuava a fazer sempre o mesmo, ficando o dia inteiro e dormindo à noite com os companheiros, exceto quando às vezes ia ver a mulher raptada, com medo e vergonha de ser percebido por alguém da casa; então, a recém-casada o ajudava também de seu lado, espiando as ocasiões e meios de se encontrarem sem que fossem notados. Essa maneira de agir durava muito tempo, até que alguns deles tinham filhos antes de coabitarem livremente e de verem suas mulheres em pleno dia. Serve-lhes essa entrevista assim às ocultas, não só porque era um exercício de continência e pudicícia, mas também porque ficavam mais vigorosas para gerar; e, além disso, as duas partes se mantinham Com ardor e apetite para novos amores, não tépidas, nem languescentes, como ordinariamente são os que gozam de coração saturado os seus amores, tanto quanto queiram, mas se entrelaçavam sempre repartindo entre si o aguilhão do desejo e as reservas de calor amoroso.

XXIX. Mas, tendo estabelecido tão grande honestidade e tão reservada temperança nos casamentos, não pôs ele menos cuidado em eliminar toda vã e feminina gelosia, estimando ser bem razoável impedir que houvesse violência ou confusão, ao mesmo tempo que a razão também exigia que aos mais dignos se permitisse gerar filhos em comum, ridicularizando a tolice dos que se vingam de tais coisas com guerras e efusão de sangue humano, como se os homens não devessem ter nisso participação nem comunicação alguma uns com os outros. Portanto, não era merecedor de censura o homem muito idoso que, tendo mulher jovem e vendo algum belo rapaz que lhe agradasse e lhe parecesse de gentil natureza, o levasse para deitar com a própria mulher e enchê-la da boa semente, para depois reconhecer o fruto daí nascido como tendo sido gerado por ele próprio. Também era permitido a um homem honesto amar a mulher de outro, por vê-la prudente, pudica e capaz de ter belos filhos, e pedir ao marido que o deixasse deitar-se com ela, para então semear, como em terra gorda e fértil, belas e boas crianças, que dessa forma vinham a ter comunicação de sangue e parentesco com gente de bem e honrada.

XXX. Pois em primeiro lugar Licurgo não queria que as crianças pertencessem a particulares, mas fossem comuns à coisa pública, desejando assim, também, que aqueles que tivessem de ser cidadãos fossem gerados não por todos os homens, mas somente por gente de bem. Parecia-lhe, pois, que nas leis e ordenanças das outras nações, no tocante aos casamento, havia muitas tolices e vaidades, visto como faziam suas cadelas e éguas serem cobertas pelos mais belos cães e melhores garanhões que podiam obter, pedindo-os ou pagando-os aos respectivos senhores, e, não obstante, guardavam as mulheres encerradas debaixo de chave, com medo de que elas concebessem de outros que não eles, mesmo quando desmiolados, doentios ou velhuscos, como se não fosse primeira e principalmente por culpa dos pais e mães, e dos que os educam, que as crianças nascem viciosas e defeituosas, quando filhas de pessoas taradas; e, ao contrário, para proveito e contentamento daqueles, quando nascem bonitas e boas, por terem sido geradas de semelhante semente.

XXXI. Essas coisas assim se faziam então em virtude de razão natural e civil, mas eram tão necessárias que, embora as mulheres fossem tão fáceis, como se diz que depois o foram, não se sabia antigamente, na cidade de Esparta, o que era adultério; e em testemunho disso se pode alegar a resposta de um desses antigos Espartanos, chamado Geradas, a um estrangeiro que lhe perguntara que pena sofriam os que eram surpreendidos em adultério: «Meu amigo, disse ele, tal pena não existe.» «E se existisse?» replicou-lhe o estrangeiro. «Seria preciso, respondeu, pagar um touro tão grande que poderia beber a água do rio Eurotas de cima da montanha de Taígeto120. «Mas como seria possível encontrar touro tão grande?» perguntou o estrangeiro. E Geradas, rindo, lhe respondeu: «E como seria possível encontrar em Esparta um adultério?» É o que se acha escrito a respeito das ordenanças de Licurgo, no tocante aos casamentos.

XXXII. Educação dos moços

XXXII. Entrementes, depois que a criança nascia, o pai não mais era dono dela para educá-la à vontade, mas a levava para certo lugar a ele deputado que se chamava Lesche, onde os mais antigos de sua linhagem residiam: visitavam eles a criança e, se a achavam bela, bem formada de membros e robusta, ordenavam fosse educada, destinando-lhe nove mil partes das heranças para sua educação; mas, se lhes parecia feia, disforme ou franzina, mandavam atirá-la num precipício a que vulgarmente se dava o nome de Apothetes, isto é, depositórios, pois tinham a opinião de que não era expediente, nem para a criança, nem para a coisa pública, que ela vivesse, visto como desde o nascimento não se mostrava bem constituída para ser forte, sã e rija durante toda a vida. E, por esse motivo, as próprias mulheres que as governavam não as levavam com água simples, como se faz por toda parte, mas121 com uma mistura de água e vinho, e por esse meio experimentavam se a compleição e a têmpera de seus corpos era boa ou má; porque dizem eles que as crianças sujeitas à epilepsia, ou então catarrosas e doentias, não podem resistir nem tolerar esse banho de vinho, mas definham e caem em langor; e, ao contrário, as que têm saúde se tornam…

XXXIII. As governantes também usavam de certa diligência artificiosa para cuidarem de seus meninos sem enfraldá-los ou embrulhá-los com faixas e flanelas, de sorte que os tornavam mais desembaraçados122 de membros, melhor formados e de mais bela e gentil corpulência; e assim se tornavam indiferentes no seu viver, sem serem difíceis de criar, nem gulosos ou enjoados, nem assustadiços e receosos de ficarem sós no escuro, nem gritalhões ou de algum modo perversos, que são todos sinais cie natureza frouxa e vil. De tal maneira que havia estrangeiros que compravam amas no país da Lacônia, expressamente para criarem os filhos: assim, dizem que Amilca, que criou Alcibíades, era uma delas; mas Péricles, seu tutor, deu-lhe depois123 por mestre e governador um servo chamado Zópiro, o qual não tinha nenhum quinhão melhor do que os outros escravos comuns. O que não fez Licurgo, pois não pôs a educação e o governo dos meninos de Esparta entre as mãos de mestres mercenários ou de servos comprados a preço de dinheiro; e, assim, não era permitido aos pais educar os filhos à sua moda, como bem lhes parecesse. Pois logo que estes chegavam à idade de sete anos, ele os tomava e os distribuía por grupos, para serem educados juntos e se habituarem a brincar, aprender e estudar uns com os outros; depois, escolhia em cada grupo aquele com aparência de ser o mais avisado e o mais corajoso no combate, ao qual dava a superintendência de todo o grupo. Os outros tinham sempre a vista voltada para ele e obedeciam às suas ordens, suportando pacientemente as punições que ele lhes ordenava e as corveias que lhes determinava; de maneira que quase todo o estudo era aprender a obedecer; mas, além disso, os velhos assistiam frequentemente aos seus brinquedos coletivos e a maior parte do tempo lhes proporcionavam ocasiões para debates e querelas uns com os outros, para melhor conhecerem e descobrirem qual era o natural de cada um e se mostravam sinais de um dia deverem ser ou covardes ou audazes.

XXXIV. Quanto às letras, aprendiam somente o necessário e, em suma, todo o aprendizado consistia em bem obedecer, suportar o trabalho e obter a vitória em combate. Por essa razão, à medida que avançavam em idade, aumentavam-lhes também os exercícios corporais; raspavam-lhes os cabelos, faziam-nos andar descalços e os constrangiam a brincar juntos a maior parte do tempo, inteiramente nus; depois, quando chegavam à idade de doze anos, não mais usavam sais daí por diante, pois todos os anos lhes davam somente uma túnica simples, o que era causa de andarem sempre sujos e ensebados, como aqueles que não se lavavam nem se untavam senão em certos dias do ano, quando os faziam gozar um pouco, dessa doçura. Deitavam e dormiam juntos sobre enxergas, que eles próprios fabricavam com pontas dos juncos e caniços que cresciam no rio Eurotas, os quais eles próprios deviam ir colher e quebrar, somente com as mãos, sem nenhuma ferramenta; mas, no inverno, ajuntavam a isso e misturavam no meio o que se chama124 Lycophanos, porque parece que essa matéria tem em si um pouco de calor.

XXXV. Mais ou menos nessa idade, seus amantes, que eram os rapazes mais galhardos e mais gentis, começavam a frequentá-los mais assiduamente, e também os velhos tinham as vistas semelhantemente voltadas para eles, aparecendo mais ordinariamente nos lugares onde faziam os exercícios e onde combatiam, e assistindo-os quando se divertiam em pilheriar uns com os outros: o que os velhos faziam não só por passatempo, mas com tal diligência e tal afeição como se fossem seus pais, mestres e preceptores desde que eles eram crianças; de maneira que nunca havia tempo nem lugar onde não tivessem sempre alguém para os admoestar, repreender e castigar, se cometessem alguma falta.

XXXVI. E, contudo além de tudo isso, ainda havia sempre um dos homens de bem da cidade que tinha expressamente o título e o encargo de governador das crianças, o qual as repartia por bandos e depois dava a superintendência àquele dentre os meninos que lhe parecesse mais prudente, ousado e corajoso: Chamavam aos rapazes írenes , dois anos após haverem saído da infância, e aos meninos maiores chamavam Melírenes, como se dissessem prestes a sair da infância. O moço a quem se dava esse cargo tinha já vinte anos e era seu capitão quando combatiam, e comandava-os quando estavam em casa, como a seus criados, injungindo aos que eram mais corpulentos e mais fortes que carregassem lenha para o jantar, e aos que eram menores e mais fracos, ervas. Precisavam furtá-las, para consegui-las. Uns iam furtar nos jardins, outros nas salas dos convívios, onde os homens comiam juntos, dentro das quais se esgueiravam o mais fina e cautamente que podiam, porque, se acaso fossem surpreendidos, seriam conscientemente chicoteados, por te rem sido preguiçosos demais e não bastante finos e astutos no furto. Também furtavam quaisquer outras viandas sobre as quais pudessem pôr a mão, espiando as ocasiões de poderem tomá-las habilmente, quando os homens dormiam ou não faziam boa guarda; mas aquele que fosse surpreendido era chicoteado e125 tinha ainda de jejuar, pois muito pouco lhes davam de comer, a fim de que a necessidade os constrangesse a arriscar-se ousadamente e a inventar alguma habilidade para escaparem sutilmente. Era a causa primeira e principal por que lhes davam tão pouco alimento, mas o acessório era enfim que seus corpos crescessem mais em altura, porque os espíritos de vida, não estando muito ocupados em cozer e digerir muita vianda, nem rebatidos para baixo ou estendidos em largura pelo peso demasiado grande dela, se estendiam em comprimento e se rebatiam para cima, por causa de sua ligeireza e, por essa forma, o corpo crescia em altura, nada havendo que o impedisse de subir. E parece que a mesma causa os tornava também mais belos, porque os corpos miúdos e delgados obedecem melhor e mais facilmente à virtude da natureza, que dá o molde e a forma a cada; um dos membros; e, ao contrário, parece que os corpos grandes, gordos e demasiado nutridos lhe resistem, não sendo tão maleáveis quanto os outros, por causa de seu peso: nem mais nem menos do que se vê, por experiência, que as crianças nascidas de mulheres formosas, que purgaram durante a gravidez, são também mais delgadas e mais belas, porque a matéria que lhes forma o corpo, sendo mais flexível, é também mais facilmente regida pela força da natureza, que lhe dá a forma: todavia, quanto à causa natural desse efeito, deixemos disputá-la quem o queira, sem nada decidir.

XXXVII. Mas, para voltar ao assunto dos meninos Lacedemônios: furtavam com tanto cuidado e tanto medo de serem descobertos que se conta de um que, tendo furtado um raposinho, o escondeu debaixo da túnica, deixando-se dilacerar todo o ventre com as unhas do animal, sem jamais gritar, por medo de ser descoberto, até que morreu onde se achava. O que não é incrível, pois se vê o que os menores sofrem ainda hoje: vimos vários deles serem chicoteados até à morte, em cima do altar de Diana sobrenomeada Órtia. Ora, aquele submestre que tinha a superintendência de cada grupo de crianças, após o jantar, sentado ainda à mesa, mandava que um dos meninos cantasse uma canção e fazia uma pergunta depois da outra, as quais exigiam bastante reflexão para que as respostas fossem adequadas, com por exemplo: «Quem é o melhor homem da cidade?» Ou: «Que te parece o que fez fulano?» Com esse exercício, acostumavam-se desde tenra idade, a julgar as coisas bem ou malfeitas e a indagar da vida e do governo dos cidadãos. Pois, se algum não respondia pronta e pertinentemente a tais perguntas — quem é homem de bem, quem é bom cidadão e quem não o é — estimavam eles que isso era sinal de natureza frouxa, indolente, não incitada à virtude pelo desejo de honra; e, assim, era preciso que a resposta fosse sempre acompanhada de sua razão e prova, curta e estrita, em poucas palavras: do contrário, a punição daquele que respondesse mal consistia em que o mestre lhe mordia o polegar, fazendo-o mais frequentemente em presença dos velhos e magistrados da cidade, para verificar se o castigava com razão e como convinha. E, ainda que o fizesse mal, não o repreendiam em seguida, mas quando os meninos já se haviam retirado; e então era ele próprio repreendido e punido, conforme a punição tivesse sido dura demais ou, ao contrário, demasiado branda.

XXXVIII. Além disso, imputava-se aos amantes a boa ou má opinião que se concebia dos meninos que haviam tomado para amar, de sorte que se diz que, tendo certa vez um menino, combatendo contra outro, deixado escapar da boca um grito que lhe revelou a coragem frouxa e falida, seu amante: foi por isso condenado à multa pelos oficiais da cidade. Mas, conquanto o amor fosse, coisa tão incorporada entre eles que até as mulheres honestas e virtuosas amavam as meninas, não havia contudo ciúmes, mas, ao contrário, era isso um começo de mútua amizade entre os que amavam no mesmo lugar; e procuravam juntos por todos os meios de que podiam dispor, fazer que o menino que amavam em comum fosse o mais gentil e o melhor condicionado de todos os outros. Ensinavam os meninos a falar de sorte que sua linguagem tivesse malícia misturada de graça e prazer, e que em poucas palavras compreendesse muita substância.

XXXIX. Réplicas prontas e vivas dos Lacedemônios e de Licurgo

XXXIX. Pois Licurgo queria que a moeda de ferro, de grande peso e grosseira massa, tivesse muito pouco valor, como dissemos alhures; e, ao contrário que a fala, em poucas palavras, nem pesadas nem afetadas, compreendesse muito grave e boa sentença, acostumando as crianças, por longo silêncio, a serem breves e agudas nas respostas. Porque exatamente assim como a semente dos homens luxuriosos, que se misturam frequente e dissolutamente demais com as mulheres, não pode germinar nem frutificar, também a intemperança de falar demais torna a palavra vã, tola e vazia de sentido. Daí vem que as respostas Lacónicas eram tão agudas e tão sutis; conta-se 126 que o rei Agis respondeu um dia a um Ateniense que zombava das espadas usadas pelos Lacedemônios, dizendo que eram tão curtas que os saltimbancos e ilusionistas as engoliam facilmente na praça, diante de toda a gente: «E todavia, disse Agis, com elas atingimos bem os nossos inimigos.»

XL. Quanto a mim, sou de opinião que os Lacônios, em sua maneira de falar, não usam de muita linguagem, mas tocam muito bem no ponto e se fazem entender muito bem pelos ouvintes; e, assim, parece-me que o próprio Licurgo era igualmente breve e agudo no falar, o que se pode conjecturar por algumas de suas respostas que se encontram por escrito, como foi a que deu a alguém que o aconselhava a estabelecer na Lacedemônia um governo popular, onde o pequeno tivesse tanta autoridade quanto o grande: «Começa, disse-lhe ele, a fazê-lo tu mesmo em tua casa.» Semelhantemente, também, o que respondeu a outro que lhe perguntara porque havia ordenado se oferecessem aos deuses coisas tão pequenas e de tão pouco valor: «A fim, disse ele127, de jamais cessarmos de honrá-los.» E o que de outra feita disse no tocante aos combates128: proibia aos cidadão somente aqueles nos quais a mão é estendida, isto é, onde há rendição.

XLI. Encontram-se também algumas belas respostas em certas cartas missivas que escrevia aos seus concidadãos, como quando lhe perguntaram: «Como poderemos defender-nos contra os nossos inimigos?» Respondeu-lhes: «Continuando pobres e sem nenhum cobiçar possuir mais do que’ o outro.» E em outra missiva, na qual discute se era expediente fechar a cidade com muralhas: «Como se poderia dizer que a cidade está sem muralhas, quando está cingida e cercada de homens em toda a volta, e não de tijolos?» Todavia, quanto a essas cartas e outras semelhantes que se mostram dele, é difícil decidir se devemos crer ou descrever sejam de sua autoria.

XLII. Mas, quanto a que o muito falar fosse repreendido e censurado entre os Lacedemônios, pode-se evidentemente mostrar pelas agudas palavras que alguns deles responderam outrora. O rei Leônidas disse um dia a alguém com quem conversava e que alegava muitas coisas boas, mas fora de tempo e de estação: «Amigo, tratas sem propósito de muitos «bons propósitos». E Carilau, o sobrinho de Licurgo, interrogado porque seu tio fizera tão poucas leis: «Porque, disse ele, não há necessidade de muitas leis para os que não falam muito.» E Arquidâmidas disse a alguns que repreendiam o orador Hecateu129 porque, tendo sido convidado para jantar em um dos convívios, não falou durante todo o tempo da refeição: «Aquele que sabe falar bem sabe igualmente quando é preciso falar.» E, quanto ao que eu disse antes, que em suas agudas e sutis respostas havia ordinariamente um pouco de malícia misturada com graça, pode-se ver e conhecer por estas outras palavras: Demarato respondeu a um cacete que lhe quebrava a cabeça com perguntas impertinentes e importunas, perguntando-lhe quem era o melhor homem da Lacedemônia: «Aquele que «menos» se parece contigo.» E Agis disse a alguns que em altas vozes louvavam os Elianos porque julgavam segundo o direito e a justiça nos jogos Olímpicos: «Que grande maravilha existe em que, no espaço de cinco anos, os Elianos façam ao menos um dia boa justiça?»  E Teopompo a um estrangeiro que, desejando mostrar sua afeição pelos Lacedemônios, dissera: «Em nossa cidade todos me chamam Philolacon», isto é, amador dos Lacedemônios; «Seria mais honesto, respondeu, que te sobrenomeassem Philopolites», isto é, amante dos seus concidadãos. E Plistônax, filho de Pausânias, como um orador Ateniense chamasse aos Lacedemônios grosseiros e ignorantes: «Dizes a verdade, respondeu, pois somos os únicos entre os Gregos que não soubemos nada de mal a respeito de vós outros.» E Arquidâmidas a um que lhe perguntara quantos eram os Espartanos: «Bastantes, respondeu-lhe, para expulsar os maus.»

XLIII. Divertimentos, canções

XLIII. Pode-se também fazer conjectura de sua maneira de falar pelas palavras jocosas que às vezes diziam brincando, porque estavam acostumados a jamais dizer nada no ar e em vão, tendo sempre cada palavra alguma inteligência secreta que a tornava merecedora de ser considerada de perto. Como aquele que disse, ao ser convidado para ir ouvir alguém que ingenuamente imitava o rouxinol: «Eu já ouvi o próprio rouxinol.» E outro que, tendo lido esta inscrição de sepultura:

Após em seu país a tirania
Extinguiram com bélica energia,
Diante das altas torres combateram
Outrora e em Selinunte pereceram,

disse: «Eles bem mereciam a morte, por terem extinguido uma tirania, quando deveriam deixar que se queimasse toda.» E um rapazinho a outro que prometia dar-lhe galos tão corajosos que morriam rio terreiro combatendo: «Não me dês daqueles que morrem mas dos que fazem morrer os outros combatendo.» Outro, vendo homens que passavam sentados dentro de coches e liteiras, disse: «Não queria Deus que eu jamais esteja em cadeira de onde não possa levantar-me suas respostas e recontros; de maneira que não é sem razão que outrora disseram alguns que laconizar era antes filosofar, isto é, exercitar antes a alma que o corpo.

XLIV. Mas, além disso, não se empenhavam menos em contar bem e compor belos cânticos do que em falar com rapidez e propriedade; e, assim, em suas canções, havia sempre não sei que espécie de aguilhão a excitar a coragem dos ouvintes e a inspirar-lhes o ardente desejo de fazer alguma bela coisa. A linguagem era simples, sem nenhuma afetação, e o assunto grav e e moral, contendo mais frequentemente o elogio dos que tinham morrido na guerra, pela defesa de Esparta, como sendo muito felizes; e censura aos que, por frouxidão de caráter, tinham evitado morrer, passando a viver uma vida miserável e infeliz: ou era ainda a promessa de serem homens virtuosos no futuro, ou a gabolice de o serem presentemente, segundo as diversas idades dos que cantavam. Assim, não será fora de propósito, para melhor entendimento, apresentar aqui alguns exemplos. Nas festas públicas, havia sempre três danças, segundo a diferença das três idades. A dos velhos era a primeira que começava a cantar, dizendo:

Nós fomos, em tempos idos,
Jovens, bravos e atrevidos.
Vinha depois a dos homens, que dizia:
Nós o somos no presente,
À prova de toda a gente.
A terceira, das crianças, vinha depois e dizia:
E nós um dia o seremos,
Pois vos ultrapassaremos.

XLV. Música

XLV. Em suma, quem observar de perto as obras e composições dos poetas Lacónicos, das quais Se encontram ainda algumas, até ao tempo presente, C considerar a nota que faziam soar com flautas, ao Som e à cadência da qual marchavam em batalha, quando iam enfrentar o inimigo, achará que não é sem razão que Terpandro e Píndaro conjugavam a ousadia com a música. Pois Terpandro, ao falar dos Lacedemônios, diz em certo trecho: Eis onde em guerra a música se alia

Aos atos de bravura e de ousadia,
Sob o fecundo reino da justiça,

E Píndaro, falando também deles, diz;

Os velhos são mais prudentes,
Os moços bravos, contentes,
Sabendo bailar, cantar
E o inimigo dominar.

Pelos quais testemunhos aparece que ambos os fizeram e descreveram como amantes da música e das armas ao mesmo tempo; pois, assim como diz outro poeta Lacônico, Saber130 à lira cantar

Formosos carmes fagueiros
Bem corresponde a lutar
Como valentes guerreiros.

XLVI. Ornamentação nos dias de batalha

XLVI. Por essa causa, em todas as guerras, quando iam dar batalha, o rei sacrificava primeiramente às Musas131, para recordar os combatentes, como me parece, a disciplina na qual tinham sido educados e os julgamentos, a fim de que, no mais forte e perigoso da refrega, eles se representassem diante dos olhos dos soldados e fossem causa de os incitar a praticar atos dignos de memória. Mas, então, relaxavam um pouco aos jovens a rígida austeridade e dureza de sua regra ordinária de viver, permitindo-lhes que enfeitassem os cabelos e embelezassem as armas e indumentos, e tomando prazer em vê-los assim regozijar-se, nem mais nem menos do que jovens cavalos relinchões e resfolegantes de ardor de combater. Portanto, ainda que desde o tempo da primeira juventude começassem a usar longos cabelos, não eram jamais tão cuidadosos em os pentear e compor como quando estavam prestes a dar batalha; pois então os untavam132 com óleos perfumados] e os repartiam, lembrando-se de uma observação de Licurgo, o qual costumava dizer que os cabelos tornam aqueles que são belos ainda mais belos e aqueles que são feios mais medonhos e hediondos. Os próprios exercícios individuais eram mais doces e menos penosos na guerra do que em outra época, e geralmente todo o seu viver menos estreitamente reformado e menos controlado, de maneira que no mundo só para eles a guerra era repouso de trabalhos que os homens em geral suportam a fim de se tornarem militarmente idóneos.

XLVII. Depois, quando todo o seu exército estava enfileirado em batalha, à vista do inimigo, o rei sacrificava aos deuses uma cabra e, de quando em quando, mandava que todos os combatentes colocassem à cabeça chapéus de flores e que os tocadores de flautas soassem a alvorada que eles chamam de canção de Castor, ao som e à cadência da qual ele próprio começava a marchar em primeiro lugar; de sorte que era aprazível, e não menos aterrador, vê-los assim marchar todos juntos em tão boa ordem ao som das flautas, sem jamais perturbar a ordem nem confundir as fileiras, e sem perder-se nem assustar de nenhum modo, mas antes indo pausada e alegremente, ao som dos instrumentos, arrostar o perigo da morte. Pois é verossímil que tais coragens não são apaixonadas nem pelo pânico nem pela fúria além da medida; e, ao contrário, têm eles constância e ousadia segura, com boa esperança, como se fossem acompanhados pelo favor dos deuses.

XLVIII. O rei, marchando nessa formação, tinha sempre ao pé de si alguém que tivesse outrora conquistado o prêmio nos jogos e torneios públicos; e dizem que certa vez houvessem ao qual, na festa dos jogos Olímpicos, se ofereceu boa soma de dinheiro, a fim de que não se apresentasse para combater: o que ele não quis fazer, antes preferiu com grande dificuldade ganhar ali o prêmio da luta. E, então, disse-lhe alguém: «Afinal, Lacõnio, que te adiantou ter conquistado com tanto suor o prêmio da luta?» O Lacônio respondeu-lhe rindo: «Combaterei em batalha diante do rei.»

XLIX. Após desbaratarem os inimigos, eles os expulsaram e perseguiam até que, pela derrota e fuga completa, a vitória estivesse de todo assegurada; e, então, voltavam sem nada mais para o seu acampamento, estimando que não era ato de coroação gentil nem de nação nobre e generosa, como a Grega, matar e chacinar os que estavam tão debandados que não mais podiam reagrupar-se e abandonavam toda esperança de vitória. Isso lhes era não somente honroso, mas também grandemente aproveitável, porque os que os enfrentavam em batalha, sabendo que eles matavam os que se obstinassem em fazer-lhes face, achavam que fugir era mais útil do que esperar e ficar.

L. Diz o sofista Hípias que o próprio Licurgo foi bom capitão e grande homem de guerra, pois estivera em várias batalhas; e Filostéfano lhe atribui a separação dos homens a cavalo em companhias, chamadas Oulames, cada uma das quais era de cinquenta homens armados, que se enfileiravam em quadrado. Mas, ao contrário, Demétrio de Falero escreve que ele nunca esteve na guerra e que estabeleceu suas leis e seu governo em plena paz. Quanto a mim parece-me que a instituição da trégua de armas durante a festa dos jogos Olímpicos, a qual se diz ter sido inventada por ele, é bem sinal de uma natureza doce e que ama o repouso da paz; todavia, há alguns, entre os quais está Hermipo, que dizem que ele não esteve desde o começo com ífito a ordenar as cerimônias dos jogos Olímpicos, mas que ali se encontrou uma vez por acaso e de passagem somente, detendo-se para assistir à exibição; e então lhe aconteceu que ouviu atrás de si como a voz de um homem que o interpelara, dizendo estranhar que ele não persuadisse os cidadãos de participarem dessa bela assembleia; e, como se voltasse para ver quem lhe falava, não viu ninguém. Diante disso, estimou fosse uma admoestação vinda da parte dos deuses, de modo que foi incontinente procurar ífito, com o qual ordenou todos os estatutos e cerimônias daquela festa, a qual depois se tornou muito mais famosa, melhor estabelecida e mais assegurada do que antes.

LI. Vida militar

LI. Mas, para voltar aos Lacedemônios, sua disciplina e regra de viver durava ainda depois de haverem chegado à idade de homens, pois não havia ninguém a quem fosse tolerado nem permitido viver como entendesse, antes ficavam dentro da cidade nem mais nem menos do que dentro de um acampamento, onde cada qual sabe o que deve ter para viver e o que deve fazer para o público. Em suma, estimavam todos que não tinham nascido para servirem a si mesmos, antes para servir o país; e, portanto, se outra coisa não lhes era recomendada, continuavam sempre a ir ver o que faziam os meninos e a ensinar-lhes alguma coisa que resultasse em utilidade pública, ou ainda a aprender eles próprios com os que eram mais idosos do que eles.

LII. Exclusão das artes mecânicas, que são abandonadas aos Hilotas

LII. Pois uma das mais belas e mais felizes coisas que Licurgo introduziu jamais em sua cidade foi o grande lazer proporcionado ao s cidadãos, não permitindo se empregassem em nenhum mister vil ou mecânico; e, assim, não havia necessidade de trabalhar para acumular grandes riquezas em lugar onde a opulência não era de modo algum útil nem apreciada; pois os Hilotas, que eram homens servilizados por direito de guerra, lavravam-lhes as terras, proporcionando-lhes assim certa renda todos os anos. A esse propósito, conta-se de um Lacedemônio que, achando-se em Atenas, num dia em que ali se realizavam julgamentos, ouviu dizer como um burguês da cidade acabava de ser convencido e condenado por ociosidade, tendo voltado para casa todo desconfortado, acompanhado pelos amigos, que o deploravam grandemente e estavam muito desgostosos com seu infortúnio; e o Lacedemônio, então, pediu aos que estavam perto dele que lhe mostrassem aquele que fora condenado por viver nobremente e como gentil-homem. O que eu aleguei para mostrar quanto ele estimava ser coisa plebeia e servil exercer algum mister mecânico ou fazer alguma obra manual para ganhar dinheiro.

LIII. Nenhum processo. Regozijos contínuos.

LIII. Quanto aos processos, pode-se bem imaginar que foram banidos da Lacedemônia com o dinheiro, mesmo porque não havia avareza, cobiça, pobreza, nem indigência, antes igualdade com abundância e grande comodidade no viver, por causa da sobriedade, sem nenhuma superfluidade. Eram só danças, festas, jogos, banquetes, caçadas, exercícios físicos e assembleias para se entreterem durante todo o tempo em que não estavam ocupados na guerra; pois os moços, até à idade de trinta anos, jamais se encontravam no mercado para comprarem ou fazerem alguma provisão doméstica, mas faziam seus negócios e provisões necessárias por intermédio dos parentes e amigos, sendo também coisa vergonhosa que mesmo os mais velhos ali se encontrassem frequentemente; e, ao contrário, era-lhes honroso frequentar, durante a maior parte do dia, as liças onde se faziam exercícios corporais, ou os redutos e reuniões recreativas, onde passavam o tempo a discorrer honestamente uns com os outros, sem jamais terem o propósito de ganhar, traficar ou acumular dinheiro: porque todas as suas conversas, ou a maior parte, eram para louvar alguma coisa honesta ou censurar as desonestas com pilhérias e risadas, que entretanto sempre continham, de passagem, uma doce advertência e uma correção.

LIV. O deus Riso reverenciado por Licurgo

LIV. Pois o próprio Licurgo não era tão austero que nunca o vissem rir, antes escreve Sosíbio haver ele quem doou a pequena imagem do Riso existente na Lacedemônia, tendo querido introduzir o riso nos convívios e outras assembleias, como agradável molho para adocicar o trabalho e a dureza de sua regra de viver. Em suma, acostumou os cidadãos a não quererem e não poderem jamais viver sós, antes serem por assim dizer colados e incorporados uns com os outros, e a se acharem sempre juntos, como as abelhas, em torno dos superiores, saindo de si mesmos quase por um arrebatamento de amor para com o país e de desejo de honra para servir inteiramente ao bem da coisa pública; a qual afeição se pode fácil e claramente ver impressa em algumas de suas respostas, como a que deu um dia Pedareto, por ter deixado de ser eleito para o número dos trezentos: pois voltou alegre e satisfeito para casa, dizendo que se regozijava de haver encontrado na cidade trezentos homens melhores do que ele. E Polistrátidas, tendo sido enviado embaixador com alguns outros junto aos capitães e lugares-tenentes do rei da Pérsia, os senhores Persas lhe perguntaram se eles iam por motivo privado ou se haviam sido enviados pelo público: «Se nós obtemos, disse ele, é pelo público; se não obtemos, é por iniciativa privada que viemos.» E Argileônida, mãe de Brásidas, perguntou a alguns, que na volta da viagem de Anfípolis à Lacedemônia a tinham ido visitar, se seu filho morrera como homem de bem e digno de ter nascido em Esparta; e, como o louvassem em altas vozes, dizendo que não havia ainda homem tão valente em todo o país da Lacedemônia, replicou-lhes: «Não digais isso, meus amigos, pois Brásidas era por certo muito valente, mas o país da Lacedemônia tem muitos outros que o são ainda mais do que ele.»

LV. Leis para a eleição dos senadores

LV. Ora, quanto ao Senato, Licurgo o estabeleceu primeiramente com aderentes de sua empresa, como dissemos antes; mas ordenou que, quando viesse mais tarde a morrer algum deles, o substituísse aquele que fosse considerado o melhor homem da cidade, desde que passasse dos sessenta anos. Era bem o mais honroso combate que poderia existir entre os homens, no qual conquistava ele o prêmio, não que fosse o mais ágil entre os ágeis, nem o mais forte entre os fortes, mas sim o mais virtuoso entre os virtuosos, tendo por preço de sua virtude pleno poder, por assim dizer, e autoridade soberana no governo da coisa pública, e detendo em seu poder a honra, a vida e os bens de todos os cidadãos. Mas a eleição se fazia desta maneira: o povo primeiramente se reunia acima da praça, onde havia alguns deputados encerrados dentro de uma casa, de maneira que não podiam ver nem ser vistos pelos que estavam reunidos na praça, antes ouvindo-lhe somente o rumor; então o povo declarava por aclamação aquele que aceitava ou que recusava, entre os pretendentes, como também declarava sua vontade por esse mesmo meio em qualquer outra coisa. Os pretendentes não eram introduzidos nem apresentados todos juntos, mas uns depois dos outros, pela ordem, para se tirar a sorte. Aquele em quem a sorte recaísse passava através da assembleia do povo sem dizer palavra, e os deputados encerrados tinham tabuletas nas quais anotavam a grandeza do rumor e do clamor do povo, de modo que cada um dos candidatos passava sem que eles soubessem quem era; e contavam somente o primeiro, o segundo, o terceiro ou o tantésimo, pela ordem de apresentação; e aquele a cuja passagem o clamor do povo fosse maior, era por eles declarado eleito senador. E ele, então, trazendo um chapéu de flores sobre a cabeça, ia por todos os templos dos deuses para render-lhes graças, seguindo de grande número de jovens que em altas vozes louvavam e magnificavam sua virtude; e também de um grande grupo de mulheres que iam entoando cânticos em seu louvor e abençoando-o por haver tão virtuosamente vencido; depois, cada um de seus parentes lhe preparava em casa uma colação e, assim que ele entrava, dizia-lhe: «A cidade te honra com este banquete.» Isso feito, ele voltava para o lugar ordinário do seu convívio, onde fazia em tudo o mesmo que de costume, salvo quando lhe serviam à mesa diante dele dupla porção, da qual conservava apenas uma; e, depois do jantar, todas as suas parentes ficavam à entrada da sala do convívio onde ele tinha jantado; e ele chamava aquela que mais estimava, dava-lhe a segunda porção e dizia-lhe: «Isto me foi dado em testemunho de que eu hoje conquistei o prêmio da virtude; e eu te dou da mesma forma.» Então, ela era reconduzida para casa por todas as outras damas, nem mais nem menos do que ele pelos homens.

LVI. Regulamentos para os funerais, para o luto

LVI. Ademais, quanto às sepulturas, Licurgo também as ordenou com muita sabedoria, pois em primeiro lugar, para evitar toda superstição133, quis que o mortos se enterrassem dentro da cidade e que as sepulturas fossem ao redor das igrejas, para acostumar os jovens a tê-los sempre diante dos olhos, sem medo de ver um defunto, como se fosse coisa que só de tocar-se, ou passar através das sepulturas, tornasse o homem poluído; depois, proibiu que logo pudesse ser enterrado com eles, e quis somente que se envolvesse o corpo com um pano vermelho, com folhas de oliveira. Não era permitido escrever sobre a sepultura o nome do defunto, salvo de homem morto na guerra ou de mulher religiosa e sagrada. Ademais, o tempo prefixado para usar o luto era muito curto, pois não durava mais de onze dias, e era preciso que no duodécimo sacrificassem a Prosérpina e abandonassem o luto.

LVII. Para as viagens a países estrangeiros e para os estrangeiros

LVII. Em suma, nada deixou ocioso, pois entre todas as coisas que os homens não podem dispensar introduziu sempre algum aguilhão incitando os homens à virtude e fazendo-os odiar o vício; e encheu a cidade de belos e bons ensinamentos e exemplos, de forma que o homem assim educado, encontrando-os sempre diante dos olhos em qualquer parte onde se achasse, vinha por força moldar-se e formar no padrão da virtude. E por essa causa não permitiu a quem quisesse, sem licença, sair fora do país e ir aqui e acolá, pelo mundo, de medo que aqueles que assim saíssem a seu bel-prazer trouxessem então consigo costumes estrangeiros e exemplos de vida corrompida e desordenada: o que pouco a pouco teria podido acarretar alteração e mudança da polícia. Além disso, expulsou de Esparta os estrangeiros, salvo os que ali tinham necessariamente o que fazer e que ali haviam chegado para alguma coisa boa e aproveitável: não que tivesse receio de que ali aprendessem algo que lhes servisse para fazêlos amar a virtude, como o disse Tucídides, e que eles ficassem com vontade de seguir a forma de sua polícia, mas sim por temer que eles ensinassem aos seus cidadãos alguma coisa má e viciosa, pois é forçoso que com pessoas estrangeiras entrem numa cidade propósitos e desígnios novos: os novos avisos engendram novas afeições e vontades discordantes e muito frequentemente repugnantes às leis e à forma de governo já estabelecida, nem mais nem menos do que a uma harmonia de música bem acordada; portanto, estimou ser coisa necessária manter a cidade pura e nítida de costumes e modos de agir estrangeiros, nem mais nem menos que de pessoas infectas de moléstia contagiosa.

LVIII. Observação sobre as leis de Licurgo

LVIII. Ora, em tudo o que dissemos inteiramente até aqui, não há marca nem aparência alguma de iniquidade nem de injustiça, de que censuram alguns as ordenanças de Licurgo, dizendo que são bem ordenadas para tornar os homens belicosos e valentes, não justos e direitos; mas, quanto àquela a que chamavam Criptia, como quem dissesse secreta, se é ordenança de Licurgo, segundo admite. Aristóteles, ela poderia haver induzido Platão a formar sobre ele a mesma opinião que de sua coisa pública. Essa ordenança era tal: os governadores que tivessem a superintendência dos jovens, a certos intervalos de tempo escolhiam os que lhes parecessem mais avisados e os enviavam aos campos, um aqui, outro acolá, levando então consigo adagas e somente o necessário para viverem. Esses jovens, esparsos no meio dos campos, escondiam-se durante o dia em alguns lugares cobertos onde repousavam, depois à noite iam espiar os caminhos e aí matavam o primeiro Hilcta que encontrassem; e, às vezes, nos campos, em pleno dia, iam matar os mais fortes e mais robustos, como conta Tucídides em sua história da guerra Peloponésica, onde diz que alguns Hilotas, em bom número, foram por édito público dos Espartanos coroados como libertos e levados por todos os templos aos deuses, em virtude dos bons serviços que valorosamente haviam prestado à coisa pública; e em pouco tempo não se soube o que se tornaram, ainda que fossem mais de dois mil, de sorte que jamais ninguém ouviu dizer, nem então nem depois, como tinham morrido. E Aristóteles, além de todos os outros, diz que os Éforos, logo que se instalavam em seus ofícios, declaravam guerra aos Hilotas, a fim de que fossem permitido matá-los. Também é certo que, em outras coisas ainda, os tratavam muito duramente, pois às vezes os faziam beber à força vinho sem água, além da medida, até os embriagarem; depois os levavam inteiramente ébrios às salas dos convívios, para as crianças verem a vilania de uma pessoa embriagada; e os faziam cantar canções e praticar danças indignas de pessoas honestas, e cheias de derrisão e zombaria, proibindo-os expressamente de cantarem as que fossem honestas. De sorte que se diz134 que, na viagem que fizeram os Tebanos dentro da Lacônia, os Hilotas feitos prisioneiros, quando se lhes ordenava que cantassem versos de Terpandro, ou de Álcman, ou de Espèndon da Lacônia, não o faziam, dizendo que não ousariam cantar as canções de seus amos. De tal maneira, aquele que primeiro se lembrou de dizer que no país da Lacedemônia quem é livre é mais livre e quem é servo é mais servo do que em nenhuma outra parte do mundo, conheceu muito bem a diferença que há entre a liberdade e a servidão de lá e de alhures.

LIX. Mas, quanto a mim, penso que os Lacedemônios começaram a usar dessas grandes rudezas e crueldades muito tempo após a morte de Licurgo e mesmo depois do grande tremor de tetra que sobreveio em Esparta 135, época na qual os Hilotas se sublevaram contra eles com os Messenianos e causaram muitos males a todos o país, pondo a cidade no maior perigo que jamais tivera; pois eu não poderia pensar que Licurgo jamais inventasse nem instituísse coisa tão infeliz nem tão perversa como aquela ordenaça: conjecturando que sua natureza era doce e bonacheirona, pela clemência e equidade que se percebia em todos os outros atos seus, tendo sido mesmo testemunhada por expresso oráculo dos deuses.

LX. Faz os Lacedemônios jurarem a observação e parte para Delfos

LX. Entrementes, quando viu que, por uso, os principais pontos de seu governo já tinham tomado pé, e que sua forma de polícia era bastante forte para manter-se e conservar-se por si mesma, assim como diz Platão, que Deus se regozijou grandemente quando terminou o mundo, vendo-o girar e fazer o seu primeiro movimento: também ele, com singular prazer e contentamento de espírito, ao ver ordenanças tão belas e tão grandes postas em uso, e tão bem encaminhadas por experiência real, procurou ainda torná-las imortais, tanto quanto fosse possível por previdência humana, de sorte que no futuro jamais pudessem ser mudadas nem alteradas. Para consegui-lo, fez reunir o povo e, em plena assembleia, demonstrou-lhe que a polícia e o estado da coisa pública lhe pareciam muito bem estabelecidos para uma vida feliz e virtuosa, mas que havia, não obstante, um ponto de maior consequência que tudo o mais, o qual não lhes podia ainda declarar, até que o tivesse comunicado e sobre ele pedido conselho ao oráculo de Apolo; e, portanto, era preciso que observassem suas leis e ordenanças inviolavelmente, sem nada mudar, remover ou alterar, até que ele estivesse de volta da cidade de Delfos; e, quando regressasse, fariam então o que o deus lhe houvesse aconselhado. Eles prometeram todos fazê-lo assim e lhe pediram se apressasse em ir até lá; mas, antes de partir, fez primeiro os reis e senadores, depois consequentemente todo o povo, jurarem que respeitariam suas ordenanças e estatutos, sem nada mudarem nem removerem de nenhum modo, até que estivesse de volta; feito isso, seguiu para a cidade de Delfos, onde, logo que chegou, sacrificou ao templo de Apolo e perguntou se as leis que estabelecera eram boas para bem e felizmente viver: respondeu-lhe Apolo que suas leis eram verdadeiramente muito boas e que sua cidade, conservando a forma de governo que ele ordenara, se tornaria muito gloriosa e renomeada.

LXI. Suas leis estão em vigor durante cinco séculos

LXI. Licurgo mandou escrever esse oráculo, enviando-o a Esparta; e, depois de haver ainda de novo sacrificado a Apolo, despediu-se dos amigos e do filho e resolveu morrer, a fim de que seus concidadãos não pudessem jamais ser absolvidos do juramento feito. Quando tomou essa resolução, tinha ele chegado à idade em que o homem está ainda bastante vigoroso para viver e também maduro para morrer quando o queria; porque, sentindo-se feliz’ de ter chegado acima de sua empresa, deixou-se morrer por falta de alimento, abstendo-se voluntariamente de comer, porque estimava ser conveniente que a própria morte dos grandes personagens trouxesse algum fruto à coisa pública e que o fim de sua vida não fosse nem mais ocioso nem inútil do que tudo o mais, antes fosse um de seus atos mais meritórios e de suas mais virtuosas façanhas. Pensou, assim, que sua morte viria a ser o cúmulo e o coroamento de sua felicidade, após haver feito e ordenado tantas e tão belas, tão boas e tão grandes coisas para honra e bem do país, e seria como um selo de salvaguarda que conservasse em essência as boas ordenanças que encaminhara, visto como os cidadãos tinham todos jurado que as manteriam invioláveis até que ele estivesse de volta. Não se iludiu em tal esperança, pois sua cidade foi a primeira do mundo em glória e bondade de governo, durante o espaço de quinhentos anos, enquanto observou suas leis, sem que nenhum dos reis sucessores mudasse ou alterasse coisa nenhuma, até ao rei Agis, filho de Arquidamo; pois a criação dos éforos não afrouxou, mas enrijeceu, as leis de Licurgo, ainda que à primeira vista eles parecessem haver sido instituídos para manter e defender a liberdade do povo: pois136 fortificaram também a autoridade dos reis e do Senado.

LXII. Corrupção das leis, desde que o rei Agis introduziu o ouro e a prata

LXII. Mas, durante o reino de Agis, começaram primeiramente o ouro e a prata a correr dentro da cidade de Esparta, e com o dinheiro a avareza e a cobiça de possuir, por intermédio de Lisandro, o qual, embora inexpugnável e incorruptível por dinheiro, trouxe contudo ao país a riqueza e a avareza, enchendo-o de delícias, levando-lhe a guerra à força de curo e prata, e contravindo diretamente às l eis e ordenanças de Licurgo, durante cuja vigência e duração o governo de Esparta não parecia ser polícia de coisa pública, mas antes regras de alguma devota e santa religião. E, do mesmo modo que os poetas fingem que Hércules, com sua maça e pele de leão, ia por todo o mundo punindo os ladrões inumanos e cruéis tiranos, também a cidade de Esparta, com137 um pequeno bilhete de pergaminho e uma pobre capa, comandava e dava lei a todo o resto da Grécia, por grado, consentimento e vontade desta, afastando os tiranos que usurpavam dominação violenta sobre os cidadãos nas outras cidades, decidindo querelas e apaziguando sedições, muitas vezes sem fazer marchar um só homem de guerra, antes somente enviando um simples embaixador, a cujo comando os outros povos obedeciam incontinente, nem mais nem menos do q ue as abelhas que se enfileiram e reúnem em torno de seu rei, logo que o percebem: tão grande era a reverência que se prestava ao bom governo e à Justiça daquela cidade.

LXIII. Vantagens das leis lacedemônias

LXIII. Portanto, não me posso admirar daqueles que vão dizendo que a cidade de Lacedemônia Dabia obedecer, e não comandar; e louvam uma observação do rei Teopompo, o qual respondeu a ninguém que dizia que Esparta se mantinha porque ali os reis sabiam comandar: «Mas antes, disse ele, porque os habitantes sabem obedecer.» Pois os homens ordinariamente desdenham de obedecer aos que não sabem comandar: de maneira que a fiel obediência dos súditos depende da suficiência no bem comandar por parte do príncipe, pois quem bem conduz faz com que seja bem seguido. E, do mesmo modo que a perfeição da arte de um bom escudeiro é tornar o cavalo obediente e saber encaminhá-lo à razão, também o principal efeito da ciência de um rei é bem ensinar a obediência aos súditos.

LXIV. Mas os Lacedemônios não faziam somente que os outros povos lhes obedecessem de bom grado, antes desejavam ser governados, regidos e comandados por eles, a fim de que não lhes pedissem navios nem dinheiro, e, assim, não lhes enviavam muitos homens de guerra para os constranger, mas somente um cidadão de Esparta para governá-los, ao qual os outros povos se submetiam, servindo-se dele em caso de necessidade, temendo-o e reverenciando-o: como os Sicilianos serviram-se de Gilipo, os Calcidianos de Brásidas e todos os Gregos habitantes na Ásia de Lisandro, Calicrátidas e Agesilau, nomeando-os reformadores e corretores dos príncipes, povos e reis, aos quais eram enviados, e tendo sempre os olhos sobre toda a cidade de Esparta, como sobre um perfeito exemplo de vida inteiramente reformada e de polícia bem ordenada. Ao qual propósito se relaciona muito bem a palavra jocosa proferida um dia por Estratônico, ao dizer, por pilhéria, «que ele mandava os Atenienses fazerem mistérios, procissões e outras cerimónias referentes ao serviço dos deuses; que os Elianos fizessem jogos de prendas, como coisas que sabiam fazer; e138, se aí fizessem falta, fossem os Lacedemônios bem chicoteados». Isso foi dito por brincadeira, em tom jocoso; mas Antistenes, filósofo Socrático, vendo os Tebanos tornarem-se soberanos e gloriosos, após terem vencido uma vez os Lacedemônios na jornada de Luctras, disse: «Parece-me que esses Tebanos aqui não fazem nem mais nem menos do que as crianças de escola, que se glorificam quando às vezes corrigem o mestre».

LXV. Todavia, isso não era o fim nem o objetivo ao qual tendia Licurgo, deixar sua cidade comandando a várias; antes, estimando que a felicidade de toda uma cidade, como a de um homem particular, consiste principalmente no exercício da virtude e na união e concórdia dos habitantes, compôs e estabeleceu a forma de seu governo para que os cidadãos se tornassem francos de coração, contentes de si mesmos, temperados em todos os seus feitos para poderem manter-se e conservar-se no todo muito longamente. Essa mesma intenção tiveram também Platão, Diógenes e Zenão, ao escreverem os livros nos quais discorreram sobre o governo das coisas públicas, e semelhantemente todos os outros grandes e sábios personagens que se puseram a escrever acerca do mesmo assunto; mas após si não deixaram senão escritos e palavras somente; e, ao contrário Licurgo não deixou livros nem papéis, mas produziu e realizou de fato uma forma de governo que nenhum antes dele jamais inventara e que depois nenhum outro pôde imitar; e fez ver àqueles que cuidam que a definição do perfeitamente sábio seja coisa imaginada no ar somente, e que não possa realmente existir no mundo, toda uma cidade vivendo e se governando filosoficamente, isto é, segundo os preceitos e as regras de perfeita sapiência; dessa maneira, ele em bom direito superou a glória de todos os que em todos os tempos se entregaram à tarefa de descrever ou de estabelecer o governo de algum estado político.

LXVI. Honras divinas prestadas a Licurgo após sua morte

LXVI. E, por essa causa, diz Aristóteles que, depois de sua morte, fizeram-lhe na Lacedemônia menos honra do que ele merecera, ainda que lhe tenham feito tanto quanto possível, pois lhe edificaram um templo e lhe instituíram um sacrifício solene todos os anos, como a um deus. Além disso, diz-se que as cinzas de seu corpo, tendo sido transportadas para Esparta, um raio caiu sobre a sua sepultura: o que não se viu acontecer a outros personagens de nome, após o falecimento, senão ao poeta Eurípides, o qual, tendo morrido na Macedônia, foi enterrado depois na cidade de Aretusa, o que é um grande argumento para os amadores da memória desse poeta, para responderem àqueles que o caluniam que somente a ele aconteceu, depois da morte, o que antes sucedera somente com um homem tão santo e tão amado dos deuses.

LXVII. Querem alguns dizer que Licurgo morreu na cidade de Cirra, mas Apolótemis diz que foi em Élida, para onde foi levado; e Timeu e Aristóxeno escrevem que ele acabou seus dias em Cândia; e diz ainda mais Aristóxeno que os Candiotas mostraram sua sepultura na região que se chama Pérgamo, ao longo do grande caminho. Deixou ele um filho único chamado Antíoro, o qual morreu sem filhos, de sorte que sua raça terminou nele. Mas seus familiares, parentes e amigos fizeram uma sociedade e confraria em sua memória, a qual durou muito tempo, e aos dias em que se reuniam deram o nome de Lícúrgidas. Há outro, Aristócrates, filho de Hiparco, que diz ter ele morrido em Cândia, tendo-lhe os amigos queimado o corpo e depois espalhado as cinzas no mar, conforme ele lhes recomendara e pedira, porque temia que, se porventura as relíquias do seu corpo fossem um dia levadas para Esparta, os habitantes não quisessem dizer que ele voltara e, dessa forma, dizendo-se absolvidos do juramento que lhe tinham feito, empreendessem remover o governo por ele instituído. Eis o que há sobre a vida de Licurgo.

Ver notas

Mais fontes de Esparta

Comparação entre Lisandro e Sila, de Plutarco

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Vidas Paralelas: Cleômenes III, de Plutarco

Vidas Paralelas: Lisandro, de Plutarco

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