Notas

363 - Plutarco tinha dividido suas -Vidas dos Homens Ilustres" em muitos volumes. A de Demétrio começava o terceiro volume, como se vê no manuscrito da Biblioteca do Rei, n." 1.671. A vida de Péricles iniciava o décimo. É por isso que o prefácio é mais extenso.
364 - Em francês "Cest-mon": É meu parecer.
365 - O segundo ano da septuagésima quinta Olimpíada, 479 anos A. C.
366 - Nós a chamamos cebola marinha.
367 - Demois, os povos: ele zombava, ao que parece, nesta comédia, dos vários povos da Ática.
368 - É um erro. É preciso corrigir para dez anos. Tal era o decreto de ostracismo. Veja-se o próprio Amyot, cap. XVIII.
369 - No grego: -o qual queria que da mesma forma que numa representação trágica, a virtude tivesse também uma parte satírica. Veja-se as Observações, Cap. VIII.
370 - No texto de Amyot lé-se "le test" — Em nota “a cabeça".
371 - Se entregou aos negócios públicos ligando-se, etc.
372 - Péricles intrometeu-se no governo na época da septuagésima terceira olimpíada, 488 anos A. C.
373 - Em Amyot "prevost" — Em nota do editor: "Arconte"’.
374 - Na primavera.
375 - Demagogos.
376 - Em Amyot "beau pére" — Em nota do editor, cunhado de Cimon. Amyot não prestou atenção na significação da palavra "Kedéses".
377 - No grego oito meses.
378 - É um erro de Amyot e dos outros tradutores. Plutarco não diz que o templo de Minerva tivesse cem pés em todos os sentidos. Suas ruínas magnificas, que existem ainda, mostram que ele tinha mais de duzentos pés de comprimento. 65 de alto e cem de largo. Sua bela fachada de cem pés lhe fizera atribuir o nome de Hecatompedon. Após mais de 2.000 anos admira-se, mesmo cm suas ruínas, a elegância das proporções, a beleza dos baixos-relevos e a brancura do mármore. Veja-se "As ruínas dos mais belos monumentos da Grécia" por M. Le Roy. tom. I, pág. 8 e 30. segunda edição.
379 - Este edifício 6 notável pelos dois andares de colunas tais como são vistos ainda cm Pestum. ou Possidònia, nos belos templos construídos de acordo com os modelos de Atenas. A lanterna, ou cúpula, merece também uma atenção particular. Desde o tempo de Péricles a arquitetura conhecia grandes meios de decoração.
380 - Ela tinha quarenta estádios-, ou chuto milhas de comprimento, quarenta côvados de altura e era tão larga que dois carros podiam cruzar-se sobre ela…. Envolvia o Pireu e o uniu à cidade de Atenas.
381 - Ele ainda existe.
382 - Veja-se a vida de Teseu. cap. XXVII.
383 - São os Proplleus, ou os magníficos vestíbulos da "Acrópole".
384 - A planta chamada Partenium. Veja-se Plínio, cap. XXII, 17.
385 - Higia ou Salutar.
386 - Esta estátua, uma das obras-primas de Ofídias, era de ouro e marfim.
387 - No grego: "do que a todas as espécies de vento".
388 - É preciso ler no texto: "me oytan" assim como se encontra em alguns manuscritos, e traduzir: -tendo adquirido um poder e uma autoridade que não tinham os arcontes anuais".
389 - No grego: os jonianos e os Dórios.
390 - "Gouffre" no texto francês. Em nota: golfo.
391 - É a entrada do Quersòneso, ou da Criméia. A fortaleza de Perekop a defende hoje.
392 - Leia-se: no Ponto-Euxino.
393 - Amyot omitiu uma palavra essencial que consta do Grego: "tendo obtido para os atenienses"
394 - 6.000 escudos. Amyot. 46.687 libras francesas de 1818.
395 - Leia-se bipobotes, isto é, aqueles cuja fortuna punha em condições de nutrir cavalos. C. ASPÁSIA
396 - Deve-se ler "Demis", i sto é. "os povos". Veja-se p. 164.
397 - Quatro mil seiscentas e sessenta e oito libras francesas de 1818.
398 - Em grego dez mil peças de ouro que devem equivaler-se a mais ou menos a 225.000 libras francesas de 1818.
399 - Uma das ilhas Esporadas junto a Samos.
400 - No texto de Amyot — "chevesche". Em nota: a coruja. Ela é representada na maior parte das medalhas atenienses»
401 - O quarto ano da octogésima-quarta olimpíada, 141 anos A. C.
402 - Em Amyot "le blason fúnebre". Em nota: é o nome que se deu muito tempo às orações fúnebres.
403 - Ela começou dez anos depois da guerra de Samos no primeiro ano da octogésima olimpíada.
404 - Em Amyot: "leurs estappes". Em nota: seus mercados.
405 - Em grego: -Ele os acusou de lavrar um terreno consagrado e em consequência fez expedir um decreto". Este terreno consagrado era aquele que pertencia ao templo de Eleusina.
406 - Em grego: "Este decreto expedido por Péricles não continha senão queixas muito moderadas e expressas de maneira muito humana; mas aconteceu que o arauto Antemócrito, aí enviado, morreu".
407 - Esta porta é ainda hoje um dos monumentos de Atenas.
408 - Um dos mais célebres escultores da antiguidade.
409 - Nessa estátua que era de ouro e marfim, as diferentes partes se mantinham unidas por meio de parafusos e porcas. Essas partes podiam ser destacadas e pesadas.
410 - Veja-se a vida de Sólon. cap. XVII.
411 - No texto: "la cueux bise". Em nota a pedra de cor bise, ou escura, aguça o fio da espada.
412 - Esta peste, uma das mais terríveis mencionadas pela história, veio da Etiópia. Ela devastou muitos países e assolou Atenas na octogésima olimpíada, durante o segundo ano da guerra do Peloponeso. Tucídides a descreve na forma mais viva e mais tocante, liv. II, 47, e seguintes.
413 - 8.000 escudos. Âmyot. 70.031 libras em moeda francesas de 1818.
414 - 30.000 escudos? Amyot. 233.437 libras em moeda francesa de 1813.
415 - Deve-se ler no texto, segundo os manuscritos verificados por li. aliene c por Amyot, "dasaneros", e traduzir,i"gentio homem’ gastador".
416 - Por acidente. É o sentido em que se deve tomar a palavra "mechef". Veja-se a vida de Teseu, cap. XLIV.
417 - Amyot seguiu a lição dos manuscritos que Henry Étiene citou. Mas para ser mais exato, ele devia traduzir Epitimio de Farsala e não Tessaliano, embora Farsala seja na Tessália, Os outros livros dizem que Epitimio matou por acidente um cavalo ou que mataram o cavalo de Epitimio. A questão é muito pouco importante para atermo-nos sobre ela.
418 - A expressão de Amyot é equívoca: Ele devia traduzir: "Estesimbroto escreve que o próprio Xantipo disseminou o rumor propalado pela cidade de que sua mulher era entretida por Péricles". Vejam-se as reflexões de Plutarco sobre essa acusação, cap. XXX.
419 - Em grego 40.000 medimnos. Sobre a avaliação dessa medida, veja-se a vida de Licurgo, Cap. XII.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Vidas Paralelas: Péricles, de Plutarco

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Péricles (c. 495-429 a.C.) foi um célebre e influente estadista, orador e estratego da Grécia Antiga. Foi o líder de Atenas durante a Era de Ouro no século 5 a.C, época em que o Império Ateniense atingiu seu poder máximo. A biografia de Péricles faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Péricles foi comparado a Fábio Máximo, cônsul e ditador romano conhecido como o Protelador, que enfrentou Aníbal na Segunda Guerra Púnica.

Imagem de capa: Busto de Péricles. Cópia romana de original grego. Museu Britânico. N° 1805,0703.91

I. O gosto e os talentos dos homens devem ser úteis e honestos

I. César, vendo um dia em Roma363 alguns estrangeiros, homens ricos e opulentos, que tinham sempre entre os braços cãezinhos e macaquinhos, acarinhando-os cuidadosamente, perguntou-lhes se as mulheres em seu país não tinham filhos, criticando assim, muito sensatamente aqueles que empregam em relação aos bichos, a inclinação para o amor e a afeição caritativos, que a natureza pôs em nós para usá-la com os homens e não com os animais. Em caso semelhante, tendo a natureza impresso em nossa alma um desejo natural de aprender e saber, é bem razoável censurar aqueles que abusam desse desejo e aprendem coisas que não frutificam, enquanto tratam com negligência as úteis e honestas. Porque, quanto aos sentidos que recebem a impressão do seu objeto com alguma paixão, cabe-lhes considerar de forma forçosamente indiferente tudo o que se apresenta a ele seja útil ou inútil.

Não acontece porém o mesmo com o entendimento, porque cada um pode usá- lo à sua vontade e desviá-lo facilmente a todo o momento, aplicando-o no que bem lhe parece. É preciso, por isso, orientá-lo sempre para o melhor a fim de que não somente se satisfaça, mas também que se alimente e se nutra na sua contemplação. Porque assim como a cor mais adequada ao olho é aquela que por sua vivacidade e alegria rejubila e conforta a vista, assim também cada um deve aplicar o seu entendimento em intuições que, ao deleitá-lo, o elevam ao mesmo tempo para o seu verdadeiro bem. Tais são os efeitos da virtude, que, sendo ouvidos ou quando se lê algo sobre eles, imprimem nos corações uma tendência e preocupação para segui-los, o que não acontece com todas as outras coisas pelas quais temos alguma estima, não nos sentindo sempre incitados a desejar fazer o que consideramos bem feito, mas, ao contrário, retirando muitas vezes prazer da obra desprezamos o obreiro, como nas composições de perfumes e tinturas de púrpura, porque, deleitando-nos com um e outro, consideramos todavia os perfumistas e tintureiros como pessoas vis e plebeias. Antístenes, portanto, respondeu muito bem a certo indivíduo que lhe dizia ser Ismenias excelente tocador de flauta, «também eu acho364, disse ele, mas quanto ao resto é homem que não vale nada porque de outra forma, não seria tão esplêndido tocador de flauta. A esse propósito Filipe, rei da Macedónia, disse, certa vez, a seu filho Alexandre o Grande que tinha cantado em um festim de maneira muito agradável, e isso como homem bom entendedor da arte musical: «não tens vergonha de cantar tão bem?» Porque é bastante ao rei empregar de vez em quando o seu descanso em ouvir cantar os cantores, fazendo muita honra às musas ao querer ouvir algumas vezes os obreiros dessa arte, quando porfiam uns com os outros para ver quem canta melhor. Quem porém, exerce alguma arte baixa e vil, oferece, em testemunho contra si mesmo, o trabalho que empregou em coisas "inúteis, como prova de sua preguiça em aprender as honestas e úteis. E não houve jamais jovem de coração bem formado e gentil natureza, que, contemplando a imagem de Júpiter existente na cidade de Pisa, desejasse ser Ofídias; ou Policleto, diante da Juno de Argos, ou Anacreonte, Filemon e Arquíloco ao sentir, porventura, prazer lendo suas obras, porque não se deduz necessariamente da obra que deleita, ser sempre louvável o seu obreiro. Não aproveitam assim, tais coisas a quem as contempla, porque elas não engendram nos corações dos seus observadores o zelo de imitá-la, nem excitam uma propensão para assemelhar-se e conformar-se a elas. A virtude porém, tem isso de próprio em sua atuação, torna o homem que a conhece, de tal forma atraído que considera os seus atos como belos em conjunto, desejando assemelhar-se a quem os pratica, porque dos bens da fortuna nós amamos a fruição, e os da virtude levam-nos à ação. Ficamos por isso, satisfeitos em receber aqueles bens dos outros, mas a estes nós queremos que o outros os recebem de nós. Porque a virtude tem a força de incitar a vontade do homem que a considera a querer exercê-la incontinente, e engendra em seu coração um desejo de a pôr em atividade, formando assim, os costumes de quem a contempla, não por imitação apenas, mas pela compreensão e conhecimento do ato virtuoso, o qual gera-lhe repentinamente o instinto e propósito deliberado de fazer o mesmo.

II. Virtude de Péricles e de Fábio

II. É a razão pela qual considerei que devo continuar a escrever as vidas dos homens ilustres, e compus este décimo livro contendo as de Péricles e Fábio Máximo que sustentou a guerra contra Aníbal, porque são duas personagens semelhantes em muitas outras virtudes, e especialmente na bondade e justiça, e ambas, por ter sabido suportar pacientemente os desvarios dos seus povos e dos seus companheiros nos cargos de governo, foram muito úteis aos seus países. Se porém, andamos bem em juntá-los, comparando um ao outro, poder-se-á julgar melhor pelo que segue escrito.

III. Glória da casa de Péricles

III. Péricles pertencia à estirpe Acamânida, do distrito de Gholargo, uma das melhores casas e mais antigas raças da cidade de Atenas, tanto do lado de sua mãe como do lado de seu pai. Porque Xantipo, seu pai, que derrotou em batalha os comandantes do rei da Pérsia na jornada de Micale365 casou-se com Agaristo descendente do Clístenes que expulsou de Atenas os filhos de Pisístrato e destruindo corajosamente sua tirania, estabeleceu depois leis_ e organizou uma forma de governo muito bem equilibrada para manter seus concidadãos em paz e concórdia uns com os outros. Agaristo sonhou uma noite que tinha dado à luz um leão e poucos dias depois teve Péricles, tão bem proporcionado em todas as partes do corpo que nada se podia criticar, exceto sua cabeça um pouco longa e desproporcionada no tamanho em relação ao resto, sendo essa a causa de quase todas as suas estátuas terem o capacete sobre a cabeça, não querendo os escultores, como é crível, salientar-lhe essa deformidade. Os poetas áticos, contudo o chamam Esquinocéfalos, que quer dizer cabeça de cebola, porque os áticos chamam aquilo que se apelida em língua comum Scilla, isto é, cebola da barbaria366, Esquinos; e Cratino, poeta cómico, diz na comédia que ele intitulou Quírones:

O velho Saturno e a Sedição
Engendraram conjuntamente
Este grande titã que na corte imortal
Dos deuses do céu, é chamado Cabeça Grande.
E de novo diz, referindo-se a ele, na comédia intitulada Nemesis:
Vem Júpiter hospitaleiro, cabeça longa.
E Teléclides, zombando também dele, diz em certa passagem:
Algumas vezes não sabendo em verdade
A quantas anda em seu governo,
Mantem-se quieto e não se apresenta,
Sentindo dolorida sua cabeça pesada:
Mas outras vezes também, ele despede
Do seu grande crânio um maravilhoso trovão.

E Eupolis na comédia intitulada367 Demi, interrogando e inquirindo particularmente cada um dos oradores que ele figura como saindo dos infernos, diz, quando lhe indicam por último a Péricles:

Certamente nos trouxestes A cabeça de todos aqueles que lã estavam em baixo.

IV. Seus estudos de música; de filosofia

IV. Ora, quanto à música, a maior parte dos autores escreve que quem lhe ensinou, foi Damon, cujo nome, como se diz, deve ser pronunciado com a primeira sílaba breve. Aristóteles todavia, diz que ele aprendeu a música com Pitóclides. Como quer que seja é certo que este Damon, homem muito entendido e astuto em matéria de governo, cobrindo-se, para dissimular e esconder ao povo sua habilidade, com o nome de músico, estava sempre ao lado de Péricles como mestre de luta e de esgrima, e lhe ensinava como devia conduzir-se em negócios de Estado. Afinal, entretanto, ele não pôde dissimular tão bem que não viesse ao conhecimento do povo, servir-se ele dá lira e da música como coberta, e por ser homem turbulento empreendedor, e propiciador da tirania, foi banido por cinco anos368. Isso deu o que falar aos poetas cómicos, entre os quais Platão, que em uma de suas comédias introduz alguém que lhe pergunta:

Diz-me primeiro, Quíron,
Por que corre a fama
De que tu modelaste e instruíste Péricles.

V. Ele foi também ouvinte e discípulo ao filósofo Zenon, nativo da cidade de Eléia, que ensinava a filosofia natural como Parmenides, mas fazia profissão de contradizer todo o mundo, e alegar tantas oposições quando discutia, que levava seu antagonista a não saber como responder nem ao que resolver-se, como o testemunha Timon Fliasiano nestes versos:

Grande eloquência e força de arte
Para disputar de um lado ou de outro
Tinha Zenon, criticando todo o mundo
Quando pretendia desenvolver sua facúndia.

VI. Seu caráter formado por Anaxágoras

VI. Mas quem conviveu mais com ele e lhe deu essa gravidade e dignidade que mantinha em todos os seus atos e ditos, mais adequada a senhores do que à condição e ao estado de quem deve arengar diante de um povo livre, quem, em resumo, elevou seus costumes até uma certa majestade, demonstrada em todas as suas maneiras de agir, foi Anaxágoras o Clazomeniano, denominado comumente pelos homens desse século «Nus», isto é, entendimento, fosse por sentirem uma singular admiração pela vivacidade e sutileza do seu espírito em procurar as causas dos fenômenos naturais, ou por ter sido o primeiro em atribuir a disposição e o comportamento desse mundo, não ao acaso nem à necessidade fatal, mas a uma pura e simples inteligência ou entendimento, o qual separa, como primeira causa agente, as substâncias de partes semelhantes das demais substâncias que estão em todos os outros corpos, misturadas e confundidas.

VII. Péricles, por conseguinte, tendo especial admiração por essa personagem a quem devia ter-se instruído no conhecimento das coisas naturais, especialmente das que acontecem no ar e no céu, tomou dela, não somente uma coragem grande e elevada e uma dignidade de linguagem onde não havia nada de afetado, de baixo, nem vulgar, mas também uma sisudez de rosto que não se movia facilmente ao riso; uma gravidade no andar, um tom de voz que jamais se perdia; uma atitude serena e um toque honesto na sua indumentária, não se perturbando jamais, com qualquer coisa que acontecesse enquanto falava, e outros dotes semelhantes, que levavam a um espanto deslumbrado a todos quantos o contemplavam e consideravam.

VIII. Conta-se, a esse propósito, ter havido certa vez, um indivíduo desavergonhado que se manteve durante -um dia inteiro a ultrajá-lo com palavras difamatórias em plena praça, dizendo toda a sorte de injúrias que lhe vieram à cabeça, suportando-o Péricles pacientemente, sem jamais lhe responder uma única palavra, enquanto despachava qualquer negócio importante, até retirar-se serenamente, à noite, para sua casa, sem se mostrar alterado de maneira alguma, muito embora esse importuno o seguisse sempre, repetindo-lhe todos os ultrajes possíveis. Quando estava prestes a entrar em casa, já noite fechada, determinou a um dos seus servos que tomasse uma tocha e reconduzisse esse homem à sua morada. O poeta Íon entretanto, escreve que o trato de Péricles era soberbo e arrogante e que na sua gravidade e magnanimidade havia muito orgulho e desprezo pelos outros. Louva, este, ao contrário, grandemente, a civilidade, humanidade e cortesia de Cimon, o qual sabia acomodar-se com facilidade a todos os convívios. Não convém porém nos determos na afirmação de Íon369, o qual pretendia houvesse na virtude, como em algumas tragédias, uma parte onde se introduzissem sátiras próprias ao riso. Zênon, em compensação, aconselhava àqueles que diziam constituir a gravidade de Péricles presunção e arrogância, que se tornassem presunçosos como ele, porque essa maneira de contrafazer as coisas honestas e virtuosas, traz secretamente, com o tempo, uma tendência para amá-las e o desejo de acostumar-se ou de se adaptar a elas conscientemente. Péricles hão recebeu exclusivamente1 dons da sua conversação com Anaxágoras, mas aprendeu também com ele a expulsar de si e dominar todo supersticioso temor dos sinais celestes e das impressões que se formam no ar, as quais geram grande terror a quem ignora suas causas, bem como aos que temem os deuses com um desvairado terror, por não terem deles nenhum conhecimento certo, como o atribuído pela filosofia natural que, em lugar de uma superstição sempre trêmula e assustada, engendra verdadeira devoção, acompanhada de segura esperança do bem.

IX. Conta-se a esse propósito que trouxeram certo dia, a Péricles, de uma de suas terras, a cabeça de um carneiro que não tinha senão um chifre, razão pela qual o adivinho Lampão, considerando essa cabeça com o chifre muito duro no meio da testa, interpretou-a como significando que, sendo duas as linhas e dois os partidos na cidade de Atenas no tocante a seu governo, a de Péricles e a de Tucídides o poder das duas seria fundido em um, e especialmente no daquela em cuja casa o sinal se revelara. Anaxágoras porém, achando-se presente, fez partir a cabeça370 em dois, e mostrou aos assistentes como o cérebro do carneiro não enchia toda a capacidade do seu lugar natural, mas era comprimido de todos os lados e ia terminar em ponta como um ovo, no local onde o chifre tinha o começo de sua raiz!
 Anaxágoras foi assim admirado no momento, mas Lampão o foi logo depois, quando Tucídides veio a ser expulso e todos os negócios da coisa pública caíram universalmente nas mãos de Péricles.

X. Não há incoerência, no meu modo de ver, em que a filosofia natural e o adivinho tenham com boa verdade, interpretado o fato em seu conjunto, percebendo a primeira, a causa e o outro, o fim deste acontecimento, porque a profissão de uma, é procurar como acontece o fato, e a do outro porque acontece, predizendo o que significa. Quando alguém diz que descobrir a causa corresponde, a destruir a significação do sinal, não considera que, procurando abolir por esta razão as predições dos sinais e prodígios celestes, abole também os obtidos por artifício, como o som das bacias, os clarões dos fogos ao longo da costa marinha, as sombras dos ponteiros dos relógios de sol, coisas essas que se fazem por alguma razão, para serem sinal de outra coisa. Essa disputa sem fim porém, pertence mais a outro tratado.

XI. Ele se imiscui nos negócios públicos, e toma o partido do povo

XI. Quanto a Péricles, sendo ele ainda muito jovem, temia bastante o povo porque tinha o rosto um pouco parecido com o de Pisístrato, e os mais velhos da cidade, temiam também muito sua voz doce, sua língua elegante, sua palavra fácil, porque se assemelhavam da mesma form a, às de Pisístrato. Ele possuía, além disso, muitos bens, pertencendo a uma das mais nobres casas da cidade e seus amigos eram assim os mais acreditados e detinham a maior autoridade no manejo dos negócios. Em virtude disso, receando ser banido pelo decreto de ostracismo, Péricles não se imiscuía no governo de maneira alguma, mostrando-se na guerra homem valente que não poupava sua pessoa. Depois, porém, que Aristides morreu, que Temístocles foi expulso e que Cimon, encarregado dos exércitos, se mantinha a maior parte do tempo fora da Grécia, ocupado com guerras distantes, Péricles então371 se ligou com a arraia miúda, preferindo a multidão da plebe pobre, ao pequeno número dos nobres e ricos, o que era contra sua natureza porquê de si mesmo ele não era popular. Agiu assim, entretanto, como é verosímil, para evitar a suspeita de que pretendesse usurpar a tirania, e também porque vendo que Cimon se inclinava inteiramente para o lado da nobreza e era singularmente amado e apoiado pela gente de bem, cabia a ele, ao contrário, lançar-se entre os braços da comuna, provendo-se por esse meio, de segurança para si mesmo e de autoridade contra Cimon.

XII. Começou assim incontinente a adotar uma maneira de viver totalmente nova, desde o momento em que interveio nos negócios372 públicos, porque ninguém mais o viu depois, andar pela cidade, a não ser para ir à praça ou ao Senado. Desistiu de ir aos banquetes para os quais era convidado e abandonou qualquer outro entretenimento com amigos e qualquer outra forma de conversa, de tal modo que durante todo o tempo no qual se envolveu com o governo da coisa pública, tempo esse muito longo, não foi jamais cear em casa de nenhum de seus amigos a não ser no festim de núpcias de Euriptolemo, seu sobrinho, e aí mesmo permaneceu apenas até a ação de graças, momento em que se oferece vinho aos deuses, levantando-se depois imediatamente porque essas amáveis intimidades reduzem muito qualquer dignidade aparentemente assumida e é bem difícil manter uma severa gravidade para conservar sua reputação, e ao mesmo tempo, deixar-se frequentar familiarmente por todo o mundo. É verdade que em uma total e autêntica virtude é sempre mais belo o que é mais aparente, e nas gentes de bem e de honra não há nada que possam os estranhos achar tão admirável, quanto o que os domésticos, sempre juntos a elas, acham em sua vida quotidiana.

XIII. Seu espírito reservado e sua eloquência. Atribuem-lhe o cognome de Olímpico

XIII. Péricles, entretanto, para impedir que se aborrecessem dele, vendo-o continuamente, não se aproximava do povo e não se apresentava a ele senão por intervalos. Não falava de todos os assuntos em público e nem saía, reservando-se da mesma forma que, em Atenas, era reservada a galera de Salamina, como diz Critolau, para as situações de grande importância. Manejava outros negócios de menor significação por intermédio de alguns oradores seus familiares, entre os quais Efialta, segundo se diz, o mesmo que tirou a autoridade e o poder à corte do Areópago, atribuindo excessiva e desenfreada licença ao povo, como declara Platão. É o motivo pelo qual dizem os poetas cómicos, ter-se ele tornado tão insolente, que ninguém o podia deter e como um cavalo novo sem rédeas, tornara-se tão audacioso que já sem querer obedecer, mordera a ilha de Eubéia, saltando por cima das demais. Desejando Péricles formar um estilo de falar e uma maneira de linguagem que fosse instrumento adequado e conforme ao modo de viver e à gravidade por ele adotados, empregava a todo o propósito o que aprendera de Anaxágoras, colorindo seus argumentos de filosofia natural com a habilidade retórica, e, tendo adquirido pelo estudo dessa filosofia altas concepções e eficácia para concluir bem tudo o que desejava provar, sendo também dotado por natureza de bom entendimento, como escreve o divino Platão, tirando disso tudo o que convinha a seus desígnios revestidos sempre com artifícios de eloquência, tornou-se distanciadamente o melhor orador do seu tempo. Por esse motivo, como se disse, impuseram-lhe o cognome de Olímpico, que equivale dizer celeste ou divino, embora queriam alguns ter sido por causa das belas obras e edifícios públicos com os quais embelezou a cidade de Atenas, e outros em razão da sua grande autoridade e poder no governo tanto em guerra quanto em paz. Não é impossível porém que esta glória lhe tenha sido conferida por motivo das muitas excelentes qualidades que havia juntas nele. As comédias, todavia, levadas à cena pelos poetas do tempo, aonde há muitas alusões a ele, umas sérias, outras em tom de farsa e burla, testemunham que foi principalmente por sua eloquência que se lhe atribuiu esse apelido, porque, dizem eles, Péricles arengando, trovejava e faiscava e trazia em sua língua um raio terrível.

XIV. A esse propósito conta-se uma resposta espirituosa de Tucídides, filho de Milésio, relativa à força de eloquência de Péricles, porque aquele era homem de bem e de honra, tendo feito durante muito tempo oposição ao governo deste. Como Arquidamo, rei da Lacedemônia, lhe perguntasse um dia quem lutava melhor, ele ou Péricles, respondeu-lhe: «Quando eu o derrubo lutando, ele sabe negá-lo tão bem, que faz crer aos assistentes não ter caído, persuadindo-os do contrário daquilo que v iram.»

XV. Dignidade de suas ações e palavras

XV. Péricles, era todavia, muito contido e reservado no seu falar, de sorte que em todas as vezes nas quais se apresentava à tribuna das arengas, para discursar ao povo, fazia orações aos deuses para que não lhe escapasse da boca, inadvertidamente, nenhuma palavra prejudicial à matéria tratada. Nada resta entretanto, de suas obras por escrito, a não ser alguns éditos por ele publicados. Foram ainda retidos de memória bem poucos dos seus ditos notáveis, como quando declarou «que era preciso fazer desaparecer a cidade de Egina, porque era um cisco nos olhos do porto de Pireu e outra vez na qual disse «que já via de longe a guerra que, do Peloponeso, avançava sobre eles». Uma outra vez, ao embarcar com Sófocles, seu companheiro, a esse tempo, no cargo de capitão general, louvando este a beleza de um jovem que haviam encontrado no caminho: «É preciso, Sófocles, disse Péricles, que um governador tenha limpos nã o somente as mãos, mas também os olhos.» E Estesimbroto escreve, em relação ao seu discurso fúnebre, feito em louvor dos mortos na guerra de Samos, ter Péricles dito que eles eram imortais como os deuses, porque não vemos a estes em sua essência, mas pelas honras a eles conferidas e, pelos grandes bens por eles desfrutados, conjecturamos serem imortais, e as mesmas coisas acontecem aos que morrem em defesa do seu país.

XVI. Os costumes do povo se alteram pela abundância e pelos prazeres que Péricles lhe proporciona

XVI. Ora, cabe ver a razão pela qual Tucídides descreve o governo da coisa pública ao tempo de Péricles, como um governo da nobreza, embora na aparência parecesse popular, sendo de fato um principado regido pela inteligência e autoridade do primeiro homem de Atenas, e por que razão dizem muitos outros, ter sido ele quem em primeiro lugar fomentou o costume de repartir pelo povo as terras conquistadas na guerra e de distribuir dinheiros públicos para ir ver os jogos, fixando-lhe salários para todas as coisas, sendo esse um mau costume, porque a plebe que antes passava com pouco, ganhando a vida com o trabalho do seu corpo, tornou-se supérflua, suntuosa e dissoluta, em razão das utilidades então introduzidas. Poder-se-á verificar pela simples exposição do fato, a causa dessa mutação.

XVII. Ele se serve de seu prestígio para reduzir o do Areópago

XVII. Porque Péricles ao aparecer, como dissemos, para adquirir reputação semelhante à de Cimon, esforçou-se em cair nas boas graças da multidão, mas não tendo nem riquezas nem bens tão grandes quanto os daquele, para sustentar a mesma despesa com a qual Cimon entretinha os pobres, mantendo casa aberta a todos os adventícios, vestindo velhos indigentes e fazendo tirar a cerca de suas terras, férteis e herdadas, para que cada um pudesse entrar e colher frutos à vontade, via-se, em virtude disso, superado na simpatia da plebe, pelo que começou a introduzir essas distribuições de dinheiros públicos, por sugestão e conselho de Demônides, natural da ilha Delos, como narra Aristóteles. Tendo em pouco tempo ganho a benquerença da arraia miúda por essas distribuições de dinheiro, que fazia repartir entre ela, tanto para ver os jogos como por salário para assistir aos julgamentos, e por outras corrupções semelhantes, Péricles serviu-se dela, pouco depois, contra a corte do Areópago a cujo corpo não pertenceu jamais, por nunca ter sido sorteado para arconte anual373, nem conservador das leis, nem rei dos sacrifícios, nem superintendente das guerras, ofícios esses que, desde a mais remota antiguidade, eram atribuídos por sorteio sendo que aqueles a quem tocava a sorte, quando exerciam bem a administração de suas magistraturas, subiam e vinham a pertencer ao corpo da corte do Areópago.

XVIII. Faz banir e chamar de volta a Cimon

XVIII. Péricles, tendo assim adquirido, por esses meios, grande prestígio junto a plebe, envolveu de tal forma esse senado do Areópago, que lhe fez tirar a competência para conhecer muitos assuntos, por intermédio de Efialta, e ao mesmo tempo fez banir de Atenas, a Cimon, como favorecedor dos lacedemônios e contrário ao bem e à autoridade popular, apesar de ser o mais rico e o mais nobre de toda a cidade, tendo obtido as mais gloriosas vitórias, enchendo a cidade de Atenas de despojos conquistados ao inimigo, como escrevemos em sua vida, tamanha era a autoridade popular de Péricles. Ora, o desterro que foi aplicado a Cimon, denominado ostracismo, era por lei, limitado a dez anos, e tendo os lacedemônios penetrado com grande poder no país de Tanagra durante esse período, saíram incontinente os Atenienses a seu encontro, e lá, Cimon, querendo fazer ver, de fato, que era caluniado falsamente de favorecer os lacedemônios, apresentou-se em armas para combater junto aos seus. Os amigos de Péricles porém, juntando-se constrangeram-nos a retirar-se por ser banido. Foi essa a causa de Péricles ter combatido nessa jornada mais duramente do que nunca, adquirindo a honra de ter-se arriscado pessoalmente, tanto ou mais que nenhum outro em todo o exército. Os amigos de Cimon, todavia, aos quais Péricles também acusava de favorecer os interesses dos lacedemônios, morreram todos aí, razão pela qual os Atenienses se arrependeram muito da expulsão de Cimon e o lamentaram bastante após terem sido vencidos nessa batalha travada nos confins do país da Ática, especialmente porque esperavam ter na próxima estação374 uma guerra bem áspera e rude. Percebendo-o, Péricles, não fingiu satisfazer nisso à plebe, mas propôs de si mesmo um decreto que fez expedir, chamando de volta a Cimon, como aconteceu. Este, ao voltar, serviu de intermediário na paz entre as duas cidades, porque os lacedemônios tinham-lhe afeições odiando, ao contrário, a Péricles e a todos os outros375 governantes.

XIX. Há porém, quem escreva, não ter Péricles jamais condescendido em fazê-lo chamar, antes de ter feito com ele, um acordo secreto por intermédio de Elpinice, irmã de Cimon, a saber que este iria com um exército de duzentas galeras fazer a guerra em países submissos ao rei da Pérsia, permanecendo Péricles em casa, com a autoridade do’ governo dentro da cidade. Esta irmã Elpinice já tinha em ocasião anterior, amenizado Péricles em relação a seu irmão, quando este foi a juízo por um crime capital, porque Péricles era daqueles a quem a acusação tinha sido delegada e entregue pelo povo. Elpinice dirigiu-se a ele, suplicando-lhe não fizesse o pior que pudesse a seu irmão. Péricles respondeu-lhe rindo: «És muito velha, Elpinice, muito velha para conseguir tão grandes coisas.» Quando, entretanto, se veio a juízo, debater a causa, ele não se levantou a não ser uma vez para falar contra Cimon, como para desempenhar-se de uma obrigação, e retirou-se tendo feito menos mal a ele do que qualquer outro dos acusadores.

XX. Quem poderá assim dar fé a Idomeneu, que acusa Péricles de ter feito matar à traição o orador Efialta, seu amigo, que tinha sido sempre favorável à sua maneira de pensar e pertencia a seu partido no governo da coisa pública, por ciúme e inveja de sua glória? Porque tais palavras difamatórias, colhidas não sei onde, Idomeneu as vomitou com humor colérico contra Péricles que embora não fosse evidentemente de todo irrepreensível, tinha certamente, o coração grande e nobre, com uma natureza desejosa de honra, não se vendo quase em homens dessa espécie, engendrar-se essas paixões tão brutais e cruéis. O orador Efialta, em verdade, temido pelos que sustentavam o partido da nobreza, por não perdoar de forma alguma àqueles que em qualquer assunto ofendiam a autoridade do povo, acionando-os e perseguindo-os com todo rigor até o fim, levou seus inimigos a lhe armarem uma emboscada, por intermédio de um certo Aristodico Tanagriano, onde foi morto a traição, como escreve Aristóteles.

XXI. A nobreza opõe Tucídides a Péricles

XXI. Cimon, entrementes, morrera na ilha de Ghipre como general do exército de mar de Atenas, motivo pelo qual os que apoiavam o partido da nobreza, vendo Péricles, já poderoso, marchar adiante de todos os outros cidadãos da cidade e querendo que houvesse alguém de seu lado para fazer-lhe frente, reduzindo-lhe um pouco a autoridade, a fim de que ele não viesse a dispor do poder absoluto, opuseram-lhe Tucídides do burgo de Alopecia, homem prudente, cunhado376 de Cimon, para resistir a ele. Esse Tucídides entendendo menos de guerra do que Cimon, embora entendesse mais dos negócios da cidade e do governo da coisa pública do que ele, mantinha-se a maior parte do tempo na cidade, onde, combatendo continuamente a Péricles na tribuna das arengas, formou em pouco tempo uma liga semelhante à sua, evitando que a gente de bem e de honra, como são denominados os nobres, se misturasse e confundisse com a comuna como antes, onde sua dignidade era ofuscada e dissolvida pela multidão do povo, e separando-a da plebe, a reuniu num único corpo, que veio a ter poder igual ao da outra liga, colocando-se por assim dizer, como o contrapeso da balança. Porque a princípio não houve mais que um certo debate oculto entre essas duas facções, como uma folha superficial em uma lâmina de ferro, salientando-se apenas ligeiramente a diferença entre os que apoiavam o partido do povo e os que eram do partido da nobreza. Mas a disputa e a dissensão dessas duas personagens foi como uma profunda incisão separando a cidade em dois grupos dos quais um foi publicamente chamado a nobreza e o outro o povo.

XXII. Jogos, festas, banquetes que ele oferece ao povo

XXII. Péricles entretanto, soltando ainda mais as rédeas populares fazia tudo para satisfazer o povo e agradá-lo, dando ordens para que na cidade houvesse sempre jogos, festas, banquetes e passatempos públicos, a fim de entreter a comuna com esses prazeres honestos. Ele enviava, além disso, à guerra todos os anos, um exército de sessenta galeras, sobre as quais havia bom número de cidadãos pobres que assim, durante nove meses377 do ano, percebiam soldo público, adquirindo experiência marítima na qual se exerciam. Péricles enviou além do mais, ao país de Quersoneso mil burgueses para habitá-lo e repartir as terras entre si; quinhentos à ilha de Naxos; duzentos e cinquenta à Andros; mil à Trácia para habitar com os bisaltos; outros à Itália quando a cidade de Sibaris foi reconstruída, sendo depois chamada a cidade dos Túrios. Isso era feito para descarregar Atenas de uma multidão ociosa, a qual em virtude da sua ociosidade era curiosa e ávida de coisas novas, bem como para prover à necessidade dos pobres burgueses que nada tinham, acrescendo que alojar assim, cidadãos naturais de Atenas junto a seus súditos ou aliados, era o mesmo que pôr entre estes, uma guarnição que os mantinha freados, impedindo-os de empreender qualquer novidade.

XXIII. Decoração da cidade, de Atenas

XXIII. Mas o que produziu maior prazer e atribuiu mais ornamentos à cidade de Atenas, sendo também o que mais deslumbrou os estrangeiros, dando testemunho suficiente de que as coisas contadas sobre o antigo poder riqueza e opulência da Grécia, nada têm de falsas, foi a magnificência das obras e edifícios públicos construídos ao tempo de Péricles. De todo o seu trabalho é também o que causou aos ressentidos e malévolos a maior inveja, razão pela qual o caluniaram, clamando contra ele em todas as assembleias do conselho, que o povo de Atenas se difamara por ter trans ferido para sua cidade o dinheiro de contado de toda a Grécia, depositado na ilha de Delos. Disseram ainda que a escusa mais honesta possível para cobrir o fato, a alegação de ter sido por temor aos bárbaros, visando colocar o dinheiro em lugar forte, onde ficasse sob guarda mais segura, Péricles mesmo a tinha destruído. Constituía o ato segundo eles, uma grande injúria feita a todo o resto dos gregos e um golpe de manifesta tirania, considerando-se estar diante dos olhos de todos que o dinheiro com o qual a Grécia fora forçada a contribuir para os negócios da guerra contra os bárbaros, os atenienses o empregavam em fazer dourar, embelezar e arranjar sua cidade como se fosse uma mulher gloriosa, ávida de paramentar-se com ricas joias e pedras preciosas bem como em fazer imagens e construir templos de uma excessiva despesa.

XXIV. Péricles, ao contrário, demonstrava aos atenienses que eles não eram obrigados a prestar contas desse dinheiro aos seus aliados, uma vez que combatiam por eles, mantendo os bárbaros longe da Grécia sem que eles contribuíssem para isso com um só homem, um só cavalo ou um só navio, mas apenas com dinheiro, o qual não pertence mais a quem o paga mas aos que o recebem, desde que façam valer a razão pela qual o recebem, pelo que, estando sua cidade bem provida de todas as coisas necessárias à guerra, era honesto empregar o supérfluo de suas finanças em obras que, no futuro, quando estivessem terminadas, lhes trariam glória eterna, e desde agora, enquanto ainda se executavam, os enriqueciam com uma opulência presente, pela diversidade de trabalho de toda a espécie, e de matérias que se faziam mister, uma vez que para trazê-las e usá-las seriam empregados obreiros de todos os ofícios e todas as mãos que quisessem trabalhar, de maneira que todos os habitantes da cidade viriam a receber paga e salário, públicos, e por esse meio a cidade se embelezaria nutrindo-se ao mesmo tempo por si mesma. Porque os fortes e disponíveis em idade de pegar em armas, eram mantidos com soldo público que lhes tocava quando iam à guerra» e quanto aos mais que não se envolviam em questão de armas como gente mecânica, vivendo do seu braço, quis Péricles que tivessem também parte no dinheiro comum, não o ganhando porém, sem fazer nada.

XXV. Emulação e recompensa para as artes

XXV. Foi essa a razão pela qual ele levou o povo a empreender grandes edificações e a projetar obras de muitos ofícios que não se podiam terminar a não ser dentro de um longo lapso de tempo a fim de que o cidadão que permanecesse em casa tivesse meios de participar dos dinheiros públicos e de enriquecer, da mesma forma que os guerreiros, os embarcadiços ou os de guarnição na guarda de lugares. Porque assim, uns ganhavam no fornecimento de materiais, como pedra, cobre, marfim, ouro, ébano e cipreste, outros em trabalhar e lidar como carpinteiros, moldadores", fundidores, fazedores de imagens, pedreiros, entalhadores de pedra, tintureiros, ourives, marceneiros de marfim, pintores, marqueteiros e torneiros; outros em transportar e fornecer matéria-prima, como mercadores, marinheiros, pilotos para as coisas que se trazem por mar, fabricantes de carros, para as de terra e cocheiros, condutores, cordoeiros, canteiros, seleiros, correeiros, pioneiros para aplainar caminhos e escavadores de minas. Cada chefe de ofício, além disso, tinha um capitão, com o seu próprio exército de operários, ganhando a vida apenas com o esforço do braço, para servir como instrumentos e auxílio aos mestres obreiros, de forma que a lida por esse meio, permitia espalhar e distribuir o ganho por todas as idades e por gente de toda a qualidade e condição.

XXVI. Vieram assim as obras a levantar-se e a progredir, soberbas na magnificência das proporções e inigualáveis em graça e beleza, porque os operários, cada um em seu setor, esforçavam-se em emulação, para superar a imensidade das suas tarefas pela excelência do artifício. Não havia entretanto, nada que fosse mais admirável do que a celeridade, porque quando se supunha que cada uma das mencionadas obras devesse terminar apenas em muitas gerações e várias sucessões de vidas humanas, umas depois das outras, foram elas inteiramente executadas e concluídas durante o tempo em que se manteve em vigor o prestígio e a autoridade de um único governante. E conta-se, apenas disso, que a esse mesmo tempo, como o pintor Agatarco se vangloriasse de pintar animais rápida e facilmente, respondeu-lhe Zeuxis, ao ouvi-lo, e eu, ao contrário, glorifico-me em demorar muito tempo em pintá-los», porque comumente a rapidez e a facilidade não podem atribuir firmeza durável nem beleza perfeita à obra; mas a demora no tempo, acrescida da assiduidade de trabalho na sua manufatura dá-lhe força e vigor de longa duração.

XXVII. Elas são levadas ao mais alto grau de perfeição

XXVII. Eis porque as realizações de Péricles são mais admiráveis, visto terem sido executadas em tão pouco tempo, e terem durado tanto. Porque, cada uma delas em sua perfeição, revelava já antiguidade em sua beleza, e quanto à graça e vigor parece até hoje, terem sido feitas e concluídas há pouco, de tal forma há em tudo não sei quê de florescente novidade, impedindo que a injúria do tempo perturbe a sua visão, como se cada uma dessas obras tivesse, por dentro, um espírito sempre rejuvenescente e uma alma jamais envelhecida que as mantivesse com esse vigor.

XXVIII. Ofídias preside a todos os grandes trabalhos. O templo de Minerva; o Odeon, a longa muralha; os pórticos

XXVIII. Ora, quem conduzia -tudo, superintendendo a lida geral, era Ofídias, embora houvesse muitos outros mestres superiores e operários excelentes em cada obra, porque o templo de Palas denominado Partenon, como quem dissesse templo da Virgem, e apelidado Hecatompedon porque tem cem pés em todos os sentidos378, foi edificado por íctino e Calicratida; e a capela de Eleusina onde se celebrava a cerimônia secreta dos mistérios, foi projetada por Corebo, que levantou a fila das primeiras colunas à flor da terra, ligando-as com as suas arquitraves. Morto ele porém, Metagenes, nativo do burgo de Xipete, fez a cúpula e depois alinhou as colunas que estão em cima379 e Xenocles do burgo de Cholargo foi quem fez a lanterna ou florão que cobre o santuário. Mas á longa muralha380 cuja construção Sócrates pessoalmente diz ter ouvido ser proposta a Péricles, foi Calicrates que se incumbiu de fazê-la. O poeta Gratino em uma comédia sua, zomba dessa obra que era conduzida com muita displicência, demorando excessivamente para ser concluída, dizendo:

Há muito tempo que Péricles, de boca,
A faz progredir bastante, mas de fato, não toca nela.

XXIX. O teatro ou auditório de música destinado à audição dos jogos dos músicos, chamado Meon381, foi feito por dentro, em várias ordens de assentos e muitas fileiras de colunas, sendo a cobertura constituída por um bloco único redondo, que se vai curvando em torno, e fechando-se sobre 8i mesmo, termina em ponta. Conta-se que foi feito sobre o modelo e à semelhança do pavilhão do rei Xerxes, e que Péricles forneceu o desenho e a orientação, pelo que Cratino, em outra passagem da comédia «As Trácias.», zomba e caçoa dele dizendo:

Aí vem Péricles denominado Júpiter, cabeça de cebola,
Que concebeu na sua larga testa
A forma e a cobertura do Odeon
Depois que escapou do perigo
De ser banido para país estrangeiro.

Foi nessa ocasião que Péricles, pela primeira vez, procurou muito devotadamente que fosse determinada pelo povo, no dia da festa chamada Panatenéia382, a celebração de jogos, de música, e tendo sido ele próprio eleito reitor desses jogos para adjudicar o prêmio a quem o tivesse ganho, regulamentou a maneira pela qual, de futuro, deveriam os músicos tocar flautas ou cítaras e outros instrumentos. Foi o primeiro jogo musical celebrado no Odeon mediante prêmio, sendo os outros, daí por diante, celebrados sempre nesse mesmo auditório.

XXX. Quanto ao portal e aos pórticos383 do castelo, foram feitos e acabados no espaço de cinco anos, sob a direção de Mnesicles que foi mestre da obra. Enquanto eram construídos aconteceu um acidente milagroso, demonstrando bem que a deusa Minerva não reprovava essa fábrica, mas a tinha por muito agradável, porque o mais diligente e dedicado de todos os operários que aí lidavam, tombou, por acaso, de alto a baixo. Ele adoeceu tanto da queda, que os médicos e cirurgiões não esperavam vê-lo escapar. Estando Péricles muito aborrecido com o fato, apareceu-lhe a deusa, enquanto dormia à noite, e lhe ensinou uma medicina384, com a qual curou facilmente o paciente, em pouco tempo. Foi por isso que depois ele fez fundir cm cobre a imagem de Minerva, apelidada385 Saúde, a qual mandou colocar no templo do castelo perto do altar, que já aí estava, como se disse. Ora, quanto à imagem de ouro da deusa Minerva386 foi Ofídias quem a fez como está escrito em sua base. Em relação ao resto porém, ele tinha apenas a superintendência de quase todos os trabalhos e dirigia todos os demais operários pela amizade que lhe dedicava Péricles. O fato trouxe a um, inveja, a outro, má fama, porque os invejosos e maledicentes espalharam por toda a parte o boato de que Ofídias recebia em sua casa as senhoras da cidade, sob o pretexto de mostrar-lhes suas obras, para entregá-las a Péricles. E os poetas cómicos a proveitando-se desses comentários, espalharam contra ele muitas alusões injuriosas e difamatórias, caluniando-o como se sustentasse a mulher de Menipo, seu amigo e Lugar-tenente na guerra, dizendo também que Pirilampo, um dos seus familiares, criava pássaros e especialmente pavões que enviava secretamente às mulheres seduzidas por Péricles. Mas, não devem espantar os ditos desses homens satíricos cuja profissão é maldizer e ferir todo o mundo e que ordinariamente sacrificam à inveja da plebe, como a um espírito maligno, as injúrias e ultrajes que lançam contra as gentes de bem e de honra, visto que Estesimbroto o Tásío, levou sua ousadia ao ponto de censurar a Péricles por um crime detestável, inventado falsamente, como seja o de ligar-se com a mulher do próprio filho. Eis porque é, a meu aviso, bem difícil e penoso ter inteiro conhecimento da verdade das coisas antigas, pelos monumentos dos historiadores, dado que os que vêm depois, têm a distância do tempo para perturbar e ofuscar-lhes a nítida inteligência dos assuntos e a história escrita enquanto vivos os homens nela referidos disfarça e corrompe a verdade, por ódio e inveja algumas vezes, outras por favor e lisonja.

XXXI. O partido de Tucídides se queixa das excessivas despesas. Tucídides é banido

XXXI. Mas como os oradores da liga de Tucídides, gritassem contra Péricles em suas arengas costumeiras, que ele consumia em vão, as finanças da coisa pública, despendendo toda a renda de Atenas, Péricles um dia, em plena assembleia da cidade, perguntou à assistência do povo se lhe parecia que ele despendera excessivamente. O povo respondeu agastou excessivamente». «Está bem, disse ele, será então tudo feito às minhas expensas e não às vossas, desde que só meu nome seja escrito na dedicatória das obras». Quando Péricles pronunciou essas palavras, o povo, seja por admiração pela sua magnanimidade ou por não querer atribuir-lhe a honra e o louvor de. ter mandado fazer sozinho tão suntuosos e magníficos trabalhos, gritou-lhe alto que não aceitava e decidira que Péricles as fizesse concluir à custa do público, sem nada poupar. Tendo-se enfim lançado abertamente em uma contenda com Tucídides e entregando-se à sorte o ver quem faria banir seu adversário com o decreto do ostracismo. Péricles sobrepujou Tucídides e o expulsou da cidade, desfazendo ao mesmo tempo a liga que lhe era contrária.

XXXII. Péricles fica só à frente dos negócios do Estado

XXXII. Ficando inteiramente extinta qualquer facção e a cidade reconduzida à união e concórdia, concentrou-se assim, todo o poder de Atenas em mãos de Péricles, e todos os negócios atenienses ficaram à sua disposição, finanças, armas, galeras, ilhas, mar e um domínio imenso que se estendia, parte sobre os gregos, parte sobre os bárbaros, admiravelmente fortificado e garantido pela obediência das nações sujeitas, pela amizade de reis e pela aliança de diversos príncipes c senhores poderosos. Péricles, em virtude disso, começou, desde então, a agir com o povo de forma desacostumada, deixando de ceder e obedecer muito facilmente aos apetites da plebe, como a387 todos os ventos contrários. Enrijeceu um pouco aquela maneira de governar excessivamente frouxa, mole e popular, usada até então, como sendo harmonia musical delicada e efeminada em excesso, convertendo-a em um governo mais senhorial, e semelhante à autoridade de um rei, permanecendo porém, no caminho reto e mantendo-se irrepreensível em fazer dizer e aconselhar o que era mais adequado à coisa pública. Péricles, na maior parte das vezes, levava o povo, mediante demonstrações e argumentos, a fazer voluntariamente e de bom grado o que ele propunha; outras porém, ele o arrastava pela força obrigando-o a fazer, contra a sua vontade, o que era pelo melhor. Seguia nisso o estilo do bom médico que em uma longa e complicada doença, permite algumas vezes ao seu paciente, dentro de certos limites todavia, coisas que lhe dão prazer, mas outras vezes também, lhe dá remédios que o sacodem e atormentam para curá-lo. Porque, como é fatal a um povo possuidor de tão grande império, aconteciam comumente acidentes geradores das diversas paixões que Péricles somente, sabia orientar com destreza, manejando os dois principais lemes: o temor e a esperança. Refreava com o primeiro a arrogância e temeridade insolente da plebe próspera; e com a segunda reconfortava seu tédio e desalento na adversidade.

XXXIII. No clímax de seu poder, ele não aumenta em nada as riquezas de sua casa

XXXIII. Tornou evidente, com isso, serem a retórica, e a eloquência, como diz Platão, artes que conduzem e orientam os espíritos dos homens a seu bel-prazer, constituindo o seu principal artifício, a habilidade em mover a propósito as paixões e os afetos que, como os tons e sons da alma, querem ser tocados e tangidos por mão de bom mestre. Ele conseguia isso aliás, não apenas pela força de sua eloquência, como testemunha Tucídides, mas pela reputação de sua vida, pela opinião e a confiança que inspirava sua probidade, porque, de forma alguma, era subornável por presentes, nem o dominava a avareza, visto que, transformando sua cidade de grande, em muito grande e opulenta, e superando em autoridade e poder a muitos reis e tiranos, mesmo entre os que puderam, por testamento, deixar seus estados aos filhos, ele, entretanto não aumentou jamais, os bens deixados por seu pai, em uma dracma de prata sequer.

XXXIV. E não obstante o historiador Tucídides descreve assaz claramente a grandeza do seu poder, e os poetas cómicos desse tempo a reconhecem malignamente por meias palavras, chamando novos Pisistratidas a seus familiares e amigos, e dizendo que cabia obrigá-lo a protestar e jurar que não usurparia a tirania, querendo significar com isso que lua autoridade era excessiva para uma república popular. E Teleclides, entre outros, diz que os atenienses tinham colocado entre suas mãos a renda das cidades submissas, bem como as próprias cidades para ligar e desligar, para abater ou reconstruir à vontade suas muralhas, e ainda o poder de tratar paz e aliança dispondo de sua força, seu poder, suas finanças e todos os seus bens. E isso tudo não foi concedido apenas por um capricho nem por uma voga de favor passageiro, mas durou quarenta anos, sendo ele sempre o primeiro da cidade entre os Efialtas, Leócrates, Mirônides, Cimons, Tolmides e Tucídides, porque, após ter arruinado e feito banir a este, Péricles manteve-se ainda dominando a todos os outros, pelo espaço de quinze anos, e388 adquirindo uma superioridade e autoridade, de comando que durou sempre, continuamente, por todo esse tempo, enquanto a dos outros capitães não durava senão um ano. Péricles apesar disso tudo, permaneceu sempre invencível e incorruptível por dinheiro, embora aliás, não fosse mal administrador nem preguiçoso em conservar o seu.

XXXV. Sua maneira de administrar os próprios bens

XXXV. No que se refere aos bens que lhe pertenciam a justo título, deixados por seus ascendentes, para que não perecessem por negligência, e ao mesmo tempo não lhe dessem muitas preocupações, nem lhe tomassem muito tempo ao querer divertir-se em valorizá-los, Péricles os administrava da maneira que lhe parecia mais fácil e mais certa, isto é, vendia por atacado todos os frutos colhidos da sua produção anual, e fazia depois comprar diariamente no mercado o que era necessário para o entretenimento e despesa cotidiana de sua casa. Não era isso muito agradável a seus filhos quando se tornaram um pouco maiores, nem satisfazia às suas mulheres que queriam gastar mais largamente e se queixavam de uma despesa ordinária excessivamente estreita e cerrada visto que em uma casa tão rica e tão grande não havia jamais coisa alguma que sobrasse, sendo aí toda a receita controlada na medida justa. Todo esse manejo era conduzido e orientado por um seu servidor chamado Evângelo, homem muito hábil e entendido na direção financeira de uma grande casa, ou por ter sido preparado e instruído por Péricles nesses assuntos, ou por dote natural.

XXXVI. Indigência de Anaxágoras

XXXVI. Essas coisas diferiam muito da sabedoria de Anaxágoras, que abandonou sua casa e deixou suas terras sem cultura e reduzidas a pastagem, por desprezo das coisas terrestres e arrebatamento pelas celestes. Há porém, segundo me parece, grande diferença entre a vida de um filósofo contemplativo, e a de uma personagem ativa, envolvida) com o governo de uma república, visto que um emprega seu entendimento na especulação de, coisas belas e honestas, sem que para isso tenha necessidade de nenhum instrumento nem de matéria exterior qualquer, enquanto o outro, acomodando sua virtude à utilidade comum dos homens, tem necessidade de riquezas, como de um instrumento, não somente indispensável mas também honesto, como aconteceu a Péricles que socorreu muitos pobres, e especialmente Anaxágoras entre outros. Conta-se deste, que estando Péricles preocupado com outras coisas e sem tempo para pensar nele, viu-se abandonado de todo o mundo em sua velhice, pelo que, cobrindo a cabeça, deitou-se resolvido a deixar-se morrer de fome. Péricles, ao ter conhecimento disso, correu imediatamente muito aflito para junto dele, rogando-lhe o mais afetuosamente possível, que procurasse restaurar sua vontade de viver, lamentando não a ele mas a si próprio por perder um tão fiel e sábio conselheiro em questões relativas aos negócios públicos. Anaxágoras descobriu então o rosto, dizendo-lhe: «quem se preocupa com a luz de uma lâmpada, Péricles, abastece-a com óleo.»

XXXVII. Péricles propõe uma assembleia geral para pacificação e união de toda a Grécia

XXXVII. Ora, começavam já por esse tempo, os lacedemônios, a enciumar-se com o crescimento de Atenas, porque Péricles, querendo levantar ainda mais o coração do povo ateniense para fazê-lo pensar em todas as coisas altas e grandes, emitiu um decreto, determinando que se enviassem embaixadores a todos os gregos, para solicitar-lhes onde quer que habitassem na Europa ou Ásia, fosse em cidades pequenas ou grandes, que enviassem os seus deputados a Atenas para uma assembleia geral que aí se reuniria, a fim de deliberar sobre os templos dos deuses queimados pelos bárbaros, e sobre os sacrifícios votados pela salvação da Grécia, por ocasião da batalha dada aos mesmos bárbaros, e também quanto à marinha, a fim de que cada um pudesse navegar com segurança onde bem lhe parecesse, vivendo todos amigavelmente em boa paz uns com os outros. Foram assim enviados para esta comissão, vinte personagens de mais de cinquenta anos, dos quais cinco se dirigiram aos Dórios389 da Ásia e aos habitantes das ilhas, até as de Lesbos e Rodes; cinco outros percorreram todo o país do Helesponto e da Trácia, até a cidade de Bizâncio; outros cinco foram encarregados de ir à Beócia, Fócida e a todo Peloponeso, passando dali ao país dos lócrios e a toda a terra firme adjacente, até a região da Acarnania e Ambracia; os demais foram, primeiro, à ilha de Eubéia e de lá aos Etaianos e a todo390 o golfo de Maléia, aos ftiotas, aos acasios e aos tessalianos, instando junto a todos os povos para persuadi-los a enviarem representantes a Atenas, para assistirem ao conselho que aí se manteria para pacificação e união de toda a Grécia. Nada porém, se fez afinal, nem se reuniram as ditas cidades gregas, em virtude de manobras dos lacedemônios que o impediram, como se diz, porque do Peloponeso partiu a primeira recusa a esse convite. Eu quis, de propósito, escrever sobre isso para dar a conhecer a magnanimidade de Péricles e a elevação de sua alma e entendimento.

XXXVIII. Sua prudência em nada arriscar nas batalhas

XXXVIII. Quanto ao resto, no cargo de capitão, ele foi muito estimado por levar sua gente à terra com a máxima segurança, porque jamais, por sua vontade, arriscou batalha onde sentisse grande dúvida ou perigo aparente, e não considerava bons capitães, nem queria seguir aos que tinham obtido grandes vitórias por se terem aventurado, muito embora fossem grandemente louvados e estimados. A esse respeito, costumava dizer: «que outro que não ele, os levasse à matança, porquanto, no que dependesse dele, todos seriam imortais.» E vendo que Tolmides filho de Tolmeu, confiante em êxitos passados pelos quais era muito querido e louvado em virtude de seus belos feitos de armas, preparava-se para entrar, sem propósito nem motivo qualquer, no país da Beócia, e já tinha induzido mil dos mais ousados e valentes jovens da cidade a oferecer-se voluntariamente para acompanhá-lo nessa expedição, adicionando-se ao resto do exército já levantado por ele, Péricles esforçou-se em dissuadi-lo, retendo-o em casa com advertências que lhe fez publicamente diante do povo, ocasião na qual pronunciou palavras, bem lembradas mais tarde: «se ele não quisesse acreditar no seu conselho, disse, esperasse ao menos o curso do tempo, o mais sábio conselheiro que se poderia ter». Essas palavras de Péricles foram mediocremente aplaudidas, no momento, mas poucos dias depois, quando veio a notícia de que o próprio Tolmides tinha sido morto em uma batalha perdida, perto da cidade de Coronéia, onde muita outra gente de bem c muitos homens valentes de Atenas tinham perecido, veio seu dito aumentar-lhe grandemente a reputação e a benquerença da plebe, porque passou a ser considerado como homem prudente, que amava seus concidadãos.

XXXIX. Seus êxitos no Quersoneso, no Peloponeso, no Ponto

XXXIX. Mas de todas as expedições dirigidas por ele como chefe do exército de Atenas, a de Quersoneso foi a mais apreciada e encarecida, por ter sido muito salutar a todos os gregos habitantes do país, porque além de conduzir mil burgueses de Atenas para aí habitarem, fortificando assim as cidades com esses homens válidos, ele guarneceu também o istmo391 que impede a região de ser uma ilha, com uma fortificação distendida de um mar a outro, garantindo assim a região contra as incursões, surpresas e pilhagens dos trácios habitantes da zona, livrando-a por esse meio de uma guerra perniciosa que a revolvia continuamente, em virtude da proximidade dos bárbaros seus vizinhos ou habitantes do país, os quais não viviam senão de rapinagem.

XL. Péricles tornou-se também querido e famoso entre os estrangeiros por ter cercado todo o Peloponeso, a partir do porto de Peges na costa megárica, com uma frota de cem galeras, sendo que não pilhou apenas as cidades marítimas, como antes dele tinha feito Tolmides, mas entrando bem para dentro da terra, longe do mar, com os homens de guerra levados nas galeras, obrigou alguns a se retirarem para dentro de suas muralhas, tal o terror por ele gerado, e derrotou em batalha no país de Nemeia aos Sicionios que o esperaram em campo e, levantando um troféu para assinalar essa vitória, embarcou nos navios algum reforço de gente de guerra recolhida na Acaia, aliada então, dos atenienses e passou à terra firme fronteira, onde navegando para além da embocadura do rio Aquelou, foi correr toda a província da Acarnania, encerrando os enéadas dentro de suas muralhas. Depois de ter danificado e destruído todo o país aberto, voltou para casa fazendo-se conhecer dos inimigos, nessa viagem, como capitão temível e conduzindo com segurança seus concidadãos, porque não aconteceu em toda expedição um único desastre aos que estiveram sob seu comando, seja por caso fortuito ou por outro motivo qualquer.

XLI. Tendo ido depois com uma grande frota de navios muito bem equipados392 ao reino do Ponto, tratou aí complacentemente as cidades gregas, fazendo tudo o que lhe pediram e dando a conhecer aos bárbaros, habitantes da região e aos seus príncipes e reis, a grandeza do poder dos atenienses que navegavam sem nada temer por toda a parte, onde bem lhes parecia, mantendo todo o mar em obediência. Péricles deixou além disso aos sinopenses treze galeras com certa quantidade de gente de guerra, comandadas pelo capitão Lamaco, para defendê-los contra o tirano Timesileonte, e depois de expulso este com os de sua liga, Péricles fez publicar e passar um edito em Atenas, autorizand o seiscentos burgueses da cidade que, sem constrangimento o desejassem, a ir residir em Sínope, onde lhes seriam repartidos os bens e heranças outrora pertencentes ao tirano e seus adeptos.

XLII. Ideias de conquistar o Egito, Cartago e Sicília, reprimidas por Péricles

XLII. Quanto ao mais ele não aquiesceu com os desvairados apetites dos seus concidadãos, nem se deixou arrastar pela sua cobiça excessiva que ao ver as próprias forças tão grandes, e tão favorável a fortuna, pretendeu tentar novamente a conquista do Egito e agitar as províncias marítimas do império do rei da Pérsia, E a esse tempo já havia muitos fascinados, pela infeliz e calamitosa aspiração da Sicília, que Alcibíades depois excitou ainda mais. Havia também quem já pensasse em conquistar a Toscana e o império de Cartago, o que não era de todo inviável nem deixava de motivar alguma esperança, tendo em vista a grande extensão dos seus domínios e o curso favorável dos seus empreendimentos de que se saíam de acordo com os seus desejos. Mas Péricles contrariou o impulso e cortou toda essa curiosa ambição, empregando a maior parte do seu poder em conservar e assegurar aquilo que tinham conquistado, considerando que se faria muito, impedindo-se o crescimento dos lacedemônios, a quem sempre se opunha, como declarou em muitas outras passagens e especialmente pelo que fez na guerra santa. Porque lendo os lacedemônios retirado aos fócios a superintendência do templo de Apolo na cidade de Delfos, usurpada por eles e tendo-a reposto entre as mãos dos délficos, Péricles, mal se tinham os lacedemônios retirado, avançou também com um exército e restabeleceu os rocios. E como os lacedemônios tivessem feito gravar na fronte de um lobo de cobre a prerrogativa que os de Delfos lhes haviam outorgado de propor seus pedidos ao oráculo em primeiro lugar, Péricles, obtendo393 o mesmo direito dos fócios, fê-lo gravar sobre o flanco direito da mesma estátua.

XLIII. Guerra da Eubéia

XLIII. Os resultados, em verdade, testemunham sua prudente sabedoria em ter contido as forças dos atenienses dentro da Grécia, porque em primeiro lugar, se rebelaram os de Eubéia, e Péricles conduziu incontinente contra eles, o exército de Atenas; vieram-lhe em seguida notícias de outro lado, de que os megarianos tinham também repentinamente, tomado armas contra os atenienses, estando já os inimigos, com grande poder, dentro da Ática, sob o comando de Plistonax rei da Lacedemônia. Voltou-se Péricles, imediatamente para enfrentar essa guerra acesa no interior da própria Ática. Não ousou porém apresentar-se em formação de batalha contra tão grande número de bons combatentes, mas sabendo que o rei Plistonax, ainda muito jovem, era governado principalmente pelo conselho de Cleandrides, que os Éforos tinham agregado ao rei para assessorá-lo, aconselhá-lo e guiá-lo, Péricles experimentou secretamente corromper a esse Cleandrides e conseguindo logo suborná-lo por dinheiro, persuadiu-o que reconduzisse os peloponesianos para fora do país da Ática, o que foi feito. Quando, porém, os lacedemônios viram o exército desfeito e os povos retirando-se cada um para sua cidade, irritaram-se de tal modo que condenaram seu rei a uma pesada multa, pelo que, não podendo pagá-la, foi constrangido a ausentar-se da Lacedemônia, enquanto Cleandrides, fugindo desde logo, foi condenado à morte por contumácia. Este Cleandrides era pai de Gilipo, que mais tarde bateu os atenienses na Sicília e a quem a natureza parece ter instilado a avareza como uma doença hereditária passando de pai a filho, porque, tendo sido também ignominiosamente acusado e provada a sua culpa por atos de vilania por ele cometidos, foi banido de Esparta como narramos mais pormenorizadamente na vida de Lisandro. Na prestação de contas desse cargo, como tivesse Péricles lançado uma verba de despesa de 10 talentos, declarando que a empregara onde fora necessária, o povo a ratificou sem querer inquirir como, nem em que, e sem verificar se era verdadeira ou não. Há alguns, entre os quais o filósofo Teofrasto, que escrevem que Péricles enviava cada ano à Esparta 10 talentos394, com os quais entretinha os que aí exerciam a autoridade, para não lhe fazerem a guerra, não com a intenção de comprar a paz, mas sim o tempo durante o qual, preparando-se com toda a calma, pudesse ter maior comodidade para sustentar a luta.

XLIV. Logo que o exército dos peloponesianos saiu da Ática, Péricles se voltou contra os rebeldes e passou à ilha de Eubéia com cinquenta velas e cinco mil combatentes de infantaria bem armados, e ali subjugou todas as cidades sublevadas, expulsando os hipobates395 que eram os mais renomeados entre os calcidenses tanto por seus haveres como por sua valentia e proezas. Expulsou da mesma forma os estieianos, a quem fez evacuar todo o país, alojando em sua cidade burgueses de Atenas somente. Péricles os tratava assim tão rigorosamente sem querer perdoá-los por terem eles apreendido uma galera de Atenas, fazendo morrer todas as pessoas que ali se encontravam.

XLV. Guerra de Samos, empreendida por Aspásia

XLV. Efetivando-se depois uma trégua de trinta anos entre atenienses e lacedemônios, Péricles dirigiu a guerra contra os da ilha de Samos, acusando-os de não terem querido obedecer à intimação dos atenienses para pacificarem as querelas existentes entre eles e os milesianos, Como porém, muitos opinem que ele empreendeu essa expedição a pedido de Aspásia, não será fora de propósito procurar esclarecer, nesta passagem, quem era essa mulher, e que artifício ou poder tão grande tinha, para prender dessa forma em suas redes os principais homens que então se envolviam no governo da coisa pública, e para que os próprios filósofos falassem tanto e tão amplamente dela.

XLVI. Pátria desta mulher célebre, e seu espírito

XLVI. É coisa absolutamente certa, em primeiro lugar, ter sido nativa da cidade de Mileto. Era filha de um certo Axioco, e. seguindo o exemplo de uma antiga cortesã da Jônia chamada Targélia, entrou em contato com as principais e maiores personagens do, seu tempo, porque essa Targélia, sendo bela de rosto e muito graciosa, com um espírito vivo e doce linguagem, fizera o mesmo na Grécia, atraindo para o serviço do rei da Pérsia todos os que se aproximaram dela, com tanto êxito que semeou pelas cidades gregas amplos fundamentos da facção Meda, por serem os maiores e mais poderosos homens de cada cidade todos aqueles com quem ela estabeleceu relações. Quanto à Aspásia, todavia, dizem uns que Péricles a procurou como mulher cheia de sabedoria, muito entendida em matéria de governo estatal, sendo que o próprio Sócrates a ia ver de vez em quando com seus amigos, e que os que a frequentavam levavam também algumas vezes as suas mulheres para ouvi-la conversar, embora Aspásia levasse uma vida nada bela nem honesta porque mantinha em sua casa jovens raparigas que comerciavam com o corpo. Esquines escreve que Lísicles, um revendedor de gado, homem antes de baixa e vil natureza, tornou-se o primeiro de Atenas, após a morte de Péricles, por frequentar esta Aspásia. E do livro de Platão, intitulado Menexeno, embora escrito, a princípio, sob forma de sátira e zombaria, consta como história verdadeira, que esta mulher tinha fama de ser procurada por muitos atenienses que iam aprender dela a arte da retórica.

XLVII. Parece entretanto, mais verossímil que a afeição de Péricles por ela vinha mais do amor que de outra causa, porque ele esposara uma mulher sua parente, a qual fora antes casada com Hiponico, de quem tivera Calias, apelidado o rico, e depois Xantipo e Páralo de Péricles.
 Não lhe sendo porém agradável sua companhia, ele a entregou de bom grado e com seu consentimento a um outro, e tomou Aspásia a quem amou singularmente, porque todas as vezes que saía de casa para ir à praça, ou a ela retornava, Péricles saudava Aspásia beijando-a. Nas antigas comédias, Aspásia é, por essa razão, chamada em muitas passagens a nova Onfalc e algumas vezes Dejanira, outras Juno; mas Cratino a chama abertamente prostituta nestes versos:

Ela gerou a sua Juno,
Aspásia, a prostituta desavergonhada.
Parece que Péricles teve dela um bastardo, porque Eupolis o introduz em uma comédia sua, chamada396 Demosii, interrogando Pirônides nestes termos:
- Meu filho bastardo ainda vive?
 Pirônides respondeu-lhe em seguida:
 - Ele seria homem feito certamente se não temesse essa má rameira.

Esta Aspásia, em resumo, foi tão celebrada e teve tanta fama, que Ciro, o que combateu contra o rei Artaxerxes, seu irmão, pelo império da Pérsia, deu o nome de Aspásia a uma das suas concubinas que ele mais amava, chamada antes Milto, natural da Fócida e filha de Hermótimo. Morto Ciro, em batalha, esta Aspásia foi aprisionada e conduzida ao rei seu irmão, junto a quem teve depois muito prestígio. Isto me veio à memória ao escrever esta vida, e me pareceu seria agir muito duramente rejeitando-o ou omitindo-o.

XLVIII. Acontecimentos da guerra de Samos

XLVIII. Voltando porém ao nosso tema, acusa-se Péricles de ter feito a guerra contra os de Samos e a favor dos de Mileto a pedido de Aspásia. Entre essas duas cidades que lutavam pela de Priena, eram mais fortes os sâmios. Os atenienses porém, intimaram-nos a que abandonassem o caminho das armas e viessem pleitear sua diferença diante deles onde se faria justiça. Os sâmios, todavia, não quiseram atender, razão pela qual Péricles foi até Samos, aboliu o governo da nobreza pouco numerosa, tomando como reféns cinquenta das principais personagens da cidade e mais outras tantas crianças que fez recolher à ilha de Lemnos. Há quem diga, sobre isso, que cada um dos ditos reféns lhe quis dar um talento397, além dos quais foi ele ainda presenteado com muitos outros por aqueles que não queriam ver a autoridade soberana do governo colocada entre as mãos da plebe. Pissutnes o Persa, lugartenente do rei, enviou-lhe além disso, por amizade dedicada aos de Samos, 10.000 escudos398 para que os perdoasse. Péricles, porém, nada recebeu de tudo isso, e tendo feito em Samos tudo quanto se tinha proposto fazer e estabelecendo ali um governo popular, voltou para Atenas. Os sâmios, entretanto, se rebelaram logo depois, recuperando seus reféns por intermédio desse Pissutnes que os raptou e forneceu aos demais o necessário para sustentar a guerra.

XLIX. Péricles dirigiu-se outra vez contra eles, não os encontrando de forma alguma ociosos ou aterrados, mas muito bem decididos a recebê-lo e a combater pela hegemonia marítima. Houve assim entre eles uma grande batalha perto da ilha denominada Trácia399, vencendo-a Péricles com muita glória, derrotando, com quarenta e quatro velas apenas; os seus inimigos que contavam setenta, das quais vinte navios de guerra. Prosseguindo ao mesmo tempo em sua vitória ele conquistou também o porto de Samos, e manteve os sâmios sitiados dentro da sua cidade, onde ainda demonstravam ousadia bastante para sair algumas vezes e combater diante de suas muralhas. Contudo, tendo chegado depois a Péricles um reforço maior de navios, foram os sâmios totalmente encerrados dentro da cidade.

L. Péricles, tomando em seguida, sessenta galeras, lançou-se em pleno mar, querendo, como dizem alguns, ir ao encontro de navios Fenícios que vinham em socorro de Samos, o mais longe possível da cidade; ou, como diz Estesimbroto, para ir à ilha de Chipre, o que não me parece verosímil. Qualquer que tenha sido a sua intenção porém, cometeu ele uma grave falta, porque Melisso, filho de Itágenes, grande filósofo e. ao tempo, capitão dos Sâmios, vendo que tinham ficado poucos navios para o assédio da cidade e ainda que os comandantes encarregados não eram gente de guerra experimentada, persuadiu seus concidadãos a fazer uma sortida contra eles resultando em batalha que os Sâmios ganharam, e aprisionando muitos atenienses puseram a pique vários dos seus navios, razão pela qual, tornando-se senhores da marinha, trouxeram para dentro da cidade muitas coisas necessárias à guerra e de que antes careciam. Escreve Aristóteles, entretanto, que o próprio Péricles já tinha sido antes vencido numa batalha naval por Melisso.

LI. Quanto ao resto, os sâmios, para impor aos prisioneiros de Atenas injúrias semelhantes às que deles haviam recebido, gravaram-lhes uma coruja400 na fronte, porque a coruja é a marca da moeda de Atenas, da mesma maneira que os atenienses tinham impresso na testa dos seus prisioneiros uma «samena», isto é, uma espécie de embarcação de Samos, baixa de proa mas bojuda e larga de ventre, prestando-se bem para singrar o mar alto, veloz como veleira e assim denominada por ter sido na ilha de Samos que se construiu a primeira com essa forma ao tempo do tirano Policrates, que determinou sua fabricação. Conta-se que pela impressão desses caracteres, diz o poeta Aristófanes, em sátira velada, numa passagem de suas comédias: «Os Sâmides são homens muito letrados». Advertido, Péricles, da derrota de seu exército, veio incontinente em seu socorro. Melisso saiu-lhe ao encontro dando-lhe batalha que perdeu, sendo repelido até dentro da cidade, onde Péricles o encerrou com um tapume de muralha circundando-a toda, preferindo obter a vitória e tomar a praça pela demora do tempo e com despesa, do que expor seus concidadãos ao perigo de serem mortos ou feridos. Quando viu, entretanto, que estes se aborreciam com a longa espera e queriam a toda a força vir as mãos, tornando-se assim muito difícil retê-los, Péricles dividiu todo o seu exército em oito corpos, entre os quais fazia tirar a sorte e aquele a quem tocava uma fava branca mantinha-se em repouso, alimentando-se bem, enquanto os outros sete combatiam. Conta-se ser essa a origem de chamar-se ainda hoje um dia branco, aquele no qual se passa bem, em pleno prazer, em recordação dessa fava.

LII. Artemão inventa as máquinas de guerra para os assédios

LII. Escreve o historiador Éforo, ter sido ali, que começou pela primeira vez401 a usar engenhos para derrubar grandes muralhas, tendo Péricles considerado admirável a novidade, porque foi Artemão, um engenheiro que as inventou, fazendo-se levar por toda a parte sobre uma cadeira para orientar e apressar as obras, em virtude de ser aleijado de uma perna, razão pela qual foi chamado Periforetos. Heraclides o Pontico, entretanto, contraria nisso a Éforo, tendo em vista os versos de Anacreonte, nos quais Artemão é chamado Periforetos, muitas gerações antes desta guerra de Samos, e diz que este Periforetos era um homem excessivamente delicado que por temer tão desvairadamente todas as coisas, não se movia de casa a maior parte do tempo, mantendo-se aí sempre sentado, tendo a seu lado dois servidores segurando-lhe sobre a cabeça um escudo de cobre, de medo que desabasse qualquer coisa sobre ele e se era por acaso constrangido a sair para fora fazia com que o levassem num pequeno leito suspenso bem junto ao chão, tendo sido, por esse motivo, apelidado Periforetos.

LIII. Samos subjugada

LIII. Ao cabo de nove meses finalmente, os sâmios foram constrangidos a render-se e Péricles fez abater e arrasar suas muralhas, tirou-lhes todos os navios e os condenou a pagar uma grande quantia em dinheiro, da qual exibiram prontamente urna parte, e o resto dentro de um prazo prefixado, oferecendo reféns como garantia desse pagamento. Duride o Sâmio, porém, nessa passagem, amplia, muito lamentavelmente as coisas, para imputar aos atenienses e a Péricles mesmo, uma crueldade inumana, à qual Tucídides, nem Éforo nem o próprio Aristóteles fazem menção. O que ele escreve, e não me parece verdadeiro, é ter feito, Péricles, levar os capitães das galeras e os próprios soldados de Samos, para a praça da cidade de Mileto, onde os fez prender em postes de madeira durante dez dias, ao fim dos quais, a pobre gente sem aguentar mais, foi morta a golpes de bastão com que se esmagaram suas i a becas, lançando-se fora os corpos sem a permissão de serem sepultados. Duride, sendo useiro e vezeiro em extravagar para fora da verdade, mesmo em outros assuntos onde não há nada que o toque particularmente, parece, nessa narração, ter aumentado com palavras as calamidades do seu país ultrapassando seu dever para caluniar os atenienses e torná-los odiosos.

LIV. Subjugada a cidade de Samos, voltou Péricles para Atenas, onde fez inumar com honrarias os ossos dos que tinham morrido nessa guerra e ele próprio proferiu a oração fúnebre402 em seu louvor segundo o costume, causando tão profunda admiração que ao descer da cátedra de onde havia arengado, as senhoras da cidade vinham-lhe beijar as mãos pondo-lhe na cabeça, coroas e chapéus de flores, como se faz aos campeões vitoriosos quando voltam dos jogos onde conquistaram o prêmio. Disse-lhe porém, Elpinice, aproximando-se dele: «São em verdade belos feitos os teus, Péricles, e é bem digno de chapéus triunfais, o teres perdido para nós muitos concidadãos bons e valentes, não em guerra com os medos, fenícios e bárbaros como fez meu irmão Cimon, mas destruindo uma cidade de nossa própria nação e nossa aliada». A essas palavras Péricles sorrindo docemente, respondeu com os versos de Arquíloco:

Sendo assim tão velha não te perfumes mais.

LV. Escreveu-se entretanto que ele se orgulhou profundamente, concebendo de si mesmo uma opinião extraordinária após ter subjugado os sâmios, dizendo que Agamenon demorara dez anos para conquistar uma cidade bárbara, enquanto ele, em nove meses, conquistara a mais poderosa cidade de toda nação jónica. Não era, em verdade, sem motivo que ele atribuía a si mesmo tanta glória, porque houve certamente grande dúvida e não menor perigo nessa conquista se é verdade o que escreve Tucídides quando diz ter faltado pouco para os de Samos arrebatarem a superioridade e o domínio do mar aos atenienses.

LVI. Guerra do Peloponeso

LVI. Quando depois a guerra do Peloponeso já estava pendente403, como "os coríntios guerreassem o s de Corfu. Péricles persuadiu o povo de Atenas a enviar socorro aos corfiotas e a reunir à sua liga essa ilha poderosa no mar dizendo que, logo mais, eles teriam os peloponesianos como inimigos declarados. Decidiu assim o povo, suscitado por file, a socorrer os de Corfu, enviando-se a sua ilha o Lacedemônio, filho de Cimon, com dez galeras apenas, como se fosse uma zombaria, porque toda a casa de Cimon tinha afeição e grande amizade aos lacedemônios, razão pela qual fez Péricles entregar tão pequeno número de navios a esse Lacedemônio, enviando-o a Corfu contra sua vontade a fim de que, se não realizasse nesse cargo nenhuma ação digna de memória, caísse ainda mais sobre ele a suspeita de favorecer aos da Lacedemônia. Enquanto Péricles viveu, impediu sempre, o mais que pôde, o êxito dos filhos de Cimon por não serem nascidos em Atenas como seus nomes indicavam, sendo assim estrangeiros, chamando-se um Lacedemônio, outro Tessaliano e um terceiro Eliano, todos gerados por mãe nativa do país da Arcádia. Censurado porém, por ter enviado essas dez galeras apenas, socorro bem pequeno para os solicitantes e matéria bastante para os que diziam mal dele, Péricles enviou outras mais tarde, em maior número, as quais chegaram após a batalha. Os coríntios extremamente irritados com o fato foram queixar-se ao conselho dos lacedemônios, onde propuseram muitas acusações e queixas contra os atenienses, fazendo outro tanto os megarianos, sob alegação de lhes terem negado os de Atenas seus portos e mercados,404 bem como todo o comércio e tráfico em lugares de seu domínio, o que feria diretamente as leis comuns, e os artigos de paz acordados e jurados por todos os gregos. Os eginetas além disso, sentindo-se pisados e tratados com excessiva violência, enviaram secretamente suas queixas e lamúrias aos lacedemônios não ousando abertamente lamentar-se contra os de Atenas.

LVII. Nesse entrementes a cidade de Potideia, dominada então por Atenas, embora fundada na antiguidade pelos coríntios, rebelou-se e foi sitiada pelos atenienses, fato que apressou a guerra. Diante dessas queixas entretanto, foram primeiramente enviados embaixadores à Atenas e Arquidamo, rei dos lacedemônios, fez tudo o que pôde para levar a acor do a maior parte dessas diferenças, apaziguando e serenando seus aliados, de forma que os atenienses não teriam tido a guerra pelas demais acusações feitas contra eles, se houvessem condescendido em revogar o decreto imposto aos megarianos, razão pela qual Péricles que resistiu mais que nenhum outro a esta revogação e preparou e incitou o povo a perseverar teimosamente no que havia sido decidido contra os ditos megarianos, foi considerado causa e autor único da guerra peloponesíaca. Conta-se assim que os lacedemônios enviaram embaixadores a Atenas para discutir essa questão, e como Péricles citasse uma lei que proibia a retirada do quadro sobre o qual se escrevesse um édito público, houve um dos embaixadores da Lacedemônia chamado Poliarces, que lhe disse: «pois bem, não o tires, virão somente, porque não há lei nenhuma que o proíba».

LVIII. Considerou-se espirituoso o dito, mas nem por isso Péricles cedeu. Parece portanto que ele tinha algum motivo secreto de especial e particular malquerença contra os megarianos, e querendo encobri-lo com uma causa pública e manifesta405, retirou-lhes e excluiu-os das terras sagradas que eles lavraram e para isso fez decretar que lhes fosse enviado um arauto para intimá-los a deixar o lugar, devendo o mesmo arauto ir até os lacedemônios para acusar diante deles aos megarianos406. É certo que esse decreto foi posto em execução por Péricles, não havendo nele nada que não fosse justo e razoável, tendo acontecido todavia, que o arauto enviado morreu, supondo-se que os megarianos o tivessem feito morrer. Charino, por esse motivo, propôs incontinente um decreto contra eles, declarando-os inimigos mortais dos atenienses para sempre, sem nenhuma esperança de reconciliação e dispondo que se um megariano pusesse o pé dentro do território da Ática fosse punido de morte, e que os capitães anuais quando fizessem o seu juramento ordinário, jurassem, entre os outros artigos, que todos os anos entrariam em armas, por duas vezes, pelo interior do país e em prejuízo dos megarianos, e que o arauto Antemócrito fosse enterrado no local chamado então Portas Triasianas e agora denominado Dipilo407. Os megarianos, negando decididamente terem sido causa da morte desse Antemócrito, lançavam a culpa sobre Aspásia e Péricles, alegando como testemunho os versos do poeta Aristófanes em sua comédia intitulada Acharnes tão conhecidos que o povo mesmo os tem na boca:

Nossos jovens embriagados foram
Um dia até Mégara, onde raptaram
Uma prostituta chamada Simeta.
Os de Mégara, irritados, em lugar dela,
Vieram apanhar furtivamente
Duas raparigas de Aspásia.

LIX. É assim bem difícil saber a verdade da primeira origem e causa primitiva desta guerra; todos historiadores porém, estão de acordo em que Péricles foi o principal empecilho à revogação do decreto lavrado contra os megarianos. Mantêm alguns que foi por autêntica magnanimidade, e com bom julgamento, que ele persistiu no que lhe parecia mais certo, porque considerava que o pedido dos lacedemônios, não era senão um ensaio para sondar se os atenienses pretendiam ceder-lhes, e que obedecer nisso seria, evidentemente, confessar que se sentiam mais fracos. Outros, pelo contrário, dizem que foi por arrogância e teimosia, para mostrar sua autoridade e poder, que ele não deu importância aos lacedemônios. Mas a pior versão, a qual, entretanto, tem maior número de testemunhos para confirmá-la, é dada mais ou menos nestes termos: Ofídias, o fazedor de imagens408 como já o dissemos antes, empreendera fazer a estátua de Palas e sendo amigo de Péricles, tinha grande prestígio junto a ele. Isso suscitou-lhe a inveja de alguns malevolentes, os quais desejando sondar o juízo que o povo faria de Péricles, atraíram Menão, um dos operários que trabalhava sob a direção de Ofídias e o fizeram vir à praça e requerer ao povo garantia pública para poder revelar e acusar Ofídias de cer to crime por ele cometido. O povo recebeu sua denúncia, e sua acusação foi ouvida em plena assembleia popular, onde não se fez nenhuma menção de roubo, porque Ofídias, a conselho e orientação de Péricles, tinha colocado e aplicado o ouro na composição da imagem de tal forma que se podia tirá-lo e pesá-lo409. Péricles alegou publicamente o fato aos acusadores, dizendo-lhes que o pesassem. Mas era a glória de suas obras que excitara essa inveja, tanto mais e especialmente porque, tendo gravado no escudo da deusa a batalha das amazonas, entalhara seu retrato ao natural, na personagem de um velho calvo, que levanta nas mãos uma grande pedra. Retratara! também aí a Péricles muito belo, combatendo contra uma amazona num gesto tal, que sua mão, levantando um dardo diante do rosto, parecia querer esconder e cobrir essa semelhança num singular artifício, embora ela se descubra e revele de um lado e de outro. Ofídias foi assim lançado à prisão, onde morreu de doença ou talvez envenenado por seus inimigos, como dizem alguns, para estimular ainda mais a suposição e a calúnia contra Péricles. Como quer que seja, o povo deu imunidade e franquia de todos os subsídios ao acusador Menão, de acordo com um decreto proposto por Glicão que instou junto aos capitães para que o tomassem sob sua proteção, e cuidassem da segurança de sua pessoa.

LX. Brigas contra Péricles

LX. Por esse mesmo tempo foi também Aspasia acusada de não crer nos deuses, sendo acusador Hermipo, o escritor de comédias, que a denunciou, além disso, como alcoviteira de Péricles, recebendo em sua casa as burguesas da cidade que se entregavam a ele. Diopites, propôs concomitantemente um decreto, determinando que fosse feito um inquérito sobre os descrentes sem fé nas coisas divinas, que usinavam certos propósitos novos, relativos ao ar e ao céu, dirigindo a suspeita contra Péricles por causa de Anaxágoras. O povo aceitou e aprovou esse Inquérito, sendo proposto além disso por Dracontides, que Péricles prestasse contas do dinheiro por ele despendido junto aos pritanos, que e ram como superintendentes das finanças, e que os juízes julgadores, dessem as suas sentenças no interior da cidade sobre o altar. Agnão, porém, retirou essa disposição do decreto, fazendo prescrever em seu lugar, que o processo fosse julgado por 1.500 juízes, denominando-se a ação de roubo, ou concussão ou injustiça, como se quisesse. Ora, quanto à Aspásia, Péricles a salvou pela piedade e compaixão inspirada aios juízes, suplicando com grande afeição por ela e chorando intensamente enquanto a causa se disputava, como o escreve Esquines. Quanto a Anaxágoras, todavia, temendo não conseguir o mesmo, enviou-o para fora da cidade acompanhando-o pessoalmente.

LXI. Quanto ao resto, vendo que tinha incorrido na desgraça popular por causa de Ofídias, e temendo por isso, o resultado do julgamento, inflamou a guerra sempre adiada e que apenas fumegava, esperando fazer esvair-se por esse meio as acusações lançadas contra ele, eliminando assim a inveja que lhe tinham, porque o povo, encontrando-se em grandes questões cheias de perigo, lançar-se-ia em seus braços, entregando-se totalmente a ele, tal era sua autoridade e reputação. São essas as causas pelas quais Péricles não quis permitir, como se conta, que os atenienses cedessem em nada aos lacedemônios, embora não se saiba exatamente o que se deva afirmar quanto a isso. Os da Lacedemônia, porém, conscientes de que se eles o pudessem afastar e arruinar poderiam mais facilmente, manejar a seu bel prazer os atenienses, enviaram-lhes emissários dizendo-lhes que deviam purgar sua vida do crime ciloniano410, e isso por saberem que a raça de Péricles, pelo lado materno, estava maculada por esse crime, como o escreve Tucídides. Essa prova, entretanto, saiu contrária, à esperança dos enviados, porque em vez de desconfiar de Péricles e caluniá-lo, seus concidadãos o honraram ainda mais, confiando nele como nunca ao verem que os inimigos o temiam dessa forma.

LXII. Por essa razão, antes do rei Arquidamo entrar com o exército dos peloponesianos no país da Ática, Péricles prometeu aos atenienses, que se por acaso, devastando e destruindo o país aberto, Arquidamo poupasse suas terras e seus bens pela amizade e hospitalidade mantida entre ambos, ou antes, para dar motivo a que seus inimigos o caluniassem, ele doaria, nessa hipótese, à coisa pública as terras e as casas que possuía no campo. Desceram assim os lacedemônios, com grande poder, em companhia dos seus aliados e confederados ao país da Ática, sob o comando do rei Arquidamo, e arruinando tudo em sua passagem penetraram até o burgo de Acames, onde acamparam, supondo que os atenienses não suportariam jamais a sua presença nesse lugar e sairiam a seu encontro para defender o próprio país e mostrar que não tinham o coração enfraquecido. Péricles porém, considerava muito perigoso aventurar uma batalha na qual entrava em jogo a própria cidade de Atenas, contra 60.000 infantes, tanto do Peloponeso quanto da Beócia, porque esse era o número dos que havia nessa primeira incursão. Aos que queriam combater a qualquer risco, e perdiam a paciência vendo assim destruir o seu país diante dos próprios olhos, ele os reconfortava e acalmava, observando, «Que as árvores talhadas e cortadas voltam em pouco tempo, mas que é impossível recuperar os homens, uma vez perdidos.»

LXIII. Sua constância, sabedoria

LXIII. Péricles, entretanto, não fazia jamais reunir o povo em conselho, temendo ser obrigado pela multidão a fazer alguma coisa contra a vontade, e agia como o piloto prudente quando a tormenta o surpreende em alto mar, o qual distribui boa ordem a todas as coisas do navio, mantendo prontas as defesas conforme à exigência de sua arte, sem deter-se diante das lágrimas ou súplicas dos passageiros, atormentados pelo terror e de coração opresso. Com a cidade bem fechada e dispondo de bons e seguros guardas para tudo, ele se orientava pela própria razão, sem preocupar-se com os que gritavam e se irritavam contra ele, embora muitos amigos seus lhe suplicassem com grande insistência e muitos inimigos o ameaçassem e acusassem, e apesar de se cantarem pela cidade canções, cheias de zombaria, em desabono e censura do seu governo, como se ele fosse um capitão tímido, o qual, por covardia, abandonasse todas as coisas como presa dos inimigos.

LXIV. Cleion, entre outros, era já um daqueles que mais o debicavam, começando a ter prestígio e a cair nas graças da plebe pela ira e descontentamento, despertos contra Péricles, como se revela nos versos difamatórios de Hermipo, publicados a esse tempo:

Rei dos sátiros, porque
Não tens a ousadia
De tomar nas mãos pique nem lança,
Visto que como homem cheio de valentia,
Tu nos falas ordinariamente
Da guerra, com tanta altivez,
Prometendo tua corajosa linguagem
A bravura de um nobre cavaleiro?
Depois enraiveces quando o ardente Cíeon te mete o dente.
Como se fosse a pedra escura411
Que aguça o corte da espada!

LXV. Péricles, todavia, não se comoveu de forma alguma com tudo isso, mas suportando pacientemente, sem dizer palavra, todas essas injúrias, todas essas sátiras e debiques dos malevolentes, enviou uma frota de cem velas ao Peloponeso, recusando-se a ir pessoalmente para conservar-se em casa e manter freada a cidade até que os inimigos se retirassem. Para entreter a plebe irritada e aborrecida da guerra, ele reconfortava os pobres fazendo-lhes distribuir algum dinheiro público e repartindo-lhes as terras conquistadas, porque tendo feito expulsar todos os eginetas para fora do seu país, Péricles determinou a repartição da ilha de Egina entre os burgueses de Atenas, por sorteio. Era assim para eles de alguma consolação na adversidade, ouvir falar no prejuízo que também sofriam seus inimigos, porque o exército de mar enviado ao Peloponeso, devastava bastante o país aberto e saqueava muitos burgos e pequenas cidades, e o próprio Péricles, entrando por terra, no país dos megarianos percorreu-o e pilhou-o todo, de forma que os peloponesianos recebendo dos atenienses, pelo mar, tanto dano quanto lhes causavam em terra, não teriam feito durar a guerra, nem a sustentariam muito tempo, cansando-se logo como Péricles havia predito, se alguma divina potestade não tivesse impedido secretamente o curso da razão humana.

LXVI. Peste que devasta Atenas

LXVI. So breveio em primeiro lugar uma peste412 tão contagiosa e violenta, que levou toda a flor da juventude e enfraqueceu profundamente as forças de Atenas. A doença, trabalhando os corpos dos sobreviventes, levou seus corações a se azedarem tão duramente contra Péricles que tendo o mal perturbado o bom senso de todos, houve uma revolta contra ele, como acontece com os pacientes em relação ao médico ou com as crianças em relação aos pais. Chegou-se até a ultrajá-lo por instigação dos seus inimigos, os quais espalhavam que a peste não procedia de outra causa senão da quantidade de camponeses atraídos, em massa, para dentro da cidade, em pleno estio, onde eram constrangidos a alojar-se em promiscuidade, muitos conjuntamente, sob pequenas tendas e cabanas abafadiças, onde se mantinham agachados durante todo o dia, sem nada fazer, quando estavam, antes, habituados a viver ao ar livre, puro e aberto. É causador de tudo isso, diziam eles, quem pela suscitação desta guerra acumulou os povos dos campos dentro das muralhas da Cidade, sem empregá-los em coisa alguma, mantendo-os encerrados como animais no interior de um estábulo, infectando-se uns aos outros com o contágio pestilencial, negando-lhes qualquer meio de arejar-se um pouco para poderem, ao menos, respirar livremente.

LXVII. O povo se irrita contra Péricles e o condena a uma pesada multa

LXVII. Querendo, Péricles remediar a isso, prejudicando também o inimigo, fez armar cento e cinquenta navios onde embarcou bom número de Infantes armados e de cavaleiros. A vista de tão grande força despertou intensa esperança em seus concidadãos e não menor espanto nos inimigos. Quando, porém, estava pronto para fazer-se a vela, com toda a gente já embarcada, inclusive ele próprio na galera capitânia, aconteceu que o sol entrou repentinamente em eclipse e o dia sucumbiu, provocando profundo espanto cm toda companhia, como se fosse um grave, sinistro e perigoso presságio. Vendo Péricles o piloto de sua galera desnorteado e sem saber o que fazer, estendeu seu manto sobre ele cobrindo-lhe os olhos e perguntou-lhe se isso lhe parecia coisa ameaçadora. Respondeu-lhe o piloto negativamente: «e então, disse Péricles, não há diferença entre isto e aquilo, a não ser que o corpo, causador das trevas, é maior do que meu manto sobre teus olhos». São assim considerados esses fenômenos pelas escolas dos filósofos, mas a verdade é, que Péricles, fazendo-se a vela, não realizou nenhuma façanha digna de tão grande aparato. Indo estabelecer o sítio da cidade santa de Epidauro, foi constrangido a levantá-lo, no momento em que se esperava sua conquista, em virtude da peste, tão violenta que não matou apenas os de Atenas, mas também a todos quantos se aproximaram deles e de seu campo, por pouco que fosse. Percebendo os atenienses extremamente indignados contra ele, Péricles tentou consolá-los e confortá-los sem consegui-lo entretanto, visto que, por maioria de votos, retiraram-lhe o cargo de comandante em chefe, e o condenaram a uma pesada multa em dinheiro no valor de quinze talentos413, segundo alguns que a dizem menor e no de cinquenta414 segundo outros. O acusador subscrito nessa condenação foi ou Cleon, como declara Idomeneu, ou Símias, como escreve Teofrasto. Heráclides, o Pontico, entretanto, se refere a um certo Lacratidas.

LXVIII. A peste lhe arrebata parentes e amigos

LXVIII. Ora, quanto a seus males públicos eles passaram logo, porque o povo depressa amainou a irritação desperta contra ele, da mesma forma que a vespa abandona o aguilhão ao picar. Quanto a sua vida privada, porém, não corriam bem seus assuntos domésticos, tanto por ter-lhe a peste levado muitos dos seus parentes e amigos, quanto porque, de longa data, mantinha-se ele em dissensão com os de sua casa, pois Xantipo, o mais velho dos seus filhos legítimos415, homem de má natureza, tendo desposado além disso, uma mulher jovem e pródiga, filha de Isandro, filho de Epílico, estava sempre, descontente com a estreita poupança de seu pai, que não lhe fornecia dinheiro a não ser muito escassamente c bem pouco de cada vez. Certo dia, por essa razão, ele enviou alguém, em nome de Péricles, a um de seus amigos para pedir-lhe dinheiro emprestado, sendo atendido. Como, porém, mais tarde, viesse o amigo pedi-lo de volta, Péricles não o quis pagar, chamando-o mesmo a juízo, por esse motivo. O jovem Xantipo indignado contra o pai, dizia mal dele publicamente pela cidade, zombando das ocupações em que passava o tempo na intimidade e das conversações que mantinha com os sofistas e professores de retórica. E como tivesse acontecido, num jogo de prêmios, que um dos campeões, ao disputar quem lançaria melhor o dardo, tivesse acidentalmente416 atingido e matado um certo Epitimio Tessaliano417, Xantipo ia dizendo por toda a parte que Péricles passara o dia inteiro a discutir com Protágoras, o retórico, para saber quem devia ser julgado culpado da morte, segundo a verdadeira e reta razão, o dardo, o arremessador ou quem organizara o jogo de prêmios. Estesimbroto escreve, além disso, que o rumor propalado pela cidade de que Péricles entretinha sua mulher418 foi disseminado pelo próprio Xantipo. Essa dissensão entre o pai e o fi lho durou, sem jamais reconciliar-se, até a morte, porque Xantipo morreu durante a peste geral, morrendo também nessa ocasião, a irmã germana de Péricles, o qual perdeu da mesma maneira a maior parte dos seus amigos, aliados e parentes, especialmente os que lhe eram mais úteis para o governo da república.

LXIX. Sua firmeza e sua grande alma

LXIX. Ele nunca, entretanto, fraquejou com tudo isso nem diminuiu a grandeza e elevação de sua coragem, quaisquer que fossem as desgraças tombadas sobre ele, nem jamais o viram chorar, nem vestir luto nos funerais de nenhum de seus parentes ou amigos, até a morte de Paralo, o último de seus filhos legítimos, porque somente a perda deste, enterneceu-lhe o coração, tendo ele tentado, ainda assim, manter-se em sua constância natural, conservando a costumeira gravidade, até que ao colocar um chapéu de flores sobre a cabeça, a dor o dominou quando viu o rosto do filho e ele começou, repentinamente, a soluçar alto, derramando muitas lágrimas, como jamais o fizera em toda a sua vida.

LXX. Ele retoma a direção dos negócios. Lei da burguesia de Atenas revogada. Número dos cidadãos

LXX. O povo, entretanto, tendo já ensaiado outros capitães e governadores, aprendeu por experiência que não havia nenhum de peso e autoridade suficientes para tão alto cargo, e chamou-o finalmente, à tribuna das arengas para ouvir seus conselhos, reconduzindo-o ao posto de capitão para a conduta dos negócios. A esse tempo ele se mantinha cerrado em sua casa, de luto, e na dor de suas adversidades domésticas. Alcibíades porém, e outros familiares e amigos seus, forçaram-no a apresentasse diante do povo que se escusou junto a ele da injustiça com que ingratamente o tratara. Péricles retomou então, como antes, o governo dos negócios públicos, e o seu primeiro ato foi requerer a revogação da lei, proposta antes por ele próprio, relativa aos bastardos, temendo que, à falta de herdeiro legítimo, viessem seu nome e sua casa a desaparecer com ele. Quanto a essa lei, entretanto, eis o que acontecera: estando Péricles no auge do seu prestígio, obtivera por meio dela que só fosse considerado burguês de Atenas quem nascesse de pai e mãe atenienses. Algum tempo depois, tendo o rei do Egito enviado de presente, ao povo ateniense, quarenta mil minas419 de trigo, para serem distribuídas entre os burgueses da cidade, foram muitos acusados, nessa ocasião, de bastardia e mestiçagem, fato antes ignorado, ou pelo menos a que ninguém dava importância, havendo alguns entre os indicados, condenados injustamente. Nada menos de cinco mil pessoas foram julgadas e vendidas como escravas. Os que ficaram para gozar dos privilégios da burguesia, e foram considerados cidadãos de Atenas, atingiram o número de 14.040.

LXXI. Filhos de Péricles e de Aspásia

LXXI. Causou muito má impressão que uma lei que tivera tanto poder, fosse assim revogada e cassada pelo próprio autor. A calamidade presente que caíra sobre a casa de Péricles, todavia fez fraquejar o coração dos atenienses, os quais julgaram ter ele sofrido suficientemente a punição de sua arrogância, e acreditando que o castigo se dera por expressa permissão e vingança dos deuses, sendo porém muito humana sua pretensão, permitiram-lhe que fizesse alistar seu bastardo no registro dos cidadãos legítimos de sua linhagem, dando-lhe o próprio nome. Esse bastardo, mais tarde, após bater os peloponesianos numa grande batalha naval, perto das ilhas Arginusas, foi executado por sentença do povo, junto com outros capitães seus companheiros.

LXXII. Péricles atacado pela peste

LXXII. Péricles foi finalmente atingido pela peste, não tão violenta nem aguda como a dos demais, mas fraca e lenta, e por longo tempo, a doença foi-lhe amortecendo a pouco e pouco a força e o vigor do corpo e superando a sua coragem serena e o seu discernimento seguro. É por isso que Teofrasto em suas máximas, na passagem em que discute se os costumes dos homens se transformam segundo as contingências, e se as paixões e aflições do corpo podem alterá-los, forçando-os a ultrapassarem os limites da virtude, narra que Péricles, durante essa moléstia, mostrou, certo dia, a um dos seus amigos que o fora visitar, não sabe que encantamento preservativo preso, pelas mulheres, ao seu pescoço, como uma coleira, querendo dar-lhe a entender que estava realmente mal pois suportava até, que lhe aplicassem esse disparate.

LXXIII. Suas últimas palavras. Situação e pesar dos atenienses depois de sua morte

LXXIII. Como Péricles estivesse, enfim, bem próximo da morte, a maior parte da gente de bem da cidade e os seus amigos vivos que ainda restavam, começaram a falar, em torno do seu leito, de sua virtude e do grande poder e autoridade que desfrutara, avaliando a grandeza de seus atos e contando o número de suas vitórias, porque ele vencera nove batalhas como capitão geral de Atenas e erigira outros tantos troféus em honra do seu país. Discutiam assim, entre si, sobre essas coisas como se ele já não se ouvisse, certos de que perdera a consciência. Ele, entretanto, tendo ainda lúcida a inteligência, percebera tudo, e começou a dizer "lhes: «que se espantava de os ver louvar tão exaltadamente o que ele tinha de comum com os outros capitães, num campo onde a sorte mesmo, tinha sua parte, sem contudo dizer o que era nele mais belo e maior: isto é, que nenhum ateniense, jamais vestira luto por sua causa.»

LXXIV. Péricles foi verdadeiramente um personagem extraordinário, não só pela doçura e clemência sempre mantidas no manejo de negócios tão grandes e entre tantos inimigos e malevolentes, mas também pela sua capacidade de julgar que o melhor dos seus mais gloriosos atos no poder absoluto por ele desfrutado, era não ter jamais concedido nada ao ódio, à inveja, ou à ira, nem ter-se nunca vingado sem piedade de nenhum inimigo seu. Parece-me assim que esse fato somente, tornava seu apelido de Olímpico, isto é, divino ou celeste, que de outra forma soaria excessivamente arrogante e soberbo, nem odioso nem invejado, mas ao contrário, adequado e conveniente, em razão da sua natureza tão benigna e bondosa, e de ter conservado suas mãos puras e limpas, em uma licença tão absoluta. Assim também reputamos os deuses, dignos de reger o mundo todo como autores de todos os bens e jamais causadores de nenhum mal. A verdade não é como dizem os poetas que perturbam e confundem os nossos espíritos com as suas desvairadas ficções. Chamam eles, o céu onde os deuses habitam, mansão segura que nada perturba e nem é agitada pelos ventos nem ofuscada pelas nuvens. Mansão sempre doce e serena, iluminada igualmente a todo o tempo por uma luz pura e clara, habitação própria e conveniente à natureza soberanamente feliz e imortal. E é aí que eles descrevem depois, os deuses, como cheios de desavenças, de inimizades, iras e outras paixões que não convêm sequer a homens prudentes e de bom senso. Este discurso porém viria talvez mais a propósito em um outro tratado.

LXXV. As questões em que se envolveram os atenienses logo após a morte de Péricles, fizeram-nos sentir e lastimar a perda que haviam sofrido. Aqueles mesmo que durante sua vida mal suportavam sua excessiva autoridade que os ofuscava, imediatamente depois de ter ele falecido, quando foram experimentados outros oradores e governantes, viram-se constrangidos a confessar que não podia haver natureza de homem mais moderada na sua gravidade, nem mais séria na sua doçura e bondade do que a dele. E esse poder tão invejado, que eles denominavam enquanto Péricles era vivo, como monarquia e tirania, apareceu então a eles, com a maior evidência, como tendo sido o baluarte salutar de toda a coisa pública, de tal forma explodiram e se revelaram, depois de sua morte, a corrupção e a maldade. Enquanto Péricles viveu, esses males foram sempre mantidos em inferioridade e fraqueza, sem conseguir aparecer ou pelo menos sem obter licença tal, que pudessem originar erros impossíveis de remediar.
 

Ver notas

Mais fontes de Atenas

Comparação entre Péricles e Fábio Máximo, de Plutarco

Vidas Paralelas: Fócion, de Plutarco

Vidas Paralelas: Aristides, o justo, de Plutarco

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