Notas

1326 - Sem que eles falem.
1327 - Esta frase deve ter falta de alguma coisa e muito embaraçou os sábios. Ficaria mais claro se escrevêssemos: eles só podiam dizer esse pr ovérbio comum. etc. O que significaria que se tendo deixado levar mais longe do que teriam desejado, voltaram-lhe a ponta contra o mesmo sentimento interior, pela vergonha de recuar. Vauvillicrs.
1328 - Leia-se: os escravos dos sátrupas e dos Intendentes dos reis Selêuco e Ptolomeu, etc.
1329 - Leia-se: que elas não lhes permitem a eles imiscuirem-se nos negócios domésticos.
1330 - Palene. cidade da Arcádia, no território da Lacedemônia. Havia outra cidade na Acaia, cuja semel hança de nome provoca confusão com esta. mas que se deve chamar Pclene.
 segundo o Escoliaste de Apolônio.
1331 - Malea é somente um promontório no sul da Macedónia.
1332 - Selásia, perto do rio Oeno ao oriente do verfto. com referência a Esparta.
1333 - Pausãnias chama-a Pafia. em suas Lacônicas, p. 276. Mas os sábios pretendem que se deve ler nesse lugar Pasifae.
1334 - No oriente da Lacedemõnia, ao lado da Messênia.
1335 - Ele vivia no tempo de Ptolomeu Evergeta I e de seu sucessor Pilopator. e por conseguinte no tempo de Anis e de Cleômenes. Foi autor de diversas obras historiai:; e mitológicas. Não 86 sabe qual a sua pátria.
1336 - Trezentos e sessenta mil escudos. Amyol. 2.801.250 libras francesas.
1337 - É chamado Emerepes, nos Apotegmas dos lacedemônios, cap. XXIX, et. XVI.
1338 - Leia-se: do deus. Vimos no começo do capitulo XVIII que Cleômbroto se havia refugiado no templo de Netuno.
1339 - Vários sábios acham que se deve ler: a Ceada, nome dado à prisão de Esparta.
1340 - No segundo ano da 102.» olimpíada, antes de J. C. ano 371. É Cleômbroto I.
1340b - A segunda parte contendo a biografia de Cleômenes III pode ser acessada aqui.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Vidas Paralelas: Agis IV, de Plutarco

Fontes primárias > Grécia Antiga  |  301 visualizações  |  8794 palavras  |  16,2 páginas

Recorte de A queda de Agis, rei de Esparta, gravura de Walter Crane. Do livro The Children's Plutarch: Tales of the Greeks by F. J. Gould, Harper & Brothers Publishers, 1910. Via Wikimedia Commons.

Agis IV (265-241 a.C.) foi um famoso rei da cidade de Esparta que reinou entre 245–241 a.C., ele ficou famoso por tentar reformar o Estado Espartano, reinstaurando as leis de Licurgo que haviam sido abandonadas no século 4 a.C. Essa biografia faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Agis IV e Cleômenes III foram comparados com Tibério e Caio Graco, dois irmãos que tentaram realizar reformas na república romana.

I. A tabula de Ixion é o símbolo dos ambiciosos

Não é sem propósito nem sem motivo que alguns julgaram que a fábula de Ixion foi composta contra os ambiciosos, tratando-se de uma nuvem que eles julgaram ser a deusa Juno, de cujo abraço surgiram os Centauros; assim também os ambiciosos, abraçando a glória como uma imagem da verdadeira virtude, jamais fazem ato totalmente puro e simples, nem se assemelham sempre em seus atos, mas produzem efeitos, onde há sempre alguma bastardia ou mistura de permeio, segundo a diversidade dos ventos que os inspiram, sendo ora incitados pela inveja ou pelo ciúme, ora pelo desejo de agradar a uma parte de homens, como os pastores dizem, numa tragédia de Sófocles, falando de seus rebanhos:

Nós os servimos, embora sejamos senhores,
E1326, sem falar, é preciso que os ouçamos.

Isso, na verdade, pode-se também dizer daqueles, que no governo das coisas públicas não têm outro objetivo que se acomodarem aos apetites e aos caprichos do povo, porque na verdade, eles servem e obedecem em tudo e por tudo, a fim de ter o título e a aparência, somente, de magistrados e de governadores, como em um navio, os marinheiros que estão na proa veem o que está adiante, melhor que os pilotos que manejam o timão à popa, e no entretanto, sempre se voltam par a eles e fazem o que eles lhes ordenam: assim aqueles que em seu governo não visam outro objetivo que a glória, são ministros escravos do povo e somente têm o nome de governantes. Aquele que fosse inteira e perfeitamente homem de bem, jamais ambicionaria glória alguma, a não ser enquanto ela lhe desse possibilidade de executar grandes coisas, a fim de que se confiasse ainda mais nele.

II. Perigo da ambição

II. É verdade que se deve permitir a um jovem de aspecto gentil e ambicioso de honras, que se vanglorie e se compraza com suas boas ações, porque, como diz Teofrasto, as virtudes despontam e florescem nessa idade e formam-se pelos louvores que se lhes atribuem; depois, vão aumentando e crescendo à medida que a razão e a coragem também crescem. Mas o excesso, por si mesmo e em toda a parte perigoso, é contagioso e mortal nas ambições daqueles que se dedicam ao desempenho de cargos públicos; pois se eles têm grande poder, fá-los cometer faltas manifestamente violentas, ações de loucos, porque não querem que a honra proceda da virtude, mas que seja ela a mesma virtude: seria pois necessário que eles dissessem ao povo o que Fócion respondeu certa vez a Antípater, que o queria obrigar a fazer algo que não era honesto: "Não poderias, disse-lhe ele, ter a Fócion por amigo e ao mesmo tempo por bajulador". Assim não podeis ter alguém que seja senhor e criado, nem que vos mande e vos obedeça, ao mesmo tempo; além do que é então necessário que sucede o inconveniente narrado na fábula da serpente, cuja cauda veio um dia queixar-se da cabeça, dizendo que ela queria, por sua vez, estar na frente e não ficar sempre atrás. A cabeça então satisfez-lhe o desejo, mas ela achou-se mal situada não sabendo nem como, nem por onde andar e sendo ainda culpada de que a cabeça ficasse toda lacerada, tendo que seguir contra o bom senso a quem não tinha vista, nem ouvido para poder conduzir-se. Vemos que o mesmo aconteceu a vários outros que no governo das coisas públicas tudo quiseram fazer segundo a vontade da multidão: pois tendo ficado preso a esse jugo de servidão, de querer em tudo e por tudo contentar ao povo, que bem frequentemente se agita, temerariamente e sem razão, eles não souberam depois retrair-se, nem reter ou diminuir o furor e a temeridade da multidão.

III. Esta impeliu os gregos a excessos, que eles mesmos não haviam previsto

III. O que me levou a falar neste assunto contra a ambição e a vã glória popular, foi a consideração do grande poder que ela tem, depois que considerei atentamente o que sucedeu a Tibério e Caio Graco, os quais, ambos de ilustre nascimento, tendo ambos sido educados muito bem, foram elevados ao governo, com muito boa intenção; no entretanto, ambos por fim perderam-se, não tanto por excessiva ambição de honra, como pelo temor da desonra, que procedia apenas de um coração grande e nobre; pois tendo recebido do povo várias demonstrações de amizade e de benevolência, tiveram vergonha de ficar, por assim dizer, devedores, e procuraram, à porfia, superar as honras que o povo lhes prestava, com novas leis e novas ordens, que davam para proveito e vantagem do povo; e o povo por sua vez também os honrava tanto mais quanto eles se esforçavam para agradá-lo. Assim com essa ambição igual, inflamando-se uns aos outros, eles, procurando sempre agradar ao povo, e o povo, honrá-los, não se puseram em guarda, prudentemente e acharam-se, por fim, assaz embaraçados em seus compromissos, não mais portanto, podendo dizer1327 este provérbio:

Ainda que, por si mesma não seja a coisa honesta,
O desistir seria já desonesto.
O que poderás por ti mesmo facilmente julgar, pela exposição clara da história.

IV. Plutarco os põe em confronto com Agis e Cleômenes

IV. Comparamos, outros dois homens, ambos reis da Lacedemônia, Agis e Cleômenes, que querendo aumentar o poder e a autoridade do povo, como os dois romanos e restabelecer o justo e o honesto governo da Lacedemônia, que há muito estava fora de uso, incorreram ambos, do mesmo modo, na ira dos grandes, que nada queriam perder nem diminuir de sua costuma da avareza. É verdade que os dois lacedemônios não eram irmãos, mas seguiram ambos um mesmo e mui semelhante modo de governar, que começou deste modo:

V. Genealogia de Agis

V. Depois que a ambição e o desejo de amontoar ouro e prata penetrou na cidade de Esparta, e com as riquezas vieram também a avareza e a mesquinhez, o desejo dos prazeres e das delícias, Esparta viu-se incontinente destituída de muitas grandes e honrosas preeminências e por muito tempo ficou humilhada e amesquinhada, até que Agis e Leônidas subiram ao trono, sendo Agis, da família dos Euritionidas, filho de Eudamidas, sexto em linha reta, depois de Agesilau, que tinha, sido o maior homem e o mais poderoso de toda a Grécia, no seu tempo: Agesilau teve um filho de nome Arquidamo, que foi derrotado pelos messapianos, diante de uma cidade da Itália, que se chama Mandônio. Arquidamo deixou dois filhos, Agis, o mais velho, e Eudamidas, mais moço, que foi rei, tendo seu irmão Agis, sido morto perto da cidade de Megalópolis por Antípater, sem deixar descendência. Este, deixou um filho que se chamou Arquidamo, e Arquidamo, um outro Eudamidas, e Eudamidas, Agis, do qual nos ocupamos presentemente. Leônidas, também filho de Cleônimo, era da outra descendência real dos Agiadas, oitavo em linha reta depois de Pausânias, o que derrotou Mardônio, lugar-tenente do rei da Pérsia, perto da cidade de Platéia: Pausânias teve um filho que se chamou Plistonax, Plistonax, também teve um filho de nome Pausânias, que fugiu de Esparta para a cidade de Tegeu e no lugar dele, foi rei seu filho mais velho, Agesipolis, que morreu também sem descendência; Cleômbroto, seu irmão mais moço, sucedeu-lhe no trono. Cleômbroto teve dois filhos, um outro Agesipolis e Cleômenes; destes, Agesipolis foi rei pouco tempo, e não teve filhos: mas seu irmão Cleômenes que foi rei depois dele, teve dois, Acrotato, o mais velho que morreu quando seu pai ainda vivia, e Cleônimo o mais moço, que viveu ainda depois dele, e no entretanto não foi rei, mas o foi seu sobrinho Areo, filho de Acrotato. Areo morreu na cidade de Corinto e seu filho, que teve também o nome de Acrotato, sucedeu-lhe no trono, o qual morreu também em batalha na cidade de Megalópolis, onde foi derrotado pelo tirano Aristodemo e deixou sua mulher grávida, que depois de sua morte deu à luz um filho, do qual Lecnidas, filho de Cleônimo, teve a tutela; tendo seu pupilo morrido em tenra idade, a sucessão ao trono por morte dele recaiu sobre ele mesmo; mas seus costumes jamais foram convenientes nem dignos de seus cidadãos. Pois, embora pela corrupção universal de todo o governo, todos os cidadãos igualmente se houvessem desencaminhado, Leônidas tinha realmente grande dose de dissolução e mais visível extravio da antiga maneira de viver dos lacedemônios do que qualquer outro, pois ele havia também por mais tempo vivido nos palácios e frequentado a companhia dos príncipes e sátrapas, seguindo também a corte de Selêuco, do qual havia trazido a pompa e o orgulho muito em voga naqueles salões, na Grécia, onde dominam as leis e a razão.

VI. Caráter virtuoso de Agis

VI. Agis, ao contrário, sobrepujou em cortesia e gentileza, em valor e coragem, não somente a Lecnidas, mas também a todos os outros que tinham reinado em Esparta depois do grande Agesilau e não tendo ainda chegado aos vinte anos, vivendo opulentamente entre as delícias e voluptuosidades supérfluas de duas mulheres, Agesistrata, sua mãe, e Arquidamia, sua avó, que tinham mais ouro e dinheiro do que qualquer outro lacedemônio, começou no entretanto bem depressa a resistir a tais prazeres e à ânsia incontidade ser agradável, pela graça de sua beleza, eliminando todo enfeite e adorno de sua pessoa, fugindo de todos os prazeres e delícias, despindo-se de toda superfluidade, até mesmo chegando a se vangloriar de andar vestido com simplicidade, coberto com um manto pobre, desprezando e descuidando-se do comer, do lavar-se e de todas as conveniências do viver da antiga disciplina lacedemônia, dizendo publicamente que só queria ser rei pela esperança de restabelecer um dia tal forma de viver, por meio da autoridade real.

VII. Novidade introduzida em Esparta por Epitadeu. Decadência da disciplina

VII. Tal disciplina havia começado a se corromper e estragar, desde quando os lacedemônios tinham arruinado o poder dos atenienses, locupletando-se de ouro e prata: no entretanto, haviam ficado sempre o número das partes e porções das heranças que Licurgo tinha instituído e sempre tinha o pai deixado ao filho, sucessivamente o seu, tal ordem e igualdade foi de algum modo conservada, e por isso tinha-se preservado o governo de vários outros erros, até que um personagem de grande autoridade, chamado Epitadeu, homem rude, altivo e soberbo, que desempenhava o ofício de éforo, teve uma questão contra seu próprio filho, tão áspera, que por ódio a ele, promulgou uma lei que permitia a qualquer um dar sua herança ou bens, ainda em vida ou depois da morte, por testamento, a quem quisesse. Ele propusera esta lei para satisfazer uma sua raiva particular e os outros a aceitaram para servir à própria avareza, o que foi causa de se abolir e desorganizar uma tão bela instituição: pois os ricos começaram a adquirir de todos os lados, despojando os verdadeiros herdeiros de suas sucessões, e assim em pouco tempo as riquezas passaram para um pequeno número de pessoas e houve ao mesmo tempo grande pobreza na cidade de Esparta, a qual foi motivo de que cessassem todos os exerci-nos honestos e liberais e se introduzissem os mecânicos, com tal ódio e inveja contra os que possuíam bens, que ficaram ao todo apenas uns setecentos espartanos e desses, não mais de cem possuíam terias e propriedades: todos os outros eram uma multidão de pobres e sofredores que viviam na cidade, sem uma posição qualquer honrosa, marchando de má vontade e covardemente para a guerra, contra inimigos externos e não esperando outra coisa que alguma ocasião de se revoltar e de provocar uma mudança interna.

VIII. Tentativas de Agis para restaurar o gosto por aquela antiga severidade

VIII. Agis, portanto, julgando que seria coisa muito boa, como de verdade seria mesmo, repovoar a cidade e restaurar a antiga igualdade, ia sondando os corações e as vontades dos homens; constatou, contra sua esperança, que os moços foram os primeiros a lhe dar ouvidos, a se reunir do lado da virtude, trocando facilmente e mudando, como um vestuário, sua maneira de viver, para reconquistar sua liberdade, mas a maior parte dos antigos, tendo envelhecido na corrupção, temiam voltar à austeridade das leis de Licurgo, como um escravo fugitivo, treme de medo quando o levam de novo à presença de seu senhor; por isso, censuravam a Agis quando ele vinha deplorar e lamentar ante eles a infelicidade do estado presente e a lastimar a honra e a dignidade antiga que Esparta tivera no passado, exceto Lisandro, filho de Libis, e Mandroclidas, filho de Ecfanes, e ainda Agesilau, que aprovaram entusiasticamente a sua ideia e o exortaram a continuar com perseverança. Lisandro era o melhor e o mais estimado dos personagens da cidade: Mandroclidas, por sua vez, era o mais hábil para dirigir um empreendimento em toda a Grécia, sendo sua astúcia e sagacidade, acompanhadas de coragem; Agesilau era tio do rei. homem eloquente, mas voluptuoso e avarento: e o pior pelo que se via exteriormente, foi que seu filho Hipomedon, impelia-o e o incitava a favorecer essa empresa: tinha ele combatido em várias guerras, com coragem e valor, e tinha igualmente grande poder entre os moços, pelas suas amizades; mas a verdadeira causa secreta que mais o levou a entrar na conspiração foi a multidão de suas dívidas, das quais esperava livrar-se, com as modificações do governo.

IX. Conquista sua mãe

IX. Logo que Agis o conquistou, procurou por meio dele conquistar também sua mãe, que era irmã do mesmo Agesilau e mulher que gozava de grande prestígio, pelo número ingente de amigos que possuía, de servidores, de criados e de devedores da cidade, por meio dos quais ela manejava conforme sua vontade uma boa parte dos negócios do governo: tendo-lhe manifestado o seu intento, a princípio ela se admirou e disse-lhe que se calasse, se tinha um pouco de bom senso e evitasse ter na ideia coisas que não eram nem possíveis, nem úteis: mas, quando Agesilau provou-lhe e demonstrou as grandes vantagens que se poderia obter disso e de como ela poderia obtê-lo, com sua grande utilidade também, o rei Agis começou a importuná-la insistentemente com tantos rogos e pedidos, que ela determinou deixar voluntariamente suas riquezas, para conquistar glória e honra a seu filho, pois ele alegava jamais poderia chegar a ser igual aos outros reis em bens e em riquezas, visto que1328 os servidores e feitores dos reis Selêuco e Ptolomeu tinham mais haveres que todos os reis de Esparta juntos: mas se pela temperança, magnanimidade e continência, sobrepujando seus prazeres, ele viesse a restaurar os lacedemônios na comunidade e igualdade, que desfrutavam outrora, ele conquistaria glória e renome de um verdadeiro príncipe e grande rei. Depois de ter ouvido estas declarações, as senhoras, animadas ao ver tão grande magnanimidade num moço, começaram a mudar de opinião e foram repentinamente, como por inspiração divina, tomadas pelo amor da virtude, que se puseram elas mesmas a incitar e a animar Agis, mandaram chamar seus amigos, para rogá-los e animá-los em favor de seu empreendimento e o que é mais, falaram também com outras senhoras, sabendo muito bem que sempre os lacedemônios acreditaram e confiaram muito nas suas mulheres, permitindo-lhes imiscuirem-se mais que eles mesmos, nos negócios públicos1329, do que eles mesmos, em suas casas, nos negócios domésticos.

X. Intriga de Leónidas contra o projeto de Agis

X. Deve-se notar que a maior parte das riquezas da Lacedemônia estava então nas mãos das mulheres, o que tornou mais difícil a empresa: as mulheres resistiram-lhe, não somente porque sem elas vinham a perder muito em seus prazeres e delícias, nas quais, por não terem conhecimento do verdadeiro bem, elas faziam consistir a sua felicidade: mas também, porque elas viam que a honra que se lhes fazia, o poder e a autoridade que elas tinham por causa de suas riquezas, lhes seria tirado de todo; por isso dirigindo-se a Leônidas, rogaram-no que advertisse a Agis, como sendo mais velho do que ele e impedisse que fizesse o que tencionava.

Leônidas tinha muito desejo de favorecer os ricos, mas temendo o povo, que não pedia outra coisa que aquela mudança, não ousava resistir-lhe abertamente, mas fazia às escondidas o que podia para impedir seus desígnios, conversando com os principais da cidade e caluniando Agis perante eles, dando-lhes a entender que ele oferecia aos pobres os bens dos ricos, a repartição das heranças e a abolição de todas as dívidas, como recompensa por lhe terem posto nas mãos a tirania e que por esse meio ele ia conquistando para si muitos adeptos, não cidadãos para a cidade de Esparta.

XI. Restabelecimento da antiga constituição proposta ao Senado e ao povo

XI. Não obstante isso, Agis fez eleger a Lisandro éforo, propôs imediatamente ao conselho e fez publicar suas determinações, cujos principais artigos eram: "Que aqueles que deviam, ficavam inteiramente livres de suas dívidas: que o território da Lacedemônia, seria novamente dividido em porções iguais, de modo que desde o vale Palene1330, até o monte de Taugeto e às cidades de Malea1331, e de Selásia1332, houvesse quatro mil e quinhentas partes e fora desse limite, houvesse em todo o resto, outras quinze mil, que seriam distribuídas aos vizinhos, idôneos para usar armas e os outros, aos espartanos; cujo núme ro seria completado com povos vizinhos e estrangeiros também, que tivessem sido bem formados e que fossem fortes e bem dispostos e na idade de servir: os quais, depois, seriam divididos em quinze convivas, que seriam uns de duzentos, outros de quatrocentos homens, e viveriam segundo a forma e a regra de vida que seus antepassados haviam instituído e observado". Essa determinação, tendo sido apresentada ao Senado, foi diferentemente apreciada pelos senadores, pelo que Lisandro, mesmo sem esperar outro aviso, reuniu o grande conselho de todo o povo: no qual ele mesmo falou à multidão e Mandrochdas e Agesilau também, rogandolhes que não permitissem que para o prazer de alguns particulares, um pequeno número, a dignidade de Esparta ficasse aniquilada e arruinada; mas se lembrassem dos oráculos dos deuses, que antigamente lhes haviam respondido que eles cuidadosamente se precavessem contra a avareza e o desejo de possuir, que seria um dia a peste e a ruína de sua pátria: semelhantemente também daquele que há pouco lhe havia sido trazido do templo de Pasifae1333: havia pois um templo e um oráculo de Pasifae, ao qual muitos se dirigiam na cidade de Talames1334. Dizem alguns que Pasifae era uma das filhas de Atlas, que concebeu de Júpiter e teve um filho de nome Amon; outros, dizem que foi Casandra, uma das filhas do rei Príamo, que morreu naquele lugar e foi cognominada Pasifae, porque ela revelava a todos os oráculos das coisas futuras. Mas Filarco1335, escreve que Dafné, filha de Amicla, fugindo de Apolo, que queria agarrá-la à força, foi transformada num loureiro e honrada por Apolo com o dom da profecia: dizia-se que o oráculo desse deus ordenava que os espartanos voltassem a ser de novo todos iguais, como havia sido determinado pelas leis de Licurgo.

XII. Controvérsia entre Agis e Leónidas

XII. Depois que todos os outros falaram, o rei Agis, por último, apresentou-se e depois de outras palavras, disse que ele participava da reforma do governo, que ele queria restaurar, com grandes contribuições; primeiramente, punha em comum todas as heranças, que eram consideráveis, tanto em terras cultiváveis tomo em pastagens; além disso, seiscentos talentos1336, em dinheiro; o mesmo fariam sua mãe, sua avó, seus parentes e amigos que eram os mais ricos de Esparta. Ouvindo isso o povo ficou atônito, pela magnanimidade do jovem rei e mui satisfeito, dizendo que há trezentos anos não existia um rei de Esparta tão digno como ele: mas Leônidas procurou contradizê-lo, o mais possível, refletindo que se a empresa de Agis se realizasse ele seria obrigado a fazer o mesmo e dever-se-ia agradecer somente a ele, porque, todos os espartanos igualmente seriam obrigados a pôr seus bens em comum, mas a honra ficaria somente para aquele que havia iniciado; perguntou então publicamente a Agis, se ele julgava que Licurgo havia sido um homem de bem. Agis respondeu-lhe que sim. "E onde viste, então, — replicou Leônidas — que ele aboliu os contratos de dívidas, ou que recebeu estrangeiros no número dos burgueses de Esparta?

Muito, ao contrário, julgou que seu governo só podia ser perfeito, se todos os estrangeiros fossem totalmente exilados". Agis então retrucou, dizendo que ele não se admirava de que Leônidas, tendo sido educado num país estrangeiro, e tendo se casado na corte de um sátrapa, ignorava as leis de Licurgo, o qual, banindo para fera da cidade o ouro e a prata, expulsa também o dever e o emprestar. Quanto aos estrangeiros ele odiava os que não se queriam adaptar aos costumes, maneiras e modos de viver que ele introduzia e era a esses que ele bania, não porque queria mal às suas pessoas, mas porque temia seus hábitos, costumes e maneira de viver, de medo que, misturando-se com os cidadãos, não despertassem neles um desejo de viver também molemente, no meio das delícias, com a ambição de enriquecer: pois afinal, Terpander, Tales e Ferecides, todos estrangeiros, foram outrora singularmente queridos, honrados e reverenciados em Esparta, porque cantavam em seus escritos as mesmas coisas que Licurgo havia estabelecido em suas leis: e tu mesmo louvas Ecprepes1337, porque, sendo éforo, cortou com um machado as duas cordas que Frinis, o Músico, tinha acrescentado à cítara, além das sete comuns, e também os que fizeram o mesmo a Timóteo: no entretanto, tu me censuras porque quero tirar de Esparta a superfluidade, as delícias, a pompa e o orgulho, como se aqueles personagens não tivessem querido obviar que essa superfluidade e excesso na música levassem a tal corrupção de vida e de costumes dos homens, como a desigualdade desmesurada e desproporcionada entre os cidadãos torna a cidade dissemelhante e inconveniente consigo mesma.

XIII. Lisandro acusa e faz depor o rei Leónidas

XIII. Depois deste incidente, o povo seguia Agis e os ricos juntaram-se a Leônidas, rogando-lhe e insistindo que não os abandonasse: por rogos e pedidos tanto fizeram com os senadores, cuja autoridade consiste principalmente em consultar e estudar os assuntos, antes de serem propostos ao povo, que conseguiram que a lei fosse rejeitada, por um voto a mais, pelo menos. Por isso Lisandro, ainda magistrado, começou a perseguir Leônidas, pela justiça, por intermédio de uma antiga lei, que proibia que alguém da raça de Hércules pudesse desposar mulher estrangeira, nem gerar filhos legítimos e que determinava a pena de morte contra os que saíam de Esparta para ir morar em outros lugares: aliciou a outros, aos quais ensinou a mesma linguagem, quando ele com seus companheiros observavam o sinal do céu: era este o costume: De nove em nove anos os éforos escolhendo uma noite em que o céu estava claro e límpido, sentavam-se em algum lugar, ao ar livre, olhando para cima, o céu; se notavam alguma estrela que mudava de lugar, no firmamento, eles acusavam seu rei perante a justiça, como tendo cometido algum pecado contra os deuses e os suspendiam do governo, até que viesse ou de Delfos ou de Olimpo algum oráculo que os restaurasse. Lisandro então, dizendo que tinha visto e observado o sinal de um astro movediço, citou Leônidas ante a justiça e apresentou testemunhas contra ele, como tendo desposado uma mulher asiática, que um dos lugar-tenentes do rei Selêuco lhe havia dado em casamento e da qual tivera dois filhos: mas depois sua mulher, odiando-o, e não querendo mais viver com ele, tinha ele voltado, contra vontade, ao seu país, onde se havia apoderado do governo, na falta de outro herdeiro legítimo que o ocupasse, e pelo mesmo meio, começando esse processo pôs na cabeça de seu genro Cleômbroto, que lambem era de família real, que se dissesse candidato à realeza. Leônidas, temendo o fim desse processo, foi colocar-se a salvo, no templo de Juno, cognominado Calceocos e sua filha também, abandonando Cleômbroto, seu mando. Leônidas foi intimado a comparecer em pessoa: e não querendo fazê-lo, por sentença, foi destituído do trono o qual foi entregue a Cleômbroto.

XIV. Agis e Cleômbroto expulsam os novos éforos, que tinham restaurado Leónidas Este foge

XIV. Nesse ínterim, Lisandro deixou o cargo, tendo terminado seu tempo: os novos éforos, que o substituíram, restauraram Leônidas e acusaram Lisandro e Mandroclidas, de que, contra as leis, tinham feito abolir os contratos das dívidas, e feito novamente dividir as terras e as heranças. Eles, vendo-se citados à justiça, persuadiram aos dois reis a entrarem em entendimentos e a não fazer mais caso dos decretos e das determinações desses éforos, alegando que esses magistrados haviam obtido a autoridade, somente por causa da dissensão entre os dois reis, a fim de que eles dessem seus votos àquele dos dois que tinha opinião mais reta, quando o outro se quisesse obstinar contra o que era mais conveniente: mas se eles estavam de acordo, era-lhes permitido fazer tudo o que quisessem, sem que alguém lhes pudesse obstar e que era contrariar as leis, o resistir aos reis, visto que de direito só lhe competia a prerrogativa de arbitrar e de cidir quando havia alguma divergência entre eles, e não, controlá-los quando eles andavam de acordo. Os dois reis, acreditando nisso, foram juntos à praça, acompanhados por seus amigos, fizeram levantarem-se os éforos dos seus assentos e puseram outros em seus lugares, um dos quais foi Agesilau: além disso, armaram um bom número de moços e tiraram os prisioneiros do cárcere: o que assustou muito aos seus adversários, porque logo pensaram que eles tinham determinado matar muita gente; mas tal não aconteceu, pois não condenaram a ninguém à morte; mas ao contrário, como Agesilau quisesse mandar matar a Leônidas, que havia fugido para a cidade de Tegeu e tivesse mandado homens para esperá-lo no caminho e executar esse seu desejo, Agis, sabendo disso, mandou outros homens que acompanharam a Leônidas e o levaram em segurança até dentro de Tegeu.

XV. Agesilau evita a partilha das terras

XV. Estando assim a sua empresa bem encaminhada e não havendo ninguém que quisesse levantar a cabeça contra eles para obstá-los, um único homem pôs tudo a perder: Agesilau, destruindo uma belíssima e perfeita determinação lacedemônia, por causa de um vício infame, isto é, a avareza. Possuindo muitas terras e as melhores do país e devendo muito dinheiro, ele não podia pagar suas dívidas, nem queria deixar suas terras: pelo que, deu a entender a Agis que, se eles tentassem fazer uma e outra coisa juntos, suscitariam grande perturbação e um perigoso incêndio na cidade: mas se eles conquistassem os que possuíam terras, propondo por primeiro a abolição das dívidas somente, eles obteriam depois, mais facilmente, sem dizer uma palavra em contrário, a divisão das terras. Lisandro ficou bem alerta, pois um e outro foram enganados pela malícia de Agesilau. Deram ordem a todos os credores que trouxessem à praça todos os documentos, letras, recibos, obrigações que os lacedemônios chamam de ciaria e fazendo delas um monte, atearam-lhe fogo. Quando os credores e os que emprestavam dinheiro a juros viram a chama nos ares, foram para casa muito descontentes: mas Agesilau, zombando deles, disse que nunca tinha visto um fogo tão belo nem tão luminoso.

XVI. Agis é mandado em socorro dos aqueenses contra os etólios

XVI. O povo pedia que a divisão das terras se fizesse imediatamente: os reis também o desejavam; mas Agesilau sempre fazia surgir algum impedimento e alegando desculpas, procurava adiar a execução do ato, até que aconteceu que Agis teve de ir à guerra, atendendo ao pedido de socorro dos acaios, que os lacedemônios estavam obrigados a lhes fornecer, pelos estatutos da liga que haviam feito com eles, porque esperavam a cada instante que os etóhos entrassem pelas leiras dos megarianos, na região do Peloponeso: para obviar a isso, Arato, comandante geral dos acaios, tinha reunido seu exército e escrito aos éforos que lhe mandassem o seu auxílio; eles enviaram incontinente o rei Agis vendo mesmo o afeto e a bondade daqueles que tinham sido escolhidos para ir à guerra, sob seu comando, a maior parte jovens e pobres que se viam livres do temor das dívidas e esperavam que lhes repartiriam as terras logo que estivessem de volta; por isso mostravam-se mui obsequiosos e obedientes ao rei Agis; as mesmas cidades que eles atravessavam os olhavam com admiração, vendo-os atravessar todo o Peloponeso de um ponto a outro, alegremente, sem causar desprazer nem prejuízo a ninguém e quase mesmo, sem o menor ruído, por assim dizer. Os gregos, porém, iam imaginando consigo mesmos, como então na luta seria belo ver-se o exército da Lacedemônia, antigamente, quando eles tinham por generais um Agesilau, um Lisandro ou um Leónidas, visto que, todos os que então estavam no exército, obedeciam tão prontamente a Agis, que era talvez o mais moço de todo o seu exército, e que se vangloriava de passar com pouco, de gostar de trabalhar bastante, e de não andar nem vestido, nem armado mais suntuosamente do que um simples soldado, e por isso era bem considerado, louvado e estimado pelo povo: mas os ricos não gostavam daquela novidade que ele introduzia, temendo que desse motivo aos outros povos de se movimentarem também e de querer fazer o mesmo em seu lugar. Agis, então, chegou ao campo de Arato, perto da cidade de Corinto, no momento em que ele deliberava se devia dar combate ao inimigo ou não: nesse particular mostrou Agis uma vontade bem determinada e uma ousadia, não temerária, nem violenta: pois ele disse que era de opinião que se devia combater e não deixar a guerra internar-se mais, abandonando a entrada do Peloponeso: todavia, ele estava pronto a fazer o que Arato decidisse como melhor: porque ele era mais velho e comandante geral dos acaios, aos quais ele não tinha vindo para comandar, mas para auxiliar e socorrer. Mas, Baton Sinopiano escreve que ele não queria combater, embora Arato o quisesse: Ele não tinha lido o que o mesmo Arato deixou escrito para sua defesa e justificativa, alegando que os lavradores tendo já recolhido e armazenado grande parte dos frutos da terra, ele julgava que era melhor deixar os inimigos entrar do que arriscar a batalha, onde havia a dúvida da perda de todo o Peloponeso e por isso ele despediu todos os seus aliados e dissolveu seu exército.

XVII. Leónidas torna a subir ao trono

XVII. E assim Agis retirou-se também, muito estimado por todos os que estavam no acampamento, quando já as coisas estavam bastante confusas e embrulhadas na cidade de Esparta; Agesilau era éforo e sentindo-se livre do temor que o tinha subjugado antes, nada poupou nem deixou de cometer crime algum, contanto que pudesse obter dinheiro; entre outras coisas, naquele ano mandou pagar, além da dívida, os impostos e tributos devidos ao povo, por treze meses, acrescentando-lhe o décimo-terceiro, sem que a ordem do tempo nem a revolução ordinária dos anos o exigisse. Por isso, vendo que era odiado por todos e temendo aqueles aos quais fazia injustiça, tinha soldados armados que o acompanhavam como guardas, quando ia ao palácio. Dos dois reis, não fazia caso, de um, e do outro, queria que pensassem que ele fazia caso, mais pelo parentesco que tinha com ele, do que pela dignidade real: difundiu-se um boato que ele ainda seria éforo no ano seguinte; por isso os que o queriam mal, reuniram-se antes que isso acontecesse e arriscando-se ao perigo, trouxeram à viva força, publicamente, Leônidas de Tegeu, para restaurá-lo no trono; o mesmo povo presenciou este espetáculo, com real satisfação; pois estavam descontentes por se verem enganados porque não se fazia a divisão das terras, como lhes tinham prometido; quanto a Agesilau, seu filho Hipomedon, sendo muito querido de todos por sua coragem, tanto fez com seus rogos, perante o povo, que o salvou e o afastou do perigo.

XVIII. Admirável proceder de Quelonis, mulher de Cleômbroto.

XVIII. Dos dois reis, Agis procurou salvar-se no templo de Juno Calceocos e Cleômbroto, no de Netuno; parecia que Leônidas o queria apanhai, mais que a Agis: assim, deixou Agis, para ir contra este, acompanhado de soldados: estando com ele censurou-o porque, embora fosse seu genro, ele o tinha, no entretanto, vigiado, para privá-lo da realeza, e o tinha exilado de sua pátria. Cleômbroto não sabendo o que responder a isto, continuou sentado sem replicar; mas Quelonis, sua esposa, filha de Leónidas, que antes se sentira, ofendida pela injúria que se fizera a seu pai e se havia separado do marido Cleômbroto, que lhe havia usurpado a realeza, para ir servir seu pai na adversidade e enquanto ele esteve em segurança, se fez também suplicante como ele; depois quando ele foi a Tegea continuou a usar o luto, indignada contra seu marido: mas agora, ao contrário, trocando sua raiva pela fortuna, fez-se suplicante, com seu mando, sentando-se perto dele, tendo-o nos braços, junto de seus dois filhos, um de um lado e outro do outro: todos os presentes comovidos choravam de compaixão, de pena e de caridade, por aquela senhora, que ostentava seu vestido de luto, seus cabelos em desalinho, sem ornamento algum; ela pôs-se a dizer: "Não é a piedade que eu sinto de Cleômbroto que me faz usar estas vestes nem esta atitude, meu pai, mas o luto que sempre conservei comigo, e que continuamente me acompanha desde o princípio de teus males, quando foste levado ao exílio: o que, portanto, devo fazer agora, continuar a viver de luto, e usar este piedoso vestuário, agora que venceste teus inimigos e foste restaurado em tua dignidade, ou vestir outras roupas reais e vestes de festa, vendo que queres matar o marido, ao qual tu me deste como esposa? Se ele não pode te mover à piedade e obter piedade por meio das lágrimas de sua mulher e de seus filhos, suportará ainda uma pena mais grave do seu mau conselho, do que a que tu lhe queres fazer sofrer, é que ele verá sua mulher, a quem mais ele ama, neste mundo, morrer diante dele: pois de outro modo, como poderei e com que atitude, apresentar-me diante de outras senhoras, quando com minhas lágrimas não consegui mover à piedade, nem meu pai, rogando por meu marido, nem meu marido, rogando por meu pai e que eu nasci para ser mulher e filha sempre infeliz e desprezada pelos meus? Quanto ao meu mando, se tivesse alguma razão para fazer o que fez, eu a eliminei, colocando-me ao teu lado, e protestando contra ele, pela injustiça que te fazia; e ao contrário, tu lhe dás honesto pretexto para desculpar sua falta, fazendo parecer que a realeza é coisa tão desejável e tão grande, que é permitido matar seus genros e não fazer caso algum de seus próprios filhos, por amor dela".

XIX. Cleômbroto vai ao exílio, sua mulher segue-o

XIX. Quelonis, fazendo estas queixas e lamentações, pôs seu rosto acima da cabeça de Cleômbroto e lançou seus olhos fundos de dor, banhados de lágrimas, aos assistentes; Leônidas depois de ter conversado um pouco com seus amigos, ordenou.» Cleômbroto que se levantasse, que fosse para fora da cidade, ao exílio, rogando a sua filha, que ficasse com ele, não abandonando seu pai que tanto a tinha amado e que por amor dela tinha salvo a vida a seu marido: mas, nem assim pôde induzi-la a fazer o que pedia; ela, erguendo-se com seu marido, apresentou-lhe um dos filhos e tomou o outro nos braços; depois de ter feito oração no altar da deusa1338, foi para o exílio com ele, de modo que se Cleômbroto não tivesse tido o juízo depravado pela ambição e pela vanglória, ele deveria julgar que aquele exílio era maior felicidade para ele por sua mulher que o acompanhava, do que a mesma realeza, sem ela.

XX. Perfídia de Anfares, que entrega Agis aos seus inimigos

XX. Leônidas, tendo então feito sair Cleômbroto, para fora da cidade, no lugar dos primeiros éforos que ele depôs, colocou vários outros; em seguida se pôs a pensar como poderia apanhar a Agis; procurou antes persuadi-lo a sair do abrigo do templo, onde ele se agasalhara e a vir ter com ele, com garantias, para governar e dando-lhe a entender que seus concidadãos haviam perdoado o seu passado, porque sabiam que ele havia sido enganado por Agesilau, jovem ambicioso de honras, como era. Todavia, nem por isso Agis moveu-se do seu refúgio, suspeitando de tudo o que se dizia: por isso Leônidas determinou atraí-lo e enganá-lo com palavras lisonjeiras: Anfares, Democares e Agesilau iam frequentemente visitá-lo e conversar com ele, tanto que às vezes o levavam até às termas: depois de se ter ele lavado reconduziam-no ao templo, pois todos eram seus amigos. Mas, Anfares, tendo há pouco pedido emprestado de Agesistrata alguns móveis preciosos, como tapeçarias e baixelas de prata, determinou atraiçoá-lo, sua mãe e avó, com esperança de que aqueles móveis que ele havia emprestado, lhe ficariam pertencendo. Diz-se, que foi ele que mais que qualquer outro prestou ouvidos a Leónidas, incitou e irritou os éforos, no número dos quais ele estava, contra ele. Como Agis se tivesse acostumado a ficar sempre dentro do templo, exceto quando às vezes ia às termas, determinaram surpreendê-lo quando estivesse fora do asilo. Esperaram um dia, quando ele regressava das termas, foram-lhe ao encontro e o saudaram fingindo querer acompanhá-lo, conversando com ele, como uma pessoa a quem devotaram grande amizade e estima; quando, porém, chegaram ao lugar da esquina de uma rua, que dá justamente para a prisão, Anfares deitou-lhe a mão, pois era magistrado e disse-lhe: "Eu te declaro prisioneiro, Agis, e te levo perante os éforos para prestares conta das inovações que tentaste no governo". Democares, então, que era grande e poderoso, atirou-lhe a veste em redor do pescoço e o puxou para frente e os outros o empurravam por trás, como haviam combinado. Ninguém estava perto para socorrer Agis e assim levaram-no para a prisão e imediatamente Leônidas chegou com um bom número de soldados estrangeiros, que rodearam a prisão, por fora.

XXI. É estrangulado na prisão

XXI. Os éforos entraram e mandaram chamar os senadores, que eram da mesma opinião deles: depois ordenaram a Agis, em forma de processo, que dissesse por que motivo havia feito as inovações no governo do país. O moço se pôs a rir do fingimento deles: então Anfares disse-lhe, que não era o caso de rir-se e que ele devia sofrer o castigo de sua louca pretensão e temeridade. Um outro éforo, fingindo querer favorecê-lo e apresentar-lhe um expediente para que pudesse evitar o processo criminal, perguntou-lhe se ele tinha sido obrigado a fazê-lo por Agesilau e por Lisandro. Agis respondeu que não fora induzido nem obrigado por ninguém; mas o havia feito unicamente para seguir o velho Licurgo, pois queria restaurar o governo, fazendo-o voltar àqueles tempos, quando outrora ele o havia organizado. O mesmo éforo perguntou-lhe se estava arrependido do que havia feito. O moço respondeu francamente que jamais se arrependeria de uma coisa tão sábia e virtuosamente empreendida, ainda que visse a morte certa diante de seus olhos. Co ndenaram-no então a morrer e ordenaram aos esbirros que o levassem à Década1339, que é um lugar da prisão onde se enforcam os condenados à morte. Democares vendo que os esbirros não ousavam pôr as mãos sobre ele e que os soldados estrangeiros também se recusavam e sentiam horror por aquela execução, como contrária a todo direito divino e humano, pôr as mãos sobre a pessoa de um rei, ameaçando-os e injunando-os, arrastou ele mesmo Agis para aquela parte da prisão: muita gente já havia ocorrido, pois se soube do ocorrido: grande alando e confusão estabeleceu-se logo à porta da prisão, onde tochas e archotes iluminavam lugubremente a rua. Acorreram também a mãe e avó do Agis, que clamavam e pediam que o rei de Esparta pudesse pelo menos ter justiça e que seu processo fosse feito por seus cidadãos. Isso foi causa de que se apressasse a execução, porque seus inimigos tiveram medo de que durante a noite eles o arrancassem à força da prisão, se se ajuntasse mais gente. Assim foi Agis levado à força e no caminho viu um esbirro que chorava e se afligia. Disse-lhe então: "Meu amigo, não se aflija por compaixão de mim; pois eu sou mais homem de bem do que aqueles que me fazem morrer tão ignominiosamente e tão injustamente", dizendo estas palavras entregou seu pescoço à corda.

XXII. Sua mãe e sua avó estranguladas depois dele

XXII. No entretanto, Anfares saiu à porta da prisão, onde encontrou Agesistrata, mãe de Agis, que se lhe lançou aos pés; ele levantou-a, mostrando-se amigo e compadecido e disse-lhe, que não se fana violência nem força alguma a Agis e que ela pedia ir vê-lo, quando quisesse: ela rogou-lhe então que deixassem também entrar sua mãe com ela: Anfares respondeu que nada o impedia e assim as introduziu ambas, mandando fechar as portas. Apenas elas se acharam no interior da prisão ele entregou Arquidamia aos esbirros, para que a executassem também, a qual era já bem idosa e tinha vivido até sua velhice grandemente honrada e muito digna de toda estima, mais que qualquer outra senhora da cidade. Depois que ela foi executada ele mandou a Agesistrata que entrasse também: ela viu o corpo de seu filho morto e sua mãe ainda pendurada na forca; ajudou o carrasco a soltá-la das cordas e colocou-a estendida ao lado do filho: depois de tê-la ceberto cuidadosamente, lançou-se por terra perto do corpo do filho e beijando-lhe o rosto disse: "Ai! Tua excessiva bondade, doçura e clemência, meu filho, foram causa de tua morte e da nossa". Anfares, que observava da porta, o que ali se passava, ouvindo o que ela dizia, entrou e exclamou encolerizado: "Pois que tu também participaste do crime de teu filho, sofrerás a mesma pena que ele". Então Agesistrata levantando-se para ser estrangulada, disse: "Pelo menos, possa isto ser proveitoso e útil a Esparta".

XXIII. Horror que essa crueldade inspira aos lacedemônios

XXIII. Este fato foi divulgado pela cidade e os três corpos foram tirados da prisão; o temor dos magistrados não foi tão grande, que os cidadãos de Esparta não se mostrassem evidentemente muito desgostosos e que não odiavam de morte a Leônidas e Anfares, julgando que jamais se havia cometido crime tão cruel, tão desumano e tão infeliz em Esparta, desde que os donos tinham vindo morar no Peloponeso: pois os inimigos, mesmo em batalha não punham de boamente as mãos sobre os reis dos lacedemônios, mas evitavam-no quanto possível, pelo temor e reverência que votavam à sua majestade, de sorte que em tantas batalhas que os lacedemônios haviam travado contra os gregos, somente Cleômbroto, antes dos tempos de Felipe, foi morto por um dardo na batalha de Leuctres1340. É verdade que os messênios afirmam que Aristomenes matou também a Teopompo: mas os lacedemônios dizem que ele o feriu somente; todavia nisso há divergência de opiniões: mas é certo que Agis foi o primeiro dos reis que os éforos mandaram matar, por ter querido fazer reformas mui convenientes à glória e à dignidade de Esparta, estando numa idade, na qual, quando os homens erram ainda se lhes perdoa e tendo seus amigos tido mais justo motivo de se queixar dele, que não seus inimigos, porque ele salvou a vida de Leônidas e confiou nos outros, como a criatura mais doce e humana do mundo, que ele era.

A segunda parte do texto apresenta a biografia do rei Cleômenes III (r. 235-222 a.C.) e foi colocada em uma página separada para facilitar a leitura.1340b

Mais fontes de Esparta

Comparação entre Lisandro e Sila, de Plutarco

Comparação entre Agesilau II e Pompeu, de Plutarco

Heródoto narra a batalha das Termópilas (480 a.C.)

Comparação entre Agis IV e Cleômenes III e Tibério e Caio Graco, de Plutarco

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