Notas

57 - No grego: que uma filha.
58 - Nas Demandas Romanas, Dem. LVII, chama-lhe Plutarco a deusa Rumina, para nutrir as crianças de peito: em seus sacrifícios, não se usa vinho, antes neles se oferece leite e água misturada com mel.
59 - E água misturada com mel não está no grego.
60 - O grande Circo.
61 - Havia um asilo e um templo. Mas Plutarco é o único que fala de um deus Asilo.
62 - Eu expliquei numa Dissertação tudo o que respeita ao recinto de Roma: tamanho, população, desde os primeiros tempos até ao seu maior esplendor. Comparei sua população com a de Paris, Londres, Pequim. Vide Taciti Opera, tomo II página 375, edição in-4º.
63 - E’ um erro de Amyot: ele devia traduzir um eclipse do sol. A conjuração eclíptica da lua com o sol é que foi expressa no grego de Plutarco. Não pode haver eclipse da lua no trigésimo dia de um mês lunar.
64 - O ano 553 antes de Jesus Cristo.
65 - O que está entre parênteses, nesta página, não figura no grego.
66 - O cálculo astronômico não dá eclipse solar neste dia, o que mostra ser falso o cálculo de Tarrúcio, seu nascimento. Essas coisas e outras semelhantes agradarão porventura mais aos leitores pela novidade e curiosidade de que ofenderão pela falsidade.
67 - Dionísio de Halicarnasso e a maior parte dos historiadores colocam o rapto das Sabinas no quarto ano da fundação de Roma.
68 - No grego, Talásio.
69 - No grego, Talásia.
70 - Essa festa, que se chamava Consuália, é marcada para o dia 13 do mês de agosto, nos antigos calendários romanos.
71 - É o nome que se dava, no tempo de Amyot, a uma longa cabeleira.
72 - Nas Observações se encontrará uma tradução mais fiei desses dois fragmentos.
73 - Rocha Tarpéia.
74 - O grego: como já não resistisse aos Sabinos, foi.
75 - Chamavam-se Curetos os habitantes de Curos, antiga capital dos Sabinos. — N. do ed.
 bras.
76 - No grego: Comire.
77 - Vide as Observações, cap. XXX.
78 - No grego; não se mostrar nu.
79 - O grande Circo.
80 - No grego: cornalheira.
81 - Essa festa era celebrada no primeiro dia de março e no primeiro dia de abri l.
82 - Celebrava-se em 11 de janeiro. Realizava-se ainda uma segunda festa a 15. Carmenta era a mãe e não a mulher de Evandro. O próprio Plutarco o diz nas Demandas Romanas, Dem.
 LVI.
83 - Vide o cap. XVII.
84 - Celebrava-se no dia 15 de fevereiro em honra do deus Pã, que se chamava Luperco porque afastava os lobos.
85 - No grego: levam para fora os cães e observam ainda essa cerimônia, chamada Periscilacismo. Vide, como explicação dessa passagem, as Questões Romanas, Quest. 68. C.
86 - Fazia-se ali uma festa e uma corrida militar no dia 19 do mês de outubro.
87 - Segundo Dionísio de Halicarnasso, Rômulo enviou somente trezentos. Esse número parece fraco, se for considerado o que Plutarco narra no capítulo seguinte.
88 - Essas chuvas de sangue, tão terríveis para os antigos, são produzidas naturalmente por insetos ou por exalações tintas de vermelho, como se observou várias vezes no último século e no presente.
89 - No grego: que se fazem ainda hoje, segundo dizem.
90 - No grego: ele matou-lhes seis mil homens.
91 - Expressão grega é mais natural: e colocou sobre esse carro sua estátua coroada pela Vitória.
92 - No grego: “que ele ofereceu três vezes o sacrifício chamado Hecatônfonis, por haver matado de cada vez cem homens aos Lacedemônios.” Pausânias, Messeníacas, cap. 19.
93 - No grego Septempagium, isto é, sete burgos, ou aldeias, ou cantões.
94 - Vide as Observações, caps XI.
95 - O vestuário de Rômulo era o sagum de púrpura. Em cima do sagum trazia o paludamentum ou chlamys de púrpura, bordado com púrpura mais preciosa e ligado sobre o ombro.
96 - É um erro de Plutarco ou de seus copistas; é preciso corrigir.
97 - Além das cerimonias de 7 de julho, celebrava-se ainda uma festa chamada Quirinalia, em 17 de fevereiro.
98 - No grego: a alma seca é a melhor alma.
99 - A festa chamada Poplifugium é marcada para o dia 5 de julho nos antigos calendários.
100 - Dionísio de Halicarnasso dá a Rômulo cinquenta e cinco anos de vida, e trinta e sete de reino. Vide o próprio Plutarco na vida de Numa, cap. III.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Vidas Paralelas: Rômulo, de Plutarco

Fontes primárias > Roma Antiga  |  227 visualizações  |  18657 palavras  |  34,3 páginas

Salvar nos favoritos

Rômulo e Remo (séc.8 a.C.) são, segundo a mitologia romana, dois irmãos gêmeos, um dos quais, Rômulo, foi o fundador da cidade de Roma e seu primeiro rei. Segundo a lenda, eram filhos de Marte e de Reia Sílvia, descendente de Enéias. A data de fundação de Roma é indicada, por tradição, em 21 de abril de 753 a.C. A biografia de Rômulo faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Rômulo foi comparado com Teseu, um lendário rei de Atenas.

Imagem de capa: A Lupa Capitolina é uma escultura de bronze produzida na Idade Média, mas que por muito tempo acreditou-se ser uma obra de arte do período romano. As estátuas de Rômulo e Remo foram anexadas no século 15. Museu Capitolino, Roma.

I. Diversidade das opiniões sobre a origem de Roma

I. Os historiadores não se acordam em escrever por quem nem por que causa o grande nome da cidade de Roma, do qual a glória se estendeu por todo o mundo, lhe fora primeiramente imposto: porque sustentam uns que os Pelasgos, após haverem corrido a maior parte da terra habitável e terem dominado várias nações, finalmente se detiveram no lugar onde ela está no presente fundada; e que, por sua grande’ potência em armas, impuseram o nome de Roma à cidade que construíram, o qual em linguagem grega significa potência. Dizem outros que, após a tomada e destruição de Troia, houve alguns Troianos que, uma vez salvos da espada, embarcaram em navios ocasionalmente encontrados no porto e foram lançados pelos ventos à costa da Toscana, onde puseram âncoras perto do rio Tibre; e ali, como suas mulheres se achassem já tão mal que de modo algum podiam mais suportaria fúria do mar, houve uma, a mais nobre e mais prudente de todas, chamada Roma, que aconselhou as companheiras a porem fogo nos barcos, o que fizeram e com o que os maridos no começo ficaram muito descontentes, mas depois, constrangidos pela necessidade ao pé da cidade de Palâncio, quando viram que os negócios prosperavam ali melhor do que teriam ousado esperar, achando a terra fértil e os povos vizinhos doces e obsequiosos, pois os receberam amigavelmente, entre outras honras prestadas como recompensa àquela dama, deram à cidade o nome de Roma, por ter sido ela a causa de a terem edificado. E dizem que daí começou o costume, que ainda hoje dura em Roma, de saudarem as mulheres seus parentes e maridos beijando-os na boca, porque então essas damas Troianas saudavam e acariciavam os maridos, depois de lhes haverem queimado os navios, pedindo-lhes que acalmassem sua cólera e má disposição contra elas.

II. Dizem outros que Roma era filha de Ítalo e de Lucária, ou de Télefo, filho de Hércules, e mulher de Enéias, segundo outros de Ascânio, filho de Enéias: a qual deu seu nome à cidade. Outros há que sustentam ter sido Romano, filho de Ulisses e de Circe, quem fundou Roma; querem outros dizer que foi Romo, filho de Emátion, que Diomedes para ali enviara de Troia. Escrevem outros que foi certo Rômis, tirano dos Latinos, que expulsou daquele distrito os Toscanos, os quais, partindo da Tessália, passaram primeiramente à Lídia e, depois, da Lídia à Itália.

III. Nascimento de Rômulo e de Remo, seu irmão

III. E, mais, aqueles mesmos que sustentam que Rômulo (como há mais aparência) foi aquele que deu o nome à cidade, não estão de acordo no tocante aos seus antepassados, porque uns escrevem que ele era filho de Enéias e Dexítea, filha de Forbas, e que foi levado recém-nascido para a Itália com seu irmão Remo, mas que então o rio Tibre, tendo transbordado, todos os outros navios ali afundaram, exceto o escaler onde estavam as suas crianças, o qual afortunadamente foi deter-se docemente num trecho do rio que era unido e plano; e que, tendo-se desse modo salvo os meninos contra toda a esperança, foi o lugar chamado mais tarde Roma. Dizem outros que Roma, filha daquela primeira dama Troiana, foi casada com Latino, filho de Telêmaco, do qual teve Rômulo. Outros escrevem que foi Emília, filha de Enéias e de Lavínia, a qual foi engravidada pelo deus Marte. Contam outros uma coisa referente ao nascimento de Rômulo, onde não há nenhuma verossimilitude: pois dizem que houve outrora um rei de Alba chamado Tarquécio, homem muito mal e cruel, em cuja casa com licença dos deuses apareceu a visão seguinte: surgiu-lhe no lar uma forma de membro viril que ali ficou durante vários dias; e dizem que nesse tempo havia na Toscana um oráculo de Tétis, do qual se levou a esse mau rei Tarquécio uma resposta predizendo que sua filha57, que ainda estava para se casar, teria a companhia do dito monstro, para que daí nascesse um filho que seria muito famoso pela valentia e que, em força de corpo e prosperidade de fortuna, ultrapassaria todos os do seu tempo. Tarquécio comunicou esse oráculo a uma de suas filhas e lhe ordenou que se aproximasse do monstro: o que ela desdenhou de fazer, enviando em seu lugar uma de suas criadas. Com isso Tarquécio ficou tão acremente enfurecido que mandou prender as duas para fazê-las morrer; mas, à noite, quando dormia, a deusa Vesta lhe apareceu e proibiu-o de assim proceder; em virtude dessa ocorrência, ele ordenou-lhes que urdissem uma peça de tela na prisão, sob a condição de que se casariam quando a terminassem. Essas jovens assim faziam durante o dia inteiro, mas à noite vinham outras, por ordem de Tarquécio, que desfaziam tudo o que elas tinham feito e tecido de dia. Entretanto, a criada que fora engravidada pelo monstro deu à luz dois belos filhos gêmeos, os quais foram entregues por Tarquécio a certo Terácio, com a injunção de fazê-los morrer. Esse Terácio levou-os para a beira do rio, onde veio uma loba que lhes deu de mamar, e pássaros de toda espécie levaram-lhes migalhas e puseram-lhas na boca, até que um boiadeiro os percebeu, maravilhou-se grandemente com o fato e teve a ousadia de se aproximar e carregar consigo os meninos; os quais, tendo sido preservados, quando chegaram mais tarde à idade de homens, atacaram Tarquécio e o derrotaram, É um chamado Promátion, que escreveu uma história Itálica, quem faz esse relato; mas, quanto ao propósito que tem mais aparência de verdade e que é também confirmado por outros testemunhos, coube a Díocles de Pepareto, que Fábio Pictor segue em várias coisas, a primazia de o divulgar entre os Gregos, ao menos quanto aos principais pontos.

IV. E, conquanto nesse propósito mesmo haja ainda algumas variedades, todavia em suma o discurso que dele se faz é o seguinte: a linha dos reis de Alba, descontentes de Enéias por sucessão de pai a filho, veio afinal cair em dois irmãos, Numitor e Amúlio; dos quais Amúlio, quando veio a fazer suas respectivas partilhas, fez dois lotes de todos os bens, cabendo a um o reino e a outro todo o ouro e o dinheiro de contado, e todo o tesouro que fora levado de Troia.

Numitor escolheu o reino por sua parte, mas Amúlio, achando-se o ouro e o dinheiro em suas mãos, e sentindo que era o mais forte, facilmente lhe tirou o reino; e, temendo que sua filha tivesse filhos que pudessem um dia despojá-lo dele, entregou-a religiosa à deusa Vesta, para usar seus dias em virgindade e jamais se casar: dão-lhe uns o nome de Réia, outros o de Sílvia, e outros o de Ília. Todavia, pouco tempo depois, foi ela encontrada grávida, contra a regra e a profissão das religiosas Vestais. Assim, não houve nada que a salvasse de ser prontamente posta à morte, senão as súplicas da filha do rei Amúlio, chamada Anto, que por ela intercedeu junto a seu pai; não obstante isso, foi estreitamente encerrada, sem que ninguém a visitasse nem falasse com ela, de medo que desse à luz sem o conhecimento de Amúlio. Por fim, nasceram-lhe dois filhos gêmeos, maravilhosamente belos e grandes, causando ainda maior medo do que na presença de Amúlio. Ordenou-se então a um de seus servidores que tomasse os dois meninos e os fizesse desaparecer. Dizem alguns que esse servidor se chamava Fáustulo, enquanto outros afirmam ter sido aquele que os levou; como quer que seja, aquele que teve o encargo de lhes dar sumiço colocou-os dentro de um tina e foi para o rio com a intenção de atirá-los, mas o encontrou tão cheio e correndo com tamanha força que não ousou aproximar-se do nível da água e colocou-os à margem. Entretanto, crescendo sempre, o rio acabou transbordando, de tal maneira que a água penetrou até debaixo da tina, fê-la emergir docemente e levou-a a um lugar unido e plano, que se chama agora Cermano e antigamente Germano, como acredito, porque os Romanos chamam
 germanos aos irmãos de pai e de mãe.

V. Ora, havia ao pé desse lugar uma figueira selvagem que se chamava Ruminalis, do nome de Rômulo, como a maior parte estima, ou porque os animais que pastavam tinham o costume de abrigar-se debaixo dela quando fazia muito calor, para ali ruminarem à sombra, ou ainda porque os dois meninos ali foram aleitados pela loba, porque os antigos Latinos davam à mama o nome de Ruma e ainda hoje chamam Rumília58 à deusa que se reclama

VI. São aleitados por uma loba

VI. Estando os dois meninos assim deitados, escreve-se que sobreveio uma loba que lhes deu de mamar, tendo também um picanço ajudado a nutri-los e guardá-los. Estima-se que esses dois animais são consagrados ao deus Marte, e os Latinos honram e reverenciam singularmente o picanço, O que ajudou grandemente a acreditar-se no dizer da mãe a, qual afirmou ter concebido do deus Marte as duas crianças; todavia, dizem alguns ter ela adotado essa opinião por erro, porque Amúlio, que a desvirginou, foi encontrá-la todo armado e a forçou. Sustentam outros que o nome da nutriz que deu de mamar aos dois meninos ocasionou o rumor comum em torno dessa fábula, por causa da ambiguidade de sua significação, porque os Latinos chamam pelo mesmo nome de Lupas, isto é, lobas, às fêmeas dos lobos e às mulheres que abandonam o corpo a todos os que aparecem, como fazia aquela nutriz, mulher de Fáustulo, que levou as crianças para casa. Chamava-se ela por seu nome direito Aca Larência, a quem os Romanos ainda hoje sacrificam; e lhe oferece o presbítero de Marte, no mês de abril, as efusões de vinho e de leite que se usam nos funerais; e a festa mesma tem o nome de Larência59. É bem verdade que eles honram ainda outra Larência, em tal ocasião. O sacristão do templo de Hércules, não sabendo um dia em que passar o tempo, como é verossímil, convidou de coração alegre o deus a jogar os dados com ele, sob a condição de que, se ganhasse, Hércules teria de enviar-lhe alguma felicidade; e, se perdesse, prepararia muito bem um jantar para Hércules e lhe conduziria uma bela mulher para deitar-se com ele. Assim articuladas as condições do jogo, o sacristão lançou os dados primeiro para Hércules e depois para si mesmo. Aconteceu que Hércules ganhou, e o sacristão, reconhecendo de boa-fé e estimando ser razoável o cumprimento do pacto que ele próprio fizera, preparou um belo jantar e alugou essa cortesã Larência, que era muito bela, mas ainda não famosa; e, tendo festejado dentro do templo mesmo, ali fez descer um leito e a encerrou dentro dele, como se Hércules devesse vir deitar-se com ela; e dizem que na verdade ele veio e lhe ordenou que ela fosse de madrugada para a rua, saudando o primeiro homem que encontrasse e retendo-o como amigo. Ela assim fez e encontrou primeiro certo Tarrúcio, homem já muito idoso, que havia acumulado muitos bens e não tinha filhos, bem como nunca fora casado. Ele se ligou a essa Larência e de tal maneira a amou que mais tarde, vindo a morrer, a fez herdeira de vários bens importantes, a maior parte dos quais ela mesma deixou por testamento ao povo Romano; e dizem que, sendo então muito famosa e honrada, como sendo aquela que se estimava ser a amiga de um deus, desapareceu no mesmo lugar onde fora enterrada a primeira Larência. O lugar chama-se hoje Velabro, do mesmo modo que o rio que aí vem desembocar e frequentemente se era constrangido a passar de barco para ir por esse lugar até à rua, tendo-se dado o nome de Velatura a essa maneira de passar de barco. Dizem outros que aqueles que realizavam jogos e passatempos públicos, para ganhar o favor do povo, tinham o costume de cobrir de véus e de telas a passagem pela qual se vai da praça às liças60 onde se realizam as corridas de cavalos, que tiveram começo naquele lugar; e os Romanos, em sua língua, dão a um véu o nome de velum. Eis a causa pela qual aquela segunda Larência é honrada em Roma.

VII. Suas primeiras inclinações

VII. Fáustulo, pois, mestre porqueiro de Amúlio, roubou os dois meninos sem que ninguém soubesse nada, conforme dizem uns, ou, como contam outros com mais semelhança de verdade, após haver disso Numitor tomado conhecimento e inteligência, pois secretamente forneceu dinheiro aos que os nutriram. Pois dizem mesmo que foram levados para a cidade dos Gábios, onde aprenderam as letras e todas as outras coisas honestas que se costuma mandar ensinar às crianças de boa e nobre casa; e dizem que se chamaram Remo e Rômulo porque foram encontrados mamando” na teta de uma loba, Assim logo se mostrou a beleza de seus corpos e, somente de se lhes verem o talhe e os traços do rosto, viu-se também de que natureza seriam; mas, à medida que foram crescendo, a coragem lhes cresceu também, e tornaram-se homens seguros e ousados, de- sorte que não se perturbavam, nem se espantavam de modo algum com qualquer perigo que se lhes apresentasse diante dos olhos.

Todavia, afigurava-se que Rômulo tinha mais senso e entendimento do que o irmão, pois em todas as coisas que precisavam decidir com os vizinhos, no tocante à caça ou aos limites das pastagens, dava evidentemente a conhecer que nascera para comandar e não para obedecer. Por isso, eram ambos muito estimados por seus semelhantes e por aqueles de mais baixa condição do que eles; mas, quanto aos que tinham a superintendência dos rebanhos do rei, disso não faziam eles conta, dizendo que em nada eram melhores do que eles, sem preocupar-se com as suas fúrias nem com as suas ameaças; antes se entregavam a todos os exercícios e a todas as ocupações honestas, não estimando que viver em ociosidade e se m trabalhar fosse coisa bela nem boa, bem ao contrário de exercitar e endurecer o corpo em caçar, correr, combater os bandidos, perseguir os ladrões e socorrer aqueles aos quais se fizesse mal. Por essas razões, tornaram-se em pouco tempo muito famosos; e, quando ocorria algum debate ou diferença entre os pastores de Amúlio e os de Numitor, de maneira que os de Numitor ameaçassem pela força parte do gado dos outros, eles não podiam tolerá-los, mas os perseguiam e derrotavam; e, após os pôr em fuga, reconduziam a maior parte dos animais que eles haviam levado; com isso muito se enfurecia Numitor, mas eles não se preocupavam e, ao contrário, reuniam em torno de si grande número de vagabundos sem lar nem lugar, e servos fugitivos que eles próprios incitavam, dando-lhes ousadia e coragem para escaparem dos senhores.

VIII. Mas um dia, enquanto Rômuío estava impedido em algum sacrifício, porque era homem devoto, gostava de sacrificar aos deuses e se empenhava na arte de adivinhar e predizer as coisas futuras, os pastores de Numitor encontraram casualmente Remo mal acompanhado: precipitaram-se então subitamente sobre ele e houve golpes dados e gente ferida de uma parte e outra; todavia, os de Numitor foram por fim os mais fortes e, tomando-o consigo, levaram-nos imediatamente à presença de Numitor, e alegaram várias queixas e acusações contra ele. Numitor não ousou mandar puni-lo com sua autoridade privada, porque lhe temia o irmão, que era homem terrível; mas foi perante ele e pediu-lhe com grande instância que lhe fizesse justiça, não permitindo que ele, que era seu próprio irmão, fosse assim ultrajado por sua gente. Não havia aquele na cidade de Alba que não achasse muito mal o agravo de Numitor dizia haver-lhe sido feito e que não dissesse publicamente que não era um personagem que se devesse assim ofender; de maneira que Amúlio, levado por essas razões, entregou-lhe nas mãos Remo, para puni-lo tal como bem lhe parecesse. Por isso, levou-o Numitor consigo, mas, ao chegar em casa, pôs-se a considerar melhor, e não sem admiração, aquele belo jovem que em altura e em força corporal ultrapassava todos os outros; e, percebendo-lhe no rosto uma segura constância, uma ousadia e firmeza de coragem tais que não se dobrava nem se espantava por nenhum perigo que visse diante dos olhos, e ouvindo também contar suas obras e feitos correspondentes ao que via, mas principalmente, em minha opinião, incitado por alguma secreta inspiração dos deuses, que lançavam o fundamento de grandes coisas, começou, parte por conjectura e parte por casualidade, a suspeitar da verdade: perguntou-lhe, assim quem era e quem eram seu pai e sua mãe, falando-lhe com voz mais doce e semblante mais humano do que antes, para assegurá-lo e dar-lhe boa esperança.

IX. Remo respondeu-lhe ousadamente: «Certamente não te ocultarei nada da verdade, pois me pareces, senhor, mais digno de ser rei que teu irmão Amúlio, porque inquires e escutas, antes de condenar, e ele condena antes de ouvir as partes. Até aqui nós pensamos ser filhos de dois servidores do rei, a saber, Fáustulo e Larência; digo nós, porque somos dois irmãos gêmeos. Mas, depois que falsamente nos acusaram junto a ti e por tais calúnias nos puseram injustamente em perigo de vida, ouvimos dizer coisas estranhas de nós, das quais o perigo era que estamos presentemente esclarecerá a verdade; pois dizem que fomos engendrados miraculosamente, e nutridos e aleitados de modo ainda mais estranho, tendo sido nos primeiros dias de nossa infância alimentados pelos pássaros e pelos animais selvagens aos quais nos expuseram como presa. Pois uma loba nos deu de mamar (dizem) e um picanço nos levou migalhas à boca na beira do grande rio onde tínhamos sido lançados dentro de uma tina, a qual ainda hoje está inteira, bandada de lâminas de cobre, sobre as quais há algumas letras gravadas e meio apagadas que porventura servirão um dia de insígnias de reconhecimento inúteis para os nossos pais, quando não mais houver tempo para isso, após havermos sido destruídos. » Numitor, pois, relacionando essas palavras ao tempo e à idade que o jovem mostrava ter, ao considerar-lhe o rosto, não rejeitou a esperança que lhe sorria, mas fez de sorte que achou meio de a esse respeito falar secretamente à filha; a qual então estava ainda estreitamente guardada.

X. Nesse ínterim, Fáustulo, advertido de que Remo estava prisioneiro e de que o rei o entregara às mãos de seu irmão Numitor, para fazer justiça, foi solicitar a Rômulo que o socorresse, dando-lhe então a entender de quem eles eram filhos, porque antes nunca lhes havia dito senão em palavras cobertas e não lhes declarara isso senão de passagem, só na medida bastante para elevar-lhes um pouquinho o coração; e foi então quando, tomando ele próprio a tina, saiu apressadamente à procura de Numitor, muito assustado com o perigo presente em que pensava achar-se Remo. Isso deu motivo a suspeita entre os guardas do rei que estavam à porta da cidade, e ainda mais suspeito se tornou ele quando se perturbou no responder aos interrogatórios que lhe fizeram, com o que se descobriu a tina que trazia sob o manto. Ora, havia por acaso, entre esses guardas, um que era aquele ao qual as crianças tinham sido entregues para que lhes desse sumiço e estivera presente quando foram expostas à mercê da fortuna: reconhecendo a tina, tanto pela forma como pelas letras gravadas em cima, desconfiou incontinente do que era verdadeiro. Assim, não desprezou a coisa, mas foi comunicá-la ao rei, levando Fáustulo em sua companhia, para fazê-lo confessar a verdade.

Fáustulo, achando-se nessa perplexidade, não pôde manter-se de todo invencível que não confessasse alguma coisa, mas também não se deixou levar de todo: pois reconheceu que as crianças estavam vivas, mas disse que bem longe da cidade de Alba, onde se vigiavam os animais nos campos; e, quanto à tina, ia levá-la a Ília, porque ela por várias vezes pedira que a deixasse ver e tocar, a fim de melhor poder assegurar-se de sua esperança, que lhe prometia que reveria um dia os filhos.

XI. Assim aconteceu a Amúlio o que ordinariamente acontece aos que se perturbam e que fazem alguma coisa por medo ou cólera: ficou tão aturdido que mandou um emissário, homem de bem e grande amiga de seu irmão Numitor, perguntar-lhe se ouvira dizer que os filhos de sua filha estavam vivos. Esse personagem, chegando à residência de Numitor, encontrou-o quase a ponto de abraçar e beijar Remo, e por seu testemunho lhe confirmou sua esperança, recomendando-lhe ainda que pusesse prontamente mãos à obra; e desde então ficou do seu lado.

XII. Fundação de Roma

XII. De outra parte, também a ocasião não lhes dava lazer para diferirem a empresa, ainda que o tivessem querido, pois Rômulo já estava muito perto da cidade e iam juntar-se a ele vários cidadãos de Alba, que temiam ou odiavam Amúlio; além desses, levava ele ainda bom número de combatentes distribuídos por centenas, cada uma das quais era conduzida por um centenário que marchava à frente da tropa levando um feixe de erva ou de madeira miúda, ligado à extremidade de uma percha. Os Latinos chamam a esses feixes manípulos, de onde vem que ainda hoje, em um exército de Romanos, os soldados que estão sob a mesma insígnia se denominam manipulares. Assim, com Remo solicitando os de dentro da cidade e Rômulo conduzindo gente de fora, viu-se o tirano Amúlio tão perturbado e amedrontado que, sem prover-se de alguma coisa que lhe pudesse ser salutar, foi surpreendido em palácio e morto.

Eis como aproximadamente o relatam Fábio Pictor e Díocles de Peparetos, que em minha opinião foi o primeiro que escreveu sobre a fundação da cidade de Roma; todavia, há os que estimam tratar-se inteiramente de fábulas e contos recreativos. Parece-me, porém, que não se deve rejeitá-los nem descrer de todo, se queremos considerar os estranhos efeitos muitas vezes provocados pela fortuna e também a grandeza do império Romano, o qual jamais teria atingido a potência em que se acha atualmente se os deuses nisso não se tivessem envolvido desde o começo e se ele não tivesse tido alguma origem estranha e um miraculoso fundamento.

XIII. Tendo assim Amúlio sido morto, depois que todas as coisas se acalmaram e foram repostas em boa ordem, Remo e Rômulo não quiseram ficar na cidade de Alba não sendo seus senhores, nem tampouco assenhorear-se dela enquanto o avô materno fosse vivo. Porque, após o terem reposto em seu estado e terem feito à sua mãe a honra que lhe cabia, propuseram-se construir uma cidade no lugar onde primeiramente haviam sido nutridos; pois era a mais honesta cor que podiam tomar para partirem de Alba; mas acontecia que eram constrangidos a fazê-lo, quisessem ou não, por causa do grande número de banidos e servos fugitivos que se haviam reunido em torno deles, nos quais consistia toda a sua força, a qual se perderia se acaso debandassem e partissem sem estes homens. Assim, era preciso que habitassem à parte, em algum lugar separado, para retê-los: pois que seja verdade que os habitantes da cidade de Alba não queriam que tais banidos e fugitivos se misturassem entre eles, nem recebê-los em sua cidade para serem seus concidadãos, aparece logo pelo fato de haverem tais proscritos roubado mulheres: o que não fizeram por insolência, antes por expressa necessidade, pois não achavam quem lhas quisesse entregar, o que se pode conhecer porque, muito honraram àquelas que foram roubadas. Ademais, quando sua cidade começou um pouco a tomar pé, fizeram um templo de refúgio para todos os aflitos e fugitivos, que eles chamaram de templo do deus Asileu61, onde havia liberdade para toda espécie de gente que pudesse alcançá-lo e nele ingressar: pois não entregavam o escravo fugitivo ao senhor, nem o devedor ao credor, nem o homicida ao justiceiro, alegando por toda defesa que o oráculo de Apoio em Delfos, lhes prescrevera expressamente que dessem liberdade e segurança a todos os que recorressem aos gêmeos; de maneira que em pouco tempo sua se diz que, na primeira fundação, não houve mais de mil casas, como diremos aqui depois.

XIV. Quando se veio pois a fundar sua cidade, os dois irmãos debateram juntos sobre o lugar em que devia ser erguida, por isso que Rômulo construiu o que se chama Roma quadrada e quis que ela ficasse no lugar que escolhera; mas Remo, seu irmão, escolheu outro lugar assentando sobre o monte Aventino, que em seu nome foi chamado Remônio e agora se chama Rignário; afinal, puseram-se de acordo decidindo a divergência pelo voo dos pássaros que dão feliz presságio das coisas vindouras. Tendo-se assim sentado em diversos lugares à parte para contemplá-los, dizem que apareceram a Remo seis abutres e a Rômulo doze. Dizem outros que Remo verdadeiramente viu seis e que Rômulo fingiu no começo ter visto duas vezes tanto; mas que, quando Remo se achegou a ele, então é que em verdade lhe apareceram doze. É a causa pela qual os Romanos até hoje, nas significações e prognósticos do voo dos pássaros, observam muito os abutres. Verdade é que o historiador Heródoto do Ponto escreve que Hércules se regozijava quando lhe aparecia um abutre no momento em que ele começava uma empresa; porque é no mundo o animal menos malfazejo, que não prejudica nem arruína coisa nenhuma que os homens semeiam, plantam ou nutrem; visto como se alimenta somente de carniça e não fere nem mata jamais o que tenha vida; do mesmo modo não toca nos pássaros mortos pela conformidade do gênero existente entre eles, ao passo que as águias, os mochos e os falcões assassinam, matam e comem aqueles mesmos que são de sua própria espécie; e, em suma, como diz Esquilo:

«Pode ser puro o pássaro que come
O próprio semelhante, em sua fome? »

Ademais, os outros pássaros estão sempre, por assim dizer, diante dos nossos olhos, e se nos apresentam ordinariamente onde o abutre é coisa bem rara e difícil de ver-se, pois não se encontra facilmente nos ares. O que deu ensejo a formarem alguns a falsa opinião de que os abutres são pássaros de passagem, provindo de algum país estranho, E os adivinhos sustentam que tais coisas que não são ordinárias e, se acontecem com muito pouca frequência, não são naturais, antes enviadas miraculosamente pelos deuses para prognosticar alguma coisa.

XV. Remo é morto por Rômulo. Cerimônias observadas para traçar o recinto de Roma

XV. Quando Remo soube do engano a que seu irmão o induzira, enfureceu-se com razão; e, como Rômulo mandasse fazer um fosso ao redor do recinto, que ele queria cercar de muralhas, não somente zombou disso com desprezo, mas ainda impediu a obra e, por fim, à guisa de escárnio, saltou-lhe por cima: Em suma, tanto fez que finalmente foi morto pela própria mão de Rômulo, como dizem uns, ou, como sustentam outros, pela mão de um dos seus homens, que se chamava Céler. Nessa contenda morreram também Fáustulo e seu irmão Plistino, que o ajudara a nutrir e criar Rômulo. Como quer que seja, esse Céler ausentou-se de Roma e se retirou para o país da Toscana; e dizem que por ele os homens prontos e decididos foram depois chamados Céleres, como entre outros Quinto Metelo, o qual após a morte de seu pai, tendo em poucos dias feito ver ao povo um combate de esgrimistas extremados, que os Romanos chamam de gladiadores, foi sobrenomeado Céler, porque os Romanos se maravilharam com o fato de haver ele podido fazer seus preparativos e em tão pouco tempo.

XVI. Entrementes, tendo Rômulo enterrado o irmão e seus dois nutridores no lugar que se chama Remônia, pôs-se a construir e fundar sua cidade, mandando buscar na Toscana homens que lhe enumeraram e ensinaram todas as cerimônias que precisava ali observar segundo os formulários existentes, exatamente como se fosse algum mistério ou algum sacrifício. Assim fizeram logo de início uma fossa redonda no lugar que se chama agora Comício, dentro do qual puseram primícias de todas as coisas que os homens usam legitimamente como boas e naturalmente como necessárias; depois lançaram ali também um pouco da terra de onde cada um deles tinha vindo e misturaram tudo (essa fossa tem em suas cerimônias o nome de Mundo, nome pelo qual os Latinos chamam também o Universo) e ao redor dessa fossa traçaram o recinto da cidade que desejavam edificar, exatamente com quem descrevesse um círculo ao redor de um centro. E, isso feito, o fundador da cidade toma uma charrua, à qual liga uma relha de bronze, e atrela-lhe um touro e uma vaca, e ele próprio, conduzindo a charrua por toda a volta do recinto, faz um profundo sulco, enquanto os que o seguem têm o encargo de derrubar para dentro da cidade os torrões que a relha da charrua vai retirando e de não deixar por fora nenhuma volta. Esse traço do sulco é o circuito que deve ter a muralha: o que eles chamam de Pomoerium62 em latim, por um encurtamento de sílabas, como quem dissesse post murum, isto, atrás dos muros ou junto aos muros. Mas, no lugar onde pensaram fazer uma porta, tiram a relha e levam a churrua, deixando um espaço da terra sem lavrar: de onde vem que os Romanos estimam santo e sagrado todo o recinto das muralhas, excetuadas as portas, porque, se fossem sagradas e santificadas, ter-se-ia tomado consciência de por elas não levar nem trazer de fora da cidade alguma coisa que não são puras, embora necessárias à vida do homem.

XVII. Ora, sustenta-se que a cerimonia de fundação se realizou com certeza no dia vinte e um de abril, motivo por que os Romanos festejam ainda esse dia e lhe chamam festa da natividade de seu país; no qual dia não sacrificavam outrora coisa nenhuma que tivesse vida, estimando que era preciso que o dia consagrado ao nascimento da cidade ficasse puro e limpo, sem estar manchado nem contaminado de sangue; todavia, tinham eles, antes de Roma ser fundada, outra festa pastoral, que celebravam naquele mesmo dia e denominavam Palília. São agora os começos dos meses dos Romanos inteiramente diferentes dos Gregos: assim é que se tem por certo que o dia no qual Rômulo fundou a cidade foi seguramente aquele a que os Gregos chamam Trícada, isto é, o trigésimo, no qual houve eclipse da lua63, que se estima ter sido visto e observado pelo poeta Antímaco, natural da cidade de Teos, no terceiro ano da sexta olimpíada64.

XVIII. Mas, ao tempo de Marco Varro, homem douto e que lera tanto as antigas histórias como jamais nenhum outro Romano, havia um de seus amigos chamado Tarrúcio, grande filósofo e matemático, que se entregava ao cálculo da astrologia pelo prazer da especulação somente, no que era tido por excelente: propôs-lhe Varro o tema de procurar a hora e o dia do nascimento de Rômulo, coligindo-o como consequência de suas aventuras, exatamente como se faz nas resoluções de algumas proposições geométricas, porque dizem eles que por um mesmo art ifício se pode predizer o que deve advir a um homem na vida, quando é conhecida a hora do nascimento; e conhecer também a hora do nascimento, quando se sabe o que lhe aconteceu na vida. Tarrúcio, pois, fez o que Varro lhe propôs e, tendo bem considerado as aventuras, os feitos e os gestos de Rômulo, quanto viveu e como morreu, tudo reunido e conferido em conjunto, pronunciou ousadamente que por certo ele fora concebido dentro do ventre materno no primeiro ano da segunda olimpíada, no dia vinte e três do mês que o Egípcios chamam de Choeac65 (que é o mês de dezembro), cerca das três horas do dia, na qual hora houve eclipse total do sol66; e que dali tinha saído aos vinte e um do mês de Tote, que é o mês de setembro, próximo do sol levante; e que Roma foi por ele fundada no dia nove do mês que os Egípcios chamam de Farmuti, que corresponde ao mês de abril, entre duas e três horas do dia, pois querem eles dizer que uma cidade tem sua revolução e seu tempo de duração prefixado, do mesmo modo que a vida do homem, e que se conhece isso pela situação dos astros no dia do…

XIX. Ordenanças militares de Rômulo. Formação da Legião. Criação do Senado

XIX. Mas, depois que fundou a cidade, dividiu primeiramente por tropas todos os que estavam em idade de pegar em armas. Havia em cada uma dessas tropas três mil homens a pé e trezentos a cavalo; e foram chamadas legiões, porque eram compostas de homens eleitos e escolhidos entre todos os outros, para combater; e o restante da comuna foi chamado Populus, o que vale tanto como dizer povo. Depois disso, criou cem conselheiros dentre os demais aparência e os melhores da cidade, aos quais chamou Patrícios, e a toda a companhia Senātus, que propriamente significa o conselho dos antigos. Assim foram chamados Patrícios, como querem alguns dizer, porque eram pais de filhos legítimos, ou, como estimam outros, porque podiam mostrar seus pais, o que poucos dos primeiros habitantes teriam podido fazer. Não é que se queria dizer que esse nome lhes foi imposto de Patrocinium, que equivale a patronagem ou proteção, palavra da qual ainda hoje se usa com o mesmo significado, porque um daqueles que seguiram Evandro na Itália chamava-se Patrono, o qual era homem socorredor, que sustentava os pobres e pequenos, tendo por isso dado seu nome a esse ofício de humanidade. Mais verossímil, contudo, parecer-me-ia dizer que Rômulo os teria assim chamado porque estimava que os mais graúdos e mais poderosos deviam ter cuidado e solicitude paternal para com os miúdos; além de que era para ensinar os pequenos a não terem medo da autoridade dos grandes, nem deplorarem suas honras e preeminência, mas a usarem de seu porte e favor nos negócios com toda a benevolência, nomeando-os e tendo-os como pais; pois até hoje os estrangeiros dão aos do Senado o nome de senhores ou capitães, mas os naturais Romanos os chamam de Patres conscripti, que é um nome de grande honra e de grande dignidade, sem inveja. É verdade que no começo eles foram chamados somente Patres, mas depois, porque houve vários acrescentados aos primeiros, passaram, a ser denominados Patres conscripti, como quem diria pais ajuntados, que é o nome mais venerável que se teria podido inventar para pôr diferença entre os senadores e o povo. Entrementes, ele separou ainda os outros cidadãos poderosos do povo baixo e miúdo, chamando a uns Patronos, que equivale a defensores e protetores, e a outros Clientes, que significa aderentes ou recebidos em salvaguarda; e criou entre eles uma admirável benevolência, que os ligou uns aos outros por diversas grandes obrigações recíprocas, porque os patronos declaravam aos seus aderentes asileis, defendiam-lhes as causas em julgamento, davam-lhes conselhos e tomavam em mãos todos os seus negócios; e reciprocamente também os aderentes faziam a corte aos seus patronos, não somente prestando-lhes toda a honra e reverência, mas também socorrendo-os com dinheiro para ajudá-los a casar as filhas ou a pagar as dívidas, se eram pobres; e não havia nem lei nem magistrado que pudesse constranger o patrono a dar testemunho contra o seu aderente ou segundo, nem o segundo contra o seu patrono; e depois, todos os outros direitos de aliança foram bem estabelecidos entre eles, exceto somente que se achou odioso e vil que os grandes e poderosos tomassem dinheiro aos pequenos.

XX. Rapto das Sabinas

XX. Mas já falamos bastante sobre essa matéria: em suma, quatro meses67 depois que a cidade foi fundada, assim como escreve Fábio, foi feito o rapto das mulheres; e alguns há que dizem ter sido Rômulo, o qual sendo homem belicoso por natureza e confiando em algumas profecias e respostas dos deuses, que o diziam predestinado, que sua cidade se tornaria muito grande e poderosa, elevando-se em guerras e acrescendo-se em armas, procurou essa cor para ultrajar os Sabinos; e que seja isso verdade, dizem eles que não mandou raptar muitas, mas trinta raparigas somente, como se pedisse mais ocasião de guerra do que tinha necessidade de casamentos: o que todavia não me parece verossímil. Mas, ao contrário, vendo que a cidade ficara incontinente repleta de gente de toda espécie, com muito poucas mulheres, porque era gente reunida de todos os países e a maior parte pobres necessitados que não se conheciam, de maneira que os seus vizinhos os tinham em grande desprezo e não se esperava que por muito tempo continuassem juntos, ele esperou por meio desse rapto que lhes fosse dado entrar em aliança com os Sabinos e começar a misturar-se de algum modo com eles, quando as mulheres fossem tratadas com doçura. Assim empreendeu executar o rapto desta maneira: fez primeiro correr por toda parte o rumor de que encontrara o altar de um deus escondido dentro da terra, e a esse deus chamaram Conso, ou porque fosse um deus de conselho, e os Romanos ainda hoje em sua língua chamam Consilium ao conselho, e Cônsules aos primeiros magistrados da cidade, como quem dissesse Conselheiros, ou porque fosse Netuno, sobrenomeado o Cavaleiro, ou ainda o Patrono dos cavalos, porque esse altar está hoje dentro das grandes liças, coberto e oculto todo o resto do tempo, exceto quando se fazem os jogos das corridas de cavalos. Dizem outros que porque é preciso que um conselho seja ordinariamente mantido secreto e coberto, eles emprestaram à boa causa esse altar do deus Conso, oculto dentro da terra; mas, quando foi descoberto, Rômulo fez um sacrifício de magnífica alegria e mandou publicar por toda parte que em certo dia prefixado se realizariam em Roma jogos públicos e se faria uma festa solene, onde todos os que desejassem comparecer seriam recebidos. Grande multidão de povo ali acorreu de todas as partes; e assentou-se ele no mais honroso lugar das liças, vestido cora uma bela túnica de púrpura, acompanhado dos principais homens da cidade ao redor de si, e tinha dado o sinal para começar o rapto, quando se levantou de súbito, dobrou uma aba de sua túnica e depois a desdobrou. Seus homens estavam de atalaia, armados de espadas; e, logo que perceberam o sinal, puseram-se a correr de um lado para outro, empunhando as espadas, com grandes gritos, e raptaram e levaram as jovens Sabinas, deixando fugir os homens, sem causar-lhes outro desprazer. Dizem alguns que houve somente trinta raptadas, cujos nomes foram dados às trinta linhagens do povo Romano; todavia, Valério Âncio escreve que houve quinhentas e vinte e sete; e Juba, seiscentas e oitenta e três. Grandemente notório, como descargo de Rômulo, é que ele tomou apenas uma, chamada Hersília, a qual depois foi causa de mediação e acordo entre os Sabinos e os de Roma: o que mostra não ter sido para fazer injúria aos Sabinos, nem para satisfazer nenhum desordenado apetite, que eles empreenderam esse rapto, antes para conjugar dois povos entre si com os mais estreitos laços existentes entre os homens. Essa Hersília, como dizem alguns, foi casada com um Hostílio, o mais nobre que então havia entre os Romanos, ou, como escrevem outros, com o próprio Rômulo, que teve dela dois filhos: o primeiro foi uma filha com o nome de Prima, porque era a primeira; o outro foi um filho que se chamou Aólio, por causa da aglomeração de povo que reunira em sua cidade, e depois foi sobrenomeado Abílio. Assim escreve Zenódoto de Trezena: no que, todavia, vários o contradizem.

XXI. Mas, entre os que raptavam então as jovens Sabinas, dizem que houve algumas pessoas de pequeno estado, que dentre elas retiraram uma maravilhosamente bela e robusta. Encontraram eles casualmente em seu caminho alguns dos principais da cidade, que lha quiseram tirar pela força; e, como, o tivessem feito, puseram-se a gritar que a levavam a Talássio68, jovem bem estimado e querido de todos, porquanto, ao ouvirem os outros que era para ele, fizeram grande festa e os louvaram por isso; de sorte que houve alguns que voltaram sem mais aquela com eles e os acompanharam por amor a Talássio, gritando em altas vozes e repetindo frequentemente seu nome: de onde veio o costume de até hoje em suas núpcias os Romanos cantarem Talássio, exatamente como os gregos cantam Himeneu, porque se diz que ele foi feliz por ter encontrado essa mulher Mas Séxtio Sila de Cartago, homem de gentil espírito e de bom saber, disse-me outrora que era o grito e o sinal que Rômulo dera à sua gente para começar o rapto: naquela ocasião, os que roubavam iam gritando essa palavra Talássio, e daí ficou o costume de ser cantado ainda nas núpcias. Todavia, a maior parte dos autores, do mesmo modo que Juba, estima que se trate de uma admoestação, para advertir as recém-casadas a pensar em fazer bem a sua tarefa de fiar, a que os Gregos dão o nome de Talássia69, não existindo ainda na época as palavras italianas misturadas entre as gregas. E, se isso é verdade, que então os Romanos usassem desse termo Talássia como nós outros Gregos, poder-se-ia por conjectura dar outra razão na qual haveria mais aparência: pois, quando os Sabinos, após a batalha, fizeram a paz com os Romanos, puseram eles no tratado, em favor das mulheres, um artigo pelo qual elas não seriam obrigadas a servir os maridos em outro mister senão o de fiar a lã. Daí veio depois o costume de que aqueles que dão suas filhas em casamento, ou que conduzem as recém-casadas, ou que estão presentes às núpcias, gritam por brincadeira aos recém-casados, rindo, Talássio como que testemunhando que a esposa é conduzida para a casa do marido não com o encargo de outro serviço que o de fiar a lã.

XXII. Daí ficou também até hoje o costume de que a recém-casada não atravessa por si mesma a soleira da porta da casa do marido, mas a levam para dentro, por isso que então as Sabinas foram assim raptadas e levadas pela força, E dizem ainda que o costume de repartir os cabelos das recém-casadas com o ferro de uma lança vem também daí, sendo sinal de que essas primeiras núpcias se realizaram pela força das armas e, por assim dizer, à ponta de espada, como escrevemos mais amplamente no livro em que damos as c ousas das maneiras de agir e costumes de Roma. Esse rapto foi executado aproximadamente no dia dezoito do mês que então se chamava Sextil e agora se denomina Augusto: dia no qual é ainda celebrada a festa que tem o nome de Consália.70

XXIII. Ora, eram bem os Sabinos homens de guerra e tinham povo grandemente numeroso, mas habitavam pequenos burgos não cercados de muralhas, sendo coisa pertinente à sua magnanimidade não temer nada, como aqueles que descendiam dos Lecedemônios; todavia, vendo-se penhorados e obrigados através de reféns que lhes ficavam tão perto, e temendo que suas jovens fossem maltratadas, enviaram embaixadores a Rômulo, por intermédio dos quais lhe fizeram ofertas e observações muito razoáveis: «Que mandasse entregar-lhes as jovens sem usar de força nem de violência; e depois mandasse pedi-las em casamento aos pais, assim como a razão e as leis o exigiam, a fim de que, por vontade e consentimento das partes os dois povos viessem a contratar amizade e aliança recíprocas». Ao que respondeu Rômulo que não entregaria as jovens que sua gente raptara mas pedia com empenho aos Sabinos que tratassem de ter por agradável sua aliança»

XXIV. Vitória alcançada sobre Ácron, rei dos Gênicos

XXIV. Ouvida essa resposta, enquanto os outros príncipes e comunais dos Sabinos se entretinham em consultar e em preparar-se, Ácron, rei dos Cênicos, homem corajoso e bem entendido em matéria de guerra, e que desde o começo suspeitara das ousadas empresas de Rômulo, vendo ainda de novo esse rapto das jovens, estimou que ele devia já ser temido por todos os vizinhos, não sendo tolerável que não fosse castigado. Foi assim o primeiro que marchou contra ele, para fazer-lhe a guerra com um poderoso exército. Rômulo, do outro lado, lhe foi também ao encontro. Quando ficaram tão perto um do outro que puderam entrever-se, desafiaram-se reciprocamente a combater de homem para homem no meio de seus dois exércitos, sem que estes se mexessem. E Rômulo dirigindo a Júpiter sua prece, prometeu-lhe e votou que lhe faria oferenda das armas do inimigo, se ele lhe desse a graça de o derrotar. Assim o fez, pois o matou em seguida e depois deu batalha à sua gente, desbaratando-a, e afinal tomou-lhe a cidade, onde não causou mal nem desgosto algum aos que encontrou no interior, senão que lhes ordenou a demolição e destruição de suas casas, para irem habitar em Roma, onde teriam todos os mesmos direitos e os mesmos privilégios que os primeiros habitantes. Não há nada que tenha mais aumentado a cidade de Roma do que essa maneira de juntar e incorporar sempre consigo os que vencia.

XXV. Origem do Triunfo

XXV. Mas Rômulo, querendo cumprir seu voto, de sorte que sua oferenda fosse muito agradável a Júpiter e muito deleitável aos olhos de seus cidadãos, cortou uma bela, grande e direita carvalheira afortunadamente encontrada no lugar onde seu acampamento estava situado e enfeitou-a em forma de troféu, pendurando e ligando em volta, pela ordem as armas do rei Ácron; depois, cingiu a túnica e, pondo uma coroa de louros por cima de sua longa peruca71, carregou sobre o ombro direito a carvalheira, com a qual se pôs a marchar para a frente, na direção de sua cidade, começando a entoar uma canção real de vitória, seguido por todo o exército em armas até dentro de Roma, onde os concidadãos o receberam com grande alegria e grandes louvores. Essa pomposa entrada deu começo e reputação para se fazer desejar, aos triunfos que se fizeram depois, mas a oferenda do troféu foi dedicada a Júpiter sobrenomeado Ferétrio, porque essa palavra latina Ferire significa bater e matar; e a prece que havia Rômulo feito era que ele pudesse ferir e matar o inimigo. -Tais despojos se chamam em latim Spolia opima, por isso que, diz Varro, Opes significa riqueza; todavia, mais verossímil me pareceria dizer que tinham sido chamados por essa palavra opus, que significa obra ou ato, porque é preciso ser o próprio chefe do exército, que matou com sua própria mão o comandante-chefe dos inimigos, para poder oferecer tal oblata de despojos, que se chama Spolia opima, como quem dissesse despojos principais. O que ainda não aconteceu senão a três capitães romanos somente: dos quais o primeiro foi Rômulo, que matou Ácron, rei dos Cênicos; e segundo foi Cornélio Cosso, que matou Tolumnio, capitão-geral dos Toscanos; e o terceiro foi Cláudio Marcelo, que com sua mão abateu Britomarto, rei dos Gauleses. E, quanto aos dois últimos, Cosso e Marcelo, entraram eles na cidade levando os troféus sobre carretas triunfantes: mas Rômulo, não. E, portanto, falhou nesse ponto o historiador Dionísio, ao escrever que Rômulo entrou em Roma sobre uma carreta de triunfo: pois foi Tarquínio, filho de Demarato, o primeiro que elevou os triunfos a essa soberba magnificência; sustentam outros que foi Valério Publícola quem entrou primeiro em cima de uma carreta triunfal. Quanto a Rômulo, veem-se ainda em Roma suas estátuas levando esse troféu inteiramente a pé.

XVI. Primeiras conquistas dos Romanos. Tomada do Capitólio pelos Sabinos

XXVI. Após essa luta dos Cênicos, os habitantes das cidades de Fidena, Crustumério, Antemnas, bandearam-se todos contra os Romanos, enquanto os outros Sabinos ainda se preparavam. Assim houve batalha, na qual eles foram derrotados; e abandonaram suas cidades em poder de Rômulo e suas terras para repartir a quem ele quisesse, deixando-se eles próprios transportar para Roma. Rômulo distribuiu as terras a seus cidadãos, exceto as que pertenciam aos pais das jovens raptadas. Pois quis que estes as retivessem. Gravemente indignados com isso, os outros Sabinos elegeram capitão-general um chamado Tácio e avançaram com um poderoso exército até à cidade de Roma, a qual era então de difícil acesso, tendo por terrapleno o castelo onde está hoje o Capitólio; e havia dentro uma grande guarnição de que era comandante Tarpéio, e não sua filha Tarpéia, como querem alguns dizer, fazendo de Rômulo um tolo; mas a filha do comandante, Tarpéia, vendeu a praça aos Sabinos, por desejar possuir os braceletes de ouro que eles traziam em volta dos braços; e pediu-lhes para alugar a traição, o que eles levavam nos braços esquerdos. Tácio lho prometeu, e ela, à noite, abriu-lhes uma porta pela qual introduziu os Sabinos no castelo. Antígono, pois, não ficou só, ao dizer que amava os que traíam e odiava os que haviam traído; nem César Augusto, que disse a Remetalces da Trácia que amava a traição, mas odiava os traidores: é antes uma comum afeição que se tem pelos maus enquanto se tem negócio com eles, exatamente com os que têm negócio com o fel e o veneno de alguns animais venenosos, pois ficam satisfeitos quando os encontram e os tomam para servirem-se deles em seus desígnios; mas, uma vez atingido o que desejavam, odeiam-lhes a malícia. Assim fez então Tácio: pois, quando se viu dentro da fortaleza, ordenou aos Sabinos que, de acordo com a promessa que fizera a Tarpéia, não lhe poupassem nem retivessem nada de tudo quanto traziam nos braços esquerdos; e, tirando primeiro ele próprio de seu braço o bracelete que levava, atirou-lhe assim como depois o escudo: todos os outros fizeram outro tanto, de sorte que, lançada por terra a golpes de braceletes e de paveses, ela morreu sufocada pelo fardo; todavia, Tarpeio foi também atingido e convencido de traição no processo de Rômulo, como diz Juba que Sulpício Galba quem escreveu. Entrementes, os que de outro modo escrevem sobre essa Tarpéia, dizendo que era filha de Tácio, comandante dos Sabinos, e que era forçada a deitar-se com Rômulo; e que, após haver feito a traição que descrevemos, foi assim, punida pelo próprio pai — esses, digo eu, entre os quais está Antígono, não merecem nenhum crédito. E ainda mais sonha o poeta Símile, ao dizer que Tarpéia vendeu o Capitólio, não aos Sabinos, mas ao rei dos Gauleses, do qual se enamorara; e o diz nestes versos:

Tarpéia72, a jovem que morava então
No alto do Capitólio, à traição
Fez tomar Roma, pela cupidez
De ter um dia o amor do rei Gaulés, Ao qual, naquela fútil esperança,
Entregou de seu pai a própria herança.
E, um pouco depois, falando da maneira de sua morte, diz ainda:
Mas os Gauleses, que na praça entraram,
Dentro do Pó o corpo não lançaram,
Preferindo cobri-lo belicosos,
Com seus belos broqueis, tão numerosos
Que dessa forma a pobre criatura
Debaixo deles teve sepultura.

Essa jovem, pois, tendo sido enterrada no mesmo lugar, todo o monte foi mais tarde chamado Tarpéio e conservou esse nome até que o rei Tarquínio dedicou toda a praça a Júpiter, pois então foram transportados seus ossos para outro lugar, e mudou seu nome; de modo que ainda hoje se dá a uma rocha situada nesse monte de Capitólio o nome de Rupes Tarpeia73, da qual era costume antigamente precipitar embaixo os malfeitores.

XXVII. Quando, pois, os Sabinos ficaram senhores da fortaleza, Rômulo se encolerizou e mandou desafiá-los a entrarem em batalha: o que Tácio não recusou, vendo que, se porventura fossem forçados, tinham uma segura retirada, pois o lugar entre os dois exércitos, no qual deviam combater, era em toda a volta cercado de pequenas montanhas; de sorte que era aparente que o combate ali seria áspero e penoso, por causa da incomodidade do lugar, no qual não se poderia nem fugir nem repelir para longe, tão constrita era a praça. Ora, acidentalmente, alguns dias antes o rio Tibre transbordara, daí resultando um atoleiro mais profundo do que parecia visto de cima, porque ficava em lugar plano, no ponto mesmo onde está a grande praça de Roma: tal não se reconhecia à primeira vista, porque a parte superior formava uma crosta, de modo que era fácil cair dentro e difícil sair, pois a parte inferior afundava. Assim, teriam os Sabinos dado diretamente dentro, não fora o perigo por que passara Cúrcio, que afortunadamente os livrou disso. Era ele um dos mais nobres e mais valentes homens dos Sabinos, e tendo montado u m corcel, marchava bem distante, em frente à tropa dos outros. O corcel foi lançar-se dentro do atoleiro e ele, que estava em cima, sentindo-o afundar, tratou logo de o fazer sair dali, à força de o picar e fatigar; mas, por fim, vendo que não podia livrar-se, deixou-o e se salvou. O lugar onde isso aconteceu é ainda hoje chamado por seu nome, Lacus Curtius. Os Sabinos, pois, evitando esse perigo, começaram a batalha, que foi áspera e durou longamente, sem que a vitória se inclinasse mais para uma parte do que para a outra; e, não obstante, houve grande número de mortos, entre os quais Hostílio, que se diz ter sido marido de Hersília e avô de Hostílio, que foi rei dos Romanos após Numa Pompílio.

XXVIII. Rômulo invoca Júpiter Estator

XXVIII. Houve depois ainda vários outros recontros em poucos dias, como se pode imaginar; faz-se menção, porém, do último de todos, no qual Rômulo recebeu uma pedrada na cabeça, tão forte que pouco faltou para tombar por terra74 e de tal maneira que foi constrangido a retirar-se um pouco para trás da refrega; nessa ocasião, os Romanos recuaram também e fugiram para o monte Palatino, tendo sido expulsos da planície. Rômulo começava já a refazer-se do golpe que recebera e quis retornar ao combate, gritando tanto quanto podia à sua gente, para que resistisse e fizesse face ao inimigo; mas nem por isso deixavam eles de fugir sempre ao longo da estrada, e não havia nenhum que ousasse voltar. Então, levantando as mãos para o céu, pediu a Júpiter que lhe permitisse deter a fuga de seus homens e não deixasse que os negócios dos Romanos se arruinassem daquela maneira, antes os restabelecesse. Bem não tinha acabado a prece, vários dos seus homens que escapavam começaram a ter vergonha de fugir diante do seu rei e de repente lhes veio uma segurança em lugar de medo, de sorte que pararam primeiramente no lugar onde é agora o templo de Júpiter Estator, o que vale tanto como dizer Parador; depois, zombando uns dos outros, repeliram os Sabinos até ao lugar que no presente se chama Régia e até ao templo da deusa Vesta, onde, como os dois batalhões se preparassem para recomeçarem a combater de novo, apresentou-se diante deles uma coisa estranha de se ver e mais maravilhosa do que poderia narrar, que os livrou disso. Pois os Sabinos que os Romanos tinham raptado acorreram, umas de um lado, outras de outro, com prantos, gritos e clamores, lançando-se através das armas e dos mortos que jaziam por terra, de maneira que pareciam fora de si ou possessas de algum espírito; e em tal estado foram encontrar seus pais e maridos, umas levando entre os braços filhinhos que ainda mamavam, outras descabeladas, e todas chamando ora os Sabinos e ora os Romanos, pelos mais doces nomes existentes entre os homens; o que enterneceu os corações de uns e de outros, de maneira que eles se retiraram um pouco e lhes fizeram praça entre as duas batalhas. Foram assim os seus gritos e lamentos ouvidos claramente por todos e não houve aquele a quem elas não causassem grande piedade, tanto por vê-las em tal estado como por ouvir as palavras que diziam, acrescentando aos francos enunciados de suas razões as mais humildes preces e súplicas de que podiam advertir-se.

XXIX. As Sabinas sustentam o partido dos Romanos

XXIX. «Pois que ofensa (diriam elas) ou que desgosto vos fizemos para merecermos tantos males que já sofremos e que nos fazeis ainda sofrer agora? Fomos violentamente e contra as leis raptadas por aqueles com quem estamos atualmente; mas nossos pais, nossos irmãos, nossos parentes e amigos nos abandonaram tão longamente que a extensão do tempo, tendo-nos ligado com os mais estreitos laços do mundo àqueles que odiávamos mortalmente, nos constrangeu agora a ter medo vendo combater e a lamentar vendo morrer os que então nos raptaram injustamente, Pois não viestes procurar-nos quando estávamos ainda intactas e retirar-nos das mãos dos que nos detinham iniquamente, e vindes agora para tirar as mulheres aos maridos e as mães às crianças, de sorte que a socorro que vós cuidais trazer-nos agora nos é mais penoso do que o abandono no qual então nos deixastes e que não foi tão doloroso: tal é a amizade que eles nos demonstraram e tal a piedade que tendes agora de nós.

Se, pois, combatêsseis por alguma outra causa, diferente de nós, ainda seria razoável que cessásseis o combate por amor a nós, por quem vos fizestes sogros, avós, aliados e cunhados daqueles contra os quais combateis. Mas, se assim, é que toda esta guerra não foi empreendida senão por nós, então vos suplicamos de todo o coração que nos queirais receber como vossos genros e netos, sem nos querer privar dos nossos maridos e dos nossos filhos, nem nos querer entregar cativas e prisioneiras mais uma vez. »

XXX. Associação dos Romanos e dos Sabinos. Começo e número das Tribos

XXX. Ouvidas tais súplicas e reprimendas de Hersília e das outras damas Sabinas, os dois exércitos depuseram as armas e os dois chefes falaram um com o outro; durante o qual parlamento, elas conduziram os maridos e os filhos aos seus pais e irmãos, levaram de comer e de beber aos que o desejaram, pensaram os feridos e, introduzindo-os em suas moradias, mostraram-lhes como eram donas das casas de seus maridos e como estes as- tinham em grande conta, prestando-lhes todas as honras com amizade conjugal; de maneira que, finalmente, houve um acordo pelo qual ficou estabelecido que as Sabinas que desejassem ficar com aqueles que as possuíam ali permanecessem, isentas de qualquer outra incumbência e de qualquer outro serviço, como dissemos antes, senão o de fiar a lã; e também que os Sabinos e os Romanos habitariam juntamente dentro da cidade, a qual seria chamada Roma, do nome de Rômulo; e os habitantes seriam chamados Quirites, do nome75 da cidade onde Tácio era rei dos Sabinos; e que ambos reinassem e governassem de comum acordo. O lugar onde se firmou tal pacto é ainda hoje chamado Comitium, porque Coíre76, em linguagem latina, significa reunir-se. Assim aumentada a cidade da metade, ajuntaram-se cem novos patrícios Sabinos aos cem primeiros Romanos, e foram pois feitas as legiões de seus mil homens a pé77 e de seiscentos a cavalo, e se distribuíram todos os habitantes em três linhagens, sendo os de Rômulo chamados Ramnenses, de seu nome; os do lado de Tácio, Tacienses; e os da terceira, Lucerenses, por causa do bosque ao qual acorreu grande número de pessoas de toda espécie, desde que ali se deu livre acesso a todos os que vinham, os quais foram depois feitos cidadãos Romanos, pois em latim os bosques são chamados Lucos. Ora, que no começo houvesse em Roma três linhagens somente, e não mais, a própria palavra tribus, que significa linhagem, o testemunha, pois assim lhes chamam os Romanos ainda hoje, e tribunos aos seus chefes; mas cada uma dessas linhagens principais tinha sob si mais dez outras particulares, as quais alguns estimam haverem sido chamadas pelos nomes das damas Sabinas, mas isso é falso, porque várias trazem os nomes de alguns lugares.

XXXI. Todavia, houve várias coisas estabelecidas e ordenadas em honra das damas, como ceder-lhes e dar-lhes o lugar mais elevado quando encontradas pelo caminho; não dizer nada de sujo nem de desonesto em sua presença; não se despir78 diante delas; não poderem ser chamadas à justiça perante os juízes criminais que conhecem dos homicídios; que seus filhos trouxessem ao colo uma espécie de baga que se chamava Bulla, por isso que é quase como essas garrafinhas que se formam em cima da água quando começa a chover; e que suas saias fossem bordadas de púrpura.

XXXII. Assim não conferenciavam os dois reis logo que as questões sobrevinham, mas cada qual deliberava primeiramente à parte, com seus cem senadores, e depois se reuniam todos. Tácio residia no lugar onde é agora o templo de Juno Monēta, e Rômulo no lugar a que hoje se dá o nome de Degraus de bela margem, que ficam na descida do monte Palatino, assim como se vai ao parque das grandes liças79, onde dizem que outrora estava a santa sorveira80, do que se conta o seguinte: Rômulo, querendo um dia experimentar sua força, atirou (dizem) ‘do monte Aventino até lá uma lança cujo cabo era de sorveira: o ferro penetrou de tal modo a terra, forte e gorda, que ninguém pôde arrancá-la, ainda que vários o tentassem e nisso pusessem todo o esforço. A terra, sendo própria para nutrir árvores, cobriu a ponta do cabo, que criou raiz e começou a dar ramos, de tal maneira que com o tempo se tornou uma bela e grande sorveira, que os sucessores de Rômulo cercaram de muralha em toda a volta, reverenciando-a e preservando-a como coisa muito santa; e, se porventura, alguém ia vê-la e não ia achava fresca e verdejante, antes como árvore que vai fenecendo e secando por falta de nutrição, dizia-o amedrontado a todos os que encontrava, e eles, nem mais nem menos do que se tratasse de extinguir um fogo, iam gritando por toda parte: «Água, água»; e de toda parte se acorria com vasos cheios de água, para regá-la e embebê-la. Mas, no tempo de Caio César, que mandou refazer esses degraus, os operários, segundo se diz, cavando e esburacando tudo à volta da sorveira, por desleixo lhe ofenderam as raízes, de modo que a árvore secou inteiramente.

XXXIII. Festas

XXXIII. Ora, receberam os Sabinos os meses dos Romanos, com referência aos quais escrevemos suficientemente na vida de Numa; mas também Rômulo usou de seus escudos e mudou o feitio das armas de que antes usavam tanto ele como seus homens: pois levavam pequenos escudos, à maneira dos Argianos. E, quanto às festas e sacrifícios, eles as comunicavam entre si, e não aboliram nenhuma daquelas que ambos os povos observavam antes, mas lhes acrescentaram outras novas, como a que se denomina Matronália81, que foi instituída em honra das damas, porque estas haviam sido causa de se fazer a paz; e também a de Carmentália82, a qual alguns estimam ser a deusa fatal, que domina e preside ao nascimento do homem, razão por que as mães a reclamam e a honram. Dizem outros que era a mulher de Evandro de Arcádia, a qual, sendo profetisa inspirada pelo deus Febo, transmitia os oráculos em versos, pelo que foi sobrenomeada Carmenta, porque Carmina em latim significam versos: pois é certo que seu próprio nome era Nicóstrata. Todavia, há quem dê outra derivação e interpretação mais verossímil a essa palavra Carmenta, como se fosse Carensmente, que significa fora do senso, pelo furor que domina os que são inspirados de espírito profético. Pois em latim Carere significa ser privado e Mens significa o senso e o entendimento. Quanto à festa de Palília, falamos dela precedentemente83; mas a de Lupercália84, considerado o tempo no qual é celebrada, parece ter sido instituída para uma purificação, pois se realiza em dias desencontrados do mês de fevereiro, nome que, interpretado, significa o mesmo que purificativo; e ao dia em que era celebrada se dava antigamente o nome de Februata. Mas o nome próprio da festa vale tanto como dizer a festa dos lobos, causa pela qual parece ser muito antiga’, tendo sido instituída pelos Árcades que vieram com Evandro, conquanto o nome seja comum tanto às lobas como aos lobos, podendo ter sido imposto por causa da loba que nutriu Rômulo, pois vemos que os que nesse dia correm pela cidade, chamados Luperci, começam a corrida no próprio lugar em que se diz ter sido Rômulo exposto. Mas então se fazem coisas cuja causa e origem seria bem difícil conjecturar: matam-se cabras e conduzem-se dois jovens de nobre casa, aos quais se toca a fronte com a faca tinta do sangue das cabras imoladas, e depois são eles enxugados com lã temperada no leite, e é preciso que os jovens se ponham a rir depois que lhes enxugam a fronte; isso feito, cortam-se as peles das cabras e com elas se fazem correias que eles tomam nas mãos, e vão correndo pela cidade inteiramente nus, tendo apenas um pano cingido diante da natureza; e batem com as correias nos que encontram em caminho; mas as jovens não os evitam, antes ficam satisfeitas quando são batidas, estimando que isso lhes sirva para ficarem grávidas e darem à luz com facilidade. Há ainda outra particularidade nessa festa: é que os Lupercos, isto é, os que correm, sacrificam um cão. Mas um poeta chamado Butas, em certas elegias que escreveu, onde apresenta causas fabulosas para os costumes e cerimônias de Roma, diz que Rômulo, após haver derrotado Amúlio, pôs-se a correr, com grande alegria, no mesmo lugar em que a loba dera de mamar a seu irmão e a ele; em memória dessa corrida, diz ele, a festa de Lupercália é celebrada, e jovens de nobre casa correm então pela cidade^ batendo e ferindo os que encontram no caminho, para recordar que Remo e Rômulo correram desde Alba até àquele lugar, tendo as espadas seguras nas mãos; e que se lhes toca a fronte com uma faca tinta de sangue, como lembrança do perigo de serem mortos em que então estiveram; e, depois de tudo, que se lhes enxuga a fronte com leite, para comemorar a maneira como foram aleitados. Mas Caio Acílio escreve que Remo e Rômulo antes de haver sido Roma construída, extraviaram um dia seus animais e, para procurá-los, após terem dirigido preces a Fauno, puseram-se a correr inteiramente nus em várias direções, de medo que o suor os impedisse; e que é a causa pela qual hoje os Lupercos correm inteiramente nus.

E, se é verdade que tal sacrifício se faça para uma purificação, poder-se-ia dizer que eles imolam um cão com esse fim, exatamente como os Gregos levam 85 para fora os cães e em vários lugares observam aquela cerimônia de expulsar os cães, o que tem o nome de Periscilacismos; ou melhor, se é para dar graças à loba que aleitou e evitou que Rômulo perecesse que os Romanos solenizam essa festa, não é sem propósito que se sacrifique um cão, porque é o inimigo dos lobos; se porventura não se quisesse dizer que foi para castigar essa fera, que prejudica e impede os Lupercos quando eles correm.

XXXIV. Instituições das Vestais e do fogo sagrado

XXXIV. Dizem também alguns que foi Rômulo o primeiro que instituiu a religião de guardar o fogo santo e que ordenou as virgens sagradas que se chamam Vestais; atribuem-no outros a Numa Pompílio. Como quer que seja, é bem certo que ele foi homem muito devoto e bem entendido na arte de adivinhar as coisas futuras pelo voo dos pássaros, que era a causa pela qual levava ordinariamente o bastão augurai, que em latim tem o nome de Lituus. É uma verga curvada pela extremidade, com a qual os adivinhos, quando se assentam para contemplar o voo dos pássaros, designam e marcam as regiões do céu, Ficava cuidadosamente guardada dentro do palácio, mas se extraviou no tempo da guerra dos Gauleses, quando a cidade de Roma foi tomada; e, depois que os bárbaros foram expulsos, tornaram a encontrá-la intacta, segundo se diz, dentro de um alto montão de cinzas, sem que de nenhum modo estivesse prejudicada, ao passo que todas as outras coisas ao redor tinham sido consumidas ou arruinadas pelo fogo.

XXXV. Leis. O parricídio desconhecido em Roma durante seiscentos anos

XXXV. Fez ele também algumas ordenanças, entre as quais uma existe que parece um pouco dura, a qual não permite que a mulher deixe o marido e dá licença ao marido para deixar a mulher quando acaso ela tenha envenenado os filhos, ou falsificado as chaves, ou cometido adultério; e, se por outro motivo a repudiasse, a metade dos bens era adjudicada à mulher e a outra à deusa Ceres; e mandava que aquele que repudiasse a mulher sacrificasse aos deuses da terra. Mas isso é próprio e particular em Rômulo, que, não tendo estabelecido nenhuma pena contra os parricidas, isto é, contra os que matam o pai ou a mãe, chama contudo parricídio a todo homicídio, como sendo execrável um, e o outro impossível. Assim pareceu longamente que ele tinha razão de pensar que jamais tal maldade acontecesse, pois não se achou ninguém em Roma que cometesse tal crime no espaço de seiscentos anos; e o primeiro parricida foi Lúcio Óstio, depois da guerra de Aníbal. Mas já se falou bastante sobre o assunto.

XXXVI. Querela de Tácio, rei dos Sabinos. Sua morte

XXXVI. Entrementes, no quinto ano do reino de Tácio, alguns de seus parentes e amigos encontraram incidentalmente em seu caminho alguns embaixadores vindos da cidade de Laurento a Roma, sobre os quais se precipitaram e trataram de lhes tirar o seu dinheiro; e, porque esses embaixadores não lhe quisessem entregar, antes se puseram em defesa, eles os mataram. Assim cometido esse vil delito, foi Rômulo avisado de que deviam imediatamente aplicar-lhes punição exemplar; mas Tácio a adiava, usando sempre de alguma desculpa, o que foi exclusivamente a causa de entrarem em dissensão aparente, pois até então se estavam comportando o mais honestamente possível um para com o outro, conduzindo e governando todas as coisas de comum acordo e consentimento. Mas os parentes daqueles que haviam sido mortos, vendo que não podiam obter justiça, por causa de Tácio, espiaram-no um dia em que ele sacrificava na cidade de Lavínio com Rômulo, e o mataram, sem nada pedir a Rômulo: antes o louvaram como príncipe direito e justiceiro. Rômulo fez transportar o corpo de Tácio e o inumou muito honrosamente no monte Aventino, perto do lugar que se chama agora Armilústrio86; mas, quanto ao resto, não deu mostra alguma de querer vingar-lhe a morte.

Há historiadores que escrevem que os da cidade de Laurento, horrorizados com esse crime, entregaram-lhe os que o haviam cometido, mas que Rômulo os deixou ir embora, dizendo que um crime tinha sido justamente vingado por outro. Isso deu ocasião a que se dissesse e pensasse que ele ficara muito satisfeito por se ter livrado do companheiro; todavia, os Sabinos não se impressionaram com isso nem se amotinaram, ao contrário, uns pela amizade que já lhe dedicavam, outros por lhe temerem o poder e outros porque o adoravam como a um deus, perseveraram em prestar-lhe sempre toda a honra e obediência.

XXXVII. Rômulo apodera-se da cidade de Fidena e forma ali uma colônia. Peste violenta em Roma

XXXVII. Vários estrangeiros mesmo reverenciavam também a virtude de Rômulo, como entre outros, aqueles que então se chamavam os antigos Latinos, os quais lhe mandaram emissários e com ele trataram de fazer amizade e aliança. Ele tomou também a cidade de Fidena, que era muito vizinha de Roma; e dizem alguns que a ocupou de assalto, tendo enviado antes alguns homens a cavalo para romperem os gonzos que sustentavam as portas; e depois sobreveio com o remanescente do seu exército, antes que os da cidade o suspeitassem. Escrevem outros que os Fidenatas correram e foram os primeiros a devastar seu país até aos subúrbios de Roma, onde causaram grandes males, mas que Rômulo levantou-lhes emboscadas no caminho, quando regressavam, matando grande número deles; e assim tomou ainda sua cidade, a qual todavia não demoliu, antes fez dela uma colônia, isto é, cidade dependente de Roma, para ali enviando dois mil e quinhentos87 burgueses que a habitassem. O que fez no dia treze do mês de abril, que os Romanos chamam de Idos. Algum tempo depois, surgiu em Roma uma peste tão violenta que os homens morriam subitamente, sem estarem doentes; a terra não produzia frutos, os animais não davam crias e choravam-se gotas de sangue88 dentro da cidade; de tal maneira que, além dos males que é forçoso que os homens sintam em tais acidentes, ainda tinham eles um terror muito grande da ira e furor dos deuses. E, quando tal se viu acontecer aos habitantes da cidade de Laurento, então não houve aquele que não julgasse que era expressa vingança divina que perseguia e afligia essas duas cidades, pelo assassínio cometido na pessoa de Tácio, e semelhantemente nas pessoas dos embaixadores que tinham sido mortos, Porque os homicídios de uma parte e de outra foram justiçados e, feita a punição, os males evidentemente cessaram em uma cidade e outra. Rômulo purificou as cidades com alguns sacrifícios de purgação, que ainda hoje se fazem89 junto à porta que se chama Ferentina.

XXXVIII. Derrota dos Camerinos

XXXVIII. Mas, antes que a pestilência cessasse, os de Camerino tinham vindo as saltar os Romanos e percorrido todo o seu país, estimando que eles não poderiam defendê-lo, por causa do inconveniente da peste que os atormentava. Todavia, Rômulo contra eles avançou incontinente com o seu exército e os derrotou em batalha, na qual90 morreram seis mil homens; e, tendo-lhes tomado a cidade, dela transportou para Roma a metade dos habitantes que tinham sobrado do desbarato; depois, mandou vir de Roma duas vezes tanto o que montava o resto dos naturais Camerinos, para habitar com eles em Camerino, e foi isso feito no dia primeiro de agosto: tão grande era a multidão de habitantes em Roma, apenas dezesseis anos após haver ela sido edificada. Mas, entre outros despojos que ele ganhou, trouxe uma carreta de cobre a quatro cavalos, a qual mandou erigir no templo de Vulcano e pôr em cima91 sua estátua cingida por Vitória com uma coroa de triunfo.

XXXIX. Guerras dos Veienses

XXXIX. Tendo assim acrescido seu poder, os mais fracos dobravam-se debaixo dele e se contentavam de com ele viver em paz; mas os poderosos tinham medo e lhe invejavam o crescimento, estimando que não seria prudente deixá-lo assim crescer a olhos vistos e que era preciso logo impedir-lhe o crescimento e aparar-lhe as asas. Os primeiros Toscanos que para isso se esforçaram foram os Veienses, os quais dominavam um grande país e habitavam uma vasta e poderosa cidade; e, para lhe começarem a guerra, mandaram-no intimar a entregarlhe a cidade de Fidena, como pertencente a eles; o que não somente era desarrazoado, mas também digno de sarcasmo, visto como, quando os Fiden atas se achavam em guerra e estavam em perigo, eles não os tinham socorrido; ao contrário, tinham tolerado a matança das pessoas, e depois vinham reclamar as terras quando outros a possuíam. Portanto, tendo-lhes Rômulo dado também uma resposta cheia de sarcasmo e de irrisão, eles dividiram seu exército em dois e enviaram uma parte contra os habitantes de Fidena e com a outra foram ao e ncontro de Rômulo. O que avançou contra a cidade de Fidena ganhou a batalha, ali matando dois mil Romanos; mas o outro foi também derrotado por Rômulo e ali morreram oito mil homens dos Veienses,

XL. Depois, tornaram a encontrar-se ainda outra vez perto da cidade de Fidena, onde houve batalha, na qual todos confessam que a principal façanha foi executada pela própria mão de Rômulo, o qual nesse dia mostrou ali toda a astúcia e ousadia que poderia existir num bom capitão e pareceu haver ultrapassado grandemente o ordinário dos homens em força corpórea e disposição pessoal; mas, não obstante o que a esse respeito dizem alguns, é bem difícil acreditá-lo, ou, para melhor dizer, inteiramente tora de crédito e de verossimilitude, pois escrevem que, tendo sido mortos nessa batalha catorze mil homens, mais da metade sucumbiu às próprias mãos de Rômulo, visto como todos estimam ser uma vã gabolice o que os Messenianos contam de Aristômenes92, que ele imolou aos deuses trezentas vítimas por tantos Lacedemônios que matara numa batalha. Tendo sido pois batido o exército adversário, deixou Rômulo fugir os que apressadamente puderam salvar-se e avançou diretamente contra a sua c idade; mas os que dentro dela se achavam, após haverem sofrido tão pesada perda, não esperaram o assalto, antes se adiantaram com humildes súplicas, pedindo-lhe paz e aliança, que lhes foi outorgada por cem anos, uma vez perdida como indenização boa parte de seu território, que se chama Septemagium93, quer dizer, a sétima parte, deixadas aos Romanos as salinas junto ao rio e entregues como reféns cinquenta dos principais entre eles.

Rômulo triunfou ainda sobre eles no dia dos idos de outubro, “que é o décimo-quinto do mês, levando em triunfo vários prisioneiros de guerra e, entre outros, o capitão-general dos Veienses, homem já ancião que loucamente se lançara à carga e mostrara com efeito ser menos experimentado nos negócios da guerra do que o requeria a sua idade. Daí vem que ainda hoje, quando se sacrifica aos deuses para render-lhes graças por alguma vitória, leva-se ao Capitólio, através da praça, um velho vestido com uma túnica de púrpura, com a baga chamada Bulla, que as criancinhas de boa casa trazem ao colo, e há um arauto que marcha depois, pondo em leilão os Sardos, porque se sustenta que os Toscanos se originaram dos Sardos94, e a cidade de Véios está situada no país da Toscana.

XLI. Rômulo vitorioso começa a exercer um duro império

XLI. Essa guerra foi a última que teve Rômulo, após a qual não pôde evitar lhe acontecesse o que costuma acontecer a quase todos aqueles que, por extraordinários favores da fortuna, são elevados a alto estado e grande poder: pois, confiando na prosperidade de seus negócios, começou a tornar-se presunçoso e a ter mais gravidade do que costumava antes, saindo dos termos de príncipe cortês e acessível a toda a gente e desviando-se nas maneiras de fazer monarquia soberba e odiosa a cada um, primeiramente pelos hábitos e pelo porte e continência que tomou, pois trazia sempre um saio tinto de púrpura95 e por cima uma longa túnica também de púrpura, e dava audiência sentado numa cadeira de costas inclinadas para trás, tendo sempre ao redor jovens que se chamavam Céleres, isto é, rápidos, pela grande prontidão e celeridade com que executavam suas ordens, e outros que marchavam diante dele empunhando bastões com que faziam retirar-se a multidão do povo e cingidos de correias com que ligavam e garroteavam incontinente os que ele mandava. Ora, os Latinos diziam antigamente ligare para ligar, mas agora dizem alligare, de onde vem que os ostiários e acólitos são chamados Lictores; todavia, parecer-me-ia verossímil dizer que houve acréscimo de um c e que antes se chamavam Litores sem c, porque são os mesmos a que os Gregos chamam Liturgos, isto é, oficiais públicos; e ainda hoje Leitos, ou Laos, em língua grega, significa o povo.

XLII. Mas, depois que seu avô Numitor faleceu na cidade de Alba, permitindo-lhe apoderar-se do reino, como a ele pertencente por direito de sucessão, ele transmitiu o governo à comuna, assim fazendo para ganhar a graça do povo; e todos os anos elegia um magistrado para legislar e administrar justiça aos Sabinos96. Isso ensinou os nobres de Roma a desejarem e procurarem um governo livre, que não estivesse sujeito ao querer de, um só rei e onde cada um mandasse e obedecesse por seu turno. Pois os que se nomeavam Patrícios nada manejavam, antes tinham somente o nome e o hábito honroso, e se reuniam em conselho mais para constar do que para se conhecer sua opinião; pois, quando estavam reunidos, precisavam escutar o comando e a ordenança do rei sem dizer palavra, e depois se retiravam, não tendo acima do povo miúdo outra vantagem além de serem os primeiros a saber o que se fazia; e ainda lhes ficavam todas as outras coisas menos graves, mas quando ele próprio, com sua autoridade, distribuiu aos velhos soldados as terras conquistadas aos inimigos e entregou os reféns aos Veienses sem lhes falar sobre isso, era manifesto que fazia grande injúria ao Senado.

XLIII. Desaparece

XLIII. Deu isso ocasião a que os senadores fossem depois suspeitos de o haverem feito morrer, quando poucos dias após, ele desapareceu tão estranhamente que jamais se soube o que lhe sucedeu, (o que foi no sétimo dia do mês que s e chama agora julho, que então se nomeava Quintilis), sem deixar aos Albinos, ao menos um vestígio para que se pudesse assegurar de sua morte, senão o tempo, tal como dissemos; pois naquele dia97 se fazem ainda agora muitas coisas em comemoração do acidente que então lhe adveio, E é preciso não se maravilhar demasiado da incerteza de sua morte, visto como Cipião o Africano, tendo sido após o jantar encontrado morto em sua casa, jamais se soube verificar nem saber como morrera. Pois uns dizem que, sendo doentio por compleição, desfaleceu e morreu subitamente; dizem outros que se fez morrer ele próprio com veneno; outros cuidam que os inimigos entraram secretamente à noite em sua casa e o sufocaram no leito: todavia, ao menos se achou seu corpo bem estendido, que cada um pôde considerar à vontade, para ver se lhe encontraria algum indício pelo qual se pudesse conjecturar a maneira como teria morrido. Mas Rômulo tendo desaparecido subitamente, não se achou nem parte nenhuma de seu corpo, nem peça nenhuma de suas roupas, E, no entanto, têm alguns estimado que os senadores se precipitaram juntos sobre ele dentro do templo de Vulcano e, após o haverem posto em pedaços, cada qual levou um dentro da dobra da própria túnica.

XLV. Honras divinas que lhe foram prestadas sob o nome de Quirino

XLIV. Pensam outros que essa desaparição não ocorreu dentro do templo de Vulcano, nem na presença dos senadores somente: antes dizem que Rômulo, àquela hora, estava fora da cidade, perto do lugar chamado Brejo da Cabra, onde pregava ao povo, e que de súbito o tempo mudou e se moveu o ar tão horrivelmente que não se poderia exprimi-lo nem crê-lo; pois primeiramente o sol perdeu inteiramente a luz, como se fosse noite inteiramente negra; e as trevas não foram doces nem tranquilas, antes houve trovões horríveis, ventos impetuosos e borrascas de todos os lados, que fizeram fugir o poviléu e o afastaram aqui e acolá, enquanto os senadores se abrigavam juntos. Depois, quando a tempestade passou, o dia ficou de novo claro e o céu sereno como antes, o p ovo tornou a reunir-se e pôs-se a procurar o rei e a perguntar o que lhe acontecera, mas os senhores não quiseram que eles inquirissem mais, antes os admoestaram a honrá-lo e reverenciá-lo como aquele que fora roubado ao céu e que, daí por diante, em lugar de bom rei, lhes seria deus propício e favorável. O poviléu, em sua maior parte, deu-se por pago e se regozijou de todo com ouvir essas notícias, passando de coração a adorar Rômulo com boa esperança; mas houve alguns que, investigando áspera e acremente a verdade do fato, muito perturbaram os patrícios, exigindo-lhes que absolvessem a rude multidão de vãs e loucas persuasões, por isso que eles mesmos com suas próprias mãos é que haviam assassinado o rei.

XLV. Estando pois as coisas nessa perturbação, dizem que houve um dos mais nobres patrícios, Júlio Próculo, muito estimado como homem de bem e que havia sido grande amigo familiar de Rômulo, tendo vindo da cidade de Alba com ele, que se apresentou na praça a todo o povo e afirmou, pelos maiores e mais santos juramentos que se poderiam fazer, que encontrara Rômulo em seu caminho, maior o mais belo do que jamais o vira, vestido de branco com armaduras claras e luzentes como fogo, e que, aterrorizado por vê-lo em tal estado, lhe perguntara: «Majestade, por que crime nosso e com que intenção nos deixaste expostos às falsas calúnias imputações iníquas que nos to rnaram suspeitos por tua partida? e por que abandonaste tua cidade toda em luto infinito?» Ao que Rômulo lhe respondem «Próculo aprouve aos deuses, dos quais eu viera, que eu ficasse entre os homens tanto tempo quanto e que, após haver construído uma cidade, que cm glória e em grandeza de império será um dia a primeira do mundo, voltasse a morar, como antes, no céu. Portanto, faze boa cara e dize aos Romano-, que, exercendo proeza e temperança, atingirão o cimo da potência humana; e, quanto a mim, eu serei doravante vosso deus protetor e patrono, que chamareis de Quirino. » Essas palavras pareceram criveis aos Romanos, tanto pelos costumes daquele que as dizia como pelo grande juramento que fizera, mas; ainda houve não sei que emoção celeste, semelhante a uma inspiração divina, que a isso ajudou: pois ninguém o contradisse, ao contrário, foram esquecidas as suspeitas e calúnias e cada qual se pôs a invocar, suplicar e adorar Quirino.

XLVI. Esses discursos certamente se parecem muito com o que os Gregos contam de Arísteas de Proconeso e de Cleômedes de Astipaléia: pois dizem que Arísteas morreu na oficina de um pisoeiro e que os amigos vieram para levar-lhe o corpo, mas não se soube o que lhe aconteceu e, naquela mesma hora, houve algumas pessoas voltando dos campos que afirmaram havê-lo encontrado e ter falado com ele, que estava a caminho da cidade de Crotona. Dizem também que Cleômedes foi homem de tamanho e força fora do natural, mas além disso irascível e insensato: pois, após haver feito várias outras violências, finalmente entrou um dia numa escola cheia de crianças, cuja cumeeira era sustentada por um pilar, e deu com a mão contra o pilar tão grande golpe que o rompeu pelo meio, de tal maneira que toda a cobertura caiu, esmagou e matou todas as crianças. Correram incontinente atrás dele para o prenderem, mas ele se atirou dentro de um grande cofre, que fechou sobre si e segurou a tampa por dentro tão firme que vários juntos, tendo-se esforçado para abri-lo, absolutamente nada puderam fazer; razão por que romperam todo o cofre, mas, quando este ficou em pedaços, não encontraram o homem dentro, nem vivo nem morto; com o que ficaram muito espantados e se dirigiram a Apoio Pítico, cuja profetisa lhes respondeu este verseto:

Dos semideuses o último, Cleômedes.

XLVII. Diz-se também que o corpo de Alcmena desapareceu quando o levavam para a sepultura e que, em seu lugar, encontraram uma pedra dentro do leito. Em suma, contam os homens várias outras maravilhas tais, onde não há aparência nenhuma de verdade, querendo deificar a natureza humana e associá-la com os deuses. É bem verdade que seria vil e mau reprovar e negar a divindade da virtude; mas também querer misturar a terra com o céu seria grande tolice. Portanto, é preciso deixar aí tais fábulas, sendo coisa bem segura o que diz Píndaro:

O corpo morre, certamente:
Viva fica a alma, tão-somente,
Como sinal da eternidade.

Pois veio do céu e para lá retorna, não com o corpo, mas antes quando, mais distanciada e separada do corpo, está nítida e santa, nada mais possuindo da carne. É o que desejava dizer o filósofo Heráclito, quando afirmava que a98 luz seca é a melhor alma, que se evola fora do corpo, nem mais nem menos que o raio fora da nuvem; mas aquela que se destempera com o corpo, cheia de paixões corporais, é como um vapor grosseiro, pesado e tenebroso, que não se pode inflamar nem elevar. Portanto, não há necessidade de querer, contra a natureza, enviar ao céu os corpos dos homens virtuosos, juntamente com as almas; mas é preciso estimar e crer firmemente que suas virtudes e suas almas, segundo a natureza e segundo a justiça divina, os tornam, de homens, santos; e de santos, semideuses; e de semideuses, após terem sido notificados e purificados perfeitamente, como nos sacrifícios de purgação, estando livres de toda possibilidade e de toda mortalidade, tornam-se, não por nenhuma ordenança civil, mas em verdade e segundo razão verossímil, deuses completos e perfeitos, recebendo um fim muito feliz e muito glorioso.

XLVIII. Em suma, quanto ao sobrenome de Rômulo, que depois foi chamado Quirino, dizem uns que significa tanto como belicoso; outros sustentam que foi assim chamado porque os próprios Romanos se chamaram Quirites. Escrevem outros que os antigos davam à ponta de um dardo ou ao próprio dardo o nome de Quiris: em razão do que a estátua de Juno sobrenomeada Quirítide estava assentada sobre um ferro de lança, e a lança consagrada ao palácio real se chamava Mars; e, mais, que àqueles que numa batalha cumprem bem o dever era costume honrar dando-lhes uma lança ou um dardo; e que, por essas razões, Rômulo foi sobrenomeado Quirino, como quem dissesse deus das armas e das batalhas. Edificaram-lhe depois um templo no monte que, por isso, se denomina Quirinalis; e o dia em que desapareceu se chama a Fuga do povo99, ou de outro modo as Nonas Capratinas, porque se vai nesse dia fora da cidade sacrificar no lugar chamado Brejo da Cabra; e os Romanos chamam à cabra Capra e, indo ali, se acostumaram a chamar com altos gritos vários nomes romanos, como Marco, Cneu, Gaio, em lembrança da fuga que houve então e do modo por que entre si se chamaram uns aos outros, fugindo com grande pavor e em grande confusão.

XLIX. Todavia, dizem outros que isso não se faz para representação de fuga, mas de pressa e diligência, relacionando-o à seguinte história: depois que os Gauleses tomaram Roma e foram dali expulsos por Camilo, a cidade ficou tão debilitada que mal podia convalescer e manter-se de pé: razão por que vários povos se aliaram e, com grande e poderoso exército, foram atacar os Romanos, tendo por capitão Lívio Postúmio, o qual foi acampar o mais perto possível da cidade de Roma e mandou, por uma trombeta, fazer saber aos Romanos que os Latinos queriam, por novos casamentos, renovar e refrescar a antiga aliança e parentesco existente entre eles, porque já começava a enfraquecer; e, portanto, se os Romanos quisessem enviar-lhes algum número de suas filhas casadouras ou de suas jovens mulheres, viúvas, teriam paz e amizade com ele, como por esse meio tiveram outrora com os Sabinos.

Os Romanos, ouvidas tais notícias, ficaram bastante desgostosos, estimando que entregar assim suas mulheres não seria outra coisa senão render-se e submeter-se à mercê dos inimigos; mas, quando estavam ness a perplexidade, uma serva chamada Filótis, ou, como outros lhe chamam, Tutola aconselhou-os a não fazerem nem uma coisa nem outra, antes usassem de um ardil mediante o qual escapariam ao perigo da guerra e não ficariam empenhados nem obrigados por meio de reféns. Consistia o ardil em que ela, enviada com certo número de outras escravas, as mais belas, enfeitadas como burguesas e filhas de boa casa, à noite lhes levantaria no ar um archote alumiado, a cujo sinal eles viriam armados atacar os inimigos, quando estes estivessem dormindo» O que foi feito. Os Latinos cuidaram fossem verdadeiramente as filhas dos Romanos; e Filótis não deixou, à noite, de lhes erguer no ar e lhes mostrar um archote ardente de cima de uma figueira selvagem, estendendo atrás alguns tapetes e coberturas, a fim de que os inimigos não pudessem ver-lhes a luz e ao contrário, os Romanos a vissem mais claramente. Logo, pois, que o perceberam, saíram com diligência, chamando-se entre si várias vezes uns aos outros por seus nomes, ao passarem as portas da cidade, pela grande pressa que tinham, e foram surpreender os inimigos de improviso, derrotando-os: em memória da qual derrota, solenizam ainda essa festa a que chamam Nonas Capratinas, por causa da figueira selvagem que em latim se chama Caprificus, e festejam as damas fora da cidade, sob ramadas feitas com galhos de figueira; e as servas procuram, andando de um lado para outro, e brincam juntas, depois se batem entre si e atiram pedras umas às outras, assim como quando socorreram os Romanos que combatiam; mas poucos historiadores aprovam esse relato. E, por estar esclarecido que eles chamam assim os nomes uns dos outros e que vão ao lugar que se denomina Brejo da Cabra como a um sacrifício, isso parece convir melhor à primeira história, não sendo por acaso que os dois episódios ocorreram em diversos anos no mesmo dia. Em suma, diz-se que Rômulo desapareceu dentre os homens com a idade de cinquenta e quatro anos, no trigésimo-oitavo de seu reino.100

Ver notas

Mais fontes de Roma Antiga

Vidas Paralelas: Tibério Graco, de Plutarco

Commentarii de Bello Gallico (Comentários), de Júlio César - LIVRO 4

Commentarii de Bello Gallico (Comentários), de Júlio César - LIVRO 7

Commentarii de Bello Gallico (Comentários), de Júlio César - LIVRO 3

Fechar

Comentários dos visitantes

Ícone alerta azul

Contribua para um debate inteligente e educado na internet.
Não seja um troll.

Item salvo nos seus favoritos

Nova atualização do site

Pega Title Pega URL