Notas

724 - Chamava-se então Marcos Pórcio prisco.
725 - Ou antes, Cato.
726 - Manio Curio Dentato, assim cognominado porque havia nascido com dentes. Foi cônsul no ano de Roma 464, ou 290 A. C, guerreou os samnitas e os sabinos, obtendo neste mesmo ano duas vezes a honra do triunfo. Cônsul pela segunda vez no ano de Roma 479, derrotou Pirro, que expulsou da Itália e triunfou pela terceira vez. É esse grande homem que após tantas vitórias e tantos triunfos, após haver prodigiosamente aumentado a extensão da dominação romana, disse em um de seus discursos esta palavra memorável: — «um cidadão é pernicioso quando sete arpentes de terra não lhe são suficientes;:. Era a medida que havia sido fixada pelo povo romano depois da expulsão dos reis. P línio, XVIII, 3.
727 - O ano 545 de Roma.
728 - Era uma túnica curta e apertada, que Plutarco denomina exomis, que não tinha mangas.
 Veja Aul. Gell. VII, 12. É ainda hoje o camisão ou o colete (gibão) das pessoas do campo.
729 - Veja o Nudus ara de Virgílio em suas Geórgicas.
730 - Magistrado romano encarregado das questões financeiras.
731 - Ano de Roma 559, e eles foram censores no ano de Roma 570.
732 - Ano de Roma 548.
733 - Aproximadamente dez soldos torneses.
734 - Para compreender o preço desta observação de Plutarco, é preciso lembrar-se que na ocasião houve escravos vendidos em Roma até setecentos mil sestércios. Plínio, VII, 49.
735 - Grego, um asse, aproximadamente vinte dinheiros. O liard era uma antiga moeda de cobre que valia o quarto de cinco centavos.
736 - A varrer, para a limpeza dos jardins.
737 - Novos.
738 - Falo desse belo templo de Minerva nas anotações sobre a vida de Péricles, cap. 28.Veja livro 2.
739 - um. cabo, que chamam Cinossema, ou o cabo da sepultura do cão, na ilha de Salamina, atualmente ilha de Colouri, no golfo de Êngia.
740 - Cada um pode raciocinar sobre isto, como queira.
741 - No grego, três medimnos (unidade de medidas de capacidade entre os atenienses para matérias secas) de frumento. Já se falou desta medida na Vida de Licurgo, cap. 12. O minot era uma antiga medida de capacidade equivalente à metade da mina.
742 - No grego três e meio medimnos, ou um medimno e meio.
743 - Desde o tempo de Catão, o luxo começou a se introduzir nas mesas romanas. Que teria ele dito se tivesse vivido no tempo de Tibério e tivesse visto comprar três salmonetes (peixes) por trinta mil sestércios! Suetônio, Vida de Tibério, cap. 34.
744 - De administrar vossos negócios.
745 - Quer dizer: entendimento, pois consideravam que o assento da razão fosse no coração, seguindo a opinião de Aristóteles.
746 - M. Dacier observou bem que há uma negativa esquecida no texto grego. É o que engana Amyot. É preciso ler: “Parece-me, Polibio, que não fazes como Ulisses, que uma vai evadido da caverna do gigante Ciclope, queres aí voltar para ir buscar teu chapéu e teu cinto, que aí esqueceste:” Veja as Observações.
747 - Amyot deveria traduzir: «A primeira, por haver confiado um segredo a uma mulher; a segunda, ter ido por água aonde pudesse ir por terra; a terceira, haver passado um dia inteiro sem nada fazer; Meziriac censura-o de não haver traduzido: — haver passado um dia sem fazer seu testamento. Se bem que a palavra grega adíábetos tenha também este sentido, a outra significação é mais natural e geralmente seguida.
748 - A Espanha do lado da França, além do rio Betis ou Guadalquivi r.
749 - Seiscentos e vinte mil escudos. Amyot.
750 - Aproximadamente sessenta e seis libras.
751 - A Lacetânia, nos baixos dos Pireneus, é uma parte da província hoje chamada Catalunha.
752 - Não se acham no grego as duas expressões entre parênteses.
753 - Ano de Roma, 560.
754 - Ano de Roma, 563.
755 - O cônsul Mânio Acílio Glabrion.
756 - No ano de Roma 558, quando Flamínio proclamou a liberdade da Grécia.
757 - Soldados recrutados em Firmum, atualmente Fermo, no Caminho de Ancona.
758 - Em desordem e de algum jeito desmantelados.
759 - Não se trata de calunias no grego.
760 - De Cipião.
761 - Grego, oitenta e seis anos.
762 - Tito Lívio e Plutarco dão a Catão noventa anos de vida. Cícero e Plínio, XXIX, 1, não o fazem viver senão oitenta e cinco anos; Morreu no ano de Roma 605. 149 anos antes do Cristo. Veem mesmo por Plutarco, cap. II, que Catão não viveu mais que oitenta e cinco anos, pois não tinha senão dezessete anos quando Aníbal destruiu e pilhou a Itália. A batalha de Canes é do ano de Roma 538.
763 - No ano de Roma 570.
764 - Isto não está no grego.
765 - Lucio Quíncio Flamínio havia sido cônsul no ano de Roma 5G2. Veja detalhes amplos sobre esta história na Vida de Tito Flamínio, 35 e seguintes.
766 - Amyot traduziu mal e mutilou esta passagem de Plutarco. Eis o que exprime o texto grego: — "E mesmo Cícero, em seu Diálogo da Velhice, introduz Catão narrando ele próprio.
 Tito Lívio diz que fizeram morrer um desertor gaulês e que não foi o algoz, mas Lucio pessoalmente que lhe cortou a cabeça, sendo o fato assim exposto no discurso de Catão".
 Veja Cícero. de Senectute, cap. 12, e, Tito Lívio, 1. 39, cap. 42.
767 - Isto não está no grego.
768 - Aproximadamente cento e cinquenta escudos. Amyot.
769 - Eram pequenas moedas de cobre que valiam um pouco mais de quatro moedas tornesas.
 Amyot. O asse, no tempo da censura de Catão valia perto de cinco centimos (um sou). Os três asses que pagavam de imposto equivaliam a três sous.
770 - Mil e duzentos escudos. Amyot.
771 - Amyot subst ituiu o início desta inscrição. Essas palavras: "Em honra de Marcos Catão censor", não estão no grego.
772 - Esquerdos.
773 - Trezentos mil escudos. Amyot.
774 - Tais costumes em um censor tão grave! E, que exemplo para as pessoas que não tinham oitenta anos e que não eram Catões!
775 - Catão Salonino.
776 - Odisseia, liv. X, verso 405.
777 - Catão Salonino.
778 - Catão da Útica.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Vidas Paralelas: Catão, o Censor, de Plutarco

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Marco Pórcio Catão (234-149 a.C.) foi um político e escritor da República Romana eleito cônsul em 195 a.C.. Ficou conhecido como Catão, o Velho ou Catão, o Censor (para distingui-lo de seu bisneto, Catão o Jovem). É reconhecido por ter escrito um manual agrário chamado 'De Agri Cultura'. Também se tornou famoso por ser um grande defensor da destruição de Cartago. Costumava terminar seus discursos no senado com a frase 'Além disso, acredito que Cartago deve ser destruída'. A biografia de Catão faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Catão foi comparado com Aristídes, político de Atenas.

Imagem de capa: Esse busto, conhecido como Patrician Torlonia, é comumente identificado como sendo uma representação de Catão.

I. Sua pátria e seus antepassados

I. Marcos Catão e seus antepassados eram, como se diz, da cidade de Tusculo, mas antes de ir para a guerra e de se meter nos negócios do Estado, encontrava-se vivendo em algumas terras e posses que seu pai lhe havia deixado na região dos Sabinos. E conquanto parecesse a vários, que seus predecessores tivessem sido totalmente desconhecidos, todavia ele mesmo eleva grandemente seu pai que se chamava Marcos, como ele, dizendo que havia sido um homem corajoso e guerreiro e faz menção também de um outro Catão, seu bisavô, que por sua coragem recebia constantemente de seus capitães as dádivas de honra com que os romanos tinham o costume de premiar aqueles que praticavam algum ato ou façanha notável nas batalhas. Tendo perdido cinco cavalos de serviço na guerra, o valor foi-lhe devolvido em dinheiro dos cofres do Estado, porque havia se portado como homem de bem. E, como era costume em Roma, chamavam homens novos a esses que, embora não pertencessem à nobreza, começavam a se enobrecer por si próprios, fazendo-se conhecer por suas virtudes; por essa razão chamavam a Catão, homem segundo corpo proveitoso, não só honesto mas também necessário a todo homem que quer viver honradamente e deseja lidar com grandes negócios, exercitava-se em falar bem nas pequenas cidades e bairros próximos à sua casa, onde ia constantemente advogar as causas e defender em juízo aqueles que o chamavam, de maneira que em pouco tempo tornou-se bom litigante, dominando a palavra e, com o tempo, fez-se orador eloquente. Depois de adquirida aquela suficiência, aqueles que o visitavam ordinariamente, começaram a perceber nele uma gravidade de costumes e de maneiras e uma magnanimidade digna de ser empregada no manejo de grandes negócios e adestrar-se no saber de um Estado soberano, pois não só absteve-se sempre de receber qualquer salário ou pagamento mercenário dos litígios que defendia e das causas que sustentava, e ainda mais não levava em conta a honra que lhe vinha de tal profissão; como se fosse o fim principal que tivesse pretendido, mas, desejava muito mais tornar-se conhecido e considerado pelo exercício das armas e por combater corajosamente contra os inimigos, de sorte que sendo ainda rapaz, tinha já o estômago todo cicatrizado de golpes que havia recebido em diversas batalhas e encontros contra o inimigo, pois segundo escreve ele mesmo, tinha apenas dezessete anos quando foi a primeira vez para a guerra, mais ou menos no tempo dos grandes sucessos de Aníbal, novo. Quanto a ele, confessava ser verdadeiramente digno dessa designação, levando em conta os serviços relacionados com a coisa publica, mas quanto aos belos feitos e bons serviços de seus predecessores, podia garantir que era bem antigo.

II. Origem do nome de Catão. Sua eloquência, seu valor

II. A princípio, assinava-se também com seu terceiro nome, Prisco724, mas depois, provando seu grande senso e sua suficiência, foi denominado Catão, porque os romanos chamam ao homem sábio, de grande clarividência, Catão725. Ele era um tanto ruivo e tinha os olhos azuis, dando assim a entender aquele que compôs os seguintes versos, com ódio dele, após sua morte:

Esse falso ruivo Pórcio de olhos persas,
Que fatigava e mordia todo o mundo,
Plutão não quer que entre em seus infernos
Ainda que seja morto, de medo que o repreenda.

Pensando bem, quanto à disposição física, era maravilhosamente forte e robusto por ter sido, desde a juventude habituado a trabalhar com o corpo e viver sobriamente como aquele que é criado nas armas e na guerra desde o começo, de maneira que era bem proporcionado pela força e pela saúde. Quanto à palavra, estimando que era como que um quando este percorria, queimava e pilhava toda a Itália.

III. Ora, quando devia combater, seu costume era bater rudemente sem sair do lugar nem se afastar para trás, mostrando uma fisionomia terrível ao inimigo, ameaçando, falando com uma voz áspera e assustadora, o que fazia muito bem e sabiamente ensinava aos outros a fazer também assim, porque tais viagens como dizia, constantemente amedrontavam mais o inimigo do que a espada que se lhe apresenta. Andando pela região, caminhava sempre a pé, carregando suas armas, seguido por algum servidor que levava o que era necessário para sua alimentação, com o qual, ao que dizem, não se zangava nunca quando lhe preparava alguma refeição ou ceia, mas, muitas vezes, até o ajudava, quando tinha descanso, depois de haver feito o que o ajudante devia fazer na fortificação do campo ou outro trabalho. Não bebia nunca, a’ não ser água, quando em guerra, se alguma vez se sentia excessivamente alterado; então tomava um pouco de vinagre, ou quando se sentia fraco, então bebia algum vinho leve.

IV. Vantagens que tirou dos exemplos de Curio e das lições do filósofo Nearco

IV. Ora, estava por acaso a herdade de Mânio Curio726, aquele que por três vezes ganhou as honras do triunfo, e a casa onde desde muito se mantinha, próxima das terras de Catão, o qual a frequentava constantemente para debates; observando a pequena quantidade de terra que Manío possuía e era pequenina e pobremente construída a casa, pensou consigo mesmo que personagem devia ser aquele que no seu tempo foi o primeiro homem entre os romanos, que venceu e domou as mais orgulhosas e mais belicosas nações da Itália, que expulsou o rei Pirro, e no entanto lavrava e cultivava com suas próprias mãos aquele pedaço de terra e habitava uma granja tão pobre e tão pequena, na qual, depois de seus três triunfos, os embaixadores enviados da parte dos Samnitas, foram algumas vezes visitá-lo e, encontrando-o em sua casa mandando cozinhar rábanos, presentearam-no, da parte de sua comunidade, com uma boa quantidade de ouro, mas ele os despediu com seu ouro dizendo, que aqueles que se contentavam com uma tal refeição não tinham o que fazer com o ouro nem com a prata, e quanto a ele considerava mais honroso dar ordens aos que possuíam ouro do que aos que não possuíam. Catão, rememorando essas coisas consigo mesmo, voltou para sua casa e pôs-se desabridamente a rever toda a situação de sua casa, suas terras, sua família, seus servos, sua despesa e a diminuir toda superfluidade e a trabalhar pessoalmente, com seus braços mais que nunca.

V. Quando Fábio Máximo retomou a cidade de Tarento727, Catão, muito jovem ainda, encontrava-se sob seu comando, tendo conhecimento familiar com Nearco, filósofo pitagoriano, ao qual apreciava imensamente, ouvindo-o discutir, e discorrer sobre filosofia. Fêz-lhe Nearco os mesmos discursos que faz Platão quando chama a volúpia a principal amarra e a maior isca dos maus feitos dos homens, e quando diz que o corpo é a primeira praga da alma e para sua cura, libertação e purgação, são os discursos, as admoestações e contemplações que a retém o mais distante das paixões e afeições corporais. Catão então amou ainda mais a sobriedade, a moderação e o hábito de passar a contentar-se com o pouco, pois pensando bem, dizem que se pôs bem tarde e na ultima estação de sua vida, a aprender as letras gregas e a ler nos livros gregos, entre os quais auxiliou-se um pouco de Tucídides, e, mais ainda, de Demóstenes a formar seu estilo e adestrar sua eloquência; pelo menos seus escritos e seus livros o testemunham, sendo ornados e enriquecidos cem opiniões, exemplos e histórias tomadas dos livros gregos, encontrando diversas de suas sentenças e ditos morais, encontros e respostas agudas que são transcritas palavra por palavra.

VI. Seus trabalhos no campo. Vinda a Roma

VI. Ora, havia então em Roma um personagem dos mais nobres da cidade, homem de autoridade, de bom julgamento e apto a conhecer bem as sementes da virtude nos jovens e, portador de sentimentos de bondade e honestidade que poderiam melhor impulsionar os moços: era Valério Flaco, o qual, tendo terras unidas às de Catão e ouvindo os comentários que seus empregados faziam de seus costumes e de sua maneira de viver, contando-lhe como lavrava pessoalmente sua terra, tendo o hábito de ir muito cedo às cidadezinhas vizinhas advogar e litigar em favor daqueles que se dirigiam a ele, voltando depois à sua casa; se era inverno, jogava apenas uma jaqueta728 sobre os ombros, se era verão, ia completamente nu729 trabalhar com seus servidores e seus operários, sentando-se depois à mesa com eles, além de outras maneiras que mostravam uma grande equidade, moderação e bondade; acrescentamos também belos ditos morais e algumas proveitosas sentenças que haviam ouvido dele; sabedor dessas coisas, Valério ordenou um dia que fossem convidá-lo para que viesse jantar com ele. Assim, depois de conviverem um pouco, compreendendo que tinha uma natureza amável, honesta e educada, sendo como uma boa planta que não precisava senão de um pouco de cultivo e ser transplantada para melhor e mais nobre terreno, exortou-o e persuadiu-o para que fosse a Roma. que se pusesse a falar em publico diante do povo romano, a envolver-se nos negócios: Catão assim fez e se não se evidenciou mais cedo, foi logo grandemente considerado, adquirindo muitos amigos pelas causas que defendia, além de Valério que o traía e o impelia para diante tão bem que foi primeiramente eleito pelo sufrágio do povo, tribuno militar, isto é, capitão comandante de mil homens de infantaria e depois questor730. Tendo já adquirido grande fama, autoridade e reputação tornou-se companheiro e cooperador de Valério Flaco, dos principais e mais dignos cargos públicos, pois feito cônsul731 com ele, e depois censor.

VII. Sua estima por Fábio Máximo. Recusa ir à África com Cipião

VII. Para seu início escolheu entre os antigos senadores romanos, Quinto Fábio Máximo, ao qual se votou e se dedicou em tudo, fazendo isso não tanto pelo seu crédito, ainda que em autoridade e reputação suplantasse todos de seu tempo, mas pela gravidade de seus costumes e de sua vida, à qual ele se propunha como um espelho muito digno e um exemplo a imitar; por essa ocasião dissimulou para não entrar em desavença e discussão com o grande Cipião que embora fosse jovem, competia em autoridade, poder e dignidade com Fábio Máximo, o qual parecia espalhar inveja por todos os lados, com a sua ascensão. Sendo Catão enviado como questor e superintendente das finanças, com ele empreendeu viagem à África732 onde, vendo que por sua natural liberalidade e magnificência costumeira, dava largamente, sem nada economizar, aos guerreiros, um dia observou-lhe francamente que não era pelo desperdício louco dos dinheiros comuns que mais lesava e prejudicava o Estado, e sim, porque alterava e corrompia a antiga simplicidade de seus predecessores, que desejavam que seus soldados se contentassem com pouco, e ele os acostumava a empregar nas volupias, delícias e coisas supérfluas o dinheiro que lhe restava depois de satisfeitas suas vontades. Cipião respondeu-lhe que não queria tesoureiro que o controlasse assim nem que olhasse de tão perto sua despesa, porque a sua intenção era ir para a guerra com as velas cheias, por assim dizer, querendo e pretendendo dar contas ao Estado das coisas que teria feito e não do dinheiro que teria gasto.

VIII. Ouvida esta resposta, Catão voltou na mesma hora, da Sicília para Roma, gritando com Fábio Máximo, em pleno senado, que Cipião fazia um a despesa infinita, distraindo-se em fazer representar farsas e comédias e vendo os combates dos lutadores, como se o tivessem enviado não para guerrear mas para se recrear nos jogos. Tanto fizeram pelos seus alaridos que o senado incumbiu e delegou alguns dos tribunos do povo para irem ver nos lugares e informarem se as culpas por eles alegadas eram verdadeiras e, se assim eram, para o trazerem e fazerem-no voltar a Roma.

IX. Roma admira os costumes antigos e a eloquência de Catão. Seus princípios econômicos

IX. Em suma, voltando a Catão, adquiria ele todos os dias, cada vez mais autoridade e crédito por força de sua eloquência, de tal forma que vários o apelidaram Demóstenes romano, mas a sua maneira de viver era. mais famosa e mais considerada, se bem que a eloquência e o louvor de bem dizer já lhe fossem comuns e a isto aspiravam e procuravam aproximar-se todos os jovens romanos, invejoso s uns dos outros. Mas, encontravam-se bem poucos que quisessem lavrar a terra com suas próprias mãos, como faziam seus antepassados, com refeições parcas, salas sem aquecimento nem aparelhos de cozinha nem que se contentassem com um traje simples e uma casa mais ou menos, nem que estimassem mais o não apetecer das delícias e s uperfluidades, não as possuir nem usar. Os negócios públicos, entretanto, já se haviam dilatado tanto que não podiam mais se manter na sua antiga disciplina, aquela pureza de sua austeridade, devido a longa extensão de seu império e pelo grande numero de povos que tinha sob si, era forçoso que fosse envolvida por várias maneiras diferentes de viver e por diversas formas de costumes.

X. Dessa forma, não era sem razões que tinham a virtude de Catão em grande admiração, quando viam os outros recrutados e aniquilados pelo trabalho e outros amolecidos e enervados pelas delícias, ele, ao contrário, invencível de um e de outro, não só no tempo da mocidade, ambicioso de honra, mas mesmo depois quase tornou velho e encandecido, após seu consulado e seu triunfo, como um bom e gentil campeão de luta, que tendo ganho o prêmio não se cansava nunca em continuar sempre seu exercício até o fim de seus dias.

Escreve ele mesmo que não vestiu nunca traje que houvesse custado mais de cem dracmas de prata733 e que havia sempre bebido, tanto em seu consulado como durante o tempo que havia sido oficial do exército, do mesmo vinho que bebiam os operários de sua casa; para sua refeição nunca havia comprado no mercado, carne por mais de trinta asses734 em moeda romana. Refere ainda, que foi no final de sua vida, que sentiu o corpo mais forte e mais disposto para melhor poder servir o Estado nos negócios da guerra. Disse ainda mais, que, certa vez, sucedendo a um dos seus amigos, que o fazia seu herdeiro, havendo uma peça de tapeçaria de alto preço, que havia trazido da Babilônia, incontinente, mandara vendê-la; em todas as casas que tinha nos campos, não havia uma cujas muralhas fossem rebocadas e revestidas e além do mais, nunca comprou escravo mais caro que mil e quinhentas dracmas735, que valiam aproximadamente cento e cinquenta escudos, pois não procurava escravos delicados, desses que se compram por sua beleza, mas sim fortes e robustos para poder levar ao trabalho, como carreiros, palafreneiros e vaqueiros, os quais vendia quando se tornavam velhos, a fim de não alimentá-los como inúteis. Breve, dizia, que nunca se fazia bom negócio por uma coisa da qual não se podia passar, mas uma coisa da qual não se sabia o que fazer, ainda que custasse um liard736 sendo sempre muito para a compra. Desejava que adquirissem bens e casas onde pudesse melhor semear e pastorear e não bailar e regar; quanto a. isto, uns diziam que ‘fazia por mesquinhez e avareza, os outros o tomavam em outro sentido e diziam que se retirava e se apertava assim estreitamente para incitar os outros pelo seu exemplo a diminuir as suas despesas supérfluas. Dez escudos.

XI. Todavia, vender assim os escravos ou os expulsar de casa depois de envelhecerem no serviço, como se fossem animais, quando prestaram serviço toda a sua vida, isto parece proceder de uma rude e austera natureza, que julga de homem para homem não haver nenhuma sociedade mais elevada que se obrigue tanto quanto possível tirar proveito e utilidade um do outro; todavia, vemos que a bondade se estende mais longe do que a justiça, porque a natureza nos ensina a manter a equidade e a justiça com os homens e o agrado e a afabilidade algumas vezes até para com os animais selvagens, o que procede da fonte da delicadeza e da humanidade, a qual não deve jamais secar no homem. Pois, em verdade, alimentar os cavalos, usados e aniquilados pelo trabalho em nosso serviço, não somente criar os cães quando são pequenos737, mas também alimentá-los e ainda ter cuidado deles quando envelhecerem conosco, são atos convenientes a uma natureza caridosa e bondosa. O povo de Atenas mesmo quis e ordenou, no tempo em que construíam o templo chamado

Hecatompedon738 que deixassem libertos e livres as mulas e os burros que haviam durante muito tempo trabalhado no acabamento daquela construção, que as deixassem pastar sem impedir onde quisessem ficar; dizem que houve um daqueles animais que tinham sido assim libertados, que por si mesmo voltou a apresentar-se ao trabalho, pondo-se à frente dos outros animais de carro que puxavam ‘as carroças carregadas para o castelo, marchando juntamente como se os quisesse instigar e encorajar, o que o povo tomou tão a gosto que ordenou fosse alimentada às expensas do Estado enquanto vivesse; veem-se ainda as sepulturas dos jumentos de Címon, com os quais ganhou por três vezes o prêmio dos jogos Olímpicos e se acham localizadas perto da sepultura do dono. Também encontram-se vários que exumaram cães que haviam sido criados com eles ou que lhes haviam sempre feito companhia, entre os outros, o velho Xantipo, que enterrou seu cão sobre uma elevação739 na encosta do mar, que é chamada ainda hoje "a elevação da sepultura do cão", porque quando o povo de Atenas, à vinda dos persas, abandonou a cidade, esse cão seguiu sempre seu senhor, nadando no mar ao lado de sua galera, desde a costa de terra firme até a ilha de Salamina. Não é razoável, pois utilizar-se das coisas que têm vida e sentimento da mesma forma que faríamos com um sapato ou qualquer outro utensílio, jogando-os fora quando estão completamente usados por nos terem servido, mesmo quando não sendo por outra causa senão para nos induzir e exercitar sempre nos sentimentos de humanidade, pelo que devemos nos acostumar a ser delicados e caridosos até nos mínimos detalhes relacionados com a bondade. Quanto a mim, não terei jamais coração para vender o boi que durante muito tempo lavrou minha terra, quando não pudesse mais trabalhar por velhice e, assim, muito menos um escravo, expulsando-o, como de seu país, do lugar onde durante tanto tempo fora alimentado e da maneira de viver que de há muito estava habituado, isto por amor de umas moedinhas que teria, vendendo-o na ocasião em que seria tão inútil aos que o comprassem como àquele que o vendesse.

XII. Catão, pelo contrário, vangloriando-se, dizia que havia deixado na Espanha o cavalo com o qual serviu na guerra, durante seu consulado, para economizar ao Estado o dinheiro que custaria para trazê-lo por mar à Itália. Ora, se isso deve-se à magnanimidade ou à mesquinharia740, é algo que se pode atribuir a razões aparentes de uma parte e de outra, mas, pensando bem, era verdadeiramente um personagem dotado de uma capacidade de abstenção admirável, pois sendo oficial do exército, não recebeu jamais do publico mais de três minots741 de fermento por mês para sua alimentação e de sua família, nem mais de um minot e meio742 de cevada por dia para a alimentação de seus cavalos e outros animais de tração.

XIII. Sua integridade e sua exatidão na administração da Sardenha

XIII. O governo da ilha da Sardenha coube-lhe uma vez por sorte quando pretor e, em lugar dos outros pretores que antes dele sobrecarregavam o país com grandes despesas com o fornecimento de pavilhões, leitos, vestimentas e móveis e responsabilizavam os habitantes com um grande acompanhamento de servidores, grande numero de amigos que tinham sempre a sua volta, e vultosos gastos, ordinariamente com banquetes e festejos, ele, ao contrário fez uma transformação, mudando a superfluidade excessiva em simplicidade incrível, pois não fez gastar com ele nem uma só moeda porque visitava as cidades a pé, sem qualquer cavalgadura, seguindo-o apenas um oficial do Estado que lhe levava uma veste e um vaso para oferecer vinho aos deuses nos sacrifícios. Mas como se mostrava assim tão simples e fácil em tais coisas, também lhes fazia por outro lado, sentir sua gravidade e sua austeridade nas coisas referentes aos feitos da justiça, não perdoando à pessoa alguma, a desobediência a ordens e comandos feitos em nome do Estado, sendo tão severo e tão rude, que não queria que faltassem num só ponto, de tal forma que o império romano não foi nunca nem mais amável nem mais temível aos habitantes da Sardenha, do que sob seu governo.

XIV. Seu estilo

XIV. Seu próprio estilo e maneira de escrever e de falar, evidentemente demonstram isto, pois ele se mostra prazenteiro e, ao mesmo tempo, grave, delicado e terrível, alegre e austero, sentencioso e todavia familiar, quando precisava disputar, nem mais nem menos como Platão disse de Sócrates que, ao ser encontrado, parecia, à primeira vista, um homem ignorante e grosseiro aos que o não conheciam senão exteriormente, ou então crítico e mordaz nas palavras, mas quando sondavam até o fundo e penetravam o íntimo, encontravam-no cheio de sentenças graves, de razões, admoestações e discursos, que atingiam tão bem os corações ao vivo, fazendo vir lágrimas aos olhos dos ouvintes, com o poder de levar os homens no sentido que desejava. Portanto, não se pode compreender que razão move aqueles que consideram o estilo de Catão semelhante ao de Lísias; todavia, deixemos o julgamento aos que têm por profissão discernir os diferentes gêneros de oradores e as diferentes formas de estilo, pois quanto a mim, contentar-me-ei, no presente, em citar por escrito alguns de seus belos ditos e sentenças notáveis, porque sou de opinião que os costumes dos homens se demonstram muito melhor pelas palavras e não pelos traços do rosto, como outros pensam.

XV. Suas palavras memoráveis

XV. Um dia, procurando convencer o povo romano, o qual queria a viva força, que fizessem, fora de estação, uma distribuição gratuita de trigo a cada cidadão de Roma, começou seu discurso com o seguinte exórdio: — "É bem difícil, senhores romanos, trazer à razão, por meio de admoestações, um ventre que não tem ouvidos". Outra vez, lastimando o péssimo policiamento que havia então em Roma, disse:  — "É desagradável preservar da ruína uma cidade, na qual um peixe743 se vende mais do que um boi". Dizia também: — "Os romanos assemelham-se a um rebanho de carneiros, pois em tudo, assim como cada carneiro à parte não obedece o pastor, mas só quando estão juntos e então seguem todos, um pelo amor do outro, aos que vão na frente; assim, também, quando estais todos juntos, vós vos deixais conduzir pelo nariz, pois cada um de vós, em particular, não há de querer receber conselho em seus negócios particulares". uma vez observando o poder que as damas romanas tinham sobre seus maridos: — "Os outros homens, disse, governam suas mulheres, mas a nós todos, homens, pensando bem, nossas mulheres nos governam". Entretanto*, este ultimo é um plágio e foi transladado dos ditos agudos de Temístocles, o qual, quando seu filho precisou solicitar alguma coisa por meio de sua mãe, disse um dia a sua mulher: — "Os atenienses governam os habitantes gregos, eu aos atenienses, tu a mim e teu filho a tu, portanto, repreende-o, para que use um pouco mais moderadamente e mais reservadamente da licença que lhe concedem, por meio da qual, tão irrefletido e louco como é, tem mais poder e autoridade do que nenhum outro dos gregos". Dizia também: — "O povo romano não punha somente preço e valor às diversas ‘espécies de púrpura, mas também aos estudos e aos exercícios da juventude, pois assim em tudo, como os tintureiros tingem, na maioria das vezes, a cor que consideram ser a mais requisitada e a mais agradável aos olhos dos homens, também a mocidade romana tem trabalho em aprender e se adaptar aos estados, férias e exercícios que mais louvam e mais honram".

XVI. Comumente admoestava os romanos que se por virtude e por moderação haviam se tornado tão grandes e poderosos, não se entretessem nunca com o pior, ou se se tornaram grandes pelo vício e pela falta de moderação, que mudassem para o melhor, porque por esses meios já seriam bastante grandes. Dizia também que aqueles que disputavam ambiciosamente e muitas vezes os cargos públicos, pareciam ter medo de errar seu caminho e por esse motivo queriam sempre ter à sua frente porteiros e bedéis para os conduzir, com receio de se perderem na cidade. Repreendia também aos que elegiam muitas vezes as mesmas pessoas aos mesmos cargos: — "Pois me parece, disse ele, que vós não considerais muito vossos postos de administração ou que não tendes muitos homens que julgais dignos744 de os administrar". um de seus inimigos que levava uma vida maldosa, desgraçada e vergonhosa, do qual não deixava de dizer que quando sua mãe orava aos deuses para que o deixassem sobre a terra, ela não pensava em orar e sim em amaldiçoar, como querendo dizer, que era uma peste no mundo. De um outro, que havia vendido as terras e bens que seu pai lhe havia deixado, estando na praia, mostrando-o com o dedo, fingia admirar-se como ele era um homem tão forte, tendo mais força do que o mar, pois o que o mar vai minando e consumindo pouco a pouco, durante muito tempo e a custo, ele o tal, engolia tudo de uma vez. De outra feita, quando o rei Eumene viera a Roma, o senado ofereceu-lhe uma lembrança maravilhosa e os personagens mais influentes da cidade desfaziam-se em agradá-lo e honrá-lo, com inveja um do outro, mas Catão ao contrário, mostrou evidentemente que tomava por suspeitos todos esses agrados, esquivando-se de o elevar e como algum de seus familiares lhe dissesse: — "Espanto-me de como vós fugis assim à convivência do rei Eumene, visto ser um príncipe tão bom e que tanto bem deseja aos romanos". "Quero, respondeu-lhe, que assim seja; irias da maneira como está, um rei é sempre, por sua natureza, um animal encantador, vivendo’ de presa, se não houvesse nunca rei que fosse tão louvado e considerado, que merecesse ser comparado a um Epaminondas, a um Péricles, a um Temístocles nem a um Mânio Curio ou a um Amílcar, denominado Barca".

XVII. Dizia também que seus inimigos o invejavam porque usualmente levantava-se à noite antes do dia e esquecendo seus negócios particulares, para estar disponível ao publico. Afirmava que preferia ser privado da recompensa de uma benfeitoria, muito mais do que não ser castigado por uma falta, e que perdoava a todos os outros que erravam por engano, exceto as suas próprias. um dia como o povo havia eleito e comissionado três embaixadores para enviar ao reino da Bitínia, dos quais, um tinha os pés maltratados pela gota, o outro a cabeça cheia de sinais pelos golpes que havia recebido e o terceiro era tido como louco, Catão rindose começou a dizer: — "Que enviavam uma embaixada que não tinha nem pés, nem cabeça, nem coração"745. Cipião pediu-lhe uma vez, em atenção a Políbio, pelos banidos da região da Acaia; a matéria foi levada à deliberação do senado, havendo grande discussão e grande diferença de opiniões entre os senadores, porque uns queriam que fossem restituídos em suas casas e em seus bens, os outros o impediam. Catão pôs-se em pé e lhes disse: — "Parece que não temos outra coisa a pensar nem a fazer, visto nos divertirmos um dia todo em discutir e contestar para saber apenas se esses velhos gregos aqui serão enterrados pelos coveiros e carregadores de Roma ou pelos da Acaia". Por fim, foi concluído e determinado que seriam colocados e restituídos a seu país, mas alguns dias depois, Políbio quis em desagravo, apresentar uma petição ao senado para que os banidos restituídos por decreto tivessem os mesmos cargos e honras na Acaia como tinham quando foram expulsos, mas antes de o fazer, procurou primeiramente sondar o parecer de Catão, o qual respondeu-lhe rindo: — "Pareceme, Políbio, que fazes como ulisses746 que tendo uma vez fugido da caverna do gigante Ciclope, quis voltar para ir buscar seu chapéu e sua cinta que havia esquecido". Dizia também que os sábios aprendiam e aproveitavam mais dos loucos, o que não faziam os loucos dos sábios, porque os sábios viam as faltas dos loucos, procuravam se preservar para não cair, enquanto os loucos não se aperfeiçoam nunca em imitar os belos e bons atos que fazem os sábios. Dizia ainda, que preferia muito mais os rapazes que enrubesciam do que os que empalideciam. Não queria nunca soldados que balançassem as mãos, andando pelos campos, nem os pés combatendo, nem que roncassem alto demais dormindo, como também os que não lutassem quando lutando.

XVIII. Um dia, censurando alguém que era extremamente gordo e obeso: — "Em que, disse-lhe, poderia ser útil ao Estado um corpo que desde 0 queixo até a consciência não é senão ventre?" A um certo indivíduo sensual que procurava travar relações e entrar em familiaridades com ele, disse: — "Não saberia viver nem conversar com homem que tem o paladar e a língua mais sensíveis que o coração". Dizia também: — "que a alma de um amoroso vivia no corpo de outrem. Em toda sua vida estaria arrependido de três coisas: a primeira, se tivesse dito747 alguma coisa secreta a uma mulher; a segunda, se tivesse ido por água aonde pudesse ir por terra; a terceira, se tivesse passado um dia inteiro sem nada fazer". A um velho de má vida, repreendendo-o: "Velho, disse-lhe, a velhice tem de si mesma muita coisa feia; não as aumente com a que procede do vício". A um tribuno do< povo, sedicioso, que suspeitavam ser um envenenador, que procurava fazer passar a viva forç a e autorizar pelo povo um edital que era iníquo: — "Não sei, disse-lhe, qual das duas coisas é a pior: beber as beberagens que fazes ou receber os editais em que transpiras". uma outra vez sendo injuriado por um que vivia sempre desordenada e maldosamente: — "Não sou, disse-lhe, em nada igual a ti nesta forma de combater por injurias, pois estás tão habituado a dizê-las facilmente e suportar comodamente que te digam ultrajes e vilanias, enquanto eu não estou habituado em ouvir nem tenho nenhum prazer em dizê-las". Eis a sua maneira de falar e suas sentenças notáveis, pelo menos aquelas que nos deixaram por escrito, pelas quais podemos conjeturar acerca de seus costumes e sua natureza.

XIX. Seu consulado, sua administração e sua expedição à Espanha. Seu triunfo

XIX. Ora, após ter sido eleito cônsul, juntamente com seu amigo Valério Flaco, coube-lhe por sorte o governo da Espanha, que se acha aquém do rio Betis748 e ali, guerreando e conquistando os povos pela força das armas, enquanto ganhava outros por via amigável, encontrou-se de repente surpreendido e envolto por um grande e poderoso exército de bárbaros, de tal modo que corria o perigo de ser vergonhosamente feito prisioneiro ou morto. Por isso, rapidamente, enviou um pedido de socorro aos celtíberos, que eram vizinhos do lugar onde se encontrava. Estes pediram-lhe duzentos talentos749 como salário para irem socorrê-lo, com o que os demais romanos não estavam concordando, em comprar assim o socorro desses bárbaros. Catão, porém, respondeu-lhes que estavam abusando porque não havia nisto perigo nem desonra: — "Pois se ganharmos a batalha, pagar-lhes-emos do que recebermos dos despojos de nossos inimigos e se per dermos, eles e nós ficaremos, de tal sorte não haverá assim pagamento algum nem tampouco quem o solicite". Afinal, ganha a batalha, depois de grande luta, tudo o mais foi feito com muita sorte, pois segundo Políbio escreve, à sua ordem todas as muralhas das cidades que se encontravam aquém do rio Betis foram destruídas e ar rasadas em um dia, embora defendidas com grande numero de bons guerreiros. Escreve ainda mais o mesmo Políbio, que Catão se apoderou de mais cidades da Espanha do que os dias que ali ficou, o que não é vã gabolice mas sim fato verídico, pois foram umas quatrocentas. Conquanto os soldados sob suas ordens nessa jornada cumprissem bem seus deveres, tendo ganho muito, todavia mandou dividir para cada um deles uma libra pesada de prata750 dizendo preferir que voltassem para suas casas em maior numero conduzindo prata, do que poucos deles levando ouro. Quanto a si, declarou que de todo o espólio ganho sobre o inimigo, nada mais desejava, bastando-lhe o que havia comido e bebido: — "Em absoluto, disse, censuro aqueles que procuram se enriquecer com tais despojes, mas prefiro mais estabelecer a virtude com os mais virtuosos do que a riqueza com os mais ricos e a ambição de juntar com os mais avarentos".

XX. Não somente ele se mantinha puro e limpo de todas as corrupções e concussões, como também todos os seus criados e outros que dependiam dele. Nessa viagem à Espanha foram cinco de seus servidores em sua companhia, dos quais um, chamado Paço, comprou três rapazinhos aprisionados na guerra quando era vendido o saque aos que mais ofereciam. Catão soube do fato e o servo teve tão grande pavor, que se dependurou, enforcando-se, com medo de ir à presença de seu senhor. Catão mandou revender os rapazes e depositar o dinheiro da venda nos cofres públicos.

XXI. Afinal, estando ainda na Espanha, Cipião o Grande, que era seu inimigo, quis impedir o curso de sua prosperidade e também ter a honra de concluir a conquista de todas as Espanhas. Tanto teceu em Roma as suas tramas, que o povo o elegeu em lugar de Catão. Tomou posse do cargo o mais cedo possível e logo se apressou, com toda a diligência, em fazer expirar a autoridade e poder de Catão o qual, vendo o que acontecia, fazendo-se acompanhar apenas de cinco bandeiras da infantaria e de quinhentos cavalos para a volta, com os quais, todavia, em caminho, subjugou um povo da Espanha chamado lacetânio751, aprisionando seiscentos traidores que haviam desertado do acampamento dos romanos para se entregar aos inimigos e que mandou matar a todos. Esse fato desagradou bastante a Cipião752, (o qual dizia que Catão lhe fazia mal), mas este o ironizava (com palavras cobertas) e dizia: — "Este é o verdadeiro meio pelo qual a cidade de Roma se tornará grande e florescente: quando os cidadãos descendentes da antiga nobreza, não querendo suportar que os homens novos, vindos das camadas humildes levantem o prêmio da virtude à sua frente; e também quando estes, que nasceram em lugarejos e saíram do povo, lutarem para serem mais virtuosos do que aqueles que os suplantavam pela nobreza do sangue ou pela glória dos antepassados".

XXII. Todavia, chegando de volta a Roma, o senado ordenou que nada seria mudado nem modificado de tudo o que Catão tinha instituído’ durante o seu tempo como magistrado, de tal forma que o governo que Cipião havia tão ardentemente desejado, diminuiu sua glória e não pode ser equiparado ao de Catão, porque todo o seu tempo decorreu em paz, sem que houvesse oportunidade para qualquer proeza digna de memória.

XXIII. Seus feitos de armas na Trácia

XXIII. Além do mais, Catão, após ser cônsul e obter a honra do triunfo, não fez como muitos outros que não propõem a verdadeira virtude como fim, mas somente a honra e a glória do mundo, e por esse meio, depois de alcançarem os supremos degraus da honra, alcançando o consulado ou obtendo algum triunfo, retiram-se da administração dos negócios do Estado, para daí em diante viver à sua vontade, sem mais querer se intrometer em nada. Catão, ao contrário, não abandonou nunca o exercício da virtude; não agindo como aqueles que nada mais almejavam senão os postos públicos e com eles a honra e a fama, recomeçou tudo de novo, e se apresentando ordinariamente sobre a praça, para causar prazer tanto a seus amigos como a todos os outros cidadãos que tinham necessidade de seu conselho ou de sua pessoa, defendendo suas causas em julgamento e os acompanhando em seus encargos de guerra, como acompanhou Tibério Semprônio quando cônsul753 e foi um dos seus tenentes na conquista do país da Trácia, e das províncias vizinhas do rio Danubio.

XXIV. Na Grécia

XXIV. E ainda foi à Grécia, depois, como tribuno militar754 ou coronel de milícia, sob as ordens de Mânio Aquílio755 contra o rei Antíoco, chamado o Grande, o qual inspirava tanto medo aos romanos, como nenhum outro depois de Aníbal, pois tendo conquistado todos os reinos e províncias da Ásia, na mesma extensão em que o tinha dominado Seleuco Nicanor, e tendo dominado e reduzido à obediência diversas nações bárbaras e belicosas, teve a coragem e a ousadia de iniciar a guerra contra os romanos como se fossem estes os unicos considerados dignos de serem seus inimigos. Procurou para isto um motivo plausível, dizendo que o fazia para libertar os gregos, os quais, aliás, nenhuma necessidade tinham de tal coisa, atendendo-se ao fato de que viviam sob suas próprias leis, estando novamente libertes da servidão do rei Filipe e dos macedônios, o que se deu por meio dos romanos756. Não obstante, ele passou da Ásia para a Grécia com um grosso e poderoso exército, pondo todo o país em polvorosa e excitação, devido às belas promessas que punham diante dos olhos do povo grego, os demagogos que o rei havia corrompido pelo dinheiro.

XXV. Por essa ocasião Mânio enviou embaixadores pelas cidades, entre os quais estava Tito Quíncio Flamínio, que desempenhou bem sua missão, aquietando e sossegando a maior parte dos povos que começavam a dar atenção a essas novidades, conforme declaramos mais adiante em sua vida; mas Catão que para ali fora enviado, trouxe à razão os coríntios, os de Patras e os egienos, detendo-se mais tempo na cidade de Atenas. Dizem que há ainda uma oração sua em língua grega, que pronunciou diante do povo de Atenas em louvor dos antigos atenienses, onde diz que tinha uma grande satisfação em ver Atenas, pela beleza e grandeza da cidade, mas isso é falso, pois falou aos atenienses por meio de um intérprete, pois pouco podia discursar em grego. Mas apreciava tanto as leis e costumes de seu país e a língua romana, que ironizava os que louvavam e tinham admiração pelo grego, como uma vez criticou Pestumio Albino, o qual escreveu uma história em língua grega, solicitando, em seu prólogo, aos leitores, que o desculpassem por alguma imperfeição na linguagem: — "Pois merecia bem, dizia Catão, que o perdoassem da dívida, se foi constrangido a escrever sua história em idioma grego por ordem dos estados da Grécia, que se chama o conselho dos Anfictiões". Mas dizem que os atenienses se admiraram de sua linguagem espontânea e concisa, pois o que dizia claramente, em poucas palavras, o intérprete traduzia com um longo rodeio e colorido de linguagem, de tal forma que deixou e imprimiu a opinião, de que o falar, para os gregos, não sai senão dos lábios e para os romanos, do coração.

XXVI. Ora, havia o rei Antíoco ocupado os caminhos e desfiladeiros das montanhas que se chamam as Termópilas, por onde se entra na Grécia, guarnecendo-as tanto com seu exército que estava acampado ao sopé da montanha, como também de muralhas e trincheiras que mandara fazer, além das fortificações naturais de certas partes da montanha, repousando sobre as ditas fortificações. Pensando estar tudo em ordem ali, desviou para outro lugar o grosso das tropas, não cuidando que os romanos pudessem forçá-los pela frente; mas, Catão lembrando-se do circuito que outrora haviam feito os persas para igualmente penetrarem dentro da Grécia, partiu uma noite do acampamento com parte do exército para experimentar se poderiam encontrar o mesmo caminho da volta que fizeram os bárbaros, mas enquanto caminhavam em sentido contrário, na montanha, seu guia, que era um dos prisioneiros feitos no país, errou o caminho, levando-os para lugares ásperos e desagradáveis, pelo que os soldados sentiram grande terror. Então Catão vendo o perigo em que ele os colocara, ordenou a toda a tropa que não saísse dali e que esperassem quietos em pé. Enquanto isso, só com um outro chamado Lucio Mfinlio, homem disposto e hábil em escalar rochedos, pôs-se a caminho com dificuldades incríveis e não menos perigo de vida, caminhando dentro da noite negra porque a lua não aparecia, através de olivedos selvagens, entre rochedos elevados que os defendiam de olharem para diante; de tal forma que não sabiam para onde iam, até que deram numa pequena vereda, a qual imaginaram que ia dar ao pé da montanha no lugar onde estava o acampamento dos inimigos. Colocaram alguns ramos e sinais sobre os mais altos cumes dos rochedos que pudessem ser vistos a olho, bem distantes por cima do monte denominado Calídromo. Isto feito, voltaram atrás para buscar seus soldados que conduziram aonde estavam os sinais. Quando entraram na vereda dispuseram seus soldados em ordem para marchar, mas apenas entraram por esse caminho que encontraram, erraram logo, porque deram com um grande charco que os pôs desorientados num grande desespero, atrapalhando mais que o terror que sentiram anteriormente, não sabendo que estavam tão perto de seus inimigos, como em verdade acontecia.

XXVII. O dia começava a despontar, quando por acaso um dos que marchavam à frente ouviu barulho e entreviu, em baixo ao pé dos rochedos o acampamento dos gregos e alguns que estavam à espreita, pelo que Catão fez parar toda a tropa ordenou que soldados firmanianos757 sem os outros, viessem à sua frente, porque sempre os achou muito fiéis e muito prontos em executar suas ordens. Não deixaram de atender logo, colocando-se todos à sua volta. Então lhes falou desta maneira: — "Companheiros, é necessário que eu tenha entre minhas mãos vivo, algum dos nossos inimigos, para inquirir e saber quem são esses que guardam esse desfiladeiro da montanha, quantos são, que ordem têm, como estão acampados e armados, e que atitude deliberaram tomar à nossa espera. Esse é o meio de fazer isto com rapidez e coragem: indo subitamente arrebatar e surpreender como fazem os leões que sem nenhuma arma, não fingem nunca, ao caírem em cima de um rebanho de animais tímidos". Nem bem pronunciara essas palavras já os soldados firmanianos correram pelos vales da montanha, assim como estavam, direitos a esses que estavam de espreita, descarregando em desordem758 e à vontade no caminho, agarraram um com suas armas, que levaram imediatamente a Catão, o qual pelo que disse o prisioneiro, soube que o grosso do exército dos inimigos estava com o rei em pessoa, alojado dentro do estreito mesmo e dentro do vale, mas esses que eles viam, eram seiscentos etolianos, todos homens de elite, que haviam escolhido e encarregado de guardar alguns cumes dos rochedos sobre o acampamento de Antíoco.

XXVIII. Ouvindo isto, Catão, sem fazer conta de mais nada, tanto pelo pequeno numero como pela deserdem que o inimigo mantinha, imediatamente mandou tocar as trembetas e seus soldados marcharam para a batalha com grandes gritos, caminhando ele mesmo à frente da tropa, e espada na mão, mas assim que os etolianos os viram descer dos rochedos, direito a eles, puseram-se a fugir para seu grande acampamento, cheios de terror, perturbados e em confusão. Do outro lado Mânlio, no mesmo instante, deu o sinal de assalto às muralhas e fortificações, que o rei mandara fazer através os vales e desfiladeiros das montanhas, em cujo assalto, o próprio Antíoco recebeu uma pedrada em pleno rosto, atirando os dentes fora da boca, de tal modo que pela dor que sentiu, desviou seu cavalo e atirou-se para trás, de carreira, não havendo então nada em seu exército que fizesse frente nem que pudesse suster a impetuosidade dos romanos, mas como os sítios fossem incômodos para fugir, porque era impossível s e afastar em vista de um lado haver rochedos elevados e do outro charcos e pântanos profundos, nos quais caíam quando acontecia que seus pés escorregavam ou que os derrubassem; no entanto, atiravam-se uns sobre os outros através os desfiladeiros, empurrando de tal modo que se perdiam a si próprios, com medo dos golpes de espada que lhes atiravam os romanos. Ali, Marcos Catão, que não foi nunca modesto em cantar e pregar seus louvores, não tendo jamais pejo de se enaltecer a si próprio abertamente, considerou aquela comitiva como a que devia sempre acompanhar as grandes proezas e os elevados feitos de arma, aumentando a este glorioso evento uma feliz magnificência por elevação de palavras, pois, pessoalmente, escreve que esses que o viram nesse dia expulsando e fulminando os inimigos, foram obrigados a confessar que Catão não devia mais tanto ao povo romano, como o povo romano devia a Catão e que mesmo o cônsul Mânlio, queimando ainda com o ardor do combate, abraçou-o longamente, feliz também por haver expulso os inimigos, exclamando em voz alta, cheio de alegria, que nem ele nem o povo romano saberiam pagar a Catão salário equivalente aos seus méritos.

XXIX. Após esta batalha o cônsul romano foi enviado a Roma para levar pessoalmente as notícias da vitória; embarcou logo, estando o tempo tão favorável que fez a travessia sem aborrecimentos até Brindes, dali foi até Tarento em um dia, de Tarento em outros quatro dias a Roma, de tal modo que chegou em cinco dias depois do desembarque na Itália; andou tão rapidamente que foi o primeiro a levar as notícias da vitória. À sua chegada, toda a cidade encheu-se de festejos e de sacrifícios e o povo romano formou grande e elevada opinião de si mesmo, convencendo-se de ser doravante poderoso para conquistar o império do mundo tanto por mar como por terra. São esses quase todos os mais belos e mais notáveis feitos de armas de Catão.

XXX. Seu ardor pela justiça, sua intrepidez em perseguir os maus

XXX. Quanto aos atos civis em matéria de governo, parece que tinha a opinião de que perseguir os maus com a justiça, era uma das principais coisas com que devia se ocupar e se aplicar um homem de bem e bom administrador da coisa publica, pois só ele acusou vários e subscreveu em companhia de outros que acusavam também. Incitava sempre algum acusador, como fez com um certo Petílio contra Cipião; mas quanto àquele, vendo a nobreza de sua casa e a verdadeira magnanimidade e grandeza que havia nele, pôs sob os pés todas as calunias759 e imputações que propunham contra o acusado, não esperando jamais poder condená-lo a morte, e assim desistiu da perseguição, mas formalizou-se com outros acusadores contra Lucio Cipião seu irmão760, perseguiu-o de tal modo que o fez condenar a multa de uma respeitável quantia de dinheiro a favor do Estado, o qual, não podendo pagar, correu grande perigo de ser preso e feito prisioneiro e teve muito trabalho para se salvar, o que fez, apelando da sentença diante dos tribunos do povo.

XXXI. A respeite de Catão ainda se conta que um dia, passando através da praça, encontrou um moço que acabava de obter uma sentença favorável,. com a qual cobriu de vergonha um dos maiores inimigos de seu pai recentemente falecido. Catão, com uma fisionomia alegre, abraçou-o, dizendo-lhe: — "É isto, meu filho, é isto que os meninos gentis devem sacrificar e oferecer à alma de seus pais, não somente carneiros e cabritos, mas as lágrimas e condenações de seus inimigos e adversários". Mas assim como agira com os outros, também ele próprio corria perigo na administração, pois à menor falta, caíam sobre ele e era logo posto perante a justiça por seus adversários, de maneira que dizem que foi acusado perto de cinquenta vezes na ultima das quais tinha a idade de oitenta anos761. Foi nessa ocasião que disse esta frase que foi recolhida e bem anotada: — "Que era penoso, dar conta e razão de sua vida diante de homens de um outro século que não aquele em que vivera". Não foi ainda esse processo o ultimo de suas lutas, pois quatro anos depois, com a idade de noventa anos762 acusou Sérvio Galba; assim viveu como Nestor, quase três idades do homem, sempre em contínua ação. Pois tendo grandes desavenças e grandes diferenças no tocante aos negócios do Estado contra o primeiro Cipião, denominado o Africano, viveu até o tempo do segundo Cipião, o qual foi adotado pelo filho do dito primeiro Cipião, sendo filho natural e legítimo de Paulo Emílio, aquele que derrotou Perseu, o rei da Macedônia.

XXXII. É nomeado censor. Sua firmeza e seu vigor

XXXII. Em suma, Marcos Catão, após dez anos de consulado, solicitou o cargo de censor763 que em Roma assinalava o cume da dignidade e da honra que podia atingir um cidadão romano, e que era, por assim dizer, o coroamento de todos os cargos e autoridades que podiam ter no governo do Estado, pois entre outros poderes, um censor tem o direito de inquirir sobre a vida e reformar os costumes de cada um, porque os romanos consideravam que não devia ser lícito ao cidadão casar-se por si , gerar filhos, viver em sua casa em particular nem dar banquetes e festins à sua vontade, sem receio de ser repreendido ou procurado, não sendo bom largar a rédea a todo o mundo, a fim de cada um agir a seu gosto, como seu apetite incitasse ou seu julgamento guiasse; mas consideravam que a natureza e os costumes dos homens descobrem-se mais em tais coisas, e não naquelas que fazem publicamente, em pleno dia e diante de todo o mundo. Assim, elegiam dois reformadores, guardas e corregedores para ficarem de olho e proibir que as pessoas se desviassem do caminho da virtude para o da volúpia, não transgredindo as ordens, estatutos e costumes do seu Estado. Os ditos oficiais chamavam-se em linguagem romana — censores, havendo sempre um das antigas casas nobres, que chamavam aristocratas e outro das populares. Tinham a autoridade e poder de retirar o cavalo publico do cavaleiro e de negar e privar um senador do senado se achava que havia vivido desordenada e maldosamente. A eles pertencia fazer a avaliação dos bens de cada cidadão, discernir as linhagens, as idades, registrar, além de várias outras proeminências e prerrogativas.

XXXIII. Por essa razão, quando Catão se apresentou entre os solicitantes que pediam e disputavam o dito cargo, quase todos os principais e nobres do senado esforçaram-se para impedir que aí chegasse, uns por inveja, considerando que era uma vergonha e uma mancha para a nobreza ter que suportar homens saídos de meios baixos e obscuros, sendo eles os primeiros de suas famílias a alcançarem a dignidade do Estado, para o que fizeram tudo a fim de subir e avançar até os supremos degraus da honra e aos cargos de autoridade soberana.

Os outros que estavam viciados e sabiam muito bem que haviam transgredido as leis e ordens de seu país, temiam a autoridade e severidade deste homem, pensando que ele não pouparia nem perdoaria à pess oa alguma, quando tivesse autoridade. Pelo que, depois de se aconselharem juntos, opuseram-se e foram contra sete competidores, acariciando e adulando a plebe com graciosas palavras e belas promessas, como se o povo tivesse necessidade de magistrados que o tratassem delicadamente e fizessem as coisas à sua vontade, Mas Catão, ao contrário, sem demonstrar de forma alguma que queria ser delicado e gracioso na administração do cargo, mas ao contrário, ameaçando publicamente da tribuna em seus discursos aqueles que viviam maldosa e desgraçadamente, bradando em alta voz que a cidade precisava de uma purgação, admoestando o povo a eleger, não os mais atenciosos, mas sim os mais rudes e os mais rigorosos médicos, como era ele um dos tais que precisavam, e entre os aristocratas Valério Flaco, em cuja companhia tinha esperança, caso fossem eleitos censores juntos, fazerem grande bem a todo o Estado, cortando e queimando como cabeças de uma hidra, as delícias, a volúpia e superfluidade que se infiltravam na administração, vendo bem que todos os outros solicitantes procuravam alcançar por tramas e vias oblíquas, porque temiam aqueles que queriam proceder com retidão e cumprir o dever como gente de bem.

XXXIV. O povo de Roma demonstrou que era verdadeiramente magnânimo e digno de grandes e magnânimos governadores, pois não recusou a rudeza e retidão inflexível desse personagem mas, rejeitando todos os outros graciosos que davam a impressão de querer fazer todas as coisas ao bel-prazer do povo, elegeu Marcos Catão censor com Valério Flaco, obedecendo-lhe em tudo como se já estivesse empossado e não fosse apenas solicitante de um cargo764 o qual Catão poderia ceder a quem bem lhe aprouvesse. A primeira coisa que fez, portanto, depois de empossado, foi nomear príncipe do senado, seu amigo e companheiro de magistratura, Lucio Valério Flaco, privando da dignidade de senador, entre vários outros, a Lucio Quíncio765 o qual fora cônsul sete anos atrás, sendo irmão legítimo de Tito Quíncio, que venceu Filipe, rei da Macedônia, o que lhe era mais honroso do que ser cônsul, mas a razão pela qual o jogou para fora do senado, foi esta: este Lucio Quíncio tinha sempre em sua companhia, mesmo quando ia para a guerra, um moço, novo ainda, do qual havia abusado carnalmente desde a sua infância, dando-lhe tanto crédito e autoridade como ao maior dos familiares e amigos que tivesse à sua volta. Aconteceu um dia, quando governador de uma província consular, dar um banquete, no qual o rapaz, como sempre, estava à mesa ao seu lado, o qual começou a elogiá-lo, sabendo muito bem, que se deixava ir facilmente quando havia bebido. Entre outros elogios, disse-lhe que estava tão possuído de seu amor e que embora no seu departamento em Roma houvessem preparado tudo para dar ao povo o divertimento de ver esgrimir e combater gladiadores em duelo de morte, no entanto, partira às pressas para vir encontrá-lo, justo na hora do combate, ainda que nunca tivesse visto e desejasse muitíssimo ver matar um homem. Então Lucio Quíncio, para pagar-lhe com a mesma moeda e por seu lado, agradá-lo também, disse: — "Não te melindres, tenho este prazer que deixaste de ver e não faço má figura por isto, pois satisfarei prontamente teu desejo". E tão logo disse estas palavras, ordenou que tirassem da prisão imediatamente um dos criminosos condenados a morte, que o trouxessem à sala e o carrasco também com seu machado. Isto foi logo executado. Perguntou ao rapaz se queria ver matar naquele momento o homem, o qual respondeu que sim; ordenou então ao executor que lhe cortasse a cabeça. A maioria dos autores antigos narra assim. Mesmo Cícero, no livro que escreveu na velhice, diz que assim está escrito em um discurso que Catão defendeu diante do povo romano766.

Portanto, Lucio Quíncio, sendo assim ignominiosamente expulso do senado por Catão, seu irmão Tito ficou muito descontente não sabendo a quem recorrer senão ao povo, suplicou que ordenassem a Catão dizer qual a razão em dar aquela nota de infâmia à sua família. Pelo que, Catão na presença do povo, narrou tudo o que se deu no festim; como Lucio negasse, afirmando que não era assim, Catão se referiu ao seu juramento publico, acusando-o de não ser verdadeiro, mas Lucio quis se escusar de o fazer. Nessa ocasião, o povo julgou na mesma hora que com justo direito havia recebido essa nota de infâmia. Todavia, algum tempo depois, quando representavam as peças no teatro, Lucio aí chegou, passando além do lugar que estava determinado para os que foram cônsules, foi se sentar à parte, bem distante. O povo teve pena e falou tanto que o obrigou a voltar a sentar-se entre os outros senadores com a dignidade consular, suavizando o melhor que lhe era possível aquele acidente infamante sucedido a uma nobre família.

XXXV. Privou também e expulsou do senado um outro chamado Manílio, que tinha grandes garantias de ser cônsul no ano seguinte, pelo fato de, em pleno dia e na presença de sua filha, ter muito amorosamente beijado sua mulher. Disse que a sua não o beijava nunca, a não ser quando trovejava muito forte, em vista do que estava habituado a dizer que se sentia mais feliz quando Júpiter trovejava. Retirou também o cavalo publico de Lucio Cipião que triunfará pelas vitórias ganhas contra o grande rei Antíoco, o que lhe causou uma grande má vontade, porque parecia a todo o mundo que fazia expressamente para envergonhar Cipião o Africano767 (já falecido).

XXXVI. Mas o que mais acharam duro e ofendia mais as pessoas, foi procurar diminuir os prazeres e o supérfluo, pois retirar tudo e tão abertamente, era impossível, havendo já tantos homens inculpados, corrompidos e aniquilados; mas rodopiando obliquamente à volta, fazendo a avaliação dos bens e posses de cada cidadão, mandou que taxassem e avaliou as vestes, os coches, as liteiras, os anéis e joias das mulheres, os outros móveis e utensílios domésticos que custavam mais de mil e quinhentas dracmas768 por peça, dez vezes mais do que custaram e que não valiam, a fim de que esses que gastaram e puseram seu dinheiro em tais coisas curiosas e supérfluas pagassem tanto mais imposto nas contribuições que conviria fazer para os negócios do Estado, sendo seus bens sobretaxados com maior avaliação. Deu ordens também que para cada mil uncias (uma das frações duodecimais do asse), isto é, para cada mil asses 769 que tais coisas foram estimadas e avaliadas, os donos davam três de tributo ao Estado, sentindo-se afinal sobrecarregadas com tal imposto, vendo que esses que eram tão corajosos quanto eles, contentavam-se com pouco, não exibindo tão vaidosa situação, pagavam muito menos de imposto ao Estado, estando menos carregados do que eles, castigando-se a si próprios com a desistência de serem supérfluos, suntuosos e delicados.

XXXVII. Todavia, expôs-se ao ódio e malevolência, por um lado, daqueles que preferiam pagar o tributo do que deixar seus prazeres e por outro lado dos que, preferindo mais abandonar os prazeres a pagar o tributo, pois há muitos que consideram que lhes impedir os meios de fazer exibição é como se lhes tirasse a riqueza, tendo esta louca persuasão que se exibem melhor com as coisas supérfluas do que com as necessárias, por isso dizem que o filósofo Ariston admirava-se tanto e mais do que qualquer outra coisa, de como os homens consideravam felizes e ricos os que possuíam coisas curiosas, supérfluas e voluntárias em lugar daqueles que possuíam as úteis e necessárias. Escopas Tessaliano, como um dos seus familiares pediu-lhe qualquer coisa que não lhe servia para muito, disse-lhe para mais facilmente o induzir a lhe conceder: — "É uma coisa que não vos é necessária nem útil". "E é, disse ele, com o que sou mais opulento e mais rico, com coisas supérfluas e que não servem para nada". Assim, o ardor e a ambição de possuir não procede de nenhuma afeição ou necessidade natural, nem é inata à nossa carne, mas se engendra em nós e nos vem de uma falsa opinião do vulgar.

XXXVIII. Estátua que erigem a Catão por haver apoiado a disciplina e corrigido os costumes

XXXVIII. Catão pouco se preocupava com o alarido que levantavam contra ele, tornava-se insensível e apertava ainda mais sua autoridade, mandando cortar e destruir os canos, pelos quais alguns particulares furtavam a água das fontes publicas, quando passavam ao longo de suas residências, puxando-a para suas casas e seus jardins particulares, mandando também demolir e arrasar todas as saliências dos edifícios particulares que avançavam sobre as ruas e praças publicas, diminuindo o preço dos trabalhos que eram feitos a expensas do Estado, ao contrário elevando as herdades (quintas) e gabelas (imposto sobre o sal) o mais que podiam subir. Todas aquelas coisas originaram um grande ódio e malevolência de muita gente, pelo que Tito Flamínio e alguns outros, virados contra ele, fizeram em pleno senado rescindir, quebrar e anular todos os negócios e os contratos que havia feito cem os mestres-pedreiros para a reparação e conservação dos edifícios públicos e sagrados, como sendo feitos em prejuízo do Estado e instigaram os mais audaciosos e temerários tribunos do povo contra ele, e solicitando que fosse condenado a multa de770 dois talentos, também lhe causaram muito embaraço e impedimento na edificação do palácio que mandara construir à custa do Estado, com vistas sobre a praça, em cima daquela onde estava o senado, cujo palácio foi, no entanto, terminado e conhecido por seu nome Basílica Pórcia, isto é, o palácio que mandou edificar o censor Porcio; todavia, parece que o povo romano ficou muito agradecido e louvou grandemente o que havia feito na administração com a sua censura, pois mandou levantar uma estátua no templo da deusa Saúde, sob a qual não mandou escrever seus feitos de armas nem seu triunfo, mas mandou gravar uma inscrição cuja sentença era tal, a traduzi-la palavra por palavra: — "Em honra de Marcos Catão censor771, pelo tanto que, por bons costumes, santas ordens ou sábios ensinamentos, levantou a disciplina do Estado romano, a qual já declinava e terminava mal". Entretanto, algum tempo antes desta imagem lhe ter sido erguida, fartou-se de ironizar esses que apreciavam ou apeteciam tais coisas, dizendo: — "Que não percebem que se glorificam, não de suas virtudes, mas dos trabalhos dos construtores, pintores e estatuários e quanto a ele que seus concidadãos levantassem sempre as mais belas imagens e quadros seus em seus corações", levando em conta a lembrança de sua vida e de seus feitos. Por essa razão, uma vez respondeu a alguns que se maravilhavam como erguiam imagens assim a vários pequenos e desconhecidos personagens e a ele não: — "Prefiro mais, disse-lhes, que perguntem por que não ergueram uma estátua a Catão do que por que a ergueram".

XXXIX. Sua reputação e sua autoridade

XXXIX. Em resumo, não admitia que um homem de bem suportasse o louvor se isto não fosse em proveito do Estado e no entanto foi um dos homens que mais se louvou a si próprio, de tal forma, que se acontecesse a alguns, por esquecimento, em alguma coisa, esquecer seu dever, quando os repreendia, dizia: — "Devia desculpá-los porque não eram Catões, para não falhar". E àqueles que procuravam imitar alguns de seus atos, e não se saíam bem, chamava-os sinistros772 Catões. Dizia ainda mais: — "Nos tempos mais perigosos o senado punha as vistas sobre ele, nem mais nem menos como os passageiros quando em um navio olham o piloto quando se levanta uma tormenta no mar, tendo o senado muitas vezes diferido e deixado para outra ocasião negócios de bem grandes consequências quando não se achava presente"; outros testemunharam que isso era verdade, pois teve uma grande autoridade na administração tanto por sua grande probidade como pela eloquência e também por sua extrema velhice.

XL. Suas virtudes domésticas

XL. Mas, além disso, é enaltecido por haver sido bom pai para com seus filhos, bom marido para sua mulher e bom administrador sabendo governar e fazer aproveitar seus bens, pois não considerava coisa sem importância aquilo que não se devia fazer muito caso e ser encarado como passatempo some nte; portanto não estará fora de propósito, a meu ver, contar aqui algumas palavras que possam servir para a matéria presente. Primeiramente desposou uma mulher mais nobre do que rica, sabendo muito bem que uma e outra seriam orgulhosas e altivas, mas considerou ele também, que essas que são originárias de sangue nobre, têm mais vergonha das coisas desonestas do que as outras, sendo por isso mais obedientes aos seus maridos nas coisas razoáveis e honestas. Em suma, dizia: — "Aquele que bate em sua mulher ou em seu filho, comete um grande sacrilégio, como quem violaria ou pilharia as coisas mais santas que existem no mundo"; considerava ser maior elogio a um homem ser bom marido do que bom senador; por essa razão não encontrou nada mais louvável na vida do antigo Sócrates do que sua paciência sendo sempre humano e delicado com sua mulher que tinha tão má cabeça, e seus filhos tão desmiolados.

XLI. Educação que dá a seu filho

XLI. Depois que sua mulher lhe deu um filho, não havia negócio urgente, nem mesmo para o Estado, que não deixasse, para ir à casa na hora em que sua mulher lavava e trocava seu filho, pois ela o alimentava com seu próprio leite e muitas vezes amamentava os filhinhos de suas escravas, a fim de lhes incutir uma caridade e amor natural para com seu filho, por serem alimentados juntos e com o mesmo leite. Quando seu filho atingiu a idade da razão, e de ser capaz de aprender, ele mesmo ensinou-lhe as letras, enquanto que um escravo chamado Quilon, homem honesto e bom gramático ensinava-lhe outras matérias, mas como ele mesmo diz, não queria que um escravo discutisse cem seu filho nem que lhe puxasse a orelha, quando acontecia não aprender prontamente o que lhe ensinava, não querendo que seu filho se tornasse devedor a um escravo por uma tão bela e tão grande coisa como a ele por lhe ter ensinado as letras. Em vista disso, ensinou-lhe a gramática, as leis, a esgrima, não somente atirar o dardo, brincar com a espada, girar, esporear os cavalos e manejar todas as armas, mas também combater a golpes de punho, suportar o frio e o calor, passar a nado a correnteza de um rio impetuoso e inflexível. Diz-se ainda mais que compunha e escrevia de próprio punho belas histórias em letras grandes para que seu filho, desde a casa de seu pai, conhecesse as pessoas de bem dos tempos antigos, seus feitos virtuosos, formando, a exemplo deles, sua vida para melhor servir. Diz-se que tinha grande cuidado em não pronunciar palavras feias e grosseiras na presença de seu filho, como se fosse diante das religiosas vestais. Nunca se banhava com ele, embora fosse uso comum entre os romanos, pois mesmo os genros não se banhavam com seus sogros e tinham vergonha de se despir uns na frente dos outros. Desde que aprenderam com os gregos a se banharem nus com os homens, estes os ensinaram também a se despir e banhar-se nus mesmo com as mulheres.

XLII. Sucesso dessa educação

XLII. Ora, não faltavam bons propósitos ao filho de Catão, que desejava fazer o que fosse digno de nota, formando-os pelos moldes da virtude perfeita, pois tinha o coração tão bom, que procurava fazer tudo que seu pai lhe mostrava, mas tinha o corpo por natureza tão débil e tão fraco, que não podia suportar grande trabalho; por essa razão seu pai afrouxava um pouco a rija e apertada austeridade e regra de v ida que pessoalmente observava. No entanto, mesmo sendo de natureza débil e de compleição pequena e fraca, não deixava de ser homem corajoso e cumprir muito bem seu dever na guerra, pois combateu corajosamente na batalha em que Perseu rei da Macedônia foi derrotado por Paulo Emílio, ocasião em que a espada, voando dos punhos por um grande golpe que recebera sobre a mão que estava suada, ficando muito descontente, solicitou a alguns de seus amigos que o ajudassem a encontrá-la e todos juntos atiraram-se sobre os inimigos no lugar onde a espada havia caído; lutaram tanto que fenderam o aperto e clarearam o lugar, onde por fim a encontraram com grande custo, porque já estava coberta por um monte de outras armas e de mortos, tanto dos romanos como dos macedônios, empilhados uns sobre os outros. O general Paulo Emílio, tomando conhecimento deste ato, elogiou e deu grande valor ao jovem, encontrando-se ainda, hoje em dia, uma carta de Catão a seu filho na qual o elogia e enaltece com muito apreço por este ato de bravura e aquela diligência em recuperar sua espada. Depois disso, o jovem Catão desposou uma das filhas de Paulo Emílio, irmã do segundo Cipião, que se chamava Tércia, e foi re cebido como parente nesta nobre casa, não menos pela sua própria virtude como pela dignidade e austeridade de seu pai e assim o estudo, o sacrifício e o cuidado que teve Catão em instruir seu filho, terminaram como mereciam.

XLIII. Sua conduta para com seus escravos

XLIII. Catão tinha sempre grande numero de escravos que comprava, pequenos e novos, quando vendiam os prisioneiros de guerra em leilão, escolhendo-os bem jovens, porque estavam ainda na idade de se acostumarem com a alimentação que se lhes quisesse dar, sendo mais fáceis de domar, como os potros e os cachorrinhos. Mas nenhum de todos os que possuía, entrou nunca na casa de alguém, a não ser que Catão ou sua mulher o enviassem. Se lhes perguntavam o que Catão fazia, respondiam apenas: não sei. Sendo preciso, quando estavam em casa, faziam alguma coisa necessária ou então dormiam, pois gostava muito dos que dormiam à vontade, considerando que os escravos que gostam de dormir são sempre os mais maleáveis e que faziam melhor o que desejavam do que aqueles que estavam sempre despertos, sendo de opinião de que o que incitava os escravos a empreenderem e praticarem as maiores maldades era satisfazerem sua volúpia com as mulheres; ordenou que os seus poderiam ter a companhia das escravas de sua casa mediante um preço que lhes taxou, com a proibição expressa de não ter negócio com qualquer outra mulher fora de sua casa.

XLIV. No início, quando se pôs a seguir as armas, não sendo ainda rico, não se enfurecia nunca pela falta que cometiam seus servidores com o serviço em sua presença, dizendo que achava isto feio, não adequado a uma pessoa de honra bater e discutir com seus servidores por causa de seu estômago, mas desde que seus bens aumentaram e sua situação melhorou, se porventura festejava seus amigo s ou seus companheiros, incontinente após a refeição, castigava e chicoteava até esfolar, os que faltavam em servir a mesa ou oferecer alguma coisa que fosse. Procurava sempre por maneiras sutis que houvesse desavenças e altercações entre eles, pois tinha sua amizade e concórdia por suspeitas, receando-as. Se porventura algum cometia algum ato digno de morte, fazia seu processo na presença de todos os outros, depois era condenado, fazendo-o morrer também diante de todos eles.

XLV. Abandona a cultura das terras e entrega-se às especulações do comércio

XLV. Mas no fim, tornou-se um tanto rude e muito ardente em adquirir bens, abandonando o trabalho da terra e dizendo que a agricultura era mais para maior prazer do que para grande proveito. Em vista disso, para que seu dinheiro ficasse mais seguro e com renda maior e mais certa, pôs-se a comprar os lagos e reservatórios de água, bacias naturais de água quente, praças apropriadas para o trabalho dos pisoeiros, terras onde houvesse pastagens, matas de corte e de madeiras de lucro eventual, de onde recolhia grandes somas todos os anos, dizendo por isso, que Júpiter mesmo não poderia diminuir a sua renda. Ainda mais, emprestava seu dinheiro a juros e ainda a juros marítimos, que é a taxa mais reprovável e a mais censurada, porque é a mais excessiva; fazia-o desta forma, porque queria que aqueles que emprestavam seu dinheiro para traficar no mar, associassem outros mercadores com eles, até o numero de cinquenta, tendo outro tanto de navios, entrando então na sociedade só em uma parte, a qual era manejada por um de seus escravos libertos chamado Quintião, que era assim seu corretor, navegando e traficando com os outros parceiros da sociedade aos quais emprestara seu dinheiro a juros. Desse modo, não confiava todo seu dinheiro à sorte, mas sim uma pequena parte somente, retirando um lucro bem grande da sua usura. Ainda mais, emprestava dinheiro também a seus próprios escravos que desejavam comprar outros escravos jovens, aos quais ensinavam e preparavam para qualquer serviço a expensas mesmo de Catão, revendendo-os no fim de um ano. Catão retinha vários para si próprio, dando e deduzindo tanto como se fosse o que melhor oferecia. Para incitar seu filho a fazer assim render seu dinheiro, ele lhe dizia: — que não era ação para um homem de coragem diminuir seu patrimônio, mas antes ação de uma mulher viúva; mas, ainda, era sinal de natureza violenta e pior do que a avareza, ter a coragem de dizer que era homem divino e digno de louvor imortal, aquele que, por sua industria, aumentasse de tal jeito suas posses que o acessório que fosse anexado, subisse mais do que o principal que recebera e herdara de seus pais.

XLVI. Chegada de Carneades e de Diógenes a Roma

XLVI. Ainda há mais. Estava já bem avançado, no declínio dos anos, quando Carneades, filósofo da seita acadêmica e D iógenes, o Estoico, vieram de Atenas como embaixadores à Roma, para obter o perdão e indulto de uma multa773 de quinhentos talentos, a qual o povo de Atenas havia sido condenado à revelia, à falta de comparecimento, por sentença dos sicionianos, a instância e solicitação dos oropianos. Logo que chegaram esses dois filósofos à cidade, os moços romanos, que estimavam o estudo das letras, foram saudá-los e visitá-los, tendo-os em grande consideração depois de os ter ouvido, mesmo Carneades, cuja graça no falar e força em persuadir o que desejava, não era menor do que a importância que lhe davam, mesmo quando discorria diante do grande auditório, em presença de assistentes que não cometiam a maldade de calar seu elogio, encheu toda a cidade como se fosse um vento que fizesse esse barulho aos ouvidos de cada um, que chegara um homem grego sabendo maravilhas, o qual, por sua eloquência, atraía e levava todo mundo para onde queria; não falavam de outra coisa pela cidade porque havia impresso no coração dos jovens romanos um tão grande e tão veemente desejo de saber, pondo abaixo todos os outros prazeres e exercícios, que não queriam mais fazer outra coisa senão estarem disponíveis para a filosofia como se fosse alguma inspiração divina que a isso os instigasse, de tal modo que os outros senhores romanos estavam bem sossegados e tinham prazer em ver a juventude aplicar-se ao estudo das letras e disciplinas gregas e conviver com esses dois grandes e excelentes personagens.

XLVII. Sentimentos de Catão sobre a filosofia e sobre a literatura grega

XLVII. Marcos Catão, porém, desde o início, quando as letras gregas começaram a ter entrada e serem estimadas em Roma, ficou descontente, receando que a juventude mudasse inteiramente sua afeição e seu estudo, abandonasse a glória das armas e do bem-fazer, pela honra de saber e bem-dizer; ainda mais quando viu a consideração e fama desses dois personagens crescendo sempre, cada vez mais, de tal jeito, que Caio Aquílio, um dos primeiros homens do senado havia reclamado e solicitado para ser seu intérprete, para traduzir seus primeiros discursos, deliberou reenviá-los para fora da cidade debaixo de alguma capa de aparência honesta; um dia em pleno senado reprimiu os magistrados que retinham tanto tempo esses embaixadores sem os despachar, mesmo levando em conta que eram homens que podiam persuadir facilmente e fazer crer o que queriam e quando não teria outro motivo, só por isto deviam desconfiar alguma coisa sobre o fato de sua embaixada e recambiá-los em suas escolas para disputar com os meninos da Grécia e deixar os dos romanos aprenderem a obedecer as leis e aos magistrados de seu país, como anteriormente.

XLVIII. Ora, fazia isso, não porque tivesse alguma inimizade particular contra Carneades, como alguns pensaram, mas porque geralmente odiava toda filosofia e pela ambição desprezava as musas e as letras gregas, visto que dizia: — "O antigo Sócrates não era senão um’ conversa dor e um sedicioso, procurando pelos meios que lhe eram possíveis, usurpar a tirania e dominar no seu país, pervertendo os costumes e os hábitos, atirando seus concidadãos a opiniões contrárias às leis e costumes antigos". Criticando a escola de Isócrates, que ensinava a arte da eloquência, dizia: — "Seus discípulos envelheciam em sua casa, para irem depois exercer sua eloquência e litigar suas causas no outro mundo diante de Minos, quando estivessem mortos". Para divertir e causar aversão de seu filho ao estudo das letras e disciplinas gregas, dizia-lhe dando mais força e engrossando sua voz o quanto podia sua velhice, como se por inspiração divina houvesse pronunciado alguma profecia: — "Todas e quantas vezes os romanos se aplicarem às letras gregas, perderão e estragarão tudo". Todavia o tempo mostrou que esta difamação e maledicência era vã e falsa, pois nunca a cidade de Roma floresceu tanto, nem o domínio de Roma foi tão grande, como quando as letras e a ciência gregas ali estiveram em honra e apreço.

XLIX. Sobre a medicina

XLIX. Mas em Catão não era somente o ódio que sentia pelos filósofos gregos, mas tinha também por suspeitos aqueles que professavam a medicina em Roma, pois havia ouvido ou lido a resposta que deu Hipócrates quando o rei da Pérsia mandou chamá-lo, mandando oferecer-lhe grande soma de ouro e de prata se quisesse servi-lo, quando jurou que jamais serviria aos bárbaros, levando em conta que eram inimigos naturais dos gregos. Catão afirmou que isto era um juramento que todos os outros médicos juravam igualmente; por essa razão ordenou muito particularmente a seu filho que fugisse de todos igualmente, dizendo* que havia feito um pequeno tratado de medicina, pelo qual curava os de sua casa quando adoeciam e os conservava quando estavam com saúde. Não os proibia nunca de comer, mas os alimentava com verdura e com algumas carnes leves, como patos, pombos e lebres; pois tais carnes, dizia ele, são boas para os doentes e fáceis de digerir, exceto aquelas que fazem sonhar e variar aos que as comem, jactando-se de que com esse regime e esta maneira de medicar, sempre se conservou são, tendo também preservado seus empregados com saúde.

L. Seu segundo casamento

L. Todavia, parece-me que não fazia tudo aquilo pelo qual se vangloriava, pois perdeu sua mulher e seu filho e quanto a ele, se bem que de compleição robusta, tanto pela resistência como pela saúde, viveu muito tempo perfeito, de maneira que em sua extrema velhice, ainda aproveitava a companhia das mulheres, casando-se de novo, fora de idade, com uma jovem, o que fez por uma razão. Depois da morte de sua primeira mulher, casou seu filho com a filha de Paulo Emílio, irmã do segundo Cipião, o Africano, e ele viúvo servia-se de uma jovem rapariga774 criada, que ia procurá-lo às escondidas em seu quarto, todavia não podia fazer isso tão secretamente numa casa pequena, onde morava uma jovem senhora casada, que não percebessem. Como um dia essa rapariga passou com muita audácia na frente do quarto do jovem Catão, para entrar no do pai, o moço não disse uma palavra mas aquele percebeu que ele ficou envergonhado e havia olhado a moça de maneira repreensiva, pelo que compreendeu que isso desagradava a essas duas pessoas jovens, seu filho e sua mulher. Sem se queixar a eles nem fazer car a feia, foi-se uma manhã, como de costume, à praça com o grupo dos que o acompanhavam por honra, entre os quais estava Salônio, que outrora fora seu escrivão. Catão chamando-o em voz alta, perguntou-lhe se não havia ainda casado sua filha. Salônio respondeu-lhe que não e que não cuidava em fazê-lo sem primeiramente lhe comunicar. Catão então replicou: — "Encontrei, para ela um marido e para ti um genro, que não será fora de propósito para ela, se porventura a idade não a contrarie, porque é muito velho, mas pensando bem, não há o que censurar nele". Salônio respondeu, que quanto a isto confiava nele, recomendando-lhe sua filha e pedindo-lhe que lhe desse o partido que bem lhe parecia, porque era sua humilde serva, dependendo inteiramente dele e de sua previdência. Então Catão, sem mais delongas, disse-lhe que era ele mesmo que a pedia em casamento. Salônio, a princípio, ficou admirado com essas palavras porque lhe parecia que Catão estava fora de idade para novas núpcias e que de seu lado não era ele homem para fazer aliança com uma casa de dignidade consular e triunfal, mas afinal, quando viu que Catão falava conscientemente, aceitou de boa vontade e nesses termos foram juntos para a praça, aí passaram na hora o contrato de casamento. Como preparavam as núpcias, Catão filho, convidando alguns de seus parentes è amigos, foi com eles diante de seu pai, perguntar-lhe se havia cometido alguma falta contra ele ou se lhe havia causado algum desgosto, para por despeito, levar para casa uma madrasta. Então o pai exclamou: — "Oh! não digas nunca isso, meu filho, acho bem tudo que fazes e não posso me queixar de nada, mas assim faço porque desejo ter muitos filhos e deixar vários cidadãos como tu és para o Estado". Dizem que Pisístrato o tirano de Atenas deu uma resposta tal e qual aos filhos de sua primeira mulher, estando todos grandes, quando desposou sua segunda, Timonassa, nativa de Argos, da qual teve, como dizem, Iofon e Téssalo.

LI. Morte de seu filho. Sua constância. Seus trabalhos literários

LI. Mas para voltarmos a Catão, ele teve desta segunda mulher um filho, o qual se chamou pelo nome de sua mãe775 Catão, o Saloniano, falecendo seu filho mais velho quando pretor, o qual muitas vezes menciona em várias passagens dos seus livros, elogiando-o como um grande homem de bem. Dizem que essa perda, sentiu-a sempre como homem grave e sábio, sem que por isso fosse em nada menos atencioso nos negócios do Estado do que anteriormente. Pois não fez, como depois fizeram Lucio Luculo e Metelo, denominado Pio, que em sua velhice se retiraram totalmente do governo e dos negócios públicos, mas considerouos um fardo e um dever, ao qual todo homem de bem, enquanto viver, é obrigado; nem como Cipião, o Africano, havia feito outrora, ao ver que a glória de seus elevados feitos instigara a inveja dos outros cidadãos e mudou a maneira de vida, repousando e abandonando os negócios e a cidade, indo para os campos. Mas, como se escreveu, que alguém aconselhou a Dionísio -o tirano de Siracusa que não podia ser melhor nem mais honradamente exumado e sepultado do que na tirania, Catão também considerou que não podia melhor nem mais honestamente envelhecer do que se preocupando sempre, até o fim, com negócios do Estado. No entanto, quando desejava distrair-se e descansar um pouco, passava seu tempo escrevendo livros e se ocupando nos trabalhos do campo. Eis de onde vem haver escrito tanto e toda sorte de livros e histórias.

LII. Sua maneira de viver no campo

LII. Quanto ao trabalho da terra e serviços do campo, ocupou sua juventude para o útil e o proveitoso. Pois, diz ele que não tinha senão duas fontes de renda, o trabalho da terra e a economia; mas na sua velhice, o que fazia nos campos era mais por prazer, para contemplar e aprender sempre alguma coisa da natureza, pois ele mesmo escreveu um tratado sobre a vida campestre e o serviço dos campos, no qual descreve até a maneira como se devem fazer tortas e bolos, como preservar os frutos nas árvores, tanto que desejava mostrar-se singular e bom conhecedor de todas as coisas. Quando se encontr ava em suas casas de campo, vivia com mais opulência do que em outro lugar, convidando muitas vezes seus vizinhos e aqueles cujas terras uniam-se às suas, a virem cear, alegrando-se com eles, de maneira que sua companhia e sua familiaridade não eram somente alegres e agradáveis a esses qu e tinham sua idade, mas também deleitável aos jovens, pois havia visto e experimentado muitas coisas, conseguido muitos bons negócios, sabia muitas anedotas boas, alegres e proveitosas e era útil ouvi-lo narrá-las de novo. Considerava a mesa um dos principais meios para fazer amizade entre os homens e na sua punha sempre à frente assuntos agradáveis em louvor das pessoas de bem e dos cidadãos virtuosos, não querendo que falassem nunca dos inúteis e maus, tendo o cuidado de iniciar sempre o assunto em algum banquete onde estivesse, para que não se falasse nem bem nem mal.

LIII. Seu parecer decide a terceira guerra Púnica e a ruína de Cartago

LIII. De resto, consideram que sua ultima obra-prima na administração do Estado foi a destruição final de Cartago, pois aquele que a destruiu e arrasou de fato, foi o segundo Cipião, mas per conselho e aviso principalmente de Catão, quando empreendida a ultima guerra contra os cartagineses; ele foi numa ocasião enviado à África, para conhecer as causas das diferenças que havia entre os ditos cartagineses e Massinissa, rei da Numídia, os quais estavam em guerra feroz. Para aí foi enviado tanto pelo rei Massinissa, que de todos os tempos sempre se mostrara amigo dos romanos e pelos cartagineses que se tornaram seus aliados desde a ultima guerra, na qual foram derrotados pelo primeiro Cipião, que lhes tirou e arruinou com uma multa, uma boa parte de seu império, impondo-lhes um tributo enorme.

Quando, portanto, chegou, não encontrou a cidade de Cartago aflita, sem coração, nem empobrecida, como julgavam os romanos, mas cheia de juventude, opulenta em bens e abundando com toda a sor te de armas e munições de guerra, de maneira que por esta opulência tinha a cabeça reta e o coração elevado e não projetando nada de pequeno. Julgou que era tempo para os romanos trabalhar e conhecer as diferenças entre os cartagineses e Massinissa, mas que se não se prevenissem em boa hora a fim de exterminar tudo nesta cidade, que sempre fora sua inimiga capital, ressentindo-se do passado, ficariam assim sob seu jugo e crescida em pouco tempo, mais do que não poderiam acreditar e considerar, cairiam também em maiores perigos do que nunca.

LIV. Sua morte. Sua posteridade

LIV. Portanto, logo que chegou de volta à Roma, não deixou de ob servar vivamente no senado que as perdas e danos que os cartagineses tiveram no passado nas guerras havidas contra eles não haviam por completo abolido seu poder, tanto como a loucura e a imprudência, correndo perigo que as ditas adversidades, os transformasse antes em mais experientes do que enfraquecidos para guerrear e já ensaiavam e se exercitavam na guerra contra os numidas, para depois, conscientemente, guerrearem os romanos e que a paz existente entre eles não era senão uma prorrogação de armas e um prazo de guerra, a qual para renovar, não esperavam senão alguma ocasião oportuna. Dizem que, além dessas admoestações, havia levado propositalmente dentro da dobra de seu longo traje uns figos da África, os quais jogou no meio do senado sacudindo seu traje e como os senadores se encantassem em ver figos tão belos, tão grandes e tão frescos: — "A terra em que crescem, disse-lhes, não está distante de Roma senão três dias de navegação".

LV. Mas é ainda mais violento o que se narra além disso, que dali em diante, no senado, jamais deu seu aviso a qualquer assunto que fosse deliberado, que não juntasse sempre esse refrão com vantagem: — "Também me parece que é necessário que Cartago seja destruída completamente". Contrário a isso, Publio Cipião, denominado Nasica, também dizia sempre: — "Parece-me conveniente que Cartago sobreviva". Pois esse personagem via, segundo penso, que o povo romano por seu orgulho insolente cometia muitas faltas grandes e graves, e tornava-se altivo por causa de suas prosperidades, elevando-lhes o coração, que o senado não podia, a-não ser com grande trabalho, conter e por meio da autoridade muito grande que possuía, atraía à força toda a cidade, onde a fantasia crescia. Por essa razão quis que esse receio da cidade de Cartago ficasse como um freio para reter a insolência do povo romano, considerando que os cartagineses não eram bastante poderosos para combater nem para vencer os romanos, mas que eles eram também demais para os conter e não os recear mais.

Catão replicou contra, que era nisso que havia mais perigo, que uma cidade de todos os tempos forte e poderosa, ficando então sábia por ter sido castigada por várias perdas e diversas adversidades, ficasse sempre de emboscada, à espreita do povo romano, que fazia como o cavalo fugido que por uma liberdade desenfreada que se dava a si próprio, cometia os maiores erros, cujo motivo lhe parecia que não era o mais sabiamente aconselhado o não retirar todo o perigo de fora e o receio de perder seu império, quando deixavam dentro os meios de caírem sempre em seus erros.

LVI. Eis como narram que Catão foi a causa da terceira e ultima guerra dos romanos contra os cartagineses. Mas, de resto, quando esta se iniciou, ele morreu, mas profetizou, por assim dizer, quem seria aquele que a. terminaria, Era o segundo Cipião que na ocasião sendo muito jovem, comandava somente mil homens de infantaria, mas em todos os encontros e em toda a parte onde havia trabalho, praticava sempre atos de bom senso e de grande coragem, cujas notícias vinham comumente a Roma e Catão, ouvindo-as contar, pronunciou, como dizem, esses dois versos de Homero776:

Só aquele pertence ao numero dos sábios,
Todos os outros não são senão sombras voláteis.

Esta profecia, Cipião logo depois confirmou com efeito e demonstrou ser verdadeira. Em suma, a posteridade que Catão deixou foi um filho de sua segunda mulher, o qual como dissemos, foi denominado, por causa de sua mãe, Catão777 o Saloniano e um neto de seu filho primogênito, morto antes dele. Este Catão Saloniano, falece quando pretor, mas deixou um filho, o qual alcançou a dignidade consular e foi avô de Catão778 que cognominaram o Filósofo’, um dos personagens mais virtuosos e mais famosos do seu tempo.

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