Notas

919 - No ano 464 de Roma.
920 - Não é ao caráter, mas à pessoa ou ao físico a que Plutarco se refere, ao dizer que deve ser permitido usar de seme lhantes traços, quando se procura descrever um homem como Sila.
921 - Isto é contado de modo um pouco diferente na Vida de Mário.
922 - Fenícias, V. 554.
923 - Sile Metelo foram cônsules juntos no ano de 674, sentiu já o primeiro ditador. Foi nesse ano que Cícero, com 27 anos pronunciou seu admirável discurso em defesa de Sexto Rósoio Amerino.
924 - Laverne era uma deusa venerada em Roma pelos larápios e impostores. Ela tinha um bosque sagrado perto da Via Salaria. É, ao que parece, deste bosque, que se trata aqui.
925 - Valério Máximo diz que ele passara por todas as honras.
926 - Um pardal.
927 - O nome da deusa não figura no texto, e não se pod e apontá-lo, pois Plutarco diz que não sabia qual era ela.
928 - Ninguém sabe que lugar é este. (Vauvilliers). Vide as Observações.
929 - Medida p ara secos, no sistema ático, criada por Sólon, e que valeria, aproximadamente, 53 litros. (N. do T.).
930 - Alguns estudiosos dizem que se deveria ler Ateio.
931 - Dípilo era uma das portas de Atenas, a noroeste da cidade, e que dá para Colona, lugar que Édipo tornou famoso. Picava a dez estádios de Atenas, se gundo Tucídides. O sábio Meursius pretende que se deve ler quatro estádios, tendo-se em vista um trecho de Cícero, em suas Tusculanas. Mas Tito Lívio, assim como Tucídides, contou mil passos da porta de Dípilo até à A cademia, na extremidade da qual se achava o comoro chamado Colona, como se pode ver nos Aticos, de Pausânias.
932 - No ano 668 de Roma.
933 - Cidade situada na fronteira entre a Beócia e a Fócida.
934 - Um pouco mais adiante se chama Molo.
935 - No texto grego lê-se Erício; todavia, vários autores são de opinião que se deve ler Hírcio.
936 - Cidad e da Beócia.
937 - Medida agrária de mil pés quadrados, entre os gregos antigos. (N. do T.),938 - Não se trata d a Média, vasta região da Ásia; mas de um território da Trácia oriental.
939 - No ano 670 de Roma.
940 - No ano 666 de Roma.
941 - Tiatira, cidade da Lídia, ao norte de Sardes, no caminho de Pérgamo Era uma colônia dos macedônios . Tivera anteriormente os nomes de Pelópia e Evipe.
942 - Hoje Durazzo, na Albânia.
943 - Nome próprio que significa: consagrado às ninfas. Este fogo, segundo Dion Cássius, não crestava nem a terra, nem as árvores ou as ervas que cresciam no local.
944 - Hoje Borgo de San Donino. Apiano coloca a cena deste acontecimento em Piacenza; o q ue não constitui propriamente uma contradição, pois as duas cidades são vizinhas, Fidência, com efeito, encontra-se entre Piacenza e Farma.
945 - Séstio, segundo Apiano. Mas as duas cidades eram vizinhas ficando ambas no Lácio.
946 - Nos arredores da antiga cidade de Alba havia numerosas casas de recreio, entre as quais se tornaram particularmente famosas a de Pompeu e a de Domiciano.
947 - No ano 672 de Roma.
948 - No ano 675 de Roma.
949 - No ano 619, de Roma.
950 - No ano 676, de Roma.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Vidas Paralelas: Sila, de Plutarco

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Lúcio Cornélio Sila (138-78 a.C.), conhecido simplesmente como Sula, foi um militar e estadista eleito cônsul por duas vezes, em 88 e 80 a.C. Foi também eleito ditador em 82 a.C.. A biografia de Sila faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Sila foi comparado ao general espartano Lisandro.

Imagem de capa: Busto de Sila na Gliptoteca em Munique, Alemanha.

I. Família e fortuna de Sila

I. Lúcio Cornélio Sila pertencia a uma família de patrícios, que em Roma constituem a nobreza. Um de seus antepassados, chamado Rufino, chegou ao consulado919, mas tornou-se mais conhecido pela infâmia que o marcou do que pelo posto a que foi elevado. Com efeito, foram encontradas em sua casa mais de dez libras de baixela de prata, o que era naquele tempo proibido terminantemente pela lei: e devido a esta contravenção, foi destituído do cargo de senador e proibido de entrar no Senado. Depois desta ignomínia, seus descendentes viveram sempre na obscuridade; e o próprio Sila recebeu de seu pai haveres bem modestos.

Durante a sua juventude morou em casa alheia, pagando aluguel módico; e isto deu motivo a que fosse censurado mais tarde, quando chegou a uma opulência que, segundo se dizia, não merecera. Um dia, de volta d a guerra da África, ele começou a vangloriar-se desmedidamente, o que levou uma personagem de grande reputação a dizer-lhe: "E como poderíeis ser um homem de bem se, nada tendo recebido de vosso pai, hoje possuis um fortuna imensa?" Embora não houvesse mais, entre os romanos, aquela antiga severidade de conduta e a pureza de costumes de seus antepassados, e o fato de terem eles, em seu declínio, aberto o coração ao amor do luxo e da suntuosidade, consideravam merecedores de igual censura tanto os que não conservavam a pobreza de seus pais quanto aqu eles que dissipavam a riqueza que haviam recebido. Quando, tendo concentrado em suas mãos grandes poderes, fazia perecer tanta gente, um filho de liberto, que, suspeito de haver dado asilo a um prescrito, ia ser, somente por isso, atirado da rocha Tarpéia, relembrou-lhe que ambos tinham morado durante muito tempo na mesma casa, da qual ele alugara a parte mais alta por dois mil sestércios, e Sila a de baixo por três mil, mostrando-lhe assim que a diferença de sua fortuna não era senão de mil sestércios, ou seja, duzentas e cinquenta dracmas.

II. Sua inclinação pelos ditos espirituosos e pelos bons pratos

II. O que ficou dito acima é o que existe de escrito em relação à primeira condição de Sila, com referência a bens. Quanto ao seu corpo e à sua fisionomia, pode-se fazer um julgamento pelas estátuas que restam dele: seus olhos eram brilhantes e ardentes; e a cor de seu rosto tornava seu olhar ainda mais terrível, Era vermelho escuro, com manchas brancas, e dizem que seu nome veio de sua cor. Um pândego de Atenas compôs, sobre o seu rosto, este verso satírico:

Uma amor a salpicada de farinha, eis Sila.

Não constitui uma impertinência recorrer a tais traços920 para retratar um homem como Sila. Ele era, ao que se diz, de um caráter tão libertino que, quando ainda muito jovem, e pouco conhecido, passava os dias em companhia de bufões e farsantes, bebendo e comendo, numa vida dissoluta. Mais tarde, depois de haver usurpado a autoridade, ele mandava vir do teatro, à sua casa, cômicos e histriões escolhidos entre os mais impudentes, e passava noites inteiras a beber, na sua companhia, por fiando todos para ver quem dizia as melhores pilhérias; desse modo, desonrava a sua idade e a dignidade de seu cargo e, ao mesmo tempo, sacrificava assuntos mais merecedores de seu cuidado. Uma vez à mesa, não se podia mais falar-lhe de questões sérias; e, embora em outros lugares se mostrasse sempre ativo, grave e severo, tornava-se um homem completamente diferente quando se punha em tal companhia, para beber e comer. Passava então a viver na mais íntima familiaridade com estes comediantes, farsistas e dançarinos, que dele conseguiam tudo o que queriam.

III. Boco entrega-lhe Jugurta

III. Foi sem dúvida destas companhias corruptas que lhe adveio a sua inclinação para a libertinagem, bem como sua propensão para os vícios e os amores criminosos, que não abandonaram nem mesmo na velhice. Amou, desde a juventude, o comediante Metróbio, e conservou durante toda a vida essa paixão infame. Apaixonou-se também por uma cortesã muito rica chamada Nicópolis, a quem o hábito de vê-lo e a atração que sobre ela exerciam a sua juventude e beleza, inspiraram um grande amor, de modo que, ao morrer, deixou-o como herdeiro. Recebeu também uma herança de sua madrasta, que o estimava como se fosse seu próprio filho. Estas duas sucessões proporcionaram-lhe uma grande riqueza. Foi mais tarde nomeado questor de Mário, em seu primeiro consulado, acompanhando-o à África, a fim de participar da guerra contra Jugurta. Logo após chegar ao acampamento, demonstrou ser homem de grande coragem; e, tendo sabido aproveitar-se de uma circunstância favorável, conquistou a amizade de Boco, rei dos númidas. Acolhera e tratara com bondade embaixadores daquele príncipe que haviam conseguido escapar das mãos de bandidos númidas, e, depois de oferecer-lhes presentes, deu-lhes uma boa escolta, para protegê-los, no regresso a suas casas. O rei Boco odiava e temia seu genro Jugurta, o qual, após ter sido vencido pelos romanos, refugiou-se junto dele. Decidido a traí-lo, mandou chamar Sila, secretamente, pois preferia que seu genro fosse preso e entregue aos romanos pelo questor, e não por suas próprias mãos Sila, depois de comunicar o que ocorria a Mário921, e de reunir um pequeno número de soldados, para acompanhá-lo, foi expor-se a um grande perigo, confiando sua. pessoa a um bárbaro, que não era leal nem para com seus mais próximos aliados, a fim de apoderar-se de outro bárbaro. Quando Boco viu um e outro ao alcance de suas mãos, e quando se viu forçado a trair um dos dois, hesitou durante muito tempo entre as duas resoluções opostas; finalmente, decidiu-se pela traição que havia planejado, primeiramente, e entregou Jugurta às mãos de Sila.

IV. Diversas ações de Sila, quando sob as ordens de Mário

IV. Na realidade, foi Mário quem conduziu este príncipe em triunfo, mas a inveja de que era objeto o cônsul fez com que se atribuísse a Sila toda a glória do aprisionamento de Jugurta. Mário ficou profundamente irritado, e para isso concorreu a conduta de Sila. Natu ralmente orgulhoso, e começando a adquirir consideração após ter vivido obscuramente entre seus concidadãos, Sila foi seduzido per este primeiro lampejo de glória. Tornou-se ambicioso, e, num excesso de vaidade, mandou gravar aquela cena num anel que trazia sempre consigo e que lhe servia de sinete. Na gravação via-se o rei Boco ao entregar Jugurta e Sila recebendo-o. Estas coisas desgostaram muito Mário, mas acreditando que Sila não era ainda uma personagem suficientemente importante para justificar os seus ciúmes, continuou a servisse dele na guerra. No segundo consulado, escolheu-o para seu lugar-tenente; e, no terceiro, colocou sob suas ordens mil infantes. Em todos os seus cargos, Sila alcançou grandes êxitos . Quando lugar-tenente de Mário, aprisionou um general dos gauleses tectósagos, e quando comandava os infantes agiu de tal maneira junto à grande e poderosa nação dos marsos, que os persuadiu a se tornarem amigos e aliados dos romanos. Entretanto, tendo percebido que Mário continuava secretamente seu inimigo, e que não lhe confiava missões de importância e nem lhe proporcionava ocasiões para se assinalar, prejudicando, ao contrário, sua carreira, ele se colocou do lado de Catulo, que era companheiro de Mário no consulado.

V. Origem do ódio entre Mário e Sila

V. Catulo era um homem de bem, mas não muito inclinado às atividades bélicas, motivo por que confiava a Sila todas as principais obrigações de seu cargo, permitindo-lhe, assim, aumentar não somente seu poderio como sua reputação. Submeteu a maior parte dos bárbaros que habitavam os Alpes; e como o exército romano estivesse necessitando de víveres, Sila, encarregado por Catulo de obtê-los, fez com que chegassem em tal abundância que os soldados de Catulo, dispondo de quantidade maior do que a necessidade, forneceram-nos ao exército de Mário. Este, segundo escreveu o próprio Sila, aborreceu-se muito. Começou assim, tendo em sua origem causas frívolas e pueris, o ódio entre ambos; mas, alimentado em seguida pelas sedições e cimentado pelo sangue das guerras civis, resultou finalmente na tirania e na derrocada total da República. Este exemplo demonstra a sabedoria e o profundo conhecimento que tinha dos males políticos o poeta Eurípides, ao recomendar922 aos governantes que evitassem sobretudo a ambição, por ele considerada como uma peste funesta e fatal àqueles que se dedicam aos negócios públicos.

VI. Sila é nomeado pretor

VI. Sila, acreditando que a reputação por ele adquirida através dos feitos de armas era suficiente para abrir-lhe o caminho às honras civis na cidade de Roma, logo que regressou da guerra procurou sondar as tendências do povo, e inscreveu-se entre os candidatos à pretura. O seu nome, contudo, foi recusado, na votação popular, e ele atribuiu a causa do malogro à populaça, dizendo que esta última classe dos cidadãos conhecia suas ligações de amizade com o rei Boco, motivo pelo qual esperava que, sendo nomeado edil antes de chegar à pretura, ele promoveria espetáculos atraentes, com grandes e magníficas caçadas e combates de feras da África, e assim escolheu outros pretores, na esperança de que ele pleitearia a edilidade. Mas parece que Sila ocultou a verdadeira causa desta recusa, e os próprios fatos o provam; pois no ano seguinte, tendo conquistado os favores do povo, em parte por cortejá-lo, em parte por dinheiro, foi nomeado pretor. Quando já no exercício da pretura, um dia, ele disse, encolerizado, a César: "Usarei contra vós os direitos de meu cargo". "Tendes razão, respondeu-lhe César, rindo, em dizer vosso cargo; ele vos pertence realmente, pois que o comprastes".

VII. É enviado à Capadócia na qualidade de legado

VII. Expirado o período de sua pretura, Sila foi enviado para a Capadócia. O pretexto aparente. desta expedição era recolocar Ariobarzane no governo de seus Estados, mas o seu verdadeiro objetivo era reprimir as audaciosas empresas de Mitrídates que se intrometia em tudo, e que estava empenhado em dobrar a superfície de seu império. Sila não levou tropas muito numerosas da Itália, mas foi auxiliado com muito zelo e dedicação pelos aliados dos romanos naquela região, e pôde assim desbaratar grande número de capadócios, e um corpo ainda mais numeroso de armênios que tinham acorrido em seu socorro. Expulsou em seguida Górdio do trono da Capadócia e nele recolocou Ariobarzane. Depois deste feito, quando se achava às margens do Eufrates, recebeu em seu acampamento um parta chamado Orobazo, embaixador do rei Ârsaces, da Pártia.

VIII. Predição de sua futura grandeza

VIII. Ora, as duas nações até então não tinham mantido qualquer espécie de relações, e considerou-se como uma indicação da grande sorte de Sila o fato de os partas terem enviado embaixadores a ele, pela primeira vez, com o propósito de obter a aliança e a amizade dos romanos. Conta-se que para a recepção do embaixador, mandou preparar três cadeiras, uma para. Ariobarzane, outra para Orobazo, e a terceira, no centro, para ele, e nela sentou-se para a audiência. O rei dos partas mandou depois matar Orobazo, por ter consentido que se aviltasse desse modo a sua dignidade. Sila foi louvado por algumas pessoas por ter tratado os bárbaros com tal altivez; outras o censuraram, dizendo que sua atitude não passara de uma arrogância insultante e de uma ambição despropositada. Conta-se que um adivinho calcídico, que participara da recepção como membro da comitiva de Orobazo, após observar atentamente Sila, e examinar demoradamente todos os movimentos de seu corpo, todas as expressões de sua fisionomia e de seu pensamento, aplicou as regras de sua arte ao que pudera apreender de seu caráter, e disse que esse homem chegaria necessariamente ao mais alto grau de poderio e grandeza. Manifestou ainda sua surpresa pelo fato de Sila conformarse em não ser desde então o primeiro do mundo.

IX. Novos motivos de inimizade entre Mário e Sila

IX. Após regressar a Roma, Censorino acusou-o de peculato, por ter se apoderado e trazido de um reino amigo e aliado dos romanos uma grande soma em dinheiro, infringindo, assim, as leis; mas desistiu de sua acusação e a questão não foi levada à justiça. Entrementes a inimizade entre Mário e Sila foi reavivada por uma nova manifestação da ambição do rei Beco, o qual, para se insinuar cada vez mais nas boas graças do povo romano e para agradar a Sila, ofereceu e dedicou ao templo de Júpiter Capitolino vitórias de ouro acompanhadas de troféus e de uma estátua, também de ouro, de Jugurta, que Beco entregara às mãos de Sila. Mário ficou tão irritado que quis mandar retirar pela força essas imagens do templo. Mas os amigos de Sila tomaram partido em seu favor; e esta pendência teria provocado a mais violenta sedição que Roma jamais conhecera, se a guerra dos aliados da Itália, havia muito tempo em estado latente, deflagrando repentinamente, não tivesse vindo, por algum tempo, apaziguar os ânimos,

X. Êxito deste na Guerra dos Aliados

X. Nesta nova guerra, uma das mais importantes que os romanos tiveram de sustentar, seja pela diversidade dos acontecimentos, seja pela série de males que suportaram e pelos perigos a que se expuseram, Mário nada pôde fazer de notável, e demonstrou, com o seu exemplo, que a virtude militar, para se assinalar, necessita da força e do vigor do corpo. Sila, ao contrário realizou memoráveis proezas, adquirindo a reputação de grande general entre seu:; concidadãos; na opinião dos amigos, era o maior cabo de guerra de seu tempo, e os inimigos o consideravam como o mais afortunado dos generais. Mas não procedeu como Timóteo, o ateniense, filho de Conão, que, tendo os inimigos atribuído todos os seus êxitos à fortuna, e representado esta deusa num quadro, colhendo as cidades para ele com uma rede, enquanto dormia, irritou-se contra os autores desse quadro, que, dizia, o privava de toda a glória alcançada com seus feitos. Um dia, de regresso de uma expedição, na qual havia sido bem sucedido-, depois de haver prestado contas ao povo e exposto tudo o que fizera em sua ausência, disse: "Atenienses, a fortuna não teve nenhuma participação em tudo o que vos narrei". Os deuses ficaram tão indignados com esta estulta ambição de Timóteo, que, para puni-lo, não permitiram que nada mais fizesse de notável; e, como não conseguisse sair-se bem de nenhum empreendimento, passou a ser odiado pelo povo, sendo banido de Atenas.

XI. Sila atribui todos os seus êxitos à sorte

XI. Sila, ao contrário, não- somente ouvia com paciência aqueles que elogiavam sua felicidade e os favores recebidos da fortuna, como atribuía ele próprio todas as suas belas ações a essa deusa, pretendendo assim divinizá-las de certo modo, não se sabendo se o fazia por vaidade ou se porque acreditasse realmente que os deuses o guiavam em todas as suas empresas. Escreveu mesmo, em seus Comentários, que de suas ações, todas muito bem preparadas e meditadas, as executadas ao acaso, de acordo com as circunstâncias e contrariando os planos traçados, eram sempre as que apresentavam melhores resultados. Ao acrescentar que nascera mais para a fortuna do que para a guerra, parece que reconhecia dever seus êxitos mais à fortuna do que ao seu valor; ele desejava, enfim, depender em tudo da fortuna, e considerava mesmo como um dos favores particulares da divindade a união constante em que viveu com Metelo, que exerceu as mesmas funções do que ele, e que foi depois seu sogro, Era um homem tão digno quanto ele, e, assim, no lugar das dificuldades que receava ter de enfrentar, ao seu lado teve um colaborador atencioso e moderado923.

XII. Acontecimento que lhe augura a autoridade soberana

XII. Além disso, nos seus Comentários, dedicados a Lúcuío, aconselha a este a considerar como absolutamente certo tudo aquilo que os deuses lhe revelassem ou recomendassem em sonho, durante a noite. Conta que, quando foi enviado, juntamente com o exército romano, à guerra dos Aliados, a terra abriu-se subitamente perto de Laverne924, e da grande fenda que se formou saiu um fogo enorme, elevando-se no ar uma chama brilhante; os adivinhos, explicando este prodígio, declararam que um bravo homem, de uma admirável beleza, após chegar à mais alta autoridade, livraria Roma das desordens e perturbações de que era teatro. Acrescentou que esse homem era ele próprio. Sila, pois que possuía traços de notável beleza e seus cabelos eram loiros como o ouro; além disso-, podia considerar-se homem valoroso após os grandes e belos feitos que lhe haviam dado renome. Mas já falamos bastante sobre a confiança que ele tinha na divindade.

XIII. Irregularidade de seu caráter e de sua conduta

XIII. Sila era, aliás, muito desigual em toda a sua conduta, e cheio de contradições. Às vezes, num lugar, tirava muito para si, e, em outro dava ainda mais; cumulava certas pessoas de honrarias despropositadas e insultava outras sem motivo; cortejava servilmente aqueles de quem necessitava, e tratava duramente os que dele precisavam. Assim era o seu caráter, de modo que não se sabia se era naturalmente arrogante e altivo, ou, então, um vil bajulador. A sua conduta era igualmente desigual nas vinganças e punições daqueles que o haviam ofendido. Condenava aos mais cruéis suplícios os responsáveis por faltas as mais ligeiras, e suportava com calma as maiores injustiças; perdoava facilmente ofensas que pareciam irremediáveis e punia os menores erros com a morte a confiscação dos bens. Estas contradições poderiam ser explicadas dizendo-se que, cruel e vingativo por natureza, ele ocultava, com a razão, o seu ressentimento, quando o interesse o exigia. Na guerra dos Aliados, soldados por ele comandados mataram a pedradas e a bastonadas, um de seus lugar-tenentes, chamado Albino, homem de reputação, que tinha sido pretor925. Deixou que um crime tão grave passasse em silêncio e não puniu os culpados; ao contrário, procurou dele tirar vantagem, dizendo que seus soldados se "mostrariam ainda mais obedientes e ardososos no decorrer da guerra, a fim de que seu crime fosse reparado por atos de coragem. Não se incomodou mesmo com as censuras que lhe foram dirigidas; como já havia concebido o plano de causar a ruína de Mário e de fazer nomear comandante das tropas que iam marchar contra Mitrídates, pois que a guerra dos Aliados estava quase terminada, ele agradava e lisonjeava, para poder alcançar seus objetivos, o exército que comandava.

XIV. É nomeado cônsul. Seus casamentos

XIV. De volta a Roma, foi nomeado cônsul, juntamente com Quinto Pompeu, já aos cinquenta anos de idade. Casou, então, com uma mulher de casa ilustre, Cecília, filha de Metelo, que era nessa época grande pontífice. Este casamento provocou da parte do povo canções satíricas contra ele, e suscitou a indignação das principais personalidades, as quais, segundo a observação de Tito Lívio, não acharam digno de tal mulher aquele que lhes parecera digno para o consulado, Mas Cecília, não era a sua primeira mulher: em sua juventude tinha tido outra, que lhe deixara uma filha; desposou depois Élia; e em seguida Célia, que repudiou como estéril, após tê-la elogiado e cumulado de belos e ricos presentes. Entretanto, como se casou com Metela poucos dias depois, acreditou-se que, para poder contrair este novo casamento, acusara falsamente Célia de esterilidade. Seja como for, ele amou Metela com constância, e teve para com ela as maiores atenções; e a tal ponto que, tendo o povo romano pleiteado, um dia, a volta dos partidários de Mário que haviam sido banidos, e vendo que Sila a isso se opunha, pôs-se a exigir em altas vozes a presença de Metela, e implorou-lhe que servisse de mediadora. E, ao que parece, a crueldade com que tratou os atenienses foi motivada apenas pelo seu desejo de puni-los pelo fato de terem dirigido*, do alto de suas muralhas, zombarias e facécias à sua mulher.

XV. Começo da guerra civil

XV. Mas isso ocorreu depois. Sila, no entanto, para quem o consulado pouco representava em comparação com aquilo que esperava do futuro, desejava ardentemente ser encarregado da direção da guerra contra Mitrídates. Tinha como concorrente Mário, a quem a ambição a o desejo de glória, paixões que jamais envelhecem, faziam esquecer a fraqueza e o. cansaço resultantes das lides guerreiras e da idade avançada. Obrigado, por esta razão, a renunciar às últimas expedições na Itália, ele estava à procura, então, de guerras estrangeiras, além dos mares; e, aproveitando-se da ausência de Sila, que tinha voltado ao seu acampamento, para acabar de resolver certas questões, urdiu em Roma esta sedição funesta, que causou maiores males aos romanos do que todas as guerras por eles sustentadas até então.

XVI. Presságios

XVI. Os deuses tudo haviam anunciado por diversos sinais e presságios. O fogo manifestou-se espontaneamente nas hastes de madeira das lanças que sustentavam as insígnias, e somente foi extinto depois de muito trabalho. Três corvos trouxeram para a cidade seus filhotes; e, depois de os terem devorado na presença de toda a gente, levaram de volta os restos para seus ninhos. Como alguns ratos tivessem roído joias de ouro que se achavam no interior de um templo, os guardas, com uma ratoeira apanharam um dos animais; era uma rata, que estava prenhe, e que tivera cinco filhotes na própria ratoeira, dos quais devorou três. Mas o sinal mais impressionante foi o seguinte: num céu sereno e sem nuvens, ouviu-se o som de uma trombeta, tão agudo e lúgubre que todos foram tomados de um grande medo. Os sábios adivinhos da Toscana, interrogados, disseram que tão estranho prodígio anunciava uma nova era que mudaria a face da terra. Com efeito, explicaram, oito raças de homens deviam suceder-se, diferenciando-se umas das outras pelos seus costumes e medo de vida, e a cada uma delas Deus prefixara determinada duração. Todas elas, no entanto, tinham a sua existência limitada pelo período de um ano grande; e quando uma raça completasse o seu curso, e outra estivesse prestes a iniciar o seu, o céu ou a terra o anunciariam, através de qualquer sinal ou movimento extraordinário. Aqueles que se ocupam com esta espécie de estudos, acrescentaram eles, e que os aprofundaram, sabem quando nascem na terra homens inteiramente diferentes dos que os precederam, com outros costumes e maneiras diversas de viver, e pelos quais os deuses de certo modo se interessam. Dizem eles que, nesta renovação das raças, ocorrem grandes mudanças; destas, uma das mais sensíveis é o aumento de prestígio, numa raça, da arte de adivinhar. Todas as predições se cumprem. Os deuses, com efeito, fazem com que os adivinhos dessa raça saibam, por meio de sinais os mais evidentes e mais seguros, tudo o que está para acontecer. Nas outras raças, tal ciência é geralmente desprezada, pelo fato de a maioria das predições serem feitas precipitadamente, através de simples conjeturas, não possuindo a adivinhação, para conhecer o futuro, senão de meios obscuros e sinais quase sempre pouco perceptíveis. É o que narravam os sábios adivinhos da Toscana, que eram lidos como os mais hábeis e mais instruídos. Entrementes, um dia em que o Senado estava reunido no templo de Belona para discutir com os adivinhos estes prodígios, um pássaro926 entrou voando no recinto, tendo no bico uma cigarra, que dividiu em duas partes, uma das quais deixou cair no interior do templo, levando a outra para fora. Diante do que ocorrera, os adivinhos disseram que este prodígio os levava a recearem uma sedição entre os lavradores da terra e o povo das cidades; pois este, seguindo o exemplo da cigarra, não faz senão cantar enquanto que os agricultores vivem tranquilamente em suas propriedades.

XVII. Retrato de Sulpício

XVII. Mário associou-se, assim, ao tribuno do povo Sulpício, que não era ultrapassado por ninguém no que se refere à maldade e à perversidade; com efeito não era possível encontrar alguém que fosse pior do que ele, mas apenas perguntar em gênero de maldade ele se excedia a si mesmo. Levava a tais extremos a crueldade, a audácia e a cupidez, que não hesitava em cometer, aos olhos de toda a gente, as ações mais infames e criminosas, desde que lhe trouxessem alguma vantagem. Vendia publicamente o direito de cidadania romana aos libertos e aos estrangeiros, e recebia o dinheiro numa mesa armada na praça pública. Mantinha junto de si três mil satélites, sempre armados, e um grande número de jovens cavaleiros romanos, prontos a executar tudo o que lhes fosse ordenado, e que eram por eles chamados o anti-Senado. Não obstante ter feito o povo aprovar uma lei de acordo com a qual nenhum senador pedia tomar emprestado ou dever mais de duas mil dracmas, ele próprio, ao morrer, deixou três milhões de dracmas de dívidas.

XVIII. Ele faz com que se dê a Mário o comando, na guerra contra Mitrídates

XVIII. Este homem, lançado por Mário sobre o povo como se fosse uma fera furiosa, provocou em todos os setores da administração a maior confusão e desordem, e recorreu às armas e à violência para conseguir a aprovação de numerosas leis perniciosas, entre as quais a que atribuía a Mário a direção da guerra contra Mitrídates. Os cônsules, para reprimir tais atos de violência, suspenderam o funcionamento de todos os tribunais e sustaram todos os negócios públicos. Um dia em que estes magistrados realizavam uma assembleia pública, diante do templo de Castor e Pólux, Sulpício para ali enviou tropas formadas pelos seus satélites e matou várias pessoas na própria praça, entre as quais o jovem Pompeu, filho do cônsul do mesmo nome; e este, apesar de suas funções, só conseguiu escapar da morte por ter fugido. Sila, perseguido até à casa de Mário, onde se refugiara, foi obrigado a prometer que, ao deixar seu refúgio, iria revogar publicamente, a ordem por ele dada no sentido de ser suspenso o funcionamento da justiça e dos negócios públicos. Esta submissão permitiu a Sila conservar o seu consulado, o que não aconteceu a Pompeu, a quem Sulpício afastou de suas funções. Limitou-se este a privar Sila da direção da guerra contra Mitrídates, transferindo-a para Mário. Enviou logo em seguida oficiais a Nola, para tomarem conta do exército de Sila que ali se achava, e trazê-lo para Mário. Mas Sila havia sido prevenido a tempo, e tinha seguido para seu acampamento, onde os soldados, cientificados do que se passava, lapidaram os oficiais e Mário. Este, por sua vez, mandou matar em Roma os amigos de Sila, cujas casas foram saqueadas. Não se via então senão gente mudando de lugar de residência; com efeito, numerosas pessoas fugiam da cidade para o campo e outras do campo para a cidade.

XIX. Pretores ultrajados pelos soldados de Sila

XIX. O Senado, não gozando mais de nenhuma liberdade de ação, executava sem oposição as ordens de Mário e de Sulpício. Quando se soube que Sila marchava na direção de Roma, os senadores enviaram ao seu encontro dois pretores, Bruto e Servílio, a fim de proibi-lo de prosseguir em seu caminho. Como eles dirigiram a palavra a Sila com muita altivez e audácia, os soldados, amotinando-se, quiseram matá-lo; mas contiveram-se e limitaram-se a quebrar-lhes os machados e os feixes de varas que eram conduzidos à sua frente, a rasgar os seus trajes de púrpura e a mandá-los de volta após cumulá-los de ultrajes e vitupérios. Quando foram vistos regressar tristes e taciturnos, despojados de todos os sinais e insígnias de sua dignidade de pretores, e que se verificou serem as piores possíveis as notícias que traziam, chegou-se à conclusão de que a sedição ia deflagrar com violência, e que era irremediável.

XX. Presságios que levam à Sila a seguir para Roma

XX. Mário e seus seguidores começaram logo reunir provisões, recorrendo à força é a se preparar para a defesa. Sila partiu de Nola com seu colega Pompeu, à frente de seis legiões completas, que não aspiravam a outra coisa senão marchar rapidamente sobre Roma, Mas deteve-se e permaneceu algum tempo hesitante; não sabia que decisão tomar e pôs-se a considerar o grande perigo a que se expunha. Mandou, finalmente, que se fizesse um sacrifício; e o adivinho Postúmio, após examinar os sinais e presságios, estendeu suas duas mãos a Sila, e pediu-lhe que as amarrasse e o conservasse prisioneiro até depois da batalha, oferecendo sua vida para o último sacrifício, no caso de o empreendimento não ser seguido de um rápido êxito. Na noite seguinte, ao que se conta, apareceu, em sonho, a Sila, uma deusa, muito venerada pelos romanos927, cujo culto lhes foi ensinado pelos capadócios, não sei se a Lua, Minerva ou talvez Belona, a qual, dele se aproximando, pôs-lhe na mão um raio e ordenou-lhe que fulminasse seus inimigos, que foram per ela enumerados, uns após outros. Todos os que fossem atingidos pelo raio cairiam diante dele e morreriam incontinente, desaparecendo. Encorajado por essa visão, ele a narrou a seu colega, no dia seguinte, e, sem perda de tempo, marchou com seu exército na direção de Roma.

XXI. Embaixadores enviados a Sila pelo Senado

XXI. Quando chegou às imediações de Picines928, encontrou-se com uma nova embaixada do Senado, a qual lhe pediu que não se lançasse bruscamente sobre a cidade, acrescentando que o Senado estava disposto a conceder-lhe tudo o que pedisse de justo e razoável. Sila concordou; e, após prometer que acamparia naquele mesmo lugar, ordenou aos seus capitães que marcassem, como de costume os limites do acampamento. Os embaixadores, confiando nas palavras de Sila, regressaram a Roma. Todavia, apenas haviam voltado as costas, Sila ordenou a Lúcio Básilo e Caio Múmio que se apoderassem de uma das portas da cidade e das muralhas existentes perto do monte Esquilino; ele próprio, logo depois, seguiu o mesmo caminho. Básilo apoderou-se da porta à força e entrou na cidade; mas os moradores, que estavam desarmados, subiram aos telhados e atiraram sobre ele uma chuva de telhas e pedras, impedindo que avançasse, chegando mesmo a fazê-lo retroceder até junto das muralhas.

XXII. Ele entra na cidade. Mário foge

XXII. Entrementes, Sila chega e, vendo o que se passava, ordenou aos seus soldados que ateassem fogo no interior das casas; e ele próprio, pegando uma tocha acesa, mostrou-lhes como deviam agir. Ordenou ao mesmo tempo aos arqueiros que lançassem sobre os tetos dardos inflamados. Assim é que, surdo à razão, não obedecendo senão à sua paixão e deixando-se dominar pela cólera e pela sede de vingança, e sem qualquer consideração pelos seus amigos, parentes e aliados, sem se deixar tocar pela piedade e sem distinguir entre os culpados e os inocentes, abriu caminho através de Roma a ferro e fogo. Entretanto, Mário, que havia sido repelido até o templo da Terra, fez uma proclamação, a som de trombeta, na qual dizia que daria liberdade a todos os escravos que aderissem a ele; mas seus adversários, avançando, atacaram-no com tanto vigor que ele foi obrigado a fugir e a abandonar a cidade.

XXIII. Sila põe sua cabeça a prêmio

XXIII. Sila reuniu então o Senado e fez com que aprovasse um decreto condenando Mário e algumas outras pessoas a morte, como inimigas da República. Entre os condenados estava Sulpício, que foi traído por um de seus escravos, e logo depois degolado. Sila libertou esse escravo, de acordo com a promessa que fizera publicamente; mas logo depois de restituir-lhe a liberdade, fê-lo saltar do alto da rocha Tarpéia. Pôs a prêmio a cabeça de Mário, oferecendo uma grande soma de dinheiro a quem o matasse, praticando assim um ato de ingratidão e desumanidade, pois que, poucos dias antes, forçado a entregar-se às suas mãos, ao procurar asilo em sua casa, ele o deixara a salvo. Se, em vez de deixá-lo partir em liberdade, o tivesse entregue a Sulpício, que queria matá-lo, Mário ter-se-ia tornado senhor de Roma; no entanto, perdoara-o; e Sila, poucos dias depois, encontrando-se por sua vez numa posição de superioridade, não demonstrou para com o adversário a mesma generosidade. Esta atitude desagradou vivamente ao Senado, que dissimulou, contudo, seu sentimento; o povo, porém, deu mostras sensíveis de descontentamento e indignação. Recusou, com manifestações de desprezo, os seus votos a Nônio, sobrinho de Sila, e a Servílio, um de seus amigos, que, contando com sua proteção, tinham se candidatado a certos cargos; e, além disso, escolheu aqueles cuja designação lhe pareceu mortificar mais a Sila. Este, no entanto, dissimulando seus sentimentos, fingiu aprovar a escolha, e declarou mesmo que, graças a ele, o povo romano estava gozando de inteira liberdade, podendo fazer tudo o que fosse de seu agrado.

XXIV. Parte para a guerra contra Mitrídates

XXIV. Para abrandar a ira popular, ele decidiu fazer com que fosse designado um cônsul da facção contrária, Lúcio Cina, cujo apoio já havia conseguido com antecedência, e a quem tinha feito jurar, no meio das maiores imprecações, que favoreceria seus negócios e seu partido. Cina, após subir ao Capitólio, tendo na mão uma pedra, fez, na presença de toda gente, um juramento, dizendo que, caso não mantivesse por Sila a amizade que lhe prometera, rogaria aos deuses que o lançassem fora da cidade, do mesmo modo como ele atirava longe a pedra que tinha na mão. E, após dizer estas palavras, jogou a pedra ao chão. Entretanto, apesar de todas estas imprecações, apenas tomou posse do consulado, começou a modificar tudo o que fora feito. Quis mesmo mover um processo a Sila, designando para acusá-lo Virgínio, um dos tribunos do povo. Sila, porém, deixando na cidade os juízes e o acusador, partiu para a guerra contra o rei Mitrídates,

XXV. Situação dos negócios de Mitrídates

XXV. Conta-se que, na época da partida de Sila da Itália, para aquela expedição, Mitrídates, que se achava então em Pérgamo, recebeu, dos deuses, várias advertências, e, entre outras, a seguinte: os moradores de Pergamo tinham erigido uma estátua da Vitória, que tinha na mão uma coroa, a qual por meio de uma máquina, devia descer até à cabeça do rei. No momento em que ia ser coroado no teatro, a coroa caiu sobre a cena e partiu-se em mil pedaços. Este acidente provocou terrível medo entre os presentes, e o próprio Mitrídates pôs-se a. duvidar de sua boa fortuna, embora os seus negócios estivessem decorrendo melhor do que teria ousado esperar. Ele tinha conquistado a Ásia aos romanos, expulso de seus Estados os reis da Bitínia e da Capadócia, e vivia pacificamente em Pérgamo, onde distribuía a seus amigos, riquezas, governos e reinos, E quanto aos seus filhos, o mais velho reinava sobre vastas regiões que se estendiam desde o Ponto e o Bósforo até os desertos dos pântanos Meótides, terras estas que havia recebido de seus predecessores, numa sucessão de pai a filho, O segundo filho, chamado Ariarates, que tinha sob suas ordens um numeroso exército, estava submetendo a Trácia e a Macedônia. Seus generais, à frente de tropas consideráveis, proporcionavam-lhe novas e belas conquistas, em várias regiões. Arquelau, o de maior renome entre eles, comandava uma esquadra poderosa que o tornava senhor do mar, e que lhe valera o domínio das Cícladas, de todas as ilhas situadas ao longo do promontório de Maléia e da própria Eubéia. Ele apoderou-se de Atenas, e de lá promovia a rebelião, contra os romanos, de todos os povos da Grécia, até à Tessália. Sofreu, todavia, alguns reveses perto de Queronéia. Um dos lugar-tenentes de Sêncio, que comandava na Macedônia, chamado Brúcio Sura, homem dotado de bom-senso e de uma grande audácia, tomou posição diante de Arquelau, que, como uma torrente impetuosa, invadira a Beócia, e derrotou-o em três encontros, expulsando-o da Grécia e obrigando-o a permanecer no mar com sua esquadra. Entretanto, tendo Lúculo o intimado a ceder o lugar a Sila, e deixar-lhe o comando desta guerra, da qual fora encarregado por um decreto do povo, Brúcio deixou incontinente a Beócia, e retirou-se para junto de Sêncio, não obstante ter alcançado nesta expedição um êxito que ultrapassara todas as esperanças, e o fato de a Grécia, devido à estima em que tinha o seu valor, estar muito disposta a colocar-se do lado dos romanos. Os feitos que aqui narramos são, aliás, os maiores que se conhecem de Brúcio.

XXVI. Cerco de Atenas

XXVI. À chegada de Sila à Grécia, todas as cidades enviaram embaixadores ao seu encontro, solicitando a sua presença, com exceção de Atenas que, forçada pelo tirano Aristião a servir os interesses do rei Mitrídates, quis resistir, Sila marchou incontinente contra ela, com todas as suas forças, assediou o Pireu, e, utilizando a totalidade das máquinas de guerra de que dispunha, atacou-a com ímpeto. Se ele tivesse tido paciência para esperar mais algum tempo, ter-se-ia tornado senhor sem perigo da cidade alta, a qual, devido à falta de víveres, fora reduzida à última extremidade; todavia, ansioso por regressar a Roma, onde receava novidades, mais dia menos dia, foi levado a enfrentar grandes perigos, numerosos combates e a arcar com despesas de vulto, para terminar rapidamente a guerra. Sem contar o seu equipamento ordinário, ele tinha, para o serviço das baterias, dez mil parelhas de mulos, que trabalhavam todos os dias, sem interrupção; e como começou a faltar madeira, porque suas máquinas a consumiam grandemente, seja por se quebrarem devido ao peso excessivo, seja por serem destruídas pelo fogo lançado continuamente pelo inimigo, ele desrespeitou os bosques sagrados e mandou cortar as árvores dos parques do Liceu e da Academia, que, pela beleza de suas alamedas, eram o ornamento dos arrabaldes de Atenas. Finalmente, para fazer frente a todas as despesas da guerra, não poupou nem mesmo os tesouros dos templos, e mandou retirar de Epidauro e Olímpia as joias mais ricas e preciosas que ali se achavam.

XXVII. Sila manda retirar as riquezas do templo de Delfos

XXVII. Sila escreveu ao conselho dos anfictiões, que se reunia na cidade de Delfos, aconselhando-o a lhe enviar os tesouros existentes no templo de Apoio, os quais estariam mais seguros em suas mãos; e, no caso de ser obrigado a deles se servir, afirmou, devolver-lhe-ia o seu valor depois da guerra. Enviou àquela cidade um de seus amigos, Cafis, o Fócio, com a ordem de pesar tudo aquilo de que se apoderasse. Cafis, chegado a Delfcs, não ousou tocar nas coisas sagradas; e, instado pelos anfíctiões a respeitá-las, deplorou, vertendo lágrimas abundantes, a sua situação, pois era obrigado a praticar um ato contra sua vontade. E alguns dos presentes disseram que ouviam no interior do templo o som da lira de Apoio, Cafis, seja que acreditasse realmente no que lhe diziam, seja porque quisesse incutir no espírito de Sila um temor religioso, escreveu-lhe uma carta, advertindo-o. Sila zombou dele em sua resposta, e manifestou-lhe a sua surpresa por não ter compreendido que o canto e o som da lira eram sinais de alegria e não de cólera. É uma prova, acrescentou, que o deus vê com prazer a remoção dessas riquezas, e de que deseja mesmo oferecê-las como presente; deste modo, tudo poderá ser retirado sem qualquer receio. Teve-se o cuidado de ocultar do povo a retirada destas riquezas; no entanto, o mesmo não pôde ser feito em relação ao tonel de prata maciça; que restava das oferendas dos reis, pois que não pôde ser transportado em nenhum carro, em virtude de seu tamanho e de seu peso; assim, os anfíctiões foram obrigados a reduzi-lo a pedaços, o que não pôde ser mantido em segredo. Este sacrilégio fez os gregos se lembrarem dos antigos capitães romanos, como Tito Flamínino, Mânio Acílio e Paulo Emílio, dos quais o primeiro, depois de expulsar Antíoco da Grécia, e os dois outros, depois de derrotarem os reis da Macedônia, não se contentando em respeitar os templos, enriqueceram-nos com donativos, e demonstraram para com esses lugares sagrados a maior veneração.

XXVIII. Comparação entre os antigos generais de Roma com os do tempo de Sila

XXVIII. Mas estes grandes homens tinham sido legitimamente escolhidos para os seus postos, e comandavam tropas disciplinadas que obedeciam em silêncio às ordens recebidas; eram simples particulares pela modéstia de seu modo de vida e verdadeiros reis pela elevação de seus sentimentos. Assim é que não faziam consigo senão as despesas necessárias, evitando todo o supérfluo, persuadidos de que é mais vergonhoso para um general adular seus soldados do que temer o inimigo. Ao contrário, os generais da época de Sila, desejos os de ocupar o primeiro lugar nos negócios públicos, não pela virtude, mas pela força, e mais preocupados em guerrear uns aos outros do que combater os inimigos do exterior, eram obrigados a agradar aos soldados e a garantir os seus serviços através de liberalidades e despesas excessivas. Assim agindo, não viam que tornavam servo o seu próprio país, e que se transformavam em escravos dos piores homens do mundo, ao procurarem por todos os meios dominar aqueles que valiam mais do que eles.

XXIX. Foi assim que Mário foi expulso de Roma, para voltar-se depois contra Sila; foi assim que Cina foi levado a matar Otávio e Fímbria a eliminar Placo, Sila contribuiu mais do que qualquer outra pessoa para estes males e desordens: a fim de corromper e atrair os soldados do lado contrário, ele cumulava os seus de liberalidades e dádivas sem limites. Assim, para provocar a traição de uns e satisfazer a intemperança de outros, necessitava de somas imensas, necessidades que se fez sentir principalmente para completar o cerco de Atenas. Ele nutria o mais violento dos desejos de apoderar-se dessa cidade, e obstinava-se no seu propósito, seja pela vaidade de combater contra a antiga reputação do que ela não conservava senão a sombra, seja para vingar-se das injúrias e das zombarias mordazes, das palavras picantes e obscenas que o tirano Aristião lançava todos os dias do alto das muralhas contra ele ou contra sua mulher Metela, o que o ofendia seriamente.

XXX. Retrato do tirano Aristião

XXX. A alma deste tirano era constituída de depravação e crueldade, tendo reunido em sua pessoa as imperfeições e os vícios mais detestáveis do rei Mitrídates. E a cidade de Atenas, depois de haver escapado de tantas guerras, de tantas tiranias e sedições, viu-se reduzida por Aristião, como por um flagelo devastador, à mais lamentável situação. Enquanto que o medimno929 de trigo era ali vendido por mil dracmas, que os habitantes não tinham outro alimento senão as ervas que cresciam em volta da cidade, o couro das sandálias e dos vasos destinados a guardar o óleo, que punham n’água para cozer, Aristião, entregue à devassidão e aos festins, passava os dias e as noites a dançar, a rir, a zombar dos inimigos. Viu com indiferença a lâmpada sagrada de Minerva extinguir-se por falta de óleo; e quando a grande sacerdotisa lhe pediu um quarto de alqueire de trigo, ele lhe enviou um de pimenta. No dia em que os senadores e os sacerdotes foram suplicar-lhe que tivesse piedade da cidade, e que propusesse a Sila uma capitulação, ele mandou afastá-los a dardadas. Não foi senão no último extremo que se resolveu, com muita pena, a mandar fazer propostas de paz a Sila, por intermédio de dois ou três companheiros de libertinagem, os quais, em vez de falar na salvação da cidade, não fizeram em seus discursos senão elogiar Teseu e Eumolo, e enaltecer os feitos dos atenienses contra os medos. "Grandes oradores, disse-lhes Sila, voltai à vossa cidade com os vossos belos discursos. Os romanos não me mandaram a Atenas para receber lições de eloquência, mas para castigar rebeldes".

XXXI. Ocupação e saque de Atenas

XXXI. Entrementes, espiões de Sila, tendo ouvido queixas de velhos que palestravam no bairro denominado Cerâmico, os quais diziam que o tirano não cuidava de guardar a parte da muralha que dava para o quarteirão de Heptacalco, o único ponto que o inimigo podia escalar com facilidade, foram incontinente avisar o general. Este, aproveitando-se da informação, dirigiu-se àquele ponto na noite desse mesmo dia, e verificando que podia ser conquistado facilmente, passou logo à ação, preparando o ataque. Ele próprio escreveu, em seus Comentários, que o primeiro a subir na muralha foi Marco Teío930, o qual desferiu no capacete de um soldado que pretendeu enfrentá-lo um golpe tão violento que sua espada partiu em pedaços; e ele, não obstante ficar desarmado, não recuou, mantendo-se firme no lugar a que subira. A cidade foi tomada por esse ponto, tal como os velhos o tinham previsto. Sila mandou derrubar a muralha que se erguia entre a Porta Sagrada e a do Pireu, e, depois de todo esse espaço ter sido aplainado, entrou em Atenas à meia-noite, no meio de um grupo amedrontador, ao som de clarins e trombetas, e entre os gritos furiosos de todo o exército, ao qual dera inteira liberdade para pilhar e degolar. Os soldados, tendo se espalhado, com as espadas na mão, por todas as ruas da cidade, entregaram-se à mais horrível carnificina. Até hoje não se conhece o número dos que foram massacrados. Para dar uma ideia do que foram as proporções da matança, costuma-se mostrar o lugar até onde escorreu sangue: sem falar naqueles que foram mortos em outros pontos da cidade, somente o sangue dos que foram trucidados na praça principal banhou todo o bairro do Cerâmico, até o lugar denominado Dípilo931. Vários historiadores afirmam mesmo que ele transbordou, espraiando-se pelos subúrbios, após atravessar as portas. Mas além do grande número de atenienses que foram trucidados pelo inimigo, houve outros tantos, ou talvez ainda mais numerosos, que se mataram a si mesmos, tal a dor e o pesar que lhes causava a certeza de que havia chegado para a sua pátria a hora da destruição final. Essa convicção levou ao desespero as pessoas mais honestas da cidade, e fez com que preferissem a morte ao risco de cair nas mãos de Sila, de quem não esperavam nenhuma manifestação de clemência ou de humanidade.

XXXII. Sila faz cessar a carnificina, ante os rogos de Mídias e de Calífonte

XXXII. Entretanto, c edendo aos rogos de Mídias e Califonte, dois banidos de Atenas, que se lançaram aos seus pés, e diante das instâncias de vários senadores romanos que serviam em seu exército, os quais intercederam em favor da cidade, e sem dúvida também por já se achar saciado, em sua sede de vingança, ele fez o elogio dos antigos atenienses, declarou que perdoava a maioria em atenção à minoria e que concedia aos mortos a graça dos vivos. Segundo ele próprio conta em seus Comentários, ocupou Atenas no dia das calendas de março932, que coincide precisamente com o primeiro dia do mês que denominanos antestérion. Nesta data, por acaso, realizavam-se em Atenas várias cerimonias sagradas em memória do dilúvio, que, no mesmo mês do ano, havia submergido a terra, num cataclismo universal.

XXXIII. O tirano Aristião entrega-se

XXXIII. Quando o tirano Aristião viu Atenas em poder do inimigo, refugiou-se na cidadela, onde foi cercado por Curião, por ordem de Sila, Resistiu durante muito tempo, mas, tendo sido privado de água, rendeu-se, vencido pela sede. A mão divina fez-se sentir nessa ocasião de uma maneira evidente; pois, precisamente no momento em que Curião tirava o tirano da cidadela, o céu, antes sereno, cobriu-se repentinamente de nuvens, seguindo-se uma chuva tão abundante que o local ficou inundado. Poucos dias depois, Sila ocupou também o porto de Pireu. Mandou incendiar a maior parte das fortificações, entre as quais o arsenal, que fora construído pelo arquiteto Filo, e era uma obra admirável.

XXXIV. Sila passa pela Beócia

XXXIV. Entrementes, Táxiles, um dos generais de Mitrídates, chegando da Trácia e da Macedônia com um exército de cem mil infantes, dez mil cavalos e noventa carros de guerra providos de lâminas, mandou dizer a Arquelau que se aproximasse dele. Este continuava no porto de Muníquia, não ousando afastar-se do mar; e como não se atrevesse a medir forças com os romanos, procurava prolongar a guerra e privar o inimigo de todos os meios de obter víveres. Sila, que conhecia melhor do que ele o perigo representado pela sua posição, deixou as terras pobres da Ática, que não poderiam sustentá-lo nem mesmo em tempos de paz, e seguiu para a Beócia. A maior parte de seus oficiais manifestou a opinião de que ele cometia um grande erro ao deixar uma região montanhosa, de difícil acesso aos cavaleiros, para ir lançar-se nas planícies descobertas da Beócia, quando sabia perfeitamente que a força dos bárbaros consistia sobretudo na cavalaria e nos carros armados, Mas, como já dissemos, o medo da escassez de víveres e da fome, levava-o a correr o risco de uma batalha. Ele receava, por outro lado, pela sorte de Hortênsio, oficial corajoso e atilado, que lhe trazia da Tessália um considerável reforço, e que era esperado pelos bárbaros junto ao desfiladeiro das Termópilas. Estes foram os motivos que obrigaram Sila a seguir para a Beócia. Mas Cafis, que era filho do país, ludibriou os bárbaros; e, fazendo com que Hortênsio tomasse outro caminho, conduziu-o através do monte Parnaso, e elevou-o até um ponto situado abaixo de Titora, que não era então a importante cidade de hoje, mas um simples forte, erguido sobre uma rocha escarpada, e isolado de todos os lados. Foi nesse forte que os fócios, perseguidos por Xerxes, refugiaram-se outrora, permanecendo em segurança. Hortênsio, após acampar perto dessa fortaleza, repeliu o inimigo durante o dia; e, quando chegou a noite, desceu por caminhos difíceis até Patronides, onde se encontrou com Síla, que avançara com todas as suas forças.

XXXV. Desprezo demonstrado pelo inimigo ante o número reduzido de suas tropas

XXXV. Após reunirem suas tropas, eles acamparam no meio da planície de Elatéia, sobre uma colina fértil, coberta de árvores e banhada por um regato. Esta colina chamava-se Fílobecto, e sua situação, bem como a natureza de seu terreno, foram objeto de grandes elogios por parte de Sila. Depois de acampados, foi fácil ao inimigo verificar quão reduzido era o seu número, pois não dispunham senão de mil e quinhentos cavaleiros e de menos de quinze mil infantes. Diante disso, os oficiais do exército inimigo, contrariando Arquelau, colocaram suas tropas em ordem de batalha, e encheram a planície com seus cavalos, carros e escudos. O ar parecia não bastar para o barulho e os gritos confusos de tantas nações diversas, cada uma das quais ocupava o seu lugar. A magnificência e o luxo de seus equipamentos contribuíam para aumentar o espanto dos romanos, não sendo assim inúteis ou supérfluos. O brilho cintilante de suas armas ornadas com ouro e prata, as cores refulgentes de suas cotas de armas medas e cíticas, tudo isto misturado com o esplendor do aço e do bronze, fazia, em todos os seus movimentos e em todos os seus passos, rebrilhar um fogo semelhante ao dos relâmpagos, constituindo um espetáculo aterrador. Os romanos, amedrontados, não ousavam sair das trincheiras de seu acampamento. Sila, cujas palavras não conseguiam dissipar este medo, e que não podia forçar os soldados a combater nesse estado de desencorajamento, era constrangido a permanecer inativo, e a suportar, não sem uma viva impaciência, as bravatas e os risos insultantes dos bárbaros. No entanto, foi isto que lhe valeu: com efeito, o inimigo, cheio de desprezo pelos romanos, não observou mais qualquer ordem ou disciplina. A multidão de seus chefes tornou-se para eles uma causa de insubordinação; nas trincheiras não permanecia senão um pequeno número de soldados; os outros, atraídos pelas promessas da pilhagem e da presa de guerra, afastavam-se do acampamento, caminhando dias seguidos. Diz-se que nessas incursões, eles destruíram Panope; e que, sem terem recebido ordem de qualquer dos seus generais, saquearam Lebadia, pilhando seu templo e profanando o oráculo.

XXXVI. Sila apodera-se de uma posição vantajosa. Salva a cidade de Queronéia

XXXVI. Sila, que fremia de indignação ao ver tantas cidades serem destruídas e saqueadas, não quis que suas tropas permanecessem inativas. E, para dar-lhes ocupação, obrigou-as a desviar o curso do Cefiso, e a abrir extensas trincheiras. Não isentava ninguém do trabalho, encarregando-se ele próprio da fiscalização, e castigava com extrema severidade aqueles que esmoreciam, a fim de que os soldados, vencidos pela fadiga, preferissem a estes trabalhes penosos os perigos do combate, Este expediente deu bons resultados. Os soldados estavam no terceiro dia do estafante trabalho, quando, aproveitando-se da presença de S ila, que fora inspecionar as obras, pediram-lhe todos, em altos brados, que os conduzisse até o inimigo. Ele respondeu-lhes que esse pedido era motivado menos pelo desejo de combater do que pelo seu desamor ao trabalho. "Todavia, se é verdade que estais com tanta vontade de combater, dirigivos com todas as vossas armas àquele lugar", E mostrou-lhes o sítio onde outrora se erguia a cidadela dos parapotamianos933, que, depois de haver sido arruinada a cidade, não era senão uma colina escarpada, cheia de rochedos, separada do monte Edilião pelo rio Asso, Este rio, logo ao sopé da montanha, lança-se no Cefiso, cujas águas, tornando-se mais rápidas, tornavam o local muito seguro e apropriado para um acampamento. Sila, que viu os soldados inimigos portadores de escudos de cobre se porem em movimento para ocupar aquele lugar, quis evitar tal coisa e procurou dele apoderar-se antes, o que conseguiu graças ao ardor e à dedicação de suas tropas. Arquelau, após o seu malogro, marchou contra Queronéia. Alguns moradores dessa cidade, que serviam no exército de Sila, tinham-lhe pedido que não a abandonasse, e ele para ali enviou um de seus oficiais, Gabínio, com uma legião. Em companhia deste fez seguir os moradores de Queronéia, os quais, embora fosse grande o seu desejo de chegar antes de Gabínio, não conseguiram passar-lhe à frente. Com efeito, o oficial demonstrou, para salvar a cidade, maior ardor e zelo do que aqueles que tanto ansiavam por serem salvos. Juba chama esse oficial de Hírcio, e não Gabínio, Seja como for, foi deste modo que a nossa cidade foi preservada de tão grande perigo.

XXXVII. Presságios que lhe anunciam êxitos

XXXVII. Entrementes, os romanos recebiam diariamente de Lebadia e da caverna de Trofônio notícias favoráveis, bem como oráculos e profecias anunciando-lhes a vitória. Os moradores do lugar narram ainda hoje muitas dessas predições. Todavia, Sila, no Livro X de seus Comentários, diz somente que, após ter ganho a batalha de Queronéia, Quinto Tito, um dos comerciantes mais importantes da Grécia, procurou-o e anunciou-lhe que Trofônio lhe predissera dentro de poucos dias, e no mesmo lugar, uma segunda batalha e uma segunda vitória. Acrescenta que um soldado legionário, chamado Salvênio, procurou-o igualmente para anunciar-lhe, da parte dos deuses, o êxito que teriam as suas ações na Itália. Ambos asseguravam que não repetiam senão aquilo que tinham ouvido de fonte divina, acrescentando que haviam visto uma figura, que pela sua majestade, tamanho e beleza, parecia-se com Júpiter Olímpico.

XXXVIII. Desaloja o inimigo da montanha de Túrio e alcança completa vitória

XXXVIII. Sila, deste modo, depois de atra vessar o rio Asso, avançou até o monte Edílio, e acampou perto de Arquelau, que tinha estabelecido e fortificado seu acampamento entre essa montanha e a de Acôncio, perto da cidade dos assianos. O lugar onde acampou tem hoje o nome de Arquelau. Sila ali permaneceu um dia inteiro; em seguida, deixando no acampamento Murena, com uma legião e duas cortes, para perseguir o inimigo, em cujas fileiras remava a desordem, foi oferecer um sacrifício às margens do Cefiso, de onde seguiu depois para Queronéia, para pôr-se à frente das tropas que ali havia deixado, e, ao mesmo tempo para proceder a um reconhecimento num lugar denominado Túrio, que tinha sido ocupado anteriormente pelo inimigo. Tratava-se do alto de uma montanha muito escarpada, e que terminava em ponta, como uma pinha. Damos-lhe o nome de Ortópago. Ao sopé da montanha corria um riacho denominado Mórío934, à margem do qual fica o templo de Apoio Turiano, cognome que este deus recebeu de Turo, mãe de Queronte, o fundador de Queronéia. Dizem que a novilha dada por Apoio Pítico a Cadmo apresentou-se a ele nesse lugar, o qual recebeu o nome de Túrio, pois os fenícios dão à novilha o nome de Thor.

XXXIX. Sila aproximava-se de Queronéia quando o oficial que enviara para defender essa cidade veio ao seu encontro, à frente das tropas, tendo na mão uma coroa de louro. Sila recebeu-a, e dirigiu depois uma saudação aos soldados, exortando-os a se mostrarem corajosos no perigo a que se iam expor. Enquanto falava, dois moradores de Queronéia, chamados Homolcico e Anaxidamo, dirigiram-se a ele e ofereceram-se para expulsar o inimigo de Túrio, para o que necessitavam de apenas um pequeno número de soldados; disseram que havia um caminho não conhecido dos bárbaros, o qual, de um lugar denominado Petroco, levava, ao longo do templo das Musas, ao cume do Túrio, num ponte situado acima da posição ocupada pelo adversário; acrescentaram que dali seria fácil atacá-lo com pedras, ou então forçá-lo a descer para a planície. Tendo Gabínio testemunhado a fidelidade e a coragem destes dois homens, Sila disse-lhes que executassem o seu plano; e, ao mesmo tempo, dispôs sua infantaria em ordem de batalha, colocou a cavalaria nas duas alas, conservando a direita para si e confiando a esquerda a Murena, Galba e Hortênsio, seus lugar-tenentes, colados na última fileira, com seu corpo de reserva, ocuparam as alturas, a fim de impedir que o inimigo tentasse, pela retaguarda, envolver os romanos. Com efeito, ele já começava a desdobrar a sua cavalaria e suas forças ligeiras, nas alas, para recuar em seguida, e poder, dando uma grande volta, cercar os oponentes.

XL. Enquanto esse movimento era executado, os deis moradores de Queronéia, a quem Sila tinha dado como comandante Hírcio935, atingiram o cimo do Túrio sem serem vistos pelo inimigo. Surgindo subitamente nas alturas, provocaram tal pânico entre os bárbaros, que estes não pensaram em outra coisa senão em fugir, matando-se em grande número uns aos outros. Não ousando parar para enfrent ar o adversário, e precipitando-se pela montanha abaixo, caíam sobre as próprias lanças. Chocando-se uns contra os outros, e com o inimigo em seus calcanhares, eram facilmente atingidos pelos golpes contra eles desferidos pela retaguarda. Três mil bárbaros morreram no cimo do Túrio. Dos que escaparam a essa primeira matança, uns foram ter ao lugar onde se achavam as tropas de Murena, dispostas em ordem de batalha, sendo dizimados; outros correram para seu acampamento, e, atirandose, no meio de grande confusão, contra sua própria infantaria, provocaram espanto e medo em suas fileiras, fazendo com que seus generais perdessem um tempo considerável, o que constituiu um dos principais motivos de seu revés; pois Sila, marchando logo contra eles, no meio da desordem em que estavam, e transpondo com rapidez o intervalo que separava os dois exércitos, anulou toda a eficiência dos carros armados de lâminas. Estes necessitam, com efeito, para desenvolver toda a sua força, de um espaço para correr e adquirir assim todo o seu ímpeto e violência; quando não dispõem senão de um curto trecho para a arremetida, perdem a capacidade de ação, à semelhança das flechas fracamente lançadas. Foi o que aconteceu nessa ocasião com os bárbaros; os seus primeiros carros partiram com tal frouxidão e sua ação foi tão fraca, que os romanos não encontraram nenhuma dificuldade em repeli-los; e, no meio de grandes gargalhadas, pediram, como em Roma nos jogos do circo, que mandassem outros.XLI. Os dois corpos de infantaria passaram depois ao ataque. Os bárbaros, baixando as longas lanças, cerraram as fileiras e os escudos, em ordem dê batalha; mas os romanos, pondo de lado os seus dardos e tomando as espadas, afastaram as lanças do inimigo, a fim de enfrentálo corpo a corpo. Esta audácia foi-lhes inspirada pela cólera que os dominou quando viram nas primeiras fileiras do adversário quinze mil escravos que os generais de Mitrídates tinham libertado, por decreto público, nas cidades da Grécia, e haviam distribuído pela infantaria pesadamente armada. Isto levou um centurião romano a dizer que somente nas Saturnais tinha visto escravos gozarem do direito de agir e falar como as pessoas livres. Entretanto, os seus batalhões eram tão profundos e suas fileiras tão cerradas, que suportaram com galhardia o choque da infantaria romana, resistindo durante muito mais tempo do que se podia esperar de gente dessa categoria. Foi necessário fazer avançar a segunda linha, que fez cair sobre eles uma chuva tão forte de pedras e flechas, que se puseram em fuga.

XLII. E tendo Arquelau começado a desdobrar a sua ala direita para envolver os romanos, Hortênsio ordenou às suas coortes que arremetessem sobre ele, atacando-o pelo flanco. Arquelau, percebendo este movimento, ordenou a dois mil de seus cavaleiros que mudassem de direção. Hortênsio, vendo-se na iminência de ser alcançado por essa cavalaria numerosa, recuou lentamente na direção da montanha. No entanto, tendo se distanciado demais de seu corpo de batalha, estava para ser envolvido pelo inimigo, quando Sila, informado do perigo que ele corria, deixou a ala direita, que não tinha ainda combatido, e correu em seu socorro. Pela poeira que ergueu em sua corrida, Arquelau conjeturou aquilo que se passava, e, deixando Hortênsio no lugar onde se achava, dirigiu-se ao ponto do campo de batalha que Sila acabava de deixar, esperando poder surpreender a ala direita sem o seu chefe. Nesse mesmo momento, Táxiles ordenou aos seus soldados portadores de escudos de cobre que marchassem contra Murena; os soldados de ambos os lados soltaram gritos prolongados que ecoaram pelas montanhas das proximidades. Sila hesita, e não sabe para que lado dirigir-se. Resolve, finalmente, retornar ao seu posto, e enviou Hortênsio com quatro de suas cortes em socorro de Murena; põe-se à frente da quinta e corre para a ala direita, que já combatia contra Arquelau, sem levar desvantagem. Logo que ali apareceu, os soldados redobraram seus esforços; e, forçando as fileiras inimigas, obrigaram-nas a bater em retirada. Perseguiram-nas em seguida até o rio e à montanha de Acôncio.

XLIII. Exibe os troféus e manda celebrar jogos

XLIII. Sila, entretanto, não se esqueceu do perigo por que passava Murena, e correu em seu socorro; mas, verificando que ele também havia derrotado o inimigo, pôs-se com ele a perseguir os fugitivos. Verificou-se, então, na planície, uma grande matança de bárbaros, e um grande número destes, ao tentar alcançar o seu acampamento, foi dizimado. E de tantos milhares de inimigos não escaparam senão dez mil, que fugiram celeremente para a cidade de Cálcide. Sila conta que em seu exército apenas se deu pela falta de quatorze homens, dois dos quais, aliás, regressaram à noite ao acampamento. Nos troféus que expôs por motivo dessa vitória, ele mandou gravar: A Marte, à Vitória e a Vênus, como querendo significar que seus êxitos não eram apenas obra da fortuna, mas também de sua coragem e de sua capacidade na arte militar. O primeiro troféu que exibiu, por motivo do combate de que saiu vitorioso na planície, foi colocado no próprio lugar de onde Arquelau começara a fugir, indo ter até o regato denominado Molo. O segundo foi exposto sobre o cimo do Túrio, onde os bárbaros haviam sido surpreendidos pela retaguarda; e a inscrição, gravada em letras gregas, atribuía o êxito ao valor de Homoloico e de Anaxidamo. Para celebrar estas vitórias, Sila promoveu competições musicais na cidade de Tebas, perto da fonte de Édipo, onde foi construído um palanque para os músicos. Mandou vir de outras cidades gregas juízes para a distribuição de prêmios, e isto porque passou a odiar mortalmente os tebanos. Este ódio levou-o a privá-los da metade de suas terras, as quais dedicou a Apoio Pítio e a Júpiter Olímpico; ordenou que, com a renda destas terras, fosse restituído aos templos daqueles deuses o dinheiro que deles havia retirado.

XLIV. Dorilau, general de Mitrídates, ataca-o na Tessália

XLIV. Logo após a celebração dos jogos, chegou-lhe a notícia de que Flaco, pertencente à facção contrária à sua, fora eleito cônsul, e que ele atravessava o mar Jônio, aparentemente para ir combater Mitrídates, mas na realidade para atacá-lo. Tomou, então, sem perda de tempo, o caminho da Tessália, indo ao seu encontro; mas quando chegou à cidade de Melitéia, recebeu de todos os lados a notícia de que um outro exército de Mitrídates, tão poderoso quanto o primeiro, estava saqueando e devastando toda a região que deixara à sua retaguarda. Com efeito, Dorilau, um dos lugar-tenentes de Mitrídates, chegara a Cálcide com uma grande esquadra, que transportara oitenta mil homens, todos muito bem equipados, escolhidos entre os mais aguerridos e disciplinados do exército do rei. De lá passara para a Beócia, da qual se apoderara, e demonstrava vivo desejo de atrair Sila a uma batalha.

Arquelau procurou em vão fazer com que desistisse de tal propósito; Dorilau não quis ouvir seus argumentos, e fez mesmo circular rumores segundo’ os quais tantos milhares de combatentes não podiam ter sido derrotados na primeira batalha sem traição. Sila voltou imediatamente e convenceu Dorilau, sem que para isso fosse necessário muito tempo, de que Arquelau. era um homem prudente e que conhecia através de. sua experiência o valor dos romanos. O general após ter tentado algumas ligeiras escaramuças, verificadas num lugar situado perto do monte Tiífósio, foi o primeiro a dizer que não convinha arriscar uma batalha, e que era prefer ível fazer a guerra durar e minar o poderio dos romanos através das grandes despesas que seriam estes obrigados a fazer.

XLV. Descrição do rio Mélane

XLV. Entretanto, a planície de Orcomene, onde estavam acampados, e que era tão favorável a um exército com superioridade no que se refere à cavalaria, fez com que Arquelau retomasse coragem. Com efeito, de todas as planícies da Beócia, a maior e a mais bela é a que está junto à cidade de Orcomene. É aber ta, sem árvores, e estende-se até os pântanos onde vai ter o rio Meias, o qual, nascendo perto das muralhas de Orcomene, é, de todos os rios da Grécia, o único que é navegável no início de seu curso. Como o Nilo, adquire maior volume durante o solstício do verão, e produz plantas semelhantes às que crescem às margens do rio egípcio, mas com uma diferença: as do Meias não se elevam a uma grande altura e não dão frutos. Seu curso não é longo; a maior parte de suas águas se lança logo em pântanos cobertos de sarças espessas, e o restante se mistura com o Cefiso, no ponto onde crescem, junto àqueles pântanos, os caniços apropriados para se fazerem flautas.

XLVI. Nova vitória alcançada por Sila

XLVI. Quando os dois exércitos acamparam bem perto um do outro, Arquelau permaneceu tranquilo, em sua posição, sem tomar qualquer iniciativa; e Sila mandou cavar trincheiras em vários pontos da planície, a fim de privar o inimigo da vantagem que lhe proporcionava a extensão do terreno, cuja firmeza era muito favorável aos movimentos da cavalaria, e poder, assim, repeli-lo para o lado do pântano. Os bárbaros, indignados ante tais atividades, atacaram com grande furor, logo que seus capitães lhes deram permissão para avançar, e afugentaram não somente os trabalhadores ocupados em cavar as trincheiras de Sila, mas também a maior parte das tropas que os protegiam, as quais se puseram igualmente em fuga.

Sila, vendo o que ocorria, desceu imediatamente de seu cavalo, tomou uma insígnia, e lançouse através dos fugitivos, até estabelecer contacto com o inimigo, gritando-lhes: "Romanos, minha honra ordena-me que morra aqui; quanto a vós, quando vos perguntarem onde abandonastes o vosso general, não vos esqueceis de dizer que foi em Orcomene", Estas palavras puseram os soldados em brios, contendo-os em sua fuga; e, com duas coortes da ala direita enviadas em seu socorro, Sila, as sumindo o comando, obrigou o inimigo a fugir, Depois de fazer seus soldados recuarem um pouco, a fim de tomarem alimento, ele empregouos de novo na abertura de trincheiras, para cercar o acampamento do adversário, que voltou uma vez mais, e desta vez em melhor ordem. Foi neste ataque que Diógenes, filho da mulher de Arquelau, combatendo na ala direita com grande bravura, encontrou a morte. Os arqueiros inimigos, vivamente atacados pelos romanos, não dispondo de espaço bastante para fazer uso de seus arcos, empunhavam as flechas como se fossem espadas, e com elas golpeavam os atacantes. Foram repelidos, finalmente, até suas fortificações, onde passaram uma noite cruel, não somente devido ao grande número de mortos, em suas fileiras, como ao grande número de feridos. No dia seguinte, Sila, levando de novo seus comandados para as proximidades do acampamento do inimigo, continuou a abrir trincheiras. Os bárbaros apareceram ainda mais numerosos para atacar os trabalhadores; mas Sila investiu contra eles com tão grande violência que os pôs em fuga. O seu pavor comunicou-se aos combatentes que se achavam no acampamento, e ninguém ousou nele permanecer a fim de defendê-lo. Sila apoderou-se, então, do acampamento, sem maiores dificuldades. Houve ali uma matança tão grande que o pântano ficou tinto de sangue, e o lago cheio de mortos. Ainda hoje, mais de duzentos anos depois desta batalha, encontram-se com frequência arcos dos bárbaros, capacetes, peças de couraça, espadas e outras armas enterradas na lama. Essa a descrição que os historiadores fazem dos acontecimentos que se desenrolaram perto das cidades de Queronéia e de Orcomene.

XLVII. Entrevista de Sila com Arquelau

XLVII. Entrementes, em Roma, Carbão e Cina tratavam com tanta injustiça e crueldade as pessoas de maior consideração, que grande número delas, para escapar à sua tirania, procurou asilo no acampamento de Sila, como num porto seguro; e disso resultou que, em pouco tempo, ele teve em sua volta uma espécie de Senado, Metela, sua mulher, tendo conseguido escapar ao furor de Carbão e Cina juntamente com seus filhos, contou-lhe que sua casa na cidade e seus bens, no campo, tinham sido incendiados pelos inimigos, e conjurou-o a ir socorrer aqueles que tinham ficado em Roma. Estas notícias lançaram Sila numa grande perplexidade. Ele não podia conformar-se com a ideia de permitir que sua pátria fosse flagelada por tantos males. Entretanto, como partir sem ter concluído uma empresa de tão grande importância como a guerra contra Mitrídates? Ele ainda era presa desta indecisão, quando um negociante de Délio936, chamado Arquelau, foi secretamente procurá-lo, em nome do general de Mitrídates, Arquelau, sendo portador de algumas esperanças de paz. Tal foi a sua satisfação que se apressou em ir pessoalmente ao encontro do general. A entrevista realizou-se à beira-mar, perto de Délio, no lugar onde se ergue um templo de Apoio. Arquelau foi o primeiro a falar, e propôs ao general romano que abandonasse a Ásia e o Reino do Ponto e que fosse para Roma, a fim de pôr termo à guerra civil. Para isso ofereceu-lhe, da parte do príncipe, todo o dinheiro, navios e tropas de que necessitasse. Sila, tomando a palavra, aconselhou-o a deixar Mitrídades e arrebatar-lhe o trono, para tornar-se depois aliado dos romanos, concitando-o ainda a entregar-lhe toda a sua esquadra. Arquelau repeliu com horror tal traição. Sila replicou-lhe deste modo: "Pois então, Arquelau, tu que és capadócio, e o servidor., ou, se o preferes, amigo de um rei bárbaro, não podes suportar que eu te faça uma proposta vergonhosa, mas acompanhada de todos os bens que te ofereço! No entanto, a mim, que sou general dos romanos, a mim, Sila, ousas propor uma traição! Como se não fosse aquele Arquelau que fugiu de Queronéia com um punhado de soldados, remanescente de cento e vinte mil combatentes, que para ali havias levado; aquele Arquelau que esteve escondido durante dois dias nos pântanos de Orcomene, deixando a Beócia juncada de tão grande número de mortos, que por ela quase não se podia passar"!

XLVIII. Sila faz as pazes com Arquelau

XLVIII. Diante de tal réplica, Arquelau mudou de linguagem; e, humilhando-se perante Sila, suplicou-lhe que pusesse termo à guerra, e celebrasse a paz com Mitrídates. Sila, contente com sua submissão, declarou-lhe que consentiria em celebrar a paz, mediante as seguintes condições: Mitrídates deveria renunciar à Ásia Menor e à Paflagônia; restituir a Bitínia a Nicomedes e a Capadócia a Ariobarzane; pagar aos romanos dois mil talentos, e entregar-lhes setenta galeras inteiramente equipadas. De seu lado, Sila garantiria a Mitrídates a posse de seus outros Estados, e assegurar-lhe-ia o título de aliado do povo romano. Especificadas as condições, Sila retirou-se e seguiu para o Helesponto, pela Tessália e a Macedônia; levou em sua companhia Arquelau, a quem tratou com muita distinção. Tendo este general adoecido em Larissa, Sila ali permaneceu, e teve para com ele os mesmos cuidados que teria para com um de seus lugar-tenentes ou colegas. Estas atenções fizeram com que se alimentassem suspeitas em relação à batalha de Queronéia, dizendo-se que ela não havia sido ganha lisamente; esta suspeita foi fortalecida pelo fato de, após ter entregue todos os prisioneiros amigos e servidores de Mitrídates, mandar envenenar o tirano Aristão, por ser inimigo de Arquelau, Mas nada a confirmou tanto como o donativo que Sila fez a este capadócio, de dez mil pletros937 de terra na Eubéi a, e o título que lhe conferiu de amigo e aliado do povo romano. Sila, no entanto, justifica-se, em seus Comentários, destas imputações.

XLIX. Os embaixadores de Mitrídates recusam as condições ditadas por Sila

XLIX. Entrementes, dirigiram-se a Larissa embaixadores de Mitrídates, os quais declararam que seu senhor aceitava todas as condições do tratado, exceto a referente à Paflagônia, a qual desejava continuasse em seu poder, dizendo ainda que não podia consentir na entrega das galeras exigidas por Sila. "Que dizeis? respondeu-lhes Sila em tom colérico; Mitrídates quer conservar a Paflagônia e recusa-se a entregar os navios; ele, que deveria estar a meus pés para agradecer-me o ter-lhe conservado a mão direita com que fez perecerem tantos romanos! A sua linguagem, sem dúvida, mudará quando eu passar para a Ásia. Por enquanto, no seu repouso de Pérgamo, ele pode falar à vontade sobre o desenrolar de uma guerra que nem mesmo chegou a ver". Os embaixadores, amedrontados, não ousaram replicar; e Arguelau, tomando a mão de Sila e molhando-a com suas lágrimas, procurou serenar-lhe a cólera. E persuadiu-o, finalmente, a enviá-lo junto a Mitrídates, assegurando-lhe que o faria ratificar a paz, mediante as condições propostas; caso não o conseguisse, acrescentou, matar-seia pelas próprias mãos.

L. Encontro de Sila e Mitrídates

L. Diante dessa promessa, Sila consentiu em que ele partisse. Enquanto esperava pelo seu regresso, penetrou com suas forças na Médica938, e, após pilhar o país, voltou à Macedônia, onde Arquelau, indo ao seu encontro, com ele se avistou na cidade de Fílipos, anunciando-lhe que tudo ia bem. Acrescentou, contudo, que Mitrídates insistia em ter uma entrevista com ele. O que o fazia desejar com tal urgência essa entrevista era a aproximação de Fímbria que, depois de haver morto o cônsul Flaco, um dos chefes da facção contrária a Sila, e derrotado alguns dos generais do Ponto, avançava contra o próprio rei, que, temendo este novo ataque, preferiu ligar-se ao general romano. Eles se encontraram em Dardânia, na região de Troada. Mitrídates levou consigo duzentos navios, vinte mil infantes, seis mil cavaleiros e um grande número de carros armados de lâminas. Sila levou apenas quatro coortes e duzentos cavaleiros.

LI. A paz é ratificada entre eles

LI. Mitrídates encaminhou-se na direção de Sila, e estendeu-lhe a mão; mas Sila, antes de tudo, perguntou-lhe se ele concordava em terminar a guerra mediante as condições negociadas por Arquelau. O rei permaneceu em silêncio. "Mitrídates, acrescentou Sila, ignora que aqueles que têm pedidos a enunciar devem falar em primeiro lugar, e que os vencedores não têm outra coisa a fazer senão ouvir em silêncio?" Mitrídates, então iniciou uma longa justificação de seus atos, e procurou atribuir as causas da guerra em parte aos deuses, em parte aos romanos. Todavia, Sila, interrompendo-o, disse: "Já tinha ouvido falar que Mitrídates era um príncipe muito eloquente, e o verifico agora, pessoalmente, ao ver com que facilidade ele disfarça, com palavras especiosas, os atos mais cruéis e injustos". Em seguida, censurou com acrimônia todas as suas perfídias, e, forçando-o a concordar com tais censuras, perguntou-lhe de novo se aceitava as condições negociadas por Arquelau. Mitrídates respondeu que as ratificava e, Sila, então, respondeu ao seu cumprimento, abraçando-o e beijando-o. Logo depois, mandou chamar os reis Nicomedes e Ariobarzane, reconciliando-se com ele939. Mitrídates, após entregar as setenta galeras, com os quinhentos homens de tração, velejou para o Ponto. Sila percebeu que seus soldados não haviam ficado satisfeitos com esta paz e que não viam, sem indignação, um rei, o mais mortal inimigo de Roma, o qual, num só dia, tinha feito degolar cento e cinquenta mil romanos940, em diversos pontos da Ásia, retornar tranquilamente a seus Estados, com todas as riquezas e despojos da região que havia pilhado e sobrecarregado com tributos durante quatro longos anos. Mas ele se justificava junto a seus soldados, dizendo-lhes que, se Fímbria e Mitrídates se tivessem unido contra ele, não teria podido opor-lhes resistência.

LII. Sila arruina a Ásia Menor

LII. Do local da entrevista Sila marchou contra Fímbria, que estava acampado junto às muralhas de Tiatira941. Estabeleceu seu acampamento nas imediações, e mandou que se cavassem trincheiras. Os soldados de Fímbria, vendo os de Sila, saem de seu campo, vestidos apenas de túnica, e vão abraçá-los e ajudá-los com ardor em seu trabalho. Fímbria, vendo a mutação que se operara no ânimo de seus comandados, e não esperando nenhuma transigência ou mercê da parte de Sila, matou-se em seu acampamento. Sila impôs sobre toda a Ásia uma contribuição comum de vinte mil talentos; e, além disso, mortificou os particulares, entregando suas casas à insolência dos soldados, que nelas viviam à vontade. Ordenou que cada particular pagasse, por dia, aos seus hóspedes, quatro tetradracmas, e fornecessem ainda uma ceia para os soldados e os amigos que o acompanhassem. Determinou igualmente o pagamento, a cada oficial, de cinquenta dracmas, por dia, alé m do fornecimento de um traje de usar em casa e outro de sair.

LIII. Apropria-se em Atenas das obras de Aristóteles e de Teofrasto

LIII. Tomadas essas medidas, Síla partiu da cidade de Éfeso com toda a sua esquadra, chegando três dias. depois ao porto de Pireu, onde, após iniciar-se nos Mistérios, apossou-se da biblioteca de Apelicão de Téios, na qual figuravam a maior parte das obras de Aristóteles e de Teofrasto, que não eram ainda muito divulgadas. Afirma-se que, tendo sido levada para Roma essa biblioteca, o gramático Tiranião arranjou meios de subtrair grande parte das obras, e que Andrônico de Rodes, a quem ele cientificou da existência dos manuscritos, publicou-os, acrescentando-lhes os sumários que neles vemos agora. Os antigos discípulos do Liceu, gente de espírito e de saber, conheciam muito pouco os tratados de Aristóteles e de Teofrasto; e as cópias então existentes não eram corretas, e isto porque a herança de Neleu de Cépsio, a quem Teofrasto deixara por testamento todas as suas obras, foi ter às mãos de ignorantes, que delas não fizeram nenhum caso.

LIV. É atacado de gota

LIV. Sila, durante a sua estada em Atenas, foi acometido de uma dor nos pés, acompanhada de uma sensação de peso e entorpecimento, o que Estrabão disse ser o balbuciar da gota, ou seja, a sua primeira manifestação. Ele se fez transportar por mar para Edepsa, a fim de tomar banhos quentes. Passou ali dias inteiros na companhia de atores e músicos. Um dia em que passeava à beira-mar, pescadores ofereceram-lhe belos peixes. Satisfeito com o presente, perguntou-lhes de onde eram. "Da cidade de Ales", responderam. "Que me dizeis, exclamou Sila, ainda resta gente de Ales?" É que, após a vitória de Orcomene, ao perseguir o inimigo, ele havia destruído três cidades da Beócia: Ante-dão, Larimna e Ales. Os pescadores, atemorizados, permaneceram calados. Sila, todavia, disse-lhes, sorrindo, que nada receassem, e que se fossem sem qualquer preocupação. "Trouxestes, acrescentou, intercessores poderosos, que não merecem ser desprezados".

LV. Sátiro encontrado junto de Apolônio

LV. Após ouvirem estas palavras, os moradores de Ales recuperaram a coragem e voltaram para a sua cidade. E Sila, depois de atravessar a Macedônia e a Tessália, desceu para o mar a fim de embarcar em Dirráquio942, e seguir de lá para Brundúsio, com uma esquadra de mil e duzentas velas. Perto de Dirráquio fica a cidade de Apolônia, em cujas redondezas existe um lugar sagrado chamado Ninféia943, onde, do meio de um vale coberto por belas campinas, brotam fontes de fogo, que jorram continuamente. Foi ali, conta-se, que um sátiro adormecido foi surpreendido, tal como os pintores e os escultores o representam. Foi conduzido à presença de Sila e interrogado’ por diversos intérpretes, que lhe perguntaram o nome; mas ele nada respondeu de articulado ou inteligível; sua voz não era senão um grito rude e selvagem, um misto do relinchar do cavalo e do berrar do bode. Sila, tomado de pavor, ordenou que o afastassem de sua presença, como se tratasse de uma coisa monstruosa.

LVI. Presságios favoráveis a Sila. Derrota o cônsul Norbano

LVI. Quando Sila estava para embarcar suas tropas, a fim de atravessar o mar, pareceu recear que os soldados, uma vez chegados à Itália, desejassem debandar e retirar-se cada um para a sua cidade; mas todos os combatentes lhe juraram, espontaneamente, que permaneceriam nas fileiras, e que não praticariam qualquer violência em seu país. Em seguida, sabendo que Sila necessitava de muito dinheiro, eles contribuíram", cada qual de acordo com suas possibilidades, e levaram-lhe a soma assim reunida. Sila não quis receber tal contribuição; e, depois de louvar a boa vontade dos soldados, e de encorajá-los, atravessou o mar, para marchar contra quinze chefes de facções, todos seus inimigos, e que tinham sob suas ordens quatrocentos e cinquenta coortes, como contou em seus Comentários. Mas os deuses lhe proporcionaram os presságios mais seguros do êxito que lhe destinavam. Após chegar a Tarento, ele fez um sacrifício, no qual o fígado da vítima pareceu ter a forma de uma coroa de louros, da qual pendiam duas bandeirolas. Pouco antes de seu embarque, foram vistos, em pleno dia, perto do monte Efeão, na Campânia, dois bodes enormes, em luta, fazendo os mesmos movimentos que fazem dois homens que combatem; mas não era coisa real, e sim uma visão que, erguendo-se, aos poucos, da terra, ganhou altura, e, como os espectros tenebrosos, que, às vezes, aparecem, desfez-se no ar, desaparecendo. Pouco tempo depois, o jovem Mário e o cônsul Norbano conduziram até esse mesmo local dois poderosos exércitos; e Sila, sem dispor de tempo para colocar suas tropas em ordem de batalha e designar-lhes as posições, e valendo-se apenas do ardor e da audácia de seus soldados, derrotou aqueles dois generais, pondo-os em fuga; e depois de matar seis mil homens de Norbano, obrigou-o a refugiar-se na cidade de Cápua.

LVII. Um escravo prediz-lhe êxito na guerra

LVII. Esta vitória, segundo ele próprio disse, impediu que seus soldados se dispersassem e se retirassem para suas cidades, inspirando-lhes, ao mesmo tempo, o maior desprezo pelas forças inimigas, que lhes eram, no entanto, muito superiores em número. Sila conta ainda que na cidade de Sílvio, o escravo de um cidadão chamado Pôncio, tomado de um furor profético e divino, dirigiu-se a ele e assegurou-lhe que vinha da parte da deusa Belona anunciar-lhe a vitória; acrescentou, entretanto, que se ele não se apressasse o Capitólio séria incendiado. E isto aconteceu, com efeito, no mesmo dia em que o homem o predissera, isto é, no dia seis do mês denominado então Quintilis, e que passou a ser chamado depois julho.

LVIII. Lúculo, capitão de Sila, derrota um exército muito superior ao seu, em número

LVIII. Marco Lúculo, um dos lugar-tenentes de Sila, acampado perto de Fidência944 com dezesseis divisões, tinha de enfrentar cinquenta, do inimigo. Ele confiava na boa vontade de seus soldados; mas como a maior parte destes não’ possuía armadura completa, hesitava em travar a batalha. E enquanto pesava os prós e os contras, sem ousar tomar uma resolução, soprou subitamente um vento suave que, arrastando de uma campina vizinha uma grande quantidade de flores, levou-as até o lugar onde se achavam suas tropas; parecia que elas iam sozinhas colocar-se sobre os escudos e os capacetes dos soldados, de maneira que estes pareciam, aos olhos do exército inimigo, estar coroados de flores. Encorajados por esta espécie de prodígio, caíram sobre o adversário com tal energia que alcançaram completa vitória, matando-lhe mais de dezoito mil homens e apoderando-se de seu acampamento. Este Lúculo era irmão do outro Lúculo que, algum tempo depois, venceu Mitrídates e Tigranes.

Sila, que se via cercado por vários acampamentos e exércitos numerosos, sentindo-se em situação de inferioridade, recorreu à astúcia, e mandou fazer a Cipião, um dos cônsules, propostas de entendimento. Cipião não recusou o convite, e teve com ele várias conferências; mas Sila encontrava sempre um pretexto para alongar as conversações; e, enquanto isso, procurava corromper as tropas do cônsul por intermédio de seus próprios soldados, que, como seu general, estavam acostumados a todas as espécies de ardis e estratagemas. Eles penetraram no acampamento do inimigo, misturaram-se com os combatentes, conquistando uns por meio de dinheiro, outros por meio de promessas e outros ainda por meio de lisonjas. Finalmente, Sila, tendo se aproximado do acampamento do adversário, com vinte coortes, os seus soldados saudaram os de Cipião, que lhes responderam à saudação, e se juntaram a eles. Cipião, que permaneceu sozinho em sua tenda, foi detido; porém, pouco depois, deixaram-no partir. Sila, que se servira destas vinte coortes para atrair quarenta em suas redes, como os passarinheiros fazem cair os pássaros em suas armadilhas, por meio de aves domesticadas, levou-as todas para seu acampamento. Este acontecimento levou Carbão a dizer que, tendo de combater ao mesmo tempo o leão e a raposa que moravam na alma de Sila, fora a raposa que lhe dera mais trabalho.

LIX. Sila trava batalha com o jovem Mário

LIX. Pouco tempo depois, o jovem Mário, acampado perto de Sígnio945, com vinte e cinco coortes, ofereceu batalha a Sila, que estava desejoso de combater nesse dia, e isto porque havia tido um sonho na noite anterior. Vira, sonhando, o velho Mário, morto já havia alguns anos, dirigir-se ao filho, para adverti-lo, dizendo-lhe que tivesse cuidado com o dia seguinte, que lhe deveria ser fatal. Ardendo de impaciência, tal o desejo de travar o combate, mandou chamar Dolabela, que estava acampado muito longe dele. Mas o inimigo apoderou-se das estradas, que guarneceu com cuidado, com o objetivo de impedir a junção das duas forças. As tropas de Sila procuraram desalojá-lo, a fim de abrir caminho para seus camaradas. Os soldados já estavam fatigados, tal o esforço que tiveram de desenvolver, quando caiu uma forte chuva que lhes retirou o que restava de disposição para a luta. Os oficiais, vendo-os nesse estado, foram procurar Sila, e, mostrando-lhe os homens vencidos pelo cansaço e deitados no chão sobre seus escudos, pediram-lhe que adiasse a batalha. Sila assentiu, embora com pesar.

LX. Alcança a vitória

LX. Após ter Sila dado ordem para acampar, e quando os soldados já se achavam entregues ao trabalho de erguer paliçadas e abrir trincheiras, Mário surge a cavalo, marchando com arrogância diante de toda a tropa, na esperança de surpreender o inimigo em desordem e de assim poder derrotá-lo facilmente. Mas neste momento a fortuna veio confirmar o sonho de Sila, Seus soldados, irritados com a bravata de Mário, e interrompendo o seu trabalho, fincaram as lanças junto às trincheiras e, tomando as espadas, avançaram no meio de grandes gritos contra o adversário, o qual, após ligeira resistência, bateu em retirada, seguindo-se uma grande carnificina. Mário fugiu para a cidade de Preneste, cujas portas encontrou fechadas; mas atiraram-lhe uma corda do alto da muralha, a qual atou na cintura, sendo assim içado. Alguns historiadores, entre os quais Fenestela, dizem que Mário não chegou a participar da batalha; dominado pelo cansaço e esgotado pelas noites sem dormir, deitara-se sob uma árvore, após ter ordenado o início do combate; e adormecera tão profundamente que só acordara com o fragor da derrota e da fuga dos seus soldados. Sila escreveu em seus Comentários que não perdeu nesse encontro senão vinte e três homens, e que matou vinte mil e aprisionou oito mil. Igualmente felizes foram seus lugar-tenentes Pompeu, Crasso, Metelo e Servílio, os quais, quase que sem perdas, dizimaram exércitos consideráveis do inimigo.Carbão, o principal chefe da facção adversária, fugiu à noite de seu acampamento, e velejou para a África.

LXI. Telesino ameaça ocupar Roma

LXI. O último chefe inimigo que Síla teve de enfrentar foi Telesino, o Sanita, que, corno um atleta repousado, que tivesse de lutar com um adversário cansado de muitos combates, acreditou poder subjugá-lo e derrotá-lo às portas de Roma, Este Telesino tinha se juntado a um lucano chamado Lampônio, e tinha reunido um exército bastante numeroso. Marchou sem perda de tempo na direção de Preneste a fim de libertar Mário, que ali estava cercado. Entretanto, informado de que Sila e Pompeu avançavam rapidamente, o primeiro para atacálo pela frente, e o segundo pela retaguarda; e vendo-se na iminência de ser cercado pelos dois exércitos inimigos, agiu como um grande capitão, a quem as situações difíceis tivessem proporcionado uma grande experiência: levantou acampamento durante a noite com todo o seu exército, e marchou diretamente sobre Roma, que estava sem defesa, e que teria podido conquistar no primeiro assalto. Todavia, a dez estádios da Porta Colina, ele se deteve, e passou a noite diante das muralhas da cidade, vangloriando-se de sua ousadia, e arquitetando grandes pianos, cheio de esperanças após ter ludibriado tantos e tão ilustres capitães.

LXII. Sila ataca-o

LXII. No dia seguinte, ao amanhecer, saíram de Roma, a cavalo, numerosos jovens das melhores casas da cidade, para dar-lhe combate. Vários deles foram mortos, entre os quais Ápio Cláudio, moço tão notável pela coragem como pelo nascimento. Estes acontecimentos fizeram com que o pavor e a inquietação reinassem em Roma; as mulheres corriam nas ruas soltando altos gritos e já se viam assediadas pelo inimigo. Finalmente, viram chegar Balbo, enviado por Sila, a toda velocidade, com setecentos cavaleiros. Ele não parará no caminho senão o tempo necessário para que os animais tomassem fôlego, retomando lego o galope, a fim de conter o adversário. Logo depois apareceu também Sila, que, depois de ordenar aos soldados chegados em primeiro lugar que tomassem uma refeição ligeira, lançou-os logo à batalha. Torquato e Dolabela exortaram-no a não se expor a um desastre, pois as tropas estavam extenuadas pelo cansaço; frisaram que ele não- tinha de enfrentar mais um Carbão ou um Mário, mas os sanitas e os lucanos, os dois povos mais belicosos e os mais encarniçados inimigos dos romanos, Sila não deu ouvidos a seus argumentos e ordenou que as trombetas dessem o sinal para o combate, apesar de já ser quase quatro horas da tarde.

Neste combate, um dos mais rudes que foram travados nesta guerra, a ala direita, comandada por Crasso, alcançou a mais completa vitória. Sila, vendo a ala esquerda em situação difícil e prestes a recuar, correu em seu socorro, montado num cavalo branco cheio de ardor e extremamente veloz. Dois dos adversários o reconheceram e estenderam os braços para lançar contra ele os seus dardos. Sila nada percebeu, mas seu escudeiro, que os vira, deu no cavalo uma forte chicotada, que apressou tão a propósito o galope do animal que os dardos passaram rente à sua cauda indo cravar-s e na terra. Conta-se que Sila tinha uma pequena imagem de ouro de Apoio, a qual havia trazido de Delfos, e que conservava sempre junto ao peito, quando combatia. Nessa ocasião, ele a beijou afetuosamente, dirigindo-lhe estas palavras: "Ó Apoio Pítico, depois de haverdes cumulado de honras e de glória o feliz Cornélio Sila, em tantos combates, dos quais o fizestes sair vitorioso, desejaríeis agora derrubá-lo, vergonhosamente, às portas de sua pátria, fazendo-o perecer com seus concidadãos?" Após invocar com estas palavras o auxílio de Apoio, Sila lançou-se no meio de seus soldados, dirigindo solicitações a uns e ameaçando outros, chegando mesmo a agarrar alguns, para arrastá-los ao combate. Mas não conseguiu evitar a completa derrota da ala esquerda; e ele próprio foi forçado a voltar ao acampamento pela multidão de fugitivos, depois de haver perdido vários de seus oficiais e amigos. Um grande número de romanos, que haviam saído da cidade para assistir ao combate, morreram esmagados sob os pés dos homens e cavalos. Já se supunha que Roma estivesse perdida, e por pouco aqueles que mantinham Mário assediado em Preneste não suspenderam o cerco. Com efeito, soldados que até ali foram ter, em sua fuga, insistiram junto a Lucrécio Ofela, que dirigia o assédio, para que se retirasse sem perda de tempo, e isto porque Sila, diziam eles, fora morto e Roma caíra em poder do inimigo.

LXIII. Reúne o Senado e manda degolar seis mil homens

LXIII. Entretanto, altas horas da noite, chegaram ao acampamento de Sila correios enviados por Crasso, pedindo-lhe uma ceia, para ele e seus soldados. Mandava-lhe dizer, ao mesmo tempo, que, depois de haver vencido o inimigo, perseguira-o até à cidade de Antena, perto da qual acampara. Sila, tendo sido igualmente informado de que a maior parte dos soldados inimigos perecera, partiu no dia seguinte, ao amanhecer, para Antena. No meio do caminho, recebeu emissários da parte de três mil adversários, os quais mandaram dizer-lhe que se rendiam, pedindo-lhe graça ao mesmo tempo. Sila prometeu que lhes pouparia a vida, mas com uma condição: a de causarem danos consideráveis aos seus companheiros, antes de virem ao seu encontro. Estes três mil homens, confiando na sua palavra, lançaram-se contra seus camaradas, matando-se, em grande número, uns aos outros. Sila, no entanto, após reunir o que restou destes três mil homens, e dos outros, até o total de seis mil, mandou encerrá-los no Hipódromo, e convocou o Senado no templo de Belona. Quando começou a falar aos senadores, soldados que haviam recebido anteriormente ordens suas, investiram contra os seis mil prisioneiros, massacrando-os. Os gritos de tantos infelizes não podiam deixar de ser ouvidos de longe, e os senadores não ocultaram o seu espanto, procurando saber de que se tratava, Sila, continuando a falar com o mesmo sangue frio e sem alterar a fisionomia, disse-lhes que prestassem atenção apenas no seu discurso e que não se preocupassem com o que se passava fora do recinto. E acrescentou que não se tratava senão de indivíduos maus que mandara punir.

LXIV. Reflexões sobre a modificação verificada nos costumes de Sila quando se tornou senhor da situação

LXIV. Estas palavras fizeram compreender aos mais estúpidos dos romanos que eles não se tinham libertado da tirania, e que não tinham senão trocado de tirano. Mário, no entanto, desde o começo se mostrara duro e cruel, e, com o tempo, a sua severidade natural apenas aumentara; o poder não alterara o fundo de seu caráter. Sila, ao contrário, fazendo uso de sua fortuna como cidadão moderado, deu lugar à opinião de que, caso viesse a exercer a autoridade soberana, favoreceria a nobreza, mas sem deixar de proteger o povo. E como tivesse sido, desde a sua juventude, amante dos divertimentos e dos gracejos, e se mostrasse sensível à piedade a ponto de derramar lágrimas com facilidade, levou os cidadãos, com suas crueldades, a dizer, censurando-as, que as grandes fortunas modificam os costumes e o caráter dos homens, tornando-os orgulhosos, insolentes e cruéis. Mas será uma mudança real a que a fortuna produz no caráter, ou não se tratará, antes, de um desenvolvimento que uma grande autoridade dá à maldade oculta no fundo do coração? É esta uma questão a ser examinada numa outra espécie de tratado.

LXV. Horríveis proscrições ordenadas por Sila

LXV. Desde o momento em que Sila começou a fazer correr sangue, não pôs mais limites à sua crueldade, e encheu a cidade de crimes que pareciam não ter mais fim. Um grande número de pessoas foi vítima de ódios particulares; Sila, que, pessoalmente, nenhuma queixa tinha contra essas pessoas, sacrificava-as para satisfazer os ressentimentos dos amigos e daqueles que o rodeavam. Até que um dia, um jovem romano, chamado Caio Metelo, ousou perguntar-lhe, em pleno Senado, quando seria posto termo a tantos males, e até que ponto pretendia levar suas crueldades, a fim de que se soubesse, pelo menos, que não se teria de recear novas. "Não vos pedimos, acrescentou, que salveis aqueles que já decidistes levar à noite, mas que tireis da incerteza aqueles que resolvestes poupar". E como Sila lhe respondesse que ainda não sabia quais as pessoas que seriam poupadas, Metelo replicou: "Pois bem: dizei, então, os nomes daqueles que decidistes sacrificar". E Sila: "É o que vou fazer". Alguns historiadores dizem que a última réplica não foi feita por Metelo, mas por um certo Aufídio, um dos aduladores de Sila. Este, incontinente, publicou os nomes de oitenta cidadãos que resolvera condenar a morte sem entender-se com qualquer magistrado. Como viu que a indignação era geral, deixou passar um dia, publicando depois uma segunda lista com os nomes de duzentas e vinte pessoas; no dia seguinte publicou outra lista com igual número de nomes. Falando ao povo, disse que havia condenado todos aqueles cujos nomes se haviam apresentado à sua memória, acrescentando que os demais iriam sendo enumerados à medida que deles se recordasse.

LXVI. Todos aqueles que recebiam em suas casas um condenado, para tentar salvá-lo, eram incluídos nas listas fatais, sendo assim punido com a morte o seu ato de humanidade; e não se excetuavam aqueles que tivessem dado abrigo aos pais, filhos ou irmãos. Chegou mesmo a pagar dois talentos pelo assassínio de um condenado, fosse um escravo que matasse seu senhor, fosse um filho que eliminasse seu pai. Mas o que foi considerado o cúmulo da injustiça foi o ter ele infamado os filhos e os netos dos condenados, confiscando seus bens. As condenações não se limitaram a Roma, estendendo a todas as cidades da Itália. Tanto os templos dos deuses como os altares domésticos, os recintos de hospitalidade como as casas paternais foram manchadas pelo sangue e conspurcados pelos crimes. Os maridos eram degolados nos braços de suas esposas, as crianças junto ao seio de suas mães; e o número de vítimas sacrificadas à cólera não se aproximava sequer do daqueles que pereciam por motivo de suas riquezas. Assim, os assassinos podiam dizer: "Este, foi a sua bela casa que lhe causou a morte; aquele, os seus magníficos jardins; aquele outro, seus banhos soberbos". Um romano chamado Quinto Aurélio, homem que sempre se mantivera afastado dos acontecimentos da cidade, e que não esperava ter outra participação nos males públicos senão a consistente no dó que sentia pelas vítimas, tendo ido à praça pública, pôs-se a ler os nomes dos condenados, e viu o seu nas listas. "Ó, exclamou, como sou desventurado! É a minha casa de Alba946 que me persegue!" E, mal dera alguns passos, foi assassinado por um homem que o seguia.

LXVII. Manda matar doze mil homens em Preneste

LXVII. Entrementes, o jovem Mário, vendo que não podia escapar, matou-se. E Sila, tendo seguido para Preneste, fez primeiramente julgar e executar, um por um, os moradores da cidade, observando de algum modo as normas da justiça; em seguida, vendo que estas formalidades lhe tomavam muito tempo, mandou reunir todos os restantes num mesmo lugar, num total de doze mil, e mandou degolá-los na sua presença. Excetuou apenas seu hospedeiro, dizendo-lhe que decidira poupar-lhe a vida. Mas esse homem disse-lhe, com uma admirável grandeza de alma, que jamais deveria a vida ao carrasco de sua pátria; e, atirando-se no meio de seus compatriotas, fez-se matar com eles. Lúcio Catilina deu, nestes acontecimentos, um exemplo inaudito de crueldade. Antes de terminar a guerra civil, matou seu irmão com as próprias mãos; e quando Sila começou as execuções, pediu-lhe que colocasse seu irmão entre os degolados como se estivesse vivo. Sila satisfez-lhe de bom grado a vontade. Catilina, em sinal de reconhecimento por esse serviço, foi matar um homem da facção contrária, chamado Marco Mário, e levou sua cabeça a Sila, que estava na ocasião sentado na praça pública; depois disso, foi lavar as mãos manchadas de sangue no vaso de água lustrai, que estava nas proximidades, perto da porta do templo de Apolo.

LXVIII. Proclama-se ditador

LXVIII. Depois de tantos assassínios, nenhum acontecimento provocou maior revolta do que a decisão de Sila de nomear-se a si próprio ditador947, restabelecendo para ele uma dignidade que havia sido abolida em Roma havia cento e Vinte anos. Proporcionou-se a si mesmo uma abolição geral de todo o passado, e, quanto ao futuro, arrogou-se o direito de vida e de morte, o poder de confiscar bens, de dividir as terras, de construir e destruir cidades, de apoderar-se de reinos e dá-los a quem lhe aprouvesse. Vendia em leilão os bens que confiscava; do alto de seu tribunal, presidia em pessoa a estas vendas, e com tal insolência e despotismo, que as adjudicações que fazia pareciam ainda mais odiosas do que a própria confiscação. Cortesãs, músicos farsantes e libertos, os mais celerados dos homens, recebiam países inteiros, ou todas as rendas de uma cidade. Chegou mesmo a mandar raptar esposas aos maridos, a fim de fazê-las casarem com outros homens, contra a sua vontade. Como ambicionava a aliança do grande Pompeu, obrigou-o a repudiar sua mulher para casar-se com Emília (filha de Escauro e de Metela, mulher de Sila), e que arrebatara de Mânio Glábrio, apesar de achar-se grávida; mas ela morreu ao dar à luz na casa de Pompeu. Lucrécio Ofela, aquele que havia cercado Mário em Preneste, apresentou-se como candidato às funções de cônsul. Sila mandou-lhe dizer, primeiramente, que desistisse de sua pretensão; Lucrécio, que se via apoiado pelo povo, dirigiu-se um dia, apesar da advertência, à praça pública, acompanhado de numerosas pessoas que sustentavam sua candidatura. Sila para ali mandou um dos centuriões que sempre o acompanhavam, a fim de matá-lo. E, do alto de seu tribunal, no templo de Castor e Pólux, assistiu ao assassínio. O povo, em tumulto, agarrou o centurião, e levou-o até o tribunal; Sila ordenou que se fizesse silêncio, e declarou que fora em obediência a ordens suas que o assassínio havia sido cometido. E determinou, em seguida, que deixassem o centurião tranquilo.

LXIX. Renuncia à ditadura

LXIX. A sua entrada triunfal, que se realizou nessa época, foi uma das mais imponentes até então conhecidas, e isto devido à magnificência e à novidade dos despojos dos reis da Ásia; mas o que constituiu o mais belo ornamento do desfile, tornando-o um espetáculo dos mais comovedores, foi o grande número de banidos que dele participaram. As primeiras e mais ilustres personagens de Roma acompanhavam o carro de Sila, coroadas de flores, chamando-o de seu salvador e de seu pai, a quem deviam a sua volta à pátria e a satisfação de rever os filhos e as esposas. Terminado o triunfo, ele fez, na assembleia do povo, a apologia de sua conduta, e relembrou com maior cuidado os favores da fortuna do que suas proezas; acabou ordenando que, no futuro, lhe dessem o cognome de Félix, ou seja, o feliz, o bem-aventurado.

Depois desse dia, ele próprio, quando escrevia aos gregos, ou quando com eles tratava de negócios, usava o cognome de Epafrodite, ou seja, o amado, o favorito de Vênus. Os troféus que ainda hoje se veem na Beócia apresentam esta inscrição: Lucius Cornelius Sylla Epaphtoditus. Metela, sua mulher, deu à luz a dois gêmeos, um menino e uma menina; e ele deu ao menino o nome de Fausto e à menina de Fausta, nomes que, entre os romanos, designam tudo o que é feliz e de bom augúrio. Mas nada prova melhor que ele tinha mais confiança em sua boa fortuna do que em suas ações, do que o fato de, após haver mandado degolar tantos milhares de cidadãos, após haver feito tantas modificações e introduzido tantas inovações na República, renunciar voluntariamente à ditadura948 e restituir ao povo o direito de eleger os cônsules. Ele não compareceu ao comício eleitoral, permanecendo tranquilamente na praça pública, no meio da multidão expondo-se à investida de qualquer pessoa que quisesse pedir-lhe contas pelos atos do passado.

LXX. Prediz a Pompeu a guerra que teve logo depois contra Lépido

LXX. Um seu inimigo, homem audacioso e temerário, chamado Marco Lépido, foi escolhido cônsul nessa eleição, contra sua vontade. E foi eleito, não porque o povo lhe tivesse afeição, mas somente porque queria agradar a Pompeu, que favorecia o candidato. Sila, encontrandose com Pompeu, que regressava à sua casa todo orgulhoso, por motivo da vitória, chamou-o e disse-lhe: "Jovem amigo, realizastes uma obra-prima política ao elegerdes, não Catulo, o mais sábio de todos os nossos cidadãos, mas um homem irrefletido como Lépido. Mas tomai cuidado, não vos descuideis, pois destes força em vosso próprio prejuízo, ao vosso adversário mais perigoso". Estas palavras de Sila constituíram uma verdadeira profecia, pois Lépido não demorou a demonstrar a sua audácia e insolência, tomando partido contra Pompeu.

LXXI. Dedica o dízimo de seus bens a Hércules

LXXI. Sila consagrou a Hércules o dízimo de seus bens; e, por esse motivo, ofereceu ao povo festas magníficas. Houve uma tão grande profusão de iguarias, que, diariamente, era atirada nas águas do Tibre uma incalculável quantidade de carne. E foi servido vinho de quarenta anos, e ainda mais velho. No meio destes festejos, que duraram vários dias, Metela morreu. Durante sua enfermidade, os sacerdotes e adivinhos proibiram a Sila que a visse, e advertiram-no de que sua casa não devia ser poluída por funerais. Ele decidiu, então, separarse dela, e mandou levá-la, quando ainda viva, para outra casa. Observou, assim, cuidadosamente, a ordem dos adivinhos; mas transgrediu a lei que ele próprio promulgara sobre a limitação das despesas com os funerais, nada poupando com os de Metela. Não observou, também, os regulamentos sobre a simplicidade das refeições, de que era igualmente autor; e, para consolar-se de seu luto, passava os dias em festins e na orgia.

LXXII. Casa-se com Valéria

LXXII. Alguns meses depois, promoveu um combate de gladiadores; e como então os lugares não eram ainda marcados, nos espetáculos, confundindo-se os homens e as mulheres, Sila viuse, por acaso, perto de uma mulher muito bela e de família ilustre. Era filha de Messala, irmã do orador Hortênsio, chamava-se Valéria e acabara de divorciar-se. Esta mulher, após aproximar-se de Sila por detrás, colocou-lhe a mão no ombro e tirou-lhe um pelo de seu manto, voltando em seguida ao seu lugar. E como Sila a olhasse surpreendido, ela disse-lhe; "Senhor, não vos surpreendais; quero também partilhar de vossa felicidade". Estas palavras agradaram a Sila; parece mesmo que o lisonjearam extremamente, pois mandou saber logo o seu nome, qual a sua família e situação. Desde esse momento, não houve senão olhares recíprocos, sorrisos de mútua simpatia, que terminaram num contrato de casamento. Valéria, quanto a isso, não merece talvez censuras; mas Sila não pode ser desculpado. Mesmo que ela fosse a mais virtuosa das mulheres, seu casamento não teria tido por isso um motivo mais honesto: ele tinha se deixado prender, como se fosse um jovem sem experiência, por meio de olhares e lísonjas que, em geral, acendem as paixões mais vergonhosas. A companhia de tal mulher não impediu que ele continuasse a conviver, em sua casa, com atrizes e tocadoras de instru mentos, e de manter sempre ao seu lado farsantes, músicos, com quem bebia, desde: a manhã, deitado sobre simples colchões. As pessoas que então gozavam de maior prestígio junto a ele eram o comediante Róscio, o chefe de pantomimas Sorex e um certo Metróbio, farsante, que fazia papéis femininos; e embora este último já estivesse velho, Sila continuava a amá-lo e não se envergonhava em confessá-lo.

LXXIII. É atacado pela doença pedicular

LXXIII. Esta vida de devassidão agravou nele uma doença que a princípio parecia sem maiores consequências. Levou muito tempo para perceber que se havia formado em suas entranhas um abcesso, o qual, tendo insensivelmente apodrecido suas carnes, ali formava tal quantidade de pus, que várias pessoas empenhadas, noite e dia, em retirá-lo, não conseguiam estancar-lhe a fonte; e o que se retirava pouco representava em comparação com a nova quantidade que se formava incessantemente; e por este motivo, suas roupas, seus banhos, os panos com que o enxugavam, a sua própria mesa, tudo ficava como que inundado pelo fluxo inesgotável desta podridão, tal a abundância com que vertia! Ele entrava, várias vezes por dia, no banho para lavar-se, para limpar o corpo; mas todos estes cuidados eram inúteis; suas carnes se transformavam tão rapidamente em podridão, que todos os recursos utilizados para contê-lo se revelavam ineficazes.

LXXIV. Exemplos de enfermidades semelhantes

LXXIV. Conta-se que, entre os antigos, Acasto, filho de Pélias, e, em época mais próxima, o poeta Alcmane, Ferecides, o filósofo, Calístenes de Olinto e Múcio, o jurisconsulto, morreram da mesma enfermidade; e se for preciso citar outros nomes, de pessoas que, embora nada tenham feito de notável, não deixam de ser conhecidas, acrescentarei o de Euno, o escravo fugitivo que provocou a primeira guerra949 de escravos na Sicília, e que, levado preso para Roma, ali morreu da mesma moléstia.

LXXV. Sua morte

LXXV. Sila previu sua morte, e anunciou-a mesmo, de algum modo, em seus Comentários; pois, dois dias antes de morrer, acabou de escrever o vigésimo-segundo Livro, onde conta que os caldeus lhe tinham predito que, depois de viver uma vida gloriosa, morreria no ponto mais alto de sua prosperidade. Acrescenta que seu filho, morto poucos dias antes de Metela, apareceu-lhe em sonho, com um manto muito feio, e que, aproximando-se dele, pediu-lhe que não trabalhasse mais e que fosse em sua companhia para perto de sua mãe Metela, a fim de viver com ela num ambiente de tranquilidade e livre de preocupações. Este sonho não impediu contudo, que ele tratasse dos negócios públicos. Com efeito, dez dias antes de sua morte, apaziguou uma sedição, que se manifestara entre os moradores de Diceárquia, e proporcionou-lhes leis, prescrevendo-lhes a maneira como deviam governar-se. Nas vésperas de sua morte, tendo sabido que o questor Grânio, que devia ao tesouro público uma soma considerável, adiava o pagamento, e esperava sua morte para lesar a República, mandou-o chamar, e ordenou aos criados que o prendessem e estrangulassem. Nos esforços que fez, gritando e agitando-se com violência, seu abcesso rebentou, e ele perdeu uma grande quantidade de sangue. Suas forças esgotaram-se, e, após ter passado muito mal a noite, morreu950 na manhã do dia seguinte, deixando, de Metela, dois filhos de poucos anos de idade. Após sua morte, Valéria deu à luz uma menina, que recebeu o nome de Póstuma, pois os romanos chamam póstumos os filhos que nascem depois da morte do pai.

LXXVI. Seus funerais

LXXVI. Mal expirara, e vários cidadãos se aliaram ao cônsul Lépido a fim de impedir que fossem realizados os funerais que convinham a um homem de sua categoria. Mas Pompeu, embora tivesse queixas a fazer, pois Sila não o incluirá em seu testamento, ao contrário do que fizera com todos os seus amigos, tanto fez, pedindo e ameaçando, a uns e outros, que conseguiu fosse abandonado o plano. Mandou trasladar o corpo para Roma, assegurando ao cortejo inteira liberdade, e fez com que se prestassem a Sila todas as honras adequadas. As mulheres romanas, conta-se, levaram tão grande quantidade de aromáticos que, além daqueles contidos em duzentos e dez açafates, houve cinamomo e incenso bastantes para fazer uma estátua representando Sila, de tamanho natural, e outra representando um litor conduzindo os feixes de varas, diante dele. No dia dos funerais, o céu mostrou-se desde cedo, muito nebuloso, e receava-se uma chuva forte; esperou-se até à nona hora, para o transporte do corpo. Logo depois de ter sido este colocado sobre a fogueira, soprou um vento continuado, que atiçou rapidamente as chamas, sendo os despojos consumidos antes de cair sequer uma gota de água. Mas lego que a pira começou a desfazer-se e o fogo a amortecer, caiu uma chuva pesada, que durou até à noite. Deste modo, a fortuna parece ter-lhe que-rido ficar fiel até o fim de seus funerais. Seu túmulo acha-se no Campo de Marte; e afirma-se ser ele próprio o autor do epitáfio que ali se vê, e cujo sentido, em resumo, é que ninguém jamais fez tanto, bem aos amigos e nem causou maiores danos. do que ele, aos inimigos.

Ver notas

Mais fontes de Mário e Sila

Vidas Paralelas: Lúculo, de Plutarco

Vidas Paralelas: Caio Mário, de Plutarco

Vidas Paralelas: Sertório, de Plutarco

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