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Steve Jobs

Livros > Contemporânea  |  321 visualizações

Capa do livro Steve Jobs, de Walter Isaacson
Autor: Walter Isaacson
Título original: Steve Jobs
Páginas: 607
Editora: Companhia das Letras
Primeira publicação: 2011
Ano da edição: 2011
Idioma: Português

Sinopse:

O livro, baseado em mais de quarenta entrevistas com Steve Jobs (1955-2011) ao longo de dois anos - e entrevistas com mais de cem familiares, amigos, colegas, adversários e concorrentes -, narra a vida atribulada do empresário extremamente inventivo e de personalidade forte e polêmica, cuja paixão pela perfeição e cuja energia indomável revolucionaram seis grandes indústrias: a computação pessoal, o cinema de animação, a música, a telefonia celular, a computação em tablet e a edição digital. Numa época em que as sociedades de todo o mundo tentam construir uma economia da era digital, Jobs se destaca como o símbolo máximo da criatividade e da imaginação aplicada à prática.


Análise do livro

ISAACSON, Walter. Steve Jobs. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2011.

Steve Jobs é um dos meus livros favoritos e posso dizer sem medo: uma das obras mais bem escritas que já tive o prazer de ler. O autor, Walter Isaacson, é um jornalista norte-americano que já se dedicou a escrever várias biografias. No passado eu já li as biografias de Benjamin Franklin e de Albert Einstein. O autor também já escreveu uma biografia de Leonardo Da Vinci e uma biografia da Revolução Digital, ambos livros que pretendo ler no futuro.

Esse livro é uma obra muito interessante para todos aqueles que se interessam pela história da tecnologia, em especial pelos grandes avanços na área da informação que ocorreram entre os anos 1970 até hoje. Steve Jobs e Bill Gates são os nomes mais famosos nessa revolução, por terem liderado duas das empresas mais importantes da área: a Apple e a Microsoft.

Como toda boa biografia, essa obra é narrada de forma cronológica. A vida de Steve Jobs pode ser dividida em quatro fases. Abaixo você confere quais são os capítulos que tratam de cada uma dessas fases.

O conteúdo da obra

Capítulos 1-4: Infância, estudos, primeiros empregos e viagem para a Índia.

Capítulo 5-16: A primeira fase na Apple, com o lançamento dos computadores Apple I, II e III, Apple Lisa e Macintosh.

Capítulo 17-22: Expulso da Apple. Criação da NeXT e Pixar.

Capítulo 23-40: A segunda fase na Apple e as revoluções tecnológicas: iMac, iPod, iTunes, iPhone, App Store, Lojas da Apple, iPad, iCloud.

Capítulo 41: O legado de Jobs.

Para informações mais detalhadas sobre cada um dos capítulos, confira nossas Anotações de Leitura no link logo acima dessa resenha.

Sobre o livro

O foco da obra é a questão tecnológica e os grandes avanços que ocorreram no universo da tecnologia desde a fundação da Apple (1976) até a morte de Jobs (2011). Sem dúvida, um dos períodos de maior avanço da área da informação em toda a história humana.

Jobs e Bill Gates

Embora o foco seja a tecnologia, alguns capítulos se dedicam quase que exclusivamente a vida pessoal do personagem principal (2, 3, 7, 20, 40). O livro também destaca a relação de Jobs com Bill Gates, e sempre mostra as reações de Gates a cada lançamento de novos produtos da Apple.

O que é muito interessante, pois havia entre Jobs e Gates uma visão oposta sobre concepção de produto. Bill Gates e o resto do mercado defendiam um sistema de plataforma aberta, onde softwares pudessem ser usados em qualquer computador e onde o usuário tivesse a capacidade de fazer upgrades em suas máquinas, adicionando novos dispositivos como mais memória, mais armazenamento, uma nova placa de vídeo, uma fonte mais forte, até um novo gabinente. Steve Jobs por outro lado defendia um sistema fechado, onde o cliente comprasse um computador pronto e fosse impedido de fazer alterações em seu hardware. Além disso, Jobs sempre foi contra licenciar o software da Apple para outros fabricantes.

A revolução tecnológica

Ao falar da infância de Jobs, Issaacson dá bastante destaque ao contexto em que ele nasceu no Vale do Silício e a revolução tecnlógica que estava acontecendo na região na década de 60 e 70, embora fale muito pouco sobre o papel gigantesco que o governo norte-americano e a indústria militar tiveram nesse desenvolvimento. Isso é citado brevemente apenas em uns poucos parágrafos (pág. 26-27).

Os primeiros capítulos são fascinantes pois mostram as grandes revoluções que aconteceram nessas primeiras décadas, especialmente após a Intel inventar o microprocessador em 1971. Foi essa invenção que possibilitou a drástica diminuição do tamanho dos computador e permitiu que nos anos seguintes surgisse a indústria do computador pessoal.

Steve Jobs não era nem engenheiro nem designer, na verdade não tinha nenhuma formação. Formou-se no Ensino Médio e depois abandonou a faculdade depois de seis meses. Nunca mais teve nenhuma educação formal. Era um autodidata e se inteirava sobre a tecnologia conversando com engenheiros, designers e outros empresários.

Um grande comunicador e gestor

Jobs foi um dos melhores comunicadores que o mundo já produziu. Na internet há centenas de vídeos com palestras e apresentação de eventos, e é assombroso o seu nível de conhecimento sobre questões técnicas, e a sua capacidade de síntese e habilidade para transmitir assuntos complexos para ouvintes leigos. As apresentações de produtos da Apple, grandes eventos onde os produtos são apresentados em detalhes, hoje se tornaram um padrão repetido por todas as grandes empresas como Microsoft, Google, Samsung, Nvidia, Intel, etc, mas não seria assim sem o pioneirismo de Steve Jobs. Foi ele que percebeu a importância do marketing e o papel crucial que uma boa apresentação de produto poderia ter para as vendas.

Ao acompanhar a história de Jobs e da Apple fica claro que, embora Jobs não tenha inventado ele mesmo os produtos, foi a sua visão de produto e a sua capacidade de liderança e visão de negócio que permitiram que a Apple hoje se tornasse o que é: a empresa com o maior valor de mercado do mundo (3 trilhões de dólares) e uma marca reconhecida por trazer grandes inovações para o mercado da tecnologia.

Idealização de Jobs

Em todas as obras de Walter Isaacson é notável uma certa idealização dos indíviduos biografados. Isso não quer dizer que o autor se exima de narrar os defeitos e as falhas de caráter de seus personagens. Nessa obra não é diferente, Steve Jobs é mostrado com todas as suas falhas, chiliques e comportamentos reprováveis e é difícil não chegar a conclusão de que ele sofria de um Transtorno de Personalidade Narcisista. Segundo o Google:

As características de personalidade (narcissista) incluem opinião muito elevada sobre si mesmo, necessidade de admiração, crença de que as outras pessoas são inferiores e falta de empatia pelos outros.

Mesmo assim, ainda há uma certa idealização de Jobs por parte do autor. Poucos profissionais da Apple realmente são citados e todos os produtos parecem resultado da mente mirabolante de Jobs, embora grandes engenheiros e programadores tenham sido responsáveis por construir e transformar a visão de Jobs em realidade. Talvez esse seja o resultado do próprio contato com Jobs, já que ele era conhecido por valorizar mais a área do design e por tratar os engenheiros como peças substituíveis no processo de desenvolvimento.

Acho que a visão do produto, a produção e construção são processos igualmente importantes e eu teria ficado mais satisfeito com um reconhecimento um pouco maior aos grandes engenheiros e profissionais "Classe A" que construíram a Apple. Mas é claro, essa é um biografia de Jobs então é natural que haja um foco maior na pessoa dele.

Exaltação exagerada da Apple no período 1971-2001

Durante as duas semanas em que estive lendo esse livro, procurei me inteirar sobre o tema da tecnologia vendo dezenas de vídeos no Youtube sobre os primeiros computadores produzidos pela Apple e por outras marcas durante as primeiras décadas da empresa. E logo percebi que o autor exagerou na importância da Apple na sua primeira fase.

A verdade é que os primeiros computadores da Apple, no geral, foram um fracasso tanto de qualidade quanto de vendas. O grande produto da empresa durante esses anos foi o Apple II, um projeto de Steve Wozniak que fez sucesso por uma arquietura sólida e por adotar um modelo de plataforma aberta, sendo um dos últimos computadores da Apple a dar liberdade ao usuário.

Nos anos seguintes a Apple lançou uma série de fracassos, como o Apple III, o Lisa e o Macintosh. Todos esses foram computador com muito hype e pouca qualidade. O computador que dominou o mercado na década de 1980 foi o IBM PC, que é citado rapidamente na página 152 do livro e depois é ignorado. O Microsoft Windows que foi lançado na década de 1980 também teve um impacto muito maior na indústria do que o sistema operacional e a interface gráfica desenvolvidos pela Apple.

A Apple só se tornou uma empresa gigantesca e realmente inovadora no mercado após o lançamento do iPod em 2001. Antes disso, a Apple era uma empresa que ainda não tinha produzido grandes produtos e lutava para se consolidar no mercado de tecnologia.

Falta de ilustrações

Embora o livro conte com algumas ilustrações, elas seguem o modelo padrão presente na maior parte dos livros: estão ali mais para enfeitar do que para informar. Conferindo as minhas anotações de leitura, no link acima do texto, você verá como ilustrações dentro do texto contribuem muito para a compreensão do tema e para fornecer uma visão mais ampla do que é discutido. Fotos são mágicas! Elas informam de um jeito que o simples texto nunca será capaz de igualar.

Outra coisa: como o livro cita nomes de centenas de pessoas, na primeira vez que fiz a leitura da obra, lá em 2015, eu imprime uma folha com as fotos e nomes dos personagens citados na obra. Isso também é algo que contribuiu muito para a minha leitura, mas que o próprio livro já deveria fornecer já que existem fotos de todas as pessoas citadas na obra.

A importância de Steve Jobs para a mundo da tecnologia

Entre as contribuições de Jobs para a área da tecnologia o autor elenca as seguintes (pág.581/582):

  • o Apple II, que pegou a placa de circuitos de Wozniak e a transformou no primeiro computador pessoal que não era apenas para quem cultivava um hobby;
  • o Macintosh, que gerou a revolução do computador doméstico e popularizou as interfaces gráficas do usuário;
  • Toy story e outros grandes sucessos de bilheteria da Pixar, que inauguraram o milagre da imaginação digital;
  • as lojas da Apple, que reinventaram o papel da loja na definição de uma marca;
  • o iPod, que transformou a forma de consumirmos música;
  • a iTunes Store, que fez renascer a indústria da música;
  • o iPhone, que transformou telefones celulares em música, fotografia, vídeo, e-mail e dispositivos de web;
  • a App Store, que gerou uma nova indústria de criação de conteúdos;
  • o iPad, que lançou a computação em tablet e ofereceu uma plataforma para jornais, revistas, livros e vídeos digitais;
  • o iCloud, que rebaixou o computador de seu papel central de administrador de nossos conteúdos e permitiu que todos os nossos dispositivos sincronizassem perfeitamente;
  • e a própria Apple, que Jobs considerava sua maior criação, um lugar onde a imaginação era alimentada, aplicada e executada de maneiras tão criativas que a empresa se tornou a mais valiosa do planeta.Contribuiu muito para o desenvolvimento do computador pessoal

Sobre a Apple

Não sou um fanboy da Apple, mas já tive produtos da marca. Há muitos anos atrás tive um iPod Shuffle, um iPhone 5C, uma Apple TV e um iPad Air. Mas, embora sejam produtos extremamente bem feitos, não gosto muito do modelo de plataforma fechada da Apple, que dificulta a vida do usuário que utiliza PC ou que deseja consumir conteúdos piratas. Também há outro problema, a supervalorização do dólar e o modelo de negócio adotado pela Apple (que produz apenas produtos com as últimas tecnologias se voltando para um mercado de luxo), fazem com que os preços sejam fora da realidade da maioria das pessoas.

No momento em que escrevo essa resenha, os produtos da Apple são vendidos aos seguintes preços no Brasil (os valores mais baratos que encontrei):

  • Salário minímo no Brasil: R$ 1.100
  • iPhone 13 (telefone): R$ 5.200
  • iPad 9 (tablet): R$ 2.600
  • Apple Watch 7 (relógio): R$ 2.880
  • AirPods 3 (fone de ouvido): R$ 1.530
  • iMac 24 (PC): R$ 11.600
  • Macbook Air 13 (notebook): R$ 7.200

Em todos os casos, produtos de nível similar da concorrência podem ser encontrados pela metade do preço, e as vezes até por menos. É claro, isso é algo que pode ser discutido. Afinal há produtos caros na concorrência e também é possível argumentar que os produtos da Apple são superiores em alguns aspectos. Mas também é inegável que há uma base de fãs da empresa que adquirem os produtos apenas pelo status da marca Apple, mesmo sem ter muito conhecimento da questão técnica, e muitas vezes desconhecendo o valor real do produto em relação aos concorrentes e ignorando a relação custo/benefício.

A visão elitista da Apple

Mesmo assim é irrefutável que através da adoção desse modelo de negócio, e sem se preocupar muito com os valores finais dos seus produtos, a Apple acabou estimulando a propagação de novas tecnologias que com o tempo foram barateadas por outras companhias e assim se tornaram padrões da indústria.

Mas fica claro nessa biografia que esse não era o desejo de Jobs. A Apple sempre produziu produtos de luxo para um público de classe alta, e Jobs nunca demonstrou interesse em lançar versões de seus produtos para um público mais pobre. Sempre houve um foco muito grande em garantir as patentes dos produtos, não licenciar as inovações para outras marcas e manter o usuário dentro de um ambiente fechado, em oposição a visão aberta de produto defendida por outras empresas de software e hardware. Os grandes avanços atingidos pela Apple se popularizam e mudaram o mundo CONTRA A VONTADE de Steve Jobs. Os sistemas operacionais Android (Google) e Windows (Microsoft) foram os responsáveis por popularizar essas inovações e levá-las para o grande público, e eles fizeram isso tendo os gritos de raiva de Jobs como plano de fundo.

Fica claro que a visão de Jobs era  "se você não tem 5 mil reais para gastar em um smartphone, você não deve ter um smartphone." Então, embora Steve Jobs deva ser valorizado por suas conquistas na Apple, não foi ele o responsável por transformar a indústria do smartphone e do computador pessoal no que elas são hoje. Se alguém deve ser agradecido por isso são os profissionais do Windows e do Android, que se preocuparam em produzir versões mais populares desses produtos, e realmente tiveram interesse de mudar o mundo, não apenas o mundo dos ricos.

Resenha publicada em 20/06/2022.

Foto do membro da equipe: Moacir Führ

Escrita por

Moacir Führ

Moacir tem 35 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

Walter Isaacson

Jornalista. Nascido nos Estados Unidos, em 1952. É diretor-geral do Aspen Institute, foi presidente da CNN e editor administrativo da revista Time. Além desse livro também é autor de Einstein: Uma vida e do best-seller internacional Steve Jobs: A biografia.

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