A Múmia (1999) - Análise histórica do filme

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Cena do filme mostrando os personagens "bonzinhos" que lutam contra a múmia.

Aproveitando que estou focado em estudos sobre o Egito Antigo, tirei algumas horas do meu domingo para assistir o clássico A Múmia, filme de 1999 escrito e dirigido por Stephen Sommers. O filme do gênero Ação/Aventura/Fantasia não tem grandes pretensões do ponto de vista histórico mas, mesmo assim, fazer uma análise mais profunda desses filmes, sempre contribuí para fixar alguns conceitos básicos sobre o período estudado.

A confrontação com anacronismos e outros erros históricos são uma excelente forma de aprofundar nosso entendimento.

Mas qual é a história do filme? O longa começa no Egito Antigo do faraó Seti I (r. 1290-1279 a.C), no período conhecido como Novo Reino. A amante do rei, Anck-Su-Namun - que tem um caso de amor secreto com o sacerdote Imhotep - mata o faraó com a ajuda dele. Na confusão que se segue, ela acaba morta e ele é condenado a ser mumificado vivo (discutirei isso abaixo) em um terrível ritual sagrado. Uma maldição estabelece que se sua múmia algum dia for ressuscitada, ele se tornará uma praga para a humanidade, e terá o poder da invencibilidade.

O filme então se move para o início do século 20, quando um grupo de caçadores de tesouro e estudiosos, sem querer querendo, acaba acordando a múmia. E então o resto do filme é passado com fugas e com a criação de um plano para destruí-la.

O ano exato dessa parte do filme não é especificado, mas alguns artigos que li trazem o ano de 1925, 1926. Isso colocaria a história do filme apenas alguns anos após a descoberta da tumba do faraó Tutancâmon, realizada pelo arqueólogo Howard Carter em 1922. O que fica claro é que se trata do período Entre Guerras (1919-1939).

Logo, além de um fim sobre o Egito Antigo, também somos agraciados com uma visão do imperialismo europeu no norte da África. Vários detalhes apontam para isso: a utilização de escavadores locais por arqueólogos europeus, a presença de caçadores de tesouros e arqueólogos da Europa e dos EUA e o fato de praticamente todos os personagens centrais serem europeus e americanos.

A Introdução em Tebas

Na primeira cena do filme já somos recepcionados por erros colossais. O filme começa mostrando duas grandes pirâmides, em frente a uma esfinge em processo de construção. Depois a câmera passa em frente a um templo de proporções absurdas, cercado por 4 gigantescas estátuas de Anúbis, e dois relevos na parede desse templo que parecem ser de Sobek, deus do Nilo. Ao que o narrador anuncia: "Tebas, a Cidade dos Vivos. Jóia da Coroa do Faraó Seti I."

Vamos por partes: nunca houve pirâmides ou esfinges em Tebas. Pirâmides eram construções reservadas aos mortos e não eram colocadas dentro das cidades. Sua construção era feita em necrópoles, cidade dos mortos. A mania dos diretores norte-americanos de colocar pirâmides dentro de áreas densamente povoadas é algo que realmente me irrita. Além disso, os faraós do Novo Reino não eram enterrados em pirâmides, essa foi uma prática do Antigo Reino.

O Templo de Karnak? Talvez.

As estátuas de Anúbis não fazem muito sentido. O deus egípcio dos mortos não era comumente representado em estátuas pelos egípcios. E o fato de que o próprio filme chama Tebas de A Cidade dos Vivos, contrasta com o fato de a cidade ser representada tendo uma iconografia que remete ao deus da morte. O grande templo mostrado acima talvez seja uma representação muito exagerada do maior templo de Tebas, aquele que é conhecido hoje como o Templo de Karnak, que era dedicado ao deus Amon (não a Anúbis).

A arquitetura de Tebas: gigantismo exagerado.

Nessa cena de abertura podem ser observadas várias esfinges menores com cabeça de carneiro, próximas ao templo. Essas esfinges realmente existiam em Tebas às centenas. Elas representavam o deus Amon e ainda hoje decoram a entrada do templo de Karnak.

Esfinges com cabeça de carneiro no Templo de Karnak, Tebas.

Alguns dos textos que li apontavam para a ideia de que Mênfis teria sido a a capital do Egito durante o reinado de Seti I mas, após novas pesquisas, descobri que aparentemente é aceito pela maior parte dos historiadores que Tebas foi a capital do Egito durante todo o período do Reino Novo.

Hamunaptra

No filme a cidade de Hamunaptra é descrita como a "Cidade dos Mortos, antigo local de enterro dos filhos dos faraós, e local de repouso das riquezas do Egito". Tal cidade nunca existiu. Os faraós egípcios, e os membros de sua família, nessa época eram enterrados no Vale dos Reis, uma série de túneis escavados em um vale próximo a Tebas.

Hamunaptra, a cidade dos mortos.

Entretanto, JTT (veja bibliografia) fez uma interessante observação sobre a forma como essa cidade fictícia é retratada no filme. Coloco abaixo a transcrição do seu comentário:

O filme retrata o sol nascendo atrás da cidade de Hamunaptra, revelando a sua localização e, portanto, implica que Hamunaptra está no lado leste do Nilo. No entanto, no antigo Egito, acreditava-se que o oeste, e seu deserto implacável, era o local da vida após a morte. Assim, se houvesse uma cidade dos mortos, ela seria no oeste do Nilo, não no leste.

O processo de mumificação

Na introdução do filme é narrada a punição dada aos sacerdotes de Imhotep: "os sacerdotes de Imhotep foram condenados a serem mumificados vivos". Há um grande problema aqui. Essa parte do filme não seria problemática se a punição fosse ser "enterrado vivo". O problema é o fato de essa frase ignorar o significado da expressão mumificação.

O processo de mumificação consistia em deixar o corpo descansar em sal por várias semanas, até que todos os líquidos do corpo tivessem sido retirados naturalmente. Depois, o corpo era aberto e o estômago, intestinos, pulmões e fígado eram retirados e colocados em vasos canópicos. O cérebro também era removido em pedaços, usando um gancho que era introduzido pelo nariz. Só então o corpo era enfaixado e colocado em um sarcófago.

Logo, fica a pergunta: Como alguém poderia ser mumificado vivo?

Imhotep sendo enfaixado.

O filme também narra parte do processo de mumificação de forma errônea. A bibliotecária, interpretada por Rachel Weisz, afirma que o coração do morto também era retirado, o que não é verdade! Ela também descreve o uso de um "atiçador quente" para a remoção do cérebro pelo nariz, quando na verdade era usado um gancho simples.

No filme também são mostrados cinco vasos canôpicos, quando na verdade eles eram sempre quatro.

Cinco vasos canôpicos? Na verdade eram quatro.

Confira mais detalhes do processo de mumificação clicando aqui.

O Livro Egípcio dos Mortos

O Livro Egípcio dos Mortos era um conjunto de papiros que continha instruções para que o morto pudesse passar pelo julgamento de Anúbis e, assim, atingir a vida eterna. Ele costumava ser enterrado junto com a múmia.

No filme, o livro é apresentado tendo o formato de um livro moderno. Mas esse formato de livro não existia na antiguidade, e só foi inventado na Idade Média. O caráter do livro também foi alterado, no longa ele é identificado como um objeto extremamente poderoso, contendo encantamentos capazes de ressuscitar os mortos. E é a partir da sua leitura que a múmia de Imhotep ganha vida.

Lendo as páginas do Livro dos Mortos.

O Livro dos Vivos

O filme apresenta o conceito do "Livro dos Vivos de Amon-Rá", que conteria encantamentos secretos do Antigo Reino. Em primeiro lugar, tal livro nunca existiu. Além disso, o deus Amon-Rá - uma união entre os deuses Amon e Rá - só surgiu mais de mil anos após o fim do período chamado Antigo Reino.

O Livro de Ouro de Amon-Rá.

O livro é apresentado como tendo o formato de um livro moderno feito de ouro. Mas nenhum livro de ouro foi jamais encontrado no Egito Antigo.

Arquitetura egípcia

A arquitetura do Egito Antigo é mostrada de forma relativamente correta. Há grandes acertos, mas também grandes erros. Já citamos o problema da arquitetura de Tebas, então agora comentaremos a arquitetura da cidade fictícia de Hamunaptra.

Comentarei as três partes principais que compõe os cenários da cidade: as ruínas da parte externa, os túneis e as diversas grandes câmaras subterrâneas.

As ruínas da parte externa apresentam colunas e obeliscos típicos da arquitetura egípcia. Tudo certo!

Os túneis que levam as diversas câmaras subterrâneas são interessantes, pois apresentam um padrão triangular no topo, embora ele seja bastante abrupto. O teto vai ficando mais estreito conforme se aproxima do topo. Algo que me lembrou um pouco o interior da câmara funerária da Pirâmide Vermelha de Snefru. Embora nesse caso o teto vá se estreitando de forma muito mais sutil. Esse afunilamento do teto possibilita uma melhor distribuição e maior resistência do peso que vem de cima.

O interior da câmara funerária da Pirâmide Vermelha.

O que mais chama atenção, no entanto, são as grandes câmaras subterrâneas apresentadas no filme. Há várias delas: a sala do tesouro, a sala do confronto final, a sala aos pés da estátua de Anúbis, a sala abaixo da estátua de Anúbis e várias outras. A única forma dessas câmaras subterrâneas terem um tamanho tão grande, seria se elas tivessem sido feitas a partir de cavernas naturais.

Os egípcios simplesmente não tinham conhecimento de engenharia para construir câmaras tão grandes no subsolo. A sala onde o tesouro está é gigantesca, aparentando ter mais de 50 metros de comprimento (parece um estacionamento de Shopping!) e, embora algumas colunas sejam visíveis, elas não seriam capazes de sustentar o peso do teto. Nas construções atuais o uso intenso de barras de ferro e concreto é o que possibilita grandes áreas abertas como essa.

A sala do tesouro.

O único local onde você poderia encontrar áreas cobertas, de um tamanho próximo a isso, seria em um palácio ou templo, mas isso porque as colunas estariam sustentando um teto feito de toras de madeira. Construções subterrâneas como essa eram impossíveis na época.

Armas: espadas, escudos, lanças e elmos

Em algumas cenas do filme são mostrados soldados portando escudos, lanças e espadas. Isso aparece rapidamente na cena de introdução em Tebas, e em alguns momentos da batalha final nas câmaras de Hamunaptra.

Os soldados da guarda pessoal do faraó que aparecem na cena final estão usando escudos apropriados para o período, além de lanças curtas e uma espada khopesh (com lâmina curva), típica da época. É uma boa representação.

As múmias da guarda pessoal do Faraó.

Só não gostei muito dos elmos, não acredito que sejam representações corretas, é um formato muito estranho, embora seja possível argumentar que, por se tratar de uma guarda real (normalmente com uma função mais decorativa do que prática), o formato do elmo possa ser mais estilizado. De qualquer forma, não há fontes que justifiquem tal formato.

Os elmos quadrados. O terceiro soldado da esquerda para a direita porta uma espada khopesh.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi a espada usada pelo personagem Rick O'Connell na batalha final. Ao chegar no cenário ele simplesmente retira uma espada de bronze (ou ouro?) que está na mão de uma estátua e começa a lutar com ela. A espada é longa demais para o período, ela parece ter tranquilamente 70 a 80 cm! Um absurdo!! Uma espada de bronze desse período, atualmente em exibição no Museu Britânico (veja aqui) tem 38 cm de comprimento. As espadas da antiguidade eram bastante curtas, as espadas longas só surgiram na Idade Média.

A espada exagerada do personagem principal.

Comentários diversos sobre o filme

Escaravelhos: Os escaravelhos "velocistas", que conseguem vencer todos os personagens na corrida, na realidade são insetos bastante lentos. A maioria deles é herbívoro ou se alimenta de fezes (verdade!). Embora haja escaravelhos carnívoros, eles se alimentam de outros insetos, e nunca seriam capazes de matar um ser humano.

Os escaravelhos do mundo real são menos ameaçadores.

Espelhos: Os espelhos usados no filme para iluminar as câmaras subterrâneas parecem ser feito de vidro. Os espelhos do Egito Antigo eram de bronze, e não seriam de grande serventia para iluminar grandes espaços, porque não refletiam muito bem a luz.

Sarcófagos: Os sarcófagos egípcios não possuíam fechaduras. E o sarcófago de Imhotep parece ser feito de ferro, embora o ferro ainda não fosse utilizado pelos egípcios no século 13 a.C. Talvez o objetivo fosse representar um sarcófago de prata. Tais sarcófagos existiam, há inclusive um muito famoso que pertenceu ao faraó Psusennes I (1039-991 a.C). Mas a prata era um material muito caro, porque precisava ser importado, e provavelmente não seria desperdiçado abrigando um criminoso.

O sarcófago de Imhotep.

As pragas do Egito: O conceito das pragas do Egito apresentado no filme é parte da mitologia hebraica e não aparece em nenhuma história egípcia. E mesmo se levarmos a história hebraica em consideração, a ordem pela qual as pragas são introduzidas na história está completamente errada.

Gatos: No filme, o que Imhotep teme acima de tudo são os gatos. Ao longo da trama, um dos personagens explica que "os gatos são os guardiões do mundo inferior". O que não é bem verdade. O guardião do mundo inferior era Anúbis, representado por um chacal. Gatos eram reverenciados como símbolos de proteção, fertilidade e maternidade, além de serem representações da deusa Bast.

Maquiagem: No Egito Antigo, tanto homens como mulheres usavam maquiagem, mesmo que fosse apenas uma maquiagem ao redor dos olhos. O filme praticamente ignora esse fato, embora o faraó e sua guarda real usem maquiagem no rosto, o personagem mais importante, o sacerdote Imhotep, passa o filme inteiro sem qualquer maquiagem.

Roupas: Embora a maior parte das vestimentas usadas pelos personagens estejam corretas, chama a atenção a escolha da roupa de um dos personagens principais. O sacerdote Imhotep veste, durante todo o filme, uma roupa preta. Não há registro do uso de roupas pretas no Egito Antigo, e por um bom motivo. O calor insuportável dessa região fazia com que os seus habitantes usassem roupas leves e claras, isso quando não optavam por deixar boa parte do corpo a mostra. Usar roupas pretas no antigo Egito levaria a uma rápida desidratação. Não seria algo inteligente. Mas, é claro, como perceberíamos que o personagem é o vilão da história se ele usasse roupas brancas?

Maldições e portas secretas: Esse filme de aventura apresenta vários dos clichês relacionados ao "misterioso" Egito Antigo. Portas secretas, maldições e armadilhas, vários mecanismos para evitar o roubo de tumbas. No mundo real, nada disso existiu e o roubo de tumbas era muito frequente, saiba mais lendo nosso artigo sobre o tema.

Muitos outros detalhes certos e errados poderiam ser citados, mas esse texto já ficou muito longo. Espero que tenham gostado!

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Fontes bibiliográficas:

HEALY, Mark. New Kingdom Egypt. Oxford: Osprey Publishing, 1999.
British Museum. Sword. Acesso em 23 dez. 2018.
Film Locations. The Mummy. Acesso em 23 dez. 2018.
IMDB. The Mummy (1999). Acesso em 23 dez. 2018.
JTT present. Historical Inaccuracies of the 1999 Movie The Mummy. Acesso em 23 dez. 2018.
Wikipédia. Seti I. Acesso em 23 dez. 2018.
WritersCafe.org. The Mummy: A Historical Review of the Film. Acesso em 23 dez. 2018.

Alterações realizadas desde a publicação:

25/12/2018 - Correção.
23/12/2018 - Data de publicação

Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 32 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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