Carlos Magno e sua representação por artistas de outras épocas

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Da esquerda para a direita: Relicário de Carlos Magno, pintura de Albrecht Dürer, estátua de bronze em Aachen, pintura de Caspar Scheuren.

Carlos Magno é uma das figuras mais importantes da Idade Média, a ponto de alguns o verem como o pai da Europa. Ele foi o rei dos francos a partir de 768, rei da Itália a partir de 774 e imperador do ocidente a partir de 800. Seu reinado foi marcado por grandes conquistas militares, reformas administrativas e incentivo à expansão religiosa e a conservação dos conhecimentos da antiguidade.

Mesmo sendo uma figura tão marcante para a história européia, pouquíssimas imagens desse rei sobreviveram. Além de algumas moedas, e de uma pequena estátua equestre, não possuímos nenhuma outra representação feita durante a sua vida. O que temos é uma descrição da aparência de Carlos Magno feita por seu biógrafo oficial, Eginhard, que viveu no palácio de Aachen e serviu como conselheiro do rei. Confira o trecho abaixo:

Seu corpo era grande e forte; sua estatura alta, mas não desajeita, pois a medida de sua altura era sete vezes o comprimento de seus próprios pés. O topo de sua cabeça era redondo; seus olhos eram muito grandes e penetrantes. Seu nariz era um pouco maior do que o normal; ele tinha lindos cabelos brancos; e sua expressão era rápida e alegre; de modo que, sentado ou em pé, sua aparência era digna e impressionante. Embora seu pescoço fosse bastante grosso e curto e ele fosse um pouco corpulento, isso não era percebido devido às boas proporções do resto de seu corpo. Seu passo era firme e todo o porte de seu corpo era viril; a voz dele era clara, mas dificilmente tão forte quanto você esperaria. Ele tinha boa saúde, mas durante quatro anos antes de sua morte foi frequentemente atacado por febres e, finalmente, ficou coxo. (...) Ele usava a roupa típica nacional - isto é, o traje franco. Suas camisas e roupas de baixo eram de linho, depois vinha uma túnica com uma franja de seda. Suas pernas estavam fechadas e nos pés usava sapatos. No inverno, ele protegia os ombros e o peito com um gibão feito de peles de lontras e arminho. Ele se vestia com uma capa azul e sempre usava uma espada, com o punho e o cinto de ouro ou prata. Ocasionalmente, também, ele usava uma espada de jóias, mas isso acontecia apenas nos grandes festivais ou quando ele recebia embaixadores de nações estrangeiras. Ele não gostava de roupas estrangeiras, por mais bonitas que fossem, e nunca consentia em usá-las, exceto uma vez em Roma, a pedido do papa Adriano, e mais uma vez sob o pedido de seu sucessor, o papa Leão, quando usou uma longa túnica e capa, e calçou sapatos feitos à moda romana. Em dias festivos, ele andava em procissão em uma capa dourada, com botas com jóias e um cinto de ouro em sua capa, e se distinguia ainda mais por um diadema de ouro e pedras preciosas. Mas em outros dias sua vestimenta diferia pouco daquela das pessoas comuns. (tradução minha, EGINHARD, Parte 2, 22-23)

Carlos Magno morreu em 814 aos 71 anos de idade, depois de mais de 40 anos como monarca, mas sua fama permaneceu e nos séculos seguintes centenas de imagens foram produzidas por diversos artistas com o objetivo de representar esse grande rei. Nesse artigo iremos citar os trabalhos mais conhecidos e mais comumente utilizados para ilustrar a vida do primeiro imperador do Sacro Império Romano.

Representações em manuscritos medievais

Carlos Magno é comumente retratado em iluminuras de manuscritos medievais. Les Grandes chroniques de France se destaca. Esse livro contêm dezenas de imagens representando Carlos Magno em diversos momentos famosos de seu reinado. Selecionei algumas imagens dessas iluminuras para dar uma ideia geral da visão que os autores da Baixa Idade Média tinham da aparência do rei franco.

Carlos Magno (no centro) representado no manuscrito Chanson d'Aspremont de 1240-1250. British Library.Carlos Magno (de coroa) aparece três vezes nessa iluminura. Em uma conversa com nobres, submetendo os saxões e fazendo os saxões serem batizados. Manuscrito Les Grandes chroniques de France. 1332-1350, França. British Library.Carlos Magno (de coroa) executa reféns após uma revolta dos saxões. Manuscrito Les Grandes chroniques de France. 1332-1350, França. British Library.Carlos Magno sendo coroado imperador pelo papa em 800. Manuscrito Les Grandes chroniques de France. 1332-1350, França. British Library.Carlos Magno construindo a catedral de Aachen. Manuscrito Les Grandes chroniques de France. 1332-1350, França. British Library.Carlos Magno recebendo uma carta. Manuscrito Renaut de Montauban (or Les Quatre Fils Aimon). Segunda metade do século 15. França. British Library.Carlos Magno consultando seus barões. Manuscrito Renaut de Montauban (or Les Quatre Fils Aimon). Segunda metade do século 15. França. British Library.Imperador Carlos Magno ajoelhado em frente a uma planta perfurada por uma flecha. A planta é chamada Corelina e o texto explica que um anjo aconselhou o rei a comê-la para curá-lo de venenos. Manuscrito Herbal with treatises on food, poisons and remedies, and the properties of stones, de Giovanni Cadamosto. Alemanha, final do século 15 e início do 16. British Library.


Vitrais de catedrais medievais

O imperador também foi representado em vários vitrais de catedrais medievais. Trago alguns exemplos abaixo:

Carlos Martel (esquerda) e Carlos Magno (direita) representados em vitrais da Catedral de Estrasburgo, França. Século 13.Carlos Magno depositando relíquias na catedral de Aachen. Vitral da catedral de Chartres, França.Carlos Magno constrói uma igreja. Vitral da Catedral de Chartres, França.


Estátua no mosteiro de São João, Val Müstair

Carlos Magno foi um grande apoiador do avanço do cristianismo e das ordens monásticas. Ele foi patrocinador de muitos mosteiros no reino franco. Esses locais serviam como centro de treinamento para missionários que fariam o trabalho de conversão de povos pagãos. Acredita-se que essa abadia foi estabelecida em 780 por ordens de Carlos Magno. Ao longo dos séculos seguintes essa igreja foi sendo decorada com pinturas e esculturas, o exemplo abaixo foi produzido provavelmente no século 12.

Estátua de Carlos Magno no mosteiro de São João (Saint John Abbey), em Val Müstair.

Relicário encomendado por Carlos IV

O famoso busto de Carlos Magno, a imagem mais conhecida do rei dos francos, teria sido oferecido a catedral de Aachen pelo imperador Carlos IV (1316-1378) e, provavelmente, foi produzido por um artista francês. Sua cabeça possui uma abertura na qual está guardado o crânio de Carlos Magno. A prática de conservar ossos de homens importantes e santos (relíquias) em relicários para atrair peregrinos para as igrejas era comum na Idade Média.

Durante esse período também foram produzidos outros relicários para Carlos Magno, que contam com representações mais simples e menos conhecidas desse rei. Para conhecê-los leia o nosso artigo: As relíquias cristãs e os relicários de Carlos Magno

O famoso busto de Carlos Magno, a imagem mais popular do rei dos francos. Catedral de Aachen, Alemanha.

Pintura de Rafael Sanzio

O famoso artista da renascença italiana, Rafael Sanzio, também retratou um dos momentos mais importantes da vida de Carlos Magno, em uma pintura presente nas paredes do Vaticano. A Coroação de Carlos Magno que ocorreu na noite de natal de 800 é um dos eventos históricos mais interessantes do período e ainda é motivo de debates entre historiadores. A Stanza dell'Incendio di Borgo (a sala do Vaticano) conta ainda com outros quatro afrescos produzidos por Rafael.

A coroação de Carlos Magno. Pintura de Rafael Sanzio. 1514-1517. Stanza dell'Incendio di Borgo, Vaticano.

Albrecht Dürer (1471-1528)

Essa talvez seja uma das pinturas mais utilizadas para ilustrar a figura de Carlos Magno. Albrecht Dürer foi um artista alemão nascido em Nuremberg, o mais famoso do renascimento nórdico. Sua pintura de Carlos Magno para a Câmara de Relíquias de Nuremberg foi finalizada em 1512. A imagem não é considerada muito fiel com relação ao período carolíngio, mas estudiosos acreditam que Carlos Magno tenha sido retratado usando as vestes típicos usados pelo imperador germânico do século 16.

Carlos Magno por Albrecht Dürer (1471-1528). Museu Nacional Germânico, Nuremberg.

Estátua de bronze de Aachen

Segundo o site Route-Charlemagne:

"Muitas cidades viam Carlos Magno como seu fundador, por exemplo Frankfurt, Zurique e Florença. A Aachen medieval usou Carlos Magno como argumento em seus esforços graduais para obter direitos cívicos para sua cidade. Carlos Magno se tornou o símbolo da recém-fundada cidade-estado de Aachen. Ele não apenas garantiu o prestígio e os privilégios da cidade, mas também trouxe prosperidade. As coroações dos reis alemães no local da tumba de Carlos Magno foram um fator econômico significativo, assim como as peregrinações estabelecidas posteriormente.

Durante a Reforma, Carlos Magno também se tornou o símbolo da Contra-Reforma Católica, que venceu os protestantes em Aachen. A estátua de Carlos Magno erguida no mercado de Aachen em 1620 simboliza a vitória do lado católico. Hoje, é a imagem mais popular de Carlos Magno em Aachen."

A cidade de Aachen conta com duas dessas estátuas. A original (nessa foto) se encontra dentro da catedral da cidade, mas há uma réplica ao ar livre na fonte do mercado local.

Agostino Cornacchini (1686-1754)

Agostino Cornacchini foi um escultor e pintor italiano que trabalhou durante a primeira metade do século 18. Ele é responsável por uma estátua equestre de Carlos Magno que se encontra na entrada do palácio do Vaticano. No outro lado da entrada, se encontra a estátua equestre de Constantino feita por Bernini. Cornacchini também produziu obras para as catedais de Orvieto, Ancona, Pistoia e na Basílica de Superga em Torino.

A estátua equestre de Carlos Magno.

Obras do século 19

O século 19 foi um período de grande incentivo a arte, que assistiu ao desenvolvimento dos movimentos Neoclássico, marcado por uma visão racional e um desejo de reviver a arte greco-romana, e Romântico, com uma visão de mundo idealizada e nacionalista. As representações de Carlos Magno produzidas nesse século refletem os ideais desses dois movimentos. Pintores como Ary Scheffer, Friedrich Kaulbach e Hermann Wislicenus produziram representações claramente românticas de eventos da vida do imperador franco.

A unificação alemã ocorreu na segunda metade do século 19, e Carlos Magno era uma figura símbolo do poder germânico. O artista Hermann Wislicenus, por exemplo, é conhecido por ter feito uma série de 68 afrescos no Palácio Imperial de Goslar, onde retrata várias passagens da história alemã com uma visão romântica, e entre elas está uma pintura de Carlos Magno.

Confira alguns trabalhos produzidos nesse século:

A coroação de Carlos Magno - Julius Schnorr von Carolsfeld (1794-1872)Carlos Magno aceita a rendição de Widukind, rei dos saxões, em 785. Galerie des Batailles, Versalhes. Ary Scheffer (1795-1858)Caspar Scheuren (1810-1887)A estátua de Carlos Magno foi doada a cidade de Frankfurt em 1843 pela comemoração de mil anos do Tratado de Verdun. A obra é do escultor Johann Nepomuk Zwerger.Carlos Magno destrói o Irminsul. Palácio Imperial de Goslar, Alemanha. Hermann Wislicenus (1825-1899). O Irminsul era um pilar venerado pelos saxões que, segundo a lenda, conectava o céu e a terra.Coroação de Carlos Magno - Friedrich Kaulbach (1822-1903). Maximilianeum MünchenEsse afresco de Alfred Rethel (1816-1859) retrata uma lenda que diz que o imperador Otão III teria encontrado o túmulo do rei franco e, ao entrar nele, teria se deparado com o corpo de Carlos Magno sentado em um trono. Prefeitura de Aachen.


As representações de Carlos Magno são apenas um exemplo de como devemos ficar atentos às ilustrações históricas. As obras refletem os ideais da época em que foram produzidas, então é sempre importante ter uma visão muito crítica com relação a elas. É preciso ter consciência de que, normalmente, elas não refletem a realidade, mas a visão dos artistas e de seus patrocinadores.

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Artigo publicado em 02/08/2020.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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