Apoie o site pelo Apoia.se e ajude a promover a História na internet brasileira.
Contribua a partir de R$ 1,00 por mês.

O sucesso e o fracasso da História grega no cinema

Artigos > Grécia Antiga  |  3,7 mil visualizações  |  2800 palavras

Capa do artigo: O sucesso e o fracasso da História grega no cinema

Da esquerda para a direita: Alexandre (2004), 300 (2006) e Tróia (2004).

Tradução feita a partir de artigo publicado no site Ancient.eu. O texto original pode ser conferido aqui. Ele foi escrito por Dana Murray e foi publicado em 1° de outubro de 2015. O texto foi traduzido a partir do inglês, e nenhuma alteração foi feita em seu conteúdo. Adicionei algumas fotos visando tornar o texto mais ilustrativo.

A Grécia antiga tem sido representada no cinema várias vezes ao longo dos anos e recebeu críticas mistas, infelizmente a maioria delas negativas. O gênero parece ter ficado nas sombras de Roma, e talvez por um bom motivo. Apesar dos tropeços dos cineastas ao longo do caminho, os filmes baseados na antiguidade continuam a ser populares por possuírem a capacidade de preencher a lacuna entre o passado e o presente, oferecendo interpretações espetaculares e convincentes da história, que são relevantes e educativas para os expectadores. Isso pode ser dito tanto para a história grega quanto para a romana, mas o que há na história grega que parece tão difícil retratar na tela?

Evidentemente, há três questões principais no que diz respeito a filmar a história grega de forma que as audiências modernas sejam capazes de entender e se conectar: ​​o problema com o "amor grego"; a falta de unidade na Grécia antiga; e a dificuldade de filmar as principais ideias "gregas".

Os famosos contos da batalha de Termópilas e Alexandre, o Grande, surgiram como as histórias gregas mais “bem-sucedidas” a serem representadas no cinema, no entanto, elas não são imunes de falhas. Examinando como os cineastas abordaram as questões de representar a história da Grécia através de filmes como Alexandre, o Grande (1956), Alexandre (2004), Os 300 de Esparta (1962) e 300 (2006), o sucesso e o fracasso de cada um serão identificados, assim como o fato desses filmes terem marcado uma mudança nessa tendência de impopularidade.

Problemas com o "Amor grego"

O que se tornou um dos aspectos mais notórios da cultura grega antiga é também uma das principais questões ao representar a história grega na tela. Este aspecto é, naturalmente, a ideia do “amor grego”, que tornou-se um tema muito desconfortável no mundo moderno, muitas vezes rejeitado repetidamente como ultrajante e/ou repugnante.

Curiosamente, a sociedade moderna não apenas discorda da idéia do amor grego, como também se sente desconfortável com a ideia da nudez durante o atletismo. Isso é extremamente óbvio quando se assiste a qualquer filme histórico grego, pois os indivíduos representados em exercício são sempre mostrados em tangas e não em nudez. Olhe 300 ou Alexandre, por exemplo, onde o rei Leônidas luta com seu filho, e o jovem Alexandre com seus companheiros sob a tutela de seu instrutor. Claramente, mostrar atores no nu tradicional seria demais para um público moderno, e se isso é considerado inadequado, então como o “amor grego” poderia ser representado?

Os filmes baseados em Alexandre, o Grande, são excelentes exemplos do desconforto experimentado pelo público ao representar o amor grego. Talvez sem surpresa, a "pansexualidade" de Alexandre foi responsabilizada pelo fracasso do filme no cinema.

Roxana, filha de um nobre bactriano, foi a esposa de Alexandre até a sua morte. Foto do filme de 2004, dirigido por Oliver Stone.

Alexandre teve vários romances ao longo de sua vida, e representar todos eles dentro de aproximadamente duas horas sem dúvida confundiria o público. Como resultado, os cineastas optaram por se fixar em relacionamentos específicos, principalmente Heféstion e Roxana. Infelizmente, o relacionamento com Heféstion provou ser demais para o público, e o diretor de Alexandre, o Grande, Robert Rossen, escolheu praticamente remover Heféstion do enredo, deixando-o presente, mas de outra forma inútil.

Alexandre e Heféstion no filme de 2004.

Em contraste, Oliver Stone, diretor de Alexandre, não só incluiu Heféstion na narrativa, mas também escolheu incluir o forte relacionamento romântico entre os dois homens. Essa mudança pode ser atribuída ao movimento de idéias dentro dos Estados Unidos, e também em nível internacional, em relação aos homoeróticos e à homossexualidade na tela. Essa tendência também se refletiu no filme Brokeback Mountain (2005), que foi muito elogiado por críticos e espectadores.

Desde então, filmes e programas de televisão têm empurrado os limites da nudez masculina e da homossexualidade, como visto em programas de televisão como a série True Blood e o filme Shame (2011). Talvez o amor grego seja um dia aceito também, mas até que essa mudança em direção à aceitação venha a acontecer, a idéia do amor grego não é amada pelas audiências.

Para combater esse problema, os cineastas geralmente decidiram fazer  fortes declarações heterossexuais. Isto implica que a heterossexualidade ainda é a única identificação aceita como natural ou universal. Parece que qualquer exemplo que se desvie desse tema pode até ser considerado uma ameaça aos valores normais, ou talvez até mesmo uma ameaça à família ou ao próprio sistema social.

Examinemos o filme 300, por exemplo, os espartanos são retratados como o modelo ideal do masculino heterossexual, contrastando-se com os atenienses julgados como "amantes de meninos". Isso é irônico, considerando que os espartanos também teriam se envolvido em pederastia (relacionamento com meninos); no entanto, isso é ignorado.

Não só isso, mas o romance entre Leônidas e sua esposa, Gorgo, foi incluído tanto pelo desejo popular por um interesse amoroso, quanto para representar o modelo “correto” do amor, já que seu filho representa o resultado “adequado”. 300 foi rotulado como pornografia homoerótica limítrofe, mesmo assim os cineastas ainda estão tentando seguir em direção a um modelo aceitável de sexualidade.

Problemas geográficos e administrativos

Menos controversa, mas igualmente problemática para o cinema, é o fato de que a Grécia antiga não era unificada em termos de geografia ou política. Montanhas, cursos d'água e ilhas formam a região, tornando as alianças políticas um tanto inconvenientes. Além da questão óbvia com a geografia, nunca houve qualquer sentimento de "Grécia" como um país no mundo antigo. Em vez disso, a Grécia era composta de muitas cidades-estados, ou pólis, independentes umas das outras e possuidoras de etnias distintas. Essa formação cria o conceito de isolamento que desencorajou os cineastas interessados ​​e com boas razões.

Quando perguntados sobre o que vem à mente quando se pensa na Grécia, o público moderno provavelmente descreverá Atenas. Infelizmente para o mundo do cinema, Atenas não era um centro icônico como Roma era. Além disso, a maioria dos indivíduos de hoje não sabe como era Atenas nos tempos antigos, deixando os cineastas com problemas para retratar a Grécia na tela.

Pôster do filme Atlas de 1961.

Este problema pode ser examinado através do cenário de Atlas (1961), dirigido e produzido por Roger Corman. Atlas foi filmado na Grécia, usando ruínas como cenários. Infelizmente, para o filme, os motivos gregos foram usados ​​de forma desajeitada e não conseguiram criar uma imagem visual distinta da Grécia.

Como resultado, temas romanos foram colocados em uma tentativa de preencher o vazio, assim como foi feito em outros filmes históricos gregos, como O Colosso de Rodes (1961), com soldados de Rodes vestindo capas vermelhas brilhantes que lembram legionários romanos. Aparentemente condenada ao fracasso, é difícil filmar algo que o público não conseguirá identificar, e é ainda mais difícil criar algo que não existia, como uma Grécia unificada.

Cena do filme O Colosso de Rodes.

Em uma tentativa de superar tudo isso, os cineastas muitas vezes optaram por se concentrar na batalha das Termópilas, um momento histórico em que a Grécia se uniu contra os invasores persas. Tendo lugar em 480 a.C, esta batalha foi lembrada na história como um momento decisivo das guerras contra os persas. Os filmes optaram por se concentrar nas próprias Termópilas ao invés da guerra como um todo, provavelmente devido à notória reputação da batalha ao longo dos tempos como o "Álamo Grego".

Esta batalha foi lembrada na história como um exemplo de luta pela liberdade contra todas as probabilidades. Embora os espartanos e seus aliados estivessem em grande número, eles foram capazes de resistir aos persas. E apesar de suas perdas, eles desempenharam um papel significativo na guerra. Lamentavelmente, mesmo esse momento corajoso da história grega foi vítima dos problemas que atormentam os filmes históricos gregos, mas pelo menos representou a região de maneira bem-sucedida visualmente.

Essa foto dos bastidores do filme 300, que mostra o ator que interpretou o rei espartano conversando com o diretor do filme, enaltece o ridículo da representação dos espartanos.

Felizmente para 300, o filme nem finge ser historicamente preciso. Se os cineastas o tivessem descrito como tal, sem dúvida os classicistas teriam invadido o filme com críticas e críticas ainda piores. No entanto, o espectador faz bem em lembrar que o filme não tentou explicar os complexos problemas enfrentados pelas pólis gregas quando confrontados com a invasão persa.

Como mencionado anteriormente, uma vez que não havia um senso de uma Grécia unificada, o ato de se unir teria sido uma tarefa assustadora para os gregos e um conceito difícil de explicar para um público moderno dentro da duração de um filme. 300 evita este problema, removendo-se da guerra quase inteiramente, fixando-se na perspectiva espartana como os principais protagonistas de toda a batalha.

Claro, isso contribui para um enredo interessante, mas mais uma vez o sentimento de uma Grécia unificada é perdido no processo. Mesmo um momento icônico da história, como as Termópilas, não está imune às questões do filme histórico grego e, evidentemente, nem o grande Alexandre da Macedônia.

Desde a antiguidade, Alexandre, o Grande, foi admirado e visto com uma certa reverência. À luz disto, Alexandre parece ser o candidato perfeito para uma adaptação cinematográfica, um enredo pronto, a personificação da grandeza do passado para os gregos e uma inspiração para as empresas imperialistas européias.

Olimpia (mãe de Alexandre), Filipe II e Alexandre, no filme de Oliver Stone de 2004.

É sob o reinado de Alexandre, e antes dele seu pai Filipe II, que a Grécia foi finalmente unificada sob um único reino, marcando-o como uma possível solução para o filme histórico grego. Infelizmente, o verdadeiro Alexandre é difícil de distinguir, pois as fontes antigas são fragmentadas e várias interpretações se desenvolveram com o tempo.

O resultado disso é que qualquer tentativa de filmar sua vida terminaria na tentativa de defini-lo. Ao definir Alexandre, os cineastas enfrentam um grande problema, pois sempre haverá aqueles que discordam e desaprovam o filme. Mais uma vez, até mesmo as maiores das lendas não podem ser traduzidas em filme tão facilmente quanto o esperado.

O que filmar, o que filmar…

Além dos grandes contos de Termópilas e Alexandre, o que mais há quando se pensa na Grécia antiga? Há Atenas, é claro, com o Partenon, mas como um cineasta pode desenvolver um enredo em torno de um assunto tão vago? Aqui está a questão final, e talvez a mais óbvia, em relação aos filmes históricos gregos.

Quando a maioria das pessoas é solicitada a descrever o que vêem quando pensam na Grécia, elas listarão o Partenon, a filosofia e a democracia. É claro que todos esses assuntos foram altamente influentes e valiosos dentro do mundo antigo e ainda são valorizados hoje, no entanto, eles não são excessivamente fascinantes para o público moderno por conta própria.

O Partenon, templo na cidade de Atenas.

Atenas é geralmente vista como uma antiga universidade enquanto os grandes pensadores do mundo antigo se reuniam em Atenas, incluindo os imperadores romanos. No entanto, como os cineastas podem fazer um filme sobre uma antiga universidade, um lugar de idéias e, portanto, essencialmente "chato" para a maioria dos públicos? Aqui está a questão central em relação à filmagem da história grega: o grande medo de que os antigos gregos sejam chatos para o público.

O filósofo Aristóteles, que foi professor de Alexandre, foi rapidamente mostrado no filme de 2004.

Parece que a Grécia não tem o “colírio” de Roma com seus gladiadores, assassinatos e grandes batalhas contra bárbaros distantes. O aspecto mais decepcionante de toda a situação é que, para começar, mais da metade da cultura romana era grega, e a maioria dos espectadores que assistem a esses filmes nem percebe isso. A Grécia caiu na sombra de Roma, quase esquecida por trás de uma série de filmes que não conseguiram capturar sua essência.

Como a história grega carece da idéia necessária de unidade e do amplo quadro de referência possuído pela história romana, o filme histórico grego repetidamente recorreu ao uso de referências romanas para criar um senso de antiguidade. Ao fazê-lo, os cineastas criaram uma referência subconsciente para o público perceber que o que eles estão assistindo é baseado no antigo mundo mediterrâneo.

Tais referências podem incluir o uso de letras latinas, como visto no Atlas dentro de um anfiteatro romano, o uso de trajes romanos, arte e arquitetura romana, e até mesmo referências romanas dentro de campanhas militares, como a invasão grega em Tróia. Lamentavelmente, ao fazê-lo, os cineastas puseram em risco qualquer sentido de "gregosidade" que o filme inicialmente possuía.

Barco aqueu em cena do filme Tróia.

Ao lado das principais questões relacionadas à representação da história da Grécia no cinema, os enredos qualificados são complicados demais para serem compactados em um período de tempo tolerável. O resultado final de tais tentativas incluem roteiros supersimplificados como o visto dentro dos 300 de Esparta e 300, em que as relações entre Atenas e Esparta foram simplificadas ao ponto de Esparta enfrentar a Pérsia sozinha.

Tudo isso é feito não só para encaixar a história em um único filme, mas também para criar um senso de unidade entre os gregos, para tornar o enredo mais confortável para o público. Além disso, as adaptações cinematográficas da batalha de Termópilas concentram-se apenas na batalha, em vez de descrever a guerra e os eventos que levaram ao evento.

O público é forçado a levar o filme ao pé da letra, confiando que o que eles estão vendo é verdade. Apesar do fato de que esses filmes não reivindicam ser historicamente precisos, o público deve lembrar que eles são apenas representações e interpretações de eventos vistos através das lentes do mundo moderno, e eles devem ser vistos como tal.

Conclusão

Muitos grandes homens e mulheres olharam para o mundo clássico em busca de autoridade e inspiração, o meio moderno do filme não é diferente. A popularidade dos filmes ambientados na antiguidade aumentou e diminuiu ao longo dos anos, mas a história da Grécia continua a ser curta em comparação a de Roma.

Roma representa uma fascinação pelas imagens de guerra, pela violência e até pela morte, todas elas efetivamente retratadas no cinema e que continuam atraindo as multidões. Infelizmente para o cinema histórico grego, enquanto histórias de violência irradiam de Roma, histórias de democracia, arte e filosofia florescem na história grega. É claro, estas são todas qualidades muito admiráveis, mas elas não criam filmes muito atraentes. No geral, a Grécia parece ter recebido o palito mais curto em termos de popularidade dentro do mundo moderno.

Ao contrário do vasto repertório da história romana, apenas duas instâncias da história grega parecem adequadas ao cinema, a saber, a história das Termópilas e de Alexandre, o Grande, e ambas já provaram ter suas próprias dificuldades no que diz respeito ao cinema. Infelizmente para a história grega, parece que o mundo moderno simplesmente não está pronto para representações da verdadeira identidade grega, como “amor grego”, ou nus masculinos em geral.

Essa ideia está mudando na cultura popular, e talvez cineastas no futuro possam mostrar esse aspecto do mundo grego. Até então, os filmes históricos gregos devem continuar a evitar essas questões, como fizeram há décadas. Embora a questão do "amor grego" possa ter novas interpretações, o conceito de uma Grécia antiga unificada nunca existirá, exceto na nossa imaginação.

Este é um conceito que vai assombrar os futuros cineastas até o final dos tempos, pois é impossível filmar algo que nunca existiu e é igualmente difícil criar um enredo que o público não possa entender ou repercutir. Esse é o infeliz destino da história grega no cinema, com muito a oferecer em termos de cultura e sucesso, mas que no final é indesejável no cinema.

Gostou desse artigo?




Mais artigos sobre Grécia Antiga

Uma introdução à guerra na Grécia Antiga

Hades, o deus grego do mundo subterrâneo

Esparta e a sociedade espartana

Artigo publicado em 14/02/2019.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

Comentários dos visitantes

Ícone alerta azul

Contribua para um debate inteligente e educado na internet. Não seja um troll.