A Coluna de Trajano

Artigos > Roma Antiga  |  130 visualizações  |  1738 palavras

Capa do artigo: A Coluna de Trajano

Coluna de Trajano LIV/LXXV - Cena 75. A rendição dos dácios na Primeira Guerra Dácia.

Tradução de artigo do site SmartHistory, escrito pelo Dr. Jeffrey A. Becker. O texto original pode ser lido aqui. Fotos de detalhes da coluna foram retirados do site do professor Roger B. Ulrich, que tem todas as fotos de toda a coluna em detalhes, recomendo que visitem também. Outras informações interessantes sobre a coluna podem ser vistas no site da National Geographic dedicado ao tema, veja aqui. Fotos diversas foram adicionadas ao artigo para torná-lo mais ilustrativo e informativo.

O Triunfo

O Triunfo era um ritual festivo militar, celebrado pelos romanos ao longo dos séculos - sempre que um comandante conquistava uma vitória espetacular. No dia (ou dias) marcado, a cidade transbordava de multidões, desfiles, despojos, prisioneiros, representações e lembranças de terras estrangeiras - mas então, tão rapidamente quanto começou, o glorioso tumulto terminava.

Uma reconstituição de um triunfo romano, uma celebração de uma vitória militar. No centro um general vencedor é levado na procissão por uma quadriga. Ilustração moderna, autor desconhecido.

Os espetáculos e os ecos da glória eram confiados à memória daqueles que o haviam testemunhado. Mas o desfile, e sua gigantesca festa em toda a cidade, eram suficientes para comemorar os feitos gloriosos dos exércitos de Roma? Ou deveria ser adotada uma forma mais permanente de comemoração?

Sendo pragmáticos, os romanos se decidiram pelos dois meios de comemoração - o efêmero e o permanente. A Coluna de Trajano (inaugurada em maio de 113 d.C) é um dos exemplos mais importante da necessidade inata de comemorar - de forma mais permanente - os feitos históricos que dominavam a psique da arte e dos artistas romanos.

Retornando triunfante da Dácia:
100 dias de comemorações

O imperador Trajano, que reinou de 98 a 117 d.C, travou uma série de campanhas conhecidas como Guerras Dácias. A Dácia (atual Romênia), era vista como um vizinho problemático pelos romanos e os dácios eram uma ameaça à província da Mésia, ao longo da fronteira do Danúbio. Além disso, a Dácia era rica em recursos naturais (incluindo ouro), que eram muio atraentes para os romanos.

O Império Romano em 117 com a Dácia em destaque.

Na primeira campanha, Trajano derrotou o líder dácio Decébalo no ano 101, após o qual os dácios ofereceram termos de paz aos romanos. Mas as novas hostilidades dácias provocaram uma segunda guerra que terminou em 106. A vitória de Trajano foi substancial - ele declarou mais de 100 dias de celebrações oficiais e os romanos exploraram as riquezas naturais da Dácia, enquanto a incorporavam como uma província imperial.

Busto do imperador Trajano no Museu Vaticano.

Após a primeira guerra Dácia, Trajano ganhou o epíteto honorário de "Dacicus Maximus" (O Maior Dácio) e um monumento da vitória conhecido como Tropaeum Traiani (Troféu de Trajano) foi construído no Civitas Tropaensium (atual Adamclisi, Romênia). Moedas emitidas durante o reinado de Trajano representavam os dácios derrotados.

O Tropaeum Traiani (Troféu de Trajano) construído na Dácia em comemoração a sua vitória. Via Wikimedia Commons.

Iconografia e temas da coluna

A Coluna de Trajano foi o grande monumento erguido em Roma em homenagem a essa vitória. O esquema iconográfico da coluna ilustra as guerras de Trajano na Dácia. A metade inferior da coluna corresponde à primeira Guerra Dácia (cerca de 101-102), enquanto a metade superior representa a segunda guerra (cerca de 105-106). O primeiro evento narrativo mostra soldados romanos marchando para a Dácia, enquanto a sequência final de eventos retrata o suicídio do líder inimigo, Decébalo, e a captura de prisioneiros dácios pelos romanos.

Esse gráfico produzido pela National Geographic mostra a divisão das imagens na coluna. Tradução minha.

A execução do friso é meticulosa e o nível de detalhe alcançado é surpreendente. Embora hoje a coluna não esteja pintada, muitos estudiosos acreditam que o friso era pintado originalmente. Os escultores tiveram o cuidado de fornecer planos complexos para as cenas, incluindo fundos naturais e vistas em perspectiva mistas para oferecer o nível máximo de detalhes. Às vezes, múltiplas perspectivas são evidentes em uma única cena.

Essa imagem foi feita pelo site da National Geographic e é uma reconstrução de como poderiam ter sido as cores originais da Coluna de Trajano.

O tema geral e unificador é o das campanhas militares romanas na Dácia, mas os detalhes revelam fios narrativos adicionais e mais sutis.

Um dos temas óbvios é o triunfo da civilização (representada pelos romanos) sobre sua antítese, o estado bárbaro (representado aqui pelos dácios). Os romanos são ordeiros e uniformes, os dácios nem tanto. Os romanos estão barbeados, os dácios, com barbas dessarumadas. Os romanos usam roupas civilizadas, os dácios usam calças (como todos os bons bárbaros faziam - pelo menos aqueles retratados pelos romanos).

Os dácios retratados ao fim da Primeira Guerra Dácia. (LIII/LXXIV - Cena 74)

As cenas de combate são frequentes no friso. A renderização detalhada fornece um recurso visual quase sem paralelo para o estudo da iconografia das forças armadas romanas, bem como para os seus equipamentos, armas e táticas. Também há tipos étnicos claros, pois os soldados romanos não podiam ser confundidos com os soldados dácios e vice-versa.

Essa imagem da coluna mostra o exército de Trajano cruzando o Danúbio sobre uma ponte temporária feita com barcos. Na lateral esquerda aparece a personificação divina do rio, e no resto da imagem é possível observar claramente os detalhes dos equipamentos do exército, que também são mostrados com precisão em outros pontos da coluna (Cena 4-5)

O espectador também vê o exército romano fazendo outras tarefas enquanto não luta. Uma atividade notável é a construção. Em inúmeras cenas, os soldados podem ser vistos construindo e fortalecendo acampamentos. Todos os edifícios romanos retratados são sólidos, regulares e bem projetados - em forte contraste com as humildes construções do mundo dácio. Propaganda romana em ação!

Discurso final de Trajano para as tropas após a vitória na Primeira Guerra Dácia. (LVI/LXXVII - Cena 77)

O imperador Trajano figura com destaque no friso. Cada vez que ele aparece, sua posição é dominante e o foco iconográfico em sua pessoa é claro. Vemos Trajano em vários cenários, incluindo discursando para suas tropas (ad locutio) e realizando sacrifícios. O fato das figuras nas cenas estarem focadas no imperador ajuda a chamar a atenção do espectador para ele.

Animais sendo sacrificados pelos romanos. (X/VIII: Suovetaurilia Cena 8)

A base da coluna acabou servindo como um túmulo para as cinzas de Trajano. Ele morreu ao retornar de campanhas estrangeiras em 117 e recebeu essa honra incomum, pela estima do povo romano que o considerou optimus princeps ou "o melhor primeiro cidadão".

A base da coluna de Trajano.

Especificações da coluna e sua construção

A coluna em si é feita de mármore e se ergue a uma altura de 38,4 metros no topo de um alto pedestal. O eixo da coluna é composto por 19 tambores de mármore medindo cerca de 3,7 metros de diâmetro, pesando um total de cerca de 1.110 toneladas. O tambor superior pesa cerca de 53 toneladas.

Uma escada em espiral de 185 degraus leva à plataforma de observação no topo da coluna. O friso escultural helicoidal mede 190 metros de comprimento e envolve a coluna 23 vezes. Um total de 2.662 figuras aparecem nas 155 cenas do friso, com o imperador Trajano sendo retratado em 58 cenas.

A construção da Coluna de Trajano foi um exercício complexo de projeto de arquitetura e engenharia. Conforme a estudiosa Lynne Lancaster, a execução da coluna em si foi um imenso desafio de engenharia que exigiu dispositivos de içamento complexos e, sem dúvida, um planejamento cuidadoso para ser feita com êxito.

Os materiais tiveram que ser adquiridos e transportados para Roma, alguns através de longas distâncias. Com a tecnologia apropriada em vigor, os competentes arquitetos romanos foram capazes de realizar o projeto. A conclusão bem-sucedida da coluna demonstra as complexas tarefas que os arquitetos romanos eram capazes de realizar.

Para mais informações sobre a construção da coluna assista o vídeo abaixo:

Significado e influência

A Coluna de Trajano pode ser contextualizada em uma longa linha de monumentos da vitória romana, alguns dos quais honraram vitórias militares específicas e, portanto, podem ser denominados "monumentos triunfais" e outros que geralmente honram uma carreira pública e são, portanto, "monumentos honoríficos".

Entre os primeiros exemplos de monumentos permanentes em Roma, está a Coluna Rostrata que foi erguida em homenagem a uma vitória naval celebrada por Caius Duilius após a batalha de Mylae, em 260 a.C. (esta coluna não sobreviveu).

Essa reconstituição mostra a possível aparência da Coluna Rostrata. Museu da Civilização Romana.

Durante o período republicano, desenvolveu-se uma rica tradição de monumentos comemorativos, mais conhecida pelos fornices (arcos honoríficos) e arcos triunfais. Essa tradição continuou no período imperial, com arcos triunfais e honoríficos sendo erguidos em Roma e nas províncias.

A idéia da coluna honorífica foi levada adiante por outros líderes vitoriosos - tanto na era antiga quanto na moderna. No mundo romano, monumentos derivados que se inspiram na Coluna de Trajano incluem a Coluna de Marco Aurélio (cerca de 193 d.C) na Piazza Colonna de Roma, bem como monumentos agora perdida como a Coluna de Arcádio (cerca de 401 d.C) e a coluna de Justiniano em Constantinopla (cerca de 543 d.C). A idéia do friso narrativo aplicado à Coluna de Trajano mostrou-se influente nesses outros casos.

A coluna do imperador Marco Aurélio na Piazza Colonna em Roma. Essa coluna foi erguida em 193 e tem praticamente a mesma altura da coluna de Trajano.

Colunas honoríficas ou triunfais inspiradas na de Trajano também foram criadas em homenagem a vitórias mais recentes. A coluna que honra o Almirante Horácio Nelson, na Trafalgar Square de Londres (cerca de 1843), baseia-se na tradição romana que incluía a Coluna de Trajano, além de monumentos republicanos anteriores, como a columna rostrata de Caius Duilius.

A coluna de Horácio Nelson em Londres é em comemoração a vitória inglesa na Batalha de Trafalgar em 1805, contra a marinha de Napoleão Bonaparte.

A coluna dedicada a Napoleão Bonaparte erguida na Place Vendôme, em Paris (cerca de 1810), e o Monumento a Washington de Baltimore, Maryland (1829), foram inspirados diretamente pela Coluna de Trajano.

A Coluna de Vendôme foi erigida por ordem Napoleão Bonaparte em 1806 para celebrar a sua vitória na batalha de Austerlitz. Ele é totalmente inspirada na Coluna de Trajano, embora seja quase seis metros mais alta.

Gostou desse artigo?




Mais artigos sobre Roma Antiga

Arquitetura de teatros e anfiteatros no mundo romano

O vidro na Roma Antiga

Sobre a relação entre bárbaros e romanos

Fontes bibiliográficas:

Trajan’s Column in Rome, from Prof. R. Ulrich, Dartmouth College
Stoa.org – Column of Trajan
National Geographic Society – Column of Trajan
Wikimedia Commons – Cichorius Plates
M. Beckmann, “The “Columnae Coc(h)lides” of Trajan and Marcus Aurelius,” Phoenix 56.3/4 (Autumn – Winter, 2002) pp. 348-357.
F. Coarelli et al., The Column of Trajan (Rome: German Archaeological Institute, 2000).
A. Curry, “A War Diary Soars Over Rome,” National Geographic (2015)
G. A. T. Davies, “Topography and the Trajan Column.” Journal of Roman Studies 10 (1920), pp. 1-28.
G. A. T. Davies, “Trajan’s First Dacian War,” Journal of Roman Studies 7 (1917), pp. 74-97.
P. Davies, “The Politics of Perpetuation: Trajan’s Column and the Art of Commemoration,” American Journal of Archaeology 101.1 (1997), pp. 41-65.
M. Henig, ed., Architecture and Architectural Sculpture in the Roman Empire (Oxford: Oxford University Committee for Archaeology : Distributed by Oxbow Books, 1990).
T. Hölscher, The Language of Images in Roman Art, translated by A. Snodgrass and Annemarie Künzl-Snodgrass (Cambridge: Cambridge University Press, 2004).
N. Kampen, “Looking at Gender: The Column of Trajan and Roman Historical Relief,” in Domna Stanton and Abigail Stewart, eds. Feminisms in the Academy (Ann Arbor 1995), pp. 46-73.
G. M. Koeppel, “Official State Reliefs of the City of Rome in the Imperial Age. A Bibliography,” Aufstieg und Niedergang der römischen Welt II,12,1 (1982), pp. 477-506.
G. M. Koeppel, “Die historischen Reliefs der römischen Kaiserzeit VIII, Der Fries der Trajanssäule in Rom, Teil 1: Der Erste Dakische Krieg, Szenen I-LXXVIII,” Bonner Jahrbücher (1991) 191, pp. 135-197.
G. M. Koeppel, “Die historischen Reliefs der römischen Kaiserzeit IX, Der Fries der Trajanssäule in Rom, Teil 2: Der Zweite Dakische Krieg, Szenen LXXXIX-CLV,” Bonner Jahrbücher 192 (1992), pp. 61-121.
G. M. Koeppel, “The Column of Trajan: Narrative Technique and the Image of the Emperor,” in Sage and emperor: Plutarch, Greek intellectuals, and Roman power in the time of Trajan (98-117 A.D.), edited by Philip A. Stadter and Luc Van der Stockt (Leuven: Leuven University Press, 2002), pp. 245-258.
Lynne Lancaster, “Building Trajan’s Column,” American Journal of Archaeology, 103.3 (Jul., 1999) pp. 419-439.
E. La Rocca, “Templum Traiani et columna cochlis,” Mitteilungen des Deutschen Archäologischen Instituts Römische Abteilung 111 (2004), pp. 193-238.
F. Lepper and S. Frere, Trajan’s Column: A New Edition of the Cichorius Plates (Gloucester U.K.: Alan Sutton, 1988).
S. Maffei, 1995. “Forum Traiani: Columna,” in Lexicon Topographicum Urbis Romae, vol. 2, edited by E.M. Steinby (Rome: Quasar, 1995), pp. 356-9.
C. G. Malacrino, “Immagini e narrazioni. La Colonna Traiana e le sue scene di cantiere,” in Storia e narrazione. Retorica, memoria, immagini edited by G. Guidarelli and C.G. Malacrino (Milan: B. Mondadori, 2005), pp. 101-34.
A. Mau, “Die Inschrift der Trajanssäule,” Mitteilungen des Deutschen Archäologischen Instituts, Römische Abteilung 22 (1907), pp. 187-97. [accessible via Google Books].
J. E. Packer, “Trajan’s Forum again: the Column and the Temple of Trajan in the master plan attributed at Apollodorus (?),” Journal of Roman Archaeology 7 (1994), pp. 163-82.
I. A. Richmond and M. Hassall, Trajan’s Army on Trajan’s Column ( London : British School at Rome, 1982).
L. Rossi and J.M.C. Toynbee, Trajan’s Column and the Dacian Wars (Ithaca: Cornell University Press, 1971).
E. Togo Salmon, “Trajan’s Conquest of Dacia,” Transactions and Proceedings of the American Philological Association 67 (1936), pp. 83-105.
S. Settis et al., La Colonna Traiana (Turin: G. Einaudi, 1988).
H. Stuart-Jones, “The Historical Interpretation of the Reliefs of Trajan’s Column,” Papers of the British School at Rome 5 (1910), pp. 433-59.
E. Wolfram Thill, “Civilization under Construction: Depictions of Architecture on the Column of Trajan,” American Journal of Archaeology 114.1 (Jan., 2010), pp. 27-43.
M. Wilson Jones, “One Hundred Feet and a Spiral Stair: Designing Trajan’s Column,” Journal of Roman Archaeology 6 (1993) 23-38.
M. Wilson Jones, “Trajan’s Column,” chapter 8 in Principles of Roman Architecture (New Haven: Yale University Press, 2000) pp. 161-176.

Artigo publicado em 21/11/2019.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 32 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

Comentários dos visitantes

Ícone alerta azul

Contribua para um debate inteligente e educado na internet. Não seja um troll.