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História dos Reinos Bárbaros - Vol. 2 - A Civilização

Livros > Idade Média  |  373 visualizações

Capa do livro História dos Reinos Bárbaros - Vol. 2 - A Civilização, de Mario Curtis Giordani
Autor: Mario Curtis Giordani
Páginas: 373
Editora: Vozes
Primeira publicação: 1970
Ano da edição: 1976
Idioma: Português
Skoob: Acessar

Sinopse:

Uma visão de conjunto dos principais aspectos da Civilização Ocidental na época que se inicia com as invasões e que se encerra com a morte de Carlos Magno. Pesquisa criteriosa, minucioso estudo das estruturas político-sociais de cada um dos Reinos Bárbaros e preciosas considerações sobre a economia das épocas merovíngia e carolíngia.


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Análise do livro

GIORDANI, Mario Curtis. História dos Reinos Bárbaros - Vol.2 A Civilização. Petrópolis: Vozes, 1976.

Esse livro é dedicado a descrição da civilização européia entre os anos de 476 e 800 na Europa Ocidental. A obra é um complemento ao primeiro volume que trata dos acontecimentos políticos do período.

Como já comentei em outras ocasiões, Mario Curtis Giordani tem um estilo bem característico de organização de suas obras. Elas são divididas em vários capítulos onde cada aspecto da sociedade é trabalhado separadamente. Por um lado isso facilita o acesso rápido às informações,  mas ao mesmo tempo a obra se torna pouco fluida e até repetitiva, com certas informações sendo reiteradas em praticamente todos os capítulos.

Essa obra conta com 9 capítulos, um para cada aspecto da sociedade da Alta Idade Média: Política e sociedade, Economia, Direito, Educação e Literatura, Filosofia, Artes, Vida Cotidiana, Igreja e o Legado.

Em termos de contéudo essa é uma obra enciclopédica, com uma vasta quantidade de informações, mas a escrita não é descomplicada, então a leitura se torna lenta e as vezes não muito agradável. Os capítulos sobre Política e Direito, por exemplo, são ricos em informação, mas a escrita é complicada, e o desejo do autor de contar separadamente as características de cada um dos reinos bárbaros (visigodo, ostrogodo, franco, anglo-saxão, etc) torna a leitura cansativa e repetitiva. Giordani dá bastante destaque aos reinos Merovíngio e Carolíngio, o que é justificado já que eles foram os mais importantes e que tiveram uma influência maior no desenvolvimento da Europa.

Alguns temas são muito interessantes: eu chamo a atenção para os capítulos sobre Economia (2), Educação e Literatura (4) e Vida Cotidiana (7). O capítulo sobre Direito (3) também têm informações muito importantes sobre a questão da Personalidade das Leis, em oposição ao princípio da Territorialidade das Leis. Mas novamente, devido a uma linguagem desnecessariamente rebuscada, o uso constante do "Juridiquês" e ao hábito que o autor possui de querer citar cada detalhezinho conhecido (mesmo quando eles são irrelevantes), a leitura fica um pouco cansativa.

O capítulo sobre a Estrutura Política e Social (1), é outro exemplo: essa parte da obra ocupa quase 80 páginas porque o autor sentiu a necessidade de registrar cada detalhezinho sem importância de cada um dos reinos. Giordani realmente não tem uma grande capacidade de síntese, e essa percepção é muito necessária para o ensino da História. Ao mesmo tempo, o capítulo que fala da Vida Cotidiana, e que trata de um tema muito útil para o melhor entendimento do vida do homem medieval, é resumido em cerca de 25 páginas. A questão da relíquias religiosas, por exemplo, é comentada em 2 parágrafos! A caça e os divertimentos da vida cotidiana receberam menos de uma página!

A questão religiosa

Mario Curtis Giordani é um ex-seminarista formado em Filosofia e Teologia e - é necessário dizer - é um cristão ardoroso. Infelizmente ele não é nem um pouco confiável quando o assunto é a religião cristã, devido a sua incapacidade de demonstrar espírito crítico quando a reputação da Igreja está em jogo. Ele sempre amolece e justifica os atos cristãos, e como a Idade Média é um período marcado pelo poder do cristianismo, isso é algo que realmente causa sérios danos a história do período.

O autor chega ao ponto de criticar  alguns dos imperadores romanos do Baixo Império porque "nem sempre agem com energia e coerência" (p.286) contra o paganismo, e na página seguinte afirma que muitos pagãos se converteram ao cristianismo mas mantiveram sua mentalidade "em que predominavam a imoralidade, a cobiça, a sede de poder" (p.286), indiretamente afirmando que o cristianismo não apresentava nenhuma dessas características. Quando qualquer pessoa que conhece o minímo sobre a Igreja medieval sabe que ela era marcada pela corrupção e pela busca incessante pelo poder e pela riqueza, embora, é importante frisar, alguns de seus membros realmente adotassem com gosto uma vida mais modesta.

O problema de Giordani é que ele decide parabenizar as boas ações da igreja, mostrando a igreja como uma chama de civilização e esclarecimento em meio a um mar de ignorância, mas ignora e minimiza as ações imorais dessa instituição, sempre destacando que é preciso analisar o contexto. Um historiador não deve fazer julgamentos morais! Ponto final! A igreja era formada pelos homens de seu tempo, e esses homens tinham seu lado positivo, como o homem de qualquer período, e seu lado negativo e violento. Nas obras de Giordani a Igreja é, erroneamente, retratada como uma locomotiva que carregou o homem medieval nas costas e conseguiu, a muito custo, manter a civilização viva.

Mas uma coisa fica muito clara ao ler o capítulo sobre Educação e Literatura (4) e Filosofia (5): a Igreja como instituição teve um papel fundamental na destruição da racionalidade típica do périodo Clássico. A prática dos religiosos de ler as obras clássicas e ignorar tudo que não contribuía para fortalecer o argumento cristão é uma marca da Idade Média. O racionalismo destruído pela Patrística e pela Escolástica, duas correntes de pensamento do período Medieval, só iria começar a florescer novamente com o humanismo renascimenta e o Iluminismo. E graças a esse reflorescimento a civilização ocidental seria capaz de se voltar para a Ciência e à experimentação, que levariam a Revolução Industrial e aos seus avanços.

Para mais detalhes sobre as obras, confira as fotos e leia minhas anotações de leitura nos links acima dessa resenha.

Resenha publicada em 28/09/2020.

Foto do membro da equipe: Moacir Führ

Escrita por

Moacir Führ

Moacir tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

Trechos interessantes da obra

Sobre Odoacro, Teodorico e Clóvis e o respeito ao Basileu bizantino
É interessante notar que os chefes bárbaros do primeiro período estavam ainda possuídos de profunda admiração pela grandiosa estrutura político-administrativa do Império, fato esse que os levou muitas vezes a considerarem-se, ao menos teoricamente, como que lugar-tenentes dos imperadores ou uma espécie de gerentes de um território que, de fato, continuava romana. Pacaut exemplifica: "Em 476, tendo Odoacro tomado Ravena e despojado o imperador Rômulo Augusto da púrpura, não assumiu o título imperial. Permaneceu 'patrício' e remeteu a Constantinopla as insígnias do poder supremo, não por zombaria, como poderia parecer, mas porque ele se julgava indigno de usá-las e se considerava como um delegado da autoridade do César do oriente. Teodorico que, alguns anos mais tarde, o derrubou e assumiu o governo da Itália, agiu inicialmente em virtude de uma ordem imperial e manteve relações estreitas com Constantinopla. Clóvis, de seu lado, recebeu do imperador o título de Cônsul" (p.10)

Conceito de Estado era desconhecido no início da Idade Média
A ideia de Estado, conceito e organismo que contém, define e coordena os deveres e os direitos dos indivíduos e dos grupos e força-os a cumpri-los e respeitá-los, estava ausente da realidade da Idade Média nascente; a forma e a atração que lhe havia dado Roma encontravam-se quase ignoradas. O pensamento segundo o qual poderia existir um território politicamente governado em virtude de uma verdadeira soberania, para a satisfação do interesse geral e não para a satisfação do chefe e de suas tropas, era desconhecido. (citação de citação, p.11)

Trecho da carta de um rei burgúndio ao Basileu bizantino (c. 491-518)
Meus antepassados foram sempre devotados ao Império. Nada lhes causou maior honra que os títulos conferidos por Vossa Grandeza. Todos os meus pleitearam com empenho as dignidades que os imperadores conferem, tendo-as em mais alta estima que as recebidas de seus pais... À morte de meu pai, que era vossos fiel, enviei-vos um dos meus conselheiros, como era meu dever, para colocar sob vosso patrocínio os inícios de meu serviço. Meu povo vos pertence. Eu vos obedeço ao mesmo tempo que eu o governo. Tenho mais prazer em vos obedecer que em governá-lo. Entre os meus apareço como rei mas não sou mais que vosso soldado. Por meu intermédio, vós administrais as regiões que se encontram mais afastadas de vossa residência. Aguardo as ordens que vos dignardes dar-me. (p.44)

Desculpa do rei ostrogodo Atalarico (r.526-534) para que apenas godos ocupem função militar
(...) em mensagem enviada ao povo romano (526): "Entre nós as regras de direito são as mesmas para todos, quer sejam godos, quer sejam romanos. A única diferença existente entre uns e outros é que os godos assumem os cargos militares no interesse comum a fim de que vós, romanos, possais gozar tranquilamente dos benefícios da civilização romana." (p.135)

Sobre a importância da Renascença Carolíngia
É sobretudo a renascença das letras sob Carlos Magno que salvou a cultura latina; a maior parte de nossos manuscritos, com efeito, foram copiados na época chamada renascença carolíngia e quase todos aqueles que lhe são posteriores, remontam a cópias executadas na mesma época. Foi graças a Alcuíno e à escola do Palácio que as obras puderam, assim, a atingir a grande Renascença começada na Itália desde o século 12; Petrarca, le Pogge, Boccacio assinalaram-se por seu entusiasmo em procurar os manuscritos que dormiam nas bibliotecas dos mosteiros (descoberta dos manuscritos das Cartas de Cícero, do Brutus, etc...). No fim do século 15, a era dos manuscritos está finda, e a transmissão das obras é assegurada pela imprensa. (citação de citação, p.177)

Do século 7 ao 13 a única educação era aquela ministrada por monges
Note-se que as ordens monásticas não fizeram da educação sua finalidade principal. O estudo era aí essencialmente um meio e não um fim. Contudo "é verdade que, do sétimo até o início do décimo terceiro século, não houve praticamente nenhuma outra educação senão a ministrada pelos monges". Assim é que os mosteiros constituíram as instituições educacionais por excelência da época dos Reinos Bárbaros. Eram, segundo Monroe, as únicas escolas: "ministrava a única preparação profissional; eram as únicas universidades de pesquisa; as únicas casas editoras para multiplicação de livros; as únicas bibliotecas para a conservação do saber e preparavam os únicos sábios e estudiosos da época. Suas atividades eram, em cada um desses aspectos, limitadas e escassas. Mas também as oportunidades eram limitadas, e embora fossem grandes as necessidades, a consciência social dos tempos pouco reclamava". (p.182)

Os limites da educação religiosa entre o século 5 e 8
Seria um anacronismo projetar sobre essas primeiras escolas religiosas do 5-8 séculos as ricas aspirações humanísticas que nutrirão a renascença carolíngia ou aquela do século 12. Longe de tirar todo o partido possível dos magros conhecimentos que lhe são ainda acessíveis, os mestres dessas idades obscuras procuram afastar o mais possível seus discípulos de uma cultura por demais acolhedora da tradição profana. (citação de citação, p.184)

Mario Curtis Giordani

Mário Curtis Giordani é um gaúcho nascido em 1921. Cursou Filosofia, Teologia e tem bacharelado e licenciatura em Letras Clássicas. Também é bacharel em Direito e já foi professor universitário de Filosofia e Direito romano. É autor de mais de 10 livros de História, com livros que vão desde a Antiguidade até a Idade Moderna.

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