A cidade da Babilônia

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A cidade da Babilônia no século 6 a.C. Ilustração moderna, autor desconhecido.

Tradução feita a partir de texto publicado na seção Ensaios (Essays) do site do Museu Metropolitano de Artes de Nova York. O artigo original pode ser conferido aqui. O texto foi escrito por Michael Seymour, do Departamento do Antigo Oriente Próximo, em junho de 2016, e não possui bibliografia, mas o autor acrescentou ao texto uma lista de leituras recomendadas. Essas indicações foram colocadas no espaço reservado as referências bibliográficas. O artigo possui várias fotos, algumas foram colocadas aqui, também tomei a liberdade de procurar por fotos e as adicionei ao texto visando torná-lo mais ilustrativo.

A cidade de Babilônia ficava no rio Eufrates, no sul da Mesopotâmia, no que hoje é o Iraque. Embora não esteja entre as cidades mais antigas nesta parte do mundo (a mais antiga das quais é normalmente considerada Uruk), na antiga mitologia mesopotâmica, passou a ser vista como a primeira cidade, feita na criação do mundo pelo seu deus patrono, Marduk. Hoje pouco se sabe das origens reais da cidade; aparece primeiramente em textos no final do terceiro milênio a.C.

A localização da Babilônia e das principais cidades de seu tempo. Em vermelho a localização da atual capital do Iraque, Bagdá.

A Babilônia ganhou destaque no século 18 a.C. quando, através de uma combinação de alianças políticas e campanhas militares, Hamurabi (reinado 1792–1750 a.C.) conseguiu unir um grande estado sob seu comando. Uma placa de terracota mostra um rei da Mesopotâmia desse período em pose heróica, enquanto jóias finamente feitas de ouro incorporando símbolos divinos dão uma ideia do luxuoso trabalho em metal do período; alguns exemplos maiores de escultura também sobrevivem. Desta época em diante, a Babilônia continuaria a cidade mais importante no sul do Iraque (Babilônia) até o tempo de Alexandre.

Placa com imagem de rei ou deus carregando um bastão. Cerca de 2000-1700 a.C. 21 cm de altura. MET. N° 32.39.2Colar pingente e miçangas em ouro. Século 18-17 a.C. MET. N° 47.1a-h

A Babilônia foi governada pelos sucessores de Hammurabi até 1595 a.C., quando uma incusão hitita na Mesopotâmia chegou a Babilônia, trazendo um dramático fim ao que os historiadores hoje chamam de Período Babilônico Antigo . Com o tempo, uma nova dinastia surgiu. Os novos governantes, não-babilônios conhecidos como Cassitas, adotaram convenções babilônicas em sua iconografia e inscrições reais.

A arte do período Cassita é mais conhecido por um tipo de monumento de pedra conhecido como kudurru. Esses monumentos, que antes eram considerados pedras de fronteiras colocadas para demarcar campos (mais provavelmente eram colocadas em templos), carregavam inscrições detalhando concessões de terra, muitas vezes pelo rei para altos funcionários, além de uma vasta quantidade de imagens religiosas. As imagens, que incluíam símbolos astrais, animais e outros atributos divinos associados a deuses particulares serviram para santificar e proteger o compromisso assumido no texto.

Kudurru Cassita com 37 cm de altura. Cerca de 1100 a.C. Museu Britânico. N°: BM 102485

Selos cilíndricos de período Cassita também são distintos. Os desenhos de muitos deles são compostos de uma longa e piedosa inscrição dedicatória e a imagem de um rei ou às vezes outras figuras em posição de oração. A arte babilônica sempre colocou uma forte ênfase na piedade do rei, e imagens similares ocorrem em toda a história da Mesopotâmia. Em alguns selos, o rei é substituído por uma deusa, Lama, que na arte mesopotâmica é frequentemente retratada intercedendo ou orando por um doador humano para uma divindade mais poderosa.

A mesma deusa é representada nos pingentes de colar acima, e um monumento de pedra (mostrado no início do artigo), também do período Cassita, retrata Lama em larga escala.

O final do segundo milênio a.C. viu o poder sobre a Babilônia mudar de mãos várias vezes, com a Babilônia caindo brevemente sob dominação assíria. Mais traumatizante foi o saque da cidade por um exército do Elam, no sudoeste do Irã, por volta de 1159 a.C.

Vários tesouros, incluindo a estátua de culto de Marduk, a divindade patronal da Babilônia, foram levados para a capital elamita em Susa. A estátua foi mais tarde recuperada por Nabucodonosor I (reinado 1125-1104 a.C), mas o período de autogoverno babilônico que se seguiu foi encerrado no século 8 a.C., quando a região foi incorporada ao crescente império neo-assírio.

O domínio assírio na Babilônia enfrentou freqüente e violenta oposição, mas os reis assírios reverenciavam os grandes templos do sul da Mesopotâmia e procuravam ser reconhecidos como reis legítimos da Babilônia. Quando o rei assírio Senaqueribe (reinado 704–681 a.C) saqueou a cidade em 689 a.C. durante a repressão a uma rebelião, o ato foi considerado tão sacrílego que seus sucessores evitavam mencioná-lo em inscrições, aludindo, em vez disso, a um desastre natural. Um cilindro descreve o trabalho de restauração na Babilônia feito pelo filho e sucessor de Senaqueribe, Esarhaddon (r. 680–669 a.C.).

Rei assírio Senaqueribe. Ilustração moderna, autor desconhecido.

Esarhaddon, por sua vez, tentou resolver o problema tornado um de seus filhos, Assurbanipal (reinado 668–627 a.C.), rei da Assíria e do império, e outro, Shamash-shum-ukin (reinado 667–648 a.C.), rei da Babilônia. Os dois irmãos governaram desta forma por dezesseis anos, mas finalmente o próprio Shamash-shum-ukin se rebelou, levando a quatro anos de guerra e um cerco devastador da Babilônia. Assurbanipal saiu vitorioso e instalou um rei fantoche, Kandalanu (reinado 647-627 a.C.), no trono babilônico. Em uma geração, no entanto, o império assírio entrou em colapso e ficou ameaçado diante de uma ressurgente Babilônia.

Tablete de argila com carta de Sin-sharra-ishkun ao rei babilônio Nabopolassar. Cópia feita no século 2 a.C. MET. Número de registro: 86.11.370a, c–e.

Uma cópia posterior de uma carta (veja abaixo) preserva um apelo de um dos últimos reis da Assíria, Sin-shar-ishkun (reinado 622–612 a.C.), aparentemente implorando para manter seu trono fazendo uma aliança com o rei babilônico Nabopolassar (reinado 625–605 a.C.) . Nesta fase, porém, o estado assírio estava condenado: Nabopolassar e seu filho Nabucodonosor II (reinado 604-562 a.C.) chegaram a governar a maior parte do antigo império assírio, uma faixa de território que ia das margens do Golfo Pérsico até o mar Mediterrâneo.

Cilindro em cuneiforme com inscrições do rei Nabucodonosor II descrevendo a reconstrução da muralha externa da cidade da Babilônia. Cerca de 604-562 a.C. Tamanho: 12 x 7 cm. MET. Número de acesso: 86.11.60.

Nabucodonosor II tomou seu nome do rei que havia recuperado a estátua de Marduk de Susa. O último rei acabou por se tornar muito mais famoso do que seu antecessor, no entanto: é Nabucodonosor II que aparece na Bíblia. Como rei da Babilônia, ele reconstruiu grande parte da cidade, construindo uma capital imperial com vastos palácios e templos bem equipados, muralhas colossais e um grande ponto de entrada ao norte, o Portão de Ishtar, que ficava ao fim da viva Processional. Esse caminho era forrado com relevos coloridos de tijolo envidraçado representando leões rugindo.

Leões nas paredes da Via Processional. Museu de Pérgamo, Alemanha.

Nesse período, acredita-se que a Babilônia tenha sido a maior cidade do mundo. Sua população era certamente muito cosmopolita: Nabucodonosor continuou a prática assíria de mover grandes grupos de pessoas por todo o império, a fim de romper potenciais centros de oposição, fornecer trabalho ou ambos. No caso do estado de Judá e da cidade de Jerusalém, tais atos lhe renderam a infâmia bíblica. A poderosa linguagem usada contra a Babilônia pelos profetas bíblicos acabaria sendo incorporada às visões cristãs do Apocalipse.

Em contrapartida, os reis babilônicos viam e se apresentavam como figuras piedosas, como pode ser visto na ênfase na restauração do templo nas próprias inscrições de Nabucodonosor, ou nos muitos selos do período, geralmente mostrando uma única figura diante de altares e símbolos divinos, muitas vezes incluindo o deus Marduk e seu filho Nabu.

O Império Neo-babilônico teve vida curta: em 539 a.C., Ciro II da Pérsia conquistou a cidade, construindo um vasto novo império centrado sobre o Irã. Este não foi de modo algum o fim da própria Babilónia: a cidade manteve a sua importância e continuaria como uma das várias capitais reais da Pérsia aquemênida. Duzentos anos depois, quando este império caiu, Alexandre pretendia que a Babilônia fosse a capital de seu novo império asiático. Ele morreu na cidade em 323 a.C., antes que esses sonhos pudessem ser realizados.

Busto de Alexandre o Grande feito por volta do século 2 ou 1 a.C e encontrado em Alexandria, Egito. 37 cm de altura. Museu Britânico. N° 1872,0515.1

Das guerras de sucessão que se seguiram, Seleuco I Nicator emergiu como a força dominante na parte asiática do império de Alexandre. Ele fundou uma nova cidade, Selêucia, no Tigre, que gradualmente suplantaria a Babilônia. A cidade mais velha sobreviveu, e a presença de um teatro ao estilo grego e outras descobertas no local mostram como a cultura helenística influenciou a antiga capital durante os períodos Selêucida e Parta, mas a partir de então a Babilônia começou a encolher.

Foi saqueada por um exército parta no século 2 a.C. e não se recuperou mais, embora uma grande quantidade de tábuas de argila mostre que as instituições do templo da cidade continuaram como um dos últimos centros da erudição cuneiforme: os últimos textos cuneiformes datados foram feitos no século 1 d.C. As aldeias permaneceram nas margens do vasto local, como de fato o fazem hoje, e o viajante medieval Benjamin de Tudela descreveu uma comunidade judaica substancial lá. A última referência a uma aldeia viva, na verdade chamada Babil, no local, vem do século 10, no período abássida. Também no século 10, uma nova cidade, Hillah (originalmente chamada al-Jami'ayn), foi fundada nas proximidades.

Tijolo com inscrição de Nabucodonosor II. Cerc a de 604-562 a.C. Tamanho: 32 x 32,5 cm. Museu Britânico. N° 90081

Os tijolos cozidos inscritos da Babilônia de Nabucodonosor foram um importante material de construção para os novos assentamentos e continuaram a ser reciclados para uso em novas construções no início do século 20, quando os escavadores de Babilônia relataram tê-los visto incorporados em casas da cidade. Nas últimas décadas , o sítio da Babilônia sofreu danos consideráveis devido a reconstruções problemáticas de edifícios antigos, várias construções modernas e obras de terraplanagem em larga escala. Além da interrupção do trabalho de conservação regular e, desde 2003-2004, devido a presença de uma base militar no centro da cidade antiga.

A Babilônia reconstruída por Saddam Hussein. Danos irreparáveis foram feitos durante a reconstrução levada a cabo por fins políticos.

Hoje, os arqueólogos iraquianos estão trabalhando para conservar e administrar o local, que permanece entre os mais importantes de todo o mundo antigo.

Michael Seymour, do Departamento de Arte do Antigo Oriente Próximo, Museu Metropolitano de Arte de Nova York.  Junho 2016

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Colar pingente e miçangas em ouro
Placa com imagem de rei ou deus carregando um bastão
Kudurru Cassita
Carta de Sin-sharra-ishkun ao rei babilônio Nabopolassar
Cilindro em cuneiforme com inscrições do rei Nabucodonosor II descrevendo a reconstrução da muralha externa da cidade da Babilônia. Cerca de 604-562 a.C.
Tijolo cozido com inscrição do rei Nabucodonosor II

Colar pingente e miçangas em ouro

Essas jóias representam divindades ou símbolos de divindades. As duas figuras femininas provavelmente representam a deus protetora Lama. Os discos com raios emanando do centro representam o deus do sol Shamash. Os dois discos com rosetas granuladas podem ser símbolos de Ishtar. Colares semelhantes são encontrados em personagens reais nos relevos assírios e provavelmente serviam tanto como jóias como talismãs.

Século 18-17 a.C. MET. N° 47.1a-h

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Fontes bibiliográficas:

Aruz, Joan, Kim Benzel, and Jean M. Evans, eds. Beyond Babylon: Art, Trade, and Diplomacy in the Second Millennium B.C. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2008. Veja no MetPublications
Aruz, Joan, Sarah B. Graff, and Yelena Rakic, eds. Assyria to Iberia: At the Dawn of the Classical Age. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2014. Veja no MetPublications
Finkel, Irving L., and Michael Seymour, eds. Babylon. New York: Oxford University Press, 2009.
Leick, Gwendolyn, ed. The Babylonian World. London and New York: Routledge, 2009.
Oates, Joan. Babylon. 2nd ed. London: Thames & Hudson, 1986.
Seymour, Michael. Babylong: Legend, History and the Ancient City. London: I. B. Tauris, 2014.
Van De Mieroop, Marc. King Hammurabi of Babylon: A Biography. Oxford: Blackwell, 2005.

Artigo publicado em 29/09/2018.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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