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Heródoto fala sobre a ponte de Xerxes no Helesponto

Fontes primárias > Grécia Antiga  |  610 visualizações  |  10919 palavras  |  20,1 páginas

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Heródoto foi um historiador grego nascido em Halicarnasso, que viveu no século 5 a.C. Foi o autor de uma grande obra histórica conhecida como Histórias, nas quais narra, entre outros eventos, as Guerras Médicas (499-449 a.C.). A travessia do Helesponto pelo exército persa do imperador Xerxes ocorreu em 480 a.C. e, segundo Heródoto, as tropas persas cruzaram o estreito de 1300 metros de largura construindo duas pontes, uma delas usando 360 barcos e outra 314.

Imagem de capa: Uma das pontes de Xerxes. Ilustração moderna, autor desconhecido.

História, de Heródoto. Trecho do Livro VII - Polímnia - VI (6) à LVIII (58)

VI - Mardônio assim agia levado pela sede de aventuras e porque cobiçava o governo da Grécia. Conseguiu, realmente, com o concurso de outras circunstâncias, persuadir Xerxes a realizar essa empresa. Da Tessália vieram embaixadores a mando dos Aleuades, soberanos dessa região, especialmente para incitá-lo contra a Grécia, sendo secundados nos seus esforços pelos partidários de Pisístrato que foram ter a Susa, levando em sua companhia Onomácrites, célebre adivinho, que havia reunido todos os oráculos de Muséia. Onomácrites tinha sido expulso de Atenas por Hiparco, filho de Pisístrato, por haver vaticinado, com base num oráculo de Muséia, a submersão das ilhas vizinhas de Lemnos. Antes de irem a Susa, os partidários de Pisístrato reconciliaram-se com o adivinho. Chegando à presença do soberano persa, Onomácrites pôs-se a recitar-lhe os oráculos, silenciando sobre os que anunciavam alguma desgraça aos bárbaros, mas insistindo nos que prediziam acontecimentos felizes. Concluindo a apresentação dos oráculos, falou-lhe da passagem do exército persa pela Grécia, dizendo que estava escrito no livro do destino, que um persa ligaria, por meio de uma ponte, as duas margens do Helesponto.

VII - Deixando-se convencer pelas insinuações dos embaixadores dos Aleuades, dos partidários de Pisístrato e pelos oráculos apresentados por Onomácrites, Xerxes resolveu fazer guerra aos Gregos. Atacou primeiramente os Egípcios, no segundo ano da morte de Dario, e, derrotando-os, impôs-lhes um jugo mais severo do que o que haviam experimentado sob o reinado de seu pai, dando-lhes como governador Aquêmenes, seu irmão. Esse príncipe foi morto, pouco depois, por Inaros, filho de Psamético, rei da Líbia.

VIII - Submetido o Egito, Xerxes preparou-se para marchar contra Atenas. Convocou os principais da Pérsia, para expor-lhes os seus planos e ouvir-lhes as sugestões. Quando os viu reunidos, assim lhes falou: "Persas, não pretendo introduzir entre vós novos costumes, mas seguir aqueles que nos foram transmitidos pelos nossos ancestrais. Desde que Ciro arrebatou a coroa a Astíages, e desde que arrebatámos este império aos Medos, jamais ficamos inativos, como nos asseguraram nossos avós. Um deus nos conduz, e sob seus auspícios marchamos de vitória em vitória. Considero desnecessário falar-vos das façanhas de Ciro, de Cambises e de Dario, meu pai, bem como das províncias que acrescentaram ao nosso império; pois já estais perfeitamente a par de tudo isso. Quanto a mim, desde o momento que subi ao trono, cioso de não desmentir o sangue dos meus ancestrais, vivo a cogitar de como poderei dar aos Persas um poderio não menos considerável que aquele que me foi legado. Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que poderemos engrandecer mais e mais o nosso nome, conquistando um país em nada inferior ao nosso e até mesmo mais fértil, tendo, ao mesmo tempo, a satisfação de punir aqueles que nos injuriaram. Eu vos convoquei para fazer-vos conhecedores das minhas intenções. Pretendo, depois de haver construído uma ponte sobre o Helesponto, passar para a Europa e dirigir-me à Grécia, a fim de vingar meu pai e meu povo dos insultos dos Atenienses. Não ignorais que Dario tinha o firme propósito de marchar contra esse povo; mas a morte não lhe permitiu realizar seu intento. Cabe a mim vingar meu pai e os Persas, e não descansarei enquanto não me apoderar de Atenas e reduzi-la a cinzas. Seus habitantes, vós o sabeis, iniciaram as hostilidades contra meu pai, primeiro, vindo a Sardes com Aristágoras de Mileto, nosso escravo, e pondo fogo aos templos e aos bosques sagrados; em seguida, tratando-vos da maneira de que deveis estar bem lembrados, quando fostes à Grécia sob o comando de Dátis e Artafernes. Tudo isso me anima e impele a fazer a guerra contra os Atenienses. Quanto mais reflito, mais vantagens vejo nessa expedição contra eles. Se viermos a subjugá-los e a seus vizinhos, os habitantes do país de Pélope o Frígio, a Pérsia não terá outros limites senão o céu, e o sol não iluminará país algum que não nos pertença. Percorrerei a Europa inteira, e, com o vosso concurso, tornarei toda a terra num só império. Vencidos os Gregos, não haverá mais, ao que me asseguram, nação alguma que possa resistir-nos. Assim, culpados ou não, todos serão igualmente submetidos ao nosso jugo. Conduzindo-vos com acerto e bravura, sereis merecedores da minha estima e gratidão. Reuni aqueles que estiverem dispostos a seguir-vos e vinde, sem demora, ao local que designarei. Àquele que ali chegar com as melhores tropas, darei o que mais for do seu agrado. Assim prometo e cumprirei. Para vos mostrar que não quero regular tudo pelas minhas próprias idéias e sentimentos, permito-vos resolver entre vós este assunto, expondo-me, em seguida, o vosso ponto de vista".

IX - Calando-se Xerxes, Mardônio tomou a palavra: "Senhor, sois o maior de todos os Persas, não só dentre os que já existiram, como dos que ainda estão para nascer. Atentei bem para as palavras sensatas que acabais de pronunciar, e estou convencido de que não permitireis que os Iônios da Europa, esse povo vil e desprezível, nos insulte impunemente. Se, com o propósito único de alargar as fronteiras do nosso império, submetemos os Sácios, os Indianos, os Etíopes e várias outras nações poderosas, que nenhum ato de hostilidade haviam cometido contra nós, como poderíamos deixar impune a insolência dos Gregos, que nos insultaram sem razão plausível? Que temos a temer? O número de suas tropas? Seus recursos econômicos? Não ignoramos nem a sua maneira de combater, nem a sua fraqueza, já subjugamos aqueles de seus filhos que habitam nosso país e que são conhecidos pelos nomes de Iônios, Eólios e Dórios. Conheço bem as forças dos Gregos; já as experimentei quando marchei contra eles por ordem de vosso pai. Penetrei na Macedônia, e pouco faltou para que eu chegasse até Atenas, sem que tivesse encontrado resistência. A ignorância e a estupidez dos Gregos não lhes permitem, ordinariamente, agir com prudência na guerra. Eles sempre escolhem, como campo de batalha, a planície mais nua e mais extensa. Assim, vencedores e vencidos sofrem as mais pesadas perdas. Quanto à sua maneira de tratar os vencidos, confesso que a ignoro.

"Uma vez que todos os Gregos falam a mesma língua, não deviam resolver as pendências que surgem entre eles por intermédio de arautos e embaixadores, não deviam experimentar outros meios, antes de chegarem às vias de fato? E se se torna necessário resolvê-las pelas armas, não deviam escolher um terreno mais propício à defesa para uns e para outros? Por causa desse costume de tentar a sorte das armas em campo aberto, os Gregos não ousaram oferecer-me combate quando cheguei até a Macedônia. Serão eles, por conseguinte, capazes de opor-se a vós, senhor, que ireis conduzindo as mais poderosas forças de terra e mar da Ásia? Não acredito que eles ousem oferecer-vos resistência. Se, entretanto, eu estiver enganado; se a sua insensatez levá-los a medir forças conosco, aprenderão que somos, de todos os homens, os mais bravos e os mais hábeis na arte da guerra. De uma maneira ou de outra, cabe-nos estar bem preparados para a empresa. Nada se realiza por si mesmo, e o sucesso é, geralmente, o preço de um grande esforço". Assim, Mardônio com sua habitual habilidade procurou atenuar o que podia haver de excessivamente duro no discurso que Xerxes proferira.

X - Como os outros Persas guardassem silêncio, não ousando emitir uma opinião contrária, Artábano, filho de Histaspes, tio de Xerxes pelo lado paterno, manifestou-se nestes termos: "Senhor, quando, em um conselho, as idéias não são compartilhadas por todos, não se pode escolher a melhor; tem-se que confiar naquele que as expôs. Quando, porém, todos delas compartilham, escolhe-se a mais vantajosa, da mesma maneira por que se distingue o ouro puro: confrontando umas com as outras. Aconselhei o rei Dario, vosso pai e meu irmão, a não fazer guerra aos Citas, pois que nenhuma vantagem lhe adviria subjugando povos nômades, que nem cidades possuem. Dario, entretanto, levado pelo desejo de dominá-los, repeliu o meu conselho, e o resultado foi uma expedição malograda, da qual voltou sem suas melhores tropas. Por isso, senhor, já que vos dispondes a marchar contra homens mais bravos e mais adestrados que os Citas, é justo que eu vos advirta dos perigos que ides correr.

"Dizeis que, depois de haver lançado uma ponte sobre o Helesponto, passareis para a Europa com o vosso exército para ir ter à Grécia. Pode bem acontecer sermos batidos em terra ou no mar, ou tanto num como noutro, pois esse povo tem fama de bravo, fama essa que não parece sem fundamento, uma vez que os Atenienses sozinhos derrotaram o poderoso exército que penetrou na Ática sob o comando de Dátis e Artafernes. Mas, suponhamos que eles não consigam bater-nos em terra e no mar a um só tempo; se nos oferecerem combate naval e, depois de haver-nos derrotado, destruírem a ponte sobre o Helesponto, encontrar-nos-emos, então, senhor, em grande perigo.

"Essas minhas conjecturas não estão baseadas na minha simples prudência, mas na terrível experiência por que passámos quando o rei, vosso pai, tendo mandado lançar uma ponte sobre o Bósforo da Trácia e outra sobre o Íster, passou para a Cítia. Então os Citas tudo fizeram para que os Iônios, a quem havia sido confiada a guarda da ponte, a destruíssem, e se, nessa ocasião, Histeu, tirano de Mileto, não fosse de parecer contrário ao dos outros tiranos, que não seria feito dos Persas e do Império? Trememos só ao pensar que a sorte do rei dependeu de um único homem.

"Convém, pois, senhor, que reflitais sobre os azares da guerra, antes de expor-vos a tão grandes perigos, que reputo absolutamente desnecessários. Segui os meus conselhos, dissolvei esta assembléia; fazei novas e maduras reflexões, e quando julgardes oportuno, dai as ordens que vos parecerem mais acertadas. Considero mais proveitosas as deliberações tomadas depois de prolongadas conjecturas, pois, mesmo que os resultados não correspondam à nossa expectativa, resta-nos a satisfação de havermos decidido com sabedoria; a falta de sorte é que terá suplantado a nossa prudência. Quando tomamos uma decisão apressada, mesmo que a fortuna nos favoreça, o sucesso não impede de pensarmos que agimos perigosa e inconsideradamente.

"Não vedes que Deus lança o raio sobre os animais mais fortes, exterminando-os, poupando os pequenos e mais fracos? Não vedes que a faísca mortífera cai sempre sobre os edifícios mais altos e sobre as árvores de maior porte? Sabeis por quê? Porque Deus se compraz em fazer baixar tudo que se eleva. Assim, também, um grande e poderoso exército é, muitas vezes, destroçado por outro pequeno, e isso pela vontade de Deus, que não permite que simples mortais se elevem e se glorifiquem tanto quanto Ele próprio. A precipitação acarreta erros que ocasionam desgraças irreparáveis. A ponderação, ao contrário, traz-nos sempre vantagens. Se não as percebemos imediatamente, viremos a reconhecê-las com o tempo.

"São esses, senhor, os conselhos que tomo a liberdade de vos dar. Quanto a ti, Mardônio, filho de Góbrias, não tires deduções apressadas e talvez falhas sobre os Gregos, que não merecem que deles se fale com desprezo. Caluniando-os, incitas o rei a marchar em pessoa contra esses povos. Eu te exorto, em nome dos deuses, a que não te entregues à calúnia, o mais odioso de todos os vícios e uma injustiça que se pratica contra um semelhante. O caluniador viola todas as regras da eqüidade quando aquele a quem acusa está ausente. Não menos culpado é o que lhe dá fé antes de estar bem informado sobre o caso. O ausente, enfim, recebe uma dupla injúria, ao ser pintado com cores falsas por um e aceito sob esse aspecto por outro.

"Se, todavia, é forçoso fazer-se guerra aos Gregos, que o rei, pelo menos, permaneça na Pérsia, e que os nossos filhos respondam perante ele pelos nossos conselhos. Quanto a ti, Mardônio, leva contigo as melhores tropas e o maior número de soldados possível; coloca-te à testa da empresa, e se alcançares os sucessos que prometes ao rei, que me tirem a vida a mim e a meus filhos. Se acontecer o que prevejo, que a punição recaia sobre os teus e sobre ti também, caso voltes da expedição. Se não queres aceitar essas condições e teimas em marchar contra a Grécia, asseguro-te que os que aqui ficarem saberão que Mardônio, depois de pôr em jogo a segurança dos Persas, foi servir de pasto aos cães e aos pássaros nas terras dos Atenienses ou nas dos Lacedemônios, a menos que essa desgraça não lhe suceda em caminho, mostrando ao rei que espécie de homens o persuadem a fazer a guerra".

XI - Esse discurso de Artábano encheu Xerxes de furor. "Se não fosses irmão de meu pai - disse ele -, receberias o merecido castigo pelas tuas palavras insensatas; mas como és um covarde, um homem sem brio, punir-te-ei de outra maneira: não irás comigo à Grécia; ficarás aqui com as mulheres. Executarei, mesmo sem ti, todos os meus planos. Que não me considerem mais filho de Dario, que contava entre seus ancestrais Histaspes, Arsames, Armnes, Teispes, Ciro, Cambises e Aquêmenes, se eu não me vingar dos Atenienses. Sei muito bem que se não os atacarmos seremos, mais cedo ou mais tarde, por eles atacados, como é fácil deduzir pelas suas façanhas anteriores, pelo incêndio de Sardes e pelas tropelias que já fizeram na Ásia. Não podemos mais, nem nós nem eles, recuar, ou iremos sobre eles, ou eles virão sobre nós; ou as nossas terras passarão para o domínio dos Gregos, ou toda a Grécia para o nosso. Não há meio termo; a inimizade que reina entre as duas nações não o permite. Convém vingar as injúrias que esses povos nos fizeram em primeiro lugar, a fim de que eu possa julgar do perigo oferecido por uma nação subjugada por Pélope o Frígio, escravo dos meus ancestrais".

XII - Foram essas as palavras de Xerxes encerrando aquela movimentada assembléia. Ao chegar a noite, porém, Xerxes, já mais calmo e mais senhor de si, pôs-se a refletir sobre as advertências feitas por Artábano, chegando à conclusão de que não seria, realmente, vantajoso realizar uma expedição contra a Grécia. Assim conjecturando, adormeceu, e em sonhos julgou ver, segundo contam os Persas, um homem de grande estatura e de belas feições, que lhe dizia o seguinte: "Então, rei da Pérsia, já não queres fazer guerra à Grécia, depois de haveres ordenado a mobilização de um grande exército? Não procedes com acerto, mudando assim de resolução; ninguém aprovará tua conduta. Se queres confiar em mim, segue o caminho que traçaste durante o dia". Ditas essas palavras, a visão desapareceu como que voando.

XIII - No dia seguinte, Xerxes, sem dar nenhuma importância a esse sonho, convocou as mesmas pessoas que reunira na véspera, e falou-lhes nos seguintes termos: "Peço que me perdoem se mudo de resolução. Ainda não atingi esse grau de prudência a que devo algum dia chegar. Aliás, sentia o espírito um tanto perturbado ante as contínuas exortações que me faziam para levar a cabo a empresa que ontem discutimos aqui; e quando ouvi a sugestão de Artábano, deixei-me de tal maneira levar pelos ímpetos da mocidade, que cheguei a falar de maneira pouco conveniente com uma pessoa que pela sua idade é merecedora de toda consideração. Reconheço agora a minha falta e decidi seguir os seus conselhos. Ficai tranqüilos; renuncio a fazer guerra à Grécia".

XIV - Arrebatados com essa declaração, os Persas presentes prosternaram-se diante do rei. Na noite seguinte, a mesma visão apresentou-se novamente em sonhos a Xerxes, dizendo-lhe: "Filho de Dario, renunciaste, perante a assembléia dos Persas, à expedição contra a Grécia, sem nenhuma atenção à sugestão que te fiz, como se não a tivesses compreendido. Advirto-te que, se não te pões imediatamente em marcha, sofrerás as conseqüências da tua obstinação: de grande e poderoso que te tornaste em pouco tempo, também em pouco tempo te tomaras pequeno e humilde".

XV - Aterrorizado com essa visão, Xerxes saltou do leito e mandou chamar Artábano. "Artábano - disse-lhe, assim que o viu chegar -, não estava no meu bom senso quando retruquei aos teus conselhos com palavras injuriosas; mas, logo me arrependi e reconheci que tinhas razão. Não posso, entretanto, embora seja esse o meu desejo, renunciar ao meu propósito, e digo-te por que: Quando já tinha mudado de resolução, apareceu-me, em sonho, uma visão insinuando-me que devia levar avante a minha idéia e fazendo-me terríveis ameaças caso eu voltasse atrás. Se é um deus quem ma envia, desejando decididamente que eu faça guerra à Grécia, acredito que ela te aparecerá também, sugerindo-te o mesmo que a mim, se envergares os meus trajes reais e, depois de haveres sentado no trono, deitares no meu leito".

XVI - A princípio, Artábano negou-se a aceitar o convite, porque não se julgava digno de sentar-se no trono real, mas, ante a insistência do soberano, acabou acedendo, depois de haver-lhe falado desta maneira: "Grande rei, considero tão glorioso seguir um bom conselho, como tê-lo dado. Reconheço a vossa grandeza e a vossa magnanimidade, que a companhia dos maus ameaça prejudicar. A vós pode-se bem aplicar o que se diz do mar: Nada mais útil aos homens do que o oceano; mas o sopro impetuoso dos ventos agita-o, tirando-lhe a calma natural. Quanto às vossas palavras, que vós mesmo reputais de injuriosas, senti-as menos do que ver que de dois conselhos, um tendente a aumentar a insolência dos Persas, e o outro a reprimi-la, mostrando como é perigoso aos homens não imporem limites aos seus desejos, escolhestes o mais perigoso para vós e para a nação. Agora, quando já tínheis reconsiderado a vossa atitude e optado pelo melhor partido, renunciando à expedição contra a Grécia, dizeis que uma visão enviada por um deus vos proíbe de desmobilizar o exército que levantastes. Tais sonhos, senhor, nada encerram de divino; ocorrem por acaso e provêm de objetos e coisas em que concentramos o pensamento durante o dia. Ora, como sabeis, no dia anterior, a expedição à Grécia foi assunto bastante debatido no conselho. Se, porém, esse sonho encerra, como dizeis, algo de divino, é, com efeito, provável que a visão se apresente a mim, revestido como estarei nas vossas vestes reais, ordenando-me o mesmo que ordenou a vós. Convém, todavia, observar que, se ela quiser revelar-se mais uma vez, logo perceberá, embora eu esteja em vossas vestes, que não sou o rei. Se pelo simples fato de eu envergar os vossos trajes, ela se revelar a mim, tomando-me por vós, então é porque nada encerra de divino. Se, ao contrário, apresentar-se unicamente a vós, será porque há nela, realmente, um desígnio superior. Em todo caso, estou pronto a obedecer às vossas ordens, deitando-me no vosso leito; mas, enquanto essa visão não se revelar a mim, manterei minha opinião a respeito".

XVII - Depois de haver assim falado, Artábano, esperando poder provar a Xerxes que o sonho nada significava, fez o que ele lhe havia ordenado. Vestiu seus trajes reais, sentou-se no trono e depois recolheu-se ao leito. Logo que adormeceu, surgiu-lhe em sonho a mesma visão que se apresentara a Xerxes, dirigindo-lhe estas palavras: "Então és tu quem procura demover Xerxes da sua expedição contra a Grécia, como se pudesses dirigir as suas ações? És tu quem se opõe ao destino? Pois bem, serás, por isso, punido no presente e no futuro. Quanto a Xerxes, já lhe fiz ver as desgraças a que estará sujeito se desobedecer".

XVIII - Tais as ameaças que Artábano julgou ouvir. Pareceu-lhe também que a visão queria queimar-lhe os olhos com um ferro em brasa. Despertando num grito, saltou do leito e foi à procura de Xerxes, relatando-lhe o acontecido. "Como já vi, senhor - falou ele, depois de fazê-lo ciente da visão que tivera -, nações poderosas serem destruídas por outras muito inferiores, procurei dissuadir-vos da empresa que tínheis em mente realizar e evitar que vos abandonásseis ao ardor da vossa mocidade, pois sei o quanto é perigoso nutrir desejos demasiadamente ambiciosos. Lembrando-vos o destino da expedição de Ciro contra os Masságetas; da de Cambises contra os Etíopes, e da de Dario contra os Citas, da qual ele fazia parte, desejava apenas poupar-vos algum desgosto promovendo essa guerra, contribuindo, assim, para a vossa tranqüilidade e felicidade. Mas, já que os próprios deuses vos incitam a essa empresa, parecendo ameaçar os Gregos com uma grande desgraça, dou-me por vencido e mudo de opinião. Comunicai aos Persas a visão que os deuses vos enviaram e dizei-lhes que, em vista do ocorrido, devem continuar os preparativos necessários para a expedição. Quanto a vós, senhor, conduzi-vos com prudência, para que a ajuda dos deuses não vos falte em nada que fizerdes".

Encorajado com a visão que se lhe revelara tão insistentemente, Xerxes, logo ao amanhecer, pôs os Persas a par de tudo, e Artábano, o único que se mostrara contrário à idéia da expedição, agora era o primeiro a estimulá-lo a realizá-la.

XIX - Enquanto Xerxes se preparava para marchar contra os Gregos, teve, durante o sono, uma terceira visão. Pareceu-lhe ter a fronte cingida por um ramo de oliveira, que, espalhando-se, cobria toda a terra. Comunicando o sonho aos magos, estes disseram-lhe que tal visão significava que todos os homens sobre a terra ficariam submetidos ao seu domínio. Logo após a interpretação desse sonho pelos magos, os Persas que haviam tomado parte no conselho reassumiram seus postos e puseram-se a executar, com todo ardor, as ordens do soberano, para receberem as recompensas prometidas.

XX - Xerxes realizou, então, o levantamento de tropas, buscando-as por todo o continente, e, submetido o Egito, levou quatro anos a armazenar provisões. Concluídos os preparativos, pôs-se em marcha, no quinto ano, à frente de poderosas forças. De todas as expedições de que temos conhecimento, foi essa, sem dúvida, a maior e a mais bem organizada, a ela não se podendo comparar nem a de Dario contra os Citas, nem a dos Citas, que, perseguindo os Cimérios, penetraram na Média e subjugaram quase toda a Ásia Superior, o que levou Dario, pouco mais tarde, a vingar-se deles. O mesmo podemos dizer da expedição dos Atridas contra Tróia e da dos Mísios e dos Teucros, que, antes da guerra de Tróia, transpuseram o Bósforo para lançar-se sobre a Europa. Tendo subjugado todos os Trácios, desceram em direção ao mar Iônio, avançando para o sul, até Peneu.

XXI - Essas expedições e todas as outras de que não fiz menção não podem, como disse, comparar-se com a de Xerxes. Realmente, que nação da Ásia não arrastou ele contra a Grécia, que rios não esgotou ele formando provisões de água para suas tropas, com exceção das grandes e caudalosas correntes d’água? Entre os povos mobilizados para essa guerra, uns forneceram navios; outros tropas de infantaria; outros cavalaria; estes, navios de transporte para os cavalos e tropas; aqueles, navios longos para o lançamento de pontes; outros, enfim, forneceram víveres e barcos para transportá-los. Os preparativos incluíram a perfuração do monte Atos, que, na expedição anterior, havia causado a perda da maior parte das unidades da frota persa, sacrificando grande número de vidas. Trabalhou-se ali durante três anos. Dos trirremes fundeados na enseada de Eleunte partiam destacamentos de todos os corpos do exército, os quais eram obrigados, a chicotadas, a perfurar o monte, revezando-se as turmas para apressar a tarefa. Os habitantes desse monte também ajudaram nos trabalhos de perfuração, que eram dirigidos por Bubares, filho de Megabizo, e Artaqueu, filho de Astreu, ambos persas de nascimento.

XXII - O monte Atos é uma vasta e famosa montanha, bastante habitada, que avança para o mar e termina no lado do continente, formando uma península, cujo istmo mede cerca de dez estádios. Nesse ponto estende-se uma planície pontilhada de pequenas colinas que vão do mar dos Acântios até o de Torone, situado em frente. No istmo, onde termina o monte Atos, ergue-se uma cidade grega denominada Sanos. Aquém dessa cidade e em volta do monte encontram-se as de Dio, Olofixo, Arcrotoon, Tissos e Cleonas.

XXIII - Vejamos como foi feita a perfuração dessa montanha. Traçou-se primeiramente uma linha reta até a cidade de Sanos, dividindo-se o terreno por nações. Quando o canal chegou a uma certa profundidade, enquanto uns continuavam a cavá-lo, outros iam entregando a terra solta aos que achavam nas escadas construídas para esse fim; estes passavam-na de mão em mão, até fazê-la chegar aos que se encontravam no alto, que então a levavam para longe dali. As bordas do canal ficaram abauladas, exceto na parte confiada aos Fenícios, dando aos homens duplo trabalho para nivelá-las. Isso tinha, fatalmente, de acontecer, porque o canal não tinha declive, apresentando, em cima e em baixo, a mesma largura. Foi aí que os trabalhadores fenícios revelaram todo o seu talento em se tratando de escavações. Para cavar a parte que lhes fora confiada, fizeram uma abertura bem maior do que a largura que o canal deveria ter, e, à medida que cavavam, iam estreitando-a, de sorte que o fundo acabou igual ao das partes confiadas às outras nações. Havia nas imediações um prado, onde eles instalaram um mercado, para onde transportaram uma grande quantidade de farinha vinda da Ásia.

XXIV - Acho que Xerxes mandou rasgar esse canal no monte Atos por uma questão de orgulho, a fim de dar uma demonstração do seu poder e legar um monumento à posteridade. Poder-se-ia levar, sem dificuldade alguma, os navios de um mar para o outro, através do istmo; mas ele preferiu abrir um canal comunicando-se com o mar, e bastante largo, de modo a poderem dois trirremes por ele navegar ao mesmo tempo. As tropas encarregadas de abri-lo tinham também ordem de construir uma ponte sobre o Estrímon.

XXV - Para a construção dessa ponte, o soberano persa mandou preparar cordames de linho e de biblos. Dando ordens aos Fenícios e aos Egípcios para transportarem os víveres destinados ao exército, a fim de que as tropas e os animais de carga que ele conduzia à Grécia não viessem a sofrer fome, informou-se da situação dos países que contribuíam para essa expedição e fez transportar, de todos os recantos da Ásia, grandes quantidades de farinha em navios apropriados para a travessia, mandando depositá-la nos lugares mais cômodos, parte num sítio, parte noutro. A maior parte dessa farinha foi levada para a costa da Trácia e depositada num lugar chamado Leuce Acte. Levaram-na também para Tirodize, nas terras dos Períntios, para a Dórica, para Éjon, sobre o Estrímon, e para a Macedônia.

XXVI - Deixando uma pequena parte de seus comandados entregues a essa tarefa, Xerxes partiu com um poderoso exército de terra, de Critália, na Capadócia, onde se haviam concentrado, de acordo com as suas ordens, todas as tropas que deviam acompanhá-lo por terra, e marchou em direção a Sardes. Não sei dizer qual foi o general que recebeu a recompensa que ele prometera a quem lhe trouxesse as melhores tropas, e ignoro mesmo se se chegou a tratar disso.

As forças persas, tendo atravessado o Hális, penetraram na Frígia, e, atravessando esse país, chegaram a Celenas, onde se encontram as nascentes do Meandro e as de um outro rio não menos considerável, a que se dá o nome de Cataratas. O Cataratas nasce justamente na praça pública de Celenas e se lança no Meandro. Vê-se, na cidadela, a pele do sileno Mársias, ali colocada por Apolo em figura de um simples mortal, segundo dizem os Frígios, depois de havê-lo esfolado.

XXVII - Pítio, filho de Átis, lídio de nascimento, morava nessa cidade. Recebeu Xerxes e as suas tropas com toda pompa e cortesia, e ofereceu-lhe dinheiro para as despesas da guerra, tendo o soberano perguntado aos Persas que se achavam presentes quem era esse Pítio e quais as suas posses para fazer-lhe tal oferecimento. "Senhor - respondeu um dos interrogados -, esse homem é o mesmo que fez presente a Dario, vosso pai, de um plátano e de uma vinha de ouro. É, depois de vós, o homem mais rico de que já tivemos conhecimento".

XXVIII - Surpreso com estas últimas palavras, Xerxes foi, ele próprio, inquirir Pítio sobre as suas riquezas. "Não pretendo ocultar-vos, grande rei, o montante das minhas riquezas. Dir-vos-ei com toda a franqueza. Ao saber da vossa vinda e tendo a intenção de vos oferecer dinheiro para a expedição, calculei as minhas riquezas e vi que possuía dois mil talentos de prata e quatro milhões de estáteres dáricos em ouro, menos sete mil. Ofereço-vos todo esse dinheiro, reservando para mim apenas os meus escravos e as minhas terras, que bastam para a minha subsistência".

XXIX - Xerxes, encantado com a oferta, disse-lhe: "Meu hospedeiro, desde a minha partida da Pérsia ainda não havia encontrado ninguém que quisesse dar acolhida às minhas tropas ou oferecer-me qualquer soma para cobrir as despesas com a expedição. Tu, porém, não contente de receber a mim e ao meu exército com cortesia e prodigalidade, ainda me fazes essa generosa oferta. Aceita, pois, em troca, a minha amizade; e, para que nada falte aos teus quatro milhões, dou-te os sete mil estáteres que não possuís, e a tua conta ficará redonda. Goza, tu sozinho, dos bens que adquiriste e procura ser sempre assim, como te mostraste para comigo; nunca haverás de arrepender-te, nem no presente nem no futuro".

XXX - Cumprindo a promessa de completar a soma declarada por Pítio, o soberano pôs-se em marcha, passando perto de Anava, cidade da Frígia, e de um lago de onde se extrai sal, e chegou a Colossos, outra grande cidade da Frígia, onde o Lico desaparece, precipitando-se num abismo, indo reaparecer mais adiante, para lançar-se no Meandro. Deixando Colossos, o exército atingiu Cidrara, na fronteira da Frígia com a Lídia, onde uma inscrição gravada numa coluna erguida por ordem de Creso indicava os limites dos dois países.

XXXI - Deixando a Frígia, Xerxes entrou na Lídia, onde a estrada se divide em dois braços. Um deles, à esquerda, conduz à Cária, e o outro, à direita, a Sardes. Tomando-se este último, tem-se, necessariamente, de atravessar o Meandro e passar pela cidade de Calatebos, onde se fabrica mel com mírica{114} e trigo. Tomando esse caminho, Xerxes encontrou um plátano que lhe pareceu tão belo, que mandou orná-lo com colares e braceletes de ouro, confiando a sua guarda a um imortal. Continuando a marcha, chegou, no dia seguinte, à cidade dos Lídios.

XXXII - Logo que chegou a Sardes, enviou arautos a toda a Grécia, exceto Atenas e a Lacedemônia, para pedirem terra e água e ordenarem o aprovisionamento da mesa do rei. Assim agiu por julgar que os que haviam outrora recusado terra e água a Dario não deixariam de satisfazer agora a ele, Xerxes, atemorizados que deviam estar com a sua marcha sobre a Grécia.

XXXIII - Enquanto se preparava para prosseguir a marcha em direção a Abido, adiantavam-se os trabalhos de construção da ponte sobre o Helesponto, para a travessia da Ásia para a Europa. Do Quersoneso ao Helesponto, entre as cidades de Sesto e Mádito, estende-se uma costa escarpada, que se alonga para o mar diante de Abido. Foi ali que Xantipo, filho de Arífron, general dos Atenienses, capturou, pouco tempo depois, Artaictes, persa de nascimento e governador de Sardes, mandando crucificá-lo, por haver ele levado mulheres para o templo de Protesilau, em Eleunte, e ali cometido atos iníquos.

XXXIV - Os encarregados da construção da ponte iniciaram-na do lado de Abido, estendendo-a até o trecho a que acabamos de nos referir. De Abido à costa oposta há uma distância de sete estádios. Enquanto os trabalhadores fenícios ligavam os navios com cordames de linho, para a formação da ponte, os Egípcios serviam-se, para o mesmo fim, de cordames de biblos. Aconteceu, porém, que, logo que a ponte foi dada por terminada, levantou-se uma terrível tempestade, rompendo os cordames e despedaçando os navios.

XXXV - Sabedor do ocorrido, Xerxes, indignado, mandou aplicar trezentas chicotadas no Helesponto e lançar ali um par de cadeias. Ouvi dizer que ele ordenou também aos executores que marcassem as águas com um ferro em brasa; mas o que é certo é que, juntamente com as chicotadas, ordenou a um dos executores que proferisse este discurso bárbaro e insensato: "Onda traiçoeira, teu senhor assim te pune porque o ofendeste sem que ele te houvesse dado motivo para isso. O rei Xerxes passará por ti, quer queiras, quer não. É com razão que ninguém te oferece sacrifícios, pois que és um rio{115} traidor e vil". Depois de castigar assim o mar, fez cortar a cabeça dos que haviam dirigido a construção da ponte.

XXXVI - Executada essa ação bárbara, encarregou outros da construção de uma nova ponte. Eis como procederam esses homens: Ligaram, de um lado, trezentos e sessenta navios de cinqüenta remos e vários trirremes, e do outro, trezentos e quatorze. Os primeiros tinham os costados voltados para o Ponto Euxino, e os demais, do lado do Helesponto, resistiam à correnteza, mantendo os cordames bem estendidos. Dispostas assim as embarcações, lançaram grossas âncoras, parte do lado do Ponto Euxino, para resistir aos ventos que sopram desse mar, e parte do lado do ocidente e do mar Egeu, por causa dos ventos que sopram do sul e do sudoeste. Deixaram, em três pontos diferentes, uma passagem livre entre os navios de cinqüenta remos, para as pequenas embarcações que quisessem entrar ou sair do Ponto Euxino. Terminado o trabalho, estenderam os cabos com auxílio das máquinas de madeira que se achavam em terra. Não se serviram de cordames simples, como os outros fizeram da primeira vez; trançaram os de linho branco, dois a dois, e os de biblos, quatro a quatro. Esses cabos eram todos da mesma espessura, mas os de linho eram mais fortes, pesando um talento por côvado. Estendidos os cabos, cortaram grossos pedaços de madeira, seguindo a largura projetada da ponte, e colocaram-nos, um ao lado do outro, sobre os referidos cabos. Uniram bem os pedaços de madeira, estendendo, em seguida, sobre os mesmos, as pranchas previamente preparadas, cobrindo-as com terra, que aplainaram. Feito isso, ergueram de cada lado uma barreira, a fim de que os cavalos e outros animais de carga não se assustassem ao verem o mar por baixo deles.

XXXVII - Terminada a construção da ponte e dos diques na embocadura do canal aberto no monte Atos, destinados a impedir a obstrução da entrada pelo fluxo das águas, foi a notícia levada a Sardes, e Xerxes pôs-se novamente em marcha. Deixando aquela cidade no começo da Primavera, depois de haver passado ali todo o Inverno, tomou a estrada de Abido, com o seu exército em boa ordem. Já havia vencido uma boa parte do percurso, quando, de súbito, o sol desapareceu do céu, sereno e sem nuvens, e o dia cedeu lugar à noite. Inquieto ante esse fenômeno, o soberano consultou os magos sobre o significado do mesmo, respondendo eles que os deuses pressagiavam aos Gregos a destruição de suas cidades, pois que o sol anunciava o futuro da Grécia, e a lua o dos Persas. Satisfeito com a resposta, continuou a jornada.

XXXVIII - Nesse momento, o lídio Pítio, aterrorizado com o fenômeno, veio procurá-lo. Os presentes que havia feito ao soberano, e os que, em troca, dele recebera, encorajaram-no a falar-lhe desta maneira: "Senhor, eu desejava uma graça; dignar-vos-eis a conceder-ma? É pouco para vós e muito para mim". Xerxes, esperando um pedido bem diferente do que lhe ia ser feito, prometeu satisfazê-lo no que desejasse. Pítio, cheio de confiança, continuou: "Grande rei, tenho cinco filhos, e a sorte quis que todos fossem chamados a fazer parte da vossa expedição contra a Grécia. Pensai, senhor, na minha velhice; não permiti que eu fique ao desamparo; deixai comigo pelo menos o primogênito, para que possa cuidar de mim e administrar os meus bens. Quanto aos outros, levai-os convosco, e possam eles voltar depois de haverdes conseguido a vitória, segundo os vossos desejos".

XXXIX - "És egoísta e mau - respondeu-lhe Xerxes, indignado -; eu próprio marcho contra a Grécia com meus filhos, meus irmãos, meus parentes, meus amigos; e tu ousas falar-me do teu filho, tu, meu escravo, que devias seguir-me com tua mulher e toda a tua criadagem. Convém que saibas que o espírito do homem reside nos ouvidos. Quando ele ouve coisas agradáveis, regozija-se, e a alegria se expande por todo o corpo; mas quando ouve coisas desagradáveis, irrita-se. Se a princípio te conduziste bem; se teus oferecimentos foram altamente louváveis, não poderás, entretanto, vangloriar-te de haveres suplantado um rei em liberalidade. Assim, embora hoje te mostres pouco digno das tuas ações passadas, tratar-te-ei menos rigorosamente do que mereces. A hospitalidade que ofereceste a mim e aos meus salva a tua vida e a de quatro dos teus filhos; mas punir-te-ei com o sacrifício daquele que mais amas". Depois de assim falar, mandou procurar o filho mais velho de Pítio e cortar-lhe o corpo em duas partes, colocando uma metade à direita e a outra à esquerda do caminho por onde devia passar o exército.

XL - Executadas essas ordens, o exército passou entre as duas partes do corpo do filho de Pítio, as bagagens e os animais de carga em primeiro lugar, seguidos das tropas de todas as nações que tomavam parte na expedição. Essas tropas, em absoluta confusão, marchavam separadas do grosso do exército, onde se encontrava o soberano, estando dele separadas por um considerável intervalo. À frente do corpo principal do exército seguiam mil cavaleiros escolhidos entre todos os Persas, seguidos de mil infantes armados de lanças com as pontas para baixo, também tropa de elite como a que a antecedia. Vinham, em seguida, dez cavalos sagrados niseus, com soberbos arneses. Eram chamados niseus porque provinham da vasta planície de Niséia, na Média, que os produz da melhor qualidade. Logo a seguir vinha o carro sagrado de Júpiter, puxado por oito cavalos brancos, com um condutor segurando-lhes as rédeas. A ninguém era permitido subir nesse carro. Atrás dele vinha o de Xerxes, puxado por cavalos niseus, tendo ao lado o condutor, um persa de nome Patiranfes, filho de Otanes.

XLI - Foi com suas tropas assim dispostas que Xerxes deixou Sardes. Quando lhe dava vontade, passava do seu carro para uma harmamaxe{116}, sendo seguido por mil homens armados de lanças com a ponta para cima, segundo o costume. Os que compunham esse grupo eram escolhidos entre os mais nobres e os mais bravos da Pérsia. Atrás desse grupo vinham outros mil cavaleiros de elite, seguidos por dez mil infantes, escolhidos entre as outras classes persas. Mil desses homens levavam granadas de ouro em lugar de ferro no cabo da lança, formando no centro dos outros nove mil, que conduziam granadas de prata na ponta das suas lanças. Os que marchavam com as lanças voltadas para baixo levavam também granadas de ouro, mas os que vinham logo depois de Xerxes traziam pomos de ouro nas suas lanças. Esses dez mil homens eram seguidos de dez mil persas a cavalo, havendo, entre esse corpo de cavalaria e o resto das tropas que marchavam em confusão, um intervalo de dois estádios.

XLII - Deixando a Lídia, o exército tomou a direção do Caíque, penetrou na Mísia e, deixando à esquerda o monte Cane, passou por Atárnea e dirigiu-se para a cidade de Carene. Dessa cidade, prosseguiu a marcha para a planície de Tebas, passou próximo a Adramíteo e Antandro, cidade pelásgica, e, deixando à esquerda o monte Ida, penetrou na Tróada, onde acampou com a chegada da noite. Sobrevindo uma grande tempestade, acompanhada de terríveis trovões e relâmpagos, que matou muitos dos seus componentes, o exército abandonou o local, indo acampar às margens do Escamandro. As águas desse riacho, o primeiro encontrado desde a partida de Sardes, não foram suficientes para matar a sede das tropas e dos animais de carga.

XLIII - Logo que chegou às margens do Escamandro, Xerxes subiu a Pérgamo de Príamo{117}, que desejava muito ver. Depois de tê-la examinado e se inteirado das suas particularidades imolou ali mil bois a Minerva de Tróia, e os magos fizeram libações em honra aos heróis do país. Depois disso, uma espécie de terror pânico manifestou-se no acampamento durante a noite, e Xerxes dali partiu ao nascer do dia, tendo à esquerda as cidades de Reteu, Ofrínio e Dárdano, vizinha à de Abido, e à direita a dos Gergites-Teucros.

XLIV - Chegando a Abido, Xerxes desejou passar em revista todas as tropas. Para isso, os habitantes da cidade fizeram erguer sobre o outeiro uma grande plataforma de mármore branco, de acordo com as instruções que haviam recebido antes da chegada do soberano. Dali, lançando o olhar para as praias e para a paisagem imensa, Xerxes contemplou orgulhoso seus exércitos de terra e mar. Depois de haver gozado, durante algum tempo, desse soberbo espetáculo, manifestou o desejo de assistir a um combate naval, no que foi prontamente satisfeito. Do combate simulado saíram vencedores os Fenícios, mostrando-se o soberano encantado com o desenrolar da luta e com a demonstração de suas forças.

XLV - Vendo o Helesponto coalhado de navios, e as praias e as planícies de Abido cheias de guerreiros, Xerxes felicitou-se pela sua boa sorte e sentiu-se tomado de intenso sentimento de felicidade; mas, logo em seguida, inexplicavelmente pôs-se a chorar.

XLVI - Artábano, seu tio pelo lado paterno, que havia procurado dissuadi-lo da idéia de uma guerra contra a Grécia, falando-lhe sem rodeios e com toda a franqueza sobre um tal empreendimento, vendo-o a chorar, a ele se dirigiu nestes termos: "Senhor, vossa conduta de agora é bem diferente da de há pouco. Há momentos, vós vos consideráveis feliz, e agora derramais lágrimas". "Quando refleti - volveu Xerxes - sobre a brevidade da vida humana e ao pensar que de tantos milhões de homens não restará um só dentro de cem anos, senti-me tomado de compaixão". "Experimentamos, no decurso de nossa vida - tornou Artábano -, coisas bem mais tristes do que o próprio sentimento da morte. Apesar da brevidade da vida humana, a que vos referistes, não há homem feliz, seja no meio dessa multidão, seja em todo o universo, ao qual não venha ao espírito, já não digo uma vez, mas freqüentemente, o desejo de morrer. As vicissitudes por que passamos, as enfermidades que nos perturbam, fazem com que a vida nos pareça bem longa, por mais curta que ela seja. Numa existência tão infeliz, o homem vive a suspirar pela morte, encarando-a como um porto de salvação. Se temperamos a acridez de nossa vida com alguns prazeres, os deuses logo manifestam o seu ciúme".

XLVII - "Artábano - redarguiu Xerxes -, a vida humana é tal como a apresentas, mas ponhamos fim a tão tristes cogitações, quando a nossa sorte se mostra venturosa. Dize-me, a visão que tiveste não foi bastante clara? Serias ainda capaz de procurar dissuadir-me de levar a guerra à Grécia, ou mudaste realmente de opinião? Fala-me sem rodeios. "Senhor - replicou Artábano -, possa a visão que tivemos levar-nos à realização daquilo que ambos desejamos. Confesso-vos, todavia, que continuo bastante temeroso; que não me sinto senhor de mim quando, entre as coisas sobre que reflito, vejo duas da mais alta importância, que te são contrárias".

XLVIII - "Quais essas duas coisas que, na tua opinião, me são contrárias? - interrogou Xerxes. - Será que julgas que o meu exército de terra não é suficientemente poderoso e que os Gregos poderão opor-nos um mais forte? Consideras a nossa frota inferior à deles? Se nossas tropas te parecem pouco consideráveis para a empresa, ainda há tempo para fazermos novos recrutamentos".

XLIX - "Senhor - obtemperou Artábano -, nenhum homem de senso seria capaz de julgar os vossos exércitos de terra e mar insuficientemente poderosos ou pouco adestrados para um tal empreendimento. Se fizerdes novos recrutamentos, as duas coisas de que vos falei ser-vos-ão ainda mais contrárias. Essas duas coisas, senhor, são a terra e o mar. Com efeito, se se levanta uma tempestade, não há, como presumo, porto no mundo bastante vasto para abrigar vossa frota, colocando-a em segurança; e mesmo que houvesse um porto em tais condições, seria preciso que existissem outros com a mesma capacidade em todos os lugares aonde ireis. Ora, não existindo portos que satisfaçam essas condições, estaremos, senhor, à mercê de acontecimentos fortuitos, nos quais não podemos influir. Isso com relação ao mar, ao deslocamento da vossa frota. Quanto à terra, senhor, o problema que se nos oferece não é menos importante. Senão, vejamos: se ninguém se opuser às vossas conquistas, à medida que avançardes, ela se irá tornando insensivelmente, sem perceberdes, cada vez mais contrária aos vossos desígnios. Os homens nunca estão satisfeitos com os primeiros sucessos que obtêm; estão sempre sedentos em busca da glória. Assim, se não fordes detido na vossa marcha, a extensão do trajeto e o tempo que passa vos farão experimentar as agruras da fome. O homem prudente pensa sempre nas suas deliberações, as más circunstâncias que possam sobrevir nos seus empreendimentos, mas, no momento da execução, mostra-se ousado e intrépido".

L - "Artábano - replicou Xerxes -, concordo com o que acabas de dizer, mas não devemos encarar todas as coisas com a mesma circunspecção. Se em todos os negócios fôssemos deliberar com o mesmo escrúpulo, nunca faríamos nada. É melhor proceder com ousadia, medir apenas a metade dos males possíveis, do que deixar-se dominar por temores prematuros, nada fazendo. Se combates todas as opiniões sem propor em seu lugar algo mais acertado, nada conseguirás sobre aquele que foi de opinião contrária à tua. Ora, ao homem nunca é dado acertar em todas as suas previsões. As pessoas ousadas geralmente obtêm sucesso em suas iniciativas, enquanto que as que agem com excesso de cautela raramente o conseguem. A que grau de poderio já não chegaram os Persas! Se os reis que me precederam houvessem pensado como tu, ou tivessem conselheiros que assim pensassem, não veríamos agora, como vemos, o nosso povo elevado às culminâncias da glória. Foi enfrentando os perigos e os azares da guerra que eles estenderam as fronteiras do império; pois o triunfo, nas grandes empresas, só se conquista enfrentando o perigo. Ciosos das nossas tradições de conquista e desejosos de ombrear com os nossos antepassados, lançamo-nos a mais uma campanha, na mais bela estação do ano, e, depois de havermos subjugado a Europa inteira, voltaremos à Pérsia, sem havermos experimentado a fome nem qualquer outra desgraça. Trouxemos conosco víveres em quantidade suficiente para levarmos a bom termo o nosso empreendimento, e, como todas as nações que faremos experimentar o nosso poderio cultivam a terra e não são nômades, havemos de encontrar muito trigo para dele nos apropriarmos".

LI - "Já que achais, senhor - volveu Artábano -, que nada temos a temer, permiti ainda um conselho. Quando se tem muito que dizer, é preciso falar muito. Ciro, filho de Cambises, subjugou toda a Iônia, com exceção de Atenas, e tornou-a tributária dos Persas. Eu vos aconselho, pois, a não lançar os Iônios contra os seus ascendentes. Não necessitamos deles para sermos superiores aos nossos inimigos. Pode-se dizer dos que nos acompanham, que é preciso que sejam os mais injustos dos homens, para tomarem parte numa empresa que visa submeter sua própria pátria. O mais certo é que ajudem a mantê-la livre. Refleti, senhor, na justeza desta velha sentença: Ao iniciarmos uma empresa, geralmente ignoramos as conseqüências que poderão advir".

LII - "Artábano - redarguiu Xerxes -, são errôneas as tuas impressões, principalmente no que diz respeito ao procedimento dos Iônios que conosco colaboram. Temos prova da fidelidade deles. Tu mesmo foste testemunha disso, bem como todos os que tomaram parte na expedição de Dario contra os Citas. Dependia deles a salvação ou a desgraça das nossas tropas, e eles se mantiveram fiéis e solidários conosco, auxiliando-nos em vez de prejudicar-nos. Aliás, não devo recear nenhuma sortida da parte de um povo que deixou como garantia, nos meus Estados, seus bens, suas mulheres e seus filhos. Fica, pois, tranqüilo; enche-te de coragem; vela pela conservação da minha casa e do meu império; é a ti, a ti somente que confio o meu cetro".

LIII - Depois dessa palestra, Xerxes enviou Artábano de volta a Susa e fez vir à sua presença os mais ilustres dentre os Persas. Quando os viu reunidos diante de si, assim lhes falou: "Persas, eu vos convoquei para vos exortar a conduzir-vos como homens de coragem e a não deslustrar as tradições e os empreendimentos dos nossos antepassados. Que todos em geral e cada um em particular demonstrem igual ardor e alto espírito de luta. Trabalhai com zelo pelo interesse comum, aplicando toda a vossa capacidade na guerra que vamos travar com povos, segundo me informaram, muito belicosos. Se os batermos nos primeiros encontros, não encontraremos mais resistência em parte alguma. Passemos, pois, para a Europa, depois de endereçarmos nossas preces aos deuses tutelares da Pérsia".

LIV - Nesse mesmo dia os Persas se prepararam para ganhar o outro continente. Na manhã do dia seguinte, enquanto aguardavam o levantar do sol queimaram sobre a ponte toda espécie de essências aromáticas, juncando o caminho de mirto. Logo que o sol apareceu, Xerxes, empunhando uma taça de ouro, fez libações no mar, rogando ao astro-rei para afastar os obstáculos que pudessem impedi-lo de subjugar a Europa. Terminada a prece, lançou a taça no Helesponto, juntamente com uma cratera de ouro e um sabre de um tipo usado na Pérsia e denominado acinaces. Não posso afirmar se, lançando esses objetos ao mar, ele prestava uma homenagem ao sol, ou se, arrependido de haver fustigado o Helesponto, procurava apaziguá-lo com tais oferendas.

LV - Terminada a cerimônia, iniciou-se a travessia da ponte, passando a cavalaria e a infantaria do lado do Ponto Euxino, e do lado do mar Egeu os animais de carga e os servos. Os dez mil persas iam na frente, tendo todos uma coroa na cabeça. Logo atrás seguiam os corpos de tropas compostos de soldados de todas as nações. Com a chegada da noite, foi interrompido o movimento das forças através da ponte.

No dia seguinte, foi concluída a travessia, passando em primeiro lugar os cavaleiros que levavam suas lanças com a ponta voltada para baixo, tendo também uma coroa na cabeça. Vinham, em seguida, os cavalos e o carro sagrado, e logo atrás o próprio Xerxes, os lanceiros e o grupo de mil cavaleiros, seguidos pelo resto do exército. Enquanto isso, os navios dirigiam-se para a margem oposta. Segundo ouvi dizer, o soberano foi o último a passar.

LVI - Atingindo o continente, Xerxes assistiu ao desfile de suas tropas, que marchavam sob golpes de chicote{118}. Esse espetáculo durou sete dias e sete noites sem interrupção. Conta-se que, quando o soberano atravessou o Helesponto, um habitante do litoral exclamou: "Oh Júpiter! Por que, sob a forma de um persa e sob o nome de Xerxes, arrastais convosco tantos homens para destruir a Grécia? Ser-vos-ia fácil fazê-lo sem o concurso deles".

LVII - Quando terminou o desfile das tropas, verificou-se um fenômeno, a que Xerxes não deu nenhuma importância: uma égua deu à luz uma lebre. Isso queria significar que o soberano levaria à Grécia, com muito fausto e ostentação, um exército numeroso, mas que voltaria ao ponto de partida, forçado que seria, por motivo de saúde, a bater em retirada. Quando ele ainda se encontrava em Sardes, verificara-se um fenômeno semelhante: uma mula gerou um potro que trazia as partes que caracterizam os dois sexos, estando as do macho por cima.

LVIII - Xerxes, sem dar atenção a esse segundo fenômeno, como não dera ao primeiro, pôs-se em marcha com o exército de terra, enquanto a frota zarpava do Helesponto e contornava a costa, seguindo uma rota oposta à do exército, isto é, velejando para o Poente, em demanda do promontório de Sarpédon, onde tinha ordem de estagiar. O exército de terra, ao contrário, tomando a direção do Levante em rota para o Quersoneso, atravessou a cidade de Ágora, deixando, à direita, o túmulo de Heléia, filha de Atamas, e à esquerda, a cidade de Cárdia. Dali, contornando o golfo Melas, atravessou o rio do mesmo nome, cujas águas foram esgotadas pelas tropas, não bastando para matar a sede de todos. Transpondo esse rio, o exército voltou-se para o ocidente, passou ao longo de Enos, cidade eólia, e do lago Estentóris, chegando finalmente a Dorisco.

Mais fontes de Guerras Greco-pérsicas

Heródoto narra a batalha das Termópilas (480 a.C.)

Heródoto narra a batalha de Maratona (490 a.C.)

Heródoto narra a batalha de Salamina (480 a.C.)

Comparação entre Arístides e Catão, o Velho, de Plutarco

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