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Maldita Guerra Nova História da Guerra do Paraguai

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Capa do livro Maldita Guerra, de Francisco Doratioto
Informações técnicas

Autor: Francisco Doratioto
Páginas: 622
Editora: Companhia das Letras
Ano da edição: 2002
Idioma: Português

Sinopse

O historiador Francisco Doratioto pesquisou fontes durante quinze anos para compor a obra. Mostra como a Guerra do Paraguai começou com um conflito regional, diferindo estruturalmente da teoria de muitos historiadores. As principais batalhas são apresentadas por meio de 20 mapas. Ilustrações e fotografias complementam o estudo.

Historiador
Francisco Doratioto

É um historiador brasileiro, especialista em história militar e das relações do Brasil com os países da América Meridional (Cone Sul: Paraguai, Argentina, Uruguai e Chile). Graduou-se em história (1979) e em ciências sociais (1982) pela Universidade de São Paulo. É mestre (1988) e doutor (1997) em história das relações internacionais pela Universidade de Brasília.

Anotações de leitura do livro Análise do livro
4/5 BOM

DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

Publicado originalmente em 2002 e revisado em diversas ocasiões desde então, Maldita Guerra é considerado por muitos historiadores a principal obra de síntese sobre a Guerra do Paraguai. Nela, Francisco Doratioto procura reconstruir o conflito a partir de ampla documentação diplomática, política e militar, oferecendo uma interpretação que se contrapõe a algumas leituras tradicionais e revisionistas do tema.

A principal tese defendida pelo autor é que a guerra teve origem fundamentalmente na política externa do Paraguai sob o governo de Solano López. Segundo Doratioto, o conflito não foi provocado por interesses britânicos nem por um suposto projeto imperialista coordenado por Brasil e Argentina, mas pelas tensões acumuladas entre os países da Bacia do Prata ao longo das décadas anteriores. Nesse contexto, López teria sido o principal responsável pela escalada militar ao atacar o Brasil sem provocação direta e ampliar o conflito posteriormente. O autor também apresenta uma visão bastante crítica do líder paraguaio, retratando-o como um governante autoritário que prolongou a guerra além de qualquer possibilidade realista de vitória, contribuindo para a destruição de seu próprio país.

A obra está organizada em cinco partes. A primeira, Tempestade no Prata, apresenta a formação dos Estados platinos após a independência, a situação política da Argentina, do Brasil e do Paraguai e as crescentes tensões regionais que culminariam na guerra. Também inclui uma discussão historiográfica sobre a construção da imagem de Solano López, analisando sua transformação em herói anti-imperialista por parte de determinados autores.

A segunda parte, O Paraguai ataca: o fracasso da Guerra-Relâmpago, aborda as campanhas iniciais do conflito, incluindo a invasão do Mato Grosso e de Corrientes, a mobilização militar brasileira, a Retirada da Laguna e a Batalha Naval do Riachuelo.

Em Guerra de Posições (1866-1867), terceira parte da obra, Doratioto descreve a invasão aliada do Paraguai e as principais operações militares do período, como Tuiuti, Curuzu e Curupaiti. O autor também analisa aspectos políticos e sociais do conflito, como o recrutamento de soldados, o uso de escravos pelo Exército brasileiro e as divergências estratégicas entre os aliados.

A quarta parte, 1868: O Ano Decisivo, trata da queda de Humaitá, dos massacres promovidos por Solano López em San Fernando e da ofensiva comandada por Caxias que culminou na chamada Dezembrada, conjunto de vitórias decisivas para os aliados.

Por fim, em A Caça a Solano López, Doratioto acompanha a ocupação de Assunção, a Campanha da Cordilheira sob o comando do Conde d'Eu e os eventos que levaram à morte de López em março de 1870. O livro encerra-se com um balanço dos custos humanos, políticos e econômicos da guerra e das negociações de paz posteriores.

Um dos maiores méritos da obra é a amplitude de sua pesquisa. Doratioto demonstra grande preocupação com a precisão documental e procura sustentar suas conclusões em extensa bibliografia e documentação primária. O resultado é uma narrativa rica em informações políticas, diplomáticas e militares, tornando o livro uma referência indispensável para qualquer estudo aprofundado sobre o conflito.

Entretanto, essa mesma preocupação com a exatidão frequentemente compromete a fluidez da leitura. A escrita tende a ser excessivamente seca, especialmente nos capítulos dedicados à diplomacia e às negociações políticas. Em diversos momentos, a narrativa assume um tom semelhante ao de relatórios governamentais, reproduzindo informações de forma detalhada, mas sem transmitir a intensidade dramática dos acontecimentos históricos.

Outro problema é a falta de preocupação com leitores iniciantes. O autor raramente apresenta explicações introdutórias sobre personagens, instituições, estruturas de governo ou aspectos tecnológicos do período. Em muitos trechos, pressupõe-se que o leitor já possua conhecimento prévio considerável sobre a história política da região platina e sobre o funcionamento dos exércitos do século 19.

A qualidade da exposição também não é uniforme ao longo do livro. Alguns capítulos são claros, didáticos e de fácil compreensão, enquanto outros apresentam passagens confusas, pouco desenvolvidas ou excessivamente resumidas. Chama a atenção o fato de que determinados acontecimentos de grande relevância histórica, inclusive batalhas importantes, recebem tratamento relativamente breve diante da extensão total da obra.

A organização cronológica constitui outro ponto discutível. Embora a narrativa siga, em linhas gerais, a sequência dos acontecimentos, o autor frequentemente interrompe o fluxo temporal para desenvolver temas específicos, retornando depois a momentos anteriores ou posteriores da guerra. Essa estrutura cronológico-temática pode dificultar a compreensão da sequência dos eventos por parte do leitor.

Também merece crítica o material cartográfico. Apesar da presença de diversos mapas ao longo da obra, sua utilização nem sempre é eficiente. Frequentemente os mapas aparecem várias páginas após a descrição dos acontecimentos a que se referem, dificultando sua consulta durante a leitura. Além disso, a ausência de um índice específico de mapas reduz sua utilidade como ferramenta de referência.

Apesar dessas limitações, Maldita Guerra permanece como uma das obras mais importantes já publicadas sobre a Guerra do Paraguai. Sua abrangência, profundidade documental e riqueza de informações fazem dela leitura obrigatória para estudantes e pesquisadores do tema. Ao mesmo tempo, sua densidade e suas escolhas narrativas tornam a experiência menos acessível para leitores que estejam tendo um primeiro contato com o assunto.

Resenha escrita em 11/06/2026.

Foto do membro da equipe: Moacir Führ
Escrita por Moacir Führ

Moacir tem 38 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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