História Medieval

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Capa do livro História Medieval, de Marcelo Cândido da Silva
Autor: Marcelo Cândido da Silva
Páginas: 160
Editora: Contexto
Ano da edição: 2019
Idioma: Português
Skoob: Acessar

Sinopse:

A Idade Média abrange um período de cerca de dez séculos, compreendido entre o final da Antiguidade e o início da época moderna. Diferentes formas de expansão, de poder e de sociedade foram forjadas durante esses mil anos. Enquanto os chamados bárbaros conquistavam territórios, o poder da Igreja crescia e o cristianismo se tornava uma ferramenta eficaz de integração (muitas vezes forçada). Outra característica marcante do período é a dominação senhorial: controle econômico, jurídico, político e militar dos camponeses por parte da aristocracia.

Nesta obra introdutória, o professor da Universidade de São Paulo Marcelo Cândido da Silva se dedica a apresentar e discutir as principais características desse período, dando ênfase a seus contrastes: a fome, a peste e as guerras se alternando com tempos de paz e prosperidade; o universalismo do papado convivendo com os particularismos senhoriais e com as monarquias em vias de centralização. Com este livro, o leitor tem em mãos uma obra atualizada e palpitante sobre a História Medieval.


Minhas anotações de leitura

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Análise do livro

SILVA, Marcelo Cândido da. História Medieval. São Paulo: Contexto, 2019.

História Medieval é um livro do historiador medievalista brasileiro Marcelo Cândido da Silva. A obra faz parte da coleção História na Universidade publicada pela editora Contexto, que também conta com exemplares sobre outros temas históricos. Carlos Fico, autor de um dos livros dessa coleção, se referiu a série como "manuais universitários".

Embora o título da obra seja extremamente pretensioso, você não deve se deixe enganar por ele. Essa é uma obra com um enfoque extremamente limitado. O livro não trata de toda a história do período medieval. O Império Bizantino e o Império Islâmico são totalmente ignorados, na verdade, o livro se dedica quase que exclusivamente a França e a Inglaterra, embora as cidades italianas e alguns outros reinos da Europa Ocidental sejam ocasionalmente citados. Esse não é um título muito adequado para essa obra... espere, só me dê um segundo...

Pronto! Consertada! Agora sim a capa do livro reflete o seu conteúdo.

A obra é composta por cinco capítulos, sobre os quais farei um breve resumo abaixo:

O mundo romano e os reinos bárbaros: Autor fala da relação entre romanos e bárbaros e contesta o termo "Bárbaros". Depois discute se a queda de Roma em 476 foi realmente tão importante. Ele defenda a tese de Peter Brown de uma transição natural. Depois fala dos primeiros reinos bárbaros, entre os séculos 5-9, destacando francos e godos. E termina falando do Império Carolíngio e do Renascimento Carolíngio.

A dominação senhorial: Aqui o autor defende o uso do termo "senhorio territorial" ao invés de feudalismo. Também fala da prática anterior, o "Grande domínio'. Destaca a importância dos polípticos, inventários medievais. E descreve como a igreja defendeu a paz e a estabilidade na Europa, depois da crise do Império Carolíngio. Essa crise levou ao fortalecimento do feudalismo (senhorio territorial) e ao surgimento da cavalaria. O autor cita a tese de Henri Pirene sobre a decadência das cidades a partir do século 8, e depois a contesta, defendendo que a Europa nunca retornou a uma economia de subsistência e o comércio esteve sempre presente. A partir daqui o autor fala do comércio, das feiras e os ganhos dos nobres e clérigos com o crescimento econômico. O surgimento das universidades foi um reflexo do crescimento econômico e da centralização política, com a necessidade de criar especialistas para a administração civil.

Igreja e sociedade: Marcelo Cândido fala do papel da igreja na Idade Média e da criação de uma sociedade persecutória, do aumento do patrimônio da igreja e da colaboração entre estado e igreja. A reforma da igreja (Cluny e a Questão das Investiduras) levou ao auge da monarquia papal em 1274. A partir do final do século 12 começou uma resistência contra o aumento do poder do papa por parte dos reis franceses. No final da idade média a autoridade papal estava novamente enfraquecida. O crescimento populacional e econômico dessa época, levou a um grande movimento de construção de catedrais e igrejas entre os séculos 11-13. O autor discute a questão das Cruzadas e o caráter dessas guerras (ele rejeita as causas econômicas). E termina falando da construção das heresias e sua importância no fortalecimento da autoridade papal.

Crises e renovações: O autor contesta a ideia de que a Peste Negra chegou na Europa quando ela já estava em crise econômica. Ele fala sobre a peste e seu impacto. As guerras e o fortalecimento das monarquias e seus pontos positivos e negativos. E termina falando da crise do século 14 e da intensificação das desigualdades que já existiam antes dela.

A fabricação da Idade Média: Sobre a fabricação do conceito de idade média no século 17 e sobre como os iluministas difamaram esse período. O autor fala da visão sobre o medievo nos século 18, 19 e início do 20 e termina glorificando a Nova História.

Comentários sobre a obra

O livro de Marcelo Cândido da Silva é interessante, gostei de alguns comentários que ele fez sobre o renascimento urbano, sobre a reforma da igreja e o fortalecimento da monarquia papal. O autor também apresenta ao longo da obra vários trechos de fontes primárias e, em muitos casos, eles são úteis para criar uma visão mais rica dos temas discutidos.

O livro, no entanto, é uma falsa obra introdutória. Há muitos temas essenciais que não são discutidos pelo autor, e os temas trabalhados não são realmente apresentados para um público universitário. O autor se dedica mais a contestar a obra de outros historiadores do que a introduzir os temas. Então o livro é muito mais um grande debate historiográfico sobre a Idade Média, do que uma obra introdutória.

Mas mesmo nesse aspecto a obra deixa bastante a desejar. Marcelo Cândido descreve as teses de outros autores de forma bem completa, mas depois as rejeita como incorretas em apenas um ou dois parágrafos sem oferecer argumentos realmente convincentes. Eu até acredito que ele esteja correto nas suas contestações, esse não é o problema. O problema é que ele está muito preocupado em criticar e pouco preocupado em explicar em detalhes o porque dessas teses estarem erradas. O argumento "novas evidências arqueológicas provam..." logo se torna cansativo.

Eu estou aberto a novas teorias, mas se um autor deseja refutar ideias estabelecidas há décadas, eu espero mais do que dois parágrafos. O que quero dizer é que uma obra de 160 talvez não seja o local ideal para esse tipo de defesa. E o livro teria sido melhor aproveitado se ele tivesse se focado em construir um "manual universitário".

Sua obra é, ao mesmo tempo, extremamente superficial e ocasionalmente muito profunda. O resultado é um livro com muitos dados atirados para todos os lados e pouca coerência. Minhas anotações de leitura sobre a obra deram 12 páginas! A impressão é que o autor tenta falar de tudo e acaba falando de nada.

Se você quer ler uma obra verdadeira introdutória sobre a História Medieval, que abranja o Império Bizantino e o Islã e vá realmente a fundo na história, ao invés de apenas fazer críticas a outros historiadores, leia o primeiro volume da obra História da Civilização Ocidental, páginas 187-337. Eu garanto que não será uma leitura desperdiçada.

Como sempre, para mais informações sobre a obra, leia minhas anotações de leitura clicando no link acima dessa resenha.

Resenha publicada em 09/08/2020.

Marcelo Cândido da Silva

Marcelo Cândido da Silva é um historiador brasileiro. Desde 2003 é professor de história medieval na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo no qual é coordenador do Laboratório de Estudos Medievais.

Historiador(a)
Foto do membro da equipe: Moacir Führ

Escrita por

Moacir Führ

Moacir tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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