O Código de Hamurabi - A moeda, o sistema de medidas e os preços e salários

Artigos > Mesopotâmia  |  497 visualizações  |  929 palavras

Capa do artigo: O Código de Hamurabi - A moeda, o sistema de medidas e os preços e salários

Pesos no formato de patos em hematita. Segundo milênio a.c. Coleção do Instituto Oriental da Universidade de Chicago. OIM A9684

Agora que já conversamos um pouco sobre a questão da terra, a utilização de animais na agricultura e os empréstimos, o comércio e a navegação, vamos discutir a questão monetária.

A "moeda" da antiga Mesopotâmia: Cevada e prata

Ao falar da economia nas civilizações antigas é essencial lembrar de uma questão importante: a moeda, tal qual nós a conhecemos, só surgiu na história no século 7 a.C. na Lídia (atual Turquia), provavelmente devido ao fato da Lídia ser um grande centro comercial com vasto suprimento de ouro.

Moeda de ouro de Croesus. Lídia. Século 6 a.C. Museu Britânico.

Sociedades anteriores a esse período se utilizavam de outras formas de "moeda" para suas transações comerciais. O Código de Hamurabi (escrito no século 18 a.C.) deixa bem clara a maneira pela qual os babilônicos faziam as suas operações: a cevada e a prata eram os meios utilizados.

Nas linhas seguintes do artigo você encontrará uma tabela de preços formulada a partir de valores apresentados no Código. Tudo, desde operações médicas, até aluguel de barcos, pagamento de multas, compra de escravos e animais, pagamento de salários, enfim, tudo era realizado através de uma determinada quantidade de prata ou cevada.

Para tal era necessário um eficiente sistema de pesos e medidas, e esse será o tema do nosso próximo tópico. Mas é importante frisar que a própria lei previa casos em que houvesse fraudes nas medidas. Por exemplo, o artigo 108 pune a taberneira com a morte por afogamento, caso ela cometa fraude nas medidas de pagamentos realizados por seus clientes.

A prata era usada também para o comércio internacional. Já a maior parte dos pagamentos ligados a agricultura, eram realizados com cevada.

Sobre a renda dos mesopotâmicos, refiro a título de exemplo: A renda anual de um trabalhador rural girava em torno de 96 gramas de prata, ou cerca de 3600 litros de cevada.

No código de Hamurabi há mais de 20 leis prevendo o pagamento de multas e indenizações com valores em prata. São as seguintes: 4, 9, 17, 24, 59, 101, 139, 140, 198, 201, 203, 204, 207, 208, 211, 212, 213, 214, 241, 251, 252, 259, 260.

Sistemas de medida

Na antiga Mesopotâmia não havia um sistema de unidades e medidas padronizado, mas o Código de Hamurabi cita ao longo de seus artigos diversas unidades de medida, usadas principalmente para a contagem de cevada e prata, as "moedas“ da época. Abaixo você confere os valores dessas unidades convertidas para o nosso sistema atual de quilos, litros, gramas e hectares.

  • 1 Sutu = 10 litros ou kg
  • 1 GUR = 300 litros ou kg
  • 1 SE de prata = 0,05 gramas
  • 1 mina de prata = 500 gramas
  • 10 siclos = 80 gramas
  • 5 siclos  = 40 gramas
  • 3 siclos  = 24 gramas
  • 2 siclos  = 16 gramas
  • 1 BUR = 6,48 hectares


As medidas de peso provavelmente eram realizadas com algum tipo de balança. Conjuntos de pesos utilizados para esse fim foram encontrados em escavações arqueológicas, como o exemplo abaixo:

Conjunto de pesos em Hematita de Ur, cerca de 2000-1600 a.C. A hematita era consistentemente usada na produção de pesos na Mesopotâmia desde o final do terceiro milênio a.C. É uma pedra dura que se desgasta pouco e seria óbvio se fosse adulterada. Nessa foto o peso maior tem 250g (uma mina) e o menor 24 gramas (3 siclos). Museu Britânico. N° do item: 117893.

Segundo McIntosh:

O valor de bens levados por mercadores eram contados com pesos de prata ou grãos de cevada, assim como as mercadorias que o mercador trazia de volta de suas expedições. Anéis e espirais de fios de prata que podiam ser facilmente cortados em pedaços, e outras pequenas unidades (comumente de 40 gramas) eram regulamente usadas em transações, a quantidade requisitada de prata sendo pesada para fazer compras ou pagar por serviços. (MCINTOSH, 2005, p.132, tradução nossa)

Preços e salários

Segundo Emanuel Bouzon, as leis de Eshnunna, que são cerca de 50 anos mais velhas que o código de Hamurabi, definem em seu artigo primeiro, o preço da cevada em relação ao preço da prata. 1 GUR de cevada seria equivalente a 1 siclo de prata. Ou seja: 1 grama de prata é igual a 37,5 kg de cevada.

O código de Hamurabi define os valores de alguns produtos e serviços em cevada e outros em prata. Então, usei o valor acima como métrica para converter o preço de diversos itens:

LEI

SERVIÇO OU PRODUTO

VALOR EM PRATA

(gramas)

VALOR EM CEVADA

(kg)

-

Compra de escravo homem

128 a 240

4800 a 9000

-

Compra de boi

16 a 250

600 a 9375

-

Compra de jumento

40 a 160

1500 a 6000

121

Aluguel de celeiro para cevada (a cada 300 kg armazenados)

0,13

5

215

Médico cura awilum com operação/cura olho com cirurgia

80

3000

216

Médico cura filho de muskenum com mesma operação

40

1500

217

Médico cura escravo de awilum com mesma operação

16

600

221

Médico conserta osso quebrado/ músculo doente de awilum

40

1500

222

Médico conserta osso quebrado/ músculo doente de muskenum

24

900

223

Médico conserta osso quebrado/músculo doente de escravo

16

600

224

Veterinário fez operação e cura animal

1,33

49,8

228

Pedreiro constrói casa para awilum (a cada 36m2 construídos)

16

600

234

Barqueiro calafeta barco para até 18 toneladas

16

600

239

Aluguel de barqueiro (anual)

48

1800

242

Aluguel de boi - boi de trás (anual)

32

1200

243

Aluguel de boi - boi da frente (anual)

24

900

257

Um ano de trabalho de agricultor

64

2400

258

Um ano de trabalho de vaqueiro

48

1800

261

Salário anual de pastor de animais

64

2400

268

Um dia de aluguel de boi para trilhar grão

0,53

20

269

Um dia de aluguel de jumento

0,26

10

270

Um dia de aluguel de bode

0,02

1

271

Um dia de aluguel de bois, carro de carga e condutor

4,8

180

272

Um dia de aluguel apenas do carro de carga

1,06

40

273

Salário anual de trabalhador rural

96

3600

275

Um dia de aluguel de barco a vela

0,15

5,6

276

Um dia de aluguel de barco a remo para subir o rio

0,125

4,6

277

Um dia de aluguel de barco grande de 18 toneladas

1,33

49,8

Os valores para compra de escravos humanos, bois e jumentos foram retirados da edição do código comentada por Emanuel Bouzon, página 187 e 191.

Continue lendo essa série:
O Código de Hamurabi - Pena de morte, punições físicas e ordálio

Gostou desse artigo?




Mais artigos sobre Mesopotâmia

Resumo da Epopéia de Gilgamesh - Parte 1/2

A história da cidade assíria de Nínive

Achados arqueológicos mais famosos: Acádia

Fontes bibiliográficas:

A History of the World in 100 Objects. Acesso em: 13 set. 2018.
Bouzon, Emanuel. A Propriedade Fundiária na Baixa Mesopotâmia Durante o Período Paleo-Babilônico. In: Anais do IV Simpósio de Histrória Antiga e I Ciclo Internacional de História Antiga Oriental. Porto Alegre, 1990.
BOUZON, Emanuel. O Código de Hammurabi. 10° Edição. Petrópolis: Vozes: 2003.
MCINTOSH, Jane. Ancient Mesopotamia: New Perspectives - Understanding ancient civilizations. ABC-CLIO, 2015.
VIEIRA, Jair Lot. Código de Hamurabi - Código de Manu (excertos livro oito e nono) - Lei das XII Tábuas. Bauru: Edipro, 2000.

Artigo publicado em 14/09/2018.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 32 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

Comentários dos visitantes

Ícone alerta azul

Contribua para um debate inteligente e educado na internet. Não seja um troll.