Notas

1. Essa afirmação teria sido feito por Cinéias, embaixador do rei Pirro.
2. Se refere a Dario III, rei da Pérsia na época de Alexandre.
3. Alexandre I, tio de Alexandre o Grande, foi morto na Itália enquanto lutava contra brútios e lucanos, na época a península itálica ainda não havia sido unificada sob o domínio romano.
4. Alusão aos discursos de Demóstenes (384 a.C. - 332 a.C.) em defesa do liberdade da Grécia.
5. O mar Tirreno.
6. De 264 a 241 a. C., Alexandre morreu com 33 anos de idade.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Tito Lívio fala sobre Alexandre o Grande e compara seu exército ao romano

Fontes primárias > Roma Antiga  |  247 visualizações  |  2604 palavras  |  4,8 páginas

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Tito Lívio (59 a.C.-17 d.C.) foi um historiador romano autor da obra histórica intitulada Ab urbe condita, onde relata a história de Roma, desde sua fundação até o século 1 d.C. E Alexandre, o Grande, foi um general macedônio que conquistou boa parte do mundo conhecido no século 4 a.C.

Imagem de capa: Ilustração moderna retratando Alexandre o Grande. Baseado no Mosaico de Pompéia. Busto muitas vezes identificado como Tito Lívio.

Trecho do Livro IX da obra História de Roma - Essa é tradução de Paulo Matos Peixoto presente na edição brasileira publicada em 1989 pela Editora Paumape. Segundo Volume, páginas 228-234.

Digressão sobre as possibilidades de Alexandre, o Grande, na Itália

17 . Pode-se observar que, desde o início desta obra, procurei não me afastar, além do necessário, da cronologia dos fatos, nem buscar variedade no relato através de digressões, com o intuito de proporcionar uma espécie de agradável divertimento ao leitor e repouso ao meu espírito. Contudo, ao mencionar tão grande rei e general, sinto-me levado a registrar aqui as reflexões que mais de uma vez me ocuparam secretamente o pensamento. Permiti-me, pois, analisar qual teria sido, para o Estado romano, o resultado de uma guerra contra Alexandre.

O que me parece mais importante na guerra é o número e a coragem dos soldados, o talento dos chefes e a sorte, poderosa em todos os assuntos humanos, principalmente na guerra. Para quem considera esses elementos separadamente e em conjunto. o Império Romano teria facilmente permanecido invicto diante de Alexandre, do mesmo modo que diante de outros reis e nações. Em primeiro lugar, começando pela comparação entre os chefes, na verdade não nego que Alexandre tenha sido um general extraordinário. Contudo, o que o torna mais ilustre é o fato de ter sido o único e ter morrido jovem, na fase de crescimento do seu país, sem ter experimentado os azares da sorte.

Para não mencionar outros reis e generais ilustres que foram grandes exemplos das vicissitudes humanas, refiro-me a Ciro, tão celebrado pelos gregos. Que outra coisa o expôs à inconstância da sorte a não ser sua longa vida, como aconteceu recentemente ao grande Pompeu? Passarei em revista os generais romanos, não todos os de todas as épocas, mas apenas aqueles que, como cônsules ou ditadores, Alexandre teria de combater: Marco Valério Corvo, Caio Márcio Rútilo, Caio Sulpício, Tito Mânlio Torquato, Quinto Públio Filo, Lúcio Papírio Cursor, Quinto Fábio Máximo, os dois Décios, Lúcio Volúmnio, Mânio Cúrio. Mais tarde teria igualmente encontrado grandes homens, caso tivesse feito a guerra contra os cartagineses antes de fazê-la contra os romanos, e tivesse vindo à Itália já mais idoso. Qualquer um desses homens possuía a mesma coragem e o mesmo talento de Alexandre. Por outro lado, a disciplina militar, transmitada de geração a geração desde a origem da cidade, havia chegado a formar uma arte sujeita a princípios imutáveis. Assim os reis haviam conduzido suas guerras, assim o fizeram os que expulsaram os reis, os Júnios e os Valérios, do mesmo modo que os que se lhes seguiram, os Fábios, os Qüíncios, os Cornélios. Assim o fez Fúrio Camilo, que esses jovens contra os quais Alexandre teria de combater já haviam conhecido velho.

Os feitos de Alexandre como soldado não o tornaram menos notável, mas teria ele feito recuar em combate, se os tivesse como adversários, Mânlio Torquato ou Valério Corvo, ilustres como soldados antes de sê-lo como generais? Teria ele feito recuar os Décios, que se sacrificaram lançando-se entre os inimigos? Teria ele feito recuar Papírio Cursor, com sua força física e firmeza de espírito? Teria sido esse jovem superior em sabedoria àquele famoso Senado - o Senado romano, para não mencionar todos os seus membros, do qual nos deu uma idéia exata o homem que o definiu como uma assembléia de reis?1 Seria de temer que Alexandre se mostrasse mais hábil do que qualquer um dos que acabo de nomear, para estabelecer seus acampamentos, prover ao abastecimento das tropas, precaver-se contra as emboscadas, escolher o momento do combate, dirigir bem suas operações e garanti-las com suas tropas de reserva? Ele teria dito que nada tinha a ver com Dario2, que arrastava atrás de si um exército de mulheres e eunucos, em meio à púrpura e o ouro, sobrecarregado com o aparato de sua grandeza, assemelhando-se mais a uma presa do que a um inimigo, e a quem Alexandre venceu sem derramar o sangue dos seus e sem outro mérito senão o de ter-se atrevido a desprezar, com razão, aquela pretensiosa grandeza. Totalmente diversa da Índia, através da qual avançara à frente de um exército embriagado e em permanente desordem, ter-lhe-ia parecido a Itália, quando deparasse com os desfiladeiros da Apúlia, os montes lucanos e os vestígios recentes do desastre de sua família , onde seu tio Alexandre3, rei do Epiro, acabara de morrer.

Paralelo entre Alexandre e os generais romanos

18 . Falamos de um Alexandre e os generais romanos, ainda não imerso na prosperidade, na qual ninguém se conduziu pior que ele. Se o considerarmos pela disposição de espírito que assumiu em sua nova fortuna e pelo novo caráter, por assim dizer, que lhe deram suas vitórias, ele teria chegado à Itália muito mais semelhante a Dario do que a Alexandre, e teria trazido um exército esquecido da Macedônia e degenerado com a adoção dos costumes persas. Lamento recordar naquele grande rei a soberba que o fez mudar de trajes, o desejo de ver seus súditos se prosternarem para lhe render homenagem, a adulação que teria sido insuportável para os macedônios vencidos e com mais forte razão o eram para os macedônios vencedores, os espantosos suplícios que ordenava, o assassínio de seus amigos em meio ao regozijo do vinho e dos banquetes, e a vaidade de mentir sobre sua estirpe. Que teria acontecido se tivesse aumentado cada vez mais seu amor ao vinho? Se o mesmo tivesse acontecido com sua cólera selvagem e terrível (digo apenas o que foi afirmado pelos historiadores)? Podemos acreditar que tais vícios não viessem a prejudicar suas qualidades de general?

O verdadeiro perigo - como costumam repetir os gregos mais levianos, favoráveis à glória dos partos contra o renome dos romanos - era, sem dúvida, que os romanos não pudessem suportar a majestade do nome de Alexandre, do qual, creio eu, nunca tinham duvido falar! E que um homem, contra o qual em Atenas, cidade conquistada pelas armas macedônicas, perto de Tebas, cujas ruínas fumegantes ainda se podiam ver, alguém se atrevera a falar livremente nas assembléias (como o provam os discursos daquela época que se conservaram4), não encontrasse entre tantos romanos ilustres uma voz livre que se levantasse contra ele!

Qualquer que seja a opinião que se formule sobre a grandeza desse homem, não deixa de ser a grandeza de um único indivíduo e o resultado de pouco mais de dez anos de prosperidade. Os que exaltam Alexandre por não ter enfrentado um só combate sem que a fortuna o favorecesse, enquanto o povo romano, se nunca foi vencido na guerra, o foi em muitas batalhas, não compreendem que comparam os feitos da vida de um único indivíduo, e de um indivíduo jovem, com os de um povo que já vinha lutando há quatrocentos anos. Se de um lado se pode contar maior número de gerações do que de anos no outro, admirar-nos-emas de que a sorte tenha variado mais em tão longo espaço de tempo do que em treze anos apenas? Por que não comparar, em relação à sorte, homem com homem e general com general? Quantos generais romanos poderia nomear que jamais sofreram revezes em seus combates?

Nos anais e nos fastos dos magistrados podem ser lidas as páginas relativas a cônsules e ditadores cujo valor e sorte o povo romano não teve de lamentar uma só vez. E o que os torna mais admiráveis do que Alexandre, ou qualquer outro rei, é que alguns exerceram a ditadura durante dez ou vinte dias e nenhum exerceu o consulado durante mais de um ano. Os tribunos da plebe entravavam o recrutamento de suas tropas, eles partiam para a guerra tardiamente e eram chamados com antecipação para presidir as eleições. Na ocasião mesma em que envidavam os maiores esforços, terminava o ano de seu mandato. Um colega, às vezes por imprudência, às vezes por corrupção, impedia ou prejudicava seu trabalho. Outras vezes, sucediam a magistrados que haviam fracassado em seu mandato ou recebiam um exército bisonho e indisciplinado. Os reis, ao contrário, além de livres de qualquer impedimento, eram senhores da situação e do momento. Faziam tudo conforme seus planos, ao invés de seguir as ordens de outrem.

O invicto Alexandre teria guerreado contra generais invictos e teria colhido na luta apenas o mesmo quinhão de sorte que eles. Além disso, teria enfrentado muito maior perigo porque os macedônios possuíam um só Alexandre, exposto a inúmeros azares da guerra e até se oferecendo a eles, ao passo que os romanos possuíam muitos generais semelhantes a Alexandre por sua glória ou pela grandeza de seus feitos. Cada um deles poderia, conforme seu destino, viver ou morrer sem perigo para o Estado.

Comparação entre as tropas romanas e as de Alexandre

19. Resta comparar as tropas entre si, seja pelo número e qualidade dos soldados, seja pela multidão de seus auxiliares. No recenseamento realizado no lustro daquela época foram mencionados duzentos e cinqüenta mil cidadãos. Assim, durante o tempo que durou a sublevação dos aliados de nome latino os recrutamentos feitos quase exclusivamente em Roma permitiram o altstamento de dez legiões. Muitas vezes, durante esses anos quatro ou cinco exércitos faziam a guerra na Etrúria, na Úmbria, contra os povos inimigos gauleses, no Sâmnio e na Lucânia. Alexandre tena encontrado como poderosos aliados dos romanos, ou como inimigos deles, mas enfraquecidos pela guerra, todo o Lácio com os sabinos, os volscos, os équos, toda a Campânia, uma parte da úmbria e da Etrúria, os picentinos, os marsos, os pelignos e os vestinos, mesmos os ápulos, acrescentando-se-lhes todo o litoral grego no mar Inferior5, de Túrio a Nápoles e a Cumas, e de lá até a altura de Ãncio e de Óstia, e o Sâmnio. Ele próprio teria atravessado o mar com seus veteranos macedônios, em número de trinta mil homens, quatro mil cavaleiros, sobretudo tessálios, que constituíam toda a sua força. Se tivesse incorporado ao seu exército os persas, os indianos e outros povos, teria arrastado consigo mais um fardo do que um auxílio. Acrescentai que os romanos, em sua terra, possuíam recursos à mão, ao passo que Alexandre, como ocorreu mais tarde a Aníbal, guerreando em território estrangeiro, cedo veria seu exército envelhecer.

Como armas, os macedônios tinham escudos de metal e sarissas, isto é, lanças. Os romanos possuíam escudo de couro, que cobria melhor o corpo, e dardo, arma bem mais eficiente do que a lança para o golpe e o arremesso. Nos dois exércitos o soldado lutava a pé, conservando-se em fileiras. Mas a falange macedônica permanecia imóvel e era composta de uma única espécie de combatentes, ao passo que a legião romana, mais diversificada, compunha-se de várias partes que, conforme a necessidade, facilmente se subdividia ou reunia. Além disso, quem poderia igualar o soldado romano nos trabalhos ou suportar melhor a fadiga? Vencido numa única batalha, Alexandre teria sido vencido na guerra. Mas que derrota teria abatido os romanos, se nem a de Cáudio nem a de Canas os abateram? Embora Alexandre pudesse conseguir vitórias no início, teria muitas vezes exigido adversários como os persas, os indianos e a Ásia pouco belicosa. Reconheceria que, até então, havia guerreado contra mulheres, como, segundo se relata, teria dito aquele outro Alexandre, rei do Epiro, quando ao ser atingido por um golpe mortal comparava o resultado das guerras feitas por esse jovem na Ásia com o da que ele havia empreendido.

Na verdade, quando me lembro de que durante vinte e quatro anos6, na primeira guerra púnica, combatemos no mar contra os cartagineses, penso que a vida de Alexandre mal chegaria para uma só guerra. E como o Estado cartaginês se achava ligado ao Estado romano por antigos tratados, e um mesmo temor poderia armar contra um inimigo comum as duas cidades mais poderosas por suas armas e seus soldados, Alexandre talvez tivesse sido esmagado numa guerra simultânea contra Cartago e Roma. Para falar a verdade, os romanos não tiveram encontros com Alexandre e com as forças intactas da Macedônia. Contudo, tiveram os macedônios como inimigos em suas lutas contra Antíoco, Filipe e Perseu, sem sofrerem derrota nem sequer grave ameaça.

Deixando de lado qualquer ressentimento e silenciando sobre as guerras civis, nunca nos causou inquietação uma cavalaria ou infantaria inimiga, uma batalha em campo aberto nem posição favorável ou igualmente vantajosa para ambas as partes. Nosso soldado, sobrecarregado de armas, pode temer a cavalaria, as flechas, os desfiladeiros impraticáveis e os lugares inacessíveis aos comboios. Ele, porém, repeliu e repelirá mil exércitos mais bem-equipados do que o dos macedônios e o de Alexandre, desde que perdure o amor por essa paz na qual vivemos e a preocupação em manter a concórdia entre os cidadãos.

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Mais fontes de Roma Antiga

Vidas Paralelas: Marco Antônio, de Plutarco

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