Notas

846 - Plutarco tem razão. Existiu, entre os romanos, uma grande diversidade de uso no que se refere aos nomes. Entretanto, de um modo geral, no tempo dos reis e da República, o primeiro nome era o nome próprio. O último foi o nome próprio, em geral, no tempo dos imperadores.
847 - No ano 635, de Roma.
848 - Colega de Cota no consulado.
849 - Hoje, Gu adalquivir.
850 - Varizes.
851 - No ano 645, de Roma. Foi este Quinto Cecílio Metelo que recebeu o nome de Numídico.
852 - A cidade de Vaga, na Numídia.
853 - No ano 647, de Roma.
854 - Béstia foi cônsul no ano 643, de Roma; Albino, no ano de 644. Foram ambos enviados à África para lutar contra Jugurta, mas tiveram a baixeza de se deixar corromper pelos seus" presentes.
855 - Boco casou-se com a filha de Jugurta, e, assim, este era seu sogro. Salústio assegura-o em termos concludentes. As medalhas de Sila confirmam essa afirmação. Nelas se veem Boco jovem e sem barba e Jugurta, velho, e com uma longa barba. Amyot, deixou-se enganar por Plutarco. Deve-se assim corrigir: Boco, rei da Alta Numídia, era genro de Jugurta. V. o capítulo III da Vida de Sila.
856 - No ano 648, de Roma.
857 - Vê-se também esta cena representada nas medalhas consulares da família de Sila.
858 - No ano 650, de Roma,
859 - Os ci mbros eram os piratas do Báltico, e esse o motivo por que eram chamados de bandidos. V. "Origine Germanorum", de Jean-Georges Eccard. Não desejo examinar o fund amento da descrição de Plutarco. Diodoro da Sicília (liv. V, cap. 32) deriva a palavra eirnbro do antigo vocábulo cimério, e atribui aos cimbros a mesma orig em apresentada aqui por Plutarco, em último lugar. A tradução de Amyot apresenta, todavia, o texto com muita fidelidade; e a palavra cimbro significa, com efeito, bandido, segundo Suidas.
860 - As leis prescreviam a idade de 42 anos para o consulado. Cipião foi nomeado cônsul antes dos 30 anos.
861 - Tácito expôs com precisão e eloquência estas incursões dos cimbros e suas vitórias.
862 - No ano 650, de Roma.
863 - No ano 651, de Roma.
864 - Aurélio Orestes, colega de Mário.
865 - Restam vestígios do Canal de Mário no lugar denominado Foz. O canal encontra-se agora obstruído, e é chamado Braço-Morto.
866 - No ano 652, de Roma.
867 - Com um manto de púrpura tingido duas vezes, o que era, naquela época, uma coisa magnificente. A púrpura de Tiro, tingida duas vezes, era vendida por mil dinheiros. V. Plínio, IX, 39.
868 - É evidente que o fenômeno meteorológico então observado nessas duas ci dades da Umbria não era senão uma aurora boreal.
869 - Cidades da Galácia, famosa pelo culto a Cibela, a qual é representada em várias medalhas dessa localidade.
870 - Os latinos denominavam-na Aquae Sextiae, em virtude das águas termais existentes nas proximidades.
871 - Este fato se repetiu em 1746 nas planícies de Fontenoy, após a famosa batalha de que haviam sido teatro no ano anterior.
872 - Presentemente o rio Âdige.
873 - Os romanos a chamavam Fortuna hujusce diei. V. Plínio, XXXIV, 8. Seu templo estava localizado no décimo quarteirão de Roma.
874 - A batalha foi travada no dia 30 de julho, no ano 653, de Roma.
875 - Quando Camilo foi chamado segundo fundador de Roma, por haver expul so os gauleses.
876 - Da cidade de Camerino, situad a perto dos Apeninos.
877 - No ano 654, de Roma,
878 - Ter o «pescoço grosso» significa ser orgulhoso. O soberbo, se empavona, e seu pescoço intumesce.
879 - No ano 663, de Roma.
880 - Pompeu Rufo
881 - Perto do Mo nte Circello, onde estava localizada a antiga morada de Circe.
882 - Junto à embocadura do rio Líris.
883 - San Giuliano, na costa ocidental da Sicília.
884 - A ilha de Zerbi entre Tripoli e Tunfe.
885 - Presentemente a ilha de Querqueni.
886 - Otávio e Cina, cônsules no ano 667, de Roma.
887 - Este termo é notável e mostra o descrédito em que haviam caído no tempo de Plutarco as Sibilas, os livros sibilinos e seus seguidores.
888 - Não existe singularidades: Otávio, comportou-se como mau e Mário como bom político.
889 - O famoso orador Marco Antônio, pai do triúnviro.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Vidas Paralelas: Caio Mário, de Plutarco

Fontes primárias > Roma Antiga  |  184 visualizações  |  27114 palavras  |  50 páginas

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Caio Mário (157-86 a.C.) foi um político na República Romana. É conhecido como o "terceiro fundador de Roma" por suas vitórias militares, também foi responsável por uma série de reformas no exército romano conhecidas como as Reformas de Mário, que contribuíram para tornar Roma uma grande potência militar, mas também trouxeram uma maior instabilidade social, característica marcante do final do período republicano. Também é conhecido por ter sido o grande rival de Sila. A biografia de Mário faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Mário foi comparado com Pirro, rei de Epiro.

Imagem de capa: Busto de Caio Mário na Glyptothek, Munique. Alguns historiadores acreditam que esse busto representa outro líder da Roma Antiga, Lúcio Cornélio Cipião Asiático.

I. Diversidade de costumes entre os romanos no que se refere aos nomes próprios

I. Não se sabe qual foi o terceiro nome de Caio Mário, do mesmo modo como não se conhece o de Quinto Sertório, que foi durante muito tempo senhor da Espanha, e nem o de Lúcio Múmio, o destruidor da cidade de Corinto; pois o cognome de Acaico que foi dado a Múmio, o de Africano, a Cipião, e o de Numídico a Metelo, focam-lhes atribuídos por motivo das vitórias por eles alcançadas. É este um argumento utilizado por Possidônio para procurar convencer aqueles que dizem ser o terceiro nome dos romanos o seu nome próprio, como Camilo, Marcelo, Catão. Se assim fosse, diz ele, os que não possuem senão dois nomes não teriam nome próprio. Mas ele não viu que, de acordo com o seu argumento, as mulheres não teriam nomes próprios; pois não existe unia única mulher romana que tenha o primeiro nome que Possidônio estima ser próprio dos romanos, apresentando o primeiro dos dois outros como o nome comum de toda a família, tais como os Pompeus, os Mânlios, os Cornélios, do mesmo modo como se diz, entre os gregos, os Heráclidas, os Pelópidas; e o segundo como um cognome advindo do caráter, das ações, das formas do corpo e de outras particularidades, tais como os apelidos de Macrino, Torquato, Sila. Entre os gregos podem-se. citar os de Mnemão, que significa possuidor de boa memória; Gripo, o que possui nariz aquilino; Calinico, o vitorioso. Todavia, quanto a este ponto, a diversidade dos empregos dos nomes846 daria lugar a grandes discussões.

II. Austeridade do caráter de Mário

II. Quanto à fisionomia de Mário, vimos em Ravena, cidade da Gália, a sua estátua de mármore, a qual reproduz com simplicidade o rigor e a austeridade de caráter e de costumes que lhe foram atribuídos. Dotado de compleição robusta, corajoso, e inclinado às armas, e tendo recebido uma educação mais militar do que civil, ele revelou no exercício do autoridade uma violência que não soube moderar. Conta-se que jamais aprendeu as letras gregas e não quis mesmo se servir da língua grega em nenhuma questão de importância; achava ridículo aprender a língua de um povo escravo. Após seu segundo triunfo, no dia da consagração de um templo, ele promoveu jogos gregos, para a diversão do povo romano; e, dirigindo-se ao teatro onde os mesmos estavam sendo realizados, sentou-se por um instante, saindo logo depois. Platão costumava dizer com frequência ao filósofo Xenócrates, cujo caráter era muito rude e áspero: "Xenócrates, meu amigo, sacrificai às Graças". Se, do mesmo modo, alguém tivesse conseguido persuadir Mário a sacrificar às Graças e às Musas gregas, ele não teria dado às belas ações que o ilustraram na paz e na guerra um fim vergonhoso; e sua cólera, sua ambição inoportuna, a sua avareza insaciável, não o teriam atirado a uma velhice feroz, cruel e desumana. O relato de suas ações permitirá que tudo isso seja prontamente conhecido.

III. Suas primeiras campanhas: Cipião pressagia sua futura grandeza

III. Mário nasceu de pais obscuros e pobres, que eram forçados a ganhar a vida com o trabalho de suas mãos. Seu pai chamava-se, como ele, Mário, e sua mãe, Fulcínia. Por esse motivo, demorou a frequentar Roma, e só muito tarde ficou conhecendo os costumes da cidade. Passou os primeiros anos de sua existência numa pequena aldeia denominada Cerretino, no território da cidade de Arpino, onde levava uma vida rústica e agreste, em comparação com a civilidade e a cortesia dos que vivem nas cidades, mas sóbria e morigerada, semelhante à vida dos antigos romanos. A sua primeira campanha foi contra os celtiberos, na Espanha, realizada enquanto Cipião, o Africano, assediava a cidade de Numância. Os capitães de Cipião perceberam logo que Mário possuía maiores qualidades de homem de guerra do que qualquer de seus companheiros. Com efeito, ele assimilou com grande rapidez e facilidade a nova disciplina que Cipião introduzira nos exércitos corrompidos pela luxúria e pela indolência. Conta-se que ele mediu suas forças, um dia, com um adversário, na presença de seu general, matando-o. Cipião, para ganhar a sua afeição, cumulou-o de favores e honrarias. Uma noite, quando Mário se encontrava à sua mesa, após a ceia, tendo a conversação recaído sobre os generais daquele tempo, um dos convivas, seja porque estivesse realmente em dúvida, seja pelo desejo de lisonjear Cipião, perguntou a este qual o capitão com que os romanos podiam contar, para substituí-lo, após sua morte; e o general batendo docemente com a mão no ombro de Mário, que estava perto dele, disse: "Será, talvez, este". Estes dois homens, afortunadamente, nasceram, com a capacidade, um para anunciar, desde a sua juventude, a sua futura grandeza, e, o outro para conjecturar qual o fim que teria a carreira deste jovem.

IV. É nomeado tribuno do povo e faz aprovar uma lei sobre a maneira de votar

IV. Estas palavras de Cipião foram para Mário, ao que se diz, como uma voz divina, fazendo o conceber as mais altas esperanças e animando-o a dedicar-se à administração pública: e, gozando do favor de Cecílio Metelo, cuja casa sempre protegera a família de Mário, ele foi nomeado tribuno do povo847. Durante seu tribunado, apresentou uma lei sobre a maneira de votar na eleição dos magistrados, a qual parecia privar os nobres da influência de que gozavam nos julgamentos. O cônsul Cota combateu esta lei e persuadiu o Senado a opor-se a ela e a impedir a sua adoção; além disso, solicitou que Mário fosse intimado a comparecer perante os senadores a fim de explicar as razões de sua conduta. Esta proposta foi aprovada e Mário entrou no Senado, não com o embaraço de um jovem que, sem ser conhecido por qualquer ação de relevo, mal começava sua vida pública, não tendo outros atributos senão a sua própria virtude; mas, ao contrário, tomando com antecipação o ar de segurança que lhe deram mais tarde os seus grandes feitos, ameaçou publicamente o cônsul de prisão, caso não fizesse revogar a decisão. Cota, voltando-se para o lado onde se encontrava Cecílio Metelo848, pediu-lhe que manifestasse a sua opinião. Este senador levantou-se e falou em defesa do cônsul. Mário, então, mandou vir de fora um lictor, e ordenou-lhe que conduzisse Metelo à prisão. Este apelou para os outros tribunos, mas nenhum deles tomou a sua defesa; e, assim, o Senado julgou que devia ceder e anulou o seu decreto. Mário, cheio de orgulho com a sua vitória, saiu do Senado e dirigiu-se à assembleia do povo, onde fez aprovar a sua lei. Este começo fez com que o julgassem um homem que jamais recuaria movido pelo temor ou cederia por timidez, e que, para servir os interesses do povo, oporia ao Senado a mais forte resistência.

V. Malogra na sua pretensão à edilidade. Obtém a pretura, e é suspeitado de haver comprado sufrágios

V. Entretanto, logo depois ele desfez esta opinião, agindo de maneira oposta. Tendo sido feita e proposta uma distribuição gratuita de trigo aos cidadãos, Mário opôs-se tenazmente a essa medida; e, tendo feito rejeitar a lei, passou a dispor do apoio dos dois partidos, os quais o julgaram incapaz de favorecer interesses particulares em detrimento do interesse da República. Após o tribunado, pretendeu ingressar na grande edilidade. Existem, com efeito, duas categorias de edis: a primeira é a cedilitas curulis, assim denominada por motivo das cadeiras de pés recurvados, nas quais se sentavam os edis quando davam audiência; a segunda, bem inferior em dignidade, é a aedilitas popularis, ou seja a dos edis plebeus. E, em Roma, imediatamente após a eleição dos grandes edis, procede-se à eleição dos outros. Mário, vendo desde o início que o seu nome ia ser recusado para a primeira edilidade, apresentou-se sem perda de tempo à segunda. Viu-se, nesta sua atitude, a afirmação de um caráter obstinado e audacioso, e, por este motivo, num mesmo dia, foi objeto de duas recusas, coisa jamais ocorrida. Este revés não abateu, contudo, a sua coragem, e tempo depois ele pleiteou também a pretura, e por pouco o seu nome não foi igualmente recusado. Eleito, finalmente, em último lugar, foi acusado de haver comprado votos. As suspeitas foram sobremodo motivadas pelo fato de ter sido visto um escravo de Cássio Sabacão no interior do recinto onde se procedia à eleição, indo e vindo entre os que votavam. Cássio era amigo íntimo de Mário; chamado perante, os juízes, e interrogado sobre tal fato, declarou que, em virtude do excessivo calor, sentira muita sede, e que pedira por isso água ao seu escravo; este, no entanto, logo após ter-lhe levado a água numa taça, deixara o local. Entretanto, Sabacão foi mais tarde expulso do Senado pelos censores escolhidos naquele comício; e julgou-se que ele havia merecido este castigo infamante, ou por ter prestado depoimento falso, ou por haver cedido à sua intemperança.

VI. Altivez de sua resposta a Herênio, que se recusou a testemunhar contra ele, por ser seu patrão

VI. Caio Herênio foi também chamado a testemunhar contra Mário; mas alegou, para se desculpar, que a lei e o costume dispensam o patrão de prestar testemunho centra os seus clientes ou aderentes. Patrão é a palavra pela qual os romanos designam os que assumem a proteção de pessoas de condição inferior à sua; ora, a família de Mário, e o próprio Mário, sempre foram dependentes da casa dos Herênios. Os juízes receberam e concordaram com esta desculpa; todavia, Mário opôs-se à sua aceitação, alegando que, desde o momento no qual fora nomeado para uma função pública, sua condição de dependência cessara, deixando de ser cliente ou aderente de qualquer pessoa. Isto não era, contudo, inteiramente verdadeiro, pois o exercício de uma magistratura não dispensa os clientes, nem seus descendentes, de seus deveres para com os patrões, de permanecerem sob a patronagem de outrem; este privilégio só beneficia os magistrados a quem a lei permite sentar-se na cadeira curul, ou seja, a cadeira que é transportada num carro pela cidade.

VII. É absolvido, e vai comandar tropas na Espanha

VII. Nos primeiros dias, a causa de Mário não se apresentou sob auspícios favoráveis, mostrando-se os juízes contrários a ele. Entretanto, no último dia, contra a expectativa do público, ‘ele foi absolvido, pois os votos dos juízes dividiram-se. Mário portou-se com grande honestidade no exercício do cargo de pretor, e, ao deixá-lo, decorrido um ano, seguiu para a Espanha Ulterior, situada além do rio Betis849, e que lhe coube ao serem divididas, por sorte, as províncias. A Espanha possuía ainda costumes rudes e selvagens, e os espanhóis não conheciam então nada de" mais belo do que uma vida de roubos e banditismo. Ao que se conta, ele livrou toda a província dos seus ladrões e assaltantes.

VIII. Casa-se com Júlia, da família dos Césares

VIII. Após o seu regresso a Roma, decidiu participar do trato das questões públicas; mas verificou logo que não possuía nem eloquência, nem riqueza, dois dos mais poderosos meios a que se podia recorrer na época para obter o apoio e a consideração do povo. Todavia, seus concidadãos tiveram em conta a firmeza de seu caráter, a sua perseverança no trabalho e a simplicidade de sua vida, permitindo-lhe assim conquistar as primeiras honras; e adquiriu logo tal poderio que, através de uma aliança das mais honrosas, ingressou na ilustre casa dos Césares: desposou Júlia, tia de Júlio César, que se tornou depois o maior dos romanos, e que, em virtude deste parentesco e da afinidade existente entre ambos, imitou, ao que parece, Mário, assim como relatamos em sua vida.

IX. Sua paciência na dor

IX. Além de ser homem de grande continência, Mário era também dotado de notável paciência, e disto deu uma prova no decorrer de uma operação a que se submeteu. Suas pernas estavam cheias de veias dilatadas850 e, como suportasse mal a deformidade por elas causada, chamou um cirurgião para cortá-las. Apresentou-lhe uma das pernas, para que dela cuidasse, não consentindo que a amarrassem: e sofreu as dores cruéis causadas pelas incisões, sem gemer, sem fazer qualquer movimento, com uma fisionomia inalterada e num profundo silêncio. Mas quando o cirurgião quis passar para a outra perna, ele recusou-se a atendê-lo, dizendo: "Vejo que a cura não vale a dor que provoca".

X. Metelo escolhe-o como seu lugar-tenente na África. Conduta de Mário neste cargo

X. O cônsul Cecílio Metelo851, tendo sido nessa época designado para ir à África a fim de combater o rei Jugurta, escolheu Mário como um de seus lugar-tenentes. Mário, que viu nesta expedição uma oportunidade para belas ações e grandes proezas, não se propôs como objetivo, em tal viagem, a conquista de novas honrarias e novas glórias para Metelo, como os outros lugar-tenentes, E estava certo de que não fora Metelo que o escolhera para esse posto, mas a própria fortuna, a qual lhe apresentava uma ocasião das mais favoráveis para tornar-se mais conhecido, conduzindo-o, por assim dizer, a um magnífico teatro, a fim de mostrar o que sabia fazer; e assim empenhou-se em dar as maiores demonstrações possíveis de coragem e talento militar, No decorrer desta guerra, que oferecia inúmeras dificuldades, jamais receou as tarefas mais rudes ou desdenhou as ocupações de menor importância. Superando todos os seus companheiros em bom senso e prudência, em tudo o que podia contribuir para o bem comum, ele rivalizava em paciência e frugalidade, com os simples soldados, e foi assim conquistando a simpatia e a benevolência de todo o exército. Na realidade, constitui um grande conforto, para os que se encontram em situações difíceis, possuir um companheiro que partilhe espontaneamente de todos os trabalhos e penas, e isto porque lhes parece ficarem assim aliviados, no que se refere ao constrangimento e à necessidade. E, para o soldado romano, nada existe de mais confortador do que ver seu-comandante comer, à vista de toda gente o mesmo pão que ele, ou deitar-se numa pobre enxerga, ou trabalhar ao seu lado na escavação de uma trincheira ou na fortificação de um campo. Ele não estima tanto os generais que lhe dão dinheiro e o promovem quanto aqueles que se associam aos seus trabalhos e se expõem aos perigos da guerra; e, acima de tudo, estima mais aqueles que partilham de suas fadigas do que aqueles que lhe permitem viver na ociosidade.

XI. Paz condenar Turpílio a morte

XI. Mário, agindo desse modo, conquistou a afeição de todos os soldados, e encheu, rapidamente,- toda a África e a cidade de Roma inteira com o seu renome e a sua glória. Todos os que, do exército, escreviam para suas famílias, em Roma, não cessavam de repetir que não se veria o fim da guerra contra aquele rei bárbaro se a sua direção não fosse confiada a Mário, com a sua eleição para as funções de cônsul. Uma preferência tão acentuada desagradava fortemente a Metelo; todavia, nada lhe desagradou tanto quanto a aventura de Turpílio. Era este amigo de Metelo, e as suas famílias estavam ligadas fazia muito tempo pelos laços da hospitalidade. Turpílio acompanhara Metelo nesta guerra, e exercia no exército o cargo de intendente dos operários. Foi-lhe confiada, por seu comandante, a guarda de Vaga852, grande e importante cidade; e, confiando na lealdade dos habitantes do lugar, aos quais tratava com doçura e humanidade, não percebeu que, tendo sido por eles traído, ficara nas mãos de seus inimigos. Eles, com efeito, introduziram Jugurta no interior da cidade, não fazendo, contudo, nenhum mal a Turpílio, tendo mesmo conseguido do rei, para ele, a salvação de sua vida e a liberdade. Foi por isso acusado de traição. Mário, um dos membros do conselho de julgamento, além de muito prevenido contra ele, acirrou de tal modo o ânimo dos outros juízes, que Metelo foi forçado, contra sua vontade, devido à pluralidade dos votos, a condená-lo a morte. Algum tempo depois se verificou que a acusação era falsa, o que causou grande desgosto a Metelo, desgosto este partilhado pelos juízes, com exceção de Mário que, ao contrário, externou publicamente a sua alegria. Ele se vangloriava dizendo que a condenação fora sua obra, e não teve pejo de alardear por toda parte que juntara à alma de Metelo uma fúria vingadora que o punia por ter mandado matar seu hóspede, A partir de então eles se tornaram inimigos declarados, e conta-se que, um dia, Metelo, zombando, disse-lhe: "Queres, então, deixar-nos, homem de bem, e voltar a Roma para disputar o consulado, pois que não podes esperar para ser cônsul juntamente com meu filho". Este filho de Metélo estava ainda em sua primeira juventude.

XII. Dirige-se a Roma, e pleiteia o consulado

XII. Entrementes, Mário pôs-se a solicitar vivamente o seu licenciamento, sendo grande a sua insistência. Metelo, após vários adiamentos, decidiu, finalmente, concedê-lo, mas isto quando faltavam somente doze dias para a eleição dos cônsules. Por este motivo, Mário, apressando-se, alcançou Útica, localidade situada a beira-mar, em dois dias e uma noite, apesar de ser considerável a distância que a separava do acampamento. Antes de embarcar, ofereceu um sacrifício aos deuses, e estes, segundo lhe asseguraram os adivinhos, prometeram-lhe êxitos extraordinários, de muito superiores às suas esperanças. Ainda mais encorajado, diante de tais promessas, ele fez-se ao mar: e como o vento lhe fosse constantemente favorável, a travessia foi feita em quatro dias. Dirigindo-se, logo após o desembarque, a Roma, apareceu diante do povo, que estava ansioso por vê-lo. Levado a um comício, por um dos tribunos, ali formulou várias acusações contra Metelo, e em seguida pediu aos romanos que o elegessem cônsul, prometendo matar ou aprisionar, em poucos dias, o rei Jugurta.

XIII. Sua eleição. Elogios que faz de si mesmo. Injurioso desprezo que manifesta pela nobreza

XIII. Foi escolhido cônsul sem oposição853, e, apenas investido em suas funções, desprezando os costumes e as leis de Roma, arrolou, nos novos recrutamentos, pobres homens que nada possuíam, e vários escravos. Até então, nenhum general recrutara para seus exércitos gente dessa condição, confiando as armas, assim como outros encargos honrosos da República, somente a homens que delas fossem dignos e cujos bens conhecidos oferecessem uma garantia de cumprimento de seu dever na guerra e de sua fidelidade. Contudo, não foi esta inovação que atraiu para Mário os maiores ódios; as palavras cheias de altivez e insolência que proferiu, em seus discursos, ofenderam ainda mais as principais personalidades da cidade. Ele declarava em altas vozes, por toda parte, que seu consulado era um despojo tirado à moleza dos patrícios e dos ricos, graças à sua virtude; e glorificava-se junto do povo, não com monumentos erguidos à memória de mortos ou com estátuas, mas com os ferimentos que recebera em seu próprio corpo. E, muitas vezes, referindo-se a generais que haviam sido mal sucedidos na África. tais como Béstia854 e Albino, ambos pertencentes a famílias grandes e nobres, mas sem capacidade para a guerra e cuja inexperiência motivara as derrotas sofridas, chamou-os, citando os seus próprios nomes, de covardes, perguntando aos que estavam em suas proximidades; "Não acreditais que os antepassados destes dois capitães teriam preferido deixar descendentes que se assemelhassem comigo? E eles próprios se tornaram ilustres pelos seus altos feitos e pelas suas virtudes, e não pela nobreza e pelo sangue". Estes discursos não eram inspirados a Mário somente pela sua presunção e vaidade, pelo desejo de atrair gratuitamente o ódio dos patrícios; mas eram também sugeridos pelo povo que, deliciado com o opróbrio e o desprezo a que era lançado o Senado, e medindo sempre a extensão da coragem pela altivez das palavras, elevava Mário até às nuvens, e o concitava a não poupar os nobres e a ter em conta apenas a multidão.

XIV. Boco entrega Jugurta às mãos de Sila, questor de Mário

XIV, Quando Mário voltou à África, Metelo deixou-se dominar pela inveja e pelo despeito, pois que, quando a guerra já havia sido por ele quase inteiramente terminada, restando-lhe somente apoderar-se da pessoa de Jugurta, o novo cônsul, que devia o seu posto tão somente à sua ingratidão, ia Arrebatar-lhe a glória e o triunfo. Não quis por isso encontrar-se com ele, e retirou-se do exército. O comando deste foi transmitido a Mário por um de seus lugartenentes, Rutílio. Entretanto, antes do fim da guerra, a vingança celeste puniu Mário por sua perfídia. Sila foi arrebatar-lhe a glória de concluí-la, do mesmo modo como a havia arrebatado de Meteloi Como já contei com pormenores este fato na Vida de Sila, eu aqui o repetirei em poucas palavras: Boco, rei da Alta Numídia, era sogro de Jugurta855, a quem não prestou grande auxílio enquanto este se manteve em guerra com os romanos, pretextando a sua má fé; na realidade, ele receava o aumento de seu poderio, Quando Jugurta, fugitivo e errante, não tendo outra pessoa a quem recorrer senão seu sogro, refugiou-se junto dele, na sua extrema necessidade, Boco recebeu-o como a um pedinte, mais por vergonha do que por benevolência. Tendo-o em suas mãos, ele simulava, em público, estar pleiteando seu perdão junto a Mário. Escrevia mesmo, a este general, com uma franqueza aparente, dizendo que não lhe entregaria Jugurta. Entretanto, tendo planejado trair este príncipe, mandou secretamente chamar Sila, então questor de Mário, ou seja, seu tesoureiro geral, e de quem havia recebido alguns serviços no decorrer da guerra. Sila, confiando no bárbaro, atendeu ao seu convite e dirigiu-se à sua corte. Todavia, quando ali chegou, Boco mudou de parecer, e, ao que parece, arrependeu-se de seu propósito. Durante vários dias permaneceu hesitante, não sabendo se entregaria seu genro ou se deteria Sila. Finalmente, decidindo-se pela traição que havia primeiramente projetado, entregou Jugurta vivo às mãos de Sila856.

XV. Esta foi a origem do ódio entre Mário e Sila

XV. Este foi o primeiro germe do ódio implacável e cruel que se manifestou logo depois entre Mário e Sila, e que por pouco não causou a ruína da cidade e do império de Roma. Aqueles que invejavam a glória de Mário diziam que a captura de Jugurta era devida a Sila; e o próprio Sila mandara gravar um anel que, em seguida, sempre trouxe consigo, e lhe servia de sinete, no qual ele aparecia representado no momento em que recebia Jugurta das mãos de Boco857 e nada irritou tanto Mário, o mais ambicioso dos homens e o menos disposto a dividir com outrem a glória resultante de suas ações. Sila, aliás, era instigado pelos inimigos de Mário, os quais faziam questão de atribuir os primeiros e maiores êxitos da guerra a Metelo, e os últimos a Sila, concedendo ainda a este a glória do remate final. Eles tinham como objetivo impedir que o povo continuasse a dedicar a Mário uma tão grande admiração e a considerá-lo como o primeiro dos capitães romanos.

XVI. Segundo consulado de Mário

XVI. Mas todas estas invejas, todos estes ódios e estas invectivas contra Mário foram logo atenuados e dissipados pelo grande perigo que veio ameaçar toda a Itália do lado do poente. E daquilo não se falou mais, desde o dia em que se verificou que a República necessitava de um bom capitão e em que se começou a procurar com os olhos quem seria o sábio piloto que a poderia salvar numa guerra tão perigosa e tão tormentosa; e como os cidadãos das casas mais nobres e mais ricas recusassem apresentar-se como pretendentes ao consulado, Mário embora ausente, foi eleito cônsul pela segunda vez858.

XVII. Origem dos cimbros

XVII. Mal se divulgara em Roma a notícia da captura de Jugurta, e ali chegava também a nova da invasão dos teutões e dos cimbros. Todas as afirmações relativas ao número e à força dos invasores pareceram a princípio inverossímeis; mas o que se afirmava revelou-se logo depois abaixo da verdade. Somavam eles trezentos mil combatentes, todos muito bem armados, e arrastavam atrás deles uma multidão ainda mais numerosa de mulheres e crianças, para quem procuravam terras capazes de proporcionar alimentos e cidades onde pudessem se estabelecer; pois sabiam que, antes deles, os celtas tinham conquistado aos toscanos a região mais fértil da Itália. Como estes bárbaros tinham escasso comércio com os outros povos, e como habitavam países remotos, ignorava-se a que nações pertenciam, e de que regiões haviam partido para vir, como uma nuvem tempestuosa, cair sobre a Gália e a Itália. O seu grande porte, os seus olhos negros e a denominação de cimbros859, que os germanos davam aos bandidos, faziam apenas conjecturar serem um destes povos da Germânia que habitam às margens do Oceano Setentrional.

XVIII. Sua coragem, suas vitórias

XVIII. Outros dizem que a Céltica, país vasto e profundo, estende-se desde o grande mar Oceano e das regiões setentrionais, até os pântanos Meótides e a Cítia ou Tartária Pôntica; dizem ainda que aqueles dois povos, tendo-se unido, saíram de seus países, não ao mesmo tempo e numa única emigração: cada ano, na primavera, eles avançavam e atacavam as populações que encontravam à sua passagem., de modo que, através de conquistas sucessivas, estenderam-se por todo o continente; e é por este motivo, que embora cada povo tivesse um nome diferente, dada a diversidade de suas nações, dava-se a todo o seu exército a denominação de celtócitas. Outros dizem ainda que uma parte da nação dos cimérios, que os antigos gregos conheceram outrora, parte aliás pouco considerável em relação à nação inteira, fugiu, ou foi expulsa de seu país pelos citas, em consequência de alguma sedição, e atravessou os pântanos Meótides, na Ásia, sob a chefia de um capitão chamado Ligdamis. Os restantes, que formavam a parte mais numerosa da nação, habitavam as extremidades da terra, perto do oceano Hiperbóreo, numa região coberta de florestas intermináveis e umbrosas, e tão densas que os raios do sol não podiam nelas penetrar, e aprofundavam-se tanto no interior da terra que iam se unir à floresta Hercínia. Elas estavam colocadas sob a parte do céu onde a inclinação dos círculos paralelos dá ao polo uma tal elevação que ele fica no zênite destes povos, e que, sendo os dias, tanto na sua maior duração como na menor, sempre iguais às noites, dividem ali o ano em duas partes iguais, Foi isto que deu a Homero a ideia da fábula, na qual diz que quando Ulisses quis evocar os mortos dirigiu-se ao país dos cimérios, como sendo a região dos infernos.

XIX. Tomam a decisão de atacar Roma

XIX. Eis de onde partiram, segundo se diz, para chegar à Itália, estes bárbaros chamados a princípio cimérios, designação da qual decorreu, possivelmente, o nome de cimbros. No entanto, estes informes baseiam-se mais em conjeturas do que em provas históricas: mas a maior parte dos autores concorda em que o seu número longe de ser inferior ao que mencionamos, era ainda mais considerável. Sua coragem e sua impetuosidade, sua força e sua rapidez nos combates podiam ser comparadas à violência e à velocidade do raio; nada podia lhes resistir e nem se opor ao seu avanço: todos os povos, à sua passagem, eram arrastados como uma presa fácil. Vários generais romanos, enviados para a Gália Cisalpina, a fim de governar e defender as possessões de Roma, com poderosos exércitos, foram vergonhosamente levados de vencida por eles860. E foi a covardia demonstrada por estes comandantes, ante os primeiros ataques dos bárbaros, que os levou a marcharem sobre Roma, encorajados pela facilidade de suas vitórias sobre todos os generais por eles enfrentados, e pelas riquezas imensas de que se tinham apoderado. Decidiram não se estabelecer em nenhum lugar antes de destruir Roma e saquear a Itália,

XX. Inútil oposição à eleição de Mário

XX, Os romanos, a quem a notícia de tal resolução chegava de todos os lados, chamaram Mário para conduzir esta guerra, e o nomearam cônsul pela segunda vez, embora as leis proibissem a eleição de pessoas ausentes e estabelecesse um certo prazo entre dois consulados exercidos por um mesmo magistrado. Alguns cidadãos, para se oporem à sua eleição, alegaram estas leis; mas o povo os repeliu. Não era a primeira vez, dizia-se, que as leis cediam diante da utilidade pública; e o motivo para a derrogação de tais leis, nesta circunstância, não era menos urgente do que aquele que havia levado os seus antepassados a nomearem, contra as leis861, Cipião, para as funções de cônsul; e quando o elegeram, não recearam de nenhum modo a ruína de sua cidade: eles não tinham em vista senão destruir Cartago. O povo, diante destes argumentos, confirmou a nomeação de Mário.

XXI. Seu triunfo, Morte de Jugurta

XXI. Mário transferiu o seu exército da África para a Itália, e, a 19 de janeiro862, dia em que começa o ano romano, tomou posse do consulado. Entrou como triunfador em Roma e proporcionou aos moradores da cidade um espetáculo que jamais esperavam ter: o rei Jugurta cativo. Ninguém teria ousado prever o fim da guerra enquanto vivesse este príncipe, tal a sua habilidade em se amoldar às variações da fortuna, tais a sua coragem e astúcia! Conta-se que, durante a marcha triunfal, ele perdeu os sentidos, e, terminados os festejos, foi levado para uma prisão, onde os lictores, ansiosos por obterem despojos, arrancaram-lhe as pontas das duas orelhas a fim de ficar com os anéis de ouro que trazia. Após ter sido atirado a um canto do calabouço, disse, sorrindo, apesar de estar com os sentidos ainda perturbados: "Por Hércules, como são frias as vossas estufas!" Depois de lutar seis dias inteiros com a fome, durante os quais conservou sempre a esperança e o desejo de continuar a viver, encontrou, finalmente, numa morte miserável, a justa punição para as maldades que cometera em vida. No cortejo triunfal, foram transportados, ao que se conta, três mil e sete libras de ouro e cinco mil e setecentas de prata, e, além disso, moedas de ambos esses metais no valor de dezessete mil e vinte e oito dracmas.

XXII. Partida de Mário para a guerra. Como acostumou seu exército à fadiga

XXII, Após este triunfo, Mário reuniu o Senado, e, seja por distração, seja por abuso insolente, entrou na sala com suas vestes de triunfador. Percebendo, contudo, a indignação de todo o Senado, retirou-se; e, depois de vestir a toga consular, voltou ao seu lugar. Ao partir em seguida para a guerra, a sua maior preocupação foi exercitar as suas tropas, o que fazia mesmo durante a marcha; acostumou-as a todas as espécies de corridas e a percorrerem longos trechos de caminho; obrigou-as a carregarem a sua bagagem e a prepararem a sua alimentação. Assim é que, muito tempo depois, os soldados que gostavam do trabalho e executavam pacientemente e em silêncio tudo o que lhes era ordenado, eram chamado os mulos de Mário". Há pessoas, todavia, que apresentam uma origem diferente para este dito: dizem que, no cerco de Numância, tendo Cipião querido inspecionar, não somente as armas e os cavalos de seus soldados, mas também os seus carros e os seus mulos, a fim de verificar se estavam em boas condições para continuar a prestar serviços, Mário levou-lhe seu cavalo, do qual ele próprio cuidava, apresentando-se por isso muito bem nutrido, assim como seu macho, o qual, pela sua nediez, força e mansidão, deixava longe todos os outros mulos do exército. O general, encantado com o aspecto apresentado pelos animais de Mário, referiu-se depois várias vezes ao fato, e assim se tornou uma espécie de rifão dizer-se, com referência a um homem laborioso, assíduo e paciente no trabalho, e de quem se queria zombar, ser ele um mulo de Mário.

XXIII. Aventura de Trebônio. Admirável conduta de Mário em relação a ele

XXIII. Ao que me parece, foi para Mário um grande favor da fortuna o fato de os bárbaros, numa espécie de refluxo, terem decidido em primeiro lugar espraiar-se pela Espanha: este retardamento deu-lhe o tempo necessário para exercitar ainda mais os seus soldados e incutir-lhes ânimo e coragem; e, o que era mais importante, de ensinar-lhes a conhecer seu general. A sua severidade no comando, o seu rigor inflexível nas punições, logo que eles aprenderam a obedecer e a não mais faltar ao seu dever, pareceram-lhes justas e salutares.

Depois de conviverem algum tempo com ele, viram que a sua cólera e os seus arrebatamentos, a aspereza de sua voz, o ar feroz de seu rosto, não deviam ser temidos por eles e sim pelo inimigo. Mas nada lhes agradava tanto como a sua retidão nos julgamentos, e cita-se, a propósito, um exemplo notável Havia, entre os oficiais, um seu sobrinho, chamado Caio Lúcio, o qual não era tido como um homem mau, mas que tinha um vício: o de se apaixonar pelos jovens bonitos. Ele se enamorou de um rapaz chamado Trebônio, que pertencia à sua companhia, e, após solicitar em vão, por várias vezes, os seus favores, decidiu, finalmente, uma noite, mandar buscá-lo por um de seu servidores. O jovem, que não podia desobedecer ao oficial, dirigiu-se à sua tenda. Ali, como Caio Lúcio tentasse violentá-lo, desembainhou sua espada e matou-o. Mário não se encontrava no acampamento, e, após seu regresso, intimou Trebônio a comparecer perante seu tribunal. Apresentaram-se várias pessoas para acusá-lo e nenhuma para defendê-lo. Tomou, então, o jovem, a palavra, com confiança, e, depois de expor perante Mário o que se tinha passado, enumerou diversas testemunhas de suas firmes e reiteradas recusas às frequentes solicitações de Lúcio e das ofertas consideráveis que lhe tinham sido feitas, mas que, no entanto, não o haviam tentado a abandonar a sua honra. Mário, cheio de admiração pela sua atitude, após louvá-lo, mandou buscar uma daquelas coroas com que os romanos costumavam recompensar os grandes atos de coragem no decorrer dos combates, e colocou-a ele próprio sobre a cabeça de Trebônio, pela sua ação virtuosa numa época em que eram necessários grandes exemplos.

XXIV. Mário é nomeado cônsul pela terceira o pela quarta vez

XXIV. Este julgamento, que logo depois se tornou conhecido de todos, em Roma, serviu-lhe de muito para obter o seu terceiro consulado. Aliás, a volta dos bárbaros estava sendo esperada para a primavera, e os soldados não estavam dispostos a combater sob o comando de outro general que não Mário. Entretanto, os bárbaros não apareceram tão cedo quanto se supusera, e o terceiro consulado de Mário863 chegou ao seu termo sem que tivessem aparecido. Ao aproximar-se a época da eleição, a morte do outro cônsul864 obrigou Mário a deixar o comando do exército a Mânio Acílio e seguir para Roma. Vários romanos, dos mais conceituados disputavam o consulado; mas Lúcio Saturnino, o tribuno que gozava então de maior prestígio popular, tendo sido corrompido por Mário, pôs-se a falar em todas as assembleias, a fim de convencer os cidadãos de que deviam elegê-lo cônsul pela quarta vez, E como Mário simulasse não desejar a sua reeleição, e chegasse mesmo a dizer que recusaria o cargo se o povo a ele o reconduzisse, Saturnino acusava-o de trair a pátria, por não querer, diante de um perigo tão grande, aceitar o comando do exército. Via-se perfeitamente que se tratava de uma simulação, na qual Saturnino desempenhava muito grosseiramente o seu papel; mas o povo. sentindo que naquela conjuntura necessitava a nação da capacidade e da boa estrela de Mário na guerra, elegeu-o cônsul pela quarta vez865, dando-lhe por companheiro Catulo Lutácio, homem estimado pelos nobres e que era também considerado pelo povo.

XXV. Manda abrir um novo canal para servir de embocadura ao Ródano

XXV. Mário, informado de que bárbaros se aproximavam, atravessou de novo, rapidamente, os Alpes; e após estabelecer o seu acampamento perto do rio Ródano, fortificou-o e supriu-o com tal abundância de víveres que jamais uma escassez de provisões poderia forçá-lo a combater quando isso não lhe oferecesse vantagem ou ainda não tivesse chegado o momento propício, Mas como era preciso fazer seguir por mar todas as provisões, com desperdício de tempo e de dinheiro, tratou de encontrar um meio de transporte fácil e rápido. As marés haviam enchido com grande quantidade de limo e de areia a embocadura do Ródano; as suas margens estavam igualmente cobertas por uma vasa espessa, nelas depositada pelas ondas, o que tornava a entrada do rio tão difícil quanto perigosa aos grandes navios de carga. Mário, considerando tal coisa, decidiu utilizar c seu exército no período em que estava inativo, na abertura de um amplo canal, pelo qual desviou uma boa parte da água da torrente, e que levou até um ponto da costa seguro e cômodo. O canal era bastante profundo para permitir a passagem de grandes navios e a embocadura, junto ao mar, estava ao abrigo dos ventos e do choque das vagas, Este canal ou fosso tem ainda hoje. o nome de Canal de Mário866.

XXVI. o inimigo oferece lhe batalha, o que ele não aceita

XXVI. Os bárbaros dividiram-se em dois exércitos para dirigir-se- à Itália: o constituído pelos cimbros ganhou a Alta Germânia, a fim de, através da Nórica, forçar as passagens defendidas por Catulo; e o outro, formado pelos teutões e ambrões, passou pela Ligúria, ao longo da costa, e marchou contra Mário. Os cimbros, que tinham um longo caminho a percorrer, retardaram a sua partida, por muito tempo; mas ou teutões e os ambrões partiram logo, e após transpor o espaço que os separava dos romanos, surgiram diante de Mário. Era um número infinito de bárbaros, de aspecto medonho, e cujas vozes e gritos não se assemelhavam aos dos outros homens. Ocuparam, para estabelecer o seu acampamento, uma imensa extensão de terreno; e logo em seguida, puseram-se a provocar Mário e a desafiá-lo para a batalha. O general romano, que não se deixou impressionar por esses desafios, reteve os soldados em seu acampamento, e dirigiu severas reprimendas àqueles que ostentavam uma audácia inoportuna e, não dando atenção’ senão à sua impaciência e à sua cólera, queriam a todo custo sair a campo para combater. Ele qualificou-os como traidores da pátria, dizendo: "Não se trata aqui de combater pela nossa glória particular, nem de alcançar vitórias para nós, mas de dissipar esta nuvem de tempestade, carregada de raios, a fim de que ela não vá espalhasse por toda a Itália".

XXVII. Como familiariza seus soldados com o aspecto medonho dos bárbaros

XXVII. Esta linguagem era por ele usada particularmente com os seus oficiais; quanto aos soldados, colocava-os, uns após outros, sobre as fortificações do acampamento, a fim de contemplarem os inimigos e se acostumarem com suas fisionomias, seus gestos, sua maneira de andar e suas vozes, que eram estranhas e selvagens, e também para ficarem conhecendo as suas armas e o seu modo de manejá-las. E tornou-os, assim, familiarizados, pelo hábito, com o que à primeira vista lhe parecera tão terrível, pois ele sabia que a novidade leva os homens, por um erro de julgamento, a imaginarem mais horríveis e mais espantosas que na realidade são as coisas que se receiam; e, ao contrário, o hábito anula, mesmo em relação àquelas verdadeiramente temíveis, grande parte do terror que inspiram. E isto foi confirmado pela experiência: o fato de verem todos os dias os bárbaros, não somente diminuiu pouco a pouco o medo que inspiravam aos soldados romanos, como, aguçando a sua cólera, as altivas ameaças e as insuportáveis bravatas do inimigo, inflamaram a sua coragem e despertaram neles um ardente desejo de combater. Pois os bárbaros, não contentes de pilhar e devastar os arredores, iam insultá-los, até o seu acampamento, com uma audácia e uma insolência tão revoltantes, que, indignados, ante a sua inação, eles puseram-se a formular queixas as quais, afinal, foram ter aos ouvidos de Mário.

XXVIII. Queixas dos soldados de Mário, ansiosos por serem levados ao combate

XXVIII. "Que covardia, diziam eles, Mário descobriu em nós, para nos impedir de combater, para nos manter sob a guarda e a chave de porteiros como se fôssemos mulheres? Ousemos demonstrar-lhe que somos homens livres, e vamos perguntar-lhe se ele está esperando outros soldados, que não nós, para combater em defesa da Itália, e se decidiu apenas utilizar-nos como simples trabalhadores, para abrir fossos, drenar atoleiros ou desviar o curso de rios. Pois foi somente nisso- que ele nos manteve em grande atividade até agora, e essas são as belas obras que executou em seus dois consulados, e delas pretende se jactar certamente em Roma. Receará ele a sorte de Carbão e Cipião, que foram derrotados pelo inimigo? Ele não deve recear tal coisa; pois é um comandante muito mais valoroso do que aqueles dois generais, e seu exército é muito mais poderoso. Entretanto, seja como for, mais vale perder tentando-se fazer alguma coisa, do que permanecer na ociosidade, enquanto nossos amigos e aliados são destruídos e saqueados",

XXIX. Acerca de uma mulher síria que Ale trazia consigo, como profetisa

XXIX, Mário, que ouvia com satisfação estas queixas e recriminações, procurava tranquilizálos e reconfortá-los, assegurando-lhes que de nenhum modo menosprezava suas qualidades; e explicou-lhe que, advertido por certas profecias e oráculos dos deuses, decidira aguardar o tempo e o lugar propícios à vitória. Mário conduzia sempre consigo, fazendo-a transportar numa grande liteira, uma mulher da Síria, chamada Marta, que possuía, segundo se afirmava, o dom da profecia. Ele tratava-a com o maior respeito, e jamais oferecia sacrifícios sem a sua ordem. Marta dirigira-se primeiramente ao Senado, a fim de predizer-lhe as coisas futuras; mas os senadores não quiseram ouvi-la e mandaram mesmo expulsá-la do edifício. Dirigiu-se ela, então, às mulheres, a quem forneceu algumas provas de seus conhecimentos acerca das coisas do futuro; persuadiu, em particular, a esposa de Mário, do acerto de suas predições, num dia em que se sentou aos seus pés, durante um combate de gladiadores, anunciando-lhe quem seria o vencedor. A mulher de Mário encaminhou-a depois ao marido, que passou logo a admirá-la e resolveu trazê-la sempre consigo. Quando se dirigia aos sacrifícios, ela vestia um longo manto de púrpura dupla867, preso com fivelas, tendo numa das mãos uma lança enfeitada com bandeirolas, festões e grinaldas de flores. Esta farsa fez com que muita gente duvidasse da sinceridade de Mário quando afirmava acreditar na ciência profética dessa mulher, e admitiam que ele fingisse acreditar nela, a fim de tirar partido de sua velhacaria.

XXX. Diversos presságios e predições da vitória de Mário

XXX. Todavia, Alexandre, o Mindense, conta uma história de abutres verdadeiramente admirável. Diz ele que duas destas aves apareciam regularmente no acampamento de Mário nas vésperas de suas vitórias e que elas seguiam constantemente o seu exército. Eram reconhecidas por colares de bronze que soldados nelas haviam colocado, um dia em que as pegaram e depois as soltaram. Desde então os abutres ficaram conhecendo os soldados, e pareciam saudá-los com seus gritos; os militares, por sua vez, não ocultavam a sua satisfação quando os viam, pois estavam certos de que eles vinham anunciar-lhes êxito no próximo encontro. Registraram-se então vários sinais e presságios, a maioria dos quais nada anunciava de extraordinário. Comunicaram, contudo, de Ameria e Todi, cidades italianas, que, durante a noite, haviam surgido no céu lanças e escudos ardentes868, os quais, a princípio separados uns dos outros, começaram a se chocar em seguida, tomando as disposições e efetuando os mesmos movimentos executados por exércitos em combate; finalmente, uns cederam e os outros se puseram a persegui-los, tomando todos a direção do poente. Nessa mesma época, chegou, da cidade de Pessinunte869, Batabaces, grande sacerdote da mãe dos deuses, o qual declarou ter-lhe a deusa anunciado, do fundo de seu santuário, que a vitória nesta guerra caberia aos romanos. O Senado, dando crédito a essa predição, ordenou que se edificasse um templo à divindade, por ter ela anunciado a vitória. Batabaces quis apresentar-se também perante o povo, numa assembleia, para repetir-lhe a mesma promessa; mas o tribuno Aulo Pompeu impediu-o de fazer uso da palavra, tratando-o de impostor, chegando mesmo a pô-lo para fora da tribuna. Foi sobretudo esta violência que fez muita gente acreditar na predição do grande sacerdote; pois, apenas de volta à sua casa, após a assembleia, ele foi acometido de febre alta, morrendo no sétimo dia, acontecimento este que se tornou conhecido de toda a cidade.

XXXI. O inimigo levanta acampamento para seguir para a Itália e Mário o acompanha

XXXI. Entrementes, os teutões; vendo que Mário permanecia tranquilo em seu acampamento, tentaram um assalto; mas, recebidos por uma chuva de dardos, arremessados dos pontos fortificados, pelos romanos, e que mataram muitos soldados, resolveram prosseguir em seu caminho, certos de que atravessariam os Alpes sem maiores obstáculos. Após preparar a bagagem, marcharam ao longo do acampamento dos romanos. O tempo que levaram para passar demonstrou como era prodigioso o seu número. Ao que se conta, desfilaram durante seis dias consecutivos diante das fortificações de Mário; e, ao passar perto dos romanos, perguntavam-lhes, zombando, se não tinham algum recado para suas mulheres, pois que estariam em breve junto delas. Depois de passarem todos, e de se encontrarem a uma certa distância, Mário também suspendeu acampamento, e pôs-se nas suas pegadas, Detinha-se sempre perto deles, escolhendo para acampar posições favoráveis, as quais fortificava, a fim de passar a noite tranquilamente e em segurança. E continuando assim a sua marcha, os dois exércitos chegaram à cidade de Aix870, de onde pouco caminho lhes restava a fazer para atingir os sopés dos Alpes. Mário decidiu dar combate aos bárbaros nesse lugar.

XXXII Trava-se a batalha

XXXII. Escolheu uma posição muito vantajosa, mas na qual a água não era abundante; fê-lo, ao que se afirma, de propósito, a fim de estimular ainda mais a coragem de seus soldados. Como a maior parte destes se queixou, dizendo que ia sofrer sede cruel. Mário, apertando-lhes com a mão um rio que banhava o acampamento dos bárbaros, disse-lhes: "É ali que tereis de obter água à custa de vosso sangue". "Por que, então, não nos levais já, para ali, enquanto o sangue molha ainda as nossas veias?", responderam os soldados. E Mário, com brandura; "É preciso, antes fortificar o nosso acampamento". Os soldados, embora descontentes, obedeceram; mas os serventes do exército, não tendo água nem para ele nem para seus animais, desceram em grande número para o rio, com as bilhas, armados, uns com machados ou machadinhas, outros com espadas ou lanças, pois que esperavam ter de combater para obter o líquido. Foram, com efeito, atacados pelos bárbaros, os quais não apareceram a princípio senão em pequeno número, pois que a maioria estava se banhando ou tomando sua refeição após o banho, O lugar era cheio de fontes de água quente; e uma parte dos bárbaros, atraídos pela beleza do sítio e pela doçura do banho, não pensavam em outra coisa senão em divertir-se e comer bem, quando foram surpreendidos pelo ruído causado pelos que já combatiam, e puseram-se então a correr para o local da luta.

XXXIII. Mário alcança a vitória

XXXIII. Diante do que ocorria, não teria sido possível a Mário conter os seus soldados, que receavam pela sorte de seus criados. Por outro lado, os mais belicosos dentre os bárbaros, aqueles que tinham dizimado os exércitos de Mânlio e de Cipião (eram os ambrões, os quais perfaziam sozinhos o total de trinta mil homens) apressaram-se em tomar as suas armas. Estavam com os corpos pesados, de tanto comer; no entanto, o vinho que tinham bebido, tornando-os mais alegres, aumentara a sua audácia. Assim, avançaram, e não em desordem e com o arrebatamento dos combatentes era fúria, ou no meio de gritos mal articulados; ao contrário, marchavam todos com passo cadenciado, pelo ruído que faziam com suas armas; e, seja. para intimidar o inimigo, seja para se animarem mutuamente, eles marchavam repetindo seguidamente o seu próprio nome; "Ambrões, ambrões, ambrões”.

XXXIV. Os romanos mantêm-se em estado de alerta toda a noite seguinte

XXXIV. Os primeiros, dentre os italianos, que avançaram contra eles foram os ligúrios, que são os habitantes da região de Gênova, os quais ouviram e reconheceram os seus gritos; e, como diziam que aquele era o nome verdadeiro de toda a sua nação, eles responderam aos bárbaros com o mesmos grito, que foi assim repetido inúmeras vezes nos dois exércitos, antes de se chocarem. Como os oficiais juntassem os seus gritos aos dos soldados, de ambos os lados, e como todos procurassem exceder uns aos outros com a altura de suas vozes, tais clamores, assim multiplicados, aguçaram e inflamaram ainda mais a coragem dos combatentes. Mas os ambrões, ao atravessar o rio, romperam a ordenação de suas fileiras, e não tiveram tempo de restabelecê-la quando os ligúrios atacaram vigorosamente a sua vanguarda, dando início ao combate. Os romanos, acorreram rapidamente para apoiar os ligúrios, caindo, de posições elevadas, sobre os bárbaros; e investiram com tal violência que estes foram obrigados a fugir.

Os ambrões, em sua maioria, precipitando-se uns sobre os outros, foram mortos às margens do rio, cujo leito se encheu de sangue e de cadáveres. Aqueles que conseguiram atravessar o rio não tiveram a audácia de se organizar para enfrentarem de novo os romanos, e estes os perseguiram e mataram até o seu acampamento em seus carros. As mulheres dos bárbaros saíram ao seu encontro, empunhando espadas e machados, e, rangendo os dentes de raiva e de dor, desferiram golpes tanto nos fugitivos quanto nos perseguidores: nos primeiros por serem traidores, e nos segundos por serem inimigos. Elas se lançaram depois no meio dos combatentes, e procuraram arrancar aos romanos os seus escudos e espadas, com as mãos; e os seus corpos foram sendo aos poucos despedaçados, sem que, até à morte, perdessem a indomável coragem. Foi assim que, segundo se conta, se desenrolou a primeira batalha ao longo do rio, a qual foi travada mais devido ao acaso de que a uma decisão dos comandantes.

XXXV. Preparativos, de ambos os lados, para o segundo combate

XXXV. Os romanos, após dizimarem a maior parte dos ambrões, voltaram às suas posições quando a noite já caía; mas o exército não soltou, como era de se esperar após tal êxito, gritos de alegria e de vitória. Longe de pensarem em beber em suas tendas, de comer todos juntos em sinal de regozijo, os soldados não se permitiram nem mesmo o refrigério ansiado por todos os que participam de uma luta bem sucedida: a doçura de um sono reparador. Ao contrário, passaram toda a noite no meio de grande medo e perturbação, e isto porque o seu acampamento não estava ainda nem fechado e nem fortificado. Havia milhares de bárbaros que não tinham entrado em combate; e os ambrões que haviam conseguido escapar se juntaram a eles, E, todos juntos, puseram-se a soltar, durante toda a noite, gritos terríveis, que não se assemelhavam a queixas ou gemidos de homens, mas a uivos e rugidos de animais ferozes, entremeados de ameaças e de impropérios. E estes gritos ecoavam pelas montanhas vizinhas e no vale percorrido pelo rio, prolongando-se o ruído medonho por toda a planície. Os romanos estavam apavorados, e até mesmo. Mário mostrava-se impressionado, esperando todos para aquela noite uma batalha, a qual teria se desenrolado no meio de grande desordem; mas os bárbaros não saíram de seu acampamento, nem. nessa noite, nem no dia seguinte, não tendo feito outra coisa, nesse espaço de tempo, senão se prepararem para o combate.

XXXVI. Completa vitória obtida pelos romanos

XXXVI. Entrementes, sabendo Mário que acima do acampamento dos bárbaros havia depressões muito profundas e vales cobertos de florestas, para ali enviou Marcelo com três mil homens, recomendando-lhe que mantivesse estes silenciosos e emboscados, até o momento em que os bárbaros se empenhassem em combate com ele, Mário, momento esse em que deveriam atacá-los pela retaguarda. Ordenou ao resto de suas tropas que tomassem logo a sua refeição e que repousassem em seguida. No dia seguinte, ao alvorecer, ele as dispôs em ordem de batalha diante das fortificações e enviou a cavalaria à planície, a fim de atrair o inimigo, para escaramuças, Os teutões, vendo os cavaleiros romanos, não esperaram que eles atingissem o sopé da colina, onde poderiam combater sem desvantagem, num terreno plano. Frementes de cólera, armaram-se com precipitação, e foram atacar o inimigo na encosta. Mário ordenou então a todos os cavaleiros, por intermédio dos oficiais, que detivessem a sua marcha, e que esperassem até que os teutões estivessem ao alcance de seus dardos, quando então deveriam arremessá-los; em seguida, após desembainhar suas espadas, deveriam ir ao seu encontro, e atacá-los vigorosamente, enfrentando-os com os seus escudos. Como o terreno era em declive, ele previra que os golpes a serem desferidos pelos bárbaros não teriam vigor, e a ordenação cerrada de suas fileiras não se poderia manter; e, não podendo firmar-se no terreno, seriam facilmente repelidos.

XXXVII. Mário oferece um sacrifício, no decorrer do qual lhe trazem a notícia de que havia sido nomeado cônsul pela quinta vez

XXXVII. Mário, tão destro no manejo das armas quanto qualquer outro homem de seu exército, e superior a todos em audácia, era o primeiro a executar as ordens que dava. Os bárbaros, contidos pelos romanos, após se esforçarem em vão para atingir as alturas, e atacados depois vivamente, recuaram, descendo a encosta. As primeiras fileiras, de ambos os lados, começavam a se empenhar em batalha, na planície, quando, subitamente, ouviram-se grandes gritos, vindos da retaguarda dos bárbaros, na qual passaram a reinar a confusão e a desordem. Era Marcelo que tinha escolhido o momento favorável: mal ouvira o ruído do primeiro ataque do lugar onde se encontrava, e, pondo a sua tropa em movimento, caiu impetuosamente sobre o inimigo, soltando, ele e seus soldados, gritos estridentes; e, atacando as fileiras da retaguarda, dizimou-as. Este ataque imprevisto, obrigando os que estavam mais perto a se voltarem para sustentar os outros, desorganizou inteiramente o exército dos bárbaros. Atacados vigorosamente pela frente e pela retaguarda, eles não puderam resistir a esta dupla ofensiva; e, derrotados, puseram-se abertamente em fuga. Os romanos, que deram imediatamente início à perseguição, mataram ou aprisionaram mais de cem mil adversários.

Apoderaram-se, além disso, dos carros, das tendas e de toda a bagagem dos bárbaros, decidindo fazer presente dessa presa a Mário, através de um comum consentimento, sem qualquer exceção, a não. ser o que tivesse sido porventura roubado ou pilhado pelo inimigo. E, não obstante tratar-se de um presente magnífico e de vulto, pareceu não estar à altura do serviço que o general acabava de prestar à pátria, livrando-a, através da habilidade e capacidade reveladas no decorrer de sta batalha e de toda a guerra, de um tão grande perigo, pelo que todos se sentiam satisfeitos. Todavia, certos historiadores não convém em que os despojos dos bárbaros tenham sido dados a Mário, e nem em que tenha havido um grande número de mortos, como dissemos; dizem no entanto, que, depois desta batalha, os marselheses cercaram as suas vinhas com muros feitos com os ossos dos mortos, e que os corpos, desfeitos pelas chuvas que caíram durante o inverno, tornaram a terra tão fértil, e a penetraram tão profundamente, que no verão seguinte produziu uma quantidade prodigiosa de frutos de todas as espécies871. Este fato veio demonstrar a procedência das palavras de Arquíloco, segundo as quais nada fertiliza tanto a terra como os corpos que nela apodrecem. Diz-se também, com muita verosimilhança, que as grandes batalhas são quase sempre seguidas de chuvas abundantes, seja porque um deus benevolente envia dos céus água pura para lavar a terra manchada e poluída pelo sangue humano, seja porque o ar, que se altera facilmente e experimenta as maiores modificações em consequência das mais ligeiras causas, se condense devido aos vapores úmidos e pesados que se exalam da decomposição de um grande número de cadáveres e do sangue derramado.

XXXVIII. Notícias enviadas sobre o exército de Catulo

XXXVIII. Após a batalha, Mário mandou escolher, entre as armas e os despojos dos bárbaros, os mais belos, os melhor conservados e os mais adequados a realçar o brilho das comemorações de seu triunfo; em seguida, ordenou que todo o resto fosse colocado sobre uma fogueira, oferecendo assim um magnífico sacrifício aos deuses. Todo o exército cercou a fogueira, ostentando os soldados coroas de louro. Ele próprio, trajando um manto de púrpura, segundo o costume dos romanos, em cerimônias semelhantes, tendo numa das mãos uma tocha ardente, ia atear fogo à fogueira, quando se avistaram ao longe alguns amigos seus, que vinham a cavalo, em veloz disparada, Fez-se subitamente um grande silêncio entre os presentes, pois todos queriam saber quais as n ovas que traziam os cavaleiros. Logo que estes chegaram perto de Mário, desceram dos cavalos, e apressaram-se em abraçá-lo e cumprimentá-lo, anunciando-lhe ao mesmo tempo que ele tinha sido eleito cônsul pela quinta vez. Entregaram-lhe em seguida as cartas contendo a notícia de sua nomeação, enviadas de Roma. O alvoroço causado por essa notícia levou ao cúmulo a alegria que decorria de sua grande vitória. Todo o exército se pôs a externar o seu contentamento através de gritos de triunfo, os quais os soldados faziam, acompanhar com o estrépito guerreiro de suas armas; e os oficiais colocaram na cabeça de Mário novas coroas de louro, após o que, ele ateou fogo à fogueira, e completou o sacrifício,

XXXIX. Mário vai ao seu encontro

XXXIX. Mas a potência que jamais permite aos homens gozarem tranquilamente e simplesmente a alegria do êxito conquistado, que lança tanta variedade na vida humana, através de vicissitudes contínuas de bem e de mal, chame-se ela fortuna, vingança do destino, ou então a necessidade natural das coisas terrestres, fez chegar a Mário poucos das depois tristes notícias, de Catulo, seu colega, cujo infortúnio constituiu para Roma novo motivo de terror, e que foi como o aparecimento de uma nuvem carregada num céu claro e sereno, anunciando nova tormenta. Catulo, que tinha sido enviado para defender, contra os Cimbros, a passagem dos Alpes, julgando não lhe ser possível defender os desfiladeiros, pois para isso seria preciso dividir seu exército em várias partes, o que o enfraqueceria demasiado, voltou à Itália, e, após atingir o Átese872, construiu dos dois lados deste rio boas fortificações, a fim de impedir o seu cruzamento, bem como uma ponte, a qual lhe permitiria correr em socorro das praças situadas além do rio, se porventura os bárbaros, após transporem montanhas, as ameaçassem. Estes bárbaros desprezavam a tal ponto os seus inimigos, e os insultavam tão abertamente que, sem nenhuma necessidade, e somente para alardear a sua audácia e ostentar a sua força, expunham-se inteiramente nus à neve, escalavam as montanhas através do gelo acumulado; e, chegados ao cume, sentaram-se em seus escudos, e desusavam ao longo dos rochedos escarpados, no meio de abismes aterradores.

XL. Modificação introduzida por Mário no dardo

XL. Finalmente, eles transferiram o seu acampamento para perto dos romanos, e, depois de examinarem qual a melhor maneira de atravessar o rio, resolveram obstruí-lo em determinado ponto. Arrasando, como outrora os gigantes, os cômoros das imediações, desarraigando as árvores, removendo enormes rochedos e grandes massas de terra, eles tudo levavam até o rio, para estreitar e estrangular a torrente. Atiraram também, num ponto situado acima da ponte construída pelos romanos, grandes troncos de madeira. Estes, arrastados pelas águas, iam de encontro à ponte e abalavam os seus fundamentos. A maior parte dos soldados romanos, amedrontada, pôs-se a abandonar o grande acampamento, retirando-se. Catulo conduziu-se como um perfeito general, que prefere à sua própria glória a de seus concidadãos. Quando viu que não lhe era possível persuadir seus soldados a ficarem, e que, cedendo ao medo, se retiravam, ele próprio ordenou ao portador da insígnia da águia que marchasse; e correndo até as primeiras fileiras, que já se achavam em movimento, colocou-se à sua frente, preferindo que a vergonha desta retirada recaísse sobre ele e não sobre a pátria, e que os soldados tivessem o ar, não de quem se põe em fuga, mas de quem acompanha o seu general. Os bárbaros apoderaram-se da fortificação que Catulo tinha construído além do rio, aprisionando toda a sua guarnição. Tomados de admiração pelos soldados romanos, que a tinham defendido com a maior bravura, e que haviam exposto corajosamente suas vidas pela pátria, eles os deixaram partir, mediante condições honrosas, depois de jurarem observar lealmente o seu compromisso sobre o touro de bronze dos bárbaros. Este touro foi capturado após a derrota que os bárbaros vieram a sofrer, e foi levado, ao que se conta, à casa de Catulo, como primícias da vitória.

XLI. Formação por ele adotada para a batalha

XLI. Os bárbaros, vendo o país sem qualquer defesa, espalharam-se por várias regiões e pilharam tudo que encontraram, causando enormes danos. Diante do que ocorria, Mário foi chamado a Roma, a fim de enfrentar os invasores. Ao chegar, toda gente supôs que ia receber as honras do triunfo, honras, aliás, que o Senado se apressou em prestar. Mas ele as recusou, seja porque não queria privar desta glória os oficiais e soldados que haviam partilhado dos perigos, e se encontravam ausentes, seja porque tinha em vista tranquilizar o povo e desfazer os seus temores, depondo, entre as mãos da Fortuna de Roma, a glória de seus primeiros êxitos, e prometendo retomá-la, ainda mais brilhante, após novos feitos. Proferiu no Senado os discursos exigidos pelas circunstâncias, e, em seguida, apressou-se em ir ao encontro de Catulo, cuja coragem reanimou com sua presença. Depois da chegada do seu exército, que mandara vir da Gália, atravessou o Pó, a fim de impedir que os bárbaros penetrassem na Itália Cispadana. Mas estes adiaram o combate, porque estavam à espera, segundo diziam, dos teutões, cujo atraso parecia surpreendê-los muito, seja porque ignorassem realmente a sua derrota, seja porque quisessem simular tal ignorância; pois cobriam de invectivas aqueles que lhes iam dar a notícia, Enviaram, enfim, a Mário, embaixadores com a incumbência de solicitar-lhe, para eles e p ara seus irmãos, terras e cidades onde pudessem estabelecer-se, e que fossem suficientes para garantir-lhes a subsistência, Mário perguntou aos embaixadores de que irmãos se tratava, e eles responderam que dos teutoes. Todos os que estavam presentes se puseram a rir, e Mário disse-lhes, então zombando: "Não vos preocupeis com vossos irmãos; eles já têm a terra que lhes demos, a qual conservarão para sempre".

XLII. Marcha do inimigo

XLII. Os embaixadores percebendo a ironia, proferiram injúrias e ameaças, e declararam-lhe que ia ser punido pela sua zombaria, em primeiro lugar pelos cimbros, e depois pelos teutoes, logo que chegassem. "Eles já chegaram, replicou Mário, e não seria honesto irdes embora sem saudar os vossos irmãos". Após estas palavras, ordenou que trouxessem, com suas cadeias, os reis dos teutões, que os sequanos haviam aprisionado quando tentavam fugir através das montanhas dos Alpes. Os cimbros, mal ouviram o relato feito pelos seus embaixadores, decidiram marchar contra Mário, o qual permanecia tranquilo em seu acampamento, contentando-se em guardá-lo e fortificá-lo. Ao que se diz, foi para esta batalha que Mário introduziu uma modificação útil no dardo, arma que os romanos costumavam lançar contra o inimigo no primeiro ataque. Até então a ponteira de ferro e a haste do dardo eram mantidas presas uma à outra por duas cavilhas de ferro; Mário deixou apenas uma de ferro, e substituiu a outra por uma de madeira, muito mais fácil de se partir. Com esta inovação, bem imaginada o dardo, ao penetrar no escudo do inimigo, ali não permanecia direito; a cavilha de madeira, partindo-se, fazia com que a haste se inclinasse do lado da ponteira de ferro; e, presa ainda ao escudo, arrastava-se pelo chão, embaraçando o inimigo.

XLIII. Trava-se a batalha

XLIII. Boiórige, rei dos cimbros, aproximou-se, à frente de um destacamento pouco numeroso de soldados de cavalaria, e mandou desafiar Mário a marcar o dia e o lugar da batalha, para decidir quem deveria tornar-se senhor do país. Mário respondeu-lhe que os romanos não tinham o costume de aconselhar-se com seus inimigos para combater, acrescentando, no entanto, que desejava satisfazer os cimbros no que lhe pediam. Combinaram, assim, que a batalha seria travada três dias depois, na planície de Verceli, lugar favorável, aos romanos, para se utilizarem de sua cavalaria, e aos bárbaros para desdobrarem as suas forças numerosas. Os dois exércitos compareceram no dia e lugar marcados, dispondo-se em ordem de batalha um diante do outro. Catulo tinha sob suas ordens vinte mil e trezentos homens, e Mário trinta e dois mil, os quais, colocados nas duas alas, rodeavam as tropas de seu colega, que ocupavam o centro, segundo narra Sila, que assistiu a essa batalha. Dizem que Mário deu tal disposição ao exército, porque esperava cair, com suas duas alas sobre as falanges inimigas, a fim de que a vitória fosse devida apenas às tropas por ele comandadas, sem qualquer contribuição de Catulo e seus soldados, os quais poderiam mesmo se misturar com o adversário. Com efeito, quando a linha de uma batalha é muito extensa, geralmente as alas tomam a dianteira sobre o centro, que se atrasa. Dizem ainda que Catulo, na exposição que foi obrigado a fazer, referiu-se a esse fato, lamentando-se da perfídia de Mário.

XLIV. Vitória completa dos romanos

XLIV. A infantaria dos cimbros saiu em boa ordem de seu acampamento fortificado, e, dispondo as suas fileiras para a batalha, formou uma falange quadrada, cobrindo cada lado trinta estádios de terreno. Seus cavaleiros, em número de quinze mil, marcharam na frente e estavam magnificamente ajaezados; seus capacetes tinham a forma de fauces hiantes ou de focinhos de animais selvagens, sobre os quais se viam também compridos penachos, que se assemelhavam a asas, e os faziam parecer ainda mais altos do que eram. Estavam protegidos por couraças de ferro e grandes escudos que rebrilhavam, tal a sua brancura; cada um deles tinha dois dardos para serem lançados de longe e traziam espadas longas e pesadas de que se utilizavam para combater de perto. Nesta batalha os cavaleiros não atacaram os romanos de frente; mas, desviaram um pouco à direita, a fim de fechá-los entre eles e a infantaria, que estava à esquerda. Os generais romanos perceberam a manobra imediatamente, mas não puderam conter os seus soldados, um dos quais começou a dizer aos gritos, que o inimigo estava fugindo, levando todos os outros a se lançarem em sua perseguição.

XLV. Triunfo dos dois cônsules

XLV. Enquanto isso, a infantaria dos bárbaros avançava, assemelhando-se às vagas de um mar infinito. Mário, depois de lavar as mãos, ergueu-as aos céus, e prometeu aos deuses um sacrifício solene de cem bois. Catulo, por sua vez, após elevar igualmente as mãos para o alto, prometeu que edificaria um templo à Fortuna, do dia 873. Conta-se que Mário mandou fazer um sacrifício no mesmo dia, e, quando lhe mostraram as entranhas da vítima, exclamou: "A vitória será minha". Entretanto, apenas os dos exércitos começaram a combater, ocorreu um acidente que, segundo Sila, teria resultado de expressa vingança divina contra Mário. A movimentação de uma tão grande multidão fez elevar tal nuvem de poeira que os dois exércitos não se puderam mais ver. Mário, que fora o primeiro a avançar com suas tropas, para cair sobre o inimigo, não defrontou com este, pois que deixou de ser visível; e tendo ultrapassado de muito a sua falange, errou durante muito tempo na planície, enquanto que a fortuna levou os bárbaros diante de Catulo, o qual teve de resistir a todas as suas investidas com seus soldados, entre os quais estava Sila. Segundo este, o ardor do dia e os raios abrasadores do sol, que incidiam nos rostos dos címbros, auxiliaram os romanos. Os bárbaros, criados em regiões frias e umbrosas, eram capazes de suportar as mais baixas temperaturas, mas não ofereciam nenhuma resistência ao calor; inundados de suor e arfantes, eles cobriam as cabeças com seus escudos, para se defenderem do ardor do sol. Pois esta batalha f oi travada após o solstício do verão, três dias antes da lua nova do mês de agosto874. A nuvem de poeira serviu, por outro lado, para sustentar a coragem dos romanos, ocultando-lhes o número infinito dos inimigos; e, também, como cada combatente se apressasse a atacar os bárbaros que tinha pela frente, empenhava-se em combate antes de que a visão da multidão de inimigos pudesse amedrontá-lo. Aliás, o hábito do trabalho e da fadiga tinha de tal modo enrijado os seus corpos que, não obstante o calor e a impetuosidade com que foram ao encontro do adversário, nem um só romano foi visto suando ou arfando. Este é o testemunho prestado pelo próprio Catulo, ao fazer o elogio de suas tropas.

XLVI. Reflexões sobre o caráter de Mário

XLVI. A maior parte dos bárbaros, e sobretudo os mais bravos dentre eles, foi dizimada no campo de batalha; e isto aconteceu porque, para impedir que rompessem a sua formação, os soldados nas primeiras filas apresentavam-se amarrados uns aos outros, pelos cinturões, com longas cadeias de f erro. Os vencedores perseguiram os fugitivos até às suas fortificações, e foi ali que se presenciou um espetáculo dos mais horrendos e trágicos. As mulheres, postadas nos carros e vestidas de negro, matavam os que fugiam, não importando fosses eles seus maridos, irmãos ou pais; e, após estrangular os seus filhos mais novos com as próprias mãos, atiravam seus corpos sob as rodas dos carros, ou sob as patas dos cavalos, matando-se em seguida a si mesmas. Uma dentre elas, ao que se conta, depois de amarrar dois filhos pequenos aos seus tornozelos, enforcou-se na lança de um carro. Os homens, na falta de árvores para se enforcarem, punham no pescoço cordas com nós corrediços, e as amarravam aos chifres ou às pernas dos bois; aguilhoavam em seguida estes animais, para fazê-los correr, e morriam estrangulados ou esmagados sob as suas patas. Apesar de ter sido grande o número dos que assim se mataram, mais de sessenta mil bárbaros foram aprisionados, e o total dos mortos foi duas vezes maior. Os soldados de Mário pilharam o acampamento do inimigo; mas os despojos dos mortos na batalha, as insígnias e as trombetas foram todas levadas para o acampamento de- Catulo, o que, segundo teria alegado, constituía uma prova certa de que a vitória fora alcançada por ele e seus comandados. Surgiu então uma viva disputa entre seus soldados e os de Mário, e, para solucioná-la amistosamente, foram escolhidos como árbitros os embaixadores de Parma, que se encontravam no momento no local. Os soldados de Catulo levaram-nos até o lugar onde se verificara a carnificina, e fizeram-lhes ver que todos os corpos tinham sido transpassados pelos seus dardos; e isto era fácil de verificar porque Catulo tinha mandado gravar o seu nome na haste dos dardos de todos os soldados.

XLVII. Liga-se com Gláucias e Saturnino

XLVII. Não obstante, toda a glória deste grande feito de armas foi atribuída a Mário, seja por motivo de sua primeira vitória contra os bárbaros, seja em atenção à sua dignidade de magistrado. O povo de Roma deu-lhe mesmo o título de terceiro fundador da cidade de Roma, pelo fato de ter livrado a sua pátria de um perigo tão grande quanto o representado outrora pelos gauleses875. Quando os ‘ romanos, ao lado de suas mulheres e filhos, se entregavam no meio de suas refeições. domésticas, aos transportes da mais doce alegria, eles ofereciam a Mário, ao mesmo tempo que a seus deuses, as primícias das iguarias; e somente a ele queriam atribuir os dois triunfos. Mário, entretanto, não concordou com isso e quis que Catulo entrasse ao seu lado, em triunfo, na cidade. Achou que devia mostrar-se modesto numa tão grande ventura; é possível também que receasse os soldados de Catulo, os quais se mostravam bem determinados, caso o seu general fosse privado daquela honra, a se opor ao desfile triunfal.

XLVIII. Seu sexto consulado

XLVIII. Aproximando-se o fim d e seu quinto consulado, Mário pôs-se a pleitear o sexto com um ardor e uma energia jamais vistos entre os que até então haviam disputado aquelas funções. Para conquistar as boas graças da plebe, recorreu a todos os meios para agradá-lo, chegando mesmo a rebaixar-se, esquecido da dignidade de seu cargo; além disso, contrariando a sua altivez natural, começou a afetar, em toda a sua conduta, uma amabilidade, umas maneiras populares que não condiziam com o seu caráter. A ambição tornava-o no entanto tímido e receoso no que se refere às questões de governo do país, e às intrigas da cidade, e a intrepidez e a segurança que demonstrava no campo de batalha o abandonavam no decorrer das assembleias do povo; bastava uma palavra de censura ou elogio para pô-lo fora de si.

Conta-se, entretanto, que, tendo concedido direitos de cidadania romana a dois mil camerinos876, os quais tinham servido sob suas ordens com bravura numa guerra, foi acusado de ignorar as leis; respondendo aos seus censores, disse que o estrépito das armas lhe impedira de ouvir as leis. De qualquer modo, parece que realmente temia a gritaria e o tumulto das assembleias públicas. Em tempo de guerra, ele conseguia manter facilmente a sua dignidade e autoridade, pois que todos necessitavam de seu talento militar; mas, não tendo podido, nas questões políticas, e em tempo de paz, elevar-se ao primeiro lugar, no que se refere às honrarias e ao crédito, lançou-se aos braços do povo, procurando obter por todos os meios os seus favores e a sua benevolência, não cuidando mais de ser antes de tudo, um homem de bem, mas apenas o maior entre os romanos.

XLIX. Velhacaria de Mário

XLIX, Mário expôs-se, com a sua conduta, ao ódio dos nobres; mas, entre seus inimigos, ele temia e desconfiava em particular de Metelo, a quem pagara com a mais negra ingratidão os benefícios recebidos. Sendo homem virtuoso e amigo da verdade, opunha-se com energia àqueles que procuravam alcançar por vias tortuosas as boas graças do povo, tudo fazendo para agradá-lo e lisonjeá-lo. Mário decidiu então expulsá-lo de Roma; para consegui-lo, ligou-se intimamente a Gláucias e Saturnino, os dois homens mais audaciosos e temerários existentes em toda a cidade, e que tinham às suas ordens uma turba de indigentes e sediciosos. Serviu-se deles para a apresentação de novas leis de caráter popular, fazendo ao mesmo tempo vir dos acampamentos certo número de soldados a fim de se misturarem aos participantes das assembleias e pedirem o banimento de Metelo.

L. Presta juramento, de acordo com a lei de Saturnino

L. O historiador Rutílio, homem de bem e, além disso, verídico, diz que Mário, de quem era inimigo particular, somente conseguiu eleger-se cônsul pela sexta vez877 através da distribuição de dinheiro entre as diversas categorias da população; comprando-as com belas moedas soantes, obteve o afastamento de Metelo e a nomeação de Valério Flaco, menos para as funções de cônsul do que para as de ministro de suas vontades. Jamais o povo romano havia escolhido tantas vezes para o cargo de cônsul a mesma pessoa, com exceção de Valério Corvino, mas com esta diferença: entre o primeiro consulado de Corvino e o último houve o intervalo de quarenta e cinco anos, enquanto que Mário, bafejado pelos favores da fortuna, depois de seu primeiro consulado, exerceu todos os outros sem solução de continuidade. Mas no último consulado, ele se tornou objeto do ódio público, por motivo de graves faltas, tendo mesmo se tornado cúmplice dos crimes de Saturnino, e em particular do assassínio de Nônio, que aquele celerado matou com suas próprias mãos, por ser seu concorrente na eleição para o tribunado. Tornando-se depois tribuno do povo’, Saturnino propôs uma lei sobre a partilha das terras, contendo uma cláusula de conformidade com a qual o Senado deveria jurar, perante a assembleia do povo, que ratificaria todas as decisões deste, e que não se oporia a nenhuma de suas leis.

LI. Metelo recusa-se a prestar juramento. Ele é exilado

LI. Mário simulou, no Senado, desaprovar esse artigo, declarando que nem ele nem qualquer outro senador dotado de bom-senso prestaria aquele juramento: "Pois, acrescentou, se a lei proposta fosse má, equivaleria a uma injúria para o Senado forçá-lo a fazer através de um juramento aquilo que só poderia fazer pôr sua espontânea vontade". As suas palavras não traduziam, no entanto, o seu pensamento, e o que ele tinha em vista era armar uma cilada a Metelo, à qual este não poderia escapar. Persuadido de que o saber mentir fazia parte da virtude e da sagacidade, ele não se considerava preso às palavras proferidas no Senado; mas sabendo que Metelo era possuidor de um caráter firme, e que ele pensava, como Píndaro, ser a verdade o fundamento da perfeita virtude, queria comprometê-lo fazendo-o afirmar perante os senadores que não prestaria o juramento. E sabia que o povo passaria a odiá-lo mortalmente, quando, depois, se recusasse a jurar a lei perante a assembleia. E foi o que aconteceu. Metelo assegurou que não prestaria o juramento, e a reunião do Senado foi suspensa.

LII. Poucos dias depois, Saturnino convocou os senadores à tribuna, a fim de exigir deles o juramento, e o que ele tinha em vista era armar uma cilada sua chegada, fez-se um grande silêncio, e todos os olhares se fixaram nele. Não se mostrando de nenhum modo embaraçado pela promessa que tão bravamente havia feito perante o Senado, ele disse então que não tinha o pescoço bastante grosso878 para, numa questão de tão grande importância, ficar preso a declarações anteriores, e que estava disposto, assim, a jurar e a obedecer à lei, desde que fosse uma lei. Esta ressalva ele a acrescentou astutamente como uma justificativa, como um véu para ocultar sua vergonha. Ditas estas palavras, prestou o juramento. O povo, diante de sua atitude, foi tomado de grande alegria, e o aplaudiu com palmas ruidosas e demoradas aclamações. As pessoas de bem e de honra, entretanto, baixaram a cabeça, mostrando-se tão indignadas quanto afligidas, e em seus corações não lhe perdoaram o fato de ter faltado à sua palavra de maneira tão vil. Os outros senadores, que temiam a cólera do povo, — foram jurando, cada um por sua vez, até que chegou a de Metelo. Não obstante os rogos e as advertências de seus parentes e amigos, nos seus insistentes esforços para convencê-lo a prestar o juramento, a fim de não se expor às penas rigorosas com que Saturnino ameaçava os opositores, ele recusou-se a ceder, mantendo-se firme, e não jurou. Com o seu caráter inabalável, preferia arrostar o sofrimento a ter de praticar quaisquer atos indignos. Resolveu depois, abandonar a assembleia, dizendo então aos que o acompanhavam: "Fazer o mal, mesmo ligeiro, é coisa fácil e, ao mesmo tempo, uma covardia; fazer o bem quando não há perigo é coisa comum; mas fazê-lo enfrentando grandes ameaças é próprio do homem realmente honrado e virtuoso".

LIII. Infame complacência de Mário em relação a Saturnino

LIII. Saturnino baixou logo depois um decreto determinando aos cônsules anunciarem publicamente que era proibido fornecer a Metelo fogo ou água e vedado a qualquer cidadão recebê-lo em sua casa, A parte mais vil da populaça oferecia-se mesmo para matá-lo; mas todos os bons cidadão s, tocados pela injustiça de que era vítima, correram em grande número à sua casa, a fim de defendê-lo, Metelo não desejava ser a causa de uma sedição e por isso resolveu, acertadamente, ausentar-se de Roma. "Ou os negócios, dizia ele, temam um rumo melhor, e o povo se arrependerá daquilo que hoje está fazendo, e, neste caso, serei chamado; ou permanecerão na mesma situação, e, neste caso, o melhor é permanecer distante da cidade". O relato dos testemunhes de amizade e estima que Metelo recebeu em Rodes, no decorrer do seu exílio, e do emprego que deu ao seu tempo, dedicado principalmente ao estudo da filosofia, será feito em sua Vida, que me proponho escrever.

LIV. É obrigado a tomar as armas contra ele

LIV. O importante serviço que Saturnino acabava de prestar a Mário impunha a este a aceitação de todas as suas violências e de todas as suas prepotências. Mário não via que, com isto, causava à República uma ferida incurável, e que as suas inomináveis complacências para com este tribuno audacioso autorizavam-no a abrir, através das armas e dos assassínios um caminho para a tirania e preparar a ruína completa do poder público. Deste modo, reverenciando de um lado a nobreza, e, de outro, querendo conservar os favores da plebe, ele agiu como homem cobarde e falso, Uma noite, os principais cidadãos de Roma foram à sua casa a fim de fazer-lhe ver que devia refrear a audácia e a insolência de Saturnino; aconteceu que este também para ali se dirigira, e Mário o fez entrar por uma outra porta sem que os nobres o percebessem. Em seguida, simulando um desarranjo intestinal, ia e vinha de um lugar para outro, com o que exacerbou e irritou ainda mais os ânimos.

LV. Saturnino é morto com seus cúmplices

LV. Finalmente, tendo o Senado resolvido enfrentar a questão, e como os cavaleiros se tivessem unido aos senadores, Mário foi constrangido a enviar soldados armados à praça pública, a fim de reprimir os sediciosos, os quais foram expulsos e perseguidos até o interior do Capitólio, onde a sede os forçou a se renderem, pois que os encanamentos de água foram cortados. Não alimentando mais nenhuma esperança, mandaram chamar Mário e a ele se entregaram, sob a salvaguarda da fé pública. No entanto, de nada adiantaram todos os esforços que fez para salvá-los, pois, apenas chegados à praça, foram mortos pela multidão. A conduta de Mário alienou-lhe de tal modo as boas graças da nobreza e do povo que, quando chegou a época da eleição dos novos censores, ao contrário do que todos esperavam, ele não se candidatou, pois receava a recusa de seu nome; e deixou assim que fossem escolhidos censores a ele inferiores em dignidade. Quis, no entanto, atribuir-se um mérito, dizendo que não se apresentara à eleição por recear atrair a malquerença de muita gente com as medidas severas que seria obrigado a tomar a fim de investigar os seus costumes e a sua conduta.

LVI. Metelo é chamado

LVI. Tendo sido proposto um decreto chamando Metelo do exílio, Mário, pela palavra e por todos os outros meios ao seu alcance, fez o que pôde para impedir a sua aprovação. Finalmente, vendo que os seus esforços eram inúteis, desistiu de agir. E como o povo se apressasse em ratificar o decreto, autorizando a volta de Metelo, ele, que não podia suportar a ideia de vê-lo de novo em Roma, seguiu para a Capadócia e a Galácia, sob o pretexto de oferecer o sacrifício que havia prometido à mãe dos deuses; mas esta viagem tinha outro motivo, desconhecido do povo. Como a natureza não o havia feito nem para a paz nem para a atividade política, ele devia unicamente às armas o seu prestígio e. a sua fortuna; e vendo que a sua glória e a sua autoridade se desvaneciam e se anulavam na paz e na inação, pôs-se a procurar motivos para novas guerras. Esperava que, irritando os reis da Ásia, e sobretudo Mitrídates, o qual parecia muito inclinado a se lançar contra os romanos, seria imediatamente «indicado para comandar as forças de Roma; esperava ainda que com a guerra, proporcionaria ao país novos triunfos e encheria sua casa com os despojos do Ponto e com as riquezas do rei. Entretanto, Mitrídates julgou-se na obrigação de prestar-lhe todas as honras, e o tratamento mais amistoso que lhe foi possível; mas estes testemunhos de estima de nada valeram, pois Mário, inflexível em suas resoluções, não se dignou a dirigir-lhe qualquer palavra mais amável, limitando-se a dizer-lhe rudemente, ao separar-se dele: "Rei Mitrídates, é preciso que escolhas entre estas duas coisas: tornar-te mais forte do que os romanos, ou, caso isto não seja possível, fazeres, sem qualquer objeção, tudo o que eles te ordenarem". Estas palavras muito surpreenderam Mitrídates, que sempre ouvira falar da rude franqueza da linguagem romana, mas que ainda não a havia experimentado.

LVII. Mário segue para a Ásia

LVII. De volta a Roma, Mário mandou construir uma casa perto da praça pública, seja porque, como dizia, desejava poupar àqueles que quisessem cumprimentá-lo uma longa caminhada, seja porque considerava o afastamento de sua residência como um obstáculo a que um grande número de pessoas se apresentasse à sua porta. Mas não era este o motivo da pequena afluência de romanos à sua casa; a verdadeira causa era que, devido à sua falta de inclinação para as coisas civis, e à ausência nele desta afabilidade que caracterizava os outros cidadãos de sua categoria, não era tratado com grande consideração em tempo de paz, como se fosse um instrumento útil apenas para a guerra,

LVIII. Manda construir uma casa perto da praça pública

LVIII. Mário não se mostrava muito afetado por ver sua reputação eclipsada pela de muitos outros: mas não conseguia suportar o fato de ter sido o ódio dos nobres contra ele à causa da elevação de Sila, e de não dever o seu rival a sua força no governo senão às divergências que com ele tivera. Mas quando Boco, rei da Numídia, que fora declarado e reconhecido pelo Senado como amigo e aliado dos romanos, ofereceu ao templo do Capitólio estátuas da Vitória, as quais eram acompanhadas de troféus, e que junto dela foram colocadas imagens de ouro reproduzindo a cena da entrega de Jugurta à Sila, por aquele soberano, Mário foi tomado de tal cólera, ao ver que seu rival se atribuía a glória de seus feitos, que se mostrou disposto a empregar a violência para retirar e destruir aquelas imagens. Sila, de seu lado, obstinava-se em conservá-las no lugar onde haviam sido colocadas, e, assim, a guerra civil só não irrompeu em Roma, sendo adiada por algum tempo, devido ao súbito início da guerra dos Aliados879. As nações mais belicosas da Itália, aquelas cuja população era mais numerosa, tinham se rebelado contra os romanos, e, unindo à força das armas e ao número de homens, a audácia e a capacidade de seus capitães, que não eram em nada inferiores aos mais renomados generais de Roma, por pouco não subverteram o império. Esta guerra, fecunda em acontecimentos e surpreendente pela diversidade dos acidentes a que deu lugar, na mesma medida em que aumentou a glória e a reputação de Sila, diminuiu as de que gozava Mário. Este se mostrava lento e irresoluto em tudo o que empreendia, tendendo sempre para o adiamento e o recuo; e isto acontecia, seja porque, tendo ultrapassado os sessenta e cinco anos, a velhice extinguira nele o calor e a capacidade de ação, seja porque, como ele próprio dizia, tornara-se gotoso e vítima de uma moléstia de nervos; de modo que somente se decidiu a suportar as fadigas desta guerra, que estavam acima de suas forças, para evitar a vergonha da ociosidade.

LIX. Começo da guerra dos aliados

LIX. Entretanto, apesar de seu estado, ele conseguiu, alcançar uma grande vitória, num combate em que seis mil soldados inimigos foram mortos, E durante toda a guerra jamais se deixou dominar pelo adversário, suportando pacientemente a escavação de trincheiras em volta de suas forças, as zombarias e as provocações para o combate, permanecendo sempre senhor de si mesmo e não se deixando dominar pela cólera. Conta-se, a propósito, que Pompédio Silo, o mais considerado e prestigioso dos capitães inimigos, disse-lhe um dia: "Mário, se és na realidade um grande capitão, deixa o teu acampamento e vem combater contra nós". Mário respondeu-lhe com estas palavras: "E, quanto a ti, se fores mesmo um grande general, faze-me sair de meu acampamento, e empenhar-me em combate contigo, contra a minha vontade". De outra feita, tendo os romanos deixado de aproveitar uma oportunidade que se lhes ofereceu para atacar o inimigo com vantagem, Mário, depois que os dois exércitos voltaram aos seus respectivos acampamentos, mandou reunir os seus soldados e disse-lhes: "Não sei a quem deva considerar mais covardes, se a vós ou a nossos inimigos; pois eles não ousaram olhar-vos quando lhes virastes as costas, e vós receastes encará-los pela retaguarda". Finalmente, ele foi forçado a deixar o seu posto de comandante, pois a sua debilidade impedia-lhe agir.

LX. Conduta de Mário nesta guerra

LX. Depois de quase inteiramente submetidos todos os povos da Itália, vários generais se puseram a utilizar do prestígio dos oradores populares para conseguir a sua indicação para dirigir as operações contra Mitrídates, quando, subitamente, com grande surpresa para toda gente, o tribuno Sulpicio, homem de singular audácia, aventou o nome de Mário, e o indicou para conduzir a guerra contra aquele príncipe, com o título e a autoridade procônsul. O povo dividiu-se em duas partes: uns queriam escolher Mário, outros eram partidários de Sila, dizendo que Mário não podia pensar em outra coisa senão nos banhos quentes de Baias, a fim de tratar de seu corpo enfraquecido, como ele próprio afirmava, pelas doenças e pela velhice.

Mário possuía, perto do monte Miseno uma soberba casa de campo, onde levava uma vida de prazeres mais efeminada do que convinha a um homem que em tão grande número de expedições e combates se tinha assinalado pelos seus feitos. Cornélia, segundo se conta, adquiriu-a depois pela soma de setenta e cinco mil dracmas, e, mais tarde, foi vendida a Lúculo por quinhentas mil e duzentas dracmas. Vê-se, assim, como, em consequência dos rápidos progressos feitos por uma vida de prazeres, luxo e suntuosidade, subiram em Roma os preços dos imóveis. Entretanto, Mário, cuja ambição o levava a lutar com a debilidade e a velhice, descia todos os dias ao campo de Marte, a fim de ali fazer exercícios com os jovens romanos, exibindo o seu corpo ainda ágil e ligeiro no manejo das armas e na equitação, não obstante mais pesado e volumoso com a idade.

LXI. Disputa o comando na guerra contra Mitrídates

LXI. Agradou assim a certo número de pessoas que iam ao campo expressamente para assistir aos exercícios e serem testemunhas de seus esforços no sentido de fazer melhor do que os outros. Mas as pessoas sensatas consideravam com pena esta ambição, este desejo insaciável de glória, num homem que, tendo de uma situação obscura chegado aos mais altos postos, à maior opulência, não sabia estabelecer limites à sua prosperidade; e que, podendo gozar tranquilamente da consideração e da estima públicas, e os bens imensos que possuía, queria, como se tudo lhe faltasse, ir, após tantos triunfos e tanta glória, arrastar na Capadócia e no Ponto Euxino os restos lânguidos de sua velhice, para ali combater Arquelau e Neoptólemo, sátrapas de Mitrídates. É verdade que, para se justificar, apresentava certas razões, as quais eram, no entanto, inteiramente vãs: alegava que desejava ele próprio instruir seu filho no exercício das armas e ensinar-lhe a arte da guerra.

LXII. Violências de Sulpício em favor de Mário

LXII. Foi isso que revelou a existência de uma enfermidade secreta no seio de Roma, onde se encontrava oculta fazia já muito tempo. E Mário ofereceu a ocasião para que essa enfermidade, se tornasse conhecida, pois encontrou na audácia de Sulpício o instrumento mais apropriado para provocar a ruína da República. Este tribuno, que admirava e seguia Saturnino em tudo o mais, censurava-lhe duas coisas na administração: sua timidez e sua lentidão. Quanto a ele, que não gostava de perder tempo, tinha sempre à sua disposição seiscentos cavaleiros romanos, os quais lhe serviam de guarda e eram por ele chamados o anti-Senado. Um dia em que os cônsules presidiam na praça a uma assembleia do povo, Sulpício para ali se dirigiu com soldados armados, obrigando os magistrados a fugirem; e, um dos soldados, apoderando~se do filho de Pompeu, matou-o com suas próprias mãos. Sila, o outro cônsul880, vivamente perseguido pelos facciosos, ao atingir a casa de Mário nela entrou, contra a expectativa de todos, sem ser visto pelos que o perseguiam, os quais, em sua precipitação, ultrapassaram-na, correndo. Diz-se que o próprio Mário fê-lo sair pela porta dos fundos, em segurança, seguindo dali para o seu acampamento. Sila, no entanto, em seus Comentários, não diz que se dirigiu à casa de Mário para refugiar-se; narra que para ali foi levado para deliberar sobre aquilo que Sulpício queria forçá-lo a fazer contra a sua vontade, cercado de espadas desembainhadas; e acrescenta que, tendo sido desse modo conduzido à casa de Mário, dali não saiu senão para ir à praça pública para de acordo com a exigência do tribuno, revogou o edito que ele e seu colega tinham promulgado e através do qual ordenavam a suspensão dos negócios e da administração da justiça.

LXIII. Mário é obrigado a sair de Roma

LXIII. Sulpício, tornando-se senhor da situação, fez atribuir a Mário através dos votos do povo, a conduta da guerra contra Mitrídates. Mário, enquanto se preparava para partir, enviou dois de seus oficiais ao encontro de Sila, a fim de ordenar-lhe que lhes entregasse seu exército, constituído de trinta mil infantes e cinco mil cavaleiros, Sila, após exacerbar os ânimos de seus soldados contra Sila no consulado. Mário, sublevou-os, e os fez marchar sobre Roma. Eles começaram por trucidar os dois oficiais que Mário tinha mandado; este, por sua vez, em sinal de represália, mandou matar, no interior de Roma, vários amigos e partidários de Sila, e prometeu, a som de trombeta, a liberdade a todos os escravos que quisessem pegar, em armas, em seu favor. No entanto, somente três se apresentaram; e Mário, após uma ligeira resistência contra Sila, quando este entrava em Roma, fugiu precipitadamente. Mal saíra da cidade, e viu-se abandonado por todos os que o acompanhavam, e que se dispersaram em várias direções. E como fosse noite, retirou-se para uma pequena casa de campo chamada Salônio, e que ficava perto da propriedade de Múcio, sogro de seu filho, para onde enviou este, a fim de arranjar algumas provisões. Seguiu, todavia, logo depois, para Ostia, onde Numério, um de seus amigos, preparara-lhe uma embarcação, e nela partiu sem esperar pelo jovem Mário, levando consigo apenas um filho de sua mulher, chamado Grânio.

LXIV. O filho de Mário escapa a perseguição de seus inimigos

LXIV. O jovem Mário, após chegar à propriedade de seu sogro Múcio, cuidou de reunir algumas provisões e empacotá-las a fim de levá-las consigo. Surpreendido pelo dia, por pouco não foi descoberto pelos seus inimigos. Alguns cavaleiros, desconfiando que Mário estivesse na casa, foram ali procurá-lo. Mas o intendente de Múcio, tendo-os visto de longe, ocultou o jovem numa carroça carregada de favas, à qual jungiu seus bois, e tomou com o veículo a direção de Roma, antes que os cavaleiros chegassem. O jovem Mário foi assim conduzido até à casa de sua mulher, onde pegou tudo o que lhe era necessário; e, após dirigir-se, à noite para a beira-mar, embarcou num navio que seguia para a África. ‘

LXV. Fuga de Mário; sua desdita

LXV. Entrementes, o velho Mário, fazendo-se ao mar, seguia ao longo das costas italianas, impelido por ventos favoráveis; receando, contudo, cair nas mãos de um dos principais moradores de Terracina, chamado Gemínio, seu rancoroso inimigo, disse aos marinheiros que evitassem aportar naquele lugar. Eles estavam mais do que desejosos de obedecer às suas ordens; mas o vento mudou de direção, e, começando a soprar do alto mar, provocou tão violenta tempestade que recearam não suportar o navio o ímpeto das vagas. Além disso, Mário estava sofrendo muito com o enjoo. Rumaram, então, com dificuldade, para a costa, atingindo a praia de Circéia881. A tempestade, que se tornava cada vez mais violenta, e a escassez de víveres, forçaram-nos a descer em terra; e puseram-se depois a andar de um lado para outro, sem um objetivo certo. E, como sempre acontece nas situações perigosas, procuraram evitar, como mais ameaçador, o lugar onde se encontravam no momento, e punham suas esperanças naqueles que não conheciam. À terra não era para eles menos perigosa que o mar; e, se receavam encontrar homens, eles também temiam não encontrá-los, na extrema penúria de víveres em que se achavam. Finalmente, ao anoitecer, viram alguns boeiros, que nada tinham para dar-lhes, mas que, tendo reconhecido Mário, aconselharam-no a afastar-se dali o mais depressa possível, pois tinham visto passar vários cavaleiros que o procuravam por toda parte. Não obstante estar privado de quaisquer recursos, e preocupado sobretudo com a situação dos que o acompanhavam, ameaçados todos de morrer de fome, deixou a estrada principal e penetrou numa mata espessa, onde passou a noite. No dia seguinte, forçado pela necessidade, e desejando utilizar suas forças antes que elas o abandonassem inteiramente, Mário pôs-se a caminho de novo, ao longo da costa. Enquanto caminhava, ia encorajando os que os acompanhavam, pedindo-lhes que não se desesperassem, e que alimentassem uma longa esperança, manifestando a sua confiança em algumas predições feitas muito tempo antes pelos adivinhos.

LXVI. Velho presságio que anunciava a Mário sete consulados

LXVI. Contou-lhes, então, que, um dia, na sua infância, e quando ainda morava no campo, recolhera numa dobra de sua roupa o ninho de uma águia, dentro do qual havia sete filhotes; seus pais, surpresos ante tal singularidade, consultaram os adivinhos, os quais predisseram que aquele menino se tornaria um dos homens mais famosos do mundo, e que, sem dúvida nenhuma, obteria a suprema magistratura do país e gozaria da maior autoridade. Afirmam alguns que esta coisa prodigiosa aconteceu realmente a Mário; porém, segundo outros, os homens que o acompanharam, nessa e em outras fugas, tendo ouvido dele o relato, acreditaram em suas palavras, e depois passaram-nas para o papel como coisa verdadeira; no entanto, não se trataria senão de uma fábula de sua invenção, pois a águia não tem de cada vez mais de dois aguiotos. O poeta Museo também foi chamado de mentiroso por ter dito a respeito desta ave:

Três ovos põe a águia, mas dois ela exclui,
A fim de, em seu ninho, apenas de um cuidar.

Seja como for, todos estão de acordo em que Mário, por várias vezes, durante a sua fuga, assegurou que seria cônsul pela sétima vez,

LXVII. Mário escapa a um novo perigo

LXVII. Quando se encontravam a cerca de vinte estádios da cidade de Minturnas882, na Itália, avistaram, eles, ao longe, um grupo de. cavaleiros que vinha em sua direção, e viram ao mesmo tempo duas barcas velejando perto da costa. Correram o mais rapidamente possível na direção do mar. Atirando-se a água, ganharam a nado um dos dois navios precisamente aquele a bordo do qual se achava Grânio, e rumaram para a ilha de Enária, situada em frente da costa. Quanto a Mário, devido ao seu peso e ao fato de não se achar bem disposto, só com muita dificuldade foi mantido por dois escravos sobre a água, sendo levado para o outro barco, aonde chegou precisamente no momento em que. os cavaleiros, após atingir a praia, puseram-se a dizer, aos gritos, aos marinheiros, que voltassem com a embarcação para terra, ou, então, atirassem Mário ao mar, acrescentando que depois poderiam prosseguir em seu caminho. Mário suplicou então, humildemente, e com lágrimas nos olhos, aos marinheiros, que não o entregassem aos seus inimigos; os donos do barco, após tomarem várias resoluções, umas contrariando as outras, tal a sua hesitação, declararam, finalmente, aos cavaleiros, que não entregariam Mário. Logo depois de haverem os cavaleiros partido, furiosos, os marinheiros mudaram de opinião, e, dirigindo-se para terra, aportaram perto da embocadura do Líris, cujas águas, saindo de seu leito, formam um paul. Aconselharam Mário a descer, a fim de tomar a sua refeição em terra, descansar um pouco, e restabelecer suas forças esgotadas pela viagem, até que o vento passasse a soprar favoravelmente; o que, acrescentaram, ocorreria, sem dúvida, a uma certa hora em que o vento do mar perdia a força e do pântano se erguia um vento fresco, que bastava para levar o navio até o mar alto.

LXVIII. Ele se oculta num pântano

LXVIII. Mário supôs que os marinheiros diziam a verdade e seguiu o seu conselho; foi então levado para a praia, onde se deitou sobre a relva, não prevendo nem de longe o que ia acontecer-lhe. Os marinheiros, voltando incontinente para seu navio, levantaram as âncoras, e fizeram-se ao mar, para fugir. Eles acharam que não era honesto entregar Mário aos seus inimigos, mas, ao mesmo tempo, não quiseram salvá-lo, receando pela sua própria segurança. Abandonado, assim, por todos, ele permaneceu durante muito tempo deitado na praia, sem proferir uma palavra. Enfim, recuperando, não sem esforço, a sua coragem, levantou-se e começou a percorrer lugares onde não havia estradas e nem trilhas. Depois de atravessar brejos extensos e fossas cheias de água e de lama, foi ter à cabana de um pobre velho, que trabalhava na região. Mário atirou-se aos seus pés, suplicando-lhe que socorresse e salvasse uma pessoa aflita que, caso conseguisse escapar às suas dificuldades presentes, recompensá-lo-ia um dia de maneira que excederia de muito as suas esperanças. O velho, seja que conhecesse já havia muito tempo Mário, seja que seu aspecto majestoso lhe indicasse tratar-se de uma grande personagem, disse-lhe, que, caso ele desejasse apenas repousar, sua pequena cabana bastaria: mas se porventura estivesse vagueando daquela maneira para escapar a inimigos, então o ocultaria em lugar mais seguro e mais tranquilo. Mário pediu-lhe que o escondesse, e o bom homem levou-o através dos pântanos até um ponto baixo situado ao longo do rio, onde o fez deitar, cobrindo-o em seguida com grande quantidade de caniços e outras plantas leves, para. que o peso não o incomodasse. Não havia ainda passado muito tempo, e ele, de seu esconderijo, ouviu um grande ruído do lado da cabana do pobre velho. Gemínio de Terracina tinha mandado numerosos cavaleiros à sua procura, em várias direções, alguns dos quais foram ali ter; e, para amedrontar o ancião, disseram-lhe, aos gritos, que ele recebera e estava ocultando um inimigo do povo romano.

LXIX. É preso

LXIX. Mário, que ouviu essas palavras, deixou o lugar onde o velho o havia colocado, e, depois de despir-se, entrou no pântano num ponto onde a água era mais espessa e lodosa, e aí foi encontrado pelos que o procuravam. Os cavaleiros retiraram-no inteiramente nu do pântano, todo coberto de lodo, e o levaram, no estado em que se encontrava, para Minturnas, onde o entregaram às autoridades; pois o decreto do Senado ordenando a todos os romanos que o perseguissem e o matassem, caso fosse encontrado, já tinha sido publicado em todas as cidades da Itália. Todavia, os magistrados de Minturnas, antes de dar execução ao decreto, decidiram deliberar, e enquanto isso mandaram levar Mário para a casa de uma mulher chamada Fânia, a qual era considerada como sua grande inimiga, por motivo de uma pendência já antiga, Fânia tivera como marido um homem chamado Tínio, do qual quis se separar, exigindo dele a devolução do seu dote, que era grande, O marido, a fim de evitar tal devolução, acusou-a de adultério, e a questão foi levada ao conhecimento de Mário, quando no exercício de seu sexto consulado. De acordo com o processo, verificou-se que Fânia, antes de seu casamento, levara uma vida irregular; isto não impediu, contudo, que Tínio, conhecedor de seu passado, a desposasse e com ela vivesse durante muito tempo. Mário, julgando-os, considerou ambos culpados, condenando o marido a restituir o dote e a mulher, após cobri-la de infâmia, a pagar a multa de uma moeda de cobre. Entretanto, Fânia, nessa ocasião, não se portou como mulher ofendida: logo que teve Mário entre suas mãos, longe de testemunhar-lhe qualquer ressentimento, procurou auxiliá-lo e fazer com que recuper asse a sua coragem. Mário agradeceu-lhe a generosidade, e disse-lhe que estava cheio de confiança, pois tivera um presságio favorável, o qual lhe narrou. Quando o conduziam para a casa de Fânia, e dela já se aproximava, mal a porta tinha sido aberta ele viu sair um asno, o qual foi correndo beber numa fonte situada nas proximidades. O animal parará diante de Mário, olhara-o com um ar satisfeito, e, em sua alegria, pusera-se a zurrar com todas as suas forças, e a dar saltos em volta dele. Mário conjeturou, diante disso, que os deuses quiseram desse modo significar que a sua salvação viria antes do mar que da terra; e isto porque o asno, ao sair de perto dele, não cuidara de pastar, indo diretamente beber na fonte.

LXX. Ninguém ousa matá-lo

LXX. Depois de expor tal interpretação a Fânia, ele quis repousar, e pediu-lhe que ó deixasse só, e que fechasse a porta de seu aposento. Entre-mentes, os magistrados e os decuriões da cidade, após longas deliberações, resolveram executar sem demora o decreto, ou seja, mandar matar Mário. Todavia, tomada esta resolução, nenhum cidadão aceitou a incumbência de executá-la. Finalmente, apresentou-se um cavaleiro gaulês ou cimbro (afirma-se uma coisa e outra), o qual, com a espada desembainhada na mão, penetrou no quarto onde Mário repousava. O aposento recebia pouca luz, estando por. isso escuro; e o cavaleiro, ao que se afirma, viu saírem chamas brilhantes dos olhos de Mário, e, ao mesmo tempo, ouviu erguer-se, daquele lugar tenebroso, uma voz terrível, que lhe disse; "Ousas tu, miserável, matar Caio Mário?" O bárbaro, ouvindo estas palavras, saiu precipitadamente do quarto, e, atirando longe sua espada, gritou: "Não posso matar Caio Mário!" A surpresa em primeiro lugar, e em seguida a compaixão e o arrependimento, dominaram logo toda a cidade. Os magistrados censuraram-se a si mesmos pela resolução tomada, considerando-a como um ato de injustiça e de ingratidão em relação a um homem que havia salvo a Itália e a quem não se podia sem crime recusar auxílio. "Deixemo-lo ir para onde queira, disseram eles, para enfrentar em outros lugares aquilo que o destino lhe trouxer; e pecamos aos deuses que não nos punam pelo fato de afastarmos Mário, nu e desprovido de recursos, de nossa cidade".

LXXI. É posto em liberdade

LXXI. Depois de fazerem considerações como estas, os minturnenses dirigiram-se em grande número ao quarto de Mário, e, fazendo-o sair, cercaram-no para o acompanhar até à praia. E como todos quisessem auxiliá-lo, dando-lhe uns e outros certas coisas que lhe poderiam ser úteis, passou-se um tempo considerável; e isto também se verificou porque existia no caminho que ia da cidade ao mar um bosque sagrado, da ninfa Maricá, venerado de modo singular por todos os minturnenses, os quais evitavam dele retirar tudo o que porventura para o seu interior fosse levado, Não podendo, assim, atravessá-lo, para atingir o mar teria sido necessário dar uma longa volta, o que levaria muito tempo. Finalmente, um dos cidadãos mais idoso da comitiva, começou a dizer, aos brados, que não havia caminho pelo qual fosse proibido passar para salvar Mário. E ele próprio, tomando a iniciativa, e levando consigo algumas das provisões destinadas à viagem, seguiu pelo caminho, através do bosque. Com o mesmo zelo e rapidez foi proporcionado a Mário tudo o de que necessitava; e um certo Beleu lhe forneceu um navio para a viagem. Mais tarde, ele mandou reproduzir toda esta história num grande quadro, o qual dedicou ao tempo de Maricá, do qual saíra para tomar o navio.

LXXII Aporta na África

LXXII. Levado por vento favorável, ele chegou à ilha de Enária, onde se encontrou com Grânio e alguns outros amigos, com os quais prosseguiu viagem, rumando para a África. Entretanto, tendo-lhes faltado água, foram obrigados a aportar na Sicília, perto da cidade de Erix883. Ali se encontrava um questor romano encarregado de guardar a costa, o qual por pouco não se apoderou de Mário, quando este, e vários membros de sua comitiva, desceram à terra para obter água; dezesseis dos que o acompanhavam foram, no entanto, mortos. Mário partiu precipitadamente, atravessou o mar, e fundeou na ilha de Meninge884, onde soube que seu filho, e que conseguido escapar de Roma com Cetego, e que ambos tinham se dirigido à corte de Hiempsal, rei da Numídia, a fim de implorar o seu auxilio. Encorajado por esta notícia favorável, ousou sair de Meninge, seguindo para as costas de Cartago, A África tinha então um governador romano chamado Sextílio. Mário, que não lhe fizera jamais nem bem nem mal, supunha que somente a compaixão poderia proporcionar-lhe algum auxílio. Todavia, mal pusera o pé em terra, com algumas das pessoas que o acompanhavam, e veio ao seu encontro um litor de Sextílio, o qual parando à sua frente, disse-lhe: "Sextílio, governador e pretor da África, proíbe-vos de pordes, o pé nesta província; caso contrário, adverte-vos de que fará executar os decretos do Senado contra vós, tratando-vos como inimigo de Roma".

LXXIII. Sextílio ordena-lhe que se retire

LXXIII. Mário foi tomado de uma dor e de uma tristeza tão profundas, após ouvir esta proibição, que não teve ânimo para responder, permanecendo em silêncio durante algum tempo, lançando no oficial olhares terríveis, Tendo o lictor lhe perguntado, finalmente, qual a resposta que deveria levar ao governador, ele lhe disse, após soltar um profundo suspiro: "Dirás a Sextílio que viste Mário, banido de seu país, sentado entre as ruínas da cidade de Cartago". Com esta resposta, ressaltou sabiamente, aos olhos de Sextílio, a sorte desta grande cidade e a sua, como dois exemplos das vicissitudes humanas, advertindo-o assim do que lhe poderia acontecer no futuro.

LXXIV. Mário encontra-se com o filho

LXXIV. Entrementes, Hiempsal, rei dos númidas, não sabendo que decisão tomar, tratava de maneira honrosa o jovem Mário, e os que o acompanhavam; mas quando anunciavam a sua intenção de partir, o rei achava sempre algum pretexto para os reter; e via-se claramente que a sua insistência não prenunciava intenções favoráveis. Salvou-os, no entanto, uma circunstância banal. A beleza de Mário fez com que uma das concubinas de Hiempsal se interessasse pelas suas desventuras; e este interesse foi o começo e o pretexto do amor que ele lhe inspirou, O jovem repeliu, a princípio, as suas primeiras tentativas de aproximação; mas, em seguida, vendo que era o único caminho para a fuga, e que o amor desta mulher tinha por motivo um desejo honesto de servi-lo, não sendo assim uma paixão abjeta, aceitou os testemunhos de sua ternura. Ela proporcionou-lhe, finalmente, os meios para fugir com seus amigos, e ele foi ao encontro de seu pai. Depois de se cumprimentarem e abraçarem, puseram-se ambos a caminhar ao longo da costa; em determinado momento, viram dois escorpiões lutando, o que pareceu a Mário um mau presságio. Apressaram-se a subir para um barco de pescador, seguindo para a ilha de Cercina885, que não fica muito distante do continente. Logo depois de sua partida, viram cavaleiros chegarem ao mesmo lugar que haviam deixado. Eram soldados enviados pelo rei Hiempsal, e Mário confessou que esse fora um dos maiores perigos por que havia passado.

LXXV. Volta à Itália

LXXV. Entretanto, em Roma, ao ser divulgada a notícia de que Sila se empenhara em guerra na Beócia contra os generais de Mitrídates, os cônsules886 entraram em dissensão travando luta armada. Otávio, que se revelou o mais forte, ganhando a batalha, expulsou Cina, que tentara exercer um poder tirânico, e nomeou para as funções de cônsul, em seu lugar, Cornélio Mérula. Cina, não se conformando com a derrota, recrutou soldados no seio dos outros povos da Itália, e deu início a uma guerra contra os dois cônsules. Mário, logo que teve conhecimento do que ocorria, decidiu partir o mais depressa possível; e reunindo alguns cavaleiros da Mauritânia, e alguns italianos, que tinham conseguido deixar o seu país, perfazendo um total de mil homens, ele se fez ao mar e foi ter ao porto de Telamão, na Etrúria; imediatamente após o seu desembarque, fez anunciar, ao som de trombeta, que daria a liberdade aos escravos que se juntassem a ele. Os lavradores e os pastores da região, todos de condição livre, acorreram à costa, atraídos pela fama de Mário; este escolheu dentre eles os mais dispostos e robustos, e, depois de dirigir-lhes belas palavras, conquistou-os para a sua causa, conseguindo, assim, em poucos dias, formar um exército, o qual embarcou em quarenta navios.

LXXVI. Liga-se a Cina

LXXVI. Mário sabia que Otávio era um homem de bem, o qual não queira out ra autoridade senão aquela que lhe era dada pelas leis e pela justiça; sabia também que ao contrário, Cina era suspeito a Sila, e que queria derrubar o governo e introduzir inovações na administração. Resolveu por isso juntar-se a este com todas as suas forças, e, primeiramente, mandou-lhe dizer que estava disposto a obedecer-lhe, como a um cônsul, e a executar tudo que fosse por ele ordenado. Cina recebeu-o com alegria, deu-lhe o titulo de procônsul e enviou-lhe os lictores e os feixes de varas, bem como todas as outras insígnias da autoridade pública. Mário, no entanto, não quis aceitá-los, dizendo que estes ornamentos não convinham à miséria de sua situação: continuou a vestir roupas muito pobres e a deixar crescer os cabelos, o que vinha fazendo desde o dia em que foi banido, na idade de mais de setenta anos. Ele caminhava lenta e pesadamente, a fim de provocar compaixão àqueles que o viam; mas, sob esta aparência lamentável, transparecia sempre o ar de altivez que lhe era natural, e que parecia destinado a inspirar mais terror do que piedade; sua própria tristeza demonstrava que os reveses tinham antes aguçado do que abatido a sua coragem.

LXXVII. Apodera-se do Janículo

LXXVII. Depois de cumprimentar Cina e falar aos soldados, ele começou a agir sem perda de tempo, e em poucos dias toda a situação se modificou. Em primeiro lugar, tomando posição no mar com seus navios, ele apresava os comboios, pilhava os negociantes que levavam trigo e outros víveres para Roma, tornando-se assim senhor das provisões necessárias à subsistência de todos. Apoderou-se em seguida das cidades marítimas, subindo a costa, e, finalmente, pilhou e mandou matar a maior parte dos habitantes da cidade de Óstia, a qual ocupou graças a uma traição. Lançou depois uma ponte sobre o rio Tibre, e desfez completamente a esperança de seus inimigos de receberem provisões pelo mar. Marchou logo depois com seu exército sobre Roma, apoderando-se do monte Janículo, devido a um erro de Otávio, o qual comprometia a sua situação, menos por incapacidade do que por um apego escrupuloso às normas da justiça, a uma obediência servil às leis, agindo assim contra a utilidade pública. Àqueles que o aconselhavam a oferecer a liberdade aos escravos a fim de estes tomarem as armas em defesa da República, ele respondia que não daria aos escravos qualquer direito de cidadania, da qual mantinha Mário afastado para manter a autoridade das leis.

LXXVIII. Morte de Otávio

LXXVIII. Chegou, entrementes, a Roma, Cecílio Metelo, filho de Metelo, o Numídico, que havia começado a guerra da África, contra Jugurta, e que fora exilado por Mário; e como todos os soldados o considerassem um general muito superior a Otávio, abandonaram este cônsul, e se dirigiram a ele, pedindo-lhe que assumisse o comando e salvasse a cidade, prometendo-lhe que, quando tivesse à sua frente um capitão ativo e experimentado, combateriam com coragem, e triunfariam sobre o inimigo, Cecílio Metelo, vivamente ofendido ante tal proposta, disse aos soldados que voltassem a obedecer ao cônsul; mas eles, despeitados, bandearam-se para o inimigo. Vendo que a situação na cidade não era boa, e que seria difícil enfrentar o adversário, Cecílio deixou Roma; mas Otávio, persuadido por alguns caldeus, adivinhos e sibilistas887, os quais lhe disseram que tudo correria bem para ele, resolveu permanecer na cidade. Este cônsul, dotado de tanto bom-senso quanto qualquer outro romano de seu tempo, e que sempre manteve íntegra a dignidade consular, insensível ao veneno da lisonja, seguindo os costumes e as leis do país como fórmulas invariáveis, tinha lamentavelmente, um fraco pela adivinhação, e passava, ao que me parece, mais tempo em companhia de adivinhos e charlatães, do que com os militares e os estadistas. Mário, antes de entrar em Roma, enviou assalariados à cidade, os quais, depois de arrancar à força Otávio da tribuna, mataram-no na praça pública. Foi encontrado, junto ao seu peito, ao que se conta, um horóscopo de seu nascimento feito por um caldeu; e, diante do que se passou, pareceu singular888 o fato de que, destes dois generais, um, Mário, foi amparado, e o outro, Otávio, arruinado pela mesma confiança na adivinhação.

LXXIX. Crueldades de Mário, após sua entrada em Roma

LXXIX. Nesta conjuntura crítica, o Senado reuniu-se e decidiu enviar embaixadores a Mário e a Cina, a fim de pedir-lhes que entrassem na cidade pacificamente, sem derramar o sangue dos cidadãos. Cina recebeu-os em audiência, em sua cadeira, como cônsul, e respondeu às suas palavras com muita humanidade; Mário, de pé, mantinha-se silencioso. A sua fisionomia severa e seus olhares ferozes mostravam, no entanto, que ele iria em breve cobrir a cidade de sangue. Após a audiência, Cina entrou em Roma, cercado pelos seus guardas; Mário, parando junto à porta da cidade, disse com uma ironia inspirada pela cólera que fora banido de sua pátria de acordo com as leis e mediante processo judicial; assim, se julgassem que sua presença era necessária, era preciso anular, com um novo decreto, aquele que o havia banido, como se fosse um escrupuloso observador das leis e como se a liberdade reinasse então em Roma. O povo foi em seguida reunido na praça pública, a fim de que seu pedido fosse atendido. Mas três ou quatro grupos da população ainda não haviam dado o seu voto, quando Mário, tirando a máscara, e deixando de simular que desejava realmente ser chamado do exílio através das formalidades legais, penetrou na cidade cercado por um grupo de assalariados, recrutados entre os escravos mais dissolutos e audaciosos que haviam tomado o seu partido, e aos quais chamava bardeus. A uma só palavra, a um piscar de olho, a um sinal que Mário lhes fizesse com a cabeça, eles trucidavam indistintamente todos aqueles que lhes indicasse. Um senador, chamado Ancário, que tinha sido pretor, foi morto a golpes de espada aos pés de Mário, por não ter este respondido ao cumprimento que lhe havia sido dirigido. Este foi um sinal para que fossem massacrados nas ruas todos aqueles a cujos cumprimentos Mário não respondesse ou a quem não dirigisse a palavra. Assim, mesmo seus amigos dele se aproximavam com verdadeiro pavor, pois que receavam que não respondesse ao seu cumprimento.

LXXX. Comuto é salvo pelos seus escravos

LXXX. Como já fosse grande o número de mortos, Cina, saciado de tanto sangue e com o seu ódio já apaziguado, quis pôr termo à matança; Mário, porém, cuja cólera se tornava cada dia maior e maior a sua sede de vingança, continuava a mandar assassinar todos aqueles que lhe eram suspeitos; e não havia nenhuma cidade ou estrada onde não se vissem assalariados de Mário à procura, como se fossem cães de caça, de pessoas escondidas ou em fuga. Demonstrou, então, a experiência, que a fidelidade aos liames da amizade e hospitalidade raramente resiste à má fortuna; pois poucas foram as pessoas que não denunciaram aqueles que lhes haviam solicitado asilo. Este fato torna ainda mais digno de nossa admiração e de nossa estima os escravos de Comuto, os quais, tendo escondido o seu senhor em sua casa, para ali levaram um dos que tinham sido mortos na rua, dependuraram-no pelo pescoço, puseram-lhe no dedo um anel de ouro, e mostraram-no aos satélites de Mário; promoveram depois os funerais, como se fossem os de seu próprio senhor, e enterram-no sem que ninguém de nada desconfiasse. Comuto, salvo deste modo pelos servidores, refugiou-se na Gália.

LXXXI. Morte de Marco Antônio, o orador

LXXXI. O orador Marco Antônio889, que também tinha encontrado um amigo fiel, não teve a mesma sorte que Comuto. Este amigo era um homem do povo, muito pobre, o qual, tendo em sua casa uma das principais personagens de Roma, quis tratá-la do melhor modo que lhe era possível, e mandou seu escravo comprar vinho numa taverna das vizinhanças. O escravo provou e apreciou o vinho em maior quantidade do que habitualmente fazia, e como pedisse uma qualidade melhor e mais cara, o taberneiro perguntou-lhe porque ele não levava, como de costume, vinho novo e comum, mas ao contrário, fazia questão de bebida melhor e mais cara. O escravo respondeu-lhe com simplicidade, tratando-se de um homem a quem conhecia havia muito tempo e tinha como amigo, que seu senhor desejava tratar bem Marco Antônio, o qual se encontrava oculto em sua casa. Mal o escravo voltara-lhe as costas, o taberneiro, homem mau e desleal, foi correndo à casa de Mário, que estava à mesa, ceando; levado à sua presença, anunciou-lhe que ia entregar-lhe Marco Antônio. Ao ouvir estas palavras, Mário soltou um grito e bateu palmas, tal sua alegria, por pouco não abandonando’ a mesa para ir pessoalmente ao local; mas seus amigos o retiveram, e ele contentou-se em enviar um de seus oficiais, Ânio, à frente de alguns soldados, com ordem de trazer-lhe, sem demora, a cabeça de Marco Antônio, Após chegar à casa onde se encontrava escondido o orador, guiado pelo taverneiro, Ânio ficou junto à porta e ordenou aos soldados que subissem ao quarto; encontraram ali Marco Antônio, mas nenhum deles teve a coragem de desferir o primeiro golpe, e puseram-se a se encorajar uns aos outros; e isto porque a eloquência do famoso orador, como uma mágica sereia, tinha tanta doçura e encanto, que, logo ao abrir ele a boca para pedir a vida a estes soldados, não houve um sequer com ânimo bastante para olhá-lo de frente, conservando todos os olhos baixos e cheios de lágrimas. Ânio, impacientado pela demora, subiu ao quarto, onde viu os soldados encantados e comovidos ante a eloquência de Marco Antônio; e, após exprobrar-lhes a covardia, dirigiu-se furioso ao lugar onde se encontrava o orador, e cortou-lhe a cabeça com as próprias mãos.

LXXXII. Morte de Catulo Lutácio. Horrores em Roma

LXXXII. Catulo Lutácio, que fora colega de Mário no consulado, e com ele partilhara as honras do triunfo sobre os cimbros, recorreu aos amigos a fim de que intercedessem em seu favor; Mário, no entanto, não lhes deu outra resposta senão esta: "É preciso que ele morra". Catulo fechou-se então num pequeno quarto, e ateou fogo a uma certa quantidade de carvão, e o fumo produzido sufocou-o. Os corpos daqueles a quem se cortavam as cabeças eram atirados à rua, e pisados; e este espetáculo, não provocava somente a compaixão dos que o viam, mas gelava igualmente todos os corações de medo. Mas nada desagradava e afligia tanto o povo quanto a brutalidade, a insolência e a devassidão dos bar deus os quais, depois de penetrarem à força nas casas e degolarem os seus donos, violavam-lhes os filhos e desonravam-lhes as mulheres, sem que ninguém aparecesse para reprimir a sua crueldade e luxúria insaciáveis. Finalmente, Cina e Sertório resolveram agir, e, numa noite em que dormiam em seu acampamento, massacraram-nos.

LXXXIII. Mário é nomeado cônsul pela sétima vez

LXXXIII. Nesta situação deplorável, como que anunciando uma reviravolta nos acontecimentos, chegou, de vários pontos, a notícia de que Sila, depois de terminar a guerra contra Mitrídates , e recuperar as províncias de que este se havia apoderado, estava de regresso à Itália com um poderoso exército. Esta notícia fez cessar por algum tempo os males e os tormentos indescritíveis de que era teatro a infeliz Roma, e isto porque aqueles que eram por eles responsáveis viram que estariam em breve às voltas com uma guerra. Mário foi assim eleito cônsul pela sétima vez; e ao sair de sua residência, no dia primeiro de janeiro, que assinalava o começo do ano, para tomar posse do cargo, fez com que Sexto Lucino se precipitasse do alto da rocha Tarpéia, Esta violência foi como um presságio, um sinal dos horrores e das misérias que ainda iam ocorrer e de que seriam vítimas também os partidários de Mário. Ele próprio, esgotado pelos esforços e fadigas do passado, e com o espírito acabrunhado pelos sofrimentos e atormentado pela ideia da nova guerra e dos combates que teria de sustentar, dos perigos, das amarguras e das canseiras que teria de enfrentar, e cuja intensidade a sua experiência lhe permitia prever, ele não pôde suportar a cruel inquietação que o assaltava. Considerava que não teria de combater contra um Otávio ou um Mérula, capitães que tinham às suas ordens apenas uma turba sediciosa reunida ao acaso, mas contra Sila, que outrora o havia expulso da pátria e que acabava de repelir Mitrídates até à última extremidade do Ponto Euxino.

LXXXIV. Suas extremas inquietações

LXXXIV. Oprimido sob o peso destas reflexões, e fazendo desfilar diante dos olhos o seu longo exílio, suas fugas, os perigos por que passara em terra e no mar, ele mergulhou na mais cruel das angústias, e tais foram o acabrunhamento e a inquietação de seu espírito que terrores noturnos e sonhos pavorosos lhe impediam o repouso; e supunha ouvir sempre uma voz ameaçadora gritar-lhe ao ouvido:

Do altivo leão a morada terrível
Mesmo quando ausente parece-nos temível.

Mas como a insônia o apavorasse, começou a promover banquetes extemporâneos, comendo e bebendo além do que convinha à sua idade. Procurava deste modo atrair o sono, no qual encontrava um remédio para os seus males. Chegaram-lhe, finalmente, notícias, vindas do mar, as quais o encheram de novos terrores.

LXXXV. Mário adoece e morre

LXXXV. Temendo pelo futuro e abatido pelo peso do infortúnio presente, não foi preciso senão a mais ligeira agravação de seus males para fazê-lo cair gravemente enfermo. Foi atacado de pleurisia, em consequência da qual morreu, segundo conta o filósofo Posidônio, que foi vê-lo em seu leito, a fim de tratar com ele das questões que o tinham levado, numa embaixada, a Roma. Todavia, o historiador Caio Pisão escreve que, um dia, após a ceia, Mário, passeando com alguns amigos, pôs-se a contar as suas aventuras, desde o começo de sua vida; relatou as vicissitudes de bem e de mal que a fortuna o fizera experimentar, concluindo que um homem bem avisado não devia nela confiar, tal a sua inconstância. Após dizer estas palavras, despedira-se dos amigos, e deitou-se, permanecendo no leito sete dias, findos os quais morreu.

LXXXVI. Reflexões sobre a ambição de Mário e seu apego à vida

LXXXVI. Conta-se que, delirando durante a enfermidade, sua ambição se manifestou de uma maneira estranha. Ele dizia estar comandando o exército romano contra Mitrídates e executava em seu leito os mesmos movimentos, tomava as mesmas atitudes, soltava os mesmos gritos, enfim, fazia tudo o que costumava fazer quando estava no auge de uma batalha: tal a intensidade do desejo de receber o comando naquela guerra, desejo aceso em sua alma pela sua inveja natural e pela sede de mando. E tal era a sua ambição que, na idade de setenta anos, tendo sido o primeiro romano a ser eleito sete vezes para as funções de cônsul, possuindo riquezas que teriam bastado para vários reis, ele se queixou da fortuna, como se ela o tivesse feito morrer pobre e antes de haver obtido o que desejava.

LXXXVII. Exemplos contrários de Platão e de Antípatro

LXXXVII. Muito diversa foi a atitude do sábio Platão quando se aproximou o momento da morte. Ele louvou e agradeceu aos deuses e à sua boa fortuna o fato de haver nascido homem e não animal, grego e não bárbaro; e, sobretudo, por ter nascido na mesma época em que vivia Sócrates. De modo semelhante, conta-se que Antípatro de Tarso, recordando, poucos instantes antes da morte, os acontecimentos felizes de sua vida, não se esqueceu de mencionar, entre outras coisas, a feliz viagem por mar que fizera de sua pátria a Atenas; isto demonstrava que ele tinha em grande conta mesmo os menores favores da fortuna, conservando-os até o fim em sua memória, o depositário mais fiel a que o homem possa confiar os seus bens.

LXXXVIII. Reflexões sobre a maneira como os homens encaram sua fortuna

LXXXVIII. No entanto, os insensatos e os ingratos para com os deuses e a natureza, deixam passar com o tempo a lembrança de tudo aquilo que lhes acontece; e como nada colocam de reserva em sua memória, vivem sempre destituídos de bens presentes, sempre cheios de esperanças, com os seus olhares invariavelmente voltados para o futuro, e, deixam ao mesmo tempo, fugir o presente. A razão, porém, desejaria que eles fizessem o contrário, porque a fortuna, que lhes pode tirar o futuro, não pode privá-los do passado. Entretanto, eles repelem, expulsando-os de sua memória, os bens que dela já receberam, como se lhes fossem estranhos; e sonham sem cessar com um futuro incerto: justo castigo para a sua ingratidão. Demasiado apressados em acumular o mais que podem destes bens exteriores, antes de lhe dar por fundamento e apoio a razão e a boa doutrina, eles não podem depois satisfazer a sede insaciável de sua alma.

LXXXIX. Morte do filho de Mário

LXXXIX. Mário morreu no décimo-sétimo dia de seu sétimo consulado, e sua morte causou, a princípio, em Roma, uma grande alegria, pois a cidade, retomando coragem, cuidava ter-se livrado de uma sangrenta e cruel tirania. Mas pouco tempo depois, os romanos verificaram, à sua custa, que não tinham senão trocado um senhor velho e alquebrado, prestes a deixar este mundo, por um senhor jovem e cheio de vigor, que não acabava senão de chegar: tantas foram as crueldades e selvagerias praticadas pelo filho de Mário, que fez morrer as pessoas mais ilustres pelo seu nascimento e pelas suas virtudes. A audácia e a intrepidez diante dos perigos fizeram com que fosse chamado o filho de Marte; mas, em seguida, as suas ações revelaram nele qualidades inteiramente opostas, e foi por isso chamado o filho de Vênus. Finalmente, foi cercado por Sila na cidade de Perusa, e como foram vãos todos os seus esforços para salvar a vida e a queda da cidade não lhe deixasse nenhuma esperança de fuga, ele matou-se com suas próprias mãos.

Ver notas

Mais fontes de Mário e Sila

Vidas Paralelas: Lúculo, de Plutarco

Vidas Paralelas: Sila, de Plutarco

Vidas Paralelas: Sertório, de Plutarco

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