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Notas

189 Tibério adotou Germânico em 4 de junho, alguns dias antes de ter sido, ele próprio, adotado por Augusto.

190 Aos 20 anos, pois.

191 No ano 12, sem ter sido antes nem edil, nem pretor.

192 Em 26 de maio do ano 17. Conduziram-se os despojos dos cativos, as imagens das cidades, das montanhas, das batalhas. Tusnelda, mulher de Armínio, Tumélico, seu jovem filho, Sigis mundo, filho de Segesta, Sesitaco, filho de Segimer, assim como Libes, sacerdote dos catas, figuravam entre os cativos. O querusco Segesta se encontrava entre os espectadores.

193 E a Comagena.

194 Em 10 de outubro do ano 19.

195 Cf. “Tibério”: que utilizou, segundo se acredita, Cnéio Pisão, legado na Síria, para fazer perecer Germânico.

196 Baseado nas acusações de Serveu, Verânio e Vitélio, amigos de Germânico.

197 Veja-se a nota 189.

198 Saturnais.

199 Cf. “Tibério”: depois de ter declarado Nero e Druso inimigos públicos, fê-los morrer de fome: Nero na ilha de Pôncia e Druso nos subterrâneos do Palatino.

200 Em 31 de agosto do ano 12.

201 Cf. Augusto: administrava a justiça, muitas vezes, sob os pórticos do templo de Hércules.

202 Em 22. Tinha 16 anos. Lívia morreu aos 86 anos de idade.

203 Tais como a oferenda da pretexta ao Capitólio, em meio a uma grande pompa; a apresentação do rapaz aos correligionários e amigos da família e a saudação cívica oficial.

204 O orador Passieno.

205 Em 33.

206 Que pereceu violentamente em 33.

207 Tibério havia perdido seus filhos Germânico e Druso e mandou matar Druso e Nero, irmãos de Calígula.

208 No ano 37.

209 Que sucedera a Sejano como prefeito do pretório.

210 Onde morrera Tibério.

211 Cf. “Tibério”: que deixou como seus herdeiros, por frações iguais, Caio, filho de Germânico, e Tibério, filho de Druso.

212 Em outubro de 37, oito meses após a morte de Tibério.

213 Ou antes, a dar-se crédito a Dião, impelido por Vitélio, governador da Síria.

214 Cf. Tibério: Veja-se a nota 199.

215 Desde 1o de julho de 37.

216 O primeiro, cujos livros de história haviam sido queimados como sediciosos, suicidara-se, levado pelo desespero. Cássio Severo, o orador, havia sido exilado por Augusto e morrera de miséria. Sobre Cremúcio Cordo, cf. “Tibério”.

217 A respeito das modificações concernentes ao número das decúrias, cf. “Augusto”

218 Augusto criara, para as vendas, o imposto de dois centésimos. Tibério, após a redução da Capadócia a província romana, abaixara para meio centésimo (1/2 por cento).

219 Antíoco III.

220 As Palílias, ou festas de Palas, se celebravam a 21 de abril, dia do aniversário da fundação de Roma.

221 1º de julho de 27, 1º de janeiro de 39, 40, 41.

222 E até mesmo seus três últimos.

223 Tibério, filho de Druso.

224 Agripa, rei da Judeia, e Antíoco III, rei da Comagena.

225 “Que não haja — exclamou — senão um único chefe, senão um único rei!” Cf. Homero, Ilíada, II, 204.

226 “Ou tu me arrebatas ou eu te arrebato!” Cf. Homero, Ilíada, XXIII, 724.

227 Cf. “Tibério” e a nota 154.

228 Chamou-o da África, onde era procônsul, fê-lo matar-se e repudiou-lhe a filha.

229 No ano de 38.

230 Este Emílio Lépido, que desposara Drúsila, irmã de Calígula, e tivera como amantes duas outras irmãs do imperador, Agripina e Lívila, conspirou contra Calígula. Foi condenado à morte, assim como Agripina e Lívila.

231 Que haviam arrebatado aos seus maridos, o primeiro Hersília e o segundo Lívia.

232 Que era então (no ano 39) governador da Macedônia e da Acaia.

233 Trata-se dos cônsules de 39, Cnéio Domício Corbulão e Sanguíneo Máximo, empossados em 31 de agosto.

234 Trata-se duma personagem da ordem equestre, Atânio Secundo.

235 Públio Afrânio Potito.

236 Sem dúvida o cavaleiro romano Pastor, de quem Sêneca fala em De Ira, II, 33.

237 Um certo Escribônio Próculo.

238 Sem dúvida, Anticira da Fócida.

239 Cf. “Tibério”: os documentos referentes ao processo da sua mãe e dos seus irmãos.

240 O rei dos sacrifícios: rex sacrorum.

241 Cf. “Cláudio”: Lépido conspirou com Getúlico contra Calígula.

242 Cidadezinha da Úmbria, à margem da Clituno.

243 Cf. Virgílio, Geórgicas, II, 146-148.

244 Isto é, de exploradores (exploratores).

245 Cf. Eneida, I, 207: “Durarent, secundisque se rebus servarent”.

246 Nas proximidades do mar.

247 Cf. “Calígula”: Germânico conseguira dominar a revolta das legiões com a sua simples presença.

248 De hipômane (humor destilado pelas partes naturais da égua no cio); cf. Juvenal, Sátiras, VII, 616.

249 Havia os “verdes”, os “azuis”, os “brancos” e os “vermelhos”.

250 A de Sexto Papínio (janeiro de 39) e a de Marco Emílio Lépido e de Cnéio Lêntulo Getúlico, comandante das tropas da Germânia (27 de outubro de 39).

251 A tragédia de “Cinira”.

252 31 de agosto de 12 — 24 de janeiro de 41.

253 17 de março de 37 — 24 de janeiro de 41.

254 À exceção, entretanto, de Caio César e Caio, netos de Augusto, mortos ambos naturalmente.

Fontes   >    Roma Antiga

Calígula, de Suetônio

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Busto de Calígula na Gliptoteca Ny Carlsberg, Copenhage.

Sobre a fonte

Caio Júlio César Augusto Germânico (12-41), também conhecido como Caio César ou Calígula, foi imperador romano de 16 de março de 37 d.C., até ao seu assassinato, em 24 de janeiro de 41. Foi o terceiro imperador romano e membro da dinastia júlio-claudiana, instituída por Augusto. Era filho do famoso general Germânico, e ficou conhecido como um dos imperadores mais loucos e violentos da Roma Antiga. Essa biografia de Calígula faz parte de um livro intitulado "A Vida dos Doze Césares" escrito pelo historiador Suetônio, que viveu no século 2 d.C.

Sobre seu pai, Germânico

Germânico, pai de Caio César, filho de Druso e de Antônia a Moça, adotado por seu tio paterno Tibério189, exerceu a questura cinco anos antes da idade190 permitida por lei e o consulado logo em seguida191. Enviado ao exército da Germânia, refreou as legiões com tanta firmeza que, à notícia da morte de Augusto, se recusaram obstinadamente a reconhecer Tibério, que lhe dera esse comando supremo, como imperador. Bem cedo, porém, venceu o inimigo e triunfou192. Sem demora, foi eleito cônsul pela segunda vez. Antes, entretanto, de assumir o cargo, foi afastado para administrar o Estado do Oriente, onde, após haver vencido o rei da Armênia e ter reduzido a Capadócia193 a província romana, morreu na Antioquia194, aos 34 anos de idade, depois dos padecimentos de pertinaz moléstia que não deixou de fazer brotar a suspeita dum envenenamento. Com efeito, apesar das manchas lívidas aparecidas em todo o seu corpo, e da espuma que lhe corria da boca, encontrou-se, depois de queimado o seu corpo, seu coração intacto. Ora, acredita-se que é tal a natureza desse órgão que, quando impregnado de veneno, não pode ser destruído pelo fogo.

Sucumbiu, ao que se crê, à perfídia de Tibério e às manobras e práticas de Cnéio Pisão195. Este, nomeado na mesma época para governar a Síria, e sem dissimular que se via na contingência de desgostar ao pai ou ao filho, foi até ao ponto de assassinar Germânico, doente dos ultrajes e das afrontas mais cruéis que recebera. Pisão, de volta a Roma, quase foi linchado pelo povo e condenado à morte pelo Senado196.

É sabido que Germânico reunia, como ninguém, num alto grau, todas as qualidades físicas e espirituais: beleza e bravura notáveis, gênio eminente na eloquência e na literatura latina e grega, benevolência rara, caráter maravilhosamente eficaz para conciliar o favor público e merecer o amor universal. Suas pernas delgadas discrepavam da perfeição da sua pessoa. Elas, porém, engrossaram, pouco a pouco, graças ao hábito que possuía de montar a cavalo, após as refeições. Matou muitas vezes inimigos em luta corpo a corpo. Defendeu causas, mesmo depois do seu triunfo, e, entre outros monumentos dos seus estudos, deixou algumas comédias gregas. Igualmente afável, quer em Roma, quer nos acampamentos, entrava sem litores nas cidades livres e aliadas. Por toda a parte onde encontrasse túmulos de homens ilustres, oferecia sacrifícios aos seus manes. Quando desejou inumar, numa só tumba, os restos dispersos dos guerreiros mortos no desastre de Varo, foi o primeiro a começar a recolhê-los e a transportá-los com suas próprias mãos. Mostrou-se tão brando e tão pouco rancoroso a respeito dos seus detratores quaisquer que eles fossem e qualquer que fosse o motivo da sua inimizade que não demonstrou ressentimento a Pisão, que lhe cassava os decretos e lhe perseguia os sequazes, senão quando se viu exposto aos seus malefícios e sortilégios. E, ainda mesmo assim, limitou-se apenas a renunciar publicamente à sua amizade, segundo o costume dos antepassados, e confiar aos seus o cuidado da vingança, caso lhe acontecesse alguma coisa.

Recolheu, superabundantemente, o fruto das suas virtudes. Era tão estimado e tão querido dos seus parentes que Augusto (sem falar doutros) vacilou durante muito tempo a respeito de se o escolheria para seu sucessor, e fê-lo adotar por Tibério197. Gozava em tão alto grau o favor popular que, segundo numerosos testemunhos, toda vez que chegava a qualquer região ou dela partia, a multidão dos que acorriam ao seu encontro ou que o escoltavam repetidas vezes o puseram em risco de vida. Ao retornar da Germânia, depois de haver reprimido a sedição, todas as coortes pretorianas formaram diante dele, embora se tivesse anunciado que somente duas sairiam de Roma. E o povo romano, sem distinção de sexo, de idade ou de posição, espalhou-se pela estrada até o vigésimo marco miliário.

Entretanto, foi por ocasião da sua morte e depois dela que os maiores e mais sólidos testemunhos de afeto apareceram. No dia em que cessou de viver, os templos foram assaltados a pedradas e o altar dos deuses derrubado. Muitas pessoas jogavam à rua seus deuses familiares e expuseram seus recém-nascidos. Houve mais. Conta-se que os bárbaros, que estavam em guerra entre eles ou conosco, negociaram um armistício, como se se tratasse duma infelicidade doméstica ou geral. Certos reis rasparam a barba e cortaram os cabelos das suas esposas em sinal de grande luto. O próprio rei dos reis dos partos se absteve da caça e da diversão com os nobres, o que equivale, entre os partos, a suspender a justiça.

Em Roma, os cidadãos ficaram surpresos e consternados à primeira notícia da sua doença e esperaram novos correios. Inesperadamente, à noite, porém, se difundiu o boato, sem que se soubesse a origem, de que ele se havia restabelecido. De todos os lados, então, acorreu gente ao Capitólio, com archotes e vítimas. As portas do templo quase foram arrombadas na ânsia de elevarem ações de graça. Tibério foi arrancado do sono em que jazia pelos gritos dos que se felicitavam e cantavam:

Roma está salva, a pátria está salva, Germânico está salvo!

Quando, porém, sua morte foi oficialmente comunicada, nenhuma consolação, nenhum édito pôde conter a dor pública. O luto perdurou até mesmo durante os dias de festa do mês de dezembro198. O que concorreu, depois, para aumentar a glória de Germânico e o pesar da sua morte foi a atrocidade dos tempos que se lhe seguiram. Todo o mundo pensava, e não sem razão, que o respeito e o medo que ele inspirava a Tibério haviam represado a sua crueldade, que, bem cedo, depois extravasou.

Desposou Agripina, filha de Marco Agripa e de Júlia, e dela teve nove filhos, dos quais dois lhe morreram quando ainda em tenra idade e um terceiro ao sair da infância. Este último era dum encanto notável. Lívia ofereceu seu retrato em forma de Cupido ao templo de Vênus Capitolina, e Augusto, que o colocara no seu quarto de dormir, cobria-o de beijos todas as vezes que o fixava. Os outros sobreviveram ao pai. Eram três mulheres:

Agripina, Drúsila e Lívia, nascidas num período de três anos consecutivos. E três rapazes: Nero, Druso e Caio César. O Senado, de acordo com as acusações de Tibério, declarou Nero e Druso inimigos públicos199.

Nascimento de Calígula

Caio César nasceu nas vésperas das calendas de setembro200, sob o consulado de seu pai e de Caio Fontéio Capito. A diversidade das tradições deixa na incerteza o lugar do seu nascimento. Cnéio Lêntulo Getúlico escreveu que ele nascera no Tíbur. Plínio o Moço afirma que em Tréveris, no bairro de Ambiatino, acima de Coblença. Adianta ainda, como prova, que aí se encontram altares com esta inscrição: “Em homenagem aos partos de Agripina”. Versículos publicados pouco depois do seu nascimento indicam que ele veio ao mundo nos quartéis de inverno das legiões:

“Nascido nos acampamentos, nutrido nas batalhas paternas,
tudo pressagiava um príncipe assinalado.”

Quanto a mim, descubro nas atas que ele viu a luz no Âncio. Plínio refuta Getúlico, acusando-o de ter mentido por adulação, para juntar à folha dum jovem e glorioso príncipe mais um título pedido de empréstimo à cidade santa de Hércules201. Abusou diz ele com a audaciosa mentira de que, um ano mais ou menos antes, nascera em Tíbur um filho de Germânico chamado também Caio César, ao qual já nos referimos precedentemente, em relação à sua encantadora infância e ao seu fim prematuro. O cálculo, porém, do tempo contradiz a Plínio. Pois os que nos transmitiram a história de Augusto são acordes em declarar que Germânico fora enviado à Gália após seu consulado, quando Caio já havia nascido. A inscrição do altar não poderia apoiar a opinião de Plínio, pois Agripina, naquele país, deu à luz dois filhos, e, ali, emprega-se a palavra puerperium a toda espécie de parto, sem distinção de sexos. Os antigos usavam pueros por puellas, como puellas por pueros. Há também uma carta de Augusto, escrita poucos meses antes da morte da sua sobrinha Agripina, a respeito do nosso Caio (pois não existia mais, então, nenhuma outra criança com este nome), nestes termos: “Resolvi ontem com Talário e Ansélio que eles levariam, se os deuses permitissem, o pequeno Caio no décimo quinto dia das calendas de junho. Envio também com esses meus servos um médico da nossa família e escrevi a Germânico dizendo-lhe que, caso o queira, pode ficar com ele.

Que passes bem, minha querida Agripina, e chegues com saúde junto ao teu Germânico.” Penso que dessa carta ressalta, com precisão, o pensamento de que Caio não podia ter nascido num país para o qual fora conduzido de Roma quando tinha apenas dois anos de idade. As mesmas considerações roubam toda autoridade aos versículos citados por mim e tanto mais quanto se sabe que eles são anônimos. Não resta senão seguir a opinião consignada nas atas públicas. Tanto que Caio preferiu sempre Âncio a todas as outras residências e a todos os outros retiros e a amou como se ama a terra natal. Conta-se, até que, desgostoso de Roma, resolvera transferir para ali a sede do governo do Império.

Deveu seu sobrenome de Calígula a uma pilhéria nos acampamentos, onde se educava entre os soldados com o uniforme de um simples manipulário. Esta educação militar lhe valeu, em alto grau, o amor e a consideração dos soldados. Isto ficou patenteado, sobretudo, por ocasião da morte de Augusto. Subjugou, com a sua simples presença, as legiões em tumulto e entregues, furiosamente, à pratica de todos os excessos. Estas não se acalmaram senão depois que constataram que o afastavam de medo duma sedição e o confiavam a uma cidade vizinha. Arrependidas, finalmente, arrebataram e retiraram então a sua carruagem e a livraram, graças aos seus rogos, do ódio que a ameaçava.

Acompanhou seu pai na expedição da Síria. De volta, ficou primeiramente em casa de sua mãe e depois, quando ela foi banida, junto da sua bisavó Lívia Augusta. Ao morrer esta, fez-lhe o elogio do alto da tribuna róstria, revestido ainda da toga pretexta202. Passou então a morar com sua avó Antônia. Aos 21 anos de idade foi chamado a Capri por Tibério e num único e mesmo dia tomou a toga e fez raspar a barba, sem receber nenhuma das honorificências203 que haviam acompanhado o noviciado dos seus irmãos. Ali se pôs em guarda contra as manobras empregadas para lhe arrancar queixas e jamais deu motivos a querelas. Dizia-se que a infelicidade dos seus estava abolida na sua memória, como se nunca lhes tivera acontecido coisa alguma. Fechava-se em si com uma dissimulação incrível. Cumulava a sua avó e todos aqueles que o rodeavam de tantas gentilezas que se chegou a asseverar204 a seu respeito, não sem razão, “que era o melhor dos criados e o pior dos senhores”.

Sua natureza cruel desde jovem

Entretanto, já nesta época, não conseguia refrear a sua natureza feroz e depravada. Assim, mostrava fanatismo pelos espetáculos que oferecessem castigos e suplícios dos condenados. Percorria, de noite, as tavernas e os lugares licenciosos, encapuzado numa capa larga e de cabelos postiços. Amava apaixonadamente a dança e as representações teatrais. Tibério suportava isso pacientemente na esperança de que o caráter bravio do jovem príncipe pudesse se abrandar aos poucos. Tão profunda e sagazmente havia o velho penetrado no ânimo do rapaz que repetia seguidamente: “Caio vive para a sua infelicidade e a infelicidade de todos”. Dizia também que “ele criava uma hidra para o povo romano e um Fetonte para o universo”. Pouco depois205, desposou Júnia Claudila, filha de Marco Silano, um dos mais nobres romanos. Designado áugure em lugar do seu irmão Druso206, foi promovido ao pontificado antes de ter exercido aquelas funções. Era, esse, um alto testemunho que Tibério rendia à sua piedade e ao seu caráter. No momento em que via seu palácio deserto e privado dos seus melhores sustentáculos207 e em que já suspeitava de Sejano, a quem não demoraria a esmagar, incutiu, a pouco e pouco, em Caio a esperança de que o havia de suceder. Para ficar mais seguro disso ainda, após o desaparecimento de Júnia, morta de parto, seduziu Ênia Névia208, mulher de Mácron209, que comandava então as coortes pretorianas, prometendo desposá-la caso assumisse o governo do Império. Comprometeu-se a isso, até, por meio dum juramento e dum documento firmado de próprio punho. Pela sua ação, conquistou Mácron e, conforme a opinião dalguns, envenenou Tibério. Este ainda respirava quando se viu por ele roubado do seu anel, e como o agonizante parecesse querer retê-lo no dedo Calígula atirou-lhe um travesseiro em cima e estrangulou-o com as próprias mãos. O liberto que protestou contra esse crime foi crucificado imediatamente. Essa versão parece tanto mais verossímil quanto o próprio Caio, segundo certos autores, se gabou, dias depois, senão de ter cometido esse parricídio, pelo menos de tê-lo ideado. Vangloriava-se, na verdade, sem cessar, com o fito de dar mostras da sua piedade filial, “de haver entrado, de punhal na mão, no quarto de Tibério, quando este dormia, a fim de vingar a morte de sua mãe e de seus irmãos, mas, tomado de comiseração, ter atirado sua arma ao solo e se ter retirado, sem que Tibério, se bem o tivesse percebido, ousasse depois acusá-lo ou persegui-lo”.

Torna-se imperador

Assumindo assim o governo do Império, ele satisfez os votos do povo romano, ou antes, do mundo inteiro. Ele era bem o príncipe desejado, acima de tudo, pela maior parte das províncias e dos soldados, que, em geral, o haviam conhecido criança, e também da totalidade da população de Roma que se lembrava de Germânico, seu pai, e lamentava as desgraças duma família quase extinta. Da mesma forma, desde que ele se afastara de Miseno210, se bem conduzisse, coberto de luto, o féretro de Tibério, avançou tanto para o meio dos altares das vítimas e das tochas acesas, escoltado por uma multidão compacta e repleta de alegria, que chegaram a prodigalizar-lhe cumprimentos e a lhe chamar seu “astro”, seu “filhinho” e seu “discípulo”.

Apenas entrado em Roma, com o consentimento do Senado e da multidão que invadira a Cúria, e a despeito da vontade de Tibério211, que, no seu testamento, lhe dera como co-herdeiro seu outro sobrinho, revestido ainda da toga pretexta, foi investido da jurisdição e do poder soberanos. A satisfação pública atingiu a tal grau que, diz-se, em menos de três meses degolaram-se mais de 60 mil vítimas. Alguns dias após, como ele estivesse viajando pelas ilhas vizinhas da Campânia, formularam-se votos pelo seu regresso. Assim, não se perdia nenhuma ocasião, por menor que fosse, de se dar testemunho da solicitude e do interesse em prol da sua conservação. Ao cair doente212, o povo inteiro passou a noite a rondar-lhe o palácio. A este imenso amor dos cidadãos se juntava a consideração distinta dos estrangeiros. Efetivamente, Artabano, rei dos partos, que jamais escondera o seu ódio e o seu desprezo por Tibério, pediu-lhe espontaneamente213 a sua amizade e procurou entrevistar-se com o lugar-tenente do cônsul. Este monarca transpôs o Eufrates para render homenagens às águias e às insígnias romanas, assim como à imagem dos Césares.

Exaltou pessoalmente o ânimo dos romanos, procurando por todos os meios a popularidade. Depois de ter pronunciado, perante o povo reunido em assembleia, o elogio de Tibério e derramado muitas lágrimas, e lhe ter feito imponentes funerais, apressou-se a ir a Pandatária e Pôncia214, apesar do mau tempo, a fim de transferir as cinzas de sua mãe e de seu irmão e, assim, dar melhor demonstração do seu amor filial. Aproximou-se respeitosamente desses despojos e os encerrou, com as próprias mãos, nas urnas. Não foi com menos aparato que os trasladou para Óstia, numa birreme, à popa da qual tremulava uma bandeira e dali, pelo Tibre, até Roma, onde foram recebidos pelas mais altas personagens da ordem equestre e depositados, em pleno dia e em meio da multidão, em duas conchas e enfeixados no mausoléu de Augusto. Determinou, em sua honra, a realização de sacrifícios públicos anuais e, além disso, em memória de sua mãe, a de jogos no Circo, onde a sua efígie devia ser conduzida com grande pompa, num carro. Como homenagem póstuma ao seu pai, deu ao mês de setembro o nome de “Germânico”. Depois disto, cumulou sua avó Antônia, por um senatus consulto, de honras idênticas às que recebera Lívia Augusta. Designou, para colega no consulado, seu tio Cláudio215, que nada mais era então do que cavaleiro romano. Adotou seu irmão Tibério no dia em que tomou a toga viril e nomeou-o “Príncipe da Juventude”. Quanto às suas irmãs, quis que se aditasse esta fórmula a todos os juramentos: “Caio e suas irmãs tão caros como eu e meus filhos”, e esta outra nos relatórios dos cônsules: “Honra e felicidade a Caio César e às suas irmãs!” Movido pelo mesmo desejo de popularidade, reabilitou condenados e banidos e deu por inexistentes todas as acusações que pudessem restar do precedente reinado. Mandou levar ao Fórum as peças relativas ao processo de sua mãe e de seus irmãos. E, para que de futuro desaparecesse o medo das testemunhas e dos delatores, após haverem os deuses atestado que ele não as lera, nem tocara em nenhuma delas, atirou-as ao fogo. Negou-se a receber um memorial que lhe fora enviado e que interessava à sua vida, alegando “que nada fizera ainda para ser odiado por alguém”. Declarou, da mesma forma, “que não tinha ouvidos para os delatores”.

Expulsou de Roma as spinthrias das libidinagens monstruosas, depois de conseguir a muito custo que não fossem jogadas ao mar. Mandou procurar novamente os escritos de Tito Labieno, Cremúcio Cordo e Cássio Severo216, suprimidos por senatus consultos, permitindo a posse e a leitura dessas obras, como se estivesse interessadíssimo em que cada ato seu fosse transmitido à posteridade. Publicou as contas do Império, de acordo com o uso instituído por Augusto e interrompido por Tibério. Concedeu aos magistrados uma jurisdição livre e sem recurso a sua pessoa. Passou em revista os cavaleiros romanos com uma severidade e um cuidado não isentos de moderação. Tomou publicamente o cavalo daqueles que estavam marcados do opróbrio ou ignomínia e se limitou a silenciar, no momento da chamada, o nome dos que haviam cometido menores faltas. Para tornar mais cômoda a tarefa dos juízes, aumentou com uma quinta decúria as quatro primeiras217. Procurou, também, com o restabelecimento do uso dos comícios, dar ao povo o direito de sufrágio. Pagou fielmente e sem fraude as heranças deixadas em testamento por Tibério, embora aquele tivesse sido anulado, e as do testamento de Júlia Augusta, que Tibério havia suprimido. Restituiu à Itália dois por cento das vendas em hasta pública218. Indenizou grande número de incêndios. Ao devolver os reinos arrebatados outrora a vários príncipes, acrescentou-lhes o produto dos impostos e das rendas percebidas durante o intervalo da ocupação. Assim, restituiu a Antíoco219, rei da Comagena, o confisco de cem milhões de sestércios. Para se mostrar, melhor do que qualquer outro, fautor de bons exemplos, deu 80 mil sestércios a uma liberta que, apesar das mais horríveis torturas, guardara silêncio sobre o crime do seu senhor. Foi em virtude de tais atos que se conferiu a Caio, entre outras honras, um escudo de ouro, que, todos os anos, num determinado dia, os colégios dos sacerdotes conduziam ao Capitólio, seguidos do Senado e dos meninos e das meninas nobres, cantando hinos em louvor das suas virtudes. Decretou-se que o dia da sua investidura no Império fosse chamado “Palilis”220, no intuito de se provar que ele era o novo fundador da cidade.

Exerceu quatro consulados221: o primeiro, a partir das calendas de julho, durante dois meses. O segundo, a partir das calendas de janeiro, durante 30 dias. O terceiro, até os idos de janeiro. O quarto, até o sétimo dia antes daqueles mesmos idos. Os dois últimos consulados222 foram consecutivos. Começou o terceiro em Lião, sozinho, não por orgulho ou por negligência, como acreditam alguns, mas porque, estando ausente, não tivera notícia da morte do seu colega, ocorrida no dia daquelas calendas. Por duas vezes concedeu ao povo 300 sestércios por cabeça, e, por duas vezes também, um suntuoso banquete aos senadores e aos membros da ordem equestre e, da mesma forma, às esposas e aos filhos duns e doutros. No segundo destes festins distribuiu roupas civis aos homens e faixas de púrpura às mulheres e crianças. E, no propósito de aumentar a alegria pública, acrescentou mais um dia aos Saturnais, que passou a se chamar “o dia da Juventude”.

Organizou combates de gladiadores, ora no anfiteatro de Turo, ora nos Recintos, aos quais fez comparecer grupos de lutadores da África e da Campânia, escolhidos entre os mais hábeis de ambas as nações. Não presidiu sempre, pessoalmente, os espetáculos. Encarregava, porém, do cuidado dessa tarefa, magistrados ou amigos. Mandou efetuar em vários locais representações teatrais, frequentemente, de gêneros variados, algumas vezes à noite, com a cidade toda iluminada. Distribuiu ao povo presentes de qualidades diferentes. Entregou a cada cidadão corbelhas cheias de pão e de carne. Ao ver, num banquete, que um cavaleiro romano, que lhe ficava frente a frente, comia satisfeito e avidamente, mandou-lhe o seu prato. Pelo mesmo motivo, um senador recebeu, das mãos dele, as tábuas que o nomeavam pretor, extraordinariamente. Ofereceu também numerosos jogos de Circo, que duravam da manhã à noite, entremeados ora duma caçada à maneira africana, ora duma corrida troiana. Por ocasião dalguns destes espetáculos, particularmente notáveis, o circo aparecia enfeitado e somente aos senadores era permitido conduzir os carros. Mandou também celebrar jogos, repentinamente, em razão dos pedidos que lhe eram feitos por algumas pessoas, do alto das galerias vizinhas, num dia em que, do palácio Gelociano, apreciava o aparato do Circo.

A ponte sobre o golfo de Baías (imitando Xerxes)

Além disso, inventou um novo e inaudito gênero de espetáculo. Ligou, por meio duma ponte, o espaço, de mais ou menos três mil e seiscentos passos, que separa Baías do molhe de Puzoles, juntando todos os navios existentes, numa dupla fila, e recobertos dum calçamento de terra que dava a impressão da Via Ápia. Durante dois dias consecutivos não fez outra coisa senão ir e vir pela ponte. No primeiro dia, montado num cavalo adornado de faleras, tendo à cabeça uma coroa de carvalho. Levava, do mesmo modo, um machado, um pequeno escudo e uma clâmide de ouro. No segundo, vestido de condutor de quadriga, num carro atrelado a dois cavalos famosos. Marchava à frente dele o jovem Dário, um dos reféns dos partos, escoltado por um destacamento de pretorianos e por um grupo de amigos em bigas. Sei que muita gente acredita que Calígula haja inventado uma tal ponte para rivalizar com Xerxes, que provocara a admiração geral, atravessando pelo mesmo processo, na sua parte mais estreita, o estreito do Helesponto. De acordo com a opinião de outros, ele queria amedrontar, com a notícia duma obra gigantesca, a Germânia e a Bretanha, às quais ameaçava com guerra. Ouvi, porém, muitas vezes, na minha infância, narrada pelo meu avô a causa deste empreendimento, causa essa revelada pelos seus cortesãos mais íntimos, e consistia no fato seguinte: como o astrólogo Trasilo visse Tibério inquieto por causa do seu sucessor, e mostrasse mais pendor pelo seu verdadeiro neto223, afirmaram-lhe “que Caio jamais seria imperador se não corresse a cavalo através do golfo de Baías”.

Oferecia espetáculos também quando viajava. Em Siracusa, na Sicília, jogos urbanos. Em Lião, na Gália, jogos mistos. Organizou, também, um concurso de eloquência grega e latina. Neste concurso os vencidos conta-se entregavam os prêmios aos vencedores e eram obrigados a fazer-lhes o elogio. Os reprovados deviam apagar seus escritos com uma esponja ou com a própria língua, a menos que preferissem palmatórias, ou, então, ser atirados no rio mais próximo.

Concluiu as obras deixadas por terminar, sob o reinado de Tibério: o templo de Augusto e o teatro de Pompeu. Deu início ao aqueduto de Tibur e a um anfiteatro ao lado dos Recintos. Destes trabalhos, um foi acabado pelo seu sucessor Cláudio e o outro, abandonado. As muralhas e os templos de Siracusa, que se desfaziam em ruínas, foram reparados. Resolvera, também, reconstruir o palácio real de Policrates em Samos, concluir o templo de Didimeu em Mileto e construir uma cidade no cume dos Alpes. Antes de tudo, porém, tencionava abrir um canal no istmo de Acaia. Já havia enviado, mesmo, um primipilário para traçar a planta dos trabalhos.

O monstro Calígula

Até aqui falei dum príncipe. Quero falar agora dum monstro. Depois de se ter arrogado vários cognomes (chamavam-lhe o “Piedoso”, o “Filho dos Acampamentos”, o “Pai dos Exércitos” e “César Boníssimo e Altíssimo”), ao ouvir, certo dia, entre os reis224 chegados a Roma para lhe declararem submissão, durante a ceia, em sua casa, uma discussão a respeito da origem de cada um, Calígula gritou: “Que não haja aqui senão um só rei!”225. E por pouco não tomou o diadema, substituindo, assim, a aparência de principado pela forma da realeza. Como, porém, fosse advertido de que ele ultrapassara a grandeza dos príncipes e dos reis, começou desde aí a se atribuir a majestade divina. Após haver emitido ordens para que se transportassem da Grécia as estátuas das divindades mais célebres, não só pelo respeito que os povos lhes dedicavam, mas também pela sua beleza artística entre outras a de Júpiter Olímpico —, cortou a cabeça desta e colocou a sua em substituição. Prolongou até o Fórum uma parte do seu palácio e, transformado em vestíbulo o templo de Cástor e Pólux, aí se sentava, muitas vezes, entre os deuses irmãos e se oferecia à adoração dos visitantes. Alguns chegavam, mesmo, a saudá-lo pelo nome de “Júpiter Lacial”. Instituiu, também, um templo especialmente consagrado à sua divindade com sacerdotes e vítimas as mais singulares. Havia no templo uma estátua de ouro, ao natural, que era vestida todos os dias como ele próprio se vestia. Os mais ricos cidadãos adquiriam, alternativamente, à força de intrigas e de leilões, a dignidade de grande sacerdote. As vítimas eram papagaios, pavões, galos e galinhas da Numídia, galinhas de Angola, faisões, os quais eram imolados diariamente e de maneira sempre diversa. Nas noites de lua cheia, dedicava-se assiduamente aos abraços e à cama. Durante o dia, entretinha-se secretamente com Júpiter Capitolino, ora falando-lhe ao ouvido, ora escutando-o por sua vez, ora gritando e discutindo. Certa feita saiu-lhe da boca esta ameaça: “Ou tu me levas, ou eu te levo!”226 Finalmente, segundo sua própria expressão, se abrandou e, convidado pelo deus a ir morar com ele, ligou o Palatino ao Capitólio, construindo uma ponte por cima do templo do divino Augusto. Sem demora, para se aproximar mais ainda daquele número, lançou os fundamentos duma nova casa nos terrenos do Capitólio.

Não queria que se acreditasse nem que se dissesse que ele era neto de Agripa, em virtude da obscuridade do seu nascimento, e se zangava se alguém, em discurso ou em verso, o colocava entre os Césares. Proclamava que sua mãe era o fruto dum incesto de Augusto com sua filha Júlia. Não contente com este ultraje à memória de Augusto, proibiu a celebração, com festas solenes, das vitórias do Âncio e da Sicília, como calamitosas e funestas ao povo romano. Chamava repetidamente à sua bisavó Lívia Augusta “um Ulisses de saiote”, e, numa carta dirigida ao Senado, ousou acusá-la de provir de linhagem humilde, sob o pretexto de que ela tinha por avô materno um decurião de Fundi227, embora os monumentos públicos atestassem que Aufídio Lucro exercera magistraturas em Roma. Recusou uma entrevista secreta à sua avó Antônia, que lha solicitara sob a condição de que o prefeito Mácron não a presenciasse. Foram vexames e indignidades desta espécie que causaram a morte de Antônia, se é que não pereceu envenenada por ele, como pensam alguns. Não prestou nenhuma homenagem à morta: apenas olhou, da sua sala de jantar, a pira em chamas. Resolveu liquidar inopinadamente o seu irmão Tibério, mandando assassiná-lo por um tribuno militar. Forçou seu sogro Silano a suicidar-se228, golpeando a garganta com uma navalha. Alegou, como pretexto para estas duas mortes, que Silano não o havia acompanhado no mar, durante uma tempestade, e ficara com a intenção de se apoderar de Roma, caso lhe acontecesse alguma desgraça determinada pelo temporal. De outro lado, assegurava que seu irmão aspirava um antídoto, como se quisesse, assim, premunir-se contra um envenenamento. Em verdade, Silano procurava evitar o que os enjoos têm de insuportável e o que a navegação tem de penoso e Tibério recorrera a um medicamento para combater um acesso de tosse que se agravava. Quanto a Cláudio, seu tio paterno, só o poupou para dele fazer um joguete.

Entreteve com todas as suas irmãs um comércio sexual vergonhoso. Nos grandes banquetes, colocava-as, alternadamente, embaixo dele, enquanto sua esposa ficava em cima. Acredita-se que haja desvirginado Drúsila, ao tempo em que ainda envergava a toga pretexta, pois fora surpreendido com ela por sua avó Antônia na casa em que se criaram ambos os dois. Ela casou-se logo com Lúcio Cássio Longino, personagem consular, de quem a arrebatou depois, tratando-a publicamente como sua legítima esposa. Ao sentir-se doente, em certa ocasião, instituiu-a herdeira dos seus bens e do Império. Morta Drúsila229, suspendeu a justiça em sinal de luto e constituía crime capital, durante o tempo do pesar, o rir, o tomar banho ou o jantar em companhia de parentes, mulher e filhos. Incapaz de resistir a tamanha dor, fugiu repentinamente da cidade em plena noite, marchou através da Campânia, transportou-se a Siracusa e retornou de barba e cabelos crescidos. Daí por diante, quer em relação aos negócios mais importantes, quer falando ao povo e aos soldados, jamais pronunciou um juramento que não fosse “pela divindade de Drúsila”. Não dedicou às suas outras irmãs nem um amor impetuoso, nem lhes dispensou consideração: ele as prostituía, muitas vezes, com os seus próprios favoritos. Assim, pôde ele com mais facilidade condená-las no processo contra Emílio Lépido230 como adúlteras e cúmplices nas tramas urdidas contra a sua esposa. Não somente publicou suas assinaturas, que ele obtivera fraudulentamente, ou por meio de corrupção, mas ainda consagrou a Marte Vingador as três espadas preparadas para assassiná-lo. A estas, juntou também a sentença.

Não se pode afirmar se foi mais impudente quando realizou seus casamentos, ou quando os anulou, ou ainda quando os manteve. Mandou buscar Lívia Orestila, no dia mesmo das suas núpcias com Cnéio Pisão, a cujas bodas assistira, e a repudiou ao cabo de algumas semanas. Dois anos mais tarde baniu-a, sob a desculpa de que, neste interregno, renovara suas relações com seu primeiro marido. Referem outros que, convidado para o baquete nupcial, Calígula dissera a Pisão, que se achava deitado à sua frente: “Não te chegues tão perto da minha mulher”. Imediatamente a levou da sala do festim e, no dia seguinte, fez publicar “que contratara um casamento a exemplo de Rômulo e de Augusto”231. Como ouvisse dizer, da boca da própria avó, que Lólia Paulina, casada com Caio Mêmio, consular comandante dos exércitos, era belíssima, fê-la vir da sua província, trazida pela mão do marido232, dormiu com ela e, dentro em pouco, mandou-a embora, proibindo-a, entretanto, de manter relações com quem quer que fosse. Amou mais ardorosa e constantemente a Cesônia, que não era, em absoluto, uma beleza notável, nem tampouco era jovem e tivera, já, três filhos dum outro marido. Era, porém, uma mulher luxuriosíssima e muito lasciva. Foi até ao ponto de mostrá-la aos seus soldados, revestida apenas duma clâmide, dum escudo e dum capacete, cavalgando ao seu lado. Aos amigos, mostrou-a nua em pelo. Ao dar à luz, honrou-a com o nome de sua esposa e, no mesmo dia, declarou-se seu marido e pai da criança que ela entregara ao mundo. Chamou a filha Júlia Drúsila, passeou-a pelos templos de todas as deusas e a depositou no regaço de Minerva, a quem encarregou do cuidado de nutri-la. No seu modo de entender, não havia mais seguro indício de que ela era bem do seu sangue do que o da ferocidade, que já demonstrava: essa característica era tanta nela que, cheia de fúria, avançava com as unhas no rosto e nos olhos das crianças com as quais brincava.

Seria fútil e ocioso, à vista desses detalhes, contar como tratou seus parentes e amigos. Ptolomeu, filho do rei Juba, seu primo-irmão (pois ele era também neto de Marco Antônio pela sua filha Selena) e sobretudo o próprio Mácron, a própria Ênia, inclusive aqueles mesmos que o auxiliaram nos negócios do Império, os quais tinham a militar a seu favor ou o direito de parentesco ou o preço dos seus serviços todos foram mortos da maneira mais sanguinária. Não se mostrou, de modo algum, nem mais atencioso, nem mais sereno em relação ao Senado. Não se importou que alguns senadores, respeitáveis pelo desempenho dado outrora aos mais elevados cargos, corressem, de toga, ao lado do seu carro, pelo espaço de várias milhas. Nem tampouco que se conservassem eretos, quer à mesa quando ele comia, quer à cabeceira ou aos pés da sua cama, na postura idêntica à dos escravos. Cometeu, secretamente, outros assassínios. Sem embargo, continuou a referir-se às vítimas como se estas estivessem vivas ainda. Poucos dias decorridos, atribuía-lhes mentirosamente uma morte voluntária. Demitiu dos seus cargos os cônsules233 que se haviam esquecido de anunciar, por édito, o dia do seu aniversário natalício. Assim, durante três dias a República se viu privada de autoridade soberana. Fez chicotear seu questor, apontado como conspirador, e atirar as vestes de que havia sido despojado aos pés dos soldados para que assim se mostrassem estes mais ardorosos no espancamento. Tratou do mesmo jeito e com a mesma violência as outras ordens. Importunado com o barulho daqueles que, desde a meia-noite, se haviam apossado, no Circo, das localidades gratuitas, mandou expulsá-los todos a pauladas. No decorrer deste tumulto, mais de 20 cavaleiros romanos, outras tantas matronas e uma multidão numerosa doutros cidadãos foram massacrados. Nos jogos cênicos, com o fito de suscitar um motivo de discórdia entre o povo e os cavaleiros, começou as distribuições mais cedo do que de costume, a fim de que os bancos dos cavaleiros fossem ocupados por gente da mais baixa condição. Ordenou muitas vezes, em meio a um espetáculo de gladiadores, que se retirasse a coberta do circo, sob um sol causticante, determinando, ao mesmo tempo, que ninguém dali se retirasse. Mandava remover o aparato ordinário dos jogos e lançar às feras os adversários mais vis, alquebrados pela idade, assim como gladiadores de teatros feirais, conhecidíssimos pais de família, que demonstrassem qualquer sinal de fraqueza. Em repetidas ocasiões, fechando os celeiros, proporcionou fome ao povo.

A ferocidade da sua natureza ficou evidenciada nos seguintes traços. Como custasse muito caro o gado com que se alimentavam as feras, designou, entre os criminosos, os que deviam ser devorados. Com este escopo passou em revista as prisões, sem examinar nenhum registro carcerário, limitando-se a, de pé, no meio da galeria, fazê-los conduzir ao suplício, do primeiro ao último. Exigiu dum cidadão234 que prometera combater na arena pela saúde de César o cumprimento da palavra empenhada. Permitiu-lhe combater com gládio e não o dispensou depois que venceu e, assim mesmo, à vista de muitos rogos. Entregou à petizada outro homem235, que jurara morrer pela mesma causa, mas que hesitava. Foi coroado de verbena e pequenas faixas. As crianças, lembrando-lhe a promessa feita, levaram-no, então, de bairro em bairro, até que resolveram precipitá-lo do alto duma muralha. Condenou ao trabalho das minas, das estradas e também às feras uma multidão de cidadãos honrados, depois de afrontados com estigmas vergonhosos, ou, de outro modo, de encerrados em jaulas, onde eram obrigados a se conservarem de quatro pés como animais. A outros, mandava cortá-los pelo meio do corpo. Nada disso se verificava em virtude de motivos graves, mas por se haver descontentado com eles nalgum espetáculo, ou porque não tivessem querido jurar pelo seu gênio. Forçou os pais a assistirem ao suplício dos próprios filhos. Como um deles se desculpasse, alegando motivos de saúde, enviou-lhe a sua liteira. Outro236, que acabava de presenciar idêntico tormento, foi logo convidado a comparecer a um festim, onde, por meio de toda espécie de gentilezas, Calígula o obrigou a rir e a divertir-se. Fez espancar na prisão, durante vários dias seguidos, o intendente dos seus espetáculos e das suas caças e só o assassinou depois que se sentiu incomodado com o mau cheiro do seu corpo em putrefação. Queimou em meio à arena um verso humorístico que se prestava a trocadilho. Como um cavaleiro romano, exposto às feras, gritasse que estava inocente, mandou recolhê-lo, cortou-lhe a língua e devolveu-o à arena.

Perguntou, em certa oportunidade, a um cidadão que voltava de longo exílio que costumava fazer lá. Este, para adulá-lo, respondeu: “Pedia sempre aos deuses que matassem Tibério (o que se realizou) e te entregassem o Império.” Desta maneira persuadiu-se de que todos os que haviam sido proscritos desejavam também a sua morte e enviou soldados, de ilha em ilha, para degolá-los todos. Como quisesse reduzir um senador237 a pedaços, aliciou gente para acusá-lo como inimigo público, logo à sua entrada na Cúria, atirar-se contra ele, feri-lo com seus estiletes e entregá-lo à população para que o estraçalhasse. Não se deu por satisfeito enquanto não viu com os próprios olhos os membros e as entranhas do homem arrastados pelas ruas e amontoados aos seus pés.

Aliava à monstruosidade dos seus atos a atrocidade dos seus propósitos. Afirmava nada encontrar de melhor para louvar e aprovar no seu caráter do que (para empregar o termo de que se valia) a sua “impassibilidade”. Antônia, sua avó, dava-lhe conselhos. Demonstrando pouco caso em segui-los, respondia: “Lembra-te que me é lícito agir contra quem bem entenda.” Como já tencionasse trucidar seu irmão, suspeito de se haver premunido de contraveneno, interrogava: “Antídoto contra César?” Ao banir as irmãs, disse-lhes, ameaçadoramente, “que ele não possuía apenas ilhas, mas também espadas”. Costumava um antigo pretor, retirado em Anticira238 pedir-lhe, em razão do seu estado de saúde, prorrogação de licença. Calígula enviou ordem para matá-lo, acrescentando “que uma sangria se tornava necessária a quem, por espaço de tanto tempo, o eléboro nada adiantou”. De dez em dez dias assinava a lista dos prisioneiros condenados à morte, dizendo que “estava ajustando as contas”. Como tivessem sido condenados ao mesmo tempo numerosos gauleses e gregos, glorificava-se “de haver subjugado a Galo-Grécia”.

Quase que não matava as suas vítimas senão a pequenos golpes reiterados e era-lhe bem conhecida a opinião, que não cessava de repetir: “Bate-lhe, mas de maneira que ele se sinta morrer.” Uma troca de nomes ocasionou a morte doutro homem que não estava destinado ao suplício. Contudo, Calígula asseverou que este também merecia o mesmo tratamento. Constantemente lhe vinha à boca este verso duma tragédia: “Podem me odiar, contanto que me temam!” Atacou, com igual virulência, todos os senadores, classificando-os de “sequazes de Sejano” ou de “delatores das suas próprias mães e irmãos”. Ao exibir os documentos que fingia desejar queimar239, defendeu a crueldade de Tibério, assegurando que ela se tornara necessária, em vista de tantas acusações dignas de fé. Apontou continuadamente a ordem equestre como idólatra dos jogos cênicos e dos combates. Irritado contra a massa, cujos aplausos contrariavam as suas preferências, exclamou: “Quem me dera que o povo romano tivesse apenas um pescoço!” Como a turba reclamasse o bandido Tetrínio, respondeu “que aqueles que o reclamavam não passavam também de Tetrínios”. Cinco reciários, em túnica, que combatiam em grupo, sucumbiram sem resistência, sob um número igual de antagonistas. Ao ser expedida a ordem de matá-los, um deles, retomando seu tridente, trucidou todos os vencedores. Ele deplorou num édito esta carnificina, tachando-a de pavoroso massacre e imprecando contra aqueles que tiveram a coragem de assistir a ele.

Costumava queixar-se abertamente da condição dos tempos em que vivia: pois não se assinalavam por nenhuma calamidade pública. O principado de Augusto estava marcado pelo desastre de Varo. O de Tibério, pelo desabamento do anfiteatro de Fidenas. O seu estava ameaçado do esquecimento pela prosperidade pública. E de quando em vez desejava a derrota dos seus exércitos, a fome, a peste, um incêndio, um tremor de terra.

Quando se divertia e se dedicava aos jogos e aos festins, a mesma crueldade impregnava suas palavras e seus atos. Muitas vezes, enquanto comia ou realizava uma orgia, as torturas eram aplicadas ali mesmo, sob os seus olhos. Um soldado, hábil em decapitações, cortava indiferentemente a cabeça a todos os prisioneiros. Em Puzoles, quando da consagração da ponte que ele imaginara, como dissemos mais acima, convidou para junto de si numerosas pessoas que se achavam pelas margens, e repentinamente precipitou-as todas ao mar. Algumas apegaram-se ao leme de embarcação. Ele as afogou na água, a golpes de varas e de remos. Em Roma, num festim público, um escravo tirara dum leito uma lâmina de prata. Ele o entregou imediatamente ao carrasco com a ordem de lhe cortar as mãos e de atá-las ao pescoço, colocando-as sobre o peito. Fê-lo ainda, dessa maneira, passear à roda dos convivas, precedido dum cartaz em que se explicava a causa do castigo. Como um gladiador que com ele se exercitava no manejo dos paus se deixasse cair voluntariamente, atravessou-o com o punhal e saiu a correr para todos os lados, a palma na mão, como se fora um vencedor. Numa determinada ocasião em que levavam uma vítima aos altares, ele se arregaçou à moda dos sacerdotes, e, levantando bem alto a sua machadinha, imolou o sacrificador. Certa vez, num suntuoso festim, de repente, começou a gargalhar. Os cônsules, que se achavam sentados ao seu lado, perguntaram-lhe por que ria assim. Calígula respondeu-lhes: “Por quê? Porque penso que com um sinal de cabeça apenas posso mandar degolá-los ambos, sem demora alguma.”

Entre outras brincadeiras, fez esta: parou, um dia, diante duma estátua de Júpiter e perguntou ao ator trágico Apeles se lhe parecia maior do que ele. Como o ator vacilasse, bateu-lhe a chicotadas, felicitando-o depois, várias vezes, pelo timbre da sua voz suplicante, que ele achava doce até mesmo quando gemia. Toda vez que cobria de beijos o pescoço da sua mulher, ou o da sua amiga, dizia: “Esta bela cabeça cairá quando eu quiser.” Repetidamente asseverava “que ainda faria Cesônia confessar, por meio de tortura, por que o amava tanto”.

Declarou-se, não menos por inveja e malícia do que por orgulho e ferocidade, contra quase todos os homens de todos os séculos. Derribou e dispersou as estátuas dos homens ilustres que Augusto transportara da praça do Capitólio, em virtude da falta de espaço, para o Campo de Marte. Por esse motivo não se pôde restaurá-las com todas as suas inscrições. Proibiu que, de futuro, se erigisse, em qualquer parte e a quem quer que fosse, estátuas ou imagens a não ser com a sua permissão ou por iniciativa sua. Sonhou, mesmo, em abolir os poemas de Homero: “Por que argumentava não se lhe permitir o que é permitido a Platão, que o expulsara da República que organizou?” Faltou muito pouco para que não arrebatasse de todas as bibliotecas as obras e as imagens de Virgílio e de Tito Lívio. Ao primeiro, censurava-o por ter pouco gênio e pouca doutrina. Ao segundo, por ser um historiógrafo verboso e negligente. Quanto aos jurisconsultos, como quisesse suprimir-lhes o uso da ciência, declarava sempre “que agiria de tal modo por Hércules! que a ninguém seria lícito fazer consultas, exceto a ele”.

Cassou aos mais nobres cidadãos seus antigos títulos de família. A Torquato, o colar. A Cincinato, a cabeleira. A Cnéio Pompeu, de antiga estirpe, o cognome de Grande. Ptolomeu, que, como já disse, ele fizera vir do seu reino e acolhera com tantas homenagens, foi ferido unicamente porque, ao entrar no teatro, num dia em que Calígula oferecia jogos, atraíra todos os olhares para o brilho do seu manto de púrpura. Toda vez que encontrava transeuntes bonitos e bem penteados, desfigurava-os mandando raspar-lhes a cabeça por trás. Havia um tal Ésio Próculo, filho dum primipilário, que, pelo garbo e beleza da sua figura excepional, recebera o apelido de “Colossero”. Calígula fê-lo conduzir, sem demora, para o meio dos espectadores, pô-lo na arena e obrigou-o a lutar com um trácio, depois com um gladiador equipado com todas as armas. Ésio foi duas vezes vencedor. Pois bem: mandou espancá-lo, imediatamente depois, coberto de farrapos pelas ruas, mostrá-lo às mulheres e, em seguida, degolá-lo. Numa palavra, não houve uma só pessoa, por mais abjeta que fosse sua condição, por mais ínfima que fosse a sua classe, de quem não invejasse os proveitos. Como o rei240 do Bosque de Diana estivesse de posse do sacerdócio desde muitíssimos anos, o sacrificou em favor de um adversário. Num espetáculo, o gladiador do carro triunfal, Pório, que libertara, por meio duma brilhante vitória, um dos seus escravos, foi aplaudido com entusiasmo. Calígula abandonou tão bruscamente a assembleia que, pisando numa aba da toga, rolou do alto do palanque. Cheio de indignação, gritou “que o povo dominador do mundo concedia a um gladiador, por motivo futilíssimo, mais honras do que aos seus príncipes sagrados e do que a ele próprio, que ali estava presente”.

Não poupou nem o seu pudor, nem o de outrem. Favoreceu Marco Lépido241, o pantomimo Mnester, alguns reféns, com os quais entretinha comércio infame. Valério Catulo, jovem pertencente a uma família consular, censurou-o por tê-lo desonrado e lhe fatigado os rins com os seus contatos. Sem falar dos incestos praticados com suas irmãs e da sua paixão tão conhecida pela prostituta Pirálide, quase não houve mulher, por menos ilustre que fosse, que ele não tivesse desrespeitado. As mais das vezes, convidava-as a cear com seus maridos e, fazendo-as passar diante dele, as examinava, atenta e vagarosamente, como um comprador, indo até ao ponto de levantar-lhes o rosto se, por vergonha, elas o abaixassem. Depois, toda vez que sentia desejo, saía do triclínio conduzindo aquela que mais lhe agradava. De volta, dentro em pouco, com os traços de deboche ainda frescos, elogiava-a ou criticava-a publicamente, enumerando as qualidades da sua pessoa, ou o que a sua maneira de amar tinha de bom e de afetuoso. A algumas mulheres enviou, ele próprio, um aviso de divórcio, em nome dos seus maridos ausentes, e mandou inserir esse aviso nos atos oficiais.

Pelas suas despesas extravagantes, superou tudo quanto os pródigos pudessem imaginar. Inventou uma nova espécie de banho e os gêneros mais extraordinários em matéria de iguarias e jantares. Banhava-se em essências quentes e frias. Engolia, depois de molhá-las no vinagre, as pérolas mais preciosas. Servia aos seus convivas pão e manjares de ouro.

Gostava de afirmar “que ele precisava ser ou um homem frugal, ou um César”. Houve mais: atirou ao povo, durante alguns dias, do alto da basílica Júlia, moedas que representavam uma boa soma. Mandou construir galerias com dez fieiras de remos, popas ornadas de pedrarias, velas de cores as mais diversas, providas de banhos quentes, de galerias e triclínios espaçosíssimos e até mesmo de videiras e árvores frutíferas de toda espécie. Era nessas embarcações que ele, sentado à mesa, em pleno dia, em meio aos coros e às sinfonias, percorria as costas da Campânia. Na construção dos seus palácios e das suas casas de campo, qualquer consideração era para ele secundária: esmerava-se em conseguir tudo quanto passasse por irrealizável. Foi assim que construiu diques num mar tempestuoso e profundo, talhou rochedos de pedra duríssima, elevou planícies à altura das montanhas, abaixou montanhas ao nível dos vales e tudo isso com uma rapidez incrível, pois qualquer demora era punida com a pena capital. Para dizer tudo numa linha: gastou em menos dum ano riquezas fabulosas e todo o tesouro de Tibério, que montava a dois bilhões e setecentos milhões de sestércios.

Esgotado e na indigência, recorreu à rapina, inventando toda espécie de chicana, de leilões e de impostos. Denegava o direito de cidadania romana àqueles cujos antepassados o haviam obtido para si e para os seus descendentes, a menos que fossem filhos. Calígula pretendia que a palavra “descendentes” não ia além da primeira geração. Destruía, como velhos e caducos, todos os atos dos divinos Júlio César e Augusto. Arguia também de mentirosas as declarações do censo, cujos possuidores, por uma circunstância qualquer, tiveram suas fortunas acrescidas depois da data em que foram passadas. Anulou, como ingratos, os testamentos dos primipilários que, desde o começo do principado de Tibério, não haviam instituído herdeiros nem a este príncipe, nem a ele próprio. Deu igualmente como nulos e inexistentes os de outros cidadãos que, como se assegurava, tinham tido a intenção de designar César por herdeiro. Como se espalhasse a notícia, muitos desconhecidos o inscreviam publicamente como seu sucessor no número dos seus amigos e parentes, no número dos seus filhos. Chamava-lhes farsistas porque, após tal inscrição, continuavam ainda a viver... A muitos, dentre aqueles, enviou presentes envenenados. Não julgava nenhuma causa sem antes saber quanto iria ganhar ao sentar-se, e ao completar a quantia desejada suspendia a audiência. Incapaz de suportar a menor demora, condenou um dia, por um só decreto, mais de 40 pessoas acusadas dos crimes os mais diversos. Por isso, gabou-se a Cesônia, recém levantada, “do grande trabalho que levara a cabo, enquanto ela dormia a sesta”. Sujeitou e vendeu, num leilão que anunciara, os gladiadores que restavam dos espetáculos. Ele mesmo fixava os preços e elevou a tal ponto os lances que alguns cidadãos, forçados a arrematá-los a um preço exorbitante, e despojados dos seus bens, cortaram as veias. É conhecida a história de Apônio Saturnino, que cochilara no seu banco. O pregoeiro fora advertido por Calígula de não esquecer, em absoluto, aquele antigo pretor que não cessava de acenar com a cabeça. Não estava ainda terminada a licitação quando 13 gladiadores, por nove milhões de sestércios, lhe tinham sido adjudicados sem a sua ciência.

Na Gália, depois de ter vendido, a preços excessivos, os ornamentos, o mobiliário, os escravos e até mesmo os libertos dos condenados, seduzido pela ambição do ganho, trouxe a Roma todo o aparato da antiga corte. Apossou-se, para transportá-lo, dos carros de aluguel e dos cavalos dos moleiros, de sorte que o pão faltou durante alguns dias na cidade e os litigantes se viram privados dos seus direitos, porque não puderam se apresentar ao ato da partilha. Para se desfazer deste aparato, não houve fraude nem sedução que não empregasse: ora censurava, sucessivamente, a todos os cidadãos a sua avareza e de não terem vergonha de ser mais ricos do que ele; ora fingia arrepender-se de ter cedido a particulares o que pertencera a príncipes. Contaram-lhe que um rico provinciano oferecera 200 mil sestércios ao servo do palácio para que o incluísse sub-repticiamente entre os convidados a um dos festins. Calígula não se zangou ao ter conhecimento de que custava tão alto preço a honra duma ceia à sua mesa. Como visse, no dia seguinte, esse homem sentado no local dum leilão, fez-lhe adjudicar por cem mil sestércios não sei que bobagem e mandou dizer-lhe “que César o convidava pessoalmente para cear”.

Cobrou impostos novos e dos quais jamais se ouvira falar, primeiro por publicanos e, mais tarde, como a arrecadação ultrapassasse a sua expectativa, por centuriões e tribunos do pretório. Não houve nenhuma categoria de coisas ou de pessoas a que não impusesse algum tributo. Para os comestíveis vendidos na cidade, exigia-se um direito fixo e estável. Para os processos e julgamentos, onde quer que fossem feitos, cobrava-se antecipadamente a quadragésima parte da soma em litígio, assim como uma multa de todo aquele contra quem ficasse provado haver transigido ou desistido do negócio. Impunha-se aos carregadores o pagamento da oitava parte do seu jornal e às prostitutas o da sua tarifa individual relativo a uma cópula. Um aditivo ao capítulo desta lei estipulava que este imposto seria pago também por aquelas que tivessem exercido a profissão de alcoviteiras e que as mulheres casadas não estavam isentas.

Estes impostos haviam sido proclamados, mas não afixados. Assim, como fossem cometidas inúmeras contravenções por ignorância do texto da lei, Calígula decidiu, por fim, a instâncias do povo, afixar a lei, mas em caracteres tão diminutos e num espaço tão estreito que ninguém pudesse copiá-la. Para que nenhum gênero de extorsão lhe fosse estranho, estabeleceu um lupanar no seu palácio. Nas células, separadas e mobiliadas de acordo com a majestade do lugar, se encontravam matronas e homens de condição livre. Enviou, de praça em praça, de basílica em basílica, nomenclatores para convidar jovens e velhos à concupiscência. Emprestava-se aos visitantes dinheiro a juros. Empregados tomavam nota dos seus nomes, aumentando os rendimentos de César. Não desdenhava, em absoluto, os jogos de azar e aumentava seu lucro pela fraude e até mesmo pelo perjúrio. Certa vez que encarregara seu vizinho de substituí-lo na mesa, avançou até o vestíbulo da sua casa. Nesse momento viu passar dois ricos cavaleiros romanos. Fê-los prender imediatamente, confiscou-lhes os bens e voltou, radiante de alegria, jactando-se de jamais ter ganho melhor parada.

Ao nascer-lhe uma filha, lamentou-se da sua pobreza e dos encargos paternos que se agravavam, desde então, aos do governo e aceitou coletas públicas para a sua manutenção e para o dote da sua menina. Anunciou, por édito, que aceitaria presentes de ano-bom. E se plantou no átrio do seu palácio, no dia das calendas de janeiro, para agarrar as moedas que a multidão de gente de todas as condições sociais atirava diante dele, esvaziando as bolsas. Finalmente, consumido pelo desejo de tocar no dinheiro, caminhou, muitas vezes, de pés descalços, sobre imensos montões de moedas de ouro espalhadas pelo chão e neles rolava, por longo espaço de tempo, de corpo inteiro.

Não se envolveu em guerras nem em empresas militares senão uma única vez e assim mesmo sem objetivo premeditado. Como tivesse avançado até a Mevânia242 para ver o bosque e o rio do Clituno243, aconselharam-no a completar a guarda batava que o acompanhava. Assim, tomou-se do capricho de realizar uma incursão na Germânia. Sem demora, mobilizou legiões e tropas auxiliares, de todos os lados. Procedeu, por toda parte, ao recrutamento, com extremo rigor. Reuniu aprovisionamento num total como jamais se vira e pôs-se a caminho. Marchava com tanta pressa e rapidez que as coortes pretorianas se viram forçadas, contra a tradição, a conduzir as insígnias nas bestas de carga e segui-lo assim. Outras vezes, acontecia o contrário: a marcha se fazia com tanta indolência e tão vagarosamente que oito pessoas conduziam a sua liteira e a população das cidades vizinhas podia limpar as estradas para ele e irrigá-las por causa da poeira.

Ao chegar ao acampamento, para se mostrar um chefe áspero e severo, despiu, ignominiosamente, capitães que haviam transportado, com bastante retardo, de diversos pontos, as tropas auxiliares. Ao passar o exército em revista, arrebatou os primipilários à maior parte dos centuriões que já haviam atingido a idade madura e a outros que a atingiriam dentro de poucos anos, sob o pretexto de senilidade e fraqueza. A muitos outros, repreendeu-lhes, severamente, a cupidez e reduziu a seis mil sestércios todas as vantagens dos veteranos. Limitou-se a receber a submissão de Admínio, filho de Cinobelino, rei dos bretões, que, expulso por seu pai, fora se refugiar ao pé de César com um pequeno exército. E, como se essa submissão pudesse equivaler à de toda a nação, enviou a Roma cartas magníficas, recomendando aos correios levá-las em carro até o Fórum e à Cúria e não entregar essas mensagens ao cônsul a não ser no templo de Marte e diante do Senado reunido.

Logo, como não mais houvesse razão para fazer a guerra, ordenou a um pequeno número de germanos da sua guarda que passassem o Reno e se conservassem escondidos. Após o jantar, anunciou-se com um tumulto incrível que o inimigo se aproximava. Feito isto, atirou-se com seus amigos e com uma parte dos seus cavaleiros pretorianos à floresta vizinha. Cortou árvores, à maneira de troféus, e retornou à luz de archotes, censurando aos que não o tinham acompanhado, a poltronice e a covardia.

Os que o haviam seguido e tomaram parte na vitória receberam coroas de novo gênero e novo nome, ornadas das figuras do Sol, da Lua e dos astros, às quais chamou “exploratórias”244. Em outra ocasião, roubou duma escola alguns jovens reféns e fê-los partir na frente, secretamente. De repente, abandonando a refeição, entrou a persegui-los com a sua cavalaria e os trouxe carregados de cadeias como fujões a quem se desse caça. Excedera, com esta comédia, todas as medidas. De volta à mesa, convidou aos que lhe foram comunicar que o exército estava reunido a se sentarem ao seu lado, tal como estavam, revestidos de couraças, e os concitou ainda, com um verso conhecidíssimo de Virgílio245, “a se armarem firmemente e se reservarem para felizes circunstâncias”. E, ao mesmo tempo, exprobrou, num édito rispidíssimo, o Senado e o povo por terem, “enquanto César combatia e se expunha a tão grandes perigos, celebrado alegres festins nos espetáculos do circo, no teatro e nos risonhos refúgios”.

Finalmente, para terminar a guerra, colocou seu exército em linha de batalha na margem do oceano. Dispôs balistas e máquinas, sem que ninguém soubesse ou suspeitasse do que ia realizar. Subitamente, ordenou que se ajuntassem conchas e com elas se enchessem os bolsos e os capacetes. “São os despojos do oceano afirmava. Eles devem ir para o Capitólio e o Palatino.” Elevou, em comemoração à sua vitória, uma altíssima torre246 em que luzes brilhavam como num farol para guiar, de noite, a rota dos navios. Anunciou também aos soldados uma gratificação de cem denários por cabeça. Julgando houvesse ultrapassado todos os exemplos de liberalidade, lhes disse: “Ide alegres, ide como ricos.”

A seguir, dedicou-se aos cuidados do seu triunfo. Escolheu, além dos cativos e dos trânsfugas bárbaros, todos os gauleses de alta estatura e, como ele próprio se exprimia, triunfais. Para o seu cortejo reservou alguns chefes. A estes, forçou-os, não somente a tingir seus cabelos de vermelho e a deixá-los crescer, mas ainda a aprender a língua dos germanos e a tomar o nome dos bárbaros. Fez transportar a Roma, grande parte por via terrestre, as trirremes nas quais entrara no oceano. Escreveu também aos seus intendentes, encarregando-os de “lhe prepararem seu triunfo com o menor gasto possível, mas de tal maneira que não se tivesse notícia doutro tão colossal assim, pois ele tinha direito sobre os bens de todo mundo”.

Antes de deixar a província, manifestou um desejo duma atrocidade abominável: o massacre das legiões que se haviam revoltado outrora, após a morte de Augusto, porque elas haviam assediado seu pai Germânico247, seu chefe e ele próprio, ainda em tenra idade. Desviado a muito custo dum projeto tão sinistro, nada pôde impedi-lo de querer dizimá-las. Convocou-as para uma assembleia sem armas e mesmo sem espadas e as fez envolver com a sua cavalaria armada. Como visse, porém, que os soldados suspeitavam dos seus desígnios e que a maior parte se escapara para retomar as armas e usá-las no caso de ser cometida alguma violência, fugiu da reunião e retornou às pressas à cidade. Atirou toda a sua raiva contra o Senado, ao qual ameaçava abertamente, com o fito de afastar os rumores provocados pelas vilezas que cometera. Queixava-se, entre outras coisas, de ter sido despojado fraudulentamente do triunfo completo, quando, havia pouco, vedara, sob pena de morte, que se falasse jamais em lhe render homenagens.

Delegados da primeira ordem do Estado foram ao seu encontro e pediram-lhe que apressasse a sua volta. “Eu irei respondeu-lhes com voz grossa —, eu irei e esta comigo”, batendo repetidamente no copo da sua espada. Declarou que tornaria, mas somente para aqueles que o desejavam: para a ordem dos cavaleiros e para o povo, pois, em relação ao Senado, ele não seria mais nem cidadão, nem príncipe. Não consentiu, mesmo, que nenhum senador fosse ao seu encontro. E, porque renunciasse ao seu triunfo ou o transferisse, entrou em Roma sob ovação, no dia do seu aniversário natalício. Pereceu menos de quatro meses mais tarde, depois de ter cometido crimes monstruosos e haver meditado muitos outros mais tremendos ainda. Com efeito, tinha em mente retirar-se para o Âncio e, a seguir, para Alexandria, depois de ter assassinado os principais elementos das duas ordens. Não poderia existir a este respeito a menor dúvida, pois encontraram-se nos seus papéis secretos duas memórias intituladas, uma A Espada, outra O Punhal. Ambas continham a lista nominativa das pessoas destinadas à morte. Achou-se também um cofre enorme, cheio de venenos os mais diferentes. Narra-se que, jogados ao mar por Cláudio, infectaram as ondas, e a maré não demorou em atirar nas praias os peixes mortos.

Sua aparência

Era de alta estatura, tez palidíssima, corpo enorme, o pescoço e as pernas delgadas. Os olhos, assim como as têmporas, fundos. A fronte larga e carrancuda. Cabelos raros e o alto da testa desguarnecido. O resto do corpo, cabeludo. Constituía crime capital olhá-lo, quando ele passava, por cima, e pronunciar por qualquer motivo a palavra “cabra”. Seu rosto era naturalmente horrível e repelente. E ele procurava torná-lo ainda feroz, compondo-o diante dum espelho para inspirar terror e espanto. Não era são nem de corpo nem de espírito. Era vítima, desde a infância, de crises de epilepsia. Na juventude não podia suportar fadigas sem ser acometido de desmaios súbitos que a custo lhe permitiam caminhar, manter-se em pé, tomar fôlego e sustentar-se. Possuía plena consciência do seu estado mental e por mais duma vez imaginou curar-se, procurando a solidão. Acredita-se que sua mulher Cesônia lhe tivesse subministrado algum filtro amoroso248, cujo único efeito fosse torná-lo furioso. Era, sobretudo, atormentado pela insônia, pois não chegava a dormir mais de três horas por noite. Este repouso, longe de ser calmo, era ainda perturbado por estranhos fantasmas, a tal ponto que, certa vez, entre outras, lhe pareceu ver a imagem do mar a conversar com ele. Também, durante a maior parte da noite, cansado de estar acordado na cama, tinha por hábito ora sentar-se no leito, ora passear ao longo dos seus imensos pórticos, a invocar e a esperar a luz do dia.

Estado mental, fantasias e loucuras

Atribuirei, não sem razão, ao seu estado mental, defeitos tão incompatíveis como a sua extrema confiança e a sua excessiva timidez. Na realidade, ele, que desprezava todos os deuses, à queda dum simples raio e ao menor relâmpago fechava os olhos e cobria a cabeça. Se redobravam, saltava para cima da cama e se enrolava nas cobertas. Numa viagem à Sicília, depois de ter ridicularizado os milagres de que se ufanavam muitas localidades, fugiu inopinadamente de Messina, em plena noite, assustado com a fumaça e o estrondo da cratera do Etna. A despeito das suas grandes ameaças contra os bárbaros, um dia em que marchava, de carro, além do Reno, comprimido com suas tropas num desfiladeiro, ouviu alguém dizer “que o morticínio não seria pequeno, se o inimigo aparecesse”. Montou a cavalo instantaneamente, voltou-se precipitadamente para as pontes. Como, porém, estas estivessem atravancadas com carroças e bagagens, não suportou a demora e se fez transportar de mão em mão, por cima da cabeça de todos. Logo em seguida, à notícia da sublevação na Germânia, preparou a frota, que favoreceria a sua fuga. A única consolação sobre a qual se apoiava era a de que lhe restavam, pelo menos, as províncias de além-mar no caso em que os vencedores se apossassem da passagem dos Alpes, como os cimbros, ou até mesmo de Roma, como outrora os senônios. Foi isso, creio eu, que forneceu mais tarde aos seus matadores a ideia de dizer aos soldados revoltados que ele se suicidara apavorado, como estava, com a notícia duma derrota.

Suas vestes

A roupa, o calçado e o resto do vestuário que ele sempre usou não eram nem dum quírite, nem mesmo dum homem, e, numa palavra, não tinham nada de humano. Muitas vezes aparecia em público envolto em casacões salpicados de diversas cores, cobertos de pedrarias, de mangas e braceletes. Outras, de vestido de seda com cauda. Ora de sandálias ou de coturnos, ora de botas militares ou de tamancos de mulher. Mais seguidamente, porém, se apresentava com uma barba de ouro, a segurar o raio, o tridente e o caduceu, insígnias dos deuses, e também em trajes de Vênus. Trazia consigo quase sempre os ornamentos triunfais, mesmo antes da sua expedição, e, de tempos em tempos, também a couraça de Alexandre o Grande, que ele mandara retirar do seu sepulcro.

Pouco afeito a erudição

Das disciplinas liberais, afez-se pouquíssimo à erudição e muito à eloquência. Possuía a palavra fácil e pronta, sobretudo quando falava contra qualquer pessoa. Na cólera, as palavras e as ideias lhe afluíam com abundância. Sua pronúncia e sua voz eram tão animadas que não podia ficar num lugar só: afastava-se da assistência para se fazer ouvir. Quando devia falar em público, começava com um arremesso da sua elucubração, desprezando de tal sorte o estilo doce e ataviado, que dizia de Sêneca, então fora da moda, “que compunha puras amplificações escolásticas” e “era de areia sem cal”. Costumava também responder aos discursos de sucesso dos oradores, preparar o libelo ou a defesa das grandes personagens, acusá-las perante o Senado e, segundo o que pudesse favorecer melhor o desenvolvimento, agravar a acusação ou defender o acusado. A ordem dos cavaleiros era, por édito, convidada a vir ouvi-lo.

Exerceu com paixão e talento outro gênero completamente dessemelhante: era, quando entendia, auriga, cantor e dançarino. Esgrimia com armas de combate e dirigia carros nos circos que ele construíra em muitos lugares. O prazer de cantar e de dançar o entusiasmava de tal maneira que não podia deixar de, mesmo nos espetáculos públicos, acompanhar à meia-voz a declamação do trágico e de imitar abertamente os gestos do histrião, fosse para louvá-los, fosse para corrigi-los. Ao que se julga, não foi por outra razão senão para estrear na cena e de noite (o que lhe proporcionava maior liberdade) que, no dia do seu assassínio, determinou uma vigília religiosa. Quase sempre dançava, também, à noite. Na segunda vigília, ordenou que fossem chamados a palácio três personagens consulares. Vieram estas, trêmulas de medo, na expectativa dos mais terríveis maus-tratos. Calígula instalou-as em cima de um estrado. Depois, de súbito, saltou no proscênio com o manto e a túnica flutuante e, acabada a cena, retirou-se. Entretanto, ele, que tinha tanta facilidade para o resto, não sabia nadar.

Sua paixão por todos aqueles que lhe eram simpáticos ia até à demência. Em pleno espetáculo dava beijos no pantomimo Mnéster. Se alguém, enquanto ele dançasse, fizesse o menor ruído, o mandava retirar-se ou o chicoteava com a sua própria mão. Como num momento desses um cavaleiro romano tivesse murmurado, determinou, por intermédio dum centurião, que partisse para Óstia e que levasse ao rei Ptolomeu, na Mauritânia, sua mensagem cujo conteúdo era o seguinte: “Não farás a este que te envio nem bem, nem mal.” Colocou alguns trácios à frente dos seus guardas do corpo germânico. Reduziu a armadura dos seus gladiadores. Como visse Colombo vencedor, mas ligeiramente ferido, pôs-lhe na ferida um veneno que se chamou depois “colombino”. Pelo menos, foi assim que o encontraram rotulado por ele próprio, entre outros venenos. Era tão ligado e devotado aos aurigas verdes249 que ceava frequentemente nas suas cavalariças e aí se demorava. Ao condutor Eutico, brindou-lhe numa orgia dois milhões de sestércios. Para que ninguém perturbasse o sono do seu cavalo Incitatus na véspera dos jogos circenses, costumava, com seus soldados, impor silêncio à vizinhança. Construiu para este cavalo uma estrebaria de mármore, e deu-lhe uma mangedoura de marfim, arreios de púrpura e um colar de gemas. E mais ainda: uma casa, domésticos e mobiliário, a fim de que os convidados em seu nome fossem suntuosamente recebidos. Lembra-se também que desejou fazê-lo cônsul.

Estava tão loucamente excitado que todo mundo teve a ideia de atacá-lo. Mas a primeira, e depois mais duas conspirações250 foram descobertas. Ao passo que outros, por falta de ocasião, vacilavam; dois cidadãos se compreenderam e orientaram habilmente a conspiração, não sem estabelecerem antes inteligência com libertos poderosíssimos e prefeitos do pretório, os quais, desde que haviam sido implicados, embora sem razão, em certa conjura, se tinham tornado suspeitos e odiados. Realmente, Calígula se fizera alvo da sua raiva profunda quando, chamando-os à parte, lhes afirmara de espada desembainhada que ele próprio lhes poria fim à existência “se os achasse dignos da morte”. E desde então não mais cessou de acusá-los, uns após outros, e de estabelecer a discórdia entre eles. Decidiu-se atacá-lo ao meio-dia, à saída do espetáculo, no dia dos jogos latinos. Cássio Quereia, tribuno duma coorte pretoriana, pediu para desempenhar o papel principal. Era um homem já velho, a quem Calígula tinha por hábito crivar de toda sorte de ultrajes, chamando-lhe de poltrão e afeminado. Ora, se Cássio lhe pedia a senha, ele lhe dava: “Príapo” ou “Vênus”, ora, se ia agradecer-lhe alguma coisa, oferecia-lhe a mão para beijar, predispondo-a e agitando-a de maneira obscena.

Sua morte

Numerosos prodígios se verificaram à aproximação da sua morte. Em Olímpia, a estátua de Júpiter, que ele decidira desmontar e trasladar para Roma, deu, de repente, tal risada que as máquinas caíram ao solo, provocando a fuga dos operários e, mais do que depressa, apareceu um certo Cássio que assegurou ter recebido, em sonho, ordem para imolar um touro àquele deus. Em Cápua, nos idos de março, o Capitólio foi atingido por um raio. Da mesma forma, em Roma, a capela de Apolo Palatino. Não faltou quem conjecturasse que um desses prodígios anunciava a um senhor o perigo da parte dos seus guardas e que o outro pressagiava de novo um assassínio insigne, como o que outrora se realizara no mesmo dia. A uma consulta sobre o seu horóscopo, o astrólogo Sila asseverou-lhe “que uma morte absolutamente certa se aproximava”. As Sortes de Âncio o advertiam também “de se cuidar de Cássio” e, por esta razão, expedira ordens para assassinar Cássio Longino, então procônsul da Ásia, esquecendo-se de que Quereia também se chamava Cássio. Na véspera da sua morte sonhou que estava no Céu, ao lado do trono de Júpiter e que este, pegando-o pelo dedo do pé direito, arremessou-o sobre a Terra. É costume incluir também no número dos prodígios os acidentes acontecidos casualmente no dia da sua morte ou pouco antes. Ao sacrificar, salpicou-se do sangue dum papagaio. O pantomimo Mnéster dançou na mesma tragédia251 que representara outrora o trágico Neoptolomeu nos jogos em que fora assassinado Filipe, rei da Macedônia. Na mímica Laureolus, em que um ator vomita sangue ao salvar-se do desabamento dum edifício, em virtude de vários atores que representavam papéis secundários terem querido dar uma amostra do seu talento, a cena foi inundada de sangue. Preparava-se, outrossim, para a mesma noite, um espetáculo em que egipcianos e etíopes deviam representar argumentos infernais.

No dia 23 de janeiro, cerca da hora sétima, vacilou sobre se se levantaria para almoçar, de vez que seu estômago ainda estava pastoso e pesado dos alimentos da véspera. Afinal, cedendo aos conselhos dos amigos, saiu. Como tivesse que passar por uma galeria subterrânea, onde crianças de nobres famílias da Ásia se preparavam para entrar em cena, ele parou para examiná-las e exortá-las. E se o diretor do grupo não lhe tivesse dito que estava fazendo frio, ele teria retornado pelo mesmo caminho e feito recomeçar o espetáculo. A partir daqui, há duas versões: uns referem que, enquanto falava às crianças, Quereia feriu-o violentamente no pescoço, por trás, com o fio da sua espada, gritando: “Toma!”, e que então Cornélio Sabino, outro tribuno que se contava entre os conjurados, com um golpe certeiro atravessou-lhe o coração. Contam outros que Sabino, ao procurar afastar a multidão por centuriões participantes da trama, pediu-lhe, segundo o uso militar, a senha e como Calígula desse “Júpiter”, Quereia exclamou: “Recebe, pois, a marca da sua cólera!” e lhe abriu as mandíbulas com um golpe, no momento em que ele se voltava. Derribado ao solo, berrava, aos sobressaltos do corpo inteiro, que ainda vivia. Acabaram-lhe com a vida, desfechando-lhe mais 30 golpes. A palavra de ordem para todos era “República”. Alguns conjurados enterraram-lhe a lâmina até mesmo nas partes pudendas. Ao primeiro rumor, correram em seu socorro porteiros munidos de paus e seguidos de guardas do corpo germânico. Liquidaram vários conspiradores e alguns senadores inocentes.

Viveu 29 anos252, reinou três anos, dez meses e oito dias253. Seu cadáver, levado às escondidas para os jardins de Lâmia e semicremado numa pira improvisada, foi recoberto ligeiramente com relva. Mais tarde foi exumado pelas suas irmãs retornadas do exílio, incinerado e sepultado. Sabe-se que, antes desta exumação, guardas dos jardins se viram perseguidos por fantasmas. Do mesmo modo não se passou uma só noite em que, quer o palácio, quer o local em que ele sucumbira, não estivessem expostos a qualquer assombração, até que essa casa houvesse sido devorada por um incêndio. Sua mulher Cesônia morreu ao mesmo tempo que ele, atravessada a golpes de gládio por um centurião, e sua filha, rebentada contra uma parede.

Senadores discutem voltar ao modelo republicano sem um imperador

Pode-se fazer uma ideia daqueles tempos pelas seguintes particularidades: a notícia do assassínio se espalhou, mas todo mundo recusou acreditar nela. Suspeitava-se de que o boato tivesse sido lançado por Calígula, a fim de poder conhecer, por este meio, a opinião do povo a seu respeito. Os conjurados não destinaram o Império a ninguém. O Senado manifestou-se unanimemente de acordo pelo restabelecimento da liberdade. Os cônsules o convocaram não na Cúria (porque esta se chamava “Júlia”), mas no Capitólio e alguns propuseram, em forma de parecer, a abolição da memória dos Césares e que se destruíssem os templos que lhes haviam sido consagrados. Tem-se observado e notado, especialmente, que todos254 os Césares que traziam o prenome de Caio haviam perecido pelo ferro.

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