Notas

177 - No grego: era ali deixado aos escravos.
178 - Ver-se-á, nas observações sobre o capítulo VI, como Amyot corrigiu essa passagem, que estava muito corrompida.
179 - Em sua tragédia Andrômaca, v. 597. C.
180 - Vide, nas observações sobre o capítulo VI, como é preciso corrigir e traduzir esses versos.
181 - É um erro de Plutarco ou de seus copistas: Carvílio não fez o primeiro divórcio senão no ano de Roma 523- Sua mulher, que ele amava ternamente, era estéril. Ele foi constrangido a jurar, diante das censuras, que se separava para ter filhos. Dionisio de Halicarnasso, liv. II. Aul. Gell. Noct. IV, 3. XVII, 21. A fonte do êrro pelo que me parece, vem da omissão de um número. Creio ser preciso corrigir: "Também os Romanos revelam que o primeiro que repudiou sua mulher foi Fúrio Carvilio, quinhentos e vinte e três anos depois da primeira fundação de Roma, o que antes jamais tinha sido feito; e que a mulher de certo Pinário, chamada Taléia, foi a primeira que teve disputa e debate com sua sogra chamada Gegânia, ao tempo em que reinava o rei Tarquínio sobrenomeado o Soberbo, no ano de Roma duzentos e trinta". Asse ano era o décimo do reinado de Tarquínio.

Fontes primárias

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Comparação entre Licurgo e Numa Pompílio, de Plutarco

Fontes primárias > Grécia Antiga  |  189 visualizações  |  3110 palavras  |  5,7 páginas

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Depois de relatar as vidas do grego Licurgo (séc. 9-8 a.C.) e do romano Numa Pompílio (c. 753-673 a.C.), Plutarco traça aqui uma comparação dessas duas personalidades do mundo antigo. Esse texto faz parte da série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos.

I. Mas, tendo acabado de escrever as vidas de Licurgo e de Numa, é tempo doravante de colocá-los um diante do outro e de tratarmos, ainda que seja isso coisa bem difícil, de encontrar as diferenças entre ambos; pois, quanto às similitudes e coisas comuns entre eles, demonstram-se bastante por si mesmas em seus feitos, como a temperança, devoção para com os deuses, sabedoria em governar destreza no manejar seus povos e, bem assim, seu fazer querer e dar a entender que os deuses lhe tinham revelado as leis que estabeleciam. Mas, para vir às qualidades, que são diversa e separadamente louváveis em cada um, a primeira é que Numa aceitou o reino e Licurgo o entregou; um o recebeu sem o ter procurado, e o outro o restituiu quando o tinha entre as mãos; um, sendo estrangeiro e homem privado, foi por estrangeiros eleito e escolhido senhor e rei, ao passo que o outro se fez ele próprio, de rei que era, homem privado. Ora, bela coisa é adquirir por justiça um reino, mas também bela coisa é preferir a justiça a um reino. A virtude pôs um em tal reputação que foi estimado digno de ser eleito rei, e tomou o outro tão magnânimo que não fez conta de ser rei. A segunda é que, nem mais nem menos do que um instrumento de música, um enrijeceu e tendeu as cordas que estavam frouxas demais em Esparta, e o outro afrouxou as que estavam demasiado tensas em Roma: no que a dificuldade maior está do lado de Licurgo, pois não persuadiu aos cidadãos de não se despojarem das cotas de malhas e couraças, nem de não usarem espadas, mas sim de deixarem ouro e prata, abandonarem leitos, meses e outros móveis preciosos, não repousarem do labor da guerra para fazerem festas, sacrifícios e jogos, mas, ao contrário, deixarem banquetes e festins, para continuamente trabalharem em armas e em todos os penosos exercícios do corpo. De forma que, um pelo amor e reverência que lhe prestavam, persuadiu facilmente de tudo o que quis; e o outro, posto em perigo e ferido, só levou sua missão a cabo com muita dificuldade.

II. Assim, foi amigável, doce e benigna a musa de Numa, que tão bem soube amolecer e arrefecer os costumes dos cidadãos, antes ardentes e violentos, ensinando-os amar a paz e a justiça; e, ao contrário, se me querem constranger a citar, entre as ordenanças e estatutos de Licurgo, o que escrevemos a respeito dos Hilotas, que era uma coisa bárbara e cruel demais, ser-me-á forçoso confessar que Numa foi muito mais sábio, mais doce e mais humano em suas leis, visto como àqueles mesmos que verdadeiramente tinham nascido servos, ainda fez provar uma pequena honra e a doçura da liberdade, tendo querido que nas festas de Saturno se assentassem à mesa para comerem com os próprios senhores. Pois há os que pretendem que tal costume tenha sido introduzido pelo rei Numa e que ele quis que os que tinham levado sua parte do labor de cultivar a terra, tivessem também parte no prazer de fazer boa mesa com os frutas dela; outros vão adivinhando que é outra marca daquela igualdade existente no mundo entre os homens do tempo de Licurgo, quando não havia senhor nem servo, mas todos eram homens iguais como irmãos ou parentes muito próximos.

III. Em suma, parece que ambos quiseram igualmente encaminhar e conduzir seus povos à temperança e ao contentamento do seu; mas, quanto às outras virtudes, parece que um mais amou a força e o outro a justiça, se não se quiser dizer que, pela diversidade da natureza ou costume dos respectivos povos, quase contrários em costumes, tenham sido constrangidos a ter também meios de todo diferentes. Pois não foi por frouxidão de caráter que Numa tirou aos seus o uso das armas e a vontade de guerrear, antes foi a fim de não fazerem mal a outrem; nem Licurgo se preocupou em tornar os seus belicosos para fazer ultraje aos outros, mas antes de medo que se lhes fizesse; assim para tirar o que excedia a uns e suprir o que faltava a outros, foi forçoso que cada qual introduzisse grandes novidades em seu governo.

IV. Além disso, quanto ao estabelecimento da polícia e à distribuição dos estados da coisa pública, a de Numa era maravilhosamente baixa e acomodada à vontade do poviléu, fazendo um corpo de cidade e um povo composto a trouxe-mouxe de ourives, menestréis, fundidores, sapateiros e todas as demais espécies de pessoas mecânicas; mas a de Licurgo, ao contrário, era austera e mais tirante ao governo da nobreza, rejeitando todos os misteres e artes mecânicas entre as mãos dos servos e dos estrangeiros, e pondo na mão dos cidadãos o escudo e a lança, sem permitir-lhes o exercício de outro mister senão o das armas, como a verdadeiros supostos de Marte, que não soubessem nem aprendessem outra ciência em toda a vida senão obedecer aos capitães e comandar os inimigos; pois o poupar, mercadejar e traficar era ali proibido aos homens livres, a fim de que fossem absoluta e inteiramente livres; e todo artifício para acumular dinheiro177 era permitido aos escravos e aos Hilotas, sendo estimado tão vil como o mister de vestir para jantar e de fazer a cozinha.

V. Numa não pôs essa diferença entre o seu povo, somente lhe tirou a cobiça de enriquecer pelas arm as; mas, além disso, não proibiu que enriquecesse por outras vias lícitas, nem se preocupou em unir e aplainar toda desigualdade, antes permitiu o enriquecimento tanto quanto possível, não cuidando de eliminar a pobreza que tanto se expandia e multiplicava na cidade: o que era preciso fazer desde o começo, quando não havia ainda muito grande desigualdade e quando os cidadãos eram bastante parelhos e semelhantes em bens; era quando devia fazer face à avareza, para evitar os inconvenientes adivinhos mais tarde, os quais não foram pequenos, pois foi essa a fonte, começo e raiz da maior parte dos maiores e mais perniciosos males que depois surgiram. Mas, quanto à partilha dos bens, nem Licurgo deve ser censurado por havê-la feito, nem Numa por não a ter feito; pois essa igualdade foi para um a base e o fundamento da polícia que instituiu depois, e para o outro não, porque, tendo essa partilha sido feita, não antes do tempo de seu predecessor, não havia grande necessidade de remover a primeira partilha, que, como é verossímil, estava ainda pela maior parte por ser feita.

VI. Quanto aos casamentos e à comunidade das crianças, ambos quiseram sabiamente eliminar toda ocasião de gelosia; mas não seguiram absolutamente os mesmos caminhos. Pois o marido Romano, tendo já bastantes filhos à sua vontade, se outro que desejasse tê-los lhe fosse pedir que entregasse a mulher, ele poderia cedê-la, e estava nele dá-la de todo ou emprestá-la por algum tempo, para retomá-la mais tarde. Mas o Lacônio, retendo a mulher em casa, e permanecendo o matrimônio integral, podia transferi-la a quem lha pedisse, para dela ter filhos; e mais, vários, como dissemos alhures, pediam os homens dos quais esperavam ter raça de belas e boas crianças, e os colocavam eles próprios com suas mulheres. Que diferença, pois, havia entre esses dois costumes178 , senão que o dos Lacônios mostrava que os maridos não sentiam nenhuma repugnância nem paixão alguma por suas mulheres, nas coisas que tanto afligem e atormentam de dor e gelosia a maior parte dos homens; e o dos Romanos era uma simplicidade um pouco mais vergonhosa, que, para encobrir-se, colocava por cima o véu do casamento e a estipulação dos esponsais, confessando que essa comunidade de ter mulher e filhos pela metade com outro lhe era coisa insuportável? Ademais, a guarda das raparigas casadouras, pelas ordenanças de Numa, era mais estreita e conforme à honra do sexo, e a de Licurgo sendo demasiado livre e franca, deu aos poetas ocasião de falar e de dar-lhes sobrenomes que não são honestos, como Íbico ao chamá-las de Phenomeridas, isto é, exibidoras de coxas, e de Andromanes, isto é, sequiosas de macho; e Eurípides179 diz também delas:

Moças que fora do paterno lar
Seguem com os rapazes a passear,
Mostrando ao mundo as coxas descobertas
Por entre suas cotas meio abertas.

Também, em verdade, os flancos de suas cotas não eram cosidos por baixo, de sorte que em marcha mostravam as coxas descobertas e nuas, o que Sófocles dá bem claramente a entender por estes versos:

Vós180 cantareis Hermíona, a donzela
Robusta, cuja cota se desvela,
Mostrando o que aparece ou se insinua
Em torno a cada coxa toda nua.

Dizem, portanto, que eram audaciosas, viris e magnânimas contra os próprios primeiros maridos, pois estavam inteiramente senhoras de suas casas e em público ainda tinham de opinar francamente sobre os principais negócios.

VII. Mas Numa guardou bem às mulheres a honra e a dignidade que tiveram ao tempo de Rômulo, quando os maridos se esforçavam por dar-lhes todo o mais gracioso tratamento que podiam depois de as terem raptado; mas, de resto, ajuntou a isso grande honestidade, tirandolhes toda curiosidade, tornando-as sóbrias e acostumando-as a falar pouco, de sorte que se conta que, tendo um dia acontecido que certa mulher pleiteou pessoalmente sua causa em plena audiência diante dos juízes, o Senado, disso advertido, consultou incontinente o oráculo de Apoio, para inquirir o que isso prognosticava dever advir à cidade. E, de resto, para mostrar sua grande humildade, doçura e obediência, pode-se alegar o que se acha escrito sobre elas, onde houve o que censurar; pois exatamente como os nossos historiadores Gregos citam aqueles que primeiro assassinaram seus concidadãos ou fizeram a guerra a seus irmãos, ou mataram seus pais ou mães, também os Romanos revelam que o primeiro que repudiou sua mulher foi Espúrio Carvílio, duzentos e trinta anos181 depois da primeira fundação de Roma, o que antes jamais tinha sido feito; e que a mulher de certo Pinário, chamada Taléia, foi a primeira que teve disputa e debate com sua sogra chamada Gegânia, ao tempo em que reinava o rei Tarquínio sobrenomeado o Soberbo: de tal maneira haviam sido bem e honestamente ordenados por Numa os estatutos de casamentos.

VIII. Ademais, a idade e o tempo de casar as raparigas, que ambos ordenaram, estava de acordo com o resto de sua educação: pois Licurgo só permitia se casassem as mulheres feitas e maduras, a fim de que a companhia do homem, sendo-lhes dada quando a natureza o pedisse, lhes fosse começo de prazer e amor, não de medo e ódio, no caso de, serem entregues à força antes da época prefixada pela natureza,* e a fim também de que os seus corpos se tornassem mais robustos para terem filhos e suportarem os sofrimentos e as dores do parto, visto como só as casavam com o intuito de que tivessem filhos; mas os Romanos ao contrário, as casavam com doze anos e ainda mais jovens, dizendo que, por esse meio, o corpo e os costumes eram inteiramente daqueles que as desposavam, sem que outro de nenhum modo os pudesse haver tocado. E assim é evidente que um era mais natural para torná-las fortes no ter filhos, e outro mais moral para lhes dar o hábito das condições que se desejava que elas retivessem durante toda a vida.

IX. Além disso, quanto à educação dos filhos, para serem criados, instruídos e ensinados sob os mesmos mestres e governadores, que tivessem a seu cargo fazê-los beber, comer, brincar e exercitar o corpo honesta e regularmente juntos, Numa não providenciou a esse respeito, nem sequer como o menor autor de leis jamais existente, muito menos em comparação com Licurgo; pois deixou à discrição dos pais, segundo sua avareza ou necessidade, a liberdade de criar e educar os filhos como bem lhes parecesse, para fazê-los lavradores ou carpinteiros, fundidores , menestréis, como se não se devesse formar os costumes das crianças, conduzindo e encaminhando-as desde e após o nascimento para o mesmo fim, e como se fossem nem mais nem menos do que passageiros do mesmo navio, os quais, aí estando um para uma tarefa, outro para outra, e todos com diversas intenções, jamais se comunicam, senão quando há tormenta, por medo do seu próprio e particular perigo; pois de outro modo cada um deles não pensa senão para si mesmo. E é ainda perdoável que outros estabelecedores de leis tenham omitido alguma coisa por ignorância ou por não terem bastante autoridade e poder; mas um sábio filósofo, tendo recebido o reino de um povo novamente reunido, que em nada o contradizia, em que devia ele antes empregar esforços, como fazer educar bem as crianças e exercitar os jovens, a fim de não serem diferentes de costumes, nem turbulentos pela diversidade de educação, mas todos concordantes por haverem sido desde a infância encaminhados na mesma direção e modelados na mesma forma da virtude? Isso, além das outras utilidades, serviu ainda para manter as leis de Licurgo, pois o receio do juramento que tinham feito teria muito pouca eficácia, se pela instituição e educação ele não tivesse, por maneira de dizer, tingido em lã os costumes das crianças, e não lhes tivesse com o leite das nutrizes feito quase sugar o amor de suas leis e de sua polícia: o que teve tanta força que, no espaço de mais de quinhentos anos, suas principais instituições e ordenanças permaneceram integralmente, como boa e forte tintura, que tivesse atingido até ao fundo para fixar-se fortemente além; e, ao contrário, o que era o objetivo e fim principal para o qual tendia Numa, manter a cidade de Roma em paz e amizade, faliu incontinente com ele, pois assim que morreu, abriram inteiramente as duas portas do templo de Jano, que no seu tempo conservara tão cuidadosamente fechadas, como se em verdade ali tivesse encerrado a guerra, e encheram toda a Itália de crime e sangue; e nada durou tão belo, santo e justo governo, pois seu reinado foi além do seu tempo, porque não tinha para mantê-lo o laço da educação e da disciplina das crianças,

X. Como, poderá aqui dizer-me alguém, não esteve Roma sempre na dianteira e não tirou cada vez mais proveito no terreno das armas? Eis aí uma pergunta que teria necessidade de longa resposta, mesmo para pessoas que medem o bem e o progresso pelas riquezas, ‘delícias e grandeza de poder e de império, e não pelo bem-estar e pela salvação pública, pela clemência e pela justiça conjugada ao contentamento. Todavia, como quer que seja, depõe ainda em favor de Licurgo o fato de que os Romanos se tenham assim tornado grandes e poderosos por terem deixado a maneira de viver que Numa lhes indicara; e, ao contrário, o fato de que os Lacedemônios, logo que começaram a transgredir os estatutos de Licurgo, de muito grandes que eram, tornaram-se incontinente muito pequenos, de tal maneira que, tendo perdido o principado e superioridade da Grécia, caíram ainda em perigo de serem completamente exterminados, Mas também, em verdade, é coisa sem dúvida excelente e divina em Numa que, sendo estrangeiro o tenham ido procurar para fazê-lo rei, e que tenha podido assim mudar tudo e manejar a seu bel-prazer uma cidade que não estava ainda bem unida, sem ter tido necessidade de armas nem de força nenhuma, como teve Licurgo, que para sobrepor-se à comuna se fortificou com os maiorais da cidade, antes que por sabedoria somente e por justiça, não de outro modo, os tivesse podido conter em paz e fazer viver amigavelmente juntos.

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