Notas

785 - Pausânias e Suidas chamam-no Cleandro.
786 - Megalópolis e Mantinéia eram cidades da Arcádia. Nesta Vida de Filopêmene, Amyot escreveu Megalipólis em vez de Megalópolis, e Messina em vez de Messena.
787 - Pausânias cita-o, em certo lugar, como Craugis, e em outro como Crantis. Mas, ao que parece, trata-se de erros que podem ser atribuídos ao s copistas. Suidas chama-o Craugis, e é assim que seu nome aparece na inscrição colocada na estátua de Filopêmene, em Tégea.
788 - Homero, Ilíada, liv. IX.
789 - Pausânias chama-os Ecdelo e Megalófone. Suidas cita as duas versões, a primeira de Políbio, e a de Pausânias. A autoridade de Políbio é maior, sem dúvida nenhuma, pois era de Megalópolis, e filho de Licortas, contemporâneo de Filopêmene.
790 - Era uma estátua. V. o capítulo XVII.
791 - Autor antigo, que escreveu sobre tática. (N. do E.).
792 - No ano 531 de Roma.
793 - No grego: ordená-las em espira. Esta formação em espiral devia estender-se numa linha semi-circular, facilitando-lhe os movimentos.
794 - No começo do livro XIX da Ilíada.
795 - No terceiro ano da 143.ª olimpíada, 206 A. C.
796 - As palavras entre parênteses não figuram no texto grego.
797 - No ano 561 de Roma.
798 - No grego: os demagogos (ou seja, os oradores).
799 - O cônsul Mânio Acílio Glabrião derrotou Antíoco no ano 563 de Roma, 191 A. C.
800 - É o episódio das Termópilas narrado na Vida de Catão, do capítulo XXIV ao capítulo XXIX, tomo III.
801 - Famoso historiador, amigo de Cipião e filho de Licortas, comandante dos aqueus.
802 - No terceiro ano da 158.ª olimpíada, 146 A. C.

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Vidas Paralelas: Filopêmene, de Plutarco

Fontes primárias > Grécia Antiga  |  208 visualizações  |  12788 palavras  |  23,6 páginas

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Filopêmene ou Philopoemen (253-183 a.C.) foi um general e político grego, líder da Liga Aquéia em oito ocasiões. Sob seu comando, a Liga Aquéia se transformou em um importante poder militar na Grécia. Ele foi chamado de "O último dos gregos" por um romano anônimo. A biografia de Filopêmene faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Filopêmene foi comparado ao general romano Flaminino.

Imagem de capa: Filopêmene machucado, obra de David d'Angers (1837). Estátua com 2,29 metros de altura. Museu do Louvre, Paris. N° LP 1556

I. Nascimento de Filopêmene e sua educação por Cassandro

I. Na cidade de Mantinéia vivia outrora um cidadão chamado Cassandro785, pertencente a uma das mais nobres e antigas famílias locais, e cuja reputação e autoridade no trato dos negócios públicos eram, em seu tempo, maiores do que os de qualquer outra pessoa. Todavia, a fortuna tornou-se-lhe depois adversa, de modo que foi expulso de seu país, retirando-se para a cidade de Megalópolis786, para onde o levou principalmente a amizade que o ligava a Crausis787, pai de Filopêmene, homem excelente, liberal e magnânimo afeiçoado à sua terra.

Enquanto Crausis viveu, Cassandro foi por ele tão bem tratado que nada lhe faltou. Após sua morte, querendo retribuir-lhe a boa acolhida e o amistoso tratamento que recebera, criou e educou o seu filho, que ficara órfão, da mesma maneira como Aquiles foi criado e educado pelo velho Fênice788, segundo conta Homero. O caráter do menino tomou logo uma feição verdadeiramente generosa, fazendo a sua educação, que era digna de um príncipe, grandes progressos.

II. Instrução de sua juventude pelos filósofos Ecdemo e Demófanes

II. Ao sair da infância, Eudemo e Demófanes789, ambos megalopolitanos, tomaram-no sob os seus cuidados. Eram dois filósofos, que tinham assistido às aulas de Arcesilau, na escola da Academia, e que depois, tanto ou mais do que qualquer outra pessoa de seu tempo, aplicaram os seus conhecimentos de filosofia na política e no trato das grandes questões. Com efeito, libertaram a sua cidade da tirania de um Aristódemo, que a mantinha sob o jugo da servidão, instigando contra ele aqueles que o vieram a matar; auxiliaram Arato a expulsar de Sicião o tirano Nicocles; e, a pedido dos cireneus, afligidos por comoções e divergências intestinas, foram a Cirena, onde estabeleceram boas leis e uma excelente forma de governo. No entanto, consideravam como uma de suas mais belas ações a criação e a educação de Filopêmene; e, instruindo uma personalidade de tal natureza nos preceitos da filosofia, acreditaram ter prestado a toda a Grécia um grande serviço. E também, na verdade, a Grécia o amou singularmente como o último homem de virtude que produziu em sua velhice, depois de tantos grandes e renomados capitães, e aumentou-lhe a autoridade e poderio, à medida que sua glória crescia. Houve mesmo um romano que, para elogiá-lo devidamente, chamou-o o último dos gregos, como se quisesse dizer que, depois dele, a Grécia jamais possuíra um grande homem digno dela.

III. Qualidades exteriores de sua personalidade

III. No que se refere a sua pessoa, Filopêmene não era feio de rosto, como dizem alguns; e isto se pode verificar ainda hoje pelo seu retrato de corpo inteiro790 existente na cidade de Delfos. E quanto ao que dizem de uma sua hospedeira, na cidade de Mégara, a qual o tomou por um criado, isso aconteceu per não ter ele muito cuidado consigo, por vestir-se sempre muito simplesmente. Esta sua hospedeira, tendo sido avisada de que o comandante-geral dos aqueus ia hospedar-se em seu albergue, muito se preocupou, atormentando-se mesmo, em preparar-lhe a ceia, pois aconteceu que seu marido, na ocasião, não se encontrava em casa. E quando Filopômene chegou, trazendo um velho capote, ela, vendo-o nesse traje, pensou que fosse um de seus servidores enviado com antecedência para preparar as acomodações. Pediulhe, então, que a ajudasse nos serviços da cozinha; e ele, tirando incontinente o Capote, se colocou a rachar lenha. Mas nesse ínterim, o marido chegou, e, vendo-o tão ocupado, perguntou-lhe: "Oh! que significa isto, senhor Filopêmene?" "Significa apenas, responde em sua língua dórica, que estou pagando por não ser um belo rapaz, nem homem de bela aparência", É verdade que Tito Quíncio lhe disse um dia, querendo, segundo parece, caçoar do jeito do seu corpo: "Filopêmene, tens belas mãos e belas pernas, mas não tens ventre". Isto foi dito porque ele era muito delgado na parte baixa do corpo. Todavia, parece-me que esta caçoada se dirigia antes à qualidade de seu exército, e não ao seu corpo, e isto porque, embora tivesse bons soldados a pé e a cavalo, faltava-lhe quase sempre dinheiro para mantê-los e alimentá-los. Trata-se de coisas que se contam nas escolas a propósito de Filopêmene.

IV. Seu caráter e suas inclinações

IV. Quanto à sua índole e ao seu caráter, parece que a sua ambição e o desejo que tinha de alcançar honras através de suas ações, não estavam isentos de certa teimosia e de certo rancor. Querendo, seguir em tudo o exemplo de Epaminondas, seu modelo, ele imitou bem o seu espírito empreendedor, a’ sua prudência e a sua extrema preocupação em não se deixar corromper c nem ser dominado pelo dinheiro. No entanto, nas disputas e nas pendências que ocorrem na vida civil, ele não conseguiu, às vezes, conter-se nos limites da ponderação, da paciência e da benevolência; e assim se desmandava frequentemente, por cólera e por obstinação. Nestas ocasiões, parecia que era possuidor, mais de qualidades de bom capitão, para a guerra, do que de sábio governante, para a paz. Desde a infância, ele sempre procurou a companhia dos guerreiros e das armas, e demonstrava o maior entusiasmo pelos exercícios do corpo mais indicados para iniciá-lo na arte militar, como esgrimir, voltear e picar cavalos. E à medida que se tornava mais aparente a sua inclinação natural para a luta, os seus amigos, e todos os que dele cuidavam, aconselhavam-no a se entregar às pelejas. Filopêmene perguntava-lhes, então, se a vida seguida por aqueles que se dedicavam aos exercícios de ginásio não viria constituir um empecilho aos exercícios da guerra. Responderam-lhe que o comportamento pessoal e a maneira de viver dos atletas, e de todos os que se dedicavam a atividades semelhantes, eram em tudo e por tudo diferentes’ da vida seguida por um bom homem de guerra, mesmo quanto aos seus exercícios habituais; pois os atletas se preocupavam em manter e aumentar o seu peso, dormindo, bebendo e comendo continuamente, trabalhando e repousando a horas certas, sem delas se afastar um só minuto; e corriam sempre o risco de perder a força e a rijeza do corpo, caso fizessem o menor excesso ou saíssem de seus hábitos, por pouco que fosse. Ao contrário, o;; homens de guerra deviam ser habituados e estar preparados para as diversidades e desigualdades de vida, bem como deviam aprender desde a mocidade a suportar facilmente a falta de todas as coisas necessárias à existência, e acostumar-se a passar noites sem dormir. Filopêmene, após ouvir o que lhe diziam, desistiu de todos os exercícios de ginásio e deles passou a zombar; e, quando se tornou chefe do exército, aplicou-se, cobrindo-os de opróbrios e injúrias, em extinguir inteiramente a sua prática, pois tornava inúteis para o trabalho e os combates necessários à defesa de seu país os corpos dos homens, os quais, de outro modo, seriam todos aptos e úteis.

V. Suas primeiras campanhas e outras ocupações

V. Entrementes, logo que ficou livre do domínio dos mestres e mentores, e que começou a fazer uso das armas, participando das incursões realizadas pelos guerreiros de Mantinéia na terra dos lacedemônios, com o fito de apanhá-los de surpresa ou pilhar algo, acostumou-se a ser sempre o primeiro a partir e o último a voltar. E quando estava inativo, em tempo de paz ou de trégua, enrijava o corpo e o tornava disposto, ágil e robusto, entregando-se à caça ou cultivando a terra, pois possuía uma bela propriedade, distante apenas vinte estádios da cidade, para onde se dirigia geralmente após o jantar ou a ceia. Chegada a noite, atirava-se sobre uma pobre enxerga, e ali repousava, como o faziam os seus mais humildes empregados.

E, ao alvorecer, ia com os vinhateiros trabalhar nas vinhas, ou com os lavradores dirigir a charrua. Retornava depois à cidade, onde tratava dos negócios públicos com seus amigos, ou com os funcionários e magistrados. Tudo o que conseguia poupar ou ganhar na guerra, ele o despendia na compra de belos cavalos ou na confecção de ricos arneses, ou ainda com o resgate de seus concidadãos que haviam sido aprisionados na guerra. Quanto aos seus bens, procurava conservá-los e aumentá-los unicamente através da renda da terra cultivada, pois era o meio que julgava mais reto e justo. E não se dedicava a esse trabalho apenas para passar o tempo, à maneira de divertimento; mas nele se aplicava com grande solicitude, persuadido de que todos os homens de honra devem trabalhar para a boa administração’ e ampliação de seus bens, não tendo assim ocasião de apetecer ou usurpar o alheio.

VI. Escolha de suas leituras, o que procurava e como o aplicava

VI. Ele gostava de instruir-se, e lia os livros dos filósofos. Não todos, é verdade, mas somente aqueles que o pudessem ajudar a tornar-se cada vez mais virtuoso; e, de Homero, não lia senão as passagens que lhe pareciam capazes de tocar o coração dos homens, levando-os ao amor dos grandes feitos. Entre todas as leituras, porém tinha particular inclinação pelos livros de Evangelho791, que ensinava a arte e a maneira de conduzir as batalhas, e também pelas narrativas dos feitos e gestos de Alexandre, o Grande. Dizia que as palavras deviam ter sempre a ação como objetivo; a não ser que se quisesse falar por puro prazer, atirar palavras ao ar sem nenhum proveito. Não se contentava em ver nos livros sobre a arte de preparar e conduzir as batalhas os exemplos e os planos reproduzidos em figuras, mas queria adquirir experiência e ter as provas do exposto no próprio campo de ação. Deste modo, quando o seu exército marchava em ordem de batalha, ele estudava e observava, cuidadosamente, as elevações e as depressões do terreno, bem como as formas diversas que toma um combate quando travado num vale ou numa região cortada per rios, fossos ou desfiladeiros; e verificava quando era necessário que as forças se distendessem ou se concentrassem. E depois de estudar todas estas coisas, discutia-as com os que estivessem perto dele. Sem dúvida nenhuma, Filopêmene foi no mundo um dos homens que mais prezaram a arte militar, e chegou mesmo a levar muito longe a sua paixão pelas armas. Considerava a guerra como o mais amplo campo e o objeto mais favorável que a virtude poderia encontrar para exercitar-se, a ponto de desprezar, como gente completamente inútil, aqueles que não seguiam a carteira militar.

VII. Vai em socorro de Megalópolis. Conselho que dá aos megalopolitanos

VII. Já estava Filopêmene com trinta anos de idade792, quando, uma noite, Cleômenes, rei dos lacedemônios, atacou subitamente a cidade de Megalópolis: e tal foi o seu ímpeto, que dominando a guarda, penetrou até à praça pública. Filopêmene acorreu em socorro de seus concidadãos; mas, não obstante os esforços prodigiosos que desenvolveu, e todos os perigos a que se expôs, não conseguiu rechaçar o inimigo. Conseguiu, no entanto dar aos megalopolitanos o tempo necessário para se porem a salvo e saírem da cidade, contendo aqueles que o perseguiam e atraindo Cleômenes, Foi o último a sair e só o fez depois de enfrentar grandes dificuldades e de ver, já ferido ele próprio, o seu cavalo cair morto. Alguns dias depois, quando Cleômenes soube que os megalopolitanos tinham se retirado para Messena, mandou-lhes dizer que estava disposto a restituir-lhes a cidade, com todas as suas riquezas e bens. Filopêmene, vendo que seus concidadãos estavam muito alegres cem a notícia, e se mostravam dispostos a regressar imediatamente, dissuadiu-os de seu propósito, tornando claro que Cleômenes não desejava devolver-lhes Megalópolis, mas sim ‘assenhorearse também deles, para dominar com maior segurança a cidade, na previsão de que ali não poderia permanecer sempre para guardar muralhas e casas vazias, e de que acabaria sendo constrangido a partir. Estes argumentos contiveram os megalopolitanos, mas também serviram de pretexto a Cleômenes para queimar e destruir uma grande parte da cidade, da qual levou uma rica presa.

VIII. Primeira façanha de Filopêmene

VIII. Algum tempo depois, o rei Antígono veio em socorro dos aqueus, marchando contra Cleômenes, que havia ocupado os pontos mais altos das montanhas da Selásia e todos os desfiladeiros. O soberano dispôs seu exército em linha de batalha, disposto a atacar e dominar o adversário, se possível. Filopêmene achava-se, com os megalopolitanos, na cavalaria do rei, ao lado dos ilírios, bons combatentes a pé, e que, sendo muito numerosos, formavam a retaguarda de todo o exército. Tinham estes recebido ordens no sentido de não fazer qualquer movimento, até que, da ala onde se encontrava o rei, tivesse sido erguida, atada na ponta de uma lança, uma cota d’armas vermelhas. Entretanto, não obstante tal ordem, os ilírios não tiveram a paciência de esperar, e decidiram tentar dominar os lacedemônios, que ocupavam as alturas das montanhas. Os aqueus, ao contrário, permaneceram firmes em seu lugar, obedecendo à ordem recebida. Euclidas, irmão de Cleômenes, vendo a infantaria separada da cavalaria, ordenou incontinente aos elementos mais dispostos e possuidores de armas leves que avançassem, a fim de carregar, pela retaguarda, contra os ilírios, e obrigá-los a retroceder, pois que não contavam com o apoio de cavalaria. Essa ordem foi executada e a infantaria ligeira de Euclidas forçou os ilírios a recuarem em desordem. Filopêmene, vendo que não seria difícil carregar sobre a infantaria ligeira e forçá-la a retirar, e que havia chegado o momento de agir, procurou os oficiais do rei para fazer-lhe essa sugestão.

Entretanto, os oficiais, não querendo sequer ouvi-lo, fizeram pouco caso de seus argumentos e trataram-no como a um insensato, e isto porque ele não tinha ainda adquirido estima e reputação bastantes para que o considerassem homem capaz de conceber e executar manobra tão ousada. Filopêmene, então, pondo-se, sozinho, à frente de seus concidadãos, atacou a infantaria ligeira de Euclidas, que, no meio da maior desordem, acabou pondo-se em fuga, sendo grande a carnificina.

IX. É ferido por um dardo, que lhe atravessa as coxas. Admirável coragem que demonstra nessa ocasião

IX. Para encorajar ainda mais os soldados do rei Antígono e castigar com maior rigor o inimigo, enquanto a desordem reinava em suas fileiras, Filopêmene deixou seu cavalo, e, caminhando a pé, avançou através de caminhos tortuosos, cortados por torrentes e cheios de depressões, protegido por uma couraça de cavaleiro e conduzindo suas armas, todas muito pesadas. Pôs-se assim a combater com grande pena e dificuldade e, não demorou muito, teve as duas coxas transpassadas por um dardo. O ferimento apesar de não ser mortal, era muito grande, pois o ferro atravessou-lhe as pernas de lado a lado, tal a violência do golpe. Ele ficou imobilizado no chão, como se lhe tivessem atado cadeias nos pés, e não sabia o que fazer. A correia do dardo, utilizada para o seu arremesso, causava-lhe grandes dores quando se tentava tirá-lo pelo lado que lhe penetrara nas coxas. E, entre os presentes, ninguém ousava mais tocar no ferro. Entretanto, o combate estava no auge e, como poderia terminar a qualquer momento, Filopêmene, tomado de impaciência, e ansioso por lutar, tantos movimentos fez com as pernas, avançando uma e recuando a outra, alternativamente, que conseguiu partir a haste do dardo em duas partes, as quais mandou retirar, cada uma por sua vez. Apenas de novo com os movimentos livres, avançou, com a espada na mão, entre os combatentes, e atingiu logo as primeiras filas, a fim de enfrentar o inimigo; e. com o seu exemplo, inspirou aos megalopolitanos tanta coragem, que todos quiseram imitar a sua proeza.

X. Seu elogio por Antígono, que lhe propõe ficar ao seu lado

X. Antígono, após a vitória, quando soube da verdade, perguntou aos seus oficiais macedônios quem havia feito avançar a cavalaria, antes de tal coisa ter sido ordenada. Os macedônios responderam que haviam ordenado a carga contra sua vontade, e isto porque um jovem cavaleiro megalopolitano dera início ao ataque antes do tempo, à frente de sua companhia.

Antígono disse-lhes, então, rindo: "O jovem cavaleiro a quem vos referis conduziu-se como um grande e valoroso capitão". Este feito de armas, juntamente com a observação do rei, como é fácil de imaginar, fez com que Filopêmene adquirisse logo grande celebridade. Antígono, que desejava colocá-lo a seu serviço, ofereceu-lhe com insistência um comando em seu exército, bem como grandes riquezas. Mas Filopêmene recusou tal convite, pois, conhecendo bem a sua própria natureza, sabia que lhe seria muito difícil obedecer e ficar sob o comando de um estranho.

XI. Após uma viagem a Cândia, Filopêmene volta à Acadia, onde é nomeado comandante da cavalaria. Sua conduta nesse posto

XI. Todavia, como não quisesse permanecer ocioso, sem nada ter que fazer, tomou um navio e rumou para a ilha de Cândia, onde sabia haver guerra, o que lhe permitiria exercitar-se e tornar-se cada vez mais conhecedor da carreira das armas. E depois de permanecer durante muito tempo entre os candiotas, bons combatentes e senhores de todos os segredos da guerra, e, além disso, muito sóbrios e acostumados a uma vida austera, voltou à Acaia. A sua reputação tornara-se tão grande e o seu nome tão estimado que foi logo nomeado, pelos aqueus, comandante da cavalaria. Ao assumir o seu cargo, verificou que os cavaleiros estavam muito mal montados. Com efeito, possuíam cavalos pequenos e sem valor, que arranjavam ao acaso, quando tinham de partir para uma expedição. Além disso, eximiam-se quase sempre de seguir eles próprios para o combate, mandando outras pessoas em seu lugar. E a quase todos faltavam coragem e experiência no que respeita às coisas da guerra. Os seus generais não cuidavam de acabar com estes abusos, porque, entre os aqueus, os cavaleiros eram muito poderosos, tendo o poder de distribuir punições e reco mpensas, motivo por que ninguém queria ofendê-los. Filopêmene, porém, evitou seguir tal exemplo, e resolveu fazer aquilo que julgava ser o seu dever. Começou a percorrer todas as cidades, onde encorajava e concitava os jovens a se tornarem senhores da arte de bem montar, punindo-os quando necessário.

Fazia-os participar de demonstrações, torneios e combates simulados, nos próprios lugares onde sabia que se reuniria o maior número de espectadores. Assim agindo, tornou-os em pouco tempo admiravelmente robustos e corajosos, e, o que é mais importante, ágeis e ligeiros em seus cavalos, uma das condições principais para os combatentes se manterem em boa ordem e se conservarem em seus postos, no desenrolar da batalha. E em todas as evoluções e movimentos, quer os de esquadrão em conjunto, quer os de cavaleiros isolados, o hábito dos exercícios lhes dera tão grande eficiência que toda a tropa parecia constituir apenas um corpo, seguindo um movimento livre e voluntário, não importa o lado para onde se dirigissem.

XII. Mata, num combate, Demofanto. Ideia da liga dos aqueus

XII. Numa grande batalha que os aqueus travaram com os etólios e os eleenses, ao longo do rio Larisso. Demófanto, comandante da cavalaria etólia, separando-se dos seus soldados, lançou-se sobre Filopê mene. Este, aceitando a luta, foi ao seu encontro, e contra ele desferiu um golpe com tal violência que o prostrou morto. Os combatentes inimigos, vendo que Demófanto não se movia, puseram-se em fuga. Este feito tornou ainda maior a fama de Filopêmene, reconhecendo todos que ele não cedia em coragem e firmeza aos mais jovens, e nem em prudência e sabedoria aos mais velhos, na arte de bem conduzir uma batalha. É verdade que o primeiro a elevar a comunidade dos aqueus a um alto grau de poderio e dignidade foi Arato. Antes dele, pouco fora feito, e isto porque cada cidade cuidava apenas de seus interesses. Arato promoveu a sua união, estabelecendo para todas um governo baseado nos princípios da honestidade e digno de uma nação grega. Quando, no leito dos rios e riachos, qualquer coisa, por pequena que seja, imobiliza-se num ponto qualquer, tudo o que as águas arrastam a ela vai se juntando; e assim vai se formando, aos poucos, um corpo que incessantemente ganha volume e consistência. Do mesmo modo, a Grécia, cujas cidades estavam separadas umas das outras, achava-se num estado de fraqueza que a expunha a uma ruína total. Os aqueus foram os primeiros a se reunir, atraindo depois as outras cidades da vizinhança: ajudavam umas a se livrarem da opressão dos tiranos, e conquistavam outras com o seu exemplo de união e concórdia, com a excelência de seu governo. Tinham desta maneira a intenção de reunir todos os povos do Peloponeso num único corpo e numa só potência. Mas enquanto Arato viveu, eles ficaram, de certo modo, na dependência das armas dos macedônios, permanecendo ligados primeiramente a Ptolomeu, e depois a Antígono e a Filipe, que intervinham e participavam de todos os negócios da Grécia. Entretanto, quando Filopêmene se colocou à frente do governo, ocupando o primeiro lugar entre os aqueus, estes passaram a sentir-se capazes de resistir às nações mais poderosas, e deixaram de marchar sob bandeiras de outros povos, bem como de servir-se de governantes e capitães estrangeiros. Arato, que não tinha, segundo parece, as qualidades necessárias para ser um grande general, deveu, como mostramos, com pormenores, em sua vida, à sua afabilidade, ao seu espírito cortês, às relações de amizade que mantinha com os reis, o êxito da maior parte de seus empreendimentos.

XIII. Modificações introduzidas por Filopêmene nas armaduras e nos exercícios militares

XIII. Entretanto, sob o governo de Filopêmene, homem valoroso e ousado, que granjeou fama logo nos seus primeiros combates, saindo-se bem de suas empresas, os aqueus redobraram de coragem ao ver que, sob sua direção, derrotavam sempre os inimigos e que o seu poderio era cada vez maior. Logo após assumir suas funções, Filopêmene modificou o modo de dispor as tropas para a batalha usado pelos aqueus, bem como suas armaduras. Até então usavam pequenos escudos muito leves; e tão estreitos e delgados eram que não lhes cobriam o corpo todo. Suas lanças eram muito mais curtas que os piques dos macedônios; e, se a sua leveza as tornava próprias para as escaramuças e combates a distância, o mesmo não acontecia na luta corpo a corpo, na qual o inimigo tinha nítida vantagem sobre eles, E quanto a ordenação das tropas para a batalha, eles não estavam acostumados ao chamado sistema de caracol ou espiral793. Serviam-se somente da falange quadrada, que não tinha uma frente propriamente dita, na qual pudessem cerrar seus escudos e juntar as lanças das diversas fileiras, como faziam os macedônios, para que os soldados desferissem seus golpes ao mesmo tempo. E como não o fizessem, eram facilmente separados uns dos outros e repelidos. Filopêmene tratou de corrigir logo estas deficiências, persuadindo-os a substituírem os seus escudos e lanças curtas ou chuços per tarjas e piques, e a protegerem as cabeças com morriões, os corpos com couraças e as coxas com boas escarcelas. E, a fim de que não corressem de um lado para outro e se movimentassem como tropas ligeiras, ele os ensinou a combater com firmeza, sem recuar ou ceder.

XIV. Desvia para a magnificência dos equipamentos militares o gosto que os aqueus tinham pelo luxo

XIV. Filopêmene armou também todos os jovens que se achavam em idade de prestar serviço militar; e. convencendo-os de que poderiam tornar-se invencíveis, infundiu-lhes grande coragem e confiança. Em seguida, fez com que moderassem o seu luxo excessivo e suas despesas com coisas supérfluas; pois não teria sido possível tirar-lhes inteiramente a inclinação por determinados prazeres, nem a sua vaidade. Gostavam, com efeito, de trajes ricos, de guarnecer suas casas com leitos e tapeçarias suntuosas, bem cano de mesas servidas com opulência e refinamento. Para desviar esta inclinação pelas coisas supérfluas e o seu amor ao luxo para as coisas úteis e honestas, ele procurou persuadi-los a diminuírem um pouco as despesas com suas próprias pessoas, tanto no que se refere às roupas cemo à mesa, a fim de, com o que poupassem, mostrarem-se magnificentes no que respeita às suas armas e a todos os equipamentos de guerra. Viram-se logo as oficinas dos alfagemes encherem-se de taças e de vasos preciosos, os quais eram reduzidos a pedaços, a fim de serem fundidos e transformados em couraças, escudos e freios dourados ou prateados. Nas liças e outros lugares adequados se viam cavalos novos que eram domados e amestrados, e jovens que se exercitavam na arte da guerra. E nas mãos das mulheres não se viam senão capacetes, nos quais colocavam penachos das mais variegadas cores, cotas d’armas e capas militares que bordavam para os cavaleiros. A visão destas coisas tornava maior a audácia dos jovens, aumentava o seu desejo de praticar grandes feitos e arrostar os perigos da guerra; pois a verdade é que a superfluidade e a suntuosidade de certos outros espetáculos atraem secretamente as vontades dos homens, levando-os ao amor do luxo, e tornando o espírito daqueles que os procuram frouxo e efeminado. É uma irritação e como um prurido dos sentidos, por assim dizer, que quebram e adormentam toda a força da alma; mas, ao contrário, quando esta magnificência tem por objeto os equipamentos bélicos, ela a fortalece e engrandece. Assim Homero794 nos descreveu Aquiles que, vendo as armas para ele forjadas por Vulcano, a pedido de sua mãe, não se continha, ardia no desejo de usá-las.

XV. Acostuma-os aos exercícios militares

XV. Depois que Filopêmene levou a juventude da Acaia a apreciar a tal ponto as coisas da guerra, começou a exercitá-la continuamente no manejo das armas; e inspirou-lhe tanta emulação e ardor que ela obedecia com prazer a todas as ordens, executando de bom grado todos os movimentos por ele ensinados. Acharam os jovens aqueus magnífica a nova disposição das forças para a batalha; verificaram que, combatendo com as fileiras cerradas, muito mais dificilmente estas seriam rompidas. E, como traziam constantemente suas armas, começaram a achá-las mais leves e de mais fácil manejo, e grande era o seu prazer em vê-las e em as exibirem, belas e ricas como eram. Por tudo isto, ansiavam pelo dia em que pudessem experimentá-las e usá-las contra seus inimigos.

XVI. Alcança uma grande vitória sobre Macânidas, tirano dos lacedemônios

XVI. Os aqueus estavam então em guerra com Macânidas, tirano da Lacedemônia, que, com tão grande e poderoso exército, procurava por todos os meios tornar-se senhor absoluto de todo o Peloponeso. Logo que se soube ter ele penetrado em território de Mantinéia, Filopêmene, sem perda de tempo, pôs-se à frente de suas tropas, indo ao seu encontro. Os dois exércitos tomaram posição, em ordem de batalha, perto da cidade795. Ambos possuíam, além dos combatentes do país, numerosos soldados estrangeires. Mal se iniciara o combate, Lacânidas, com seus combatentes estrangeiros, atacou-o com tal violência os arqueiros da vanguarda do Sército dos aqueus, que os pôs em fuga. Mas em vez de cair imediatamente sobre o grosso das forças do adversário, a fim de tentar romper as suas fileiras, ele começou a perseguir os fugitivos, por divertimento. Passou, assim, ao longo da formação dos aqueus, que permaneciam firmes em seus postos. Um tão grande revés, no começo da batalha, fez a princípio acreditar que tudo estivesse perdido para os aqueus. Mas Filopêmene, dissimulando o seu pensamento, deu a entender que o, ocorrido não tinha grande importância. Quando percebeu, logo depois, o grande erro cometido pelo adversário, deixando sua falange desprotegida para entregar-se à perseguição dos fugitivos, não pensou sequer em contê-los.

E, no momento em que viu estarem eles a uma grande distância, caiu inopinadamente sobre os flancos da infantaria lacedemônia. Esta, vendo Macânidas perseguir a todo galope os arqueiros em fuga, supôs que não tinham mais de combater e que a vitória já fora alcançada. Não contando com o seu comandante e desprovida de cavalaria, foi desbaratada, sendo grande a carnificina. Afirma-se que mais de quatro mil homens tombaram no campo de batalha.

XVII. Mata-o por suas próprias mãos em combate singular

XVII. Após derrotar a infantaria lacedemônia, Filopêmene foi ao encontro de Macânidas, que regressava da perseguição aos arqueiros, com seus soldados estrangeiros. Mas aconteceu que entre ele e o tirano havia um fosso largo e profundo, cujas bordas se puseram a percorrer durante certo tempo, um para atravessá-lo e fugir, outro para impedir a fuga de seu inimigo.

Vendo-os, dir-se-ia que eram, não dois capitães, que se enfrentavam, mas animais ferozes reduzidos à necessidade de se defenderem. Ou melhor: Filopêmene assemelhava-se a um caçador hábil que não abandonava nem por um momento a sua presa. Entretanto, em dado momento, o cavalo do tirano, que era vigoroso e cheio de arder, sentindo-se picado pelas esporas em ambas as virilhas, a ponto de sangrar, aventurou-se a atravessar o fosso; e, aproximando-se de uma das bordas, ergueu-se sobre as patas traseiras para lançar-se ao outro lado. Neste momento, Símias e Polieno, que em todos os combates costumavam permanecer ao lado de Filopêmene, a fim de protegê-lo com os escudos, correram com suas lanças para impedir que o cavalo saltasse. Mas Filopêmene tomou-lhes a dianteira, avançando contra Macânidas; e, vendo que o cavalo do tirano, mantendo a cabeça erguida, protegia-lhe o corpo, desviou um pouco o seu, para logo em seguida arremessar com tal violência a sua lança que o adversário caiu morto no fosso. Os aqueus, para comemorar esta grande proeza e a conduta de Filopêmene em toda a batalha, o que os encheu de admiração, mandaram-lhe erguer uma estátua de bronze, no templo de Apolo, em Delfos.

XVIII. Honra que lhe é prestada nos jogos nemeus

XVIII. Conta-se que Filopêmene, eleito, pela segunda vez comandante dos aqueus, pouco tempo depois da batalha de Mantinéia, assistia aos jogos públicos nemeus (que se celebram em honra de Hércules, perto da cidade de Argos)796, quando, bem humorado pelo prazer que lhe era proporcionado, resolveu mostrar aos gregos, que se tinham dirigido a Neméia para presenciar a festa, o seu exército disposto em ordem de batalha, fazendo-o executar todos os movimentos que se podem tornar necessários aos combatentes, o que foi feito com grande vigor e rapidez. Depois disso, dirigiu-se ao teatro, onde os músicos, fazendo soar seus instrumentos, disputavam o prêmio de canto. Acompanhavam-no jovens trajando capas de púrpura e trazendo suas cotas d’armas, todos na flor da idade e cheios de vigor; demonstravam eles maior respeito e estima pelo seu comandante, ostentando ao mesmo tempo uma certa audácia guerreira, fruto de tantos combates gloriosos, nos quais sempre revelaram grande superioridade sobre o inimigo. E, por acaso, no momento em que entraram, o músico Pilades, que cantava os "Persas", poema de Timóteo, entoou estes primeiros versos:

A augusta liberdade, companheira da glória
É hoje, para nós, o preço da vitória.

A gravidade dos versos, realçada pela voz clara e alta do músico, fez com que os olhares dos presentes se voltassem para Filopêmene; e, logo em seguida, o teatro vibrou com os aplausos e os gritos de alegria. Os gregos, que também tinham ido ouvir os músicos, relembraram de sua antiga dignidade e reputação, e, confiantes, tal a sua animação, conceberam a esperança de reconquistá-las.

XIX. O conceito em que os aqueus e os estrangeiros tinham Filopêmene

XIX. Os cavalos novos não gostam senão dos cavaleiros com os quais estão acostumados; e quando são montados por outras pessoas, eles se assustam e se perturbam. Assim, nos combates e nos perigos, quando o exército dos aqueus era comandado por outro general que não Filopêmene, mostrava-se desencorajado, e ficava sempre ansiando pela sua presença. E, quando ele aparecia no meio dos combatentes, estes recobravam a coragem e não pensavam em outra coisa senão em passar à ofensiva, tanta era a confiança que depositavam em seu comandante. Viam que de todos os capitães, Filopêmene era o único que os inimigos não ousavam olhar de frente, o único cuja glória e renome lhes inspiravam terror. Isto era fácil de verificar, em qualquer ocasião. Filipe, rei da Macedônia, persuadido de que, caso conseguisse eliminar deste mundo, por quaisquer meios, Filopêmene, faria com que os aqueus voltassem a obedecer-lhe, enviou secretamente à cidade de Argos homens com a incumbência de matá-lo à traição. Mas o seu plano foi descoberto e Filipe tornou-se objeto do ódio e do desprezo de toda a Grécia. Os beócios, um dia, assediaram a cidade de Mégara, e esperavam poder tomála de assalto. Subitamente circulou entre eles a notícia de que Filopêmene se dirigia à praça sitiada a fim de socorrê-la, da qual se aproximava rapidamente. A notícia era falsa, mas os beócios ficaram tão amedrontados que deixaram suas escadas encostadas às muralhas e não pensaram em outra coisa senão em fugir.

XX. Liberta a cidade de Messena, ocupada pelo tirano Nábis, sucessor de Macânidas

XX. De outra feita, Nábis, tirano dos lacedemônios, que sucedeu a Macânidas, apoderou-se, à primeira investida, da cidade de Messena. Filopêmene era então um simples particular, e não tinha qualquer tropa à sua disposição. Dirigiu-se por isso a Lísipo, que era na ocasião comandante dos aqueus, para persuadi-lo a ir em socorro de Messena. Mas ele a isso se recusou, alegando que já era tarde, que a cidade estava irremediavelmente perdida, pois o inimigo nela penetrara. Diante disso, Filopêmene decidiu correr em auxílio de Messena somente com as forças da cidade. Os megaiopolitanos que não esperaram sequer pela realização de uma assembleia ou eleição, a fim de ser-lhe atribuído o comando, acompanharam-no em virtude do decreto da natureza que faz cem que seja obedecido aquele que é mais digno de comandar. Quando ele chegou às imediações de Messena, Nábis; informado do que ocorria, não ousou esperar, não obstante estar com o seu exército dentro da cidade. Saiu sem perda de tempo pela porta do lado oposto, levando as tropas consigo, e o mais rapidamente possível. Considerou-se muito feliz por poder escapar a Filopêmene; e, deste modo, a cidade de Messena livrou-se do cativeiro.

XXI. Segue para Cândia, a pedido dos gortínios

XXI. Tudo o que contamos até aqui depõe, sem dúvida nenhuma, em favor da honra e da glória de Filopêmene; mas a segunda viagem que fez a Cândia, a pedido dos gortínios, os quais, estando empenhados numa guerra, queriam tê-lo à frente de suas tropas, tornou-o objeto de grandes censuras. Com efeito, tendo se ausentado no momento em que sua pátria era mais fortemente atacada por Nábis, afirmou-se que ele se retirara, ou para fugir ao combate, ou porque, numa ocasião inoportuna, estava desejoso de mostrar a sua coragem num país estrangeiro. Os megalopolitanos, seus concidadãos, vivamente acossados pelo inimigo, que, depois de devastar todo o seu território, «tinham acampado junto às suas portas, foram forçados a encerrar-se no interior das muralhas da cidade, e a semear nas praças e ruas para terem o que comer. Enquanto isso, Filopêmene, escolhido para comandar estrangeiros, combatia os Candiotas, fornecendo assim pretexto aos seus inimigos para o acusarem e dizerem que fugira da guerra que seu pais tivera de sustentar. Todavia, outras pessoas aleijavam, para justificá-lo, que, tendo os aqueus escolhido outros generais, ele tornara-se um simples particular, e quisera aproveitar-se de seu ócio para ir comandar os gortínios, que o haviam chamado com grande insistência. Acrescentavam que Filopêmene, incapaz de ficar sem nada fazer, desejava, acima de tudo, manter constantemente em exercício e. atividade as suas virtudes militares e a sua aptidão para o comando. As palavras que proferiu de uma feita sobre o rei Ptolomeu são disso uma prova. Em sua presença louvavam esse príncipe pelo seu hábito de exercitar diariamente suas tropas, e também porque procurava tornar-se ele próprio mais rijo e capaz através do manejo constante das armas. "Não é merecedor de elogios um rei que, na idade de Ptolomeu, ainda se exercita no manejo das armas; o que ele deveria fazer agora é aplicar os seus conhecimentos".

XXII. Os habitantes de Megalópolis, descontentes com a sua partida querem bani-lo, sendo disso dissuadidos por Aristêneto

XXII. Os megalopolitanos, descontentes com a sua ausência, que passaram a considerar como uma espécie de traição, quiseram promover contra ele usar o decreto de banimento, privando-o de seus direitos de cidadania. Mas os aqueus, para impedi-lo, enviaram a Megalópolis o seu comandante, Aristêneto, o qual, embora em divergência com Filopêmene quanto a questões de governo, não concordava de nenhum modo com o seu desterro.

Filopêmene, vendo depois que seus concidadãos não mais faziam caso dele, irritou-se, e fez com que várias pequenas cidades e aldeias das vizinhanças de Megalópolis, se sublevassem, insinuando-lhes que outrora não estavam sob a dependência dos megalopolitanos, e não lhes pagavam impostos. E defendeu ele próprio as pretensões dessas localidades, justificando-as abertamente, e contrariando os interesses de Megalópolis perante o Conselho da liga dos aqueus. Mas estas coisas só se verificaram algum tempo depois. Enquanto comandava na ilha de Cândia os gortínios, ele, em vez de conduzir-se na guerra como homem do Peloponeso ou da Arcádia, ou seja, de uma maneira franca e generosa, adotou o modo de agir dos candiotas. E, empregando contra eles próprios os seus estratagemas e ciladas, as suas manhas e ardis, fez-lhes logo ver que todas as suas astúcias não passavam de jogos de crianças em comparação com as que resultam de uma verdadeira experiência e dos conhecimentos de um bom capitão, exercitado na arte da guerra.

XXIII. É vencido por Nábis num combate naval

XXIII. Após ter adquirido com seus feitos em Cândia admiração universal e a mais brilhante reputação, Filopêmene voltou ao Peloponeso, onde Filipe havia derrotado Tito Quíncio, e os aqueus apoiados pelas tropas romanas, estavam em guerra contra Nábis. Logo depois de sua volta foi eleito comandante dos que lutavam centra este tirano, travando de início contra ele uma batalha naval, na qual teve a mesma sorte de Epaminondas. E, com o revés sofrido. a sua reputação ficou comprometida, pois muito se esperava de seu renome e de suas virtudes militares. Todavia, quanto a Epaminondas, dizem que ele regressou voluntariamente da Ásia e das ilhas gregas sem nada ter ali empreendido porque não queria que seus concidadãos se inclinassem para as coisas da marinha e reconhecessem suas vantagens, receando que, de bons combatentes de terra firme, se tornassem, pouco a pouco, como disse Platão, em marinheiros poltrões e corrompidos. Filopêmene, ao contrário, persuadido de que a experiência adquirida nos combates em terra firme lhe bastaria para ser bem sucedido igualmente no mar, aprendeu à sua própria custa o quanto a prática serve à virtude, e como ela aumenta em todas as artes o poder de todos os que as exercem. No entanto, ele não foi derrotado nesse combate naval somente por sua inexperiência das coisas da marinha, mas também per ter cometido um erro muito grave: utilizou-se de um navio outrora famoso, mas que, tendo permanecido fora do mar durante quarenta anos, fez água por todos os lados ao ser lançado ao mar, por pouco não perecendo todos os que nele embarcaram.

XXIV. Desforra-se por duas vezes, com poucos dias de intervalo

XXIV. Este revés trouxe-lhe o desprezo dos inimigos, os quais, certos de que ele renunciara para sempre à marinha, decidiram insolentemente assediar a cidade de Gítio. Filopêmene, sendo disso avisado, embarcou imediatamente com suas tropas, indo ao seu encontro, no momento em que eles menos o esperavam. Além disso, como estavam confiantes na vitória, deixaram suas forças dispersas, sem tomar qualquer precaução. Filopêmene desembarcou seus homens durante a noite, aproximou-se de seu acampamento e ateou-lhe fogo, aproveitando-se da confusão para matar um número bem grande de adversários. Poucos dias após este feito, quando passava por caminhos estreitos e sinuosos, o tirano Nábis surgiu inesperadamente à sua frente. Os aqueus foram tomados de pavor, pois não esperavam poder sair daqueles desfiladeiros perigosos que o inimigo dominava. Filopêmene deteve-se alguns instantes, e, depois de examinar a configuração do terreno, demonstrou que a tática é o ponto mais importante de toda a arte militar; pois, modificando ligeiramente a disposição de sua falange, para acomodá-la à natureza do lugar onde se encontrava fechado, ele conseguiu facilmente dissipar o temor de sua gente, sem que se verificasse qualquer tumulto. Caiu em seguida, inopinadamente, sobre os inimigos, pondo-os em fuga logo depois. Mas vendo que, em vez de se refugiarem na cidade, eles começaram a se dispersar pelo campo, de um lado e de outro, e verificando que o terreno das imediações, inteiramente cortado por rios e todo coberto de matas, era muito pouco favorável à ação da cavalaria, ordenou que cessasse a perseguição e, em pleno dia ainda, acampou no local. Conjeturando depois que, ao cair da noite, os inimigos, saindo de seus esconderijos, se dirigiriam, um a um ou dois a dois, para a cidade, ele pôs de emboscada, ao longo dos riachos e das colinas existentes nas vizinhanças, aqueus armados com simples espadas, os quais mataram um grande número de soldados de Nábis, isto porque, não voltando juntos, mas separados, cada um de seu lado, pois que a fuga os havia dispersado, caíam nas mãos de seus adversários como pássaros na rede do caçador.

XXV. Incorporará a Lacedemônia na liga dos aqueus

XXV. Estes feitos tornaram Filopêmene objeto de uma afeição particular por parte dos gregos; e por isso, nos teatros e nas assembleias públicas era alvo de grandes homenagens. Tito Quíncio, ambicioso por natureza e amante de honradas, ficou enciumado, pois achava que um cônsul romano devia merecer dos aqueus maiores honras e maior respeito do que um simples homem da Arcádia. Aliás, os benefícios que os gregos dele haviam recebido quando, por uma simples proclamação, livrara da escravidão do rei Filipe e dos macedônios toda a Grécia, pareciam-lhe bem superiores aos serviços prestados por Filopêmene. Tito fez logo depois as pazes com Nábis, o qual, passado pouco tempo, foi morto à traição pelos etólios. A morte do tirano provocou grande confusão em Esparta, e disto se aproveitou Filopêmene que, sem perda de tempo, para ali se dirigiu com o seu exército. E agiu com tanta habilidade que, conquistando uns com demonstrações de amizade, outros através da força, conseguiu o ingresso da cidade na liga dos aqueus. Esta proeza valeu-lhe a estima e o louvor de todos os aqueus. dada a importância da aquisição, para a sua liga, de uma cidade tão poderosa e de tão grande autoridade. Ganhou ainda a afeição e o apreço de todas as pessoas de bem da nação lacedemônia, que esperavam ter nele um protetor e um defensor de sua liberdade.

XXVI. Recusa o presente de grande valor que os lacedemônios lhe enviam

XXVI. Quando a casa e os bens do tirano Nábis foram vendidos, após terem sido confiscados pelas autoridades, os lacedemônios decidiram fazer-lhe presente do dinheiro obtido, que ascendia à soma de 120 talentos, e enviar-lhe uma embaixada especial a fim de pedir-lhe que o aceitasse. Foi nessa ocasião que a virtude de Filopêmene brilhou em toda a sua pureza, pois verificou-se que não se contentava em parecer homem de bem, mas o era realmente. Aliás, não se encontrou nenhum espartano que quisesse levar-lhe o dinheiro. Receavam todos dirigir-lhe a palavra, e acabaram decidindo confiar a incumbência a, Timolau, que dele era hóspede e amigo. Chegado a Megalópolis, o emissário dos espartanos hospedou-se na casa de Filopêmene, e, depois de haver considerado devidamente a gravidade de suas opiniões e de sua conversação, a simplicidade de sua vida e a severidade de seus costumes, chegou sem dificuldade à conclusão que tal homem seria insensível ao fascínio do ouro, e não ousou abrir a boca para falar-lhe do presente de que era portador. Inventou um pretexto para explicar a viagem, e regressou sem ter cumprido a sua missão. Enviado de novo Megalópolis, a mesma coisa aconteceu. Todavia, uma terceira viagem, conseguiu, a muito custo, tocar o assunto, após falar na afeição que lhe dedicava cidade de Esparta. Filopêmene tudo ouviu, e mostrouse sensibilizado; mas decidiu seguir incontinente ara a Lacedemônia, e ali aconselhou os espartanos não empregarem o seu dinheiro na corrupção das pessoas de bem e de seus amigos honestos, cuja virtude estava sempre à sua disposição, sem terem necessidade de pagá-la; deviam, antes, comprar o apoio dos maus cidadãos, daqueles que, no conselho, com suas arengas sediciosas, expunham a cidade a motins e perturbações; assim, fechando-lhes a boca com o dinheiro, eles se tornariam menos temíveis para os governantes. "É aos inimigos, e não aos amigos, acrescentou, que se deve tirar a liberdade de palavra". Tal era, como se vê, a grandeza d’alma de Filopêmene no que toca a qualquer ambição de dinheiro.

XXVII. Defende a cidade de Esparta contra Flamínino e contra Diófanes

XXVII. Algum tempo depois, Diófanes, então comandante dos aqueus, foi advertido de que os lacedemônios projetavam novos acometimentos, e decidiu puni-los. Porém, eles começaram a preparar-se para a guerra, agitando todo o Peloponeso. Diante disso, Filopêmene tratou de aplacar a cólera de Diófanes, e procurou demonstrar-lhe que, estando o rei Antíoco e os romanos empenhados numa guerra, na qual se confrontavam dois exércitos tão poderosos, bem no centro da Grécia, todo o cuidado de um bom capitão devia estar em não provocar qualquer agitação em seu país, e que era preciso dissimular e fechar os olhos a faltas porventura cometidas. Mas Diófanes, não dando ouvidos a tais ponderações, entrou, à frente de suas forças, juntamente com Tito Quíncio, em terras dos lacedemônios, aproximando-se da cidade de Esparta. Tal foi a indignação de Filopêmene diante dessa conduta, que ousou uma ação sem dúvida não muito legítima, nem inteiramente justa, mas que revelava uma grande coragem e um atrevimento singular. Entrou na cidade de Esparta e, embora fosse um simples particular, fechou as portas ao general dos aqueus e ao cônsul dos romanos, impedindo que nela penetrassem. Pôs termo em seguida às sedições e agitações de que Esparta era teatro, e incorporou de novo essa cidade à Liga dos aqueus.

XXVIII. Trata com grande severidade a cidade de Lacedemônia

XXVIII. Entretanto, exercendo ele próprio as funções de general dos aqueus, algum tempo depois, forçou os lacedemônios, em virtude de algumas faltas por estes cometidas, a receberem de novo as pessoas que haviam banido da cidade; condenou a morte oitenta cidadãos naturais de Esparta, segundo escreveu Políbio, ou trezentos e cinquenta, segundo outro historiador, Aristócrates; mandou derrubar as muralhas da cidade e apoderou-se de grande parte de suas terras, que entregou aos megalopolitanos; obrigou a sair da Lacedemônia todos aqueles a quem os tiranos haviam concedido o direito de cidadania, em Esparta, mandando-os para a Acaia, a fim de ali morarem, com exceção de três mil, que se recusaram a obedecer às suas ordens. Como estes se recusassem a sair da cidade, foram vendidos como escravos, e, com o dinheiro resultante, para ultrajá-los ainda mais, Filopêmene mandou construir um soberbo pórtico em Megalópolis. Finalmente, entregando-se Bem freios ao seu rancor contra os espartanos, e para, por assim dizer, espezinhar este povo que não merecia desgraça tão grande, num ato de vingança tão injusto quanto cruel, destruiu, anulou todas as instituições de Licurgo. Forçou os jovens e as crianças a abandonarem a educação que recebiam em Esparta para adotarem a ministrada na Acaia, persuadido de que, enquanto observassem as leis de Licurgo, não perderiam os seus sentimentos generosos. Curvados sob o peso de tal infortúnio, e forçados a deixar Filopêmene cortar, por assim dizer, os nervos do governo da cidade, viveram uma vida de dependência e submissão. Entretanto, passado algum tempo, solicitaram aos romanos que lhes permitissem retomar o seu antigo modo de vida; sendo atendidos, abandonaram tudo o que os aqueus lhes haviam imposto, e restabeleceram, o menos mal que lhes foi possível, após tão grande corrupção e tantas desgraças, as antigas leis e os costumes do país.

XXIX. Lamenta-se por não ser pretor dos aqueus

XXIX. Quando a Grécia797 se tornou teatro da guerra entre os romanos e o rei Antíoco, Filopêmene, então simples particular, sem qualquer autoridade sobre as coisas do governo, vendo que Antíoco, ocioso em Cálcide, nada mais fazia senão celebrar suas núpcias cora uma jovem de uma idade muito desproporcionada à sua, e verificando também que seus guerreiros sírios, longe de seu chefe andavam dispersos pelas cidades, onde se envolviam nas maiores desordens e praticavam mil insolências, lamentou o fato de não ser o general dos aqueus e dizia que invejava aos romanos o terem de enfrentar inimigos tão débeis. "Se a fortuna tivesse querido que eu fosse neste momento o comandante dos aqueus, disse ele, eu já teria retalhado todos os inimigos nas cavernas que frequentam".

XXX. Opõe-se a ascendência dos romanos sobre os aqueus

XXX. Os romanos, depois de derrotarem Antíoco, começaram a dar maior atenção à Grécia e, com o seu exército, cercaram os aqueus por todos os lados. Os governadores798 das cidades dobravam-se à sua vontade, pois desejavam as suas boas graças. O poderio de Roma, com o favor dos deuses, tornava-se cada vez maior, e estava para atingir o ponto mais elevado que a fortuna pode proporcionar. Filopêmene, enquanto isso se verificava, comportava-se como o bom piloto em luta contra as ondas: forçado pelas circunstâncias, cedia, às vezes, mas, com maior frequência, enfrentava o perigo e resistia Com todas as suas forças. Fazia o possível para convencer aqueles que gozavam de maior autoridade ou eram dotados de maior eloquência a defender a liberdade de Megalópolis. Aristeneto. homem de grande de prestígio na comunidade, e que sempre se mostrara muito afeiçoado aos romanos, disse um dia, em pleno Conselho, que os aqueus não deviam opor-lhe resistência e nem pagar com a ingratidão os benefícios recebidos. Filopêmene, embora ficasse Indignado ante tais palavras , ouviu-o a princípio em silêncio. Todavia, depois de alguns instantes, não podendo mais conter a sua impaciência e a sua cólera, disse-lhe: "Aristeneto, por que estás tão apressado em ver chegar para a Grécia a sua desgraça final?" De outra feita, Mânio799, cônsul dos romanos, após vencer o rei Antíoco800, pediu aos aqueus permissão para os banidos de Esparta poderem regressar à sua pátria, pedido que foi apoiado por Tito Quíncio. Filopêmene, no entanto, opôsse, não por ódio aos desterrados, mas porque queria que essa graça fosse concedida pelos aqueus, e por ele, e não por Tito e pelos romanos. Eleito general da comunidade para o ano seguinte, ele próprio restituiu aos banidos todos os seus direitos e permitiu-lhes que voltassem à pátria. Assim era Filopêmene: a elevação de seu grande espírito tornava-o atrevido e teimoso contra aqueles que pretendiam tudo obter autoritariamente.

XXXI. Ataca Dinócrates

XXXI. Filopêmene já estava com setenta anos quando foi eleito, pela oitava vez, comandante dos aqueus; ele esperava não somente que o ano de seu comando transcorresse sem guerra, mas também que a situação na Grécia lhe permitisse passar no repouso e em paz o resto de sua vida. Do mesmo modo como a força das doenças parece declinar à medida que diminui o vigor dos corpos enfermos, nas cidades gregas o amor da disputa e dos combates diminuía na mesma proporção em que declinava o seu poderio. Mas a vingança divina, que não deixa impunes nem os atos nem as palavras insolentes dos homens, atingiu-o já no fim da vida, e ele caiu como um bom corredor que, por infelicidade, fraquejasse ao se aproximar do fim da carreira. Conta-se que, achando-se numa reunião onde se faziam altos elogios a uma certa personagem da época, a qual era apontada como um bom general, ele disse: "Como podeis estimar um homem que se deixou aprisionar vivo pelos Seus inimigos?" Poucos dias depois chegaram notícias dizendo que Dinócrates, o Messênio, inimigo particular de Filopêmene, com quem tivera várias divergências, e homem geralmente malquisto pelas pessoas de bem, tal a sua maldade e vida desordenada, afastara Messena da liga dos aqueus, e que estava em vésperas de ocupar a mão armada o burgo de Colônís. Filopêmene achava-se então na cidade de Argos, atacado de febre; não obstante, ao saber de (ais notícias, seguiu para Megalópolis, e com tal pressa que, num dia, percorreu mais de 400 estádios. Ali chegando, reuniu sem demora a cavalaria megalopolitana, formada unicamente pelos cidadãos mais ricos e mais nobres da cidade, todos jovens e tomados de grande afeição pelo seu comandante, e que, ansiosos por se cobrirem de glória, acompanharam-no de bom grado. Puseram-se todos incontinente a caminho de Messena. Aproximaram-se rapidamente dessa cidade e estavam para atingir a colina de Evandro, quando defrontaram Dinócrates, que saíra ao seu encontro, à frente de suas tropas, as quais foram tão rudemente atacadas que logo se puseram em fuga. Entrementes, subitamente, surgiram quinhentos cavaleiros, aos quais havia sido confiada por Dinócrates a guarda do território de Messena. A eles se reuniram, nas elevações, aqueles que haviam debandado.

XXXII. É aprisionado

XXXII. Filopêmene, que receava ser envolvido, e não queria comprometer a. segurança dos jovens cavaleiros megalopolitanes, iniciou uma retirada por terrenos difíceis e acidentados, mantendo-se sempre na retaguarda e voltando-se com frequência na direção dos inimigos, a fim de atraí-los unicamente sobre sua pessoa. Mas nenhum deles ousou aproximar-se de Filopêmene, contentando-se todos em darem voltas, em torno dele, e em soltarem altos gritos, de longe. Ele avançou por várias vezes contra os cavaleiros inimigos, a fim de favorecer a retirada dos seus jovens comandados, que se iam pondo a caminho, um após outro. E assim agindo, não percebeu que ficara sozinho no meio de grande número de adversários, cercado por todos os lados. Nenhum, entretanto, ousou travar luta com Filopêmene frente a frente; mas, fazendo cair sobre ele uma chuva de dardos, arremessados de longe, forçaram-no a entrar em terreno escarpado e cheio de rochedos, onde seu cavalo não podia avançar, embora lhe cravasse nos flancos as esporas, com tal força que o animal sangrava. O exercício contínuo a que submetera o corpo durante toda a vida lhe proporcionara uma velhice ágil e robusta, e teria conseguido salvar-se facilmente se a enfermidade e a fadiga da caminhada não o tivessem enfraquecido a ponto de só a muito custo poder manter-se na sela. Neste estado, o seu cavalo, falseando um passo, atirou-o por terra. A queda foi rude e sua cabeça ficou bastante machucada; permaneceu por isso muito tempo estendido no chão, sem fazer qualquer movimento e nem pronunciar sequer uma palavra. Os inimigos supuseram-no morto e aproximaram-se do corpo para despojá-lo. Mas quando o viram erguer a cabeça e abrir os olhos, atiraram-se sobre ele com furor e amarraram-lhe as mãos pelas cestas; e conduziram-no para Messena, cobrindo-o dos maiores ultrajes e vilanias, coisa que uma personagem come ele jamais poderia ler esperado sofrer, nem mesmo em sonho, por parte de Dinócrates.

XXXIII. E encerrado num cárcere

XXXIII. As pessoas que haviam permanecido no interior de Messena foram tomadas de indescritível alegria quando souberam do ocorrido, correndo todos para as portas da cidade a fim de vê-lo chegar. Mas quando viram Filopêmene arrastado pelos soldados e todo amarrado, sem qualquer consideração pela sua dignidade e pela sua glória, adquiridas através de tantas proezas e vitórias, e que lhe valeram tantos troféus, a maior parte dos messênios teve piedade, e, partilhando de seu infortúnio, não pôde conter as lágrimas, deplorando a miséria, e precariedade da grandeza humana. E, não tardou muito, por um sentimento de humanidade que se propagou no seio deste povo, começou-se a falar que não era possível esquecer os benefícios recebidos anteriormente de Filopêmene e a liberdade que havia restituído Messena ao expulsar o tirano Nábis. Outras pessoas, em pequeno número, para agradar a Dinócrates, diziam que ele devia ser torturado e depois eliminado como um inimigo perigoso e irreconciliável, que jamais perdoaria as ofensas recebidas. Acrescentaram que, caso se livrasse do cativeiro, irritado pelos maus tratos que recebera, tornar-se-ia ainda mais temível para Dinócrates. Afinal, levaram-no para um lugar denominado "Tesouro", cava subterrânea onde não penetrava nem luz nem ar, e que não tinha sequer uma porta, sendo fechado por uma grande pedra, empurrada do lado de fora. Foi nesse lugar que o encerraram e, após fechar a entrada com a pedra, colocaram junto a esta vários guardas.

XXXIV. Dor dos aqueus e planos que fizeram diante dessa notícia

XXXIV. Entrementes, os jovens cavaleiros aqueus, caindo em si, no meio da fuga, e não vendo Filopêmene, recearam que ele tivesse sido morto. Ficaram parados durante muito tempo, chamando-o em altas vozes, e, vendo que não respondia, puseram-se a se recriminar mutuamente, dizendo que tinham sido uns covardes ao abandonar o seu comandante para se salvarem, atitude vergonhosa, pois que ele se sacrificara a fim de poupar os seus comandados. Puseram-se de novo em movimento, e, indo de um lado para outro, foram finalmente informados de que Filopêmene havia sido aprisionado. Decidiram então levar a notícia a todas as cidades da Acaia. Os aqueus, tomados de grande pesar, considerando ser muito grande a perda sofrida, deliberaram enviar uma embaixada aos messênios, a fim de solicitar deles que Filopêmene lhes fosse entregue. Ao mesmo tempo, prepararam-se para marchar com suas armas contra eles, para recuperá-lo de qualquer modo.

XXXV. Dinócrates manda envenená-lo

XXXV. Enquanto se faziam tais preparativos, Dinócrates, que temia antes de tudo o tempo, pois sabia ser a única coisa capaz de salvar a vida de Filopêmene, procurou frustrar todas as providências que os aqueus pudessem tomar. Quando chegou a noite e depois que todos os moradores da cidade se tinham recolhido, mandou abrir o calabouço e ordenou ao executor que descesse a fim de levar Uma beberagem com veneno a Filopêmene, dizendo-lhe que não o deixasse enquanto não tivesse bebido. Quando o executor entrou, o prisioneiro estava deitado sobre a sua capa, mas a dor que lhe Oprimia o coração e perturbava o espírito não lhe permitia dormir. Ao ver a luz e o homem que, de pé, diante dele, tinha na mão a taça com o veneno, ergueu o corpo com dificuldade, devido à sua fraqueza, e sentou-se. Após segurar a taça, perguntou ao executor se sabia alguma coisa dos cavaleiros que tinham vindo com ele, e, em particular, de Lícortas. O homem respondeu-lhe que a maior parte deles se conseguira salvar. Filopêmene agradeceu-lhe a informação com uma inclinação da cabeça, e, olhando-o com doçura, disse: "É para mim uma grande satisfação saber que a desgraça não foi completa". E, sem dizer qualquer outra palavra, bebeu todo o veneno, deitando-se novamente sobre a capa. O seu organismo estava tão débil, que não pôde resistir por muito tempo ao veneno, extinguindo-se assim a sua vida.

XXXVI. Como os aqueus vingam a sua morte. Seus funerais

XXXVI. A notícia da morte de Filopêmene espalhou-se com rapidez por todas as cidades da Àcaia, as quais se mergulharam numa grande consternação, cobrindo-se de luto. Entretanto, sem perda de tempo, os magistrados e todos os que se encontravam em idade de fazer uso das armas reuniram-se na cidade de Megalópolis, onde decidiram que a vingança não podia ser retardada nem por um instante. Escolheram então Licortas para o posto de general, e sob seu comando entraram com suas armas no país dos messênios, matando e incendiando. Os messênios, apavorados ante tal furor, renderam-se e dispuseram-se a abrir as portas da cidade aos aqueus. Dinocrates, porém, não quis ser por eles justiçado: para evitar o suplício que o esperava, matou-se a si mesmo. E o mesmo fizeram todos os que haviam contribuído para a morte de Filopêmene. Quanto àqueles que tinham aconselhado a tortura, Licortas mandou colocá-los numa prisão separada, a fim de fazê-los morrer no meio dos maiores tormentos. Depois disso, queimaram o corpo de Filopêmene e as cinzas foram colocadas numa urna. Deixaram, então, Messena, e não em desordem e confusão, mas com tal aprumo e disciplina que o cortejo fúnebre parecia um desfile de vitória. Os aqueus marchavam com coroas de flores em suas cabeças, sinal de triunfo; mas nos seus olhos viam-se lágrimas, que testemunhavam a sua tristeza. Levaram com eles os prisioneiros messênios, que arrastavam suas cadeias. Políbio801, filho do então general dos aqueus, cercado das personalidades de maior respeito e consideração, conduzia a urna, a qual estava de tal modo coberta de coroas de flores, faixas e festões, que mal podia ser vista. Fechavam o cortejo outros guerreiros, com todas as suas armas e seus cavalos bem ajaezados. Em suas fisionomias, os aqueus não davam os sinais de tristeza que deveriam corresponder a tão grande luto, nem os sinais de alegria que deveriam resultar de tão bela vitória.

XXXVII. Honras prestadas à sua memória

XXXVII. Os moradores das cidades e das aldeias situadas ao longo do caminho saíam de suas casas para tocar na urna onde estavam as cinzas de Filopêmene, com o mesmo fervor com que tocavam as mãos deste grande homem quando ele regressava de suas expedições; e, após tocar a urna, acompanharam o cortejo até Megalópolis. Os velhos, mulheres e crianças que, em grande número, tinham se misturado aos guerreiros, soltavam gritos penetrantes, os quais repercutiam na cidade, cujos moradores lhes respondiam com gemidos e lamentações, sentindo que, com a morte de Filopêmene, tinham perdido a sua preeminência na comunidade dos aqueus. A inumação dos seus restos revestiu-se da magnificência devida a tão grande homem, e, em volta de sua sepultura, os prisioneiros messênios foram lapidados. Todas as cidades da Acaia, através de decretos públicos, erigiram-lhe estátuas, prestando-lhe ainda outras grandes homenagens. Mas depois, quando chegaram para a Grécia aqueles dias de infortúnio nos quais Corinto foi incendiada e destruída802, um romano caluniador tomou a decisão de fazer derrubar todas as suas estátuas, acusando-o, como se ainda fosse vivo, de ser inimigo de Rema e de se opor à prosperidade de seus negócios. Entretanto, Políbio respondeu ao acusador; e, embora fosse verdade que Filopêmene se tivesse oposto fortemente a Tito Quíncio e a Mânlio, nem o cônsul Múmio, nem seus assessores e lugar-tenentes, não quiseram consentir na destruição dos monumentos erguidos à memória de um guerreiro tão famoso.

Estes homens retos sabiam distinguir entre a virtude e o interesse, a honestidade e a conveniência, como exigem o direito e a razão. Estavam persuadidos de que, do mesmo modo como os homens justos conservam o seu reconhecimento pelos seus benfeitores, retribuindo assim os benefícios recebidos, as pessoas virtuosas devem sempre cultuar a memória dos grandes vultos. Eis o que tinha a dizer sobre a vida de Filopêmene.

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Mais fontes de Liga Aquéia

Comparação entre Filopêmene e Flaminino, de Plutarco

A vida de Arato de Sicião, de Plutarco

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