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Vidas Paralelas: Díon de Siracusa, de Plutarco

Fontes primárias > Grécia Antiga  |  225 visualizações  |  18926 palavras  |  34,8 páginas

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Díon (c. 408–354 a.C) foi um tirano de Siracusa na Sicília. Foi discípulo do filósofo Platão e era um dos ministros e conselheiros mais importantes de seu cunhado, Dionísio I de Siracusa, que reinou antes dele. A biografia de Díon faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Díon foi comparado ao senador romano Bruto, um dos assassinos de César.

Imagem de capa: Moeda com a efígie de Díon de Siracusa. 357-354 a.C. Via Wikimedia Commons.

1. Prefácio

1. Como disse Simônides, ó Sósio Senecião, os troianos não quiseram mal aos coríntios por terem estes participado da expedição dos aqueus contra eles porque Glauco, originário de Coríntio, combatia ardorosamente por sua cidade. Assim também, não será, natural que nem os romanos, nem gregos, se queixem da Academia, que tanto deu a uns e outros como se pode ver por esta obra, que contém as biografias de Bruto e Díon? Este ouviu as lições do próprio Platão e aquele se alimentou de sua doutrina, saíram ambos, por assim dizer, da mesma palestra antes de travar os maiores combates. Não espanta que, realizando inúmeras ações parecidas e como que fraternas, tenham prestado esta homenagem a seu guia na senda da virtude: que a sabedoria e a justiça devem se ligar ao poder e à fortuna a fim de que a conduta política apresente ao mesmo tempo beleza e grandeza. Com efeito, da mesma forma que o professor de ginástica Hipômaco pretendia reconhecer de longe seus ex-alunos apenas pela maneira com que compravam carne no mercado, assim é normal que a razão, entre aqueles que receberam educação semelhante, acompanhe igualmente seus atos e lhes comunique, junto com a conveniência, uma espécie de harmonia e de ritmo.

2. As peripécias que lhes sobrevieram — as mesmas, em virtude mais das circunstâncias que de seus desígnios — introduzem um paralelismo nas vidas de ambos. De fato, um e outro pereceram antes de atingir o objetivo que sua atividade se havia proposto, travando fatigantes lutas sem alcançá-lo. O mais surpreendente de tudo, porém, foi que a divindade fê-los entrever a morte por intermédio da aparição semelhante de um fantasma ameaçador. Verdade é que alguns negam esse tipo de fenômeno alegando que jamais um homem sensato teve a visão de um demônio ou de um espectro, e que apenas as crianças as mulheres e os doentes de espírito arrastam consigo, nos desarranjos da alma ou no desequilíbrio do corpo, essas fantasias vãs e estranhas — porque tem em si mesmo a superstição (deisidamonía) que atua como gênio mau. Mas se Díon e Bruto, homens ponderados, filósofos, pouco inclinados a deixar-se surpreender ou ludibriar por uma impressão qualquer, sentiram-se tão vivamente afetados por uma aparição que a comunicaram aos outros, talvez seja melhor admitir a tradição — por mais bizarra que pareça — recebida da mais alta antiguidade. Segundo esta tradição, os demônios maus e invejosos, enciumados dos homens de bem e empenhados em contrariar-lhe as ações, suscitam em seu espírito perturbações e medos que agitam e abalam a sua virtude, para impedi-los de continuar impérvios e puros de conduta; assim, depois da morte, não poderão alcançar um destino melhor do que os desses demônios. Fiquem estas considerações, no entanto, para outra obra. Nesta, que constitui o décimo segundo tomo de nossas Vidas Paralelas, comecemos pela história dos mais antigos dos nossos heróis.

3. Os casamentos de Dionísio, o Antigo. Primeira Viagem de Platão à Sicília

3. Dionísio, o Antigo, mas chegou ao poder desposou a filha do Siracusano Hermócrates. Como sua tirania ainda não estivesse consolidada, os siracusanos se rebelaram e praticaram contra sua mulher violências tão indignas e terríveis que a pobre se suicidou. Dionísio casouse, após restabelecer e firmar sua autoridade, com duas mulheres ao mesmo tempo, uma da Lócrida, chamada Dóris, e a outra da própria Siracusa, chamada Aristômaca. Esta era filha de Hiparino, homem dos mais destacados entre os siracusanos e que comandara com Dionísio da primeira vez que este fora escolhido general supremo para a condução da guerra. Diz-se que desposou as duas no mesmo dia, mas ninguém soube jamais de qual das duas se aproximou primeiro. Partilhou a vida, igualmente, entre ambas: uma e outra comiam com ele e se alternavam em seu leito. O povo de Siracusa teria apreciado que a natural do país prevalecesse sobra a estrangeira, mas o privilégio que coube a esta de ser a dar a Dionísio um filho (o mais velho de sua descendência) sustentou-a contra o preconceito motivado por sua origem. Aristômaca ficou muito tempo com Dionísio sem conceber, se bem que ele desejasse vivamente ter filhos dela: chegou a condenar a morte a mãe da lócria, a quem acusava de utilizar filtros para tornar Aristômaca estéril.

4. Díon era irmão de Aristômaca. De início fora prestigiado por causa da irmã, mas depois, dando provas de suas aptidões, o tirano passou a apreciá-lo pelo que ele era. Dionísio, entre outras marcas de favor, autorizou os tesoureiros a darem a Díon o que ele pedisse, desde que no mesmo dia lhe prestasse contas. Díon mostrava já um caráter altivo, magnânimo e corajoso. Reforçou essas qualidades quando por um divino acaso, alheio aos cálculos humanos, Platão desembarcou na Sicília. Terá sido certamente um deus quem, preparando com grande antecipação os fundamentos da liberdade dos siracusanos e a queda da tirania, levou Platão da Itália para Siracusa e colocou Díon em contato com ele. Foi este, embora ainda muito jovem, de todos os discípulos de Platão, o mais bem aquinhoado para aprender e o mais pronto para escutar as lições de virtude, como o próprio Platão escreve e ele demonstrou por atos.

Criado na corte de um tirano, em presença de costumes degradantes e vivendo uma vida assinalada pelas desigualdades e os temores; mergulhado num luxo de novo rico, nas delícias grosseiras e num tipo de existência que idealizava os prazeres e os lucros, Díon, mal teve acesso a uma doutrina filosófica que exaltava a virtude, sentiu a alma inflamar-se. Em seu entusiasmo pelo bem, imaginou mesmo, com ingenuidade toda juvenil, que aqueles discursos fariam sobre Dionísio uma impressão semelhante e falou-lhe com tanta insistência que convenceu o tirano a arranjar tempo para encontrar e ouvir Platão.

5. Na entrevista, a conversação recaiu principalmente sobre a virtude e insistiu principalmente no tema da coragem: Platão demonstrou que não existem homens menos corajosos que os tiranos. Em seguida, tratando da justiça, fez ver que apenas a vida do homem justo é feliz e a do injusto desgraçada. O tirano, sentindo-se alvejado, não pode suportar aquelas palavras e aborreceu-se com os assistentes que, tocados de admiração, aprovaram o filósofo e pareciam encantados com seu discurso. Por fim, muito irritado, muito exasperado, perguntou a Platão por que viera a Sicília. "Para procurar um homem de bem", foi a resposta. "Pelos Deuses!", exclamou Dionísio, "está claro que ainda não encontraste nada semelhante." Díon desconfiava não pararia por aí e apressou-se a embarcar Platão num trirreme que levaria para a Grécia o espartano Pólis. Dionísio, porém, pediu secretamente a Pólis que desse sumiço em Platão, se possível, durante a travessia, ou pelo menos que o vendesse: "Isso em nada o prejudicará", ironizou, "e sua felicidade em nada será diminuída, pois continuará justo ainda que se torne escravo". Afirma-se que Pólis conduziu Platão para a Egina e pô-lo à venda, porquanto os eginetas estavam então em guerra com os atenienses e haviam decretado que todo ateniense que caísse em suas mãos seria vendido como escravo.

Nem por isso diminuiu o crédito de Díon junto a Dionísio. Viu-se mesmo encarregado de importantes embaixadas, e, em Cartago, alcançou grande estima. Era praticamente a única pessoa cuja franqueza Dionísio suportava, pois dizia sem receio o que lhe vinha à cabeça. Foi o caso, por exemplo, de sua observação a propósito de Gélon. Segundo Dionísio Gélon fora, ele próprio motivo de riso por toda a Sicília (gélota) e os cortesãos fingiram admirar seu trocadilho. Díon, porém, mostrou-se indignado: "No entanto", disse ele, "reinas porque tens crédito graças a Gélon, ao passo que graças a ti ninguém jamais confiaria em ninguém". De fato, Gélon provara que o espetáculo de uma cidade governada por um monarca era o mais belo do mundo — Dionísio, que era o mais feio.

6. Morte de Dionísio. Ascensão de Dionísio, o Jovem

6. Dionísio tinha três filhos da lócria e quatro de Aristômaca, entre os quais duas filhas, Sofronise e Arete. Casara Sofronise com seu filho Dionísio e Arete com seu irmão Teárides. Mas, morta Teárides, Díon desposou Arete, que era sua sobrinha.

Quando Dionísio, doente, parecia a ponto de morrer, Díon tentou dispo-lo a favor dos filhos de Aristômaca, mas os médicos, para agradas aquele que iria herdar o poder, não lhe deram tempo: segundo conta Timeu, quando Dionísio pediu um sonífero, deram-lhe uma droga estupefaciente que o levou do sono ao trespasse.

Entretanto, da primeira vez que Dionísio, o Jovem, reuniu os amigos em conselho, Díon expôs tão bem as necessidade do momento que fez parecer a todos os demais, em termos de inteligência, meras crianças, e em termos de franqueza simples escravos da tirania. É que, por medo e covardia, não buscavam opinar senão para bajular o jovem. Eis, porém, o que mais os espantou: impendendo sobre o império a ameaça cartaginesa, Díon comprometeu-se, caso Dionísio quisesse a paz, a embarcar imediatamente para a Líbia e terminar o conflito nas melhores condições possíveis; caso preferisse a guerra, a fornecer ele próprio cinquenta trirremes prontas para se fazer ao mar.

7. Dionísio ficou admirado com a magnanimidade de Díon e apreciou seu zelo. Outros, porém, consideraram aquela magnificência uma afronta e sentiram-se rebaixados pelo crédito de que ele gozava. Não perderam tempo e tudo fizeram para indispor o jovem contra Díon: este desejava, diziam, abrir ao mar um caminho secreto rumo à tirania e arrancar com seus navios o poder soberano a fim de transferi-lo aos filos de Aristômaca, que eram seus sobrinhos. No entanto, as causas mais aparentes e fortes de tamanha inveja e ódio eram o contraste de suas vidas com a vida de Díon, além do empenho que ele mostrava em fugir à sociedade. Desde o início, com efeito, por meio de prazeres e bajulações, haviam se tornado camaradas e íntimos do tirano, jovem e mal-educado, a quem não cessavam de proporcionar amores, passatempos, bebedeiras, mulheres e outros divertimentos vergonhosos. Assim amolecendo a tirania como o ferro quando perde a sua dureza, fizeram-na parecer humana aos olhos súditos de Dionísio, tirando-lhe o que ela tinha de desumano e embotando-a — mas menos por certa moderação do que por descaso do soberano. De sorte que o relaxamento do jovem, progredindo aos poucos, fundiu aquelas cadeias de aço nas quais Dionísio, o Antigo, pretendia ter aprisionado para sempre sua monarquia. Conta-se que Dionísio, o Jovem, quando se punha a beber, fazia-o durante noventa dias consecutivos, e nesse tempo o palácio, fechado às pessoas e aos assuntos sérios, abrigava unicamente a embriaguez, a derrisão, a música, a dança e bufonaria.

8. Díon, naturalmente, fazia-se detestar porque não se entregava a nenhum prazer, a nenhuma confusão. Caluniavam-no, dando às suas qualidades nomes plausíveis de defeitos: a gravidade passava por desdém, a franqueza por arrogância, as censuras por acusações e a recusa em participar dos excessos alheios por desprezo. Verdade é que ostentava uma altivez natural e uma rudeza que lhe tornava o trato difícil. Não era apenas com o rapazola de ouvidos tapados pelas bajulações que se mostrava desagradável e duro; mesmo aqueles de seu círculo que apreciavam a simplicidade e nobreza de seu caráter censuravam-lhe as maneiras e achavam-no severo demais quando tratava com as pessoas que a ele recorriam por razões políticas. A esse respeito Platão, como que numa inspiração profética, escreveu-lhe mais tarde como que sugerindo que se guardasse "da arrogância, companheira habitual da solidão". No entanto, parecia gozar do mais elevado prestígio em virtude dos negócios que se encarregava; era o único, ou pelo menos, o mais capaz, de salvar a tirania caso ela fraquejasse, mas dava-se conta que não era por afeição, e sim por necessidade e a contragosto, que o tirano o mantinha como seu principal conselheiro.

9. Supondo que Dionísio era o que era devido a carências de educação, Díon concebeu o projeto de voltá-lo para ocupações nobres e propiciar-lhe o gosto das letras e dos conhecimentos, para que deixasse de temer a virtude e tivesse prazer no bem. Por natureza, Dionísio não contava entre os piores tiranos. Seu pai, no entanto, receava que o espírito do filho se elevasse e ele com pessoas inteligentes, conspiraria para arrebatar-lhe o poder. Por isso, mantivera-o em casa, privado de companhia e ignaro dos negócios públicos, ocupando-se, ao que parece, da fabricação de carrinhos, lâmpadas, cadeiras e mesas de madeira.

Dionísio, o Antigo, era mesmo tão desconfiado, tão suspeitoso de todos que não permitia que seus cabelos fossem cortados a tesoura, mas chamava um barbeiro e mandava que esse os queimasse em volta da ca beça com um tição. Nem seu irmão, nem seu filho podiam entrar no quarto com as roupas que trajavam; era preciso que, antes de franquear a soleira, se despisse e vestissem outras, após mostrar-se nu aos guardas. Um dia seu irmão Leptines, querendo mostrar-lhe a configuração de um lugar, pegou a lança de um dos guardas para fazer-lhe o desenho; Dionísio ficou furioso e mandou executar o homem que lhe emprestara a arma.

Afirma que se protegia dos amigos porque os considerava pessoas sensatas, que preferiam exercer a tirania a submeter-se a ela. Condenou à morte um certo Mársias, que promovera a um comando, porque este sonhara que seu senhor estava sendo degolado; Dionísio pretendia que a visão lhe sobreviera em sonho em consequência de uma ideia surgida durante o dia. Ainda assim encolerizara-se com Platão, que não o havia declarado o mais corajoso dos homens — ele, de alma tão medrosa, tão repleta de vícios provocados pela covardia!

10. Quanto ao filho Díon, vendo-o como dissemos corrompido pela falta de educação e depravado nos costumes, exortava-o a voltar-se para os estudos e a pedir insistentemente ao príncipe dos filósofos (tou próton tõn philosóphon) que viesse à Sicília. Quando chegasse, Dionísio por-se-ia em sua mão para moldar o caráter segundo os princípios da virtude e torná-lo parecido ao mais belo e divino dos modelos dos seres, aquele que dirige o universo dócil e tira-o do caos para imprimir-lhe a ordem. Alcançaria assim imensa felicidade para si mesmo e para os cidadãos, pois tudo o que estes concediam então, em seu desencorajamento, às exigências do poder, Dionísio o obteria de boa vontade graças à sabedoria e à justiça de uma autoridade paternal: de tirano, transformar-se-ia em rei. As cadeias de aço não são, como pretendia seu pai, o terror, a violência, o número de navios ou os dez mil bárbaros de guarda — mas o afeto, o zelo, o reconhecimento suscitados pela virtude e pela equidade. Tais laços, sendo mais flexíveis que aqueles, têm mais força para manter um império. Afora estas qualidades, um soberano não é honrado ou invejado porque reveste o corpo com roupas magníficas e povoa a casa com móveis luxuosos, ao passo que, para conversar e arrazoar, mostra-se igual a qualquer um e não procura ornamentar o palácio de sua alma de maneira digna e conveniente a um rei.

11. Como Díon renovasse incansavelmente suas exortações, ilustrando-as com pensamentos de Platão, Dionísio sentiu-se presa de um desejo ardente e apaixonado de ver e ouvir o filósofo. Assim, logo chegavam a Atenas diversas cartas de Dionísio, repetidas solicitações de Díon e de outros, enviadas da Itália pelos pitagóricos, que o instavam a vir e se apossar da alma de um jovem, obnulada pela magnitude de sua autoridade e poder, para dominá-la com raciocínios mais fortes. Platão declara que aquiesceu principalmente por uma questão de honra pessoal, a fim de não parecer ser apenas homem de palavras, que nunca passa aos atos; esperava também que a cura de único homem, órgão diretor de um país, devolvesse a saúde a toda a Sicília enferma.

Mas os inimigos de Díon, que receavam a conversão de Dionísio, convenceram-no a chamar do exílio Filisto, homem letrado e profundo conhecedor dos hábitos dos tiranos, para terem n ele um contrapeso a opor a Platão e sua filosofia. Filisto, com efeito, mostrara-se entusiasta da tirania desde seu estabelecimento e por muito tivera a cargo a guarda da cidadela, cuja guarnição comandava. Insinuava-se que mantinha relações amorosas com a mãe de Dionísio, o antigo que, aliás, o sabia. Mas quando Leptines, que tivera duas filhas de uma mulher por ele roubadas do marido, deu uma a Filisto sem sequer informar Dionísio, este se irritou, prendeu e encarcerou a companheira de Leptines e expulsou da Sicília Filisto. O exilado buscou amparo junto a anfitriões residentes às margens do Adriático e julga-se que foi lá que empregou seus ócios para compor a maior parte de sua História. Não voltou enquanto viveu Dionísio, o Antigo. Só depois da morte dele, como dissemos, a inveja dos cortesãos a Díon trouxe-o como a um instrumento próprio a seus desígnios de consolidar a tirania.

12. Desde seu regresso, pois, Filisto trabalhou pela tirania. Enquanto isso os outros caluniavam Díon aos ouvidos do tirano acusando-o de ter-se entendido com Teódoto e Heráclides para derrubar o regime. Díon, parece, esperava que a presença de Platão contribuísse para eliminar da tirania tudo o que ela tinha de desperdício e exageradamente absolutista, fazendo de Dionísio um soberano moderado e legítimo. Se resistisse e não se deixasse dobrar, Díon resolvera aos siracusanos sua constituição. Não é que aprovasse a democracia, mas julgava que na falta de uma aristocracia sã ela era melhor que o regime tirânico.

13. Tal a situação quando Platão pôs pé na Sicília. Desde o primeiro momento viu-se alvo de considerações e honras extraordinárias. Colocaram-lhe à disposição, quando desceu da trirreme, um dos carros reais magnificamente decorado, e o tirano ofereceu um sacrifício como se a seu império acabasse de sobrevir uma grande felicidade. A reserva observada nos repastos, o bom comportamento da corte e a doçura mostrada pelo próprio tirano em suas audiências levaram os cidadãos a conceber alvissareiras esperanças de mudança. Geral entusiasmo impelia as pessoas para os estudos e a filosofia, e, diz-se, o palácio do tirano foi invadido pela poeira, tanta gente havia lá se entregado pela geometria.

Dias depois, acontecendo no palácio um sacrifício tradicional, o arauto pediu aos deuses, segundo o costume, que por muito tempo mantivessem a tirania ao abrigo de vicissitudes; Dionísio, que se achava de lado, teria resmungado: Não pararás de nos lançar imprecações? "Essas palavras afligiram profundamente Filisto e seus amigos, para quem o tempo e o convívio tornavam de certa maneira invencível a influência de Platão — uma vez que aquela curta frequentação já bastara para modificar e abalar tão significativamente o estado de espírito do rapaz.

14. Não foi, pois, um por um e em segredo, mas todos juntos e abertamente que eles atacaram Díon. "Já não cabem dúvidas", exclamaram, "de que se serve dos discursos de Platão para enfeitiçar Dionísio e levá-lo a abdicar voluntariamente do governo, que será depois transferido aos filhos de Aristômaca, sobrinhos de Díon." Outros acrescentavam, simulando indignação "Outrora os atenienses vieram à Sicília com fortes esquadras e exércitos para perecer e ser exterminados antes de tomar Siracusa. Agora é graças a um único sofista que vão destruir a tirania de Dionísio, persuadindo-o a largar seus dez mil guardas pessoais, suas quatrocentas trirremes, seus dez mil cavaleiros e seus hoplitas muitas vezes mais numerosos para buscar na Academia esse Bem que não se sabe o que é e colocar sua felicidade na geometria. Abandonará, pois a Díon e aos sobrinhos de Díon a ventura que reside no poder, na riqueza e no prazer!".

Tais palavras, de início, suscitaram suspeitas em Dionísio, depois uma cólera e uma animosidade mais manifestas. Enviaram-lhe então, secretamente, uma carta que Díon escrevera às autoridades de Cartago sugerindo-lhes que não negociassem a paz com Dionísio sem que ele próprio estivesse presente às conferências, pois que iria ajudá-los a tudo regular sem risco de fracasso. Dionísio leu a carta à Filisto e, após deliberar com ele, ludibriou Díon por meio de uma pretensa reconciliação, no dizer de Timeu: fez-lhe apenas censuras moderadas e declarou-se disposto a um entendimento; em seguida foram os dois para junto da cidadela, à beira-mar, e ali Dionísio mostrou-lhe a carta e acusou-o de aliar-se com os cartagineses contra ele. Díon tentou justificar-se, mas Dionísio não queria ouvir nada: fê-lo subir imediatamente, tal qual estava, para bordo de um pequeno navio e ordenou aos marinheiros que o levassem para a Itália.

15. Essa conduta foi e pareceu cruel a todos. As mulheres encheram com suas lamentações a residência do tirano, enquanto a cidade de Siracusa se exaltava na expectativa de uma pronta revolução em consequência dos dissabores de Díon e da desconfiança em relação ao tirano. Dionísio assustou-se. Tentou consolar os amigos de Díon e as mulheres afirmando que não o mandara para o exílio, mas em viagem, receando que Díon, se permanecesse ali, o irrita-se com sua arrogância e o forçasse a tomar medidas mais drásticas. Por outro lado, entregou dois navios aos parentes de Díon recomendando-lhes que embarcassem neles parte das riquezas e criadagem do exilado, e a levassem para o Peloponeso. Díon possuía muitos bens e um aparato doméstico quase real, com toda espécie de móveis e objetos que os amigos reuniram e lhe entregaram. Além disso, recebeu inúmeros presentes das mulheres e companheiros, a ponto de o dinheiro e o luxo fazê-lo brilhar entre os gregos e a opulência do banido trazer à luz toda a potência da tirania.

16. Dionísio transferiu imediatamente a residência de Platão para a acrópole, a pretexto de honrá-lo com uma hospitalidade amistosa — mas, de fato, para trazê-lo de olho e impedir que, indo ao encontro de Díon, patenteasse a injustiça de que este fora vítima. No entanto, com o tempo e o convívio, tal qual um animal que se habitua ao contato do homem, Dionísio foi se acostumando a aceitar a companhia e as palavras do filósofo, e entrou a amá-lo com um amor tirânico. Pretendia que Platão, em troca, só a ele amasse e o apreciasse mais do que a ninguém. Estava até disposto a lhe entregar os deveres da soberania se desistisse da amizade de Díon pela sua. Grande desgraça foi para Platão aquela paixão de maníaco, parecida ao ciúme dos amores vis, paixão que suscitava em curto espaço de tempo repetidos acessos de cólera seguidos de reconciliações e súplicas. Dionísio ansiava por beber-lhes as palavras e associar-se às suas investigações filosóficas, enquanto temia aqueles que o queriam afastar dois estudos como de algo próprio a corrompê-lo. Estalando então uma guerra, deixou Platão prometendo-lhe chamar Díon de volta na primavera. Faltou à palavra, mas enviou à Díon as rendas de sua propriedade e suplicou a Platão que o desculpasse pela demora, provocada pela guerra; uma vez restabelecida a paz, faria vir a Díon o mais depressa possível, motivo pelo qual lhe pedia que ficasse tranquilo, sem provocar revoltas e sem desacreditá-lo aos olhos dos gregos.

17. Platão esforçou-se nesse sentido e familiarizou Díon com a filosofia retendo-o na Academia. Em Atenas, Díon residia na casa de um tal Calipo, homem de suas relações, e adquiriu para seus lazeres um domínio rural de que mais tarde, ao voltar à Sicília, fez presente a Espeusipo, seu melhor amigo em Atenas e com quem mais convivia. Platão queria temperar a abrandar o caráter de Díon por intermédio de conversações pontilhadas, aqui e ali, de delicados jogos de espírito. Ora, ninguém melhor para isso do que Espeusipo, a quem Timão chamou "mestre em chalaça" em suas Paródias (Sílloi). Devendo Platão organizar na qualidade corego um grupo de crianças, foi Díon que ensaiou os coreutas e assumiu todas as despesas; o filósofo cedeu-lhe essa oportunidade de fazer uma liberalidade aos atenienses, que proporcionaria mais prestígio a Díon que honra a si mesmo.

Díon percorreu também outras cidades da Grécia, empregando seus lazeres em frequentar, por ocasião de festas, os homens mais sábios e hábeis em política. Mostrava sempre, não uma conduta imprópria, tirânica ou orgulhosa, mas temperança, virtude, coragem e aplicação rígida aos estudos filosóficos. Alcançou assim o afeto e a admiração de todos, como também honras públicas que as cidades lhe conferiram por decreto. Os lacedemônios fizeram-no até cidadão de Esparta sem se preocupar com a cólera de Dionísio, que com muito zelo os ajudava então em seu conflito com os tebanos. Conta-se que certa feita Díon, querendo avistar-se com Pteodoro de Mégara, dirigiu-se à sua casa. Esse personagem era, ao que tudo indica, um homem rico e poderoso, e Díon encontrou à porta uma multidão de solicitadores que, devido ao grande número de negócios que ocupavam Pteodoro, não conseguiam chegar até ele. Percebendo seus amigos impacientes e já começando a resmungar, Díon teria dito: "Por que censurá-lo: Nós fazemos o mesmo em Siracusa".

18. Com o passar do tempo Dionísio, invejoso de Díon e receando a popularidade de que ele gozava entre os gregos, deixou de mandar-lhe as rendas e pôs sua fortuna nas mãos de administradores particulares. Querendo, por outro lado, anular a péssima reputação que tinha junto aos filósofos por causa de sua atitude para com Platão, cercou-se de diversas pessoas que passavam por eruditas. Tomando como ponto de honra ultrapassar a todos na discussão, empregava bisonhamente as lições de Platão, compreendidas às avessas. Nessas ocasiões lamentava as sua ausência e acusava-se a si mesmo por não ter sabido aproveitar o convívio do filósofo e ouvir o que ele dizia de acertado. Tirano que era, sempre obnulado por suas paixões e facilmente levado pelos seus desejos, já não pensava senão em Platão: valendo-se de todos os recursos, convenceu o pitagórico Árquitas a chamar Platão e fazer-se de fiador de suas condições (fora, com efeito, por intermédio de Árquitas que Platão e Dionísio haviam travado laços de amizade e hospitalidade). Árquitas enviou Arquedemo a Platão. Dionísio, de seu lado, despachou uma trirreme com amigos para convidar o filósofo e escreveu em termos bastante claros e formais que não concederia a Díon nenhum tratamento favorável se Platão se recusasse a voltar à Sicília; mas daria tudo se ele deixasse se convencer. Díon recebeu diversas cartas da irmã e da esposa, que o instavam a obter de Platão assentimento ao convite de Dionísio sem mais subterfúgios. Assim foi que Platão, segundo ele mesmo diz,

"veio pela terceira vez ao estreito de Cila
Para enfrentar de novo a funesta Caríbdis"

19. Sua chegada encheu Dionísio de alegria e a Sicília de novas esperanças: a ilha inteira desejava ardentemente que Platão levasse a melhor sobre Filisto e a filosofia prevalecesse sobre a tirania. As mulheres se açodaram em torno dele e Dionísio testemunhou-lhe extraordinária confiança, como não costumava fazer a ninguém mais: permitia que se aproximasse sem ser revistado. Frequentemente oferecia-lhe altas somas de dinheiro, que Platão recusava; Aristipo de Cirene então dizia "Dionísio não se arrisca nada se mostrando munificente, pois se a pessoas como eu dá pouco, quando queríamos mais, a Platão oferece muito e ele não aceita".

Depois das primeiras congratulações, Platão começou a falar de Díon. Primeiro vieram as dilações, depois as censuras, depois as querelas. nada disso transpirava porque Dionísio dissimulava e, prodigalizando atenções e honras a Platão, ia tentando afastá-lo de Díon; Platão, por seu turno, pelo menos no início, escondia a desconfiança que lhe inspirava a falsidade de Dionísio e aguardava com calma. Estavam nessas decepções recíprocas, que acreditavam ignoradas de todos, quando Helícon de Cízico, familiar de Platão, predisse um eclipse do sol que de fato se produziu. O tirano, bastante admirado, presenteou-o com um talento. Aristipo, chalanceando com os outros filósofos, declarou que também ele tinha um fenômeno extraordinário a predizer; instado a explicar-se "Pois bem", ironizou, "anunciou que dentro de muito pouco tempo Platão e Dionísio se tornarão inimigos". Por fim Dionísio pôs à venda os bens de Díon e deitou mão ao produto. Em seguida, transferiu Platão, que se alojava no jardim vizinho ao palácio, para o meio dos mercenários, que o odiavam e queriam matá-lo porque aconselhava Dionísio a abdicar da tirania e viver sem guardas.

20. Tal perigo a que Platão se achava exposto quando Árquitas, informado, apressou-se a enviar uma triacôntera com embaixadores encarregados de reclamar de Dionísio a pessoa do filósofo lembrando-lhe que Platão viera a Siracusa depois que ele, Árquitas, lhe garantiu a segurança. Dionísio, para desmentir sua hostilidade, ofereceu banquetes a Platão e prodigalizou-lhe mostras de amizade no momento da partida, permitindo-lhe dizer apenas: "Decerto, Platão, vais falar muito mal de mim aos filósofos de teu círculo". Ao que Platão retrucou sorrindo: "Tomara que nunca nos faltem assuntos na Academia para que não precisemos sequer mencionar-te!". Foi assim, diz-se, que Platão partiu. Todavia, o que ele mesmo conta não concorda inteiramente com esse relato.

21. Díon não gostou nada da conduta de Dionísio e, pouco depois, ao saber do destino imposto à sua mulher, rebelou-se abertamente contra ele. A propósito do incidente, uma carta de Platão a Dionísio contém uma alusão velada. Eis do que se tratava. Após a expulsão de Platão, Dionísio, ao despedir-se de Platão, pedira-lhe que perguntasse reservadamente a Díon se ele não se oporia a que sua esposa fosse dada em casamento a outro homem, pois corria um boato — verdadeiro ou inventado pelos inimigos de Díon — de que aquela união não lhe aprazia e ele não se dava bem com a mulher. Quando Platão voltou a Atenas e conversou com Díon sobre esses assuntos, escreveu a Díon uma carta clara em todos os sentidos, menos nesse ponto, que só o destinatário poderia compreender: dizia que falava a Díon do caso e que ele certamente se aborreceria se Dionísio pusesse o projeto em execução. Na época havia ainda grandes esperanças de reconciliação, de sorte que Dionísio nada fez contra sua irmã e permitiu-lhe ficar com o filho que tivera de Díon. Mas depois que qualquer acordo se tornou inviável e Platão, visitando novamente a ilha, partiu em condições odiosas, deu Arete, malgrado ela mesma, a seu amigo Timócrates. Nisso não imitou a moderação que seu pai mostra pelo menos uma vez em situação análoga. Conta-se, com efeito, que Polixeno, marido de Teste, irmã de Dionísio, o Antigo, fizera-se inimigo do tirano e, receoso, fugira da Sicília.  Dionísio mandou chamar a irmã e queixou-se por ela não o ter advertido da fuga do marido.

Teste, sem se perturbar, nem, por Zeus, mostrar-se assustada, replicou: "Acreditas mesmo, Dionísio, que eu seja uma mulher tão frágil e covarde a ponto de, prevenida da partida do meu marido, não embarcar com ele e ir partilhar de sua sorte? Infelizmente, eu nada soube com antecedência. Para mim seria mais belo ser chamada a esposa do banido do que a irmã do tirano". Parece que Dionísio admirou muito a franqueza de Teste e os siracusanos sua virtude, pois, ruída a tirania, ela conservou as honras e o modo de vida de uma princesa real. Ao morrer, os cidadãos acompanharam-na oficialmente ao túmulo. Essa foi uma digressão que não me pareceu inteiramente destituída de interesse.

22. Díon, a partir de então, optou pela guerra. Platão preferiu ficar à margem do conflito, em virtude dos laços de hospitalidade que o uniam a Dionísio e também de idade. Mas Espeusipo e os outros amigos de Díon apoiaram-no e o exortaram-no a libertar a Sicília, que lhe estendia acolhedoramente os braços. É de crer que Espeusipo, enquanto Platão esteve em Siracusa, tenha se misturado aos habitantes para melhor conhecer suas disposições. De início, a ousadia de sua linguagem provocara-lhes suspeitas, como se tratasse de uma prova mediante a qual o tirano procurasse sondá-los, mas com o tempo ganharam confiança. Ora todos diziam a mesma coisa: pediam, suplicavam a Díon que regressasse sem navios, sem hoplitas e sem cavalheiros, pois bastaria que aparecesse sozinho a bordo de cargueiro e emprestasse sua pessoa e seu nome aos sicilianos contra Dionísio. Encorajado por esse relatório de Espeusipo, Díon ordenou o recrutamento secreto de mercenários, utilizando-se de intermediários para camuflar seus desígnios. Secundaram-no diversos políticos e filósofos, entre os quais Eudemo de Chipre (cuja morte inspirou a Aristóteles seu diálogo Da Alma) e Timônides de Lêucade.

Atraíram também o tessálio Miltas, um adivinho que tomara parte dos colóquios da Academia. Dentre os banidos pelo tirano, que não eram menos de mil, apenas vinte e cinco participaram da expedição: os outros, por covardia, traíram a causa. A base da partida foi a ilha de Zacinto, onde todos os combatentes se reuniram. Não chegavam a oitocentos, mas todos se haviam celebrizado numa série de importantes campanhas, tinham o corpo maravilhosamente exercitado, experiência e audácia incomparáveis. Podiam, assim, inflamar e excitar à luta as multidões que Díon esperava ver unir-se-lhe na Sicília.

23. Os combatentes, de início, ao saber que a frota aparelhava contra Dionísio e a Sicília, foram tomados de pânico e supuseram que Díon, cego de cólera e atacado de loucura furiosa, ou então por falta de perspectivas favoráveis, atirava-se para uma empresa desesperada. Revoltaram-se contra os oficiais e recrutadores, que não os haviam informado logo de que guerra se tratava. Mas Díon, em discurso, enumerou-lhes as fraquezas secretas da tirania e afirmou que os conduzia menos como soldados que como chefes, a fim de que comandassem os siracusanos e demais sicilianos de há muito prontos para a rebelião. Depois de Díon, Alcímenes, companheiro de armas deles e o primeiro dos aqueus pelo nascimento e reputação, falou-lhes também. Deixaram-se persuadir.

Estava-se no pico do verão, os ventos etésios reinavam no mar e na lua cheia. Díon, tendo preparado um magnífico sacrifício a Apolo, dirigiu-se em procissão ao santuário do deus, à testa dos soldados inteiramente armados. Após o sacrifício, mandou-lhes um festim no estádio de Zacinto. Admiraram as copas de ouro e prata e as mesas, cujo esplendor ultrapassava a riqueza de um simples; e comentaram que um homem já maduro, dono de semelhante fortuna, não se meteria em empresa tão duvidosa se não acalentasse sólidas esperanças e seus amigos da ilha lhe não fornecessem meios suficientes de ação.

24. Após as libações e preces de costume, sobreveio um eclipse da lua. O fenômeno não inquietou Díon, familiarizado com os períodos eclípticos e sabedor de que a sombra projetada sobre a lua é efeito da oposição da terra ao sol (tês gês tèn antíphraxin pròs tòn hélion). Mas a perturbação dos soldados tinha de ser acalmada. O adivinho Miltas avançou para o meio deles e instou-os a recobrar a coragem e esperar por uma vitória, pois a divindade anunciava o eclipse de uma das potências que presentemente brilhavam; ora, nada havia de mais brilhante que a tirania de Dionísio, cujo fulgor eles extinguiram mal puseram pé na Sicília. Isso Miltas declarou publicamente a todos. Quanto às abelhas que apareceram nos navios e cobriram a popa do de Díon, o adivinho revelou a este, em particular e a seus amigos mais próximos, seu temos de que as nações do chefe, inicialmente coroadas de êxito, não passassem pouco depois de flores murchas.

Diz-se que também Dionísio recebeu da divindade numerosas advertências sob forma de prodígios. Uma águia arrebentou a lança de um dos seus guardas, levou-a pelos ares e deixou-a cair num abismo. A água do mar que banha o sopé da Acrópole tornou-se doce e potável durante um dia inteiro, conforme puseram constatar todos que a provaram. Nasceram nos domínios de Dionísio porcos bem-conformados, mas sem orelhas. Os adivinhos explicaram que este último era um presságio de revolta e desobediência, e que os cidadãos não mais dariam ouvidos aos tiranos. Quanto à doçura da água do mar, prenunciava aos siracusanos a mudança de uma situação penosa e má para outra melhor. Finalmente, sendo a águia o servidor de Zeus e a lança o símbolo do comando e do poder, o soberano dos deuses indicava assim a destruição completa da tirania. Isso é o que conta Teopompo.

25. Os soldados de Díon foram embarcados em dois navios de transporte, que eram acompanhados por um terceiro. menor, e por duas triacônteras. Como armas, afora as que equipavam suas tropas, levava dois mil escudos, grande quantidade de dardos e lanças, e abundante provisões. Não queria que nada faltasse durante a travessia, pois estaria constantemente a mercê dos ventos e do mar alto: temia a terra, sabendo que Filisto, ancorado na costa da Iapígia, espiava sua passagem. Após doze dias de navegação com vento franco e ameno, ao décimo terceiro avistaram o Páquino, cabo da Sicília. O piloto Proto aconselhou-os a desembarcar ali imediatamente, explicando que, se se afastassem da terra e do promontório, perderiam muitos duas e noites em alto-mar, à espera do vento sul em pleno verão. No entanto Díon, que temia operar um desembarque nas proximidades do inimigo e preferia, por isso, descer mais longe, ordenou que se dobrasse o cabo Páquino. Mas então um vento norte, soprando com ímpeto e sacudindo as vagas, arrebatou os navios para longe da Sicília. Relâmpagos e trovões, riscando os céus ao levantar-se do Arcturo, desencadearam grossa tempestade, que caía em bátegas violentas. Os marinheiros, extremamente inquietos, vogavam ao acaso quando, de súbito, perceberam que as ondas empurravam o navio para Cercina, perto da Líbia, do lado em que essa ilha é mais escarpada e de mais perigosa aproximação. Por pouco não eram esmagados contra os rochedos, que só conseguiram evitar com imensa dificuldade e utilizando ganchos. Acalmada finalmente a tempestade, toparam com uma embarcação e souberam que se encontravam não longe das chamadas Cabeças da grande Sirte. Estavam desanimados devido à calmaria e navegaram sem rumo. Súbito, uma brisa se levantou do sul e pôs-se a soprar de terra, fenômeno tão inesperado que mal puderam crer nele. Aos poucos, porém, a brisa foi aumentando e ganhou a força; desfraldaram então todas as velas e, implorando aos deuses, alcançaram ao largo para rumar da Líbia para a Sicília. Depois de uma rápida travessia de quatro dias, fundearam em Minoa, cidadezinha da Sicília então sob dependência de Cartago. O governador cartaginês Sinalo, hóspede e amigo de Díon, estava lá. Ignorando que se tratava de Díon e sua expedição, tentou opor-se ao desembarque dos soldados. Estes, porém, armados e a passo de carga, lançaram-se para fora dos navios. Não mataram ninguém, pois Díon os proibira disso devido à sua amizade com o cartaginês, mas, perseguindo os fugitivos, tomaram a praça. Depois que os chefes se encontraram e se saudaram, Díon devolveu a cidade a Sinalo, intacta; Sinalo, por seu turno, concedeu hospitalidade às tropas de Díon e forneceu-lhes o de que precisavam.

26. O que mais lhe dava segurança era a ausência fortuita de Dionísio, que acabara de embarcar para Itália com oitenta navios. Assim, malgrado as recomendações de Díon, que os aconselhava a descansar depois de tantas fadigas a bordo, recusaram-se a ficar e, ávidos para aproveitar a oportunidade, pediram que o chefe os levasse à Siracusa. No caminho, os primeiros a se juntar-se-lhe foram duzentos cavaleiros de Ácraga estacionados perto de Ecnomo; surgiram depois homens de Gela.

A notícia da expedição, espalhando-se, logo alcançava Siracusa. Timócrates, que desposara a mulher de Díon, irmã de Dionísio, estava à testa dos fiéis que o tirano deixara na cidade. A toda pressa, enviou a Dionísio um mensageiro com uma carta onde lhe anunciava a chegada de Díon. Ele próprio ocupou-se, enquanto isso, em sufocar os levantes e os tumultos da cidade, cujos habitantes, superexitados, ainda estavam, no entanto tranquilos, por desconfiança e medo. Sucedeu ao correio mandado por Timócrates uma aventura extraordinária. Depois de passar à Itália e atravessar o território do Régio, apressava-se na direção da Caulônia, onde se achava Dionísio, quando topou com um amigo que carregava uma vítima recém-imolada. Recebeu um pedaço de carne e prosseguiu caminho. Entretanto, como caminhara boa parte da noite, a fadiga obrigou-o a dormir um pouco; estendeu-se, tal como estava, num bosque ao lado da estrada. Atraído pelo cheiro, apareceu um lobo, o qual, abocanhando a carne que estava dentro do alforje e a carta, que o homem colocara dentro dele. Percebendo o que acontecera ao despertar, procurou em vão pelos arredores, mas nada encontrou. Resolveu então não prosseguir viagem para não aparecer diante do tirano sem a carta, mas fugir e desaparecer.

27. Dionísio deveria então saber, tardiamente e por intermédio de outros, que a guerra grassava na Sicília. Prosseguindo Díon, cidadãos de Camarina e um afluxo considerável de siracusanos espalhados pelos campos subleveram-se para juntar-se a ele. Leontinianos e campanianos guardavam as Epípoles com Timócrates; mas, como Díon fizesse chegar até eles a falsa informação de que atacaria primeiro suas cidades, deixaram Timócrates e partiram para defender seus concidadãos. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Díon, que estava acampado perto de Acras, os soldados receberam ordem de levantar-se em plena noite e avançar até às margens do Anapo, a apenas dez estádios da cidade. Ali, Díon fez alto e ofereceu um sacrifício ao rio, invocando também o sol levante. Os adivinhos predisseram-lhe, da parte dos deuses, a vitória, e os presentes, vendo-o coroado por causa do sacrifício, coroaram-se a todos num assomo comum.

Não eram menos de cinco mil os que haviam engrossado o exército de Díon durante sua marcha. Pobremente armados com o que lhes caíra nas mãos, supriam com ardor a insuficiência do armamento, a ponto de, quando Díon ordenou a partida, porem-se a correr gritando e convidando-se uns aos outros à liberdade.

28. Entre os siracusanos que haviam permanecido na cidade, os notáveis, vestidos de branco, dirigiram-se aos portões para receber Díon. Enquanto isso, o povinho caía sobre os amigos do tirano e capturava os chamados delatores, sujeitos impiedosos e inimigos dos deuses que, circulando pela cidade e metendo-se com os siracusanos, esmiuçavam todos os seus negócios para transmitir aos tiranos os pensamentos e palavras de cada um. Foram os primeiros a ser castigados, e quem quer que encontravam abatiam a bastonadas. Timócrates, não conseguindo juntar-se aos guardiões da Acrópole, saltou para um cavalo, fugiu da cidade e pelo caminho foi enchendo o país de terror e confusão: exagerava as forças de Díon para não parecer ter abandonado a Siracusa com medo de um perigo nada grave. Apareceu então Díon à frente de todos, coberto de armas brilhantes, ladeado por seu irmão Mégacles e pelo seu ateniense Calipo, os três ostentando coroas na cabeça. Seguiam-no os cem mercenários que constituíam a guarda de Díon. Os demais, muito bem equipados eram conduzidos por seus oficiais. Os siracusanos viam-no como uma procissão religiosa e sagrada, que trazia para a cidade, depois de quarenta e oito anos, a liberdade e a democracia.

29. Depois que Díon atravessou a porta Temêtida, mandou soar a trombeta para pôr fim ao tumulto e proclamar, através do arauto, que Díon e Mégacles, vindos para sacudir a tirania, libertavam do jugo os siracusanos e os demais sicilianos. Ele seguida, querendo falar ele próprio aos habitantes subiu pela Acradina enquanto, dos lados da rua, os siracusanos dispunham vítimas sacrificiais, mesas e crateras; à sua passagem lançavam-lhe flores e dirigiam-lhe preces como a um deus. Havia sob a Acrópole e as Pentápilas um quadrante solar em lugar elevado e bem visível, que Dionísio mandara construir. Nele subiu Díon para arengar ao povo e exortar os cidadãos a defender sua liberdade. Cheios de alegria, os siracusanos demonstraram toda sua afeição nomeando-o, e a seu irmão, estrategos com plenos poderes; a pedido dos dois, acrescentaram-lhes vinte colegas, metade dos quais eram banidos que haviam regressado com Díon. Os adivinhos viram com bons olhos o fato de Díon, falando ao povo, ter sob seus pés o monumento erigido pelo orgulho do tirano; no entanto, como se tratava de um quadrante solar, sobre o qual estava ainda quando foi eleito estratego, recearam que Díon logo sofresse, em seus empreendimentos, algum giro da fortuna. Em seguida assenhorou-se das Epípoles, soltou os cidadãos que lá se achavam presos e mandou construir fortificações contra a cidadela. Seis dias depois Dionísio penetrou por mar na acrópole, enquanto carretas traziam a Díon as armas que ele deixara com Sinalo. Distribuiu-as aos cidadãos. Os que não as receberam equipararam-se como puderam, e todos, mostraram-se soldados aguerridos

30. Dionísio começou por enviar emissários, a título pessoal, para sondar as intenções de Díon. Este aconselhou-o a tratar com a comunidade dos cidadãos, agora livres, e os contatos se deram por intermédio de embaixadores. Eram portadores de propostas conciliatórias da parte do tirano, que prometia a diminuição de impostos e abrandamento dos encargos militares, caso estes não houvessem sidos votados pelos siracusanos — que, todavia, motejavam de semelhantes promessas. Díon respondeu aos embaixadores que Dionísio não deveria mais tentar negociar antes de renunciar à tirania; depois que abdicassem ele mesmo garantiria sua segurança e proporcionar-lhe-ia as melhores condições que pudesse, tendo em vista seu parentesco. Dionísio saudou com agrado essas ofertas e novamente despachou embaixadores a pedir que alguns siracusanos se apresentassem na acrópole, onde, numa troca de concessões, tratariam de interesses comuns. Foram-lhe então enviadas pessoas credenciadas por Díon. Logo, na cidadela, espalhava-se pela cidade o persistente rumor de que Dionísio iria abandonar a tirania, mais por vontade própria do que para agradar a Díon. O procedimento do tirano, no entanto, não passava de solércia e maquinação contra os siracusanos, pois reteve prisioneiros os enviados da cidade e, na manhã seguinte, depois de fartar de vinho puro seus mercenários, lançou-os a passo de carga contra fortificação dos inimigos. Ante o inesperado do ataque e a audácia dos bárbaros que em tumulto começavam a demolir o muro, atirando-se contra os siracusanos, nenhum destes ousou resistir. Mas os soldados estrangeiros de Díon, ao primeiro alarde, acorreram ao seu socorro. Infelizmente, estes mercenários também não sabiam o que fazer para ajudá-los e não ouviam as ordens devido aos gritos e ao alarido dos siracusanos, os quais fugiam em todas as direções e se misturavam a eles. Por fim, Díon, constatando que suas palavras não eram ouvidas e querendo dar o exemplo, lançou-se na primeira fileira contra os bárbaros. Terrível luta se generalizou em torno dele, que era reconhecido tanto pelos amigos quanto pelos inimigos na confusão para a qual todos se atiravam ululando. Díon estava já demasiado alquebrado pela idade para semelhantes combates. Não obstante, graças à astúcia e à coragem, resistiu aos assaltantes; infelizmente, ao fazê-los recuar, foi ferido na mão por um golpe de lança. A couraça mal o preservava dos dardos e golpes assestados de perto, muitos projéteis atravessavam seu escudo, os quais, partindo, deram com ele por terra. Soerguido pelos soldados, colocou no comando Timônides e foi percorrer a cidade a cavalo a fim de deter os siracusanos fugitivos.

Em seguida, levando os mercenários que guarneciam a Acradina, lançou-os frescos e cheios de ardor contra os bárbaros fatigados, que já começavam a desesperar de sua tentativa. Haviam se vangloriado de poder tomar ao primeiro embate a cidade inteira, mas, topando com homens dispostos a ferir e a bater-se, recuaram na direção da acrópole. Vendo-os dobrar-se, os gregos pressionaram-nos com renovado empenho, afugentaram-nos e encerraram-nos em suas muralhas. Ao passo que Díon não teve mais do que setenta e quatro mortos, foram consideráveis as perdas do inimigo.

31. Depois da brilhante vitória, os siracusanos deram de presente cem minas aos soldados estrangeiros, que por sua vez ofereceram a Díon uma coroa de ouro. Entrementes, desceram da parte de Dionísio arautos que traziam a Díon cartas das mulheres de sua família. Uma delas sustentava o seguinte sobrescrito: "A meu pai, de Hiparino". Era o nome do filho de Díon. Timeu afirma que ele se chamava Areteu, do nome de sua mãe, Arete, mas nesse ponto acho melhor dar fé a Timônides, amigo e companheiro de armas de Díon. As outras cartas foram lidas aos siracusanos: continham apenas súplicas e jeremiadas das mulheres. Quanto à que parecia ser do filho de Díon, não quiseram os siracusanos que fossem aberta em público; Díon, porém, fê-lo, malgrado eles. Tinha sido escrita por Dionísio e, embora formalmente endereçada a Díon, visava na realidade os siracusanos. Sob a aparência de uma justificação e um pedido, seu objetivo era caluniar Díon. Nela se lembrava o zelo com que Díon trabalhara em favor da tirania e sobravam ameaças contra as pessoas que lhe eram mais caras: a irmã, o filho e a mulher, tudo misturado a terríveis esconjuros e queixas. O que mais impressionou Díon foi que Dionísio o instava a não abolir a tirania, mas guardá-la para si evitando dar liberdade a homens cheios de cólera e rancor; melhor seria que exercesse o poder de modo a assegurar a integridade de parentes e amigos.

32. A leitura dessas cartas não inspirou aos siracusanos a justa admiração que deveriam provocar neles a constância e magnanimidade de Díon, que tão resolutamente sacrificava os interesses de família à virtude e equidade. Ao contrário, entraram a temê-lo, suspeitosos de que verdadeiramente fossem poupar o tirano — e afastaram-se dele para seguir a outros chefes.

O que mais os excitou foi a notícia de que Heráclides chegava por mar. Tratava-se de um banido, esse Heráclides, bom general e bem conhecido graças aos comandos que exercera sob os tiranos, mas de caráter instável, leviano em tudo e incerto quanto à possibilidade de compartilhar o poder e a glória na condução dos negócios públicos. Após uma desavença com Díon no Peloponeso, decidira equipar uma frota particular contra o tirano e, chegando a Siracusa com sete trirremes e três navios de transporte, achou Dionísio novamente assediado e os siracusanos sublevados. Logo se insinuou nas boas graças do povo, pois possuía o dom natural de comover e convencer multidões que só desejam ser bajuladas. Aliciou, pois, o povo, e manobrou-o à vontade, tanto mais que a gravidade de Díon estomagava as pessoas, sendo considerada insuportável e imprópria para a vida pública. A massa, no fundo, o que queria era ser governada democraticamente antes mesmo de construir um povo de verdade — tamanha a audácia, tamanho o relaxamento consecutivos à vitória!

33. Para começar, os siracusanos, reunindo-se em assembleia por iniciativa própria, nomearam Heráclides comandante da frota. Díon, subindo à tribuna, queixou-se de que a concessão daquela autoridade anulava a que lhe havia sido outorgada antes, uma vez que não disporia de plenos poderes se um outro comandasse no mar. Os siracusanos, de mau grado, retiraram o cargo a Heráclides. Feito isso, Díon chamou Heráclides à sua casa e recriminou-o moderadamente pela tentativa que ele empreendera, contra o bem público, de disputar honras num momento que o menor deslize poderia deitar tudo a perder. Em seguida, convocou nova assembleia, na qual fez com que Heráclides fosse nomeado comandante da frota e aconselhou os cidadãos a que lhe dessem uma guarda pessoal como a que ele próprio tinha. Heráclides, em palavras na aparência, andava cheio de considerações para com Díon, reconhecia as obrigações que assumira com ele, seguia-o humildemente e executava suas ordens. Em segredo, no entanto, esforçava-se por corromper a multidão e os revolucionários, acabando por provocar tais problemas a Díon que verdadeiramente o pôs em embaraços. Díon propunha entendimentos para deixar sair Dionísio da cidadela? Acusavam-no de querer poupar e salvar o tirano. Prosseguia com o assédio, para não contrariar ninguém? Sibilava-se que prolongava a guerra a fim de obter mais poderes e dominar os cidadãos pelo medo.

34. Havia um certo Sósis, muito conhecido dos siracusanos por sua crapulice e insolência. Mas não viam senão um acúmulo de liberdade em sua linguagem desenfreada. Esse indivíduo, que conspirava contra Díon, numa das sessões da assembleia levantou-se e cobriu de injúrias os siracusanos, que não percebiam que haviam sido livrados de uma tirania assinalada pela embriaguez e pelo embotamento apenas para acolher um déspota sóbrio e alerta. Depois de assim mostrar-se abertamente inimigo de Díon, deixou a praça pública; no dia seguinte, porém, viram-no correr nu pela cidade, a cabeça e as faces ensanguentadas e como que fugindo de perseguidores. Nesse estado irrompeu na praça pública, onde gritou ter sido vítima de uma armadilha montada pelos mercenários de Díon. Dizendo isso, mostrava a cabeça ferida. Inúmeros siracusanos partilhavam sua indignação e aliaram-se a ele contra Díon, bradando que esse se conduzia como tirano cruel pondo em perigo a vida dos cidadãos para roubar-lhes a liberdade de palavra. Entretanto, apesar do tumulto que imperava na assembleia, Díon adiantou-se no intuito de justificar-se. Revelou que Sósis era irmão de um dos guardas pessoas de Dionísio e que fora por instigação desse irmão que andava a disseminar querelas e desordens na cidade — pois Dionísio não tinha outro meio de salvação a não ser a discórdia e a desconfiança mútua dos cidadãos. Os médicos, examinando os ferimentos de Sósis, julgaram-no muito superficial para provir uma cutilada. Com efeito, o corte feito por uma espada é profundo sobretudo no meio, devido ao peso da arma; ora, o de Sósis era raso em toda sua extensão e denunciava repetidas tentativas, verossimilmente porque a dor o forçara a parar para em seguida recomeçar. Apareceram entrementes alguns indivíduos notáveis mostrando uma navalha à assembleia. Contaram que, encontrando na rua um Sósis ensanguentado e a gritar que fugia dos mercenários de Díon, os quais o haviam ferido, haviam iniciado imediatamente a perseguição e não viram ninguém; acharam, porém, uma navalha caída no chão, numa gruta onde haviam visto sair Sósis.

35. Já era má a situação de Sósis quando, a essas provas, veio juntar-se o testemunho de seus escravos, que garantiam haver saído ele sozinho com a navalha, sendo ainda noite. Os acusadores de Díon retiraram então a queixa. A seguir, o povo votou a pena de morte contra Sósis, e reconciliou-se com Díon.

O povo, no entanto, continuou a suspeitar dos mercenários de Díon, tanto mais que quase todos os combates contra o tirano agora aconteceram no mar. Filisto, com efeito, chegara de Iapígia em socorro de Dionísio à frente de grande número de trirremes; ora, como aqueles soldados estrangeiros eram infantes, os siracusanos cuidaram não mais precisar deles para a guerra e até tentaram mantê-los sob controle, já que eram um povo de marinheiros cuja força residia na esquadra. Sua altivez aumentou ainda mais com a vitória naval alcançada sobre Filisto, ao qual trataram em seguida com bárbara crueldade. É verdade que Éforo afirma ter ele se suicidado quando seu navio foi capturado. Mas Timônides — que desde o começo tomara parte com Díon em todas as ações da guerra — conta numa carta endereçada ao filósofo Espeusipo que Filisto foi apanhado vivo na trirreme, que encalhara; despojaram-no da couraça, deixaram-no completamente nu e o crivaram de ultrajes — a ele, que era um velho — para depois cortar a cabeça e enviar o cadáver aos meninos da cidade, recomendando que o arrastassem pela Acradina e o atirassem para os Latominias. Timeu, pormenorizando esses horrores, diz que os meninos puxaram o corpo de Filisto pela perna manca e o foram levando pelas ruas em meio às zombarias dos siracusanos, que viam arrastado pela perna aquele que dissera "Dionísio não deixará jamais a tirania montado num corcel ágil, mas agarrado pela perna". Filisto, porém, atribuíra essa frase dirigida a Dionísio, não a si próprio, mas a outra pessoa.

36. Timeu, pretextando com justiça o zelo e a fidelidade de Filisto em relação à tirania, inunda sua obra de acusações contra ele. Talvez se possa desculpar suas vítimas por terem levado o rancor a ponto de cair sobre um cadáver insensível; mas os historiadores, posteriores aos acontecimentos e que por isso não sofreram nada da parte dele (só sabiam de sua conduta por ouvir dizer), deveriam por uma questão de honra narrar sem insultos, zombarias ou vexações desgraças nas quais nem o melhor dos homens está a salvo de ser precipitado pela fortuna.

Éforo, por seu turno, não dá mostra de bom senso quando louva Filisto. Se bem que fosse muito hábil em colorir com pretextos especiosos atos injustos e costumes depravados ao compor bonitos discursos, não poderia, a despeito de tantas invenções, escapar à macula de haver sido, ele próprio, o maior amigo da tirania — além de que, mais do que ninguém, ser um perpétuo admirador de Fausto, do poder, das riquezas e das bodas dos déspotas. Em suma, nem o que elogia os atos de Filisto, nem o que insulta suas desgraças mostra senso de harmonia.

37. Depois da morte de Filisto, Dionísio propôs a Díon entregar a cidadela, suas armas e seus mercenários com soldo pago por cinco meses, à condição de poder, por tratado, retirar-se para a Itália, estabelecer-se lá e auferir os rendimentos de um território siracusano chamado Giarta, região vasta e fértil que se estendia do mar ao interior das terras. Díon não aceitou a proposta e sugeriu que os embaixadores se dirigissem aos siracusanos; mas estes, que esperavam apanhar Dionísio vivo, expulsaram-no. Então Dionísio, confiando a cidadela a Apolócrates, o mais velho de seus dois filhos, embarcou nos navios o que tinha de melhor em homens e bens, e aproveitando-se do vento favorável, fez-se ao mar sem ser visto pelo navarca Heráclides. Censurado e chacoteado pelos cidadãos, este pôs em cena um demagogo chamado Hipão, que conclamou o povo à partilha das terras dizendo que a igualdade das fortunas é a base da liberdade, assim como a pobreza eterniza a escravidão dos proletários (aktémosi). Heráclides apoiou Hipão, e excitando o povo contra Díon que se lhes opunha, persuadiu os siracusanos a votar a partilha, a suprimir o soldo dos mercenários e a eleger outros estrategos para ver-se livre da sufocante austeridade de Díon. Os siracusanos, ansiosos por recuperar-se logo da tirania, como de uma longa enfermidade, e por governar-se a si mesmos prematuramente, iam assim cometendo disparates políticos e odiando Díon, o qual, à maneira dos médicos, queria manter a cidade sob um regime rigoroso e prudente.

38. Díon abandona Siracusa

38. Quando estavam se reunindo para eleger novos magistrados, no pico do verão, sobrevieram furiosas tempestades e sinais funestos no céu que não pararam durante quinze dias, e suspendendo as sessões, impediram o povo supersticioso de nomear outros estrategos.

Depois, voltando o tempo ao normal e querendo os demagogos proceder às eleições, um boi atrelado a uma carreta e acostumado a circular pelo meio da multidão, mas agora sem dúvida irritado com seu condutor por outro motivo qualquer, sacudiu o jugo e lançou-se a toda velocidade na direção do teatro. O povo levantou-se precipite, fugiu e dispersou-se na maior desordem, enquanto o boi se voltava aos saltos, semeando o pânico, para outra parte da cidade, aquela que os inimigos deveriam ocupar em seguida. No entanto, os siracusanos não deram a mínima atenção ao fato e elegeram vinte e cinco estrategos, entre os quais Heráclides. Mandaram emissários secretos aos estrangeiros, para afastá-los de Díon e aliciálos com a promessa até de igualdade de direitos políticos. Os soldados, porém, repeliram essas ofertas e permaneceram fiéis e devotos a Díon, formaram com suas armas uma muralha em torno dele e levaram-no para fora da cidade. Não causaram danos a ninguém, mas, aos que iam encontrando, censuravam abertamente a ingratidão e perversidade. todavia, os siracusanos desdenhavam seu pequeno número e motejavam do fato de não tomarem a iniciativa do ataque. Como eram muito mais numerosos, atiraram-se sobre eles, convencidos de que os derrotariam facilmente dentro da cidade, e realizariam um completo massacre.

39. Díon, reduzido à necessidade que a fortuna lhe impunha ou de lutar contra seus concidadãos ou de perecer com seus mercenários, estendia os braços para os siracusanos, desdobrava-se em súplicas e apontava-lhes a acrópole atulhada de inimigos que, do alto das muralhas, espiavam o que se passava. O arroubo da multidão, contudo, não podia ser detido, e a cidade, semelhante a um barco em alto-mar, era sacudida pelo sopro dos demagogos. Díon proibiu aos seus estrangeiros atacarem os siracusanos, e eles se limitaram a uma demonstração lançando-se a passo de carga, gritando e brandindo as armas. Nenhum siracusano resistiu ao pé firme, todos figuram pelas ruas ainda que ninguém os perseguisse; é que Díon ordenara imediata meia-volta aos seus estrangeiros, a fim de conduzi-los à Leontinos. Os chefes dos siracusanos, desejosos de apagar sua vergonha ante os gracejos das mulheres, armaram de novo os cidadãos e puseram-se no encalço de Díon. Alcançaram-no na passagem de um rio e travaram uma escaramuça de cavalaria. Mas, ao perceber que Díon, ao invés de continuar suportando com paternal doçura seus desmandos, agora só dava ouvidos à cólera e ordenava aos soldados que se alinhassem para a resistência em ordem de batalha, deram o fora ainda mais vergonhosamente do que da primeira vez. Foram refugiar-se na cidade, sem ter sofrido baixas muito pesadas.

40. Os habitantes de Leontinos acolheram Díon com brilhantes honrarias, assoldaram os estrangeiros e conferiram-lhe o direito de cidade. Em seguida, mandaram embaixadores aos siracusanos para pedir-lhes justiça aos mercenários. De seu lado, os siracusanos expediram embaixadas a fim de acusar Díon. Os aliados todos, reunidos em Leontinos, debateram a questão e repudiaram a atitude dos siracusanos. Estes, no entanto, pouca coisa fizeram do julgamento dos aliados, pois já agora mostravam-se altivos e insolentes a ponto de não escutar mais ninguém: os próprios estrategos, subservientes ao povo, temiam-no.

41. Nesse ínterim, trirremes enviadas por Dionísio chegaram a Siracusa trazendo Nípsio de Neápolis, que vinha com viveres e dinheiro para os sitiados. No combate naval que se seguiu, os siracusanos saíram-se vencedores e capturaram quatro dos navios do tirano; mas, na embriaguez da vitória e em meio à anarquia em que viviam, entregaram-se alegremente a festins e deboches tão insensatos que negligenciaram todas as precauções; crendo-se já senhores da acrópole, acabaram perdendo até a cidade.

Nípsio, percebendo que nenhuma parte da cidade estava sã e que a multidão, de manhã até a alta noite, só pensava em embriagar-se ao som da flauta (os próprios estrategos, também encantados com a festa, hesitavam em tentar controlar aqueles borrachos), aproveitou muito bem a ocasião para atacar a muralha. Tomou-a abriu-lhe uma brecha e soltou seus bárbaros pela cidade, ordenando que fizessem o que bem entendessem com as pessoas que fossem encontrando. O s siracusanos não tardaram a aperceber-se do desastre, mas, no susto, não conseguiam reunir-se senão lenta e penosamente para remediar a situação. A cidade estava entregue à pilhagem, massacravam-se homens, solapavam-se muros, levavam-se para a acrópole mulheres e crianças chorosas. Os estrategos desesperavam da salvação e não conseguiam lançar os cidadãos contra os inimigos, misturados que estavam todos e por toda parte.

42. Tal era a situação da cidade. E o perigo já se aproximava de Acradina. Todos tinham em mente o único homem em quem ainda se podia apoiar a esperança, mas ninguém o nomeava envergonhado da ingratidão e sandice com que Díon fora tratado. No entanto, sob o império da necessidade, ergueram-se da banda dos aliados e da cavalaria vozes que exigiam a convocação de Díon e a volta dos peloponésios ora em Leontinos. Mal ouviram esta proposta ousada, os siracusanos deram gritos de alegria e choraram; pediam que os deuses o fizessem aparecer, temiam não voltar a vê-lo e recordavam seu valor e coragem em pleno perigo, onde não apenas se mostrava intrépido como inspirava audácia aos companheiros, levando-os a encarar sem temor o adversário. Assim, despacharam-lhe imediatamente dois dos aliados, Arconides e Telésides, e cinco cavaleiros, entre os quais Helânico. Esses emissários cavalgaram a rédea solta e chegaram a Leontinos ao entardecer. Depois de apear, caíram aos pés de Díon e, lacrimosos, expuseram-lhe as desgraças dos siracusanos. Já alguns leont inianos acorriam e diversos peloponésios rodeavam Díon, intrigados com o açodamento e as súplicas dos enviados. Díon prontamente conduziu os emissários para a assembleia, onde o povo todo se reuniu às pressas. Arconides e Helânico, apresentando-se, narraram em poucas palavras a extensão de seus males e conjuram os estrangeiros a socorrer Siracusa deixando de parte qualquer rancor, pois os siracusanos tinham sido punidos mais rigorosamente por seus erros do que o poderiam desejar as pessoas por eles maltratadas.

43. Quando acabaram de falar, vasto silêncio desceu sobre o teatro. Díon ergueu-se, porém as lágrimas que derrubava abundantemente sufocaram-lhe a voz. Os estrangeiros encorajavam e compartilhavam seu sofrimento. Depois que se refez um tanto da comoção, disse: "Peloponésios e aliados! Reuni-vos aqui para que delibereis sobre um assunto que toca de perto vossos interesses. Quanto a mim, estando Siracusa em Perigo não é preciso tomar decisões: se não puder salvá-la, irei sepultar-me no incêndio e na ruína da minha pátria. Vós, se consentis ainda em nos ajudar — a nós, os mais imprudentes e infelizes dos homens -, vinde soerguer a cidade que é obra vossa. Todavia, caso o ressentimento contra os siracusanos fechar-vos os olhos para sua situação, peço aos deuses que vos compensem dignamente pela coragem e zelo com que até agora trabalhastes por mim. Lembrai-vos de Díon, que há pouco, quando fostes vítimas da injustiça, não vos abandonou e também não abandonará seus cidadãos caídos em desgraça".

Falava ainda quando os estrangeiros se levantaram aos brados, pedindo-lhe que os conduzisse sem mais tardança em socorro da cidade. Os enviados siracusanos beijaram-no afetuosamente e suplicaram aos deuses que concedessem a Díon e aos estrangeiros toda a felicidade possível. Quando o tumulto se acalmou, Díon ordenou que os soldados fossem se prepararam para partir imediatamente, depois de comer, deveriam voltar com suas armas àquele mesmo local, pois tencionava sair em auxílio de Siracusa durante a noite.

44. Entrementes, em Siracusa, os generais de Dionísio, depois de infligir inomináveis males à cidade durante todo o dia, retiraram-se de noite para a acrópole. Haviam perdido alguns homens. Os demagogos, então, recobraram coragem, esperando que os inimigos, saciados de devastação, permaneceriam tranquilos. Sugeriram que os cidadãos dispersassem. Díon pela segunda vez, e, se ele se aproximasse com seus estrangeiros, recusassem-lhe acolhidas; não deveriam ceder ante o valor daquela gente, como se ela lhes fosse superior, mas salvar sozinhos a cidade e a liberdade, utilizando os próprios recursos. Os estrategos então enviaram novos emissários a Díon para demovê-lo de voltar; mas os cavaleiros e notáveis o mesmo, a fim de apressar-lhe a marcha.

Díon avançava lentamente. Ao cair da noite, seus adversários ocuparam os portões, resolvidos a barrar a entrada. Mas Nípsio, lançando de novo a cidadela contra a cidade mercenários ainda mais resolutos e numerosos, iniciou imediatamente a demolição do muro de defesa e percorreu a cidade, devastando-a. Agora se matavam não apenas os homens, mas também as mulheres e crianças. Não havia pilhagens, mas tudo era destruído uma vez que, desesperando da situação, o filho de Dionísio passara a odiar intensamente os siracusanos — e Nípsio, por assim dizer, queria sepultar a tirania moribunda sob as ruínas da cidade. Para obstar à chegada de Díon, os soldados recorreram ao meio de destruição e aniquilamento mais rápido: o fogo. Munidos de tochas, incendiavam o que viam pela frente e disparavam projéteis inflamados contra objetivos mais distantes. Os siracusanos que fugiam eram apanhados e massacrados nas ruas; os que buscavam refúgio nas casas saíam expulsos pelas chamas, enquanto vários edifícios, já esbraseados, ruíam sobre os passantes.

45. Díon novamente em Siracusa

45. Foi sobretudo esse flagelo que pôs todos os cidadãos de acordo para abrir a Díon as portas da cidade. Diminuíra ainda mais a marcha ao saber que os inimigos se haviam encerrado na cidadela. Mas, no decorrer do dia, surgiram cavaleiros anunciando-lhe que a cidade fora tomada pela segunda vez, e depois até alguns de seus adversários se apresentaram para apressá-lo. Como a gravidade da desgraça não cessasse de aumentar, Heráclides despachou-lhe seu irmão e em seguida seu tio Teódoto a suplicar que socorresse Siracusa, pois já ninguém resistia ao inimigo, ele próprio estava ferido e pouco faltava para que a cidade fosse completamente destruída pelo incêndio. Quando essas mensagens chegaram ao conhecimento de Díon, achava-se ainda a sessenta estádios das portas. Informou os estrangeiros da urgência do perigo, exortou-os e conduziu o exército não mais a passa, porém na corrida, enquanto iam constantemente chegando novos emissários para pressioná-lo. Os mercenários avançaram com rapidez e ardor admiráveis, e Díon entrou pela porta que dá para o chamado Hecatômpedo. Prontamente lançou suas tropas ligeiras contra o inimigo, a fim de com o exemplo restaurar a coragem dos siracusanos que os observassem, e alinhou os hoplitas em ordem de batalha. Formou em colunas os cidadãos que afluíam e se agrupavam em torno dele, partilhando o comando entre vários chefes para provocar mais pânico com um ataque desfechado de todos os lados ao mesmo tempo.

46. Depois de fazer esses preparativos e orar aos deuses, marchou contra o inimigo pelas ruas da cidade. Foi então uma explosão de gritos e de alegria, de vivas exclamações misturadas a votos e encorajamentos da parte dos siracusanos, que chamavam Díon seu salvador e seu deus, e os estrangeiros seus irmãos e compatriotas. Nas circunstâncias, ninguém era suficientemente egoísta e ligado à vida para não mostrar mais inquietação por Díon que por todos os outros juntos, vendo-o rumar à testa da tropa para o perigo, em meio ao fogo, ao sangue e à profusão de cadáveres que atulhavam as praças. Por sua vez, os inimigos ofereciam um espetáculo assustador: espumantes de raiva e alinhados ao longo da muralha, tornavam o acesso penoso e difícil de forçar. Mas era sobretudo o perigo do incêndio que embaraçava os estrangeiros e atrapalhavam sua marcha. Cercados pelas chamas que brilhavam devorando as casas, tropeçando em destroços incandescentes, tentado escapar na carreira aos desabamentos que os ameaçavam com seu enorme peso e atravessando densas nuvens de poeira e fumaça, tentavam ainda assim permanecer agrupados em e boa ordem.

Quando o contato foi estabelecido, só um pequeno número de pôde engalfinhar-se, dada a estreiteza e desigualdade do terreno. Os soldados de Díon, porém, animados pelos gritos entusiásticos dos siracusanos, conseguiram abalar as tropas de Nípsio, que em sua maioria foram achar salvação na cidadela, muito próxima. Os que ficaram do lado de fora e se dispersaram acabaram perseguidos e mortos pelos estrangeiros. Bom seria gozar imediatamente a vitória, entregar-se à euforia e às congratulações como tamanho feito merecia. Mas as circunstâncias eram adversas e os siracusanos tiveram primeiro que ocupar-se de suas casas, só com imensa dificuldade conseguindo extinguir o incêndio durante a noite.

47. Quando rompeu o dia, nenhum demagogo encontrava-se na cidade: todos haviam condenado a si mesmos ao exílio, salvo Heráclides e Teódoto, que se puseram nas mãos de Díon reconhecendo sua culpa e pedindo-lhe que mostrasse mais brandura para com eles do que a que haviam mostrado para com Díon. Arrazoavam: "Convém a Díon, já incomparável pela soma de suas virtudes, mostrar-se também, triunfando do ressentimento, superior aos ingratos que ora se confessam vencidos por aquela virtude devido à qual, há pouco, se revoltaram contra ele". Enquanto Heráclides e Teódoto imploravam, os amigos de Díon aconselhavam-no a não poupar indivíduos perversos e invejosos, mas a entregar Heráclides aos soldados e extirpar do governo a demagogia, doença insidiosa e não menos funesta que a tirania. Para tranquilizá-los, Díon respondeu: "Os outros generais estão mais afeitos às armas e à guerra. Mas eu, na Academia, durante muito tempo exercitei-me para domar a cólera, a inveja, e o espírito de querela. Ora, mostramos que tivemos êxito não pela moderação para com os amigos e homens de bem, mas quando, alvos de iniquidades, deixamo-nos dobrar pelos culpados e os tratamos com doçura. Não desejo ultrapassar tanto Heráclides em inteligência e poder quanto em bondade e justiça, pois é aí que reside a verdadeira superioridade. Os êxitos da guerra, esses, mesmo que não sejam contestados pelos homens, podem sê-lo pela fortuna. Se a inveja torna Heráclides desleal e censurável, não é razão para que Díon empane sua virtude com a cólera. Bem sei que, segundo as leis, considera-se mais justo vingar uma injustiça que cometê-la — mas, segundo a natureza, esses dois atos procedem de uma só e mesma fraqueza. A maldade humana, por penosa que seja, não é tão completamente selvagem e intratável que não possa mudar, vencida pelo reconhecimento que inspiram os benefícios reiterados".

48. Com base nesses raciocínios, Díon soltou Heráclides e Teódoto. Passando a ocupar-se da fortificação, ordenou aos siracusanos que cortassem, cada um, uma estaca e a pusessem de parte. Depois, colocou os estrangeiros a trabalhar durante a noite e, enquanto os siracusanos dormiam, mandou cercar a acrópole com uma paliçada, às escondidas deles. Dia claro, cidadãos e inimigos, observando o resultado, sentiram-se igualmente surpresos com a rapidez com que a obra fora executada.

Díon sepultou então os siracusanos mortos, libertou os prisioneiros (que não eram menos de dois mil) e convocou a assembleia. Heráclides, tomando a palavra, propôs que Díon fosse eleito estratego com plenos poderes em terra e mar. Os notáveis aprovaram e pediram que se proclamasse imediatamente à votação, mas a turba dos marinheiros e operários (banâusoi) protestou ruidosamente, aborrecida com ver Heráclides despojado de suas funções de almirante e convencida de que ele, mesmo que lhe faltassem outras qualidades, era pelo menos muito ligado ao povo e mais subserviente à massa do que Díon. Este cedeu e fez devolver à Heráclides o comando da frota. Opôs-se, entretanto, à partilha de terra e moradias, que a multidão exigia, e invalidou o que antes fora decretado a esse respeito. Os ânimos se irritaram. Extraindo daí um novo pretexto, Heráclides, então em Messina, intrigou junto a soldados e marinheiros que haviam embarcado com ele e excitou-os contra Díon, a quem acusava de aspirante à tirania. Em segredo, tratou com Dionísio por intermédio de Farace de Esparta. Os princípios notáveis de Siracusa ficaram suspeitosos e rebentou no exército uma sedição que reduziu Siracusa a tal penúria que Díon já não sabia mais que partido tomar. Os amigos acusavam-no de ter fortalecido contra si próprio um homem tão intratável, tão corrompido pela inveja e a maldade como Heráclides.

49. Farace acampou em Neápolis, no território de Ácraga, e Díon saiu com os siracusanos para atacá-lo. Sua intenção era travar mais tarde a batalha decisiva contra ele, mas Heráclides e os marinheiros resmungavam que de fato não queria terminar a guerra por um combate, mas protelá-la para firmar-se no poder. Díon, pois, viu-se obrigado a atacar e foi batido. A derrota, porém, não era grave e sobreveio principalmente em consequência da desordem provocada pelo motim da soldadesca. Díon se preparava para nova batalha e alinhava as tropas, encorajando-as com discursos, quando, no começo da noite, soube que Heráclides singrava com a frota para Siracusa, decidido a assenhorar-se da cidade e proibir a entrada a Díon e seu exército. Convocando imediatamente os cavaleiros mais robustos e devotados, Díon cavalgou a noite inteira e, na terceira hora do dia, estava às portas da cidade. Cobria setecentos estádios.

Heráclides, que com seus navios esforçava-se para ser rápido, chegou tarde demais e teve de se fazer novamente ao mar. Pôs-se a errar de uma costa a outra, sem projeto meditado, e acabou topando com o espartano Gesilo, que se disse enviado da Lacedemônia para assumir o comando dos siracusanos, como outrora Gílipo. Heráclides acolheu-o alegremente como uma salvaguarda contra Díon, espécie de amuleto dos que se trazem ao pescoço e apresentou-os aos aliados e enviou um arauto aos siracusanos conclamando-os a aceitar o espartano como chefe. Díon respondeu que aos Siracusanos não faltavam chefes competentes e que, em todo caso, se a situação reclamava um espartano, ali estava ele mesmo, que recebera em Esparta o direito de cidade. Gesilo renunciou ao comando, foi ao encontro de Díon e reconciliou-o com Heráclides, que prestou juramento oferecendo as mais solenes garantias. Por seu turno, Gesilo jurou que vingaria Díon a puniria Heráclides se este concebesse desígnios traiçoeiros.

50. Dionísio entrega a acrópole

50. Após esses acontecimentos, os siracusanos licenciaram a frota, de que não mais precisavam. Além do mais, ela exigia enormes despesas para navegar e constituía para os chefes motivo de dissensão. A seguir, assediaram a cidadela, após completar a muralha circundante. Como ninguém viesse em socorro dos sitiados, os víveres faltassem e seus mercenários se tornassem ameaçadores, o filho de Dionísio, desesperado da situação, parlamentou com Díon, entregou-lhe a acrópole com as armas e o resto do material, e, levando a mãe e as irmãs, fez-se ao mar ao encontro do pai com cinco trirremes. Díon permitiu que ele partisse com toda a segurança. Nenhuma pessoa em Siracusa deixou de comparecer para apreciar o espetáculo.

Em altos brados, invocavam os ausentes que já não podiam participar daquela jornada e admirar o sol se erguendo sobre Siracusa livre. Se ainda hoje o exílio de Dionísio é considerado um dos maiores e mais gritantes exemplos conhecidos da instabilidade da fortuna, qual não deve ter sido então a alegria dos siracusanos? Que orgulho não terão experimentado, eles que, munidos de tão frágeis meios, haviam derrubado a mais possante tirania que jamais existiu?

51. Após a partida de Apolócrates, Díon compareceu à acrópole. As mulheres não tiveram paciência de esperá-lo entrar: correram para a porta. Aristômaca trazia o filho de Díon; Arete seguia-a chorando, perguntado-se como haveria com o marido, como o saudaria depois de ter vivido com outro. Díon beijou primeiro a irmã e depois o filho. Aristômaca, então, puxou Arete e disse: "Fomos muito infelizes, Díon, durante teu exílio. Retornando vitorioso, livraste-nos a todas do peso de nossas misérias, com exceção apenas desta mulher, que com dor vi obrigada a desposar um outro, estando tu ainda vivo. Agora que a sorte te fez senhor de nós, como encararás a situação a que ela foi reduzida? Deverás abraçar-te como a um tio ou como a um marido também?". Assim falou Aristômaca. Díon, banhado em lágrimas, acolheu ternamente a esposa e, confiando-lhe o filho, enviou-a para a casa onde ele próprio residia. A cidadela, entregou-a aos siracusanos.

52. Depois de tamanhos êxitos, Díon não quis gozar sua felicidade antes de ter distribuído favores e presentes aos amigos e aliados, sobretudo antes de mimosear os cidadãos aos quais estava ligado e seus soldados estrangeiros com a quota de afeição e honra que eles mereciam. A magnanimidade de Díon, com efeito, ultrapassava seu poder. Ele próprio regulava seu modo de vida pelo que tinha ao alcance, com frugalidade e simplicidade. No momento em que era admirado e não apenas a Sicília e Cartago, mas a Grécia inteira voltava os olhos para ele e seu sucesso; em que os companheiros não podiam crer que houvesse homem maior, em que nenhum outro chefe parecia possuir tamanha audácia e sorte — nesse momento, mostrava-se tão modesto nos trajes, no aparato e na mesa como se vivesse na Academia em companhia de Platão, e não no meio de mercenários e oficiais para quem a vida alegre e os prazeres quotidianos são a consolação das fadigas e perigos.

Platão escreveu-lhe que todos os homens da terra tinham os olhos cravados nele só. Mas parece que o próprio Díon olhava apenas para um sítio e uma cidade, a Academia, não reconhecendo como seus examinadores e juízes senão os que lá se achavam e que, em lugar de admirar-lhe os feitos, a coragem e a vitória, observavam unicamente se ele aproveitava a sorte com conveniência e sabedoria, mostrando-se moderado em tão grande prosperidade. Quanto à sua gravidade nos relacionamentos humanos e à sua rigidez para com o povo, tinha como ponto de honra não minorá-las sem desmenti-las, mesmo quando os negócios exigiam dele flexibilidade e ainda que Platão o exprobrasse de longe, como vimos, escrevendo-lhe que "a arrogância é a companheira habitual da solidão". É de si evidente que sua natureza prestava-se dificilmente nos métodos da persuasão e que ele se empenhava com todas as forças em arrancar os siracusanos a uma vida licenciosa e debilitante.

53. E Heráclides voltava aos ataques. Convocado ao Conselho, recusou-se a comparecer alegando que era um simples particular e só fazia parte da Assembleia, com os outros cidadãos. Em seguida, exprobrou Díon por ele não ter arrasado a cidadela, nem permitido ao povo, como este desejava, abrir o túmulo de Dionísio e profanar o cadáver; enfim, por ter chamado de Corinto conselheiros para governar com ele, denotando assim seu desdém pelos compatriotas. Na verdade, Díon convocara coríntios da esperança de que, com sua ajuda, estabeleceria mais comodamente o regime político que tinha em mira. Queria impedir o advento da democracia pura, que, como Platão, considerava não uma constituição, mas uma barafunda de constituições. Aspirava a uma forma de Estado aparentada ao sistema lacônico e cretense, misturada de democracia e realeza onde a democracia supervisionasse e arbitrasse os negócios políticos mais importantes. Ora, sabia que os coríntios possuíam uma constituição predominantemente oligárquica e só permitiam ao povo tratar de questões de somenos.

Contra semelhante projeto, contava sobretudo com a insurreição de Heráclides, que conhecia como homem turbulento, leviano e faccioso, e por isso teve de abandoná-lo aos que de há muito exigiam sua morte, coisa que até então Díon os impedira de levar a cabo. Introduziram-se, pois, na casa de Heráclides, e mataram -no. O assassinato desagradou vivamente os siracusanos; não obstante, como Díon preparasse para Heráclides brilhantes funerais, seguisse o cotejo com o exército e discursasse em seguida, perdoaram-no, compreendendo que a turbulência não cessaria na cidade enquanto Díon e Heráclides participassem juntos da vida política.

54. Morte de Díon

54. Díon tinha um companheiro vindo de Atenas, Calipo, que conheceram e a quem se ligara, segundo Platão, não durante seus estudos, mas por ocasião das iniciações dos mistérios. A partir daí, suas relações não cessaram. Calipo tomara parte na expedição e tantas honras obteve que foi, de todos os companheiros de Díon, o primeiro que entrou com ele em Siracusa, com uma coroa na cabeça. Também se assinalara brilhantemente nos combates. Todavia, depois que Díon perdeu, na guerra, seus principais e melhores amigos, e que Heráclides foi morto, Calipo, percebendo que em Siracusa a democracia já não tinha chefe e ele próprio gozava de ampla consideração junto aos soldados de Díon, tornou-se o mais celerado dos homens. Esperando firmemente dominar a Sicília como prêmio do assassinato de seu hóspede (e havendo mesmo, como sustentaram alguns, recebido dos inimigos vinte talentos para perpetuar o crime), subornou os mercenários e voltou-os contra Díon, preparando o mais odioso, o mais pérfido dos conluios.

Comunicava sistematicamente a Díon as palavras que os soldados haviam de fato proferido ou que ele mesmo forjava. Adquirira, graças à confiança que inspirava, tamanha liberdade de ação que podia avistar-se em segredo com quem quisesse e falar-lhes com a maior franqueza contra Díon — pois era o que este ordenara que fizesse, para saber quem lhe era disfarçadamente hostil. O resultado foi que Calipo não tardou a descobrir e agrupar os homens de alma perversa e desarvorada. Quando alguém repelia suas propostas e o ia denunciar a Díon, este não ficava nem inquieto nem aborrecido, pois que Calipo estava se conformando às suas instruções.

55. Enquanto a sedição era tramada, um fantasma gigantesco e monstruoso apareceu a Díon. Estava ele sentado, tarde da noite, num vasto aposento da sua casa, sozinho e mergulhado em pensamentos, quando de repente ouviu o barulho na outra extremidade da sala; voltou-se e, como era dia ainda, deu com uma mulher de talhe imponente, semelhante no rosto e no traje a uma Erínia trágica, ocupada em limpar a casa com uma vassoura. Muito impressionado, chamou os amigos, descreveu-lhes a visão e pediu-lhes que passassem a noite com eles, pois estava perturbado e temia que a visão reaparecesse quando voltasse a ficar só. Não reapareceu. Mas dias depois seu filho, ainda não completamente saído da infância, após uma crise de amuo e cólera por motivo insignificante e pueril, precipitou-se de cabeça do alto do teto e matou-se.

56. Sabendo que Díon ficara extremamente afetado, Calipo empenhou-se ainda mais na execução de seu plano e espalhou por Siracusa o boato de que Díon, sem mais filhos, resolvera chamar Apolócrates, filho de Dionísio, para instituí-lo sucessor, uma vez que era sobrinho de sua mulher e neto de sua irmã. Entrementes, Díon e as mulheres da casa começaram a suspeitar do que se tramava. As denúncias não paravam de chegar. Mas Díon — ao que parece, lamentava sua conduta para com Heráclides e vivia entristecido por causa daquele crime, verdadeira mácula colada à sua existência e seus atos — declarou que preferia padecer mil mortes e oferecer o pescoço a quem quisesse matá-lo do que viver perpetuamente na defensiva não apenas contra inimigos, mas também contra os amigos. Calipo, vendo as mulheres conduzir uma investigação minuciosa sobre o caso, ficou com medo e foi conversar com elas, protestando, chorando, e oferecendo as garantias que lhe exigissem. As mulheres pediram que prestasse o grande juramento, cuja forma é a seguinte: a pessoa que empenhava sua fé desce ao santuário das Tesmóforas e após realizar certos sacrifícios, envolve-se no manto de púrpura da deusa e, empunhando uma tocha, faz o juramento. Depois de cumprir todas as cerimônias e pronunciar a fórmula, Calipo zombou a tal ponto das deusas que aguardou o dia das festas de Coré (pela qual jurara) para executar o crime. Talvez, entretanto, nem tenha atentado para a data, já que de qualquer maneira constitui sacrilégio para com a deusa um mistagogo, não importa a ocasião, degole aquele que ele iniciou nos mistérios.

57. Calipo arregimentou numerosos cúmplices. Num dia em que Díon estava estirado com os amigos numa sala de muitos leitos, alguns conjurados cercaram a casa enquanto outros se postaram às portas e janelas do aposento. Os que deveriam executar a agressão, uns zacintianos, entraram desarmados e de túnica e os que ficaram de fora puxaram as portas mantiveram-nas cerradas. Os assassinos atiraram-se sobre Díon, tentando sufocá-lo e estrangulá-lo. Como não conseguissem, pediram uma arma, mas ninguém ousava abrir as portas porque no interior havia muita gente com Díon; essa gente, porém, esperava salvar-se abandonando-o, de sorte que ninguém teve coragem de socorrê-lo. O tempo passava. Então Lícon de Siracusa, pela janela, passou um punhal a um dos zacintianos: com ele Díon foi degolado qual vítima sacrifical de há muito dominada e assustada. Pouco depois, eram levadas para a prisão a irmã e a mulher de Díon, que estava grávida. Deu à luz miseravelmente na enxovia e pôs no mundo um menino que ambas insistiram em alimentar, tanto mais que haviam obtido a conivência dos guardas — os quais já notavam que a situação de Calipo se arrumava.

58. Calipo, depois de assassinar Díon, gozou nos primeiros tempos de uma brilhante fortuna e manteve Siracusa em seu poder. Chegou a mandar uma carta para Atenas, de todas as cidades a que mais deveria respeitar e temer seguida aos deuses, por causa da mácula de que se cobrira. Mas parece que diz a verdade quem afirma que essa cidade dá nascimento aos melhores homens de bem e aos piores celerados, assim como seu solo produz o mel mais delicioso e a cicuta mais mortalmente eficaz. De resto, não foi por muito tempo que a exigência de Calipo justificou a censura que se poderia fazer à fortuna e aos deuses de permitir a um homem gozar a soberania e a influência adquirida ao preço de tamanha impiedade: ele não tardou a ser punido como merecia. Querendo assenhorar-se de Catânia, perdeu ao mesmo tempo Siracusa. Conta-se que na ocasião afirmou ter abandonado uma cidade em troca de um ralador de queijo (katáne). Em seguida, ao atacar Messina, perdeu a maior parte de seus soldados, entre os quais o assassino de Díon. Como nenhuma cidade siciliana quisesse recebê-lo e todos o repelissem com ódio, apossou-se de Régio. Ficou ali em situação deplorável e, por alimentar mal os mercenários, acabou assassinado por Leptines e Poleperconte — que casualmente se serviram, diz-se, do mesmo punhal que ferira Díon. O objeto foi reconhecido pelo tamanho (era curto como os da Lacônia) e pela beleza de valor, muito delicado e artístico. Eis como foi punido Calipo.

Quanto a Aristômaca e Arte, depois que saíram da prisão, Hicetas de Siracusa — que fora amigo de Díon — acolheu-as e parece tê-las tratado de maneira leal e honrosa. Mas depois, aliciado pelos inimigos de Díon, mandou aparelhar um barco a pretexto de enviá-las para o Peloponeso e ordenou que fossem degoladas durante a travessia e atiradas ao mar. Outros pretendem que padeceram morte por afogamento, e a criança com elas. Castigo digno desse ato também atingiu Hicetas: capturado por Timoleão, foi condenado à morte. E os siracusanos, para vingar Díon, eliminaram ainda suas duas filhas, conforme se lê em pormenor da Vida de Timoleón.

Mais fontes de Siracusa

Comparação entre Timoleón e Emílio Paulo, de Plutarco

Comparação entre Nícias e Crasso, de Plutarco

Comparação entre Díon de Siracusa e Bruto, de Plutarco

Vidas Paralelas: Timoleón, de Plutarco

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