Notas

1305 - O original grego é defeituoso neste ponto: e é necessário completá-lo com o que está escrito na vida de Pompeu. — Amyot. Veja-se a Vida de Pompeu, t. VI.
1306 - Na Vida de Pompeu ele é chamado de Craniano: César o chama Crastino.
1307 - Cidade da Ásia Menor, na Lídia.
1308 - A dez léguas de Veneza.
1309 - Em grego dezessete milhões e quinhentos mil sestércios, 8.849.609 libras francesas.
1310 - Dava-se este nome às torres edificadas nas costa? ou nós portos de mar, onde se acendiam lumes para orientar os navios durante a noite. Em frente a. Alexandria, havia uma ilha. chamada Favo ou Paro», e cobre o promontório dessa ilha. um farol, construído por Ptolomeu Filadelfo. de tamanho e magnificência tais. que alguns o enumeraram entre as maravilhas do mundo.
1311 - Sabemos que Plutarco as escreveu em grego; as três palavras latinas, que são de César, foram postas por Amyot. para apresentar três palavras somente, o que o francês não permite, porque é sempre necessário juntar-se o pronome ao verbo.
 1312 - O que se diz aqui da casa de Pompeu. não tem relação com Cornificio, mas com António, como veremos na sua vida e com o se vê nas Filípicas de Cícero e em outros lugares.
1313 - Deve-se escrever Tapso, como Ptolomeu, Estnibiio e todos os outros escrevem.
1314 - O mesmo de que falamos há pouco em outro lugar. Augusto o restabeleceu em seguida no trono, dando-lhe em lugar dos Estadas de seu pai, uma parte da Getúlia e das províncias que tinham sido submetidas precedentemente a Boco e a Bogada.
1315 - No ano 709 de Roma, antes de J. C, ano 45.
1316 - Munda, na antiga Bética. hoje reino de Granada, a cinco léguas de Málaga, muito perto do estreito de Gibraltar.
1317 - No ano 710 d e Roma. antes de J. C. ano 44.
1318 - Diodoro da Sicília di-lo assim e Estrabão e Pausânias estão de acordo com ele com relação a Corinto; mas, quanto a Cartago, ela só foi restaurada por Augusto.
1319 - Na embocadura do braço esquerdo do Tibre, separado nesse lugar por uma pequena ilha.
1320 - Este trecho é relatado na V ida de Bruto: mas com relação à pretura urbana, de que Plutarco fala algumas linhas antes, por estas palavras, a mais honrosa.
1321 - Deve-se ler, eu creio: ele o solicitou, ele mesmo, em particular; e suprimir: os que escreviam estes pequenos cartazes.
1322 - Na Vida de Bruto, é Caio Trebônio quem faz esse papel.
1323 - Em grego: no mesmo lugar.
1324 - Leia-se: e ele além disso, teve febre.
1325 - No ano 710 de Roma.
1326 - Sem que eles falem.
1327 - Esta frase deve ter falta de alguma coisa e muito embaraçou os sábios. Ficaria mais claro se escrevêssemos: eles só podiam dizer esse provérbio comum. etc. O que significaria que se tendo deixado levar mais longe do que teriam desejado, voltaram-lhe a ponta contra o mesmo sentimento interior, pela vergonha de recuar. Vauvillicrs.
1328 - Leia-se: os escravos dos sátrupas e dos Intendentes dos reis Selêuco e Ptolomeu, etc.
1329 - Leia-se: que elas não lhes permitem a eles imiscuirem-se nos negócios domésticos.
1330 - Palene. cidade da Arcádia, no território da Lacedemônia. Havia outra cidade na Acaia, cuja semelhança de nome provoca confusão com esta. mas que se deve chamar Pclene.
 segundo o Escoliaste de Apolônio.
1331 - Malea é somente um promontório no sul da Macedónia.
1332 - Selásia, perto do rio Oeno ao oriente do verfto. com referência a Esparta.
1333 - Pausãnias chama-a Pafia. em suas Lacônicas, p. 276. Mas os sábios pretendem que se deve ler nesse lugar Pasifae.
1334 - No oriente da Lacedemônia, ao lado da Messênia.
1335 - Ele vivia no tempo de Ptolomeu Evergeta I e de seu sucessor Pilopator. e por conseguinte no tempo de Anis e de Cleômenes. Foi autor de diversas obras historiai:; e mitológicas. Não 86 sabe qual a sua pátria.
1336 - Trezentos e sessenta mil escudos. Amyol. 2.801.250 libras francesas.
1337 - É chamado Emerepes, nos Apotegmas dos lacedemônios, cap. XXIX, et. XVI.
1338 - Leia-se: do deus. Vimos no começo do capitulo XVIII que Cleômbroto se havia refugiado no templo de Netuno.
1339 - Vários sábios acham que se deve ler: a Ceada, nome dado à prisão de Esparta.
1340 - No segundo ano da 102.» olimpíada, antes de J. C. ano 371. É Cleômbroto I.
1341 - Outros escrevem Blemina, Belamina, etc. Tinha feito parte da Arcádia, à qual fora tirada pelos lacedemônios.
1342 - Grande cidade da Arcádia, perto de Alfea, a um dia mais ou menos do Eurotas, na estrada de Megalopolis a Argos.
1343 - Também na Arcádia, perto de Tegeu e de Megalopolis, como o fato o indica.
1344 - Na Arcádia, perto de Orcomena do Peloponeso, tpie se não deve confundir com Orcomena d a Beócia.
1345 - Uma das cidades que formavam Megalópolis.
1346 - Cidade da Arcádia cujo nome B8 deriva de Palas, bisavó, de Evandro. Deve-se escrever Palanteó. Vej a-se Virg. Aen. 1. VIII. v. 54.
1347 - Montanha da Arcádia.
1348 - Ao sul da Arcádia, perto dos limites da Lacedemònia1349 - Em Políbio. esse lugar é chamado Laodicies.
1350 - Cidades da Arcádia, sujeitas aos acaios: esta é chamada Aséa por Pausânias: é verdadeiramente a que Plínio chama Aléa.
1351  - Ilíada. 1. III. v. 172. C.
1352 - Ilíada, 1. IV, v. 431. C.
1353 - Ele. Cleômenes.
1354 - Em grego, os Ilírios, ao longo do mar Adriático, que vinha juntar-se à Macedónia. Mas essa denominação é assaz vaga. entre os antigos e compreende uma extensão mais ou menos grande da região.
1355 - Templo não está no texto grego; e, segundo Políbio, parece que é o nome de um pequeno cantão.
1356 - Isto está multo diferente do texto, que significa: que Arato era alternadamente pretor; de cada dois anos, um.
1357 - Estando ao mesmo tempo.
1358 - Em Plutarco encontra mos Cilarabis e Cilabaris. O nome verdadeiro é Cilarabis.
1359 - Cidade da Anila, no norte do Peloponeso, perto do rio do koIío de Corinto, a oeste de Sicione.
1360 - Entre Sicione e Egio, mas um pouco ao norte, a duas léguas e meia do golfo.
1361 - Fenéa, cidade da Arcádia.
1362 - Cidade da Argólida na estrada de Argos a Corinto.
1363 - Na parte da Acaia, que tem o nome de Sicionéa, entre Sicíone e Cleones. Fliunte que Ptolomeu coloca perto de Nauplia na Argólida. devia ser muito insignificante, pois Estrabão não fala dela, fazendo a descrição dos lugares vizinhos a Nauplia.
1364 - Vicia de Arato, aquele que Cleômenes manda, chama-se Tripilo.
1365 - Evergeto I.
1366 - Entre Megara e corinto.
1367 - Perto de Corinto, entre a fortaleza de Solígia e Cencrés, um dos portos de Corinto, ao oriente, no golfo sarônico
1368 - Outro porto de Corinto, ao ocidente, no golfo de Crissa 1369 - Promontório.
1370 - Em grego, cinco minas. 389 libras, 1 sh. e 9 d. Francesas.
 1371 - Em grego, Cinquenta talentos, 233.437 libras, 10. sh francesas.
1372 - Mais provavelmente Zecio. pequena e humilde cidade, absorvida por Megalópolis.
1373 - Talvez também Helissunta. cidade do mesmo gênero e no mesmo caso.
1374 - Alguns velhos exemplares dizem: té prorátou psorásal, que é o sentido por nós seguido.
 Outros dizem tés próras tó psurásai. isto é, a preparação vai na frente da proa, o que também é interessante, e mais agudo, pois é como se dissesse, necessita-se de precaução e prudência antes de um empreendimento qualquer. — Amyot.
1375 - Os Ilírios.
1376 - Pequena cidade ao sul da Lacônia. perto da embocadura do Eurotas. Servia de porto a Esparta.
1377 - Abaixo do promontório do Peloponeso, chamado Maleu.
1378 - Ilha situada entre o Peloponeso e Creta. Seu verdadeiro nome é Egilia.
1379 - Na Africa.
1380 - Quatorze mil escudos. — Amyot. 112.050 libras frances as.
1381 - Filopator.
1382 - Ilíada. 1. I . v. 491. C.
1383 - Canopo. na embocadura mais ocidental do Nilo e que trazia o seu nome.
1384 - Kremásai katabursósantas, suspendê-lo. depois de tê-lo mumificado e escoltado. Outros velhas livras dizem katamiirõsuntus. isto é, tendo-o antes mumificado, para que ficasse mais tempo intacto no cadafalso, como era costume dos egípcios, conservar os corpos. Diodoro da Sicilia. — Amyot.
1385 - Nos anos 577 e 591 de Roma.
1386 - Outros leem neste lugar Deificas, isto é, mesas de prata, obras de Delfos, — Amyot. Da mesma forma que a tripeça de Delfos.
1387 - Cento e vinte e cinco escudos. — Amyot.
1388 - No ano 611 de Roma.
1389 - Tibério tinha então apenas vinte anos.
1390 - Nos anos 607 e 608 de Roma . Ele tinha dezesseis anos.
1391 - Vários anos depois. O assunto de que se trata e o consulado de Mancino são do ano 617 de Roma. Tibério tinha então vinte e seis anos.
1392 - Acrescente-se: e a fez observar religiosamente.
1393 - No ano 618 de Roma. Foi Mancino mesmo que propôs a lei; mas os numantinos o devolveram.
1394 - Nos anos 620 e 621 de Roma.
1395 - No ano 621 de Roma.
1396 - Antípater.
1397 - No ano 621 de Roma.
1398 - Mais ou menos cinco soldos e meio. — Amyot. 1 lib., 3 s. e 4 d. 1/8 de moeda francesa, pois o óbolo valia 2 s. 7 d. 1/8 de moeda francesa, o que dá para a dracma, que vale seis óbolos, segundo Plínio, 15 s. 6 d. 3/4 segundo o cálculo que fizemos: e 3 d. 9/80 para o chalco, dez dos quais faziam um óbolo, segundo o mesmo Plínio.
1399 - Que havia subido ao trono no ano 616 de Roma.
1400 - Do partido, não está no texto grego, e nada significa.
1401 - Ou melhor, Fúlvio, que foi cônsul oito anos depois, no ano 629 de Roma, uniu-se a Caio Graco e foi morto com ele no ano 633 de Roma.
1402 - Os portugueses, como procônsul, no ano 618 de Roma.
1403 - Leia-se: o Senado temendo por ele.
1404 - Odisseia 1. I, v. 47.
1405 - Acrescente-se: Mas eu narrarei isto mais detalhadamente na Vida de Cipião

Fontes primárias

Fontes primárias de diversos períodos históricos. Sempre que encontrarmos alguma fonte iremos disponibilizá-la aqui, para que todos os interessados por História possam ter o acesso facilitado a esses documentos (essa seção se focará mais nas fontes escritas).

Vidas Paralelas: Tibério Graco, de Plutarco

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Tibério Semprônio Graco (162-133 a.C.) foi um político da República Romana no século 2 a.C.. Foi um proeminente líder da facção dos populares e por lutar por medidas que favorecessem o povo acabou sendo assassinado pelos senadores. A biografia de Tibério Graco faz parte de uma série de biografias escritas por Plutarco (c. 46-120), um historiador grego que viveu no Império Romano. Na série Vidas Paralelas, o autor compara vários nomes da história grega com seus equivalentes romanos. Tibério e seu irmão Caio foram comparados aos reis espartanos reformadores Agis IV e Cleômenes III.

Imagem de capa: Parte de Os Graco, estátua do escultor francês Jean-Baptiste Claude Eugène Guillaume (1822-1905).

I. Do pai e da mãe dos Gracos

I. Assim, tendo nós relatado a história dos dois gregos, é bem que escrevamos do mesmo modo, a dos dois romanos, na qual veremos menores dificuldades que se apresentaram a Tibério e a Caio, ambos filhos de Tibério Graco: este, embora tenha sido cônsul por duas vezes1385, uma vez censor, e tivesse a honra de dois triunfos, obtivera no entretanto mais dignidade e maior glória por sua virtude, pela qual foi julgado digno de desposar Cornélia, filha de Cipião, que derrotou Aníbal, depois da morte do pai; embora, em vida, não lhe tivesse sido amigo, mas adversário e inimigo.

II. Êxito da educação que lhes dá sua mãe

II. Diz-se, que ele achou, um dia, no seu leito, um casal de serpentes e os adivinhos considerando o significado desse presságio, proibiram-no matá-las e deixar que ambas escapassem, mas apenas uma, a firmando-lhe, que, se ele fizesse morrer o macho, seria como trazer a morte a si mesmo e se ele matasse a fêmea, então seria a morte de Cornélia. Tibério amando muito sua esposa e pensando que seria melhor morrer ele por primeiro, isto é, antes dela, por ser mais velho, e ela ainda jovem, matou o macho e deixou a fêmea escapar: ele morreu logo em seguida, deixando doze filhos, que tivera de Cornélia, a qual, depois da morte do marido tomando toda a responsabilidade da casa e da educação de seus filhos, mostrou-se tão honesta, tão boa para com os filhos e tão magnânima, que julgaram que Tibério tinha agido acertadamente, em ter preferido morrer ele, que não semelhante mulher. Ficando viúva, o rei Ptolomeu lhe quis dar a honra do diadema real, fazendo-a rainha, tomando-a por esposa; mas ela recusou-o e perdeu em sua viuvez todos os filhos, exceto uma filha, que deu em casamento ao jovem Cipião, o Africano, e Tibério e Caio, dos quais escrevemos a vida, e que ela educou e instruiu com tanto cuidado, que se tornaram mais honestos e ilustres que qualquer outro romano do seu tempo; julgou-se até que a educação valia mais que a natureza; assim como nas estátuas de Castor e de Pólux percebe-se um não sei quê de diferente, que nos faz ver que um era mais apto para a luta e o outro, para a corrida: assim também, estes dois jovens irmãos tinham grande semelhança por haverem nascido ambos predestinados para a coragem, a temperança, a liberalidade, as letras e a magnanimidade; nota-se, porém, grande diferença entre eles quanto aos efeitos e à administração dos bens públicos; parece-me preferível declará-lo agora antes que fazê-lo mais adiante, no desenvolvimento da matéria.

III. Diferença de caráter entre os dois irmãos

III. Em primeiro lugar, na fisionomia, no olhar, no movimento do corpo, Tibério era mais gentil e mais ponderado, Caio, mais veemente; discursando, um, mantinha-se constantemente no mesmo lugar; o outro, foi o primeiro dos romanos que introduziu o costume de andar pela tribuna, discursando ou falando e de tirar a túnica de cima do ombro, como se escreve de Cleon Ateniense, que foi o primeiro dos oradores que abriu a túnica, a bateu na coxa, falando.

Ademais, a palavra de Caio além da força persuasiva que tinha era extraordinária e cheia de ardor: a de Tibério, ao contrário, mais suave, mais inclinada à piedade, a dicção era perfeita, pura e cuidadosamente ordenada; a de Caio, figurada, embelezada e ataviada. A mesma diferença via-se também em sua mesa e em sua cozinha ordinária: a de Tibério era simples e sóbria e a de Caio em comparação com a dos outros romanos era também sóbria e parca, mas, com relação à do irmão, era esquisita, delicada e supérflua; Druso censurou-o certo dia, quando ele comprara delfins1386 de prata ao preço de1387 mil duzentas e cinquenta dracmas cada libra de peso. Quanto aos costumes e às inclinações naturais, seguindo a diferença da linguagem, um era dócil e gracioso, o outro violento e colérico, de sorte que, discursando, ele deixava-se levar, mesmo contra sua vontade, à raiva e à ira, elevando a voz até o agudo; dizia injúrias e tornava confusa sua linguagem; sabendo que era sujeito a tais arroubos usou deste remédio para corrigir-se: ele tinha um servo de nome Licínio, muito sensato, o qual com um instrumento de música, que serve para se elevar ou abaixar os tons, ficava por trás dele, enquanto ele falava; quando percebia que sua voz retumbava um tanto fortemente e por causa da cólera saía do tom, ele soprava-lhe por trás um tom mais suave, ao som do qual Caio se moderava imediatamente, deixando a veemência da cólera e da voz e facilmente se recompunha. Estas as várias diferenças entre os dois irmão s.

IV. Sua semelhança

IV. Mas em valor contra os inimigos, em justiça para com os súditos, em cuidado e diligência nos cargos públicos, em temperança e continência contra os prazeres voluptuosos, eram semelhantes em tudo e por tudo. É verdade que Tibério era mais velho que seu irmão nove anos, o que foi causa de que sua participação no governo se desse muito tempo depois e um dos principais motivos pelos quais suas ações não foram sucessivas, pois que eles não floresceram no mesmo tempo, nem puderam unir o próprio poder, o qual se tivesse sido conjugado, teria sido enorme e, talvez mesmo, invencível.

V. Casamento de Tibério

V. Vamos pois escrever agora separadamente, de um e de outro; primeiro do mais velho. Desde sua infância foi tão estimado que imediatamente o colocaram no colégio dos sacerdotes, que em Roma são chamados de Augures, os quais têm o encargo de observar os sinais e fazer os presságios das coisas futuras, mais por sua virtude do que pela nobreza, como o prova o testemunho de Ápio Cláudio, que havia sido cônsul1388, e censor e de tal virtude que fora declarado e nomeado príncipe do Senado e tinha também mais autoridade que qualquer outro naquele tempo Certo dia, quando todos os augures tomavam juntos a refeição, depois de ter saudado e reverenciado muito afetuosamente a Tibério, ele lhe pediu que desposasse sua filha1389 o que Tibério aceitou de boamente; no mesmo momento foi firmado o contrato de casamento; Ápio depois, regressando a sua casa antes de transpor o limiar chamou em altas vozes sua esposa gritando: "Antístia! Vamos fazer casar nossa filha Clódia!" Ela, admirando-se, exclamou: "Que necessidade havia de termos tanta pressa para isso? Se ao menos lhe tivesse dado a Tibério Graco para marido!" Eu não ignoro que alguns atribuíram esta história a Tibério, pai deste e a Cipião, o Africano; mas a maior parte dos historiadores a reproduz como nós acabamos de fazer; Políbio mesmo escreve que depois da morte de Cipião os parentes reunidos escolheram Tibério entre todos os outros moços para lhe dar Cornélia em casamento, como não tendo sido prometida a nenhum outro por seu pai nem desposado a ninguém.

VI. Campanhas de Tibério, sob Cipião, o Africano

VI. Tibério, o Moço, esteve na guerra da África, sob as ordens do segundo Cipião1390, que havia desposado sua irmã, alojando-se com ele numa mesma tenda; conheceu assim o caráter de seu comandante, dotado de belos e preciosos atributos, próprios para atrair o coração dos homens à imitação e desejo de sua virtude. Tornou-se em pouco tempo o mais humilde, o mais obediente e o mais valente dentre todos os moços do seu tempo; ele foi o primeiro que subiu à muralha dos inimigos, como diz Fânio, afirmando que subiu com ele e o secundou nesse ato de bravura; ele era muito estimado por todos, no acampamento e, quando ausente, muito desejado e lamentado por todos.

VII. Serve na qualidade de questor, sob o cônsul Caio Mancino, contra os numantinos

VII. Depois desta guerra1391 foi escolhido para questor e coube-lhe por sorte marchar contra os numantinos, com um dos cônsules, Caio Mancino que não era um mau homem, mas foi o mais infeliz e o mais desastrado dos comandantes dos romanos; no entretanto, em sorte tão adversa e em tão grande desgraça, brilhou ainda mais claramente não só o bom senso e a coragem de Tibério, mas, também, o que é ainda mais extraordinário, a reverência e a obediência que ele prestava ao seu superior, embora ele fosse tão provado pela adversidade que nem ele mesmo sabia se era comandante ou não. Tendo sido na verdade derrotado em grandes batalhas, ele fugiu de noite, abandonando seu acampamento: os numantinos perceberam-no; apoderaram-se então do seu campo e depois perseguiram os fugitivos; alcançando-os, mataram a muitos deles e envolveram todo o seu exército, de modo que eles mal puderam refugiar-se num lugar impróprio, do qual não tinham nenhuma possibilidade de escapar: Mancino, sem esperança de poder sair, pela força, mandou-lhes um arauto pedir uma entrevista, ao qual os numantinos responderam que não confiavam em ninguém, a não ser em Tibério; pediram-lhe que o mandassem ao seu acampamento: tal reverência era devida em parte pelas virtudes de moço, porque só se falava dele em toda essa guerra e em parte também pela recordação que tinham de seu pai Tibério, que fizera a guerra na Espanha e lá dominara várias nações, mas concedeu a paz aos numantinos, fazendo-a depois ratificar e confirmar pelo povo romano1392.

VIII. Paz com eles um tratado que salva o exército romano

VIII. Tibério então lhes foi mandado e falou com eles. Concedeu-lhes parte do que eles queriam, mas impôs também parte do que ele queria, firmou a paz e assim salvou a vida a vinte mil cidadãos romanos, além dos escravos e de outros voluntários que seguiam o exército sem serem alistados; por fim os numantinos apoderaram-se dos bens que estavam no campo dos romanos, dentre os quais, documentos em que estavam exaradas as contas do cargo de Tibério, relativas à administração do dinheiro; desejando reaver tais documentos ele voltou à Numância com dois ou três amigos embora o exército romano já estivesse bem longe; chamando os oficiais e governadores da cidade pediu que lhe restituíssem seus papéis, p ara não dar motivo aos invejosos e aos intrigantes de caluniá-lo, quando ele não pudesse prestar contas da sua administração. Os numantinos ficaram satisfeitos com esse fato e rogaram-lhe que entrasse na cidade: como ele hesitasse, se devia ou não entrar, os oficiais de Numância aproximaram-se d ele, tomaram-no pela mão, suplicando-lhe que acreditasse que eles não eram inimigos, mas, bons amigos e que confiasse neles; Tibério então assentiu pelo desejo que tinha de recuperar seus documentos e também pelo temor de irritar os numantinos se continuasse a mostrar que desconfiava deles. Quando já estava dentro da cidade, prepararam-lhe uma ceia e rogaram-lhe insistentemente, que tomasse a refeição na companhia deles, depois entregaram-lhe os papéis e ainda ofereceram-lhe tudo o que ele queria, do que eles haviam apanhado no campo dos romanos; ele, porém,’ não tomou coisa alguma, a não ser o incenso de que usou para o sacrifício em prol do Estado: feito isto, despediu-se, agradecendo-lhes e regressou para junto dos seus.

IX. Juízo do povo a respeito de Mancino e Tibério, relativamente a este tratado

IX. Ao voltar, foi muito censurado e recriminado por ter aceitado o convite, como humilhante e desonroso para a dignidade de Roma: mas os parentes e amigos dos que tinham estado naquela guerra, que era a maior parte do povo, reuniram-se em torno de Tibério, dizendo que as faltas que lá haviam sido covardemente cometidas, todas deviam ser atribuídas ao cônsul e que fora ele quem salvara um tão grande número de cidadãos. Todavia, os que estavam vexados com a suposta infâmia desse encontro, queriam que se lhe fizesse como outrora haviam feito seus antepassados num caso semelhante: costumavam mandarem seus generais completamente nus aos inimigos, porque se haviam contentado de que os samnitas os despissem e os fizessem escapar com vida; não somente lhes enviaram os comandantes supremos, mas todos os que tinham tido algum cargo no exército e que haviam consentido no acordo, para atrair sobre suas cabeças todo o pecado da violação do juramento feito e do pacto jurado. Nisso, porém, ficou evidente o amor e a benevolência que o povo tinha para com Tibério, pois ordenou que o cônsul Mancino fosse entregue de pés e mãos atados1393 aos numantinos e perdoou tudo o mais, em consideração a Tibério. Não estou bem certo se Cipião, o qual era então o primeiro homem de Roma e que mais autoridade tinha, o ajudou, todavia foi ele censurado por não ter também salvado o cônsul Mancino e ter confirmado o acordo com os numantinos, pois fora Tibério, seu amigo e seu aliado, que o firmara.

X. Do uso de se entregar aos cidadãos romanos pobres as terras dos inimigos vencidos, reunidas ao império. Como os ricos conseguiram fazê-los desistir disso

X. Estas queixas na maior parte procediam da ambição dos amigos de Tibério e de alguns homens de letras, que o aborreciam e o indispunham contra Cipião; não chegou, porém, a ira e o ódio declarados, nem daí se seguiu mal algum; talvez. Tibério não teria caído nos erros em que depois veio a cair, se Cipião tivesse estado presente quando ele realizou o que havia proposto: mas estava-se já na guerra de Numância1394, quando Tibério começou a apresentar seus editos para tal ocasião: quando os romanos antigamente venciam algum dos seus vizinhos, como multa, tiravam-lhes uma porção de suas terras, das quais uma parte era vendida em benefício do Estado e outra anexada ao império, a qual, depois, era dada por arrendamento ou a aluguel aos cidadãos pobres que não tinham herança, pagando uma pequena taxa todos os anos; mas os ricos começaram a aumentar a taxa e assim os pobres ficavam privados das terras; foi então feita uma lei que não permitia ao cidadão romano ter mais de cinco jeiras de terra. Esta lei refreou um pouco a ambição dos ricos e ajudou os pobres que moravam nas terras que tinham arrendado do governo e viviam do que eles ou seus antepassados possuíam desde o princípio: mais tarde, porém, seus vizinhos ricos com o nome de pessoas falsas encontraram meios de transferir para eles os arrendamentos, e por fim, abertamente, apoderaram-se eles mesmos em seu nome da maior parte, de maneira que os pobres, despojados delas, não iam mais de boamente para a guerra, nem se incomodavam em criar ou educar seus filhos, de tal modo que, em pouco tempo a Itália ficou despovoada de homens livres e repleta de bárbaros e de escravos, que os ricos mandavam cultivar as terras, das quais haviam expulsado os cidadãos romanos: a estes inconvenientes Caio Lélio procurou remediar; este era amigo de Cipião, mas como o grosso da cidade lhe fosse contrário, temendo rebentasse uma guerra civil, ele desistiu: e por esse motivo foi chamado de sábio ou sensato; parece que essa palavra, sábio, significa uma e outra coisas.

XI. Tibério procura entregar essas terras aos cidadãos pobres

XI. Todavia Tibério, logo que foi eleito tribuno do povo1395, se pôs a executar imediatamente a sugestão, como a maior parte dos historiadores escreve, do retórico Diófanes e do filósofo Blossio, que o induziram a fazê-lo; Diófanes tinha sido exilado da cidade de Mitilene e Blossio nativo da Itália, da cidade de Cumes, tinha sido discípulo e familiar de Antípater de Tarso em Roma, onde1396 ele lhe fez a honra de dedicar-lhe algumas das suas obras de filosofia. Outros acusam sua mãe Cornélia, a qual os recriminava de que os romanos ainda a chamavam de sogra de Cipião, não de mãe dos Gracos. Outros dizem ainda que foi um certo Espúrio Postumio, companheiro de Tibério, o seu competidor na glória da eloquência: porque Tibério à sua volta da guerra, encontrando-o assaz elevado em honra e fama, muito estimado por todos, quis suplantá-lo, tentando esta ousada empresa, que ao mesmo tempo despertava grande interesse. Seu irmão Caio, em um livro, escreveu que quando ele ia para a guerra em Numância, passando pela Toscana, encontrou o país quase deserto; os que lavravam a terra ou custodiavam o gado na maior parte eram escravos bárbaros, vindo de terras estrangeiras: por essa razão ele determinou levar a cabo essa obra que aliás foi causa de infinitos dissabores para sua pátria: mas, como se diz, foi o mesmo povo que lhe inflamou o desejo da cobiça e da ambição e apressou a sua deliberação, convidando-o a lá entrar, por meios dos cartazes que se encontravam por toda a parte, sobre os muros, nos pórticos e nas sepulturas, nos quais se pedia que ele desse aos cidadãos romanos pobres as terras pertencentes ao governo.

XII. Sabedoria dessa lei

XII. Todavia, ele não fez o edito só de sua cabeça, mas com o concurso do conselho dos primeiros homens da cidade em virtude e em fama, dentre os quais estava Crasso, o soberano pontífice, Múcio Cévola, o Jurisconsulto, que então era cônsul1397, Ápio Cláudio, seu sogro: parece que jamais se fez uma lei tão suave e tão benigna, como aquela, que ele propôs contra tão grande injustiça e avareza; todos deviam ser punidos por terem desobedecido às leis e a eles se devia privar das terras que ocupavam contra as determinações expressas de Roma e fazê-los ainda pagar a multa; mas ele quis que fossem eles reembolsados pelo governo, da quantia que as terras ocupadas podiam valer e que fossem elas restituídas aos burgueses pobres que nada possuíam e que tinham necessidade de auxílio para viver.

XIII. Discurso com o qual a apoia

XIII. E embora a reforma que seu edito introduzia fosse espontânea, o povo no entretanto alegrava-se, esquecendo o passado, de que no futuro, pelo menos, não lhe façam mais injustiças; mas os ricos e os que possuíam vultosas heranças odiavam o edito, por causa da sua avareza e por despeito e teimosia em não querer ceder; desejavam mesmo a morte àquele que o tinha proposto, procurando desgostar o povo, dizendo que Tibério introduzia uma nova divisão nas heranças para desorganizar o governo e para provocar confusão e desordem: mas eles nada ganhavam, porque Tibério, defendendo esta causa, que por si mesma era boa e justa, com uma eloquência que teria podido provar e justificar uma má, era invencível e não havia quem o pudesse refutar nem contradizer, quando ele discorria em favor dos cidadãos pobres romanos, pois todo o povo estava postado diante da tribuna. "Que os animais selvagens que viviam por toda a Itália tinham pelo menos suas tocas, seus covis e as cavernas onde se abrigavam; os homens, que por ela combatiam e morriam, nada tinham, a não ser o ar e a luz, mas eram obrigados a andar errantes cá e lá, com suas mulheres e filhos sem um lar, sem uma casa onde pudessem viver; de sorte que os comandantes (dizia ele), mentem ordinariamente, quando, para encorajar os soldados, os exortam a combater valentemente pelas suas sepulturas, templos e altares e de seus predecessores: não há um só de tantos burgueses romanos pobres que possa mostrar um altar doméstico, uma sepultura dos seus antepassados; vão os pobres homens à guerra combater e morrer para os prazeres, a riqueza e a superfluidade de outros; falsamente são chamados de senhores e dominadores do mundo, quando na verdade não têm uma só polegada de terra que lhes pertença".

XIV. O tribuno Otávio opõe-se à lei de Tibério

XIV. Estas palavras e outras semelhantes, pronunciadas com gravidade e com verdadeira compunção, de tal sorte comoviam o povo e o incitavam que nenhum dos adversários ousava contradizê-lo: por isso, evitando discutir e refutá-lo, pela razão, eles se voltaram para Marco Otávio, um dos companheiros de Tibério no cargo de tribuno do povo. Era um jovem sensato, ponderado e calmo por natureza, amigo familiar de Tibério; da primeira vez que a ele se dirigiram, para fazê-lo opor-se à aprovação e à confirmação deste edito, ele desculpou-se, em consideração à amizade e à familiaridade que tinha com Tibério. Mas por fim, forçado pela insistência e pela autoridade de tão conspícuos personagens, que o importunavam, ele se opôs a Tibério, contrariando a sua ordem; isso bastava para destruí-la; porque era suficiente que um tribuno a vetasse e contradissesse ainda que todos os outros a aprovassem, para prevalecer e todos os outros juntos, nada podiam fazer, quando havia um só que se opunha.

XV. Tibério propõe uma nova lei, para obrigar a todos os que possuíam mais terras do que as antigas leis permitiam, a deixá-las

XV. Com isso Tibério ficou muito irritado e desistiu de propor esta primeira lei; mas, por despeito, propôs outra ainda mais agradável ao povo e mais severa para com os ricos, pela qual queria que os possuidores de terras, em medida maior do que o permitiam as leis, fossem obrigados a desfazer-se delas, imediatamente; a esse propósito, todos os dias, ordinariamente havia grandes discussões na hora dos discursos, contra Otávio; embora ambos usassem de palavras ardentes e violentas, com persistência e obstinação extrema, jamais proferiram, um contra o outro, palavras injuriosas, nem jamais lhes escapou manifestação alguma de cólera, nem uma palavra que ferisse a honra do companheiro: por onde se depreende que a boa origem e a boa educação moderam e dirigem a razão do homem, não somente nas coisas agradáveis, impedindo-o de ultrapassar os limites da honra, em ações e em palavras, mas também da cólera, e dos mais ardentes anseios de ambição e de vanglória.

XVI. Outra lei de Tibério que suspendia todos os magistrados de suas funções, até que a sua lei fosse aprovada ou rejeitada

XVI. Vendo, Tibério, que sua lei atingia também a Otávio, dentre tantos outros, porque ele possuía muitas terras, rogou-lhe à parte, que não mais se opusesse a ele, prometendo dar-lhe do seu próprio dinheiro, uma quantia igual ao valor das terras, que ele seria obrigado a entregar, embora ele também não fosse dos mais ricos: mas Otávio não quis atender aos seus rogos; ele propôs, então, outro edito, pelo qual todos os magistrados perdiam sua jurisdição e todo o exercício de seu cargo, até que sua lei fosse aprovada ou reprovada pelo voto do povo: ele mesmo selou com suas próprias mãos as portas do templo de Saturno, onde estavam os cofres do tesouro, a fim de que os questores ou tesoureiros durante esse tempo nada pudessem nem depositar, nem retirar, impondo grandes multas aos pretores e aos outros magistrados que tinham jurisdição ordinária e transgredissem de algum modo o seu edito; de maneira que todos os oficiais, temendo incorrer nessa pena, deixaram o exercício do próprio cargo. Por esse motivo, os ricos que tinham grande número de propriedades mudaram de vestes, andavam pelas ruas de rosto acabrunhado, tristes e procuravam secretamente surpreendê-lo, tendo mesmo encarregado alguns homens de o matar: por isso, ele, com o conhecimento de todos, trazia por baixo da túnica uma espada curta, das que usam os ladrões e salteadores e à qual os latinos chamam propriamente de dolon. Quando o dia marcado para a aprovação e publicação do edito chegou, Tibério reuniu o povo, para dar o voto, os ricos apoderaram-se à força das urnas onde se deporiam as cédulas; surgiu então o perigo de se originar uma grande amotinação e grave conflito; Tibério era o mais forte, em número de homens, que já se haviam reunido junto dele; se Mânlio e Fúlvio, homens ilustres por sua posição, como cônsules não lhe tivessem pedido, de mãos postas e com lágrimas nos olhos e não tivessem rogado que desistisse do seu intento, teria havido um conflito dos mais sérios. Tibério, quer porque era realmente grande o perigo de perturbação, quer pela consideração que tinha para com esses dois notáveis personagens, conteve-se um pouco, perguntando-lhes então que queriam que ele fizesse; responderam-lhe que não eram competentes para aconselhá-lo em assunto de tanta importância, mas que colocasse a decisão à deliberação ‘do Senado, o que ele fez, no mesmo instante.

XVII. Decide depor Otávio do tribunado

XVII. Mas, depois, vendo que o Senado reunido nada concluía, porque lá os ricos tinham muita autoridade, resolveu fazer outra coisa, que não era nem honesta, nem legítima, isto é, depor Otávio e privá-lo do cargo, pois sabia muito bem que jamais ele faria aprovar e autorizar o seu decreto: mas, antes de fazê-lo, pediu-lhe publicamente, diante de todo o povo, com palavras mui afáveis, tocando-lhe a mão, que desistisse da sua oposição e fizesse esse favor ao povo, que o pedia como coisa justa e razoável e lhe pedia essa recompensa bem pequena, em vez de tantas tribulações e trabalhos, que ele suportava pelo bem do Estado. Otávio rejeitou todos os seus pedidos; então Tibério disse, bem alto, que sendo ambos magistrados de igual dignidade e autoridade e de igual poder, contrários um ao outro, em coisa de tão grande importância, era impossível que aquela divergência não viesse a terminar numa guerra civil e que não havia outro remédio para tal inconveniente, a não ser a deposição de um dos dois do próprio cargo; disse a Otávio que se apresentasse, por primeiro; ele deixaria de boamente do tribunal e voltaria à vida particular, se assim aprouvesse ao povo.

Otávio nada quis fazer e Tibério, então, replicou que o fana, se ele não mudasse de opinião, depois de ter tido tempo de pensar; e assim, naquele dia, suspendeu a assembleia. No dia seguinte, reuniu-se novamente o povo; Tibério subiu à tribuna, tentou ainda persuadir Otávio que desistisse: mas, vendo que não o conseguia de modo algum, pôs o assunto à votação do povo, se ele queria que Otávio fosse deposto do cargo. Havia trinta e cinco fileiras de eleitores das quais dezessete já tinham anunciado seu voto contra ele; só faltava uma, para fazê-lo ser destituído: por isso, nesse momento, ele mandou suspender a votação e suplicou novamente a Otávio, abraçando-o diante do povo, insistindo, dizendo que bem sabia que ele não queria que por sua teimosia ele passasse pela vergonha de ser publicamente privado do cargo, nem a ele se pudesse recriminar ter sido ministro de tal ato. Diz-se que nesse momento Otávio mostrou-se bastante comovido por seus rogos e tendo lágrimas nos olhos, ficou muito tempo sem responder: mas quando se voltou para os ricos possuidores de terras, que estavam reunidos num grupo bastante grande, ele teve, penso eu, vergonha e medo de ser mal visto por eles e de lhes perder a estima, e preferiu receber generosamente a sua destituição, dizendo a Tibério que fizesse o que quisesse. Foi assim a sua destituição aprovada e autorizada pelos votos do povo; Tibério ordenou a um dos servos libertos, que o fizesse sair da tribuna dos oradores e o levassse, pois ele se servia de seus libertos em vez de guardas. Isso tornou aquele ato ainda mais triste: ver se retirar Otávio tão ignominiosamente, à força; e o que ainda é pior, o povo quis agredi-lo, mas os ricos correram em seu auxílio e impediram que o maltratassem; ele salvou-se fugindo rapidamente sozinho, esquivando-se ao furor do povo: um seu fiel servidor que se lhe pusera na frente, para defendê-lo, teve os olhos vazados, contra a vontade de Tibério, que correu para junto dele, às pressas, quando ouviu o rumor e a algazarra.

XVIII. A lei de Tibério para a redução das terras é aceita

XVIII. Depois disso, o edito relativo às terras do governo passou e foi confirmado; elegeram-se três comissários para fazer a inquirição e a distribuição. Os comissários foram Tibério, Ápio Cláudio, seu sogro, e Caio Graco, seu irmão, que então não se encontrava em Roma mas no campo de batalha, na cidade de Numância, sob o comando de Cipião, o Africano. Tudo isso se fez pacificamente; Tibério não encontrou quem lhe fizesse a menor objeção e o que é mais, ele substituiu Otávio, não por um homem de classe, mas por um de seus dependentes de nome Múcio, pelo que os ricos e os nobres ficaram sumamente indignados, temendo sua ascensão contínua e fazendo perante o Senado tudo o que podiam para mostrar-lhe seu despeito e para rebaixá-lo; ele havia pedido que lhe dessem uma tenda, por conta do governo, para quando ele partisse para o campo a fim de proceder à divisão das terras, como se fazia com os outros encarregados de trabalhos bem menores e menos importantes. Recusaram-na, unanimemente, e como seu salário diário concederam-lhe nove óbolos1398, por proposta de Públio Nasica que também se declarou seu inimigo acérrimo, porque possuía grandes extensões de terras públicas e estava muito aborrecido por se ver obrigado a entregá-las.

XIX. Ele põe sua mulher e seus filhos sob a proteção do povo

XIX. O povo continuava mais e mais a se irritar e se indispor contra os ricos, de tal modo que, tendo morrido repentinamente um amigo de Tibério, sobre cujo corpo logo depois da morte, apareceram maus sinais, o povo acorreu ao seu sepultamento, clamando bem alto que o haviam envenenado; e carregaram-lhe o esquife às costas e assistiram a cremação do falecido, no qual realmente se observaram alguns indícios estranhos que fizeram pensar que não era fora de propósito, presumir-se que ele fora envenenado, porque o corpo partiu-se e dele saiu grande quantidade de humores corrompidos que apagaram o fogo, de modo que foi preciso trazer outro, o qua l, porém, também não se acendeu: foram então obrigados a levar o corpo a outro lugar, onde o queimaram com dificuldades. Vendo isso, Tibério, para ainda mais alvoroçar o povo, vestiu-se de luto e trazendo a público seus filhos, suplicou ao povo que cuidasse deles e de sua mãe, como já tendo pouca esperança de poder conservar sua vida.

XX. Propõe uma nova lei para ordenar a divisão entre os cidadãos pobres do dinheiro que provinha da venda da herança de Átalo

XX. Por esse meio tempo morreu Átalo, cognominado Filopater 1399, e Edemo de Pérgamo, levou seu testamento a Roma, com o qual ele instituía o povo romano seu herdeiro. Por isso Tibério, para ainda mais c air nas boas graças do povo, publicou imediatamente um edito, pelo qual o dinheiro que provinha da herança desse rei, seria distribuído entre os cidadãos pobres, que já haviam recebido sua parte na divisão das terras, a fim de que pudessem prover-se do necessário para cultivá-la e fazê-la produzir. Por fim, quanto às cidades que estavam no reino de Átalo, ele disse que não competia ao Senado dar ordens e o mesmo povo é que devia dispor delas; ele mesmo o proporia. Isto foi motivo de que o odiassem ainda mais no Senado; um senador de nome Pompeu, levantando-se, disse que ele era vizinho de Tibério e que por isso sabia que o pergamemano Tibério lhe havia dado um dos diademas do rei Átalo com um manto de púrpura, significando que ele um dia deveria ser rei de Roma; Quinto Mételo censurou-o, porque, quando seu pai era censor, os romanos, tendo ceado na cidade voltando depois para a própria casa, apagavam as tochas e archotes, de modo que parecesse, se os vissem voltar, que eles haviam permanecido até muito tarde em banquetes, quando, ao invés, os mais sediciosos e os mais indigentes do povo instruíam ao seu filho e faziam-lhe companhia quando ele andava pela cidade, à noite.

XXI. Questão embaraçosa que lhe move Tito Ânio

XXI. Havia um certo Tito Anio, homem que não era nem bom, nem honesto, mas tido por grande argumentador e insuperável na arte de interrogar com sutileza e a responder com cautela: tal indivíduo desafiou Tibério a provar que não havia taxado de infâmia, a um seu companheiro, em um cargo, que pelas leis romanas devia ser santo e absolutamente inviolável. O povo tomou esta provocação como uma ofensa e Tibério mesmo apresentou-se diante da multidão que mandara reunir, e ordenou que lhe trouxessem Amo, ao qual queria mover imediatamente um processo; este, porém, sentindo-se inferior, de muito, a Tibério, em dignidade e eloquência, recorreu a uma das suas muitas sutilezas, isto é, de interrogar com astúcia a alguém para apanhá-lo na própria palavra; rogou a Tibério que, antes de entrar na acusação, lhe respondesse a uma única pergunta que lhe queria fazer. Tibério permitiu-lhe perguntar o que quisesse; fez-se silêncio e Amo disse: "Se me quisesses difamar e injuriar e eu chamasse um de teus companheiros em meu auxílio, o qual se levantasse para me socorrer e tu ficasses com isso despeitado, poderias por esse motivo privá-lo do magistrado?" Diz-se que Tibério ante essa pergunta ficou tão confuso que, embora fosse um dos mais prontos para falar e dos mais firmes na oratória, no seu tempo, no entretanto, permaneceu calado sem poder responder e por isso dissolveu imediatamente a assembleia.

XXII. Discurso de Tibério para justificar a deposição de Otávio

XXII. Sabendo ao depois, que, de todos os seus atos, a deposição de Otávio parecia, não somente aos nobres, mas também ao povo, fruto de uma paixão, assaz desviada da razão, porque parecia que ele tinha abatido e aviltado a dignidade dos tribunos do povo, que até aquele tempo tinha sempre sido considerada como grande e honrosa, para se justificar, fez um discurso ao povo, do qual será muito útil citarmos alguns trechos neste ponto, a fim de que se possa julgar da força, riqueza e energia de sua eloquência. Ele disse: "O tribunado era verdadeiramente sagrado, santo e inviolável, porque particularmente devotado à proteção do povo e criado para proporcionar-lhe todo o bem possível; mas, se ao contrário, constata-se que ele causa prejuízo ao povo, faz-lhe injustiça, diminui seu poder e tira-lhe os meios de declarar sua vontade por meio dos votos, então ele priva-se por si mesmo dos privilégios e das prerrogativas do seu cargo, não realizando aquilo para que tais prerrogativas lhe foram concedidas: do contrário, seria preciso então permitir que um tribuno, se lhe parecesse bem, demolisse o Capitólio e pusesse fogo no arsenal; e todavia, quando mesmo ele cometesse tais excessos, seria ainda tribuno do povo, pelo menos, mau: mas quando ele procura tirar a autoridade e o poder do povo, então ele não é mais de modo algum tribuno. Não seria, portanto, coisa absolutamente fora da razão, que o tribuno pudesse levar para a prisão, quantas vezes lhe parecesse bem, um cônsul e que o povo não pudesse tirar ao tribuno o poder que lhe dá o cargo, quando dele quisesse usar em detrimento daquele que lho deu? Pois é o povo que elege tanto o cônsul como o tribuno. Além disso, a dignidade real, porque compreende soberanamente em si a autoridade e o poder de todas as espécies de cargos juntamente, é consagrada com grandes e mui santas cerimônias, como mui próxima da divindade; no entretanto, o povo expulsou o rei Tarquinio, porque ele usava violentamente da sua autoridade e pela injustiça de um só homem, o cargo mais antigo e aquele que havia fundado Roma, foram eliminados. Que há em toda cidade de Roma, mais santo e mais venerável do que as religiosas Vestais, que têm o encargo de conservar e manter o fogo eterno? Todavia, se alguma delas cometer algum erro contra a própria honra, deverá ser sepultada viva; e quando elas erram para com os deuses, perdem todas as regalias de que gozam, pela reverência ao serviço dos deuses. Também não é razoável que ele gozo da imunidade que tem para defender o povo quando ele mesmo o ofende; pois ele quer abolir o poder do qual tem o seu próprio. Se ele foi eleito tribuno porque a maior parte dos eleitores do povo o escolheu, não é justo que seja privado do cargo se todos os eleitores unanimemente o declararam indigno e o destituíram? Nada há tão santo e inviolável como as coisas oferecidas, doadas e consagradas aos deuses: todavia, jamais houve alguém que proibiu ao povo servir-se delas, modificá-las e transportá-las de um lugar a outro todas as vezes que lhe aprouve fazê-lo; assim, lhe foi facultado transferir o tribunado, como uma dádiva consagrada, para um outro. Além disso, que não há um magistrado que não possa ser legitimamente deposto do cargo, deduz-se, de que muitas vezes vimos que aqueles mesmos que os tinham, os deixaram ou pediram que deles os dispensassem". Eis os principais motivos e razões da justificativa de Tibério.

XXIII. Outras leis propostas por Tibério

XXIII. Seus amigos, vendo as ameaças e os manejos que os ricos e os nobres faziam contra ele, foram de opinião que ele devia, para segurança de sua pessoa, continuar num segundo tribunado, para o ano seguinte; então ele começou a agradar o povo, cada vez mais, com os novos editos que propunha, pelos quais diminuía o tempo e o número de anos, quando o cidadão romano era obrigado a ir para a guerra, se chamado e seu nome estava incluído no alistamento. Dava permissão para se apelar da sentença de todos os juízes diante do povo e incluía no número dos senadores, os quais somente tinham a prerrogativa e a autoridade de julgar, um número igual de cavaleiros romanos e assim, de vários modos, ia enfraquecendo e diminuindo a autoridade do Senado e aumentando a do povo, mais por teimosia do que por achar que era coira justa ou proveitosa para o Estado. Ainda mais: quando começaram a recolher os votos e sufrágios do povo, para a autorização de seus novos editos, sentindo que seus adversários eram os mais fortes, na assembleia, porque o povo ainda não estava todo reunido, ele começou a repreender e a injuriar seus amigos, para ganhar tempo e por fim dissolveu a reunião, ordenando que voltassem no dia seguinte, quando ele por primeiro chegou à praça, trajado de luto, muito aflito e de rosto compungido, suplicando ao povo que tivesse piedade dele, pois dizia ter medo de que seus inimigos viessem de noite forçar ou destruir seu lar para matá-lo. Estas palavras comoveram de tal modo a todos, que vários levantaram tendas nos arredores de sua casa e montaram guarda ali durante toda a noite.

XXIV. Presságios funestos para Tibério

XXIV. Ao despontar do dia, o homem que cuidava das aves, que serviam para as predições do futuro, levou-lhes a ração diária do seu alimento, mas elas não quiseram sair de seus abrigos, exceto uma, e esta mesmo depois de ter sido forçada a isso, mas não quis tocar no alimento que lhe era apresentado, mas somente levantou a asa esquerda e estendeu a perna e depois voltou para dentro do viveiro. Este presságio fez Tibério lembrar-se de um outro, anterior: ele tinha um capacete que usava na guerra muito belo e bem feito; dentro dele esconderam-se duas cobras, sem que ele o percebesse; lá puseram elas dois ovos e os chocaram; Tibério admirou-se ainda mais com o sinistro presságio das aves: no entretanto, saiu de casa quando soube que o povo estava já todo reunido diante do Capitólio, mas ao sair, deu tamanho golpe com a ponta do pé numa pedra da soleira, que o sangue chegou a manchar seu sapato e logo adiante apareceram-lhe dois corvos, brigando um com o outro, sobre o telhado de uma casa à esquerda; passando por ali grande multidão de povo, uma pedra impelida por um dos corvos, caiu aos pés de Tibério. Isso fez parar e pensar, mesmo os mais corajosos que ali estavam junto dele.

XXV. Blossio o encoraja

XXV. Blossio de Cumes que o acompanhava, disse-lhe que seria grande vergonha para ele e bastaria para fazer seus partidários perder toda a confiança nele, se o filho de Graco, sobrinho de Cipião, o Africano, chefe do partido do povo romano1400, por medo de um corvo deixasse de obedecer aos cidadãos que o chamavam; que seus adversários e inimigos receberiam essa falta com zombarias, e diriam ao povo que aquilo era já golpe de tirano, que por arrogância e desprezo abusava da sua condescendência. Além disso vieram vários mensageiros, que seus amigos, os quais já estavam no Capitólio lhe mandavam, pedindo-lhe que se apressasse e que todos lá estavam do seu lado; assim sua chegada foi mui honrosa; quando o povo o percebeu de longe, soltou um grito de alegria, pela sua vinda e o recebeu, quando chegou, com grandes demonstrações de carinho e de grande afeto, evitando que alguém se aproximasse dele, se não fosse bem conhecido. Múcio começou a reunir os votantes e a pô-los em fileiras, para se proceder à votação; mas não se pôde fazer como de costume, por causa do grande vozerio que suscitavam os que estavam mais afastados empurrando e sendo empurrados, esforçavam-se por chegar mais perto, forçando a passagem e rompendo a multidão.

XXVI. Fúlvio Placo vem avisá-lo de que no Senado se havia tomado a deliberação de matá-lo

XXVI. Nesse ínterim, Flávio1401 Flaco, um dos senadores, subiu a um lugar de onde todo o povo podia vê-lo e percebendo que sua voz não podia chegar aos ouvidos de Tibério, fez-lhe sinal com a mão de que tinha algo de muito importante para lhe dizer. Tibério ordenou imediatamente que lhe abrissem caminho e Flávio com muita dificuldade aproximou-se dele; disse-lhe, que, em pleno Senado, os mais ricos e os mais influentes da cidade, não tendo podido induzir o cônsul ao seu partido, tinham deliberado matá-lo e para isso haviam reunido grande número de seguidores e amigos, bem como de servos armados. Tibério imediatamente revelou essa conspiração aos seus amigos e companheiros, que levantaram logo suas longas vestes, e quebraram as flechas que os guardas tinham nas mãos, para fazer o povo retirar-se e das quais tomaram os pedaços para atacá-los e para atacar os que os assaltassem e os que estavam mais longe se admiravam e perguntavam o que era aquilo. Tibério, para mostrar-lhes com sinais, o perigo em que se encontrava, tocava na cabeça com ambas as mãos, porque pelo grande barulho não se lhe podia ouvir a voz.

XXVII. Nasica sai do Senado para ir matar Tibério

XXVII. Seus adversários, porém, viram esse sinal e correram logo ao Senado para dizer que Tibério pedia ao povo um diadema real, porque o tinham visto tocar na cabeça com ambas as mãos. Tal notícia despertou grande confusão e perturbação em todos e Nasica disse ao cônsul presidente do Senado que ele queria salvar o governo e eliminar aquele que queria se fazer tirano. O cônsul respondeu-lhe afavelmente, que não começasse a usar da força ou de golpes perigos os e não fizesse morrer cidadão algum que antes não fosse julgado e condenado; mas, se o povo, seduzido ou forçado por Tibério, fizesse algo contrário às leis, que ele não o receberia nem o impediria. Nasica então levantou-se encolerizado e disse: "Pois então, se o supremo magistrado não se importa de socorrer o Estado, aqueles que querem conservar a autoridade das leis que me sigam". Ditas estas palavras, atirou a dobra do manto sobre a cabeça e partiu diretamente para o Capitólio; os que o seguiram enrolaram a túnica em volta do braço, empurrando e afastando do caminho os que encontravam, embora poucos se atrevessem a lhes fazer frente, para detê-los, porque eram os mais dignos e os mais notáveis da cidade: todos, ao invés, fugiam à sua passagem, tropeçando mesmo pela pressa, pisavam uns nos outros. Os que os seguiam haviam trazido de casa grandes alavancas e cacetes, apanhavam achas de lenha, pernas de mesas e de cadeiras, que a multidão, fugindo, lançava por terra e quebrava; caminhavam apressadamente para onde julgavam encontrar Tibério, batendo nos que encontravam pelo caminho, de modo que em poucas horas fizeram debandar todo o povo e houve mesmo vários mortos naquela fuga.

XXVIII. Morte de Tibério

XXVIII. Tibério, vendo isso, procurou salvar-se escapando, mas quando fugia, alguém o agarrou pela ponta da túnica, para detê-lo; ele, porém, deixou-a nas mãos do outro e fugiu sem ela; correndo, tropeçou e caiu por cima de um terceiro que estava caído diante dele; ao levantar-se o primeiro que o agarrara, ao que parece, era um dos seus companheiros no tribunado Públio Satureio, o qual lhe deu um golpe com um pé de cadeira na cabeça; o segundo golpe que ele recebeu, foi desferido por Lúcio Rufo, que disso se vangloriava, como se tivesse realizado um feito de valor. Morreram nesse tumulto mais de trezentas pessoas, todas atacadas a pauladas e pedradas, não havendo um só que fosse morto por arma branca.

Foi a primeira rebelião entre os cidadãos de Roma, resolvida com mortes e efusão de sangue, desde que os reis haviam sido exilados; todas as outras dissensões de antes, que haviam sido outrossim grandes e graves, tinham sido, porém, pacificadas moderadamente, pois os partidos cediam um ao outro, o Senado, por medo do povo e o povo, por reverência ao Senado; parece que Tibério mesmo teria cedido com facilidade, tivessem eles procedido amigavelmente, por via de persuasão; teria ele cedido antes ainda quando mesmo tivessem agido por vias de fato, sem, porém, atacar nem fugir a ninguém, pois não havia então junto dele mais de três mil homens do povo.

XXIX. Seu corpo é lançado no Tibre

XXIX. Parece que esta conspiração foi tramada contra ele mais por ódio e raiva que os ricos lhe votavam do que por outros motivos, que imaginavam e inventavam contra ele; como prova, podemos apresentar a crueldade e a desumanidade de que eles usaram contra seu corpo, depois de morto; jamais permitiram a seu irmão, que o havia pedido, que o levasse para sepultá-lo, à noite, mas o lançaram com os outros mortos no rio; ainda não foi tudo: expulsaram alguns dos seus amigos sem ter formado o processo, e mandaram matar os outros que lhes caíram nas mãos, dentre os quais o retórico Diófanes e Caio Bilio que eles meteram num tonel com serpentes e víboras e assim os fizeram morrer. Blossio de Cumes foi levado à presença dos cônsules que o interrogaram sobre o que havia acontecido; ele confessou francamente que tinha executado tudo o que Tibério lhe havia ordenado. Como Nasica lhe perguntasse: "Que farias se ele te tivesse mandado atear fogo no Capitólio?" ele respondeu: "Que Tibério jamais lhe daria semelhante ordem". E como vários outros insistissem perguntando-lhe: "Mas se ele te tivesse ordenado?", ele respondeu: "Eu o teria feito, pois ele não o teria ordenado, se isso não fosse útil para o povo". No entretanto ele salvou-se no momento; depois, fugiu para a Ásia, para junto de Aristonico, cujo reino estava completamente arrumado e por isso ele suicidou-se.

XXX. Nasica é obrigado a sair de Roma: morre em Pérgamo

XXX. Por fim, o Senado, para contentar e apaziguar o povo pelo que acabava de suceder, não se opôs mais à divisão das terras; permitiu que fosse nomeado outro comissário, no lugar de Tibério. Foi escolhido Públio Crasso que era seu aliado, porque sua filha Licínia era casada com Caio Graco, embora Cornélio Nepos diga que não foi a filha de Crasso que Caio desposou, mas a de Bruto, que venceu os lusitanos1402: todavia a maior parte dos historiadores escreve do mesmo modo como nós o fizemos. Mas, como quer que fosse, o povo ficou muito descontente com a sua morte e via-se evidentemente que ele aguardava apenas a ocasião para se vingar e já ameaçava a Nasica de citá-lo em juízo. Por isso, o Senado1403 temendo que assim se fizesse, determinou, sem que houvesse necessidade, que ele partisse para a Ásia, porque o povo não dissimulava sua malquerença quando o encontrava, mas irritava-se asperamente contra ele, chamando-o de tirano e assassino, excomungado e maldito, por ter manchado suas mãos no sangue de um magistrado sagrado e dentro do templo mais santo, mais venerável e mais devoto que havia na cidade, de tal modo que ele foi obrigado, por fim a sair da cidade: embora pelos deveres do seu cargo ele fosse obrigado a fazer os maiores e os principais sacrifícios, por ser soberano pontífice: saindo de sua pátria, andava errante, sem honra, em grande tribulação e até mesmo perturbação mental; morreu pouco depois não longe da cidade de Pérgamo.

XXXI. Ressentimento do povo contra Cipião, o Africano

XXXI. Não nos devemos admirar se o povo odiava tanto a Nasica, pois, o mesmo Cipião, o Africano, que o povo romano tinha amado mais que a qualquer outro, e com muita razão, perdeu todo o amor e afeto que este lhe devotava, porque no cerco de Numância, quando soube da morte de Tibério, declamou bem alto estes versos de Homero:

1404Que de hoje em diante possa acontecer outro [tanto a todo aquele que quiser semelhante empresa realizar.

Quando em plena assembleia do povo ele foi interrogado por Caio e por Fúlvio sobre o que pensava da morte de Tibério, respondeu de modo que dava a entender que as obras do falecido não lhe agradavam: depois disso, o povo o tratou asperamente; interrompeu-lhe o fio do discurso quando ele falava, o que nunca antes lhe havia feito; ele também deixou-se tanto levar pela cólera, que disse palavras injuriosas ao mesmo povo1405.

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